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A razão e a loucura numa manhã qualquer



Eu sonhei naquela noite que era uma arvore. Com as minhas raízes profundas e meu tronco grosso eu estava sozinho ali naquele campo. O vento, quando vinha, atingia meus ramos em cheio. Então uma nuvem ganhou formato de rosto e riu de mim. Olhei pra baixo, mesmo na ausência de olhos, e percebi uma florzinha. Lembrei dela como se sempre soubesse de sua existência, como se estivesse gravada na minha alma de tal forma que a conhecia totalmente. Quando eu a vi balançando com a brisa, por mais que não pudesse explicar, lembrei-me de sua essência e pude ver todo o seu ser.
Mas a risada voltou, e com ela veio uma ventania. Eu vi as pétalas dele voarem uma por uma até ela ficar como um graveto. Ela foi arrastada e eu nada podia fazer. Eu nem podia me mover. Aquilo virou um tornado e eu senti minhas raízes se desprendendo do chão. Tudo girou e eu voei.
Acordei na cama como num pulo. Havia uma mulher nua olhando pra mim.

- Pesadelo, querido? – perguntou ela
- Não sei dizer. O que você faz aqui? – disse eu
- Bebeu demais, e não lembra de mim. Imaginei. – disse ela num tom sarcástico desapontado
- Não me esqueci de você, Julia. Apenas lembro-me de você dizer que eu acordaria sozinho. Acontece que eu acordo meio atordoado e vou relembrando as coisas com lentidão quando bebo.
- De lembranças é o que preciso. Você estava por me dizer uma coisa ontem á noite, mas adormeceu e eu não pude te acordar pra ouvir.
- Não me lembro. Diz o que você falava antes de mim.
- Eu falava do meu marido e de sua maldita mania de honra. Falava que acho que não sirvo pra casar.
- hehehehe... Já sei o que eu iria falar.
- E o que era?
- Em primeiro lugar, que fique claro que seu marido é um idiota. Ele serve um imperador corrupto e sanguinário e possui fé numa mentira irracional propagada através das trevas de sua ignorância. Mas isso você já sabe.
- E o que mais?
- Isso de casar... Eu cheguei aqui alguns meses antes do seu casamento e tivemos algo como um caso, mas só com nossos olhares. Você nunca precisou dizer muito: estava escrito nos seus gestos, no seu jeito de falar, de olhar. Você não é pra casar.
- Nossa, falando assim você parece me desavalorizar!
- Pro diabo! Desvalorizar nunca! Acontece que você ama demais pra se apegar!
- Não entendi. Eu não sou nenhuma madre Teresa não, viu?
- Eu não tenho o costume de falar do que não sei, então não falo dessa Teresa e nem da forma como ela ama. O amor de que falo aqui é bem carnal.
- Ah, que ótimo! Está me chamando de vadia!
- Esse nome é baseado numa linguagem que não reconheço. Pra mim, seu espírito é demasiadamente leva e seu amor é perigosamente genuíno. É por isso que você não respeita as regras: porque você ama, e o amor não respeita nenhuma regra. Você não precisa dizer, Julia. Eu vejo nos seus olhos que você ama certo sujeito aí da vila. Particularmente, nunca me interessou. Ao menos tem hábitos de higiene, coisa rara nesses tempos turbulentos.
- Assim tudo parece mais aceitável. Mas como viver como eu mereço como eu sou?
- Nesses tempos, onde você não é pessoa, mas ovelha, é difícil. Mas você é moça hábil e nós sabemos, então pode fazer dinheiro. Só não espere ser respeitada pelos adoradores das regras. Os membros do rebanho não gostam de ovelhas desgarradas, pois elas servem de lembrança de que há um mundo além das cercas.
- Que inferno! Se eu fosse rica, se eu fosse homem, poderia ser livre!
- Estamos no meio do nada, Julia. Podemos não estar bem situados no tempo, mas no espaço, isso com certeza. E você sabe que meu teto é seu, contanto que entenda que não é só seu.
- Que deus me livre de viver contigo! Você tem mania de banho, nunca organiza suas coisas, ronca como um lobo rosnando e nunca está satisfeito! – disse ela enumerando com os dedos.
- Calúnias, todas!
- Defenda-se, então!
- Em primeiro lugar, por mais que sabão seja uma coisa cara, por mais que venha de longe, sem ele nossos corpos fedem a merda. Nem imagino como você pode ter alguma coisa com seu marido com todo esse fedor. Por Deus, com uma armadura o dia inteiro debaixo do sol!
- Mas dizem que tomar banho todos os dias faz mal á saúde...
- Também dizem que mulheres voam com vassouras. As pessoas dizem muita idiotice.
- Tudo bem, dessa acusação você se safou, mas e as outras?

Eu parei, olhei pra ela e lhe dei um beijo lento, duradouro. Ela afastou meu rosto e me olhou com aquele olhar inquisidor, de quem não vai deixar passar. É a única pessoa que consegue fazer esse olhar e me agradar.

- Ta bem! Vamos lá, a próxima acusação era sobre minha organização, certo?
- Isso.
- Então, o que é a organização senão uma tentativa fútil do ser humano de controlar o incontrolável? Empilhar, criar categorias e divisões! Pro diabo com tudo isso!
- Isso não justifica nada. Tem dias que mal da pra andar nesse lugar!
- E não há um dia, no entanto, que você deixe de sorrir por isso quando entra aqui.
- Verdade. Eu te considero condenado, mas não precisa de punição além dos tombos que você já leva aqui quando bêbado.
- Fato. Meu pé dói desde não sei quando... mas então, do meu ronco e não tenho nenhuma evidência. Então é minha palavra contra a sua!
- Argumento desonesto. Pergunta á Gabriela, Joana ou quem sabe à Aline! Certamente ficarão do meu lado!
- Sério que você já ficou sabendo da Aline? Mulheres e a fofoca...
- Todos sabem das mulheres que você “desonra”!
- Enfim, o que você quis dizer com nunca estou satisfeito?
- Mesmo com todas as mulheres e mesmo com o vinho, você leva pelo menos uma hora antes de me deixar sair dessa cama!
- Ora... Como isso não é uma virtude? Não gosta de aproveitar o vigor da minha juventude?
- É que você parece estar procurando algo, sabe?
- Como assim?
- Você faz amor com a ânsia de quem corre numa jornada atrás de algo importante... Não sem explicar direito.

Naquele momento eu lembrei da florzinha despedaçada pelo vento, mas não a mencionei.

- O meu rumo é o seu prazer e nada mais! – disse sorrindo
- Fugindo de mim agora? – perguntou ela
- Não entendo.
- Quando tento mergulhar mais fundo na sua alma você foge do assunto assim.
- É que me ocorre uma florzinha, uma borboleta, um pequeno pedaço de algodão. Sempre sendo arrancado de mim violentamente. Isso me angustia, Julia.
- E o que isso significa?
- Meu passado, aquilo que me atormenta.
- Foi essa flor que foi arrancada de você que te manteve solteiro com todo esse dinheiro?
- Não. Ela sabia que minha natureza é volátil. Casado ou não, eu viveria dessa mesma maneira.
- O que aconteceu com ela, Leandro?
- O vento a levou... – disse antes de enfiar minha cabeça no cobertor.

Lágrimas escorreram pelo meu rosto enquanto Julia me acariciava a cabeça.

- Ele pode até tê-la levado pra longe dos seus olhos, mas não pra longe do seu coração. Eu nunca te vi tão triste assim...
- Ela vive em mim. Sempre viverá, mesmo depois da minha morte.
- A morte... Porventura o importante não está na vida aqui e agora?
- Ah sim. E sabe o que eu vejo agora?

Ela me olhou surpresa, como quem olha pra uma criança que fez besteira.

- Você acabou de se abrir pra mim e já vem me olhando com esse olhar de desejo!
- Sabe, eu estava lá no passado e você me trouxe pro presente. No presente eu vejo você e sinto desejo.
- Isso é loucura! Como você pode ser tão lascivo?
- Eu inventei um termo novo, que talvez em alguns séculos fique famoso. Sad fuck. É lenta, longa e banhada a lágrimas. Tive meus melhores orgasmos assim!
- Louco, fique longe de mim – disse ela rindo.

Mas eu a agarrei. Por uns segundos ela lutou e tentou se soltar, mas logo desistiu. Deitamos de lado e ela me deu as costas. Minhas mãos correram por todo o seu corpo enquanto minha boca marcava sua pele branca. Aqueles ombros, aquele pescoço. Sempre adorei beijá-los. Eu soltava o ar quente na nuca dela e a assistia se contorcer. Ela também sabia me agradar. Passava o braço por trás da minha cabeça e acariciava minha nuca.

- Louco...! – disse ela entre os suspiros

Eu meu soltei dela e desci minha boca até sua barriga. Ela sempre adorou que eu beijasse sua barriga enquanto lhe acariciava os peitos. Eram movimentos ensaiados, que nós tínhamos. Desci até os lábios dela. Úmidos, com cheiro de sexo. Provavelmente fizemos muito na noite anterior, mas não me lembro bem. Ela colocou as pernas em volta da minha cabeça e apertou. Adoro quando ela faz isso, embora não seja sempre. Como sei do ritmo dela, comecei bem devagar com a língua e com a ponta do dedo logo abaixo fazendo movimentos pra cima e pra baixo. Eu sorria por sentir a musculatura do abdome dela se retrair, por ouvir os suspiros. Conforme o ritmo com a língua aumentava e se diversificavam as formas de movimento, meu dedo ia se aprofundando. E com facilidade, se melando no interior dela.
Quando estou nessa situação eu perco a noção do tempo. Chego numa espécie de êxtase na ocasião de a mulher estar apreciando. Por isso não sei quanto tempo passou e nem me importo. Só sei que num momento meu dedo estava entrando e saindo completamente e eu já não movia apenas a língua, mas também a cabeça. Eu senti a mágica, meu dedo sendo comprimido lá dentro. Meu convite.
Subi lentamente pra chegar na outra boa, mas ela me empurrou e virou-se de bruços. Levantou e ficou de quatro olhando pra mim. Balançou o quadril de um lado pro outro até eu segurá-lo com firmeza. Entrei rápido, não havia qualquer resistência. Os movimentos eram tão fluídos...
A vantagem daquela casa grande era que os barulhos dos impactos, da cama, nossos gemidos eram todos inaudíveis. Eu cansei daquela posição, pois queria sentir a pele dela. Então joguei meu peso sobre suas costas e ela caiu de bruços na cama. Fechei suas pernas, que até então estavam abertas e levei adiante meus movimentos lentos. A sensação de que ela está mais apertada sempre me estimulou.
O cabelo negro dela faz um lindo contraste com a pele clara e os suspiros parecem ficar mais intensos nesse momento. Eu continuei acelerando até ver a expressão facial dela mudar. Aí comecei a aumentar a força, aumentando com isso o barulho. Ela cerrou os olhos e abriu a boca. Senti as contrações me dizendo pra continuar ali. E foi o que fiz, por alguns minutos.
Saí de dentro dela por uns segundos.

Vira de frente pra mim?

Ela virou, com o corpo mole e um sorriso lindo no rosto. Beijei sua boca impetuosamente com os olhos firmemente cerrados. Sem desgrudar de sua boca, entrei novamente. Foram os movimentos que interromperam o beijo, pois acabei suspirando. Segurei com firmeza nos ombros dela, que em resposta me prendeu com suas pernas.

Alguém bateu na porta da minha casa, me irritando por uns instantes.

- Um minuto! – gritei

Ela olhou pra mim rindo.

- Um minuto, é?

Voltei pra ela como se nada tivesse acontecido e realmente acelerei meu ritmo pra terminar. Embora não tivesse sido a melhor que já tivemos, tinha sido interessante. Mas surpreendentemente, quando cheguei ao orgasmo ela chegou junto. Isso nunca tinha acontecido.

Fiquei parado um pouco ali, até a porta voltou a me incomodar, então tive que sair. Vesti qualquer coisa e saí do quarto, mas não sem antes olhar pra e vê-la a se vestir apressadamente. Ela não me olhou de volta, então desci as escadas correndo atendi a porta.
Foi só aí que eu fui perceber que estava chovendo intensamente. Na porta estava um jovem noviço e uma moça exuberantemente linda... E limpa!

- O que vocês querem aqui?- perguntei
- Precisamos de abrigo. Essa foi a primeira casa que encontramos. Você pode nos ajudar? – disse a moça
- Eu nunca negaria com você pedindo dessa maneira. – respondi
- Mas sua esposa não acharia ruim? – perguntou o noviço olhando para dentro da minha casa.
- Não tenho esposa, rapaz. Entrem e saiam da chuva. Vou preparar um banho pra vocês.
- Mal conhece as visitas e já obriga a tomarem banho! Você é louco, Leandro! Louco!
- É... Você tem razão... – respondi.

O encontro com Perséfone

- Atenção, homens, pois hoje veremos mais um rio de sangue. – disse o gigante sem nome
- Ele está certo! – gritou Emanuel – estou sedento!

Os homens gritaram, alguns ainda de posse das mulheres da última batalha. Há dois dias haviam dizimado um feudo. Não queimaram nenhuma casa, embora apenas meia dúzia de pessoas tenha conseguido se esconder e sobreviver. Colocaram uma estaca na terra com o crânio do senhor daquelas terras e a declararam maldita.

- Iremos eu, meu irmão e mais cinqüenta homens. Quero comigo somente os cães mais sedentos, as bestas mais insaciáveis. O resto pode continuar bebendo e usufruindo as mulheres. Se mais de cinqüenta quiserem, se matem pelo direito, pois nenhum a mais me seguirá. Vamos lutar contra 300 soldados e toda a criatura que possuir vida naquele castelo.

Os homens gritaram e se acumularam em torno de Emanuel. Alguns se mataram, e no final se formou a tropa, alinhada. Todos eles sorriam, seus olharem brilhando diante do sol nascente. Todos estavam montados em sues cavalos.

- Não temos o dia inteiro! Vamos! – gritou o gigante sem nome

Os dois irmãos correram a pé, à frente da tropa. Sua velocidade de corrida era maior do que a de um cavalo, então a reduziram para os homens não os perderam de vista. Emanuel sentiu um frio na espinha. Algo como um presságio. Ele seguia um sonho, que compartilhou com seu irmão. Ambos viram, na noite anterior, que deveriam perseguir a estrela que ficava acima da torre daquele castelo. Difícil ver outros casos em que dois irmãos compartilham tantos sonhos assim. Correram por quatro horas até avistarem o castelo.

- Deixem seus cavalos aqui, homens. Agora marchamos a pé – disse o gigante sem nome
- Pego a direita, irmão? - disse Emanuel
- Sim, como preferir. Mas subimos à torre juntos.

Emanuel rosnou com empolgação e os homens gritaram logo em seguida.

- Vamos, seus cães. Em nome da morte! – Berrou Emanuel

E todos correram em direção ao castelo, demorando mais vinte minutos para chegarem perto da zona de alcançe dos arcos da muralha. A corneta de alerta soou e o portão se fechou. Arqueiros lotaram a parte superior do muro. Um cavaleiro saiu do castelo para negociar a rendição.

- Não queremos problemas com o imperador. Nosso rei não desafia sua autoridade. Podem levar nosso ouro e nossos animais. – disse o Arauto
- Não estamos a serviço do imperador, tampouco queremos sua propriedade. Nós viemos atrás de sangue. Somos 50 e desafiamos vocês a luta.
O homem se espantou. Pálido, deu as costas à Emanuel e voltou para o interior do castelo, onde o Rei o esperava. Sem perder a compostura, o Rei convocou seus soldados e fez um inflamado discurso, do qual só se pode ouvir um grito: “até a morte!”
Pelo menos 500 soldados saíram pelos portões, dos quais 200 possuíam montaria. Emanuel sorriu, tendo em vista que tal quantidade de soldados era proibida pelo imperador. Eram conspiradores, o que justificava a carnificina. Não teriam problemas com Frederico.

- Não deixem nenhum homem, velho ou criança vivos! As mulheres, quem quiser as tome para si!

Ele gritou e os homens avançaram, debaixo das flechas dos arqueiros. Dos cinqüenta, dois foram atingidos, enquanto que os outros conseguiram se esquivar ou se defender com seus escudos. As tropas do castelo avançaram e os dois irmãos saltaram, cada um do seu lado. Emanuel com sua Espada da Morte, e o Gigante apenas com seu gigantesco escudo.
O Gigante lançou um cavaleiro a dois metros do cavalo quando caiu, dando em seguida um giro que matou alguns e afastou outros, que se esquivaram. Quando Emanuel caiu, cortando três homens ao meio, ele berrou, ao que seu irmão o acompanhou.
Os inimigos mal atacavam, paralisados de medo dos irmãos, enquanto a tropa de cavaleiros negros se chocou com a formação de infantaria na linha de frente.
Não muito diferente de outras batalhas, essa durou pouco tempo. O gigante matava uns com o impacto do escudo e outros simplesmente os pegando e mordendo, como preferia. O exército logo de dissipou, e foi perseguido até certo ponto. A maioria dos soldados foi dizimada.
Os arqueiros voltaram a atirar, derrubando dez dos cavaleiros negros antes que eles fizessem a formação de proteção com o escudo.

- Esperem o nosso comando! – berrou Emanuel enquanto corria na direção da muralha.

Os dois irmãos saltaram em direção aos muros e caíram próximos ao topo, escalando o resto. Os poucos arqueiros que não estava amedrontados e conseguiram atirar acertaram algumas flechas neles em pleno ar, o que pareceu não ser de grande incômodo. No topo, rapidamente avançaram partindo em pedaços os arqueiros. Alguns se jogavam do muro em direção á morte certa, por puro medo dos gigantes. Ouvia-se gritos dentro do castelo.

- Os Demônios! Os Demônios!

O último arqueiro pegou uma adaga e atacou Emanuel. Em seu desespero, tropeçou e caiu. Ele fechou os olhos, esperando ser esmagado, e Emanuel o ergueu com o braço esquerdo. Ele berrou e os soldados avançaram na direção do portão. O homem desmaiou de terror e foi lançado em direção a torre, sua cabeça como a ponta de uma lança. O Gigante abriu os portões e os soldados entraram. Pessoa corriam de um lado para o outro, desorientadas. Aparentemente essa era a única saída disponível.
Pessoas pedindo clemência, outras desmaiadas ou fingindo-se de mortas. Incrível como diferentes táticas surgem para a sobrevivência. Mas um Cão bem treinado não se deixa sensibilizar ou enganar.
Logo o último grito se silenciou, sobrando apenas murmúrios de dentro do castelo trancado.

- Descubram um meio de arrombar a porta e nos encontrem lá dentro. Estuprem a rainha! – Gritou Emanuel

Os dois irmãos saltaram e escalaram as paredes, cada um entrando numa janela. La dentro, alguns soldados o enfrentaram. Era difícil dizer se eram corajosos ou simplesmente suicidas. Pareciam, no entanto, guardar um enorme tesouro, que logo Emanuel pôde contemplar.
Numa espécie de salão principal, ele encontrou um grupos de clérigos, nobres, serviçais e soldados. Pela aparência das vestimentas, parecia que um casamento estava acontecendo. Ele e o irmão saltaram do segundo andar para um lado daquele salão, enquanto que os outros se amontoaram do outro. Todos apavorados, menos alguns soldados, que foram rapidamente massacrados.
Eles avançaram sorrindo e com curiosidade nos olhos. Buscando humilhar o Rei, convocaram a Noiva, sua filha.

- Onde está a Noiva!? - Gritou o Gigante

Ninguém respondeu, e ele logo avançou a começou a matar as pessoas que corriam e se empurravam. Emanuel, no entanto, a avistou. E não pôde acreditar. Era ela, a sua guia dos sonhos. Ela mesma, vestida de branco.
Os homens conseguiram arrombar a porta e se uniram ao Gigante na matança, enquanto Emanuel se apressou em capturar a Noiva. Pegou-a em seus braços e saltou de volta para o segundo andar. A deixou lá e desceu para avisar o irmão. Acabou se distraindo e matou algumas pessoas. Os homens perceberam a noiva e subiram ao terceiro andar para estuprá-la. Ele, prontamente, saltou e volta e matou o primeiro.

- Quem tocar nela morrerá. É minha e do meu irmão. – Disse Emanuel

Os homens recuaram e voltaram ao primeiro andar, onde as mulheres foram agrupadas. Dos cinqüenta iniciais, trinta estavam de pé. Avançaram sobre as mulheres, como de costume, matando algumas e estuprando outras.

- Irmão! Meu irmão! – gritou Emanuel

O gigante subiu rapidamente, pois nunca foi chamado com tanta urgência por Emanuel. Chegando lá, logo se viu hipnotizado pela visão da princesa.

- Perséfone! – exclamou ele
- Que nome é esse? - perguntou Emanuel
- É o nome de nossa mãe! Não se lembra
- Não lembro de nada sobre nossa mãe. Aliás, com freqüência imagino que ele nunca existiu.
- Pois existiu, e cá está renascida!

Os dois ficaram pasmos, olhando para o olhar vazio da moça. Emanuel, invadido por uma estranha emoção, nem se movia. Ele não sabia o que fazer com tal emoção. Parecia tão poderosa quando seu ódio, podendo fazê-lo desvanecer ou aumentá-lo. Aquela estranha força, que ele chamou de Amor em nome de Matias, parecia um espírito livre agindo em seu corpo e sua alma. Aqueles cachos loiros voando com a brisa vinda da janela, aquelas marcas de lágrima secas no rosto. Cada mísero detalhe ele armazenava. Era um Anjo¿ Só poderia ser de origem divina, para paralisá-lo de maneira tão forte. O despedaçava, embora a sensação fosse melhor do que qualquer chacina.

- Hades, o Deus do Submundo, deve ter-nos presenteado por termos mandado tantas almas ao seu encontro. – Disse o gigante. – Os Deuses nos favorecem.
- Não há deus algum nos céus. Há apenas uma Deusa, que habita entre nós. Ela é a deusa da morte e da vida, da destruição e da construção. Ela odeia e ama, acolha e abandona.
- Então talvez tenha sido ela a nos presentear de tal forma. É apropriado que aceitemos tal presente, o honrando com maiores e mais grandiosas chuvas de carne e sangue.

Emanuel concordou e pegou a mulher. Ela não reagia. Parecia estar morta, embora seus pulmões ainda se enchessem de ar. Seu espírito estava noutro lugar, alheio àquela situação. Seus olhos pareciam tão vazios quanto os de condenados esperando a morte. Aquele olhar que toma o ser humano quando a palavra esperança não tem mais nenhum significado.
Eles saíram do castelo, se deparando com a lua. Os homens carregavam mulheres. Eles perderam a noção de tempo, olhando para Perséfone.
A pele dela era tão macia, tão quente... Emanuel esfregava o rosto no braço dela, enquanto observava seu vestido cheio de sangue e lama. O sangue de sua família e a lama de sua terra, todos agora uma coisa do passado.
Surgiu nele uma coisa diferente. Amor, Luxúria. Um impulso por vida.
E assim foi o encontro de Emanuel com Perséfone, e o nascimento do Amor no coração de um cão do submundo...

The Gust of Desire

It was the perfect day. I know it makes no sense to say that, but who cares? The old walls where wrecked, the old forbidden was now suddenly allowed. I took my car at the same our as every day and she was there, waiting for me with that happy but sorrowful smile on her face. She was using makeup, and fancy clothes. She knows that brings up my attention. Guess that's what she wanted in the first place. We arrived at my place, left the car and started walking on the neighborhood. The same as always.

- You know, i was thinking about what to say to you in our conversation, but i have no idea. Maybe today is not the day to talk after all... - she said looking at me with expectations

Last time, yesterday, we got in a close point to that and i ran away. There was a wall between us, and i was too scared to jump over it. But not that day. I woke up wild, like a beast.

- I wonder if you think about the things we say to each other often. I have been thinking a lot, lately. Seems like, even though i have all my issues, sometimes a just stop to think about it. It feels... wierd, strong... exciting – i Said
- I think about it everytime i get an oportunity. It's like i'm forbiden to do so, then i only think about it alone. But tell me, what are your thoughts?
- I keep thinking about those walls we face in the end of our journey. What if they where magicaly gone for good? What if we crossed them and arrived at the other side?
- I supose the sensation would be... enpowering... But what about the consequences?
- I woke up mad today, dear. Like i spent the night flying with a gust. Consequences are a matter of logic, reasoning. I could'nt care less about such things...
- But will it be only once?
- I don't know about the future and have no interest on it. Right now a just want to cross that wall and see what happens.
- But i't wrong!
- How can you be so sure? Why is it that we, little dots in the universe, always want to say what can happen and what cannot happen? To hell with that. Let the gods decide!
- What are you saying…?
- Do you feel the wind?
- Yes... pretty cold, today...
- Well, the blow from my direction towards yours. Lick the point of your finger and point to the moon. If the wind changes, we'll cross the wall…
- That's not going to happen. It never happens!
- Then maybe we won’t cross the walls. But it is not worth the atempt?
- I don't know...
- Yes you do...

She looked up to de sky. Started breathing faster, stronger. She put her finger um my mouth. Don’t really know why, but I kind of enjoyed it. She closed her eyes and pointed the finger up to the moon.

- For how long¿ - she said
- Try for one minute…
- But that not enough. The wind will never change in time
- the we’ll wait for two minutes.

I started looked in my watch to count the time. One minute passed, nothing happened. Maybe I was just crazy. That was the though in my mind. Just a mad man. When the clock marked minute and fifty five seconds, o dropped my arm and almost started talking. But the wind closed my mouth shut, as it changed so violently that she was dragged to me. There was this littler pipe on the ground and I slipped and fell. She fell with me in the grass, on top of me. We looked at each other for some time. Everything got calm, clear. We kissed. I never hugged her like that. Never imagined she was so soft…

- Shall we cross the walls, then¿ said she
- Yes. I heard there is an apple three there…
- You want to eat from it¿
- yes…
- But… What about her¿ - she said looking back to the street, pointing to my house
- She’s my soulmate, sweetie. And will remain like that.
- And what about me¿
- You will always have a share of my heart, my soul, my mind and my body.

She walked in the direction of the wall. Looked up, took a long and strong breath. I helped her up and managed to get up by myself. There where Christmas lights in the three. We ate from it peacefully. No longer we were in a hurry, nor scared or fighting fate. No. That was love…

A fome


Eu abri a dispensa de casa. Cheia de coisas que me dão asco. Eu não queria comer nada daquilo, embora estivesse cheia. Um biscoito lacrado estava atraindo formigas. Mas aquilo não tinha como me tirar minha fome. Saí de casa andando sem rumo. Eu tinha rumo definido, mas não na mente. Em outro lugar. No inferno, talvez.
Fui selecionando esquinas aparentemente de maneira aleatória. Eu só olhava pro chão, com minha respiração acelerada e minhas mandíbulas rígidas. Minha boca cheia de água: eu estava com fome.
Quando dei conta de mim, estava na frente daquele santuário da perdição. B&K empreendimentos. Uma empresa de contabilidade sem nem uma máquina de vender refrigerante. Entrei assim mesmo.
Nove e meia da noite, o guarda veio me avisar que eu não poderia entrar, ao que tirei uma faca de algum lugar e cortei sua garganta. Continuei andando meio inconsciente, cheguei a pensar de onde tirei a faca. Devo ter pegado em casa e nem vi. O sangue do guarda escorria pelo chão. Eu assisti enquanto esperava o elevador. Bati o pé no chão num ritmo meio acelerado, quase compulsivo.
Subi até o nono andar, eu sabia exatamente onde estava indo. Não havia como esquecer. Foi ali que ele despertou, ou que eu despertei. Não sei, mas ali que tudo despertou. Eu lambi a faca. Detesto gosto de sangue. Tem vida demais...
Aquele lugar era cheio de divisões falsas. Originalmente era um grande salão, mas depois foi dividido e a maioria ficou comprimida num canto pro chefe pode jogar golfe. Só pra ele jogar golfe! Isso enquanto eu desfazia as merdas que ele faz.
Mas não estou enganando você e nem a mim mesmo. Não é porque ele me difamou que estou aqui. Não é porque perdi meu cargo por ele. Eu não ganhava nada por isso, só a empresa. A razão de eu estar aqui é por causa da minha fome que nunca está saciada. Uma fome que me trás sofrimento, desgosto, delírio, agitação, morte. As portas do porão da minha alma foram abertas.
Passei a faca no rosto. O outro lado ainda tinha sangue. Lá estava ele. Tinha uma mulher de lingerie. Gostosa, ela. A secretária dele. Estava chupando o pau dele, enquanto ele segurava um bolo de dinheiro olhando pra cima. Eu sempre fui sorrateiro, nem me viram chegando.
Meu corpo começou a se agitar. Se preparando pro combate, como um primitivo pedindo o auxílio dos deuses. Minha cabeça se contorcendo, tudo girou por uns instantes. Fiquei nervoso, calmo, ansioso, receoso.
Na hora nem vi nada. Quando me dei conta a mulher já estava com a faca atravessada na garganda se debatendo no chão e eu estava derrubando o maldito na mesa de vidro. O som foi delicioso. Quebrou com a cabeça careca do filho da puta. Ele segurou no meu terno com os olhos fechado e eu mordi o pulso dele com toda a força. Ele gritou e me soltou.
Pegou um pedaço pontudo de vidro e apontou pra mim, com um olhar de desespero. Covarde.
Peguei a faca do pescoço da mulher e enfiei o dedo na boca dela. Achei que isso iria perturbar o sujeito, mas ele não mudou a expressão. Ele não dava a mínima pra vadia.
Levantei com a faca, meus joelhos meio dobrados. Percebi que estava com uma bota grossa, como coturno ou algo assim. Ele, por outro lado, estava descalço, pisando no vidro com dificuldade.

- Quem é você? Olha, seja quem for que te mandou, eu pago mais. – gritou ele

Nesse momento eu percebi que uma toca cobria meu rosto e só o olho ficava amostra. Quando foi que coloquei isso na cabeça eu não sei.
Lembrei de alterar minha voz, que, por algum motivo, já estava naturalmente mais grave do que o normal.

- Você vai pagar com sangue.
- Caralho, te dou um milhão de reais!

Eu girei e dei um chute no ombro dele, ao que ele caiu no chão e derrubou seu caco de vidro. Se arrastou até a janela e eu subi em cima  dele. Deixei a faca na garganta dele e fiquei olhando a cidade. Carros andando, algumas janelas acesas noutros prédios. Ninguém se importava com aquilo.

- Porque você está fazendo isso? – perguntou ele
- Não sei e não me importo em descobrir.
- Quem te mandou
- O diabo.

Saí de cima dele e ele se levantou. Andei calmamente pelo lugar e ele ficou parado no mesmo lugar. Olhava pro telefone, então corri e enfiei uma faca na barriga dele. A janela estava aberta e o sangue escorria pra fora. Empurrei-o pra fora e ele se segurou na minha mão. Um desespero naqueles olhos negros, naquela cara de idiota. Mergulhei pela janela com ele e chutei a cara dele antes de me segurar numa corda. Não senti minha mão doer enquanto escorregava devido à velocidade em que já estava, e foi aí que vi que usava uma luva legra de couro. Eu nem lembro de ter essa luva. Meu corpo estava todo numa roupa preta de couro que eu não reconheço. Aquela corda eu me lembro de tê-la visto de manhã. O sujeito estava limpando o vidro e ela ficou pendurada. Não sei se ele esqueceu ali ou se era pra ficar mesmo, mas estava bem na janela dele. Lembro de ter feito essa estimativa quando saí à tarde...
Desci até o segundo andar, onde a corda acabou e eu soltei. Caí em cima dele e isso espirrou sangue da boca dele. Sexta feita à noite, o lugar deserto. Ninguém viu o cadáver.
Sentei ali e acendi um cigarro. Eu não sabia que tinha, tampouco que eu fumava. Detestei, tossi, mas fumei tudo. Não sei porque.
Ele ficava tremendo, então fiquei, de alguma maneira, irado e comecei a esfaquear a barriga gorda dele. Nem sei quantas vezes enfiei a faca nele. Só parei quando perdi o fôlego. Depois eu só fiquei arrastando a faca, cortando sem furar. Quando me senti satisfeito, vomitei num bueiro. Nem meu vômito eu deixei no chão. Tirei um saco preto de lixo do meu bolso e comecei a tirar minha roupa. Havia outra por baixo, como se tudo tivesse sido meticulosamente planejado. Nenhuma gota de sangue na parte de baixo.
Coloquei a faca dentro do casaco. Tinha uma caveira na parte de trás dele. Que pena que tive que destruir. Fui até aquela baia podre, cheia de lixo boiando. Não vão acreditar se eu disse, mas tinha uma garrafa de álcool intacta escondida lá. Acho que fui eu quem a deixou ali.
Queimei tudo, mas ainda sobrou algo. Isso eu coloquei dentro de outra sacola, com várias pedras. Daí joguei na água e afundou.
Não sei o que estão pensando, nem o que estão sentindo. Mas eu não pensava nada e me sentia tranqüilo. Não vou mentir não. Foi bom, libertador. Sentei na beira daquela água com cheiro de merda, depois dentei perto daquela pilastra com cheiro de mijo. Foi o momento mais tranqüilo que tive em meses...
Matei minha fome...

O domador de mentes no reino das abominações


Nossa pequena vila estava sendo violentamente afetada pelo desmatamento. O novo império se ergueu, e derrubava árvores para suas enormes construções, que não pareciam ter muita utilidade para nós. Os animais fugiram, e os que não fugiram morreram. Não tínhamos muito mel, porque as abelhas não tinham arvores para fazer ninhos, e nosso plantio era constantemente saqueado por membros do império.
Certo dia decidiram que nossa vila deveria deixar de existir. Segundo eles, éramos primitivos e, portanto, estávamos ali envergonhando o império e ocupando um espaço que não era nosso.
Para nós, no entanto, era difícil entender o que diziam. Porque é que nós éramos primitivos? Porque o espaço não era nosso?
O sábio da tribo soube nos responder a segunda pergunta. Para ele, a terra não é nossa e nem de ninguém. Somos nós é que pertencemos à terra, e devemos, por essa razão servi-la.
Eu me convenci de que bastava eu falar disso ao emissário, para o povo dele entender que temos que cuidar da terra, pois ela é a nossa mestra. Quando ele veio, chegou com trinta homens. Eles tinham expressões agressivas, como se estivessem ameaçando suas famílias o tempo inteiro. Tentei apaziguar um deles, mostrando que éramos um povo de paz, mas ele me deu um soco no peito. Ele não sabia falar minha língua. Olhava pra mim como se eu não fosse nada, porque minha roupa era diferente e eu usava brincos.

- Atenção primitivos, viemos aqui comunicar-lhes que já por muito tempo permitimos que vocês usem nossas terras sem pedir-lhes nada em troca. Agora, no entanto, precisamos de força contra um inimigo que pretende desafiar a autoridade máxima de nosso senhor. Eu vejo que há homens fortes aqui. Os que podem lutar devem vir comigo.

O sábio da nossa tribo se pôs a falar, parecendo tão irritado quanto os soldados. Estavam ameaçando a família dele.

- Vocês, filhos da terra, homens de lama como nós, chegaram nesse lugar quando meu avô era ainda criança. Estávamos aqui, de acordo com as leis dos deuses, e vocês as profanaram destruindo os animais, prendendo alguns, e tornando as águas dos rios podres. Somos nós os que toleram sua presença, pois sentimos na nossa vida a miséria causada pela sua falta de sabedoria. O nosso povo é de paz, e, portanto, não lutará.

O homem e seus soldados riram violentamente. Não os entendemos. Quando o homem percebeu que todos nós estávamos com o sábio, puxou sua espada e cortou-lhe a garganta.
Choramos diante do corpo dele, pois era nosso maior guia, tendo nos instruído nos conhecimentos da terra. Foi ele, aliás, que me ensinou a arte de domar as mentes. Ele dizia que sou muito curioso e que, como um xamã, deveria saber como me defender. Dizia ele que eu tenho sabedoria para lidar com a mágica, então todos me prepararam. Ele me salvou da loucura, quando o espírito do mal me atormentava, e me ajudou a ser o mágico que sou hoje.
Na verdade, imagino que os outros passarão a me ver como chefe, embora eu não me considere pronto.

- Seus tolos. Não percebem que esse homem os ilude com bobagens? Não existem deuses e nem espíritos, e a natureza não existe senão para nos servir. Se há deuses, porque não falam conosco, que os afrontamos? Tolos! É só porque vocês acreditam que as palavras desse tolo têm efeito sobre suas mentes!

Todos me olharam. Como eu esperava:  me olharam como quem espera uma resposta. Então fui até ele, engoli o choro e falei.

- Nosso ancião, admirado, não fazia mais do que despertar em nós aquilo que havia em nosso coração. Na verdade, nos mostrou a sagrada terra e o sagrado espírito, os quais encontramos dentro de nós. Nunca nos iludiu. Você, por outro lado, que se imagina como sendo parte do centro de todas as coisas, não percebe como é insignificante diante da Grande Mãe.

O homem me olhou querendo rir, mas percebeu que eu falava sério. No fundo, pelo que percebi, ele conservava em seu coração a crença de que minhas palavras não passavam de brincadeiras. Falou, então, ignorando minha posição.

- Não tenho tempo para seus delírios idiotas. Você é um jovem bem robusto, como alguns outros. Você sabe lutar.
- Posso me defender com lança e flecha, mas minha arte mais refinada é a mágica.
- Um mágico? Temos muitos na nossa cidade!
- Então porque não há mágica correndo pelo seu corpo?
- Truques! São todos truques e nada mais! Eu, na verdade, nunca caio nos truques, mas gosto de rir-me dos tolos que se impressionam com seus truques. Faça um e demonstrarei ao seu povo que você é uma farsa.

Eu mergulhei minhas mãos no chão, tal como nosso velho sábio me havia ensinado, e debaixo da terra encontrei os demônios que aquele homem havia enterrado. É onde todos os demônios escondidos ficam.
Uma imagem terrível, na qual um homem raptou sua mãe e a violou, me foi revelada, enquanto o comandante dos soldados se retorcia no chão, chorando e gritando.

- Servo de Satã! O que você fez comigo? Como você fez essa imagem surgir na minha cabeça? Tire já isso que você colocou! Eu te mato!
- Não sei o que é Satã, e não sou servo de ninguém senão da natureza. Se satã é a natureza, não há sentido e tratá-la com tal tom de voz. O que eu fiz não foi nada de mais. Apenas despertei um de seus muitos demônios e deixei você ver.
- Mas o que são demônios?
- São obscuridades da natureza. Você os esconde para se esconder deles, mas eles estão sempre debaixo do chão que você pisa, na profundidade de um palmo.

O homem pareceu curioso sobre aquilo que eu havia feito. Um brilho nos seus olhos surgiu. Aproximou-se de mim e tocou no meu cajado.

- Sua habilidade é só essa? Desenterrar os demônios?
- Eu sei desenterrar todo o tipo de demônios e anjos, porque homens também enterram anjos. Minha arte, na verdade, é a de conciliar as forças da natureza. No entanto, através do domínio de anjos e demônios, também consigo controlar a mente dos homens que não têm os pés enterrados no chão.
- Então você controla todos os homens que não estão parados com o pé debaixo do chão?
- Não. Os homens que eu controlo são aqueles que voam. Tal como você.
- Então quer dizer que eu sei voar? – gritou o homem gargalhando. – Nesse caso, controle a minha mente!

Eu fechei meus olhos com minhas mãos no chão, e os vermes da terra foram trazidos a mim pelos espíritos aflitos. Falaram a mim da seguinte maneira:

- Ajude-nos, porque vivemos presos dentro desses vermes, escondidos da luz do sol. Você, como iniciado nos mistérios da natureza, deve saber que todos nós devemos ser iluminados pelo sol. Há, no entanto, essa barreira. Se nos ajudar a quebrá-la, te serviremos em teu propósito.

Quando eu abri os olhos, eles olhavam pra mim com sorrisos zombeteiros. Falei ao comandante da seguinte maneira.

- O senhor, que é hábil no uso da espada, poderia me atacar?
- O que, está com vergonha de não poder me controlar? Olhe, tudo bem, eu te dou a dica. Eu não sei voar!
- É o senhor fraco demais para me atacar, fungindo com piadas? – respondi simulando um tom de provocação.

O homem se ofendeu e desceu de seu cavalo. Pegou sua espada e veio na minha direção. Quando ele chegou perto, os vermes entraram em suas botas pesadas. Entraram dentro da sua unha, e seu espírito foi dominado. Anjos e demônios, causando comportamentos aparentemente sem sentido. Mas eu os pude perceber. Um deles era o demônio do medo, que se aliou ao anjo do amor. Assim, o homem passou a ter medo do amor. Outro era o anjo da piedade, que foi dominado pelo demônio da ganância. Assim, ele só tinha piedade dos ricos.
Mas na verdade o espírito mais poderoso era o mensageiro, que ele ignorava completamente. O mensageiro dele era um anjo e também um demônio, porque assim ele era natureza. Tal é a sabedoria dos nossos mensageiros. Mas ele era ignorado, porque a sombra havia tomado seu lugar. O vulto com o qual o comandante se identificou escondeu o mensageiro debaixo da terra, e esse exigia ser ouvido.
Contei a ele o que eu desejei em voz alta, e ele executou no corpo do homem. Facilmente tentado a se aproximar de mim e ingenuamente seguro de si, o homem dançou como uma mulher, com movimentos leves, embora o espírito do medo lhe tenha feito sentir um enorme tormento. Ele dançou, e chegou a ficar na ponta dos pés.
Logo ele foi assistido pelos espíritos que lhe dominavam. Eram o espírito da arrogância e da soberba, guiados pela ganância. Eles lutaram com o mensageiro sem sucesso, até que lhe ordenei que parasse a dança, e ele voltou para debaixo da terra, agradecendo por poder respirar.
O homem, caído no chão, não se ofendeu com aquilo. Pelo contrário se encheu de ambição e curiosidade.

- Você é poderoso! Meu mestre se interessaria por suas habilidades e poderia dar benefícios a você por elas! Venha comigo!
- Não tenho poder algum. O poder é da terra. Não quero benefícios pra mim além daqueles que a terra pode me oferecer.
- São frutos da terra! Você poderia morar no palácio, poderia ter concubinas. Seria autoridade!
- Essas palavras que você usa vêm de espíritos desconectados. Somente espíritos incompletos admiram a posição de comando ou de subordinado. Os homens sábios conhecem a natureza, e sabem que tal coisa não é senão erro humano.
- Podemos ajudar seu povo a ter mais comida. Sabemos que passam aqui fome e sede, porque nossos soldados não lhes protegem a plantação. Você poderia conversar com o nosso mestre, o imperador, e então ajudar seu povo.

As anciãs me olhavam com olhos aflitos, pois seus netos choravam com fome em seus braços. Eles me escolheram como o guia, e era minha função ajudá-los.

- Pois bem. Aceito ir ver seu mestre.

Eu segui a pé e o comandante guiou os soldados. Esses desfizeram a organização quando me aproximei por medo de se aproximarem de mim. Quando percebi isso, me afastei deles e os acompanhei da metade da distância de um lançamento de pedra. Somente assim eles se alinharam e marcharam.
Se perto da minha aldeia havia poucas árvores, por outro lado quando mais eu me afastava, mas escassas elas ficavam, até que num ponto elas desapareceram. Caminhamos por duas horas, até chegarmos na cidade. Havia plantas sendo tratadas por homens magros e fracos. Possuíam dor em seu olhar, e aquilo me deprimiu profundamente. Um deles, percebendo que eu olhava para ele, veio até mim e me falou com sua voz rouca.

- Não teria o senhor algumas moedas para eu alimentar minha família? – disse ele.
- Mas moedas são duras e não podem ser comidas. Porque você quer moedas? – perguntei curioso.

O homem me olhou confuso. Parecia tratar aquilo que eu falava como um quebra cabeça ou um jogo que se faz com crianças para que ganhem esperteza com a linguagem.

- Mas sem as moedas, meu senhor, não posso ter comida. É por moedas que trocamos comida. A água eu busco a uma légua daqui, mas comida eu preciso comprar. Essa terra na qual trabalho não é minha.

- Peço perdão, mas não tenho moedas. Na minha terra não temos moedas.
- Por favor, senhor. Meu filho passa fome!
- Estou entrando na cidade para tratar com o imperador. Falarei com ele sobre sua situação.

Os olhos do homem brilharam, e outros que ali estavam vieram até mim, pedindo também que eu falasse sobre eles ao imperador. Guardei o nome de cada um deles, porque cada um tinha uma família separada do outro, quando um soldado voltou para me buscar. Ele estava assustado ao lidar comigo, mas não hesitou em bater no homem que falava comigo e lhe ordenar que trabalhasse.
Conforme eu me afastava, ele se afastava me seguindo. Quando eu lhe olhava, ele apontava a direção pra onde eu devia ir, tendo o cuidado de se manter distante. Entrei para ele parar de bater no homem faminto.
Naquela cidade eu vi abominações sem tamanho. Animais presos, alguns mortos. Homens gritando todo o tipo de coisas. Uma confusão, todos correndo de uma parte para a outra, como se seus espíritos os levassem com urgência para algum lugar, mas paravam diante de pedras brilhantes e as fitavam. Meu cajado possuía uma dessas pedras, e por causa disso um homem parou para conversar comigo.

- Ei, selvagem! Onde você conseguiu essa vara?
- O mestre sábio a deu a mim quando me iniciou.
- Bem, cá está o sábio que a tomará de você por um preço justo. Cem moedas de prata!

Alguns homens olharam para nós por causa da fala dele, e se amontoaram em volta de nós olhando para o cajado. O homem se orgulhou disso e continuou.

- É isso mesmo que ouviram. Vou comprar esse cajado por cem moedas de prata! E ainda me chamam de avarento por essas bandas!
- Perdoe-me a decepção, mas esse cajado pertence à minha tribo, e através dele que nos conectamos com a mãe natureza a muitas gerações. Ele nos foi mandado pelos deuses.

O homem deu usa risada e me falou.

- Seu cajado foi mandado pelos deuses? Bem, essas moedas que lhe ofereço, são tantas que, por algum tempo te tornarão, você mesmo um deus, e não precisará mais dos deuses.

Num momento sem eu perceber com certeza, um homem me tomou o cajado e correu entre a multidão. Consegui achá-lo e o persegui pela cidade, até que um soldado lhe derrubou e tomou meu cajado dele. Junto comigo, trouxe o homem que gritava chorando a palavra clemência.

Foi quando entramos no palácio.

O que mais me surpreendeu ali foi que homens estavam sentados próximos da entrada, envoltos em panos. Eles pareciam não ter casa. No entanto, dentro daquele palácio, havia muito espaço sobrando e quase ninguém senão guardas e homens com roupas estranhas e perucas.
Dentro do palácio encontrei novamente o comandante, que brigava com o soldado por ter me perdido de vista. Quando entramos, ele foi comunicado sobre o roubo, e sua ira caiu sobre o ladrão, que nunca removia do rosto aquele espanto.
Agarrou-se nos meus pés chorando e me falou da seguinte maneira.

- Perdoe, senhor minhas atitudes. Eu preciso dar comida aos meus filhos! Não quis lhe fazer mal, tampouco acumular riquezas! Eu só queria comida!

Eu chorei. Não era ele o único a padecer de fome em um lugar com tanta comida. Eles possuíam muita comida e bebida. Também possuíam grandes edifícios. Mas os espíritos que ali habitavam eram abomináveis. Nunca eu havia visto um lugar tão profundamente desconectado da Grande Mãe como aquele, onde homens viviam voltados apenas para si mesmos. Todo aquele ambiente me deprimia.

- Não deixe que esse vadio te faça ter compaixão! Temos leis nessa cidade, e ladrões aqui perdem a mão. Esse ladrão perderá a mão, e eu tenho o poder de executar a lei.

O homem estendeu o braço esquerdo e começou a chorar. No entanto, o comandante lhe tomou o braço direito, o que lhe fez chorar ainda mais. Mas ele abaixou a cabeça e não tentou reagir. O sábio, através dos poderes da terra, falou à minha mente como um relâmpago, e, através da pouca força natural que havia no ar, controlei o comandante, que lutou com mais força do que antes contra mim inutilmente. Por causa da força dos espíritos maligno que o controlavam, eu só pude deixá-lo imobilizado. Tive que falar, então, e esperar que somente o poder das palavras ajudasse-o a entender a situação de maneira apropriada.

- Este homem não me ofendeu, e, portanto, não deve receber qualquer punição, seja na consciência ou no corpo. Vocês têm suas regras então lhe declaro que ele me tomou o cajado brincando, da maneira que fazem as crianças, e eu o persegui correndo também como uma criança.

Meu espírito se contorcia por eu ser obrigado a dizer aquilo, mas o homem morreria se eu não o fizesse. Naquele ambiente, os homens que ousassem ser honestos acabavam causando o mal, porque a luz incomoda os olhos de seres que vivem por tanto tempo em abominável escuridão.
Mas minha fala não teve o efeito que desejei. Eles espancaram o homem e o mandaram para fora mal podendo andar, embora com ambos os braços. Soltei o espírito do comandante, que passou a me temer.

- Você é poderoso, mas não aprendeu a usar seus poderes. Você não pode ter piedade dos homens miseráveis, pois eles lhe sugarão cada moeda que possuir. Deve ter piedade apenas dos homens ricos e dos poderosos, pois esses, pelo contrário, lhe recompensarão por sua piedade.
- Mas todos os homens, ricos ou pobres, são filhos da terra e a todos foi concedido um mensageiro do outro mundo.
- Bárbaro, bárbaro... Quanto ainda não temos a te ensinar? Verá que a vida não é bem como explicam seus contos.

Não entendi bem o que ele quis dizer, e sentia em meu coração que não poderia aprender nada ali, pois quanto mais eu me adentrava no lugar, mais abominável ele se tornava. O chão era coberto por pele de animais misturada com pelo. Enfeites coloridos haviam sido feitos com as árvores, profanando as leis da grande mãe. Quase nada naquele lugar era necessário, e, no entanto, os homens tomavam todo o cuidado com cada detalhe, como se fossem de extrema urgência. Havia armaduras que seguravam armas. Havia escuridão dentro delas, e ma causavam calafrios. Como se desvirtuavam os homens da grande mãe usando tais vestes! Só podiam ser amaldiçoadas.
Eu constatei quais eram as falhas daquele reino, e ainda tinha em minha memória o nomes dos homens que passavam fome com suas famílias. Achei estranho que o sábio dali não percebesse o ambiente opressor que o envolvia, mas pretendi dar-lhe a mensagem, pois a isso me orientava o sábio da aldeia, falando em meu coração. Ele se tornou meu espírito protetor, como o outro que me protegia antes de ele morrer. O espírito de um ancestral que conhecemos é mais poderoso do que um ancestral mais antigo, porque há um laço de espírito e de matéria. Isso eu descobri ao sentir com que nitidez ele falava ao meu coração, trazendo pensamentos inteiros como relâmpago à minha mente.
Entrei numa sala enorme e vazia, no fim da qual estava sentado um ancião. Havia na cabeça dele uma tiara brilhante. Tinha a cor das moedas. Na verdade parecia com as moedas moldadas como folhas de uma tiara. Ele comia a carne de uma ave, até que mordeu algo que não gostou, ao que derrubou toda a comida.

- Quem foi o maldito que colocou tanto sal na minha comida? Já não basta o sal que perco com seus roubos, ainda preciso desperdiçar sal assim na comida e torná-la intragável! Seus vermes!

O homem gritava enquanto os outros pareciam reagir com um misto de medo e tristeza. Decidi reagir

- Não percebe o senhor, como o guia dessas pessoas, que faz mal ao espírito delas com tal repreensão? Não seria melhor que as ensinasse, cozinhando você mesmo, a maneira correta de preparar o alimento?
- O que esse selvagem faz no meu palácio?! – gritou o homem. – Quem foi que lhe concedeu o direito de falar, seu indigno!?

O comandante que me acompanhava se ajoelhou e fez um som com a garganta como o de quem está doente, mas ele estava com o corpo são. Diante disso, o guia lhe falou.

- O que é isso, comandante? Procura levantar minha ira trazendo um selvagem maltrapilho para meu palácio?
- Senhor, se me conceder a honra de demonstrar o que esse selvagem faz, perceberá que seu poder sobre o inimigo será infalível. Ele tem o poder de controlar os homens, é um feiticeiro.
- O que você fala para mim no meu período de comer? Logo o senhor, que possui a cabeça clara e sóbria, vem me importunar com crendices?
- Não te importunaria se não tivesse visto eu mesmo a prova, e trouxe-o para mostrar-lhe como ele faz.

Naquele momento ele mandou trazer um aldeão. Ele trabalhava na lavoura e também era cozinheiro. O rei o detestava em especial, e embora a comida estivesse mais saborosa do que nunca, reclamava contra o homem.

- Mostre-me, então, como ele controla os homens. – disse o guia daquela cidade
- Para fazer com que nosso mestre te ouça, você precisa primeiro mostrar suas habilidades a ele.
- Não são habilidades. No entanto, se é assim que ele me ouvirá, a demonstrarei.
- Sim, mas não sobre mim, mas sobre aquele aldeão.

Trouxeram o homem para diante de mim e o colocaram de joelho. Afundei minha mão na terra que o comandante me trouxe dentro de um vaso. A terra serviu, e nela só encontrei um verme. Ele me falou da seguinte maneira.

- Como você deve saber, eu sou o orgulho. Mas não se engane sobre eu estar escondido na terra, porque não é sempre que estou aqui. Na verdade, estou aqui por vontade própria, pois eu sou um grande aliado do espírito da honra.

Fiquei muito contente e perplexo, vendo que aquele homem possuía um espírito muito valoroso dentro de si. Na verdade, o que eu senti é que ele devia ser o guia do lugar. Possuía contato com a natureza, que puder ver nos espíritos que habitavam seus pulmões, e também com os deuses. Pulsava dentro dele um sentimento de equilíbrio tão grande que ele passava pela punição de ser ajoelhado diante de mim sem quase nenhuma impressão negativa.

- Não posso controlar esse homem, pois seu espírito está em harmonia. Se quiserem que eu demonstre, posso fazê-lo no seu guia, dando a ele revelações de que ele precisa.

O comandante dos soldados tentou me impedir, mas o rei ficou curioso. Ordenou que o soldado me permitisse tentar controlá-lo. Arregaçou as mangas de seu manto colorido e andou até a minha direção, com o corpo ereto e o peito estufado, como ficam os jovens sem sabedoria quando querem se impor.
E quando eu olhei para o que estava escondido, percebi, para a minha surpresa, que não era senão um pequeno espírito, daqueles que recebem atenção na aldeia por serem os mais insensatos. Na verdade, a imagem da alma dele era a de uma criança que não recebeu os devidos limites dos pais. Seu espírito guia tinha a forma de um menino.
Quando o libertei, o espírito guia tomou o controle do guia, e ele começou a fazer travessuras com os soldados. Puxou um deles pelo capacete, jogou comida em mim, e até rolou pelo chão.
Aquele espírito não era o de um guia, então imaginei que estavam apenas testando minha sabedoria com tudo aquilo. Por isso, falei da seguinte maneira.

- Já entendi que esse homem não é o seu guia. Mostrem a mim aquele que é seu verdadeiro velho sábio para que eu possa tratar com ele sobre os problemas da cidade e sobre como estão lidando com a natureza sem o consentimento dele.

O velho, ao ouvir aquilo, se ofendeu profundamente e ordenou que me expulsassem do palácio, ignorando as recomendações do comandante sobre meu potencial. Pelo que percebi, ele gostou de  fazer tais travessuras, mas me detestou, e percebi que realmente era ele quem guiava aquelas pessoas. Não pude falar a ele sobre os que sofriam com fome e fui deixado à própria sorte na entrada do palácio, onde o ladrão me encontrou. Beijou os meus pés, o que me incomodou, então dei um passo para trás e estendi a mão para ele se levantar, ao que ele a segurou um tanto confuso.

- Você não aceita meu agradecimento? – perguntou ele
- Eu não fiz nada de bom que mereça agradecimentos. Na verdade eu menti e não aceito ser glorificado por isso. Eu queria solicitar ao guia dessa cidade que ele ajudasse os homens necessitados, mas ele é um tolo e me ignorou.

O homem bateu no peito três vezes com os olhos cheios de lágrima.

- Te seguirei até a morte. Você é um homem santo!
- Se me seguires até a morte, teu espírito será atormentado. No entanto, se seguires a ti mesmo, então seu espírito lhe mostrará o caminho.

O homem pareceu não me entender, e não me surpreendi, já que ele foi criado naquele meio abominável. Ele me seguiu até a saída da cidade, onde me esperavam os homens famintos. Quando os vi, ansiosos em seus corações por comida, meu coração foi comprimido pelos meus sentimentos. Tamanha foi a minha dor por aqueles homens que chorei ao vê-los, e diante do meu choro eles abaixaram a cabeça. Fui até eles e o homem que me seguia começou a falar.

- Esse homem disse que o mestre é um tolo! Ele é um santo e salvou a minha vida mesmo depois de eu tentar roubar seu cajado!

Os homens me rodearam e logo me levaram a uma pequena casa, na qual quatro crianças estavam fazendo alguns serviços. Lá, ordenaram que me trouxessem comida.
Por uma hora, falei a eles sobre meu lar, e me explicaram que havia maneira de impedir o roubo das colheitas. Ficaram, acima de tudo, maravilhados ao ouvir sobre a Grande mãe, e desejaram em seus corações poder vir comigo, mas não havia, na aldeia, os recursos para dar a eles o que comer.
Imerso em mim mesmo, encontrei-me com o velho sábio, que me falou, rápido como o relâmpago, da seguinte maneira.

- Venda agora o seu cajado para quem o comprar, e compre com o dinheiro toda a comida que puder. Começa agora um novo período na vida, com terríveis lutas e provações para todos os homens. Leve consigo esses homens e toda a comida que puder. Será através do coração de cada homem que ele se conectará com a terra e com os deuses dos céus.

Quando declarei que venderia o cajado, o homem que me seguia se revoltou.

- Você não pode vender o cajado! Ele é da sua tribo! Não faça isso!
- Entenda, homem, que me foi revelado que um novo período chegou, no qual o cajado não poderá nos conectar com a terra, mas apenas o nosso coração. Imagino que com as cem moedas de prata que me foram prometidas, poderei conseguir comida e levar todos vocês comigo para minha aldeia. Fica próxima, logo atrás daquela colina, cercada pelo que sobrou das florestas. Com sementes poderemos plantar e ali vocês poderão fazer parte da família e conhecer a Grande Mãe.

- Entendo que você fale com seu coração. Tenho a acrescentar que a pedra desse cajado vale muito mais do que cem moedas e que há ainda um homem que deve vir conosco. Venderei o cajado, com sua permissão, e trarei os recursos. Sementes e comida. Trarei também lanças de aço para defendermos a lavoura. Comprarei tudo o que eu puder e iremos embora, mas com um homem de valor que não merece viver nesse lugar.

O homem saiu, com espíritos poderosos o guiando. Senti em meu coração que era muito grande a quantidade de força que seu espírito possuía, e que eu fui capaz de despertar nele aquilo que era dele mesmo. Ele, na verdade, não seguia a mim, mas àquilo que descobriu sobre si mesmo e atribuiu a mim. Seria simples demonstrar isso a ele quando ele estivesse na aldeia, e fosse iniciado nos mistérios da Grande Mãe.
Continuei falando aos homens, que ouviam e gravavam cada palavra que eu pronunciava. As mulheres deles me serviam praticamente tudo o que tinham, cheia de esperanças. Apenas uma permaneceu descrente e não gostou de mim, mas não se separou dos outros.

Quando voltou, o homem trazia consigo dois burros com sementes e comida, além do cozinheiro do palácio. Quando o cozinheiro chegou diante de mim, recebi a mensagem do Velho sábio, a qual transmiti diretamente, quase sem consciência do que eu falava.

- Não poderemos levar esse homem.
- Mas por quê?
- Ele é um guia mais sábio e poderoso do que eu, e é a luz desse lugar. Não possuo sabedoria para guiá-lo, e seu espírito é de tal forma iluminado pelos deuses dos céus e pela Grande Mãe que, mesmo vivendo na terra das abominações, conseguiu alcançar sabedoria. Os homens que não vierem conosco precisam dele para que os ilumine e guie.

O cozinheiro, então, se pronunciou.

- Você atribui a mim maior valor do que possuo. É fato e sei do fundo do coração que você ainda é jovem e precisa aprender com a vida, mas não sou maior do que você. Apenas tive mais tempo e despertei meu espírito do sono em que ele foi trazido ao mundo. Contudo, sobre eu ficar aqui, lhe digo que isso sim é mensagem dos espíritos, pois me dizem a mesma coisa. É meu dever ficar aqui, e logo serei morto por isso, mas ficarei. Por aqui, sou dos poucos que ouvem os espíritos, e sem mim os homens mergulharão no abismo, dominados pelas trevas sem terem a quem recorrer.
- Entendo. Eu não conheço o que é meu potencial, se sou poderoso ou se não sou. O que te falei não fui eu quem disse, mas o Velho Sábio da minha tribo. Pode ser que no futuro eu seja capaz de ter sabedoria igual à tua, mas preciso ainda viver com a terra e na terra, como você disse. Eu falava, no entanto, sobre o presente momento, no qual não possuo sabedoria para lhe guiar, tampouco para poder entender aquilo que você precisa. – respondi.
- Você é um bom jovem. Estamos entendidos. Levem consigo ainda esses instrumentos para lavrar a terra que construí. Funcionam melhor do que esses que compraram. Os preparei justamente para isso.

Meu coração se encheu de admiração por aquele homem e por ele conseguir alcançar a sabedoria sem cajado e sem ser iniciado numa aldeia. Repetia-se na minha mente aquilo que o velho me disse. Que agora é com o coração que nos ligamos com os deuses e com a grande mãe. O cozinheiro já sabia disso, e já vivia assim. Precisei vir até a terra das abominações, onde ele aprendeu isso, para também aprender. Nenhuma parte do meu tormento ali foi em vão, mas foi planejada pelos deuses.

Seguimos para a aldeia, e todos nos olhavam enquanto partíamos. O rumor havia corrido entre os soldados sobre eu ter poderes para controlar os homens, e eles me temiam, motivo pelo qual não tentaram nos impedir. Mas vi em meu coração que aquilo era só o começo, e que o guia tolo ainda iria querer nos afligir.
Um dia eu terei que voltar, e quem sabe ajude o cozinheiro ou outro guia de verdade a se tornar o verdadeiro e legitmo sábio daquela cidade. Por agora, no entanto, não possuo sabedoria para isso, e me reservo a viver em harmonia com a natureza, ouvindo o que ela quiser me dizer para me preparar, pois, apesar de eu não o entender bem, parece que ainda há propósitos a serem realizados.

- E foi assim a minha aventura pelo reino das abominações, onde me viam como domador de mentes, quando na verdade o que eu quero é libertá-las. Fiquem atentos, meus irmãos, e aceitem entre nós os novos e os ensinem sobre os caminhos da natureza.

Naquela noite aconteceu uma festa, e todos dançaram e se alegraram com os novos membros da família. Passaram a trabalhar conosco e nos ensinaram técnicas para a construção de nossas casas, para a nossa plantação e também para a nossa defesa, o que, percebi na viagem, se tornou de grande importância. Um novo período começou. E espero ter sabedoria para viver nele...

O tormento do pecador


“Não existe certo ou errado”, dizia ele se revirando pela cama. “eu não tive escolha. Quem faria diferente?”
Mas a sua cabeça queimava. Como se linha de fogo a estivesse atravessando. Para um habitante daquele lugar, que é destituído de consciência, ele poderia encontrar justificativa. Mas para si, jamais.
O corpo estava ali. Todas as evidências foram devidamente removidas, mas ele nem se importava muito com ser pego. Só não se entregava definitivamente porque poderia causar o mal a pessoas inocentes. Aliás, não são inocentes porra nenhuma, mas são amadas. São humanas, carnais e fracas. Mas amadas.
Logo ele, aquele que pregava o amor ao próximo. Aquele que, naquela mesma noite, havia experimentado a sensação boa decorrente do amor genuíno. Logo ele cometeu tamanho crime.

- Eu só estava me defendendo. – disse pra si mesmo
- Mas eu poderia ter evitado todo o conflito. – respondeu
- Mas as circunstâncias foram adversas!
- Covarde. Sabe que era você o testado. Foi você quem falhou em demonstrar amor. Foi você que traiu a Deus e ao amor do universo. Quer culpar as circunstâncias?

Ele se deitou ao lado dos sacos. Todos bem embalados. Um crime tão limpo. Ele viu tudo acontecendo dias antes. Conversou com uma amiga, que o aconselhou a mudar o rumo da coisa. Naquela noite, antes de fazer o que fez, ele estava convicto e decidido a não fazer. Mas fez.
Ninguém saberia, ninguém sentiria falta. No dia seguinte, a vida de todos seguiria como sempre. Mas não a dele. Ele caiu da posição de amante do mundo. Ele possuía uma aura de amor, que o protegia de todo o ódio do mundo. Depois de fazer o que fez, o amor o abandonou. E a culpa o corroeu e o tornou fraco.
Sua própria força mental, que já não podia defendê-lo, estava partida em pequenos pedaços. Menores do que os fragmentos esquartejados e embrulhados em meio aos quais ele se deitava.
Nada que ele pensasse aliviava seu sofrimento. A TV o aborrecia. Felizmente não há pessoa falando na madrugada.

- Nenhum crime sai impune. – disse ele – ninguém abandona os caminhos do amor para se entregar à bestialidade e fica impune. O peso dos milênios queima a minha alma. Logo eu, que deveria ser um exemplo!

A morte teria que ser limpa e rápida. Ele pensava em como faria. Sem barulho, talvez sem dor.
Um fantasma apareceu ali naquela cozinha e falou-lhe.

- Você ainda pode se redimir. Você abandonou o amor, mas pode reencontrá-lo. Caia, se desejar a mudança, de joelhos no chão e peça perdão a si mesmo.
- Que perdão? Depois do que eu fiz? Eu não sou hipócrita! Eu não mereço qualquer perdão!
- Se desistir da sua missão por causa desse desvio, sofrerá por muito mais tempo e com muito maior intensidade. Não espere que tal evento saia impune. Aquele espírito que lhe foi prometido, o qual te daria forças nos momentos mais difíceis, não mais o acompanhará. Com o seu crime você foi condenado, até segunda ordem, a cumprir sua missão sozinho.

O fantasma saiu e ele chorou. Era tão cara a pessoa que ele perdeu. Tão próxima. Terrível era o fato de que ele se revelara um monstro indigno de tal companhia. As lágrimas distorceram sua visão.
O despertador tocou. Era a hora de se livrar do corpo e encarar um mundo que, a cada dia, se revelava mais amigável. Teria que se torturar com a admiração que algum tinham por ele e ouvir calado (embora atormentado), que pessoas estavam orgulhosas dele. Que ele era um herói, e que com sua luta pelo amor ele mudaria ao menos um pequeno fragmento do mundo.
Mas, diferente do que diziam, ele sabia que não era anjo. Ele sabia que, no fundo, era uma peste. Ele pecou, e sua maior punição foi que ninguém o odiou por isso.

Sua maior punição foi ter fama por algo que não merecia.

Afinal, de que valem todos os seus trabalhos e todos os seus esforços se, quando provado, ele sucumbiu à mais selvagem, embora atraente, vontade de destruir?
Não. Um anjo não sorriria enquanto apunhala uma criatura pelas costas. Por mais que ela seja desprezível.

- São os malditos e os desprezíveis que mais precisam de amor. – repetia ele em voz baixa.

Colocou os sacos no porta-malas e saiu de casa. Espalhou os pequenos sacos bem embrulhados e lacrados por lixeiras distantes da casa dele e distantes uma da outra. Viu o sol nascer. Ele tornou aquele dia um pouco mais podre para todo o mundo. Espalhou seu aroma fétido por diversos cantos.
O vidro estava aberto, mas ele mal podia respirar. Chorou quando o rádio ligou e tocou uma música. “ficar sem você, é como tentar viver sem respirar”.
Ele queria nunca ter existido. Morrer naquele momento não era o bastante. Havia pessoas que contavam com ele e eram todas caras. A única pessoa com a qual ele poderia compartilhar tal evento provavelmente cortaria relações com ele. Mas pra quê compartilhar esse lixo?
O mínimo que ele poderia fazer era aceitar o tormento merecido.


Nenhum crime sai impune

Foi só um momento


Foi um dia longo pra nós dois. Mas foi bom. Passeamos por aí. Não conheço o nome dos lugares pra me lembrar e nem importa também. O que importa é que foi um bom passeio.
E eu nem gosto de passear.
Chegamos à casa dela. Barulho de cachorro vindo do quintal. Adoro cachorro.
Entramos no quarto dela e eu deitei na cama. Tão fofa. Não era daquelas que arrebentam a coluna. Era boa mesmo. Melhor que a da minha mãe, que sempre achei que fosse a melhor do mundo.
Ela abriu o notebook, mas fechou. Sentou na cama e me olhou.

- Olha, Silvana, eu não sei não. Você é bonita demais. Isso pode acabar de uma maneira que você não vai gostar. A não ser que seja plano seu desde o começo.

Ela não falou nada. Só respondeu com um sorriso carinhoso e maldoso. Sorriso de criança levada que ela tem. Bonito demais.
Deitou como uma perna em cima da minha. Cabeça no meu peito. O pé dela ficou na minha canela e ela roçou um pouco. Até a sola é macia.
A respiração dela batia no meu pescoço. Isso sempre me deixa maluco. Acho que já falei isso pra ela, até. Foi tudo premeditado, e eu gostei.

- Dá um calafrio quando você solta o ar quentinho.
- Incomoda?
- Não. Só dá um calafrio. É bom.

Ela subiu um pouco. Todo o corpo dela se arrastou pelo meu.
Abriu a boca e deixou o ar sair no meu pescoço. Eu até ouvi o barulho do vento no ouvido.
Minha cabeça levantou espontaneamente. Olhei pra madeira que fica na parte de cima da cama e logo fechei os olhos, quando ela beijou meu pescoço.
Perdi o controle.
Agarrei o corpo dela com força. Puxei pra cima de mim. Meus braços a envolveram pela costela, subindo até o pescoço. Ela colocou as mãos por baixo das minhas costas e subiu com elas até meus ombros. Beijou meu pescoço e esfregou a boca com a língua. Adoro aqueles lábios carnudos dela.
Foi até o meu ouvido e depois esfregou o rosto dela no meu. A pelo macia dela contra minha barba falhada por fazer. Tão macia...
Fiquei ainda mais extasiado.
Passou com a boca na minha, mas não ficou. Foi até o outro ouvido.
Desci minhas mãos pelas costas dela até a cintura e ela colocou a mão esquerda no meu rosto.
Levantou a cabeça e me olhou nos olhos. Pra minha cara de retardado. Sempre faço essa cara.
Sorriu, acho que gostou da minha cara. Na verdade aquele foi nosso primeiro beijo. E foi tão intenso. Foi bem do jeito que eu gosto. Lento, sem pressa nenhuma. Aproveitando cada instante. Ela mordeu meus lábios.
Eu não podia acreditar naquilo. Bem que eu sabia que mais cedo ou mais tarde aconteceria, mas ainda assim soava como um sonho.

- ô Silvana! Teu cachorro fugiu! – gritou a mãe dela

Chegou mais cedo em casa. Estragou nosso clima, mas tudo bem. Agora tudo mudou. Sim, agora nós somos um. Não estou com pressa. Foi só um momento, mas mudou a minha vida pra sempre. Pra melhor.