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An open wound


Tenho uma ferida aberta
Ela pulsa, emana perfume
Mas apesar da dor...
É ela que me faz respirar

A ferida separa um lado do outro
Nada poderia uni-los, sará-la
Mas é ela que me põe em movimento
A dor move a vida, parece

Eu passo pelos lugares
O sangue vai pingando
Parece até infinito
Ele se dilui no mar do cotidiano

Pragmatismos me distraem
Conhecimentos me arrebatam
Mas nada disso seria possível
Sem o perfume de saudade

Dessa ferida aberta que tenho no peito...

Foi de início como a lança do destino
Não poderia ser de outra maneira
Atravessou a minha alma
Pôs tudo em chamas

Depois a ferida secou
Já até ameaçava sarar
Quando foi reaberta brutalmente
Veio pra ficar...

Então eu aperto e deixo sangrar
Que é pra sentir o aroma
Há alguma força no universo
Que não me deixa esgotar...

Chamemos isso de amor...


Deixem-me voltar pra casa



Esse mundo é frio, congelado
Vocês o sabem, já vieram aqui
Andar por aqui queima a pele
Fere o coração, mesmo de um soldado

Selvageria, brutalidade, imbecilidade

A noite está fria
Quero meu cobertor
Ele está em casa, com os meus
Tudo o que eu amo está em casa

As palavras falham, sabe?
Na verdade nem sei mais nomear
As coisas que mais amo
Não tenho capacidade de relembrar

São idéias inconcebíveis de um mundo antigo

Mas essa noite está silenciosa
Quero os sons do lar
Então deixem o sono me levar
Só por essa noite, voltar pra casa

Porque vivendo nesse mundo
Carregando essa sensação horrível
Tudo o que eu preciso agora é disso
Ir para o meu lar, onde nada mais importa

Poderiam vocês, generais dos astros,
Conceder um dia de folga dessa tarefa?
Deixar-me esquecer meu posto
E voar no túnel pelo espaço?

Reflexões sobre a poligamia: despedaçamento e costura


Eu não poderia deixar de começar esse texto com uma fala de uma professora minha. Estou certo de que ela não se importará.
Certo dia, relutante de abordar assunto (provavelmente por ser cristã), a professora tentou trazer o assunto da sexualidade e dos “ritos” que usamos pra criarmos pares. Se enrolando pra pronunciar o que ela queria dizer, ela acabou perguntando quem eram os solteiros da turma e ninguém respondeu. Talvez ela não tivesse em mente que se declarar solteiro traz uma série de compromissos e, quiçá, danos à auto-estima. Ninguém respondeu, e a reação dela eu nunca mais vou esquecer:

- “Mas é só o Silas que é solteiro nessa sala?” – disse ela.
- “Espere um pouco, quem disse que eu sou solteiro?” – disse ela
- “Ah, você não é?” - disse ela num tom de descrença

Eu me perguntei se minha conduta mostrava isso: sempre pensei que a poligamia fosse facilmente escondida, bastando apenas não declará-la tão abertamente. Mas não foi o caso...
E não acabou por aqui.

- “Eu quis saber quem eram os solteiros pra perguntar como os rapazes paqueram” – disse ela com aquela risada de criança arteira
- “Mas quem disse que só os solteiros paqueram?” - eu comentei
- “A, mas esses são os safados” – ela disse num tom de voz baixo sem me olhar nos olhos.

Não acredito que ela tenha percebido o impacto que aquilo teve e como isso se ligou a tudo que se passa nesse mundo estranho. Depois dessa introdução só me resta fazer algumas confissões e assumir que faço parte de um grupo para o qual a sociedade dá as costas. Um grupo de “safados” que são “contra os direitos humanos” e que estão deflorando, por sua própria condição, toda a secular idéia de família. Os polígamos.

Acredito que descobrir algo assim tem algumas semelhanças e diferenças com descobrir a homossexualidade. Trata-se de uma condição, não de uma escolha; e também é uma coisa discriminada, considerada pecaminosa, moralmente incorreta; é, aliás, praticada desde que o mundo é mundo inclusive em sociedades que a proíbem. Mas, diferente dos homossexuais, os polígamos não possuem um movimento forte e politicamente engajado; não têm uma identidade atrelada à sua condição e nem locais onde realizam suas atividades. Não há quem os ampare, nem onde possam recolher nossa cabeça. Além disso, há pouca perseguição sistemática e violência física, como acontece com os homossexuais, especialmente porque a cultura masculina tende a não reprovar essa conduta. Exceto, é claro, quando isso os afeta: se sua mulher decidiu ser polígama, por exemplo. Nesse caso, os polígamos são mortos por pessoas pessoalmente afetadas enquanto que, com freqüência, homossexuais são mortos por estranhos que os perseguem por razões culturais e psicológicas.

Boa parte dos polígamos fogem da honestidade. Assim, se envolvem em relações onde se presume a monogamia e simplesmente pulam a cerca. Para alguns a verdade não é tão importante quanto amar, então vivem cada momento com seus segredos, suas vidas duplas. A respeito de tal classe de polígamos nem tenho muito a dizer. Talvez mintam pra si mesmos dizendo que o outro parceiro é somente algo do momento ou só carnal, talvez só mintam pra todos, inclusive seus parceiros e só se preocupem consigo mesmos. Talvez sejam eles os responsáveis pelo sofrimento dos demais, na medida em que criam o estereótipo de promiscuidade que se associa a tal grupo.

Há outros que estão por aí nos guetos. São com freqüência bissexuais, usuários de drogas ou simplesmente marginais. Sua anomia tem tamanha proporção que a poligamia nem é um problema. Não sei se são corajosos ou loucos, mas a realidade é que não vão ser aceitos como cidadãos decentes e dificilmente os veremos sendo publicamente respeitados. Aliás, tenho a impressão de que esses grupos marginais tendem a funcionar com mecanismos que levam seus membros à progressiva entropia: sendo eles rejeitados, revoltados, anarquistas, acabam vivendo uma vida de pouca perspectiva onde só possuem respeito entre seus pares íntimos.

Seja pelo meu temperamento, seja pela minha criação, não consigo me adaptar a nenhum dos dois.

A idéia de mentir para as pessoas que amo é repulsiva. Tal atitude denotaria apenas que amo a mim mesmo acima de todas as coisas, e isso não é verdade. Nada, pra mim, vai além do amor. Isso é mais uma realidade do que uma escolha: se não compartilho tudo, não compartilho nada. E se não compartilho nada, não há relação, não há intimidade de nenhuma forma.

A idéia de sair pro gueto simplesmente não se encaixa em mim. Não tenho os traços de personalidade que são necessários para a integração num grupo desses. Sou excessivamente tranqüilo, excessivamente pacífico, seguro, estudioso, etc. Eu sou tudo que o gueto despreza e minhas relações, de uma forma geral, são coisas que vivem à luz do dia. Posso ser anarquista, mas isso é um posicionamento intelectual sociológico e epistemológico (Feyerabend): não uma atitude, não há muito de estilo de vida nisso, mas no estilo de pensamento. Isso sem falar que, por conseqüência, as pessoas com quem me envolvo não fazem parte de guetos e não vivem, de forma alguma, qualquer tipo de anomia. São de “família”.

O resultado disso tudo é que não há um espaço na nossa sociedade onde a poligamia se encaixe e, simultaneamente, eu possa me encaixar. Relações, no meu contexto, se constroem de maneira íntima, amorosa e aberta. Na realidade, pensando bem, se não fosse pela poligamia, estaria na posição de dizer que me relaciono de maneira bem saudável. Mas o saudável é algo culturalmente constituído, e como a professora disse, quem não é monógamo é safado.

Mas o que um polígamo nessa situação pode fazer? Compartilhar, de um modo geral, significaria perder a confiança, o amor das pessoas mais próximas. Não compartilhar significaria não tê-las como próximas. O problema é que uma espécie de censura que as pessoas têm, algo que as impede de amar outras pessoas quando estão comprometidas, não é algo dado aos polígamos. Não há a experiência de um amor ofuscando, acabando com o outro. 
O que se procura é colocar as cartas na mesa, compartilhar e viver constantemente com o terror de que, num dia dessas, quem você ama não mais tolere sua condição e te deixe. Ou então acreditar na mentira de que tudo pode ficar sobre controle e viver sempre no risco de cair em tentação ou simplesmente surtar por essa vida de negação de si mesmo. Mesmo assim, não há como todo os amores se tornarem realidade, pois a esmagadora maioria das pessoas não aceitam dividir; e se aceitam, geralmente há condições específicas que são impostas pra manter a estabilidade.

Se o polígamo tiver sorte, se ele for profundamente amado, talvez consiga viver mais de um desses amores, mas não pode haver conflito de papéis. 
Isso me lembra da relação de Jung com Emma e Tony. Em seu coração e em seu discurso, pelo que sei, ele as amava e as considerava suas esposas. Mas ela nunca foi reconhecida, nunca teve filhos e nem podia participar dos almoços com a família. Por mais que eles se amassem, ela nunca pode conflitar com Emma, que era a mãe dos filhos de Jung. Talvez esse tenha sido um caso de sucesso, pois, até onde sei, o próprio temperamento de Wolff era independente demais pra levar uma vida tal como a de Emma, mas ela não foi a única. Há rumores de que Jung teve uma relação com Sabina Spielrein e cartas que parecem dar créditos a eles (ver memórias, sonhos e omissões - Dr. Sonu Shamdasani). No entanto, nesse caso não houve qualquer tipo de acordo. Ela quis Jung por completo e ele não pôde ceder. O que não significa, é claro, que ele não a amou. Apenas que houve um conflito com relação aos papéis, pois Emma Jung era, para Jung, seu fundamento, Toni Wolff era a essência e Spielrein, aquela que não teve lugar. Diríamos que esse caso foi de menos amor, de menos importância do que os outros? Creio que não. Mas de uma coisa eu sei: por mais que tenham aceitado, Toni e Emma sofreram. 

Tudo o que resta, portanto, é lutar com todas as forças para não deixar alguns amores se tornarem vividos, é se evadir do próprio coração! É ver quem nós amamos desamparado, desprotegido, sem que possamos fazer qualquer coisa a respeito. É ter para uma pessoa um lugar quente no coração e, ainda assim, assistir ela congelar diante dos olhos.

Na realidade, me vejo com o temperamento tão parecido com o de Jung em certos aspectos que chego a questionar e rejeitar certas características de sua obra, por mais que a admire. Talvez eu consiga fazer como ele, talvez eu faça como a figura que se encontra no topo desse post. Mas a realidade é que, de uma forma ou de outra, essa condição será sempre um podre, algo a ser escondido, a ser, inclusive, negado em sua existência; sempre trará, aliás, sofrimento e insegurança pra quem estiver envolvido, talvez pela bagagem cultural.

Talvez algum dia isso mude, talvez um dia um homem possa erguer sua cabeça, se declarar polígamo e ainda assim ser reconhecido como um cidadão decente que preza pelo bem de todos. Mas isso só vai acontecer que houver união.



Estávamos na praia

Eu os vi removendo seu hímen
Cirurgicamente, quase indolor
Mas eu ouvi seu gemido
Eu vi que você me olhou

Você me convidou com seu olhar
Fomos pra água
Estava escuro
A água estava perigosa

Brincamos feito crianças
A correnteza nos arrastou
Você não se importou
Tentei fingir que estava tudo bem

Mas acabei saindo de lá
Te avisei, e você veio comigo
Não tinha medo da água
Só veio porque eu vim

Deitamos na areia, rolamos
Sorrimos, vi seus olhos brilhando
Quis te beijar, e um menino gritou
Percebi a multidão que nos assistia

Afinal, como declarar isso a eles¿
Que uma das regras mais fundamentais,
Meu temperamento contradiz¿
Com discursos racionais¿

Eu poderia dizer-lhes
Que cuidem de sua própria vida
Que não sou um libertino
Que isso é amor...

Mas não...
Eu escolhi fugir.
Corri contigo pela praia, alguns nos seguiram
Tinham veredictos em suas mentes

Eu nem percebi
Mas no meio dessa fuga,
Perdi você
Nosso momento passou

Num instante, eu estava no telefone
Falava com ela
Aquela que amo e que permitem
Que posso abraçar sem ser condenado

E foi bom...

Mas em alguns momentos
De reflexão, meditação
Lembro do que senti
Quando estávamos na praia...

What i am to you



Sou só mais um
No meio da curva normal
Mediano, previsível, comum
Uma representação média

Eu sou algo irrelevante
Que é indigno de preocupação
A sombra do homem invisível
Um detalhe pequeno demais

Sou uma fonte útil de calor
E também uma força propulsora
Dou proteção e sou força motriz
Sou instrutor e escudeiro

Enquanto eu for uma distração
E enquanto tiver alguma utilidade
Terei meu lugar dentro de você
Dentro do seu tubo digestório

Vou ser ruminado, corroído
Arrastado, sugado até a última gota
Então meus restos mortais serão expulsos
E meu funeral será girar e ser eliminado

Mas saiba de uma coisa
Que talvez eu entre no seu sangue
E aí chegue ao seu coração
Nesse ponto, não haverá volta

O encontro com Perséfone

- Atenção, homens, pois hoje veremos mais um rio de sangue. – disse o gigante sem nome
- Ele está certo! – gritou Emanuel – estou sedento!

Os homens gritaram, alguns ainda de posse das mulheres da última batalha. Há dois dias haviam dizimado um feudo. Não queimaram nenhuma casa, embora apenas meia dúzia de pessoas tenha conseguido se esconder e sobreviver. Colocaram uma estaca na terra com o crânio do senhor daquelas terras e a declararam maldita.

- Iremos eu, meu irmão e mais cinqüenta homens. Quero comigo somente os cães mais sedentos, as bestas mais insaciáveis. O resto pode continuar bebendo e usufruindo as mulheres. Se mais de cinqüenta quiserem, se matem pelo direito, pois nenhum a mais me seguirá. Vamos lutar contra 300 soldados e toda a criatura que possuir vida naquele castelo.

Os homens gritaram e se acumularam em torno de Emanuel. Alguns se mataram, e no final se formou a tropa, alinhada. Todos eles sorriam, seus olharem brilhando diante do sol nascente. Todos estavam montados em sues cavalos.

- Não temos o dia inteiro! Vamos! – gritou o gigante sem nome

Os dois irmãos correram a pé, à frente da tropa. Sua velocidade de corrida era maior do que a de um cavalo, então a reduziram para os homens não os perderam de vista. Emanuel sentiu um frio na espinha. Algo como um presságio. Ele seguia um sonho, que compartilhou com seu irmão. Ambos viram, na noite anterior, que deveriam perseguir a estrela que ficava acima da torre daquele castelo. Difícil ver outros casos em que dois irmãos compartilham tantos sonhos assim. Correram por quatro horas até avistarem o castelo.

- Deixem seus cavalos aqui, homens. Agora marchamos a pé – disse o gigante sem nome
- Pego a direita, irmão? - disse Emanuel
- Sim, como preferir. Mas subimos à torre juntos.

Emanuel rosnou com empolgação e os homens gritaram logo em seguida.

- Vamos, seus cães. Em nome da morte! – Berrou Emanuel

E todos correram em direção ao castelo, demorando mais vinte minutos para chegarem perto da zona de alcançe dos arcos da muralha. A corneta de alerta soou e o portão se fechou. Arqueiros lotaram a parte superior do muro. Um cavaleiro saiu do castelo para negociar a rendição.

- Não queremos problemas com o imperador. Nosso rei não desafia sua autoridade. Podem levar nosso ouro e nossos animais. – disse o Arauto
- Não estamos a serviço do imperador, tampouco queremos sua propriedade. Nós viemos atrás de sangue. Somos 50 e desafiamos vocês a luta.
O homem se espantou. Pálido, deu as costas à Emanuel e voltou para o interior do castelo, onde o Rei o esperava. Sem perder a compostura, o Rei convocou seus soldados e fez um inflamado discurso, do qual só se pode ouvir um grito: “até a morte!”
Pelo menos 500 soldados saíram pelos portões, dos quais 200 possuíam montaria. Emanuel sorriu, tendo em vista que tal quantidade de soldados era proibida pelo imperador. Eram conspiradores, o que justificava a carnificina. Não teriam problemas com Frederico.

- Não deixem nenhum homem, velho ou criança vivos! As mulheres, quem quiser as tome para si!

Ele gritou e os homens avançaram, debaixo das flechas dos arqueiros. Dos cinqüenta, dois foram atingidos, enquanto que os outros conseguiram se esquivar ou se defender com seus escudos. As tropas do castelo avançaram e os dois irmãos saltaram, cada um do seu lado. Emanuel com sua Espada da Morte, e o Gigante apenas com seu gigantesco escudo.
O Gigante lançou um cavaleiro a dois metros do cavalo quando caiu, dando em seguida um giro que matou alguns e afastou outros, que se esquivaram. Quando Emanuel caiu, cortando três homens ao meio, ele berrou, ao que seu irmão o acompanhou.
Os inimigos mal atacavam, paralisados de medo dos irmãos, enquanto a tropa de cavaleiros negros se chocou com a formação de infantaria na linha de frente.
Não muito diferente de outras batalhas, essa durou pouco tempo. O gigante matava uns com o impacto do escudo e outros simplesmente os pegando e mordendo, como preferia. O exército logo de dissipou, e foi perseguido até certo ponto. A maioria dos soldados foi dizimada.
Os arqueiros voltaram a atirar, derrubando dez dos cavaleiros negros antes que eles fizessem a formação de proteção com o escudo.

- Esperem o nosso comando! – berrou Emanuel enquanto corria na direção da muralha.

Os dois irmãos saltaram em direção aos muros e caíram próximos ao topo, escalando o resto. Os poucos arqueiros que não estava amedrontados e conseguiram atirar acertaram algumas flechas neles em pleno ar, o que pareceu não ser de grande incômodo. No topo, rapidamente avançaram partindo em pedaços os arqueiros. Alguns se jogavam do muro em direção á morte certa, por puro medo dos gigantes. Ouvia-se gritos dentro do castelo.

- Os Demônios! Os Demônios!

O último arqueiro pegou uma adaga e atacou Emanuel. Em seu desespero, tropeçou e caiu. Ele fechou os olhos, esperando ser esmagado, e Emanuel o ergueu com o braço esquerdo. Ele berrou e os soldados avançaram na direção do portão. O homem desmaiou de terror e foi lançado em direção a torre, sua cabeça como a ponta de uma lança. O Gigante abriu os portões e os soldados entraram. Pessoa corriam de um lado para o outro, desorientadas. Aparentemente essa era a única saída disponível.
Pessoas pedindo clemência, outras desmaiadas ou fingindo-se de mortas. Incrível como diferentes táticas surgem para a sobrevivência. Mas um Cão bem treinado não se deixa sensibilizar ou enganar.
Logo o último grito se silenciou, sobrando apenas murmúrios de dentro do castelo trancado.

- Descubram um meio de arrombar a porta e nos encontrem lá dentro. Estuprem a rainha! – Gritou Emanuel

Os dois irmãos saltaram e escalaram as paredes, cada um entrando numa janela. La dentro, alguns soldados o enfrentaram. Era difícil dizer se eram corajosos ou simplesmente suicidas. Pareciam, no entanto, guardar um enorme tesouro, que logo Emanuel pôde contemplar.
Numa espécie de salão principal, ele encontrou um grupos de clérigos, nobres, serviçais e soldados. Pela aparência das vestimentas, parecia que um casamento estava acontecendo. Ele e o irmão saltaram do segundo andar para um lado daquele salão, enquanto que os outros se amontoaram do outro. Todos apavorados, menos alguns soldados, que foram rapidamente massacrados.
Eles avançaram sorrindo e com curiosidade nos olhos. Buscando humilhar o Rei, convocaram a Noiva, sua filha.

- Onde está a Noiva!? - Gritou o Gigante

Ninguém respondeu, e ele logo avançou a começou a matar as pessoas que corriam e se empurravam. Emanuel, no entanto, a avistou. E não pôde acreditar. Era ela, a sua guia dos sonhos. Ela mesma, vestida de branco.
Os homens conseguiram arrombar a porta e se uniram ao Gigante na matança, enquanto Emanuel se apressou em capturar a Noiva. Pegou-a em seus braços e saltou de volta para o segundo andar. A deixou lá e desceu para avisar o irmão. Acabou se distraindo e matou algumas pessoas. Os homens perceberam a noiva e subiram ao terceiro andar para estuprá-la. Ele, prontamente, saltou e volta e matou o primeiro.

- Quem tocar nela morrerá. É minha e do meu irmão. – Disse Emanuel

Os homens recuaram e voltaram ao primeiro andar, onde as mulheres foram agrupadas. Dos cinqüenta iniciais, trinta estavam de pé. Avançaram sobre as mulheres, como de costume, matando algumas e estuprando outras.

- Irmão! Meu irmão! – gritou Emanuel

O gigante subiu rapidamente, pois nunca foi chamado com tanta urgência por Emanuel. Chegando lá, logo se viu hipnotizado pela visão da princesa.

- Perséfone! – exclamou ele
- Que nome é esse? - perguntou Emanuel
- É o nome de nossa mãe! Não se lembra
- Não lembro de nada sobre nossa mãe. Aliás, com freqüência imagino que ele nunca existiu.
- Pois existiu, e cá está renascida!

Os dois ficaram pasmos, olhando para o olhar vazio da moça. Emanuel, invadido por uma estranha emoção, nem se movia. Ele não sabia o que fazer com tal emoção. Parecia tão poderosa quando seu ódio, podendo fazê-lo desvanecer ou aumentá-lo. Aquela estranha força, que ele chamou de Amor em nome de Matias, parecia um espírito livre agindo em seu corpo e sua alma. Aqueles cachos loiros voando com a brisa vinda da janela, aquelas marcas de lágrima secas no rosto. Cada mísero detalhe ele armazenava. Era um Anjo¿ Só poderia ser de origem divina, para paralisá-lo de maneira tão forte. O despedaçava, embora a sensação fosse melhor do que qualquer chacina.

- Hades, o Deus do Submundo, deve ter-nos presenteado por termos mandado tantas almas ao seu encontro. – Disse o gigante. – Os Deuses nos favorecem.
- Não há deus algum nos céus. Há apenas uma Deusa, que habita entre nós. Ela é a deusa da morte e da vida, da destruição e da construção. Ela odeia e ama, acolha e abandona.
- Então talvez tenha sido ela a nos presentear de tal forma. É apropriado que aceitemos tal presente, o honrando com maiores e mais grandiosas chuvas de carne e sangue.

Emanuel concordou e pegou a mulher. Ela não reagia. Parecia estar morta, embora seus pulmões ainda se enchessem de ar. Seu espírito estava noutro lugar, alheio àquela situação. Seus olhos pareciam tão vazios quanto os de condenados esperando a morte. Aquele olhar que toma o ser humano quando a palavra esperança não tem mais nenhum significado.
Eles saíram do castelo, se deparando com a lua. Os homens carregavam mulheres. Eles perderam a noção de tempo, olhando para Perséfone.
A pele dela era tão macia, tão quente... Emanuel esfregava o rosto no braço dela, enquanto observava seu vestido cheio de sangue e lama. O sangue de sua família e a lama de sua terra, todos agora uma coisa do passado.
Surgiu nele uma coisa diferente. Amor, Luxúria. Um impulso por vida.
E assim foi o encontro de Emanuel com Perséfone, e o nascimento do Amor no coração de um cão do submundo...

Um dia triste

Era disso mesmo que eu precisava. Um dia sozinho. Totalmente distante do contato humano. Sem conversas para me distrair, apenas para ficar imerso em mim mesmo. Eu sei que é triste, mas todos nós temos o direito de sofrer de vez em quanto, não?
Eu digo que sim. Que todos merecem um dia pra amaldiçoar o destino, amaldiçoar aquelas circunstâncias fora do nosso controle que nos separam do que mais desejamos. Sejam essas circunstâncias parte do seu corpo, da sua situação social, da sua localização geográfica ou qualquer coisa.
É um absurdo alguém me dizer que nesses dias eu deveria apenas sorrir! Sorrir porque, pra que?
Ora, claro que há muitas coisas boas na minha vida. Tenho amigos, e dos bons. E também tenho, parece, um espírito que vive me seguindo, como um anjo da guarda, e que me trás muito conforto e aprendizado. Tenho meios para sobreviver bem, me alimentar bem, Abrigo, respeito, um corpo em perfeitas condições de saúde.
Mas isso é a mesma coisa que dar água como consolo a um homem que tem fome!
Claro que sou grato por essas coisas, mas isso não é algo que vá me manter alegre em todos os sentidos. Porque parece que eu não sou daqui, que não sou acostumado com os limites desse mundo.
Aquela estrada me dá Náuseas. Queria poder simplesmente voar, cruzar 400 quilômetros em dez minutos. Queria poder sobreviver em qualquer lugar, sozinho ou acompanhado, desse planeta.
Mas estou preso por laços que não posso quebrar e o que mais desejo, por causa disso, está simplesmente fora do meu alcance. E às vezes eu me pego pensando em me misturar com os hábitos locais, em ter dinheiro e não permitir que algo assim aconteça de novo. Pensando em trair minhas origens e me dedicar aos objetivos mundanos, medíocres, ridículos das pessoas que pensam que isso aqui é normal.
E por mais que eu lute, e gaste minha energia em algo que provavelmente será inútil para o meu espírito, o momento já passou. Já se passaram dois momentos, e não há como mudar. Não há como voltar atrás.
Sim, eu voz declaro. Hoje é um dia triste, um dia desagradável. Claro que vou me recuperar, claro que vou ter outras chances, claro que tudo nunca acaba de verdade. Mas essa é a realidade de hoje. Não estou mais revoltado com o destino nem nada. Apenas queria um pouco mais de força para suportar as limitações dessa existência, especialmente para aquelas a respeito das quais nada posso fazer...
Money will always defeat love...

Uma noite triste

 
 
Ah, quantas idéias estavam na minha mente! Eu estava eufórico, tinha que contar a alguém. Só poderia expor tais descobertas a um amigo e a ela. Ele, no entanto, estava excessivamente ocupado pelo fim de semana com uma viagem. Terminei meu trabalho mais cedo e, pela primeira vez, segui o hábito dos outros de sair uma hora mais cedo nesse dia. Se perguntarem, fui ao médico.
Peguei o carro e a rua não estava engarrafada. Talvez porque eu saí antes do horário do rush. Eu normalmente saio as 6 pra chegar em casa as 6. Nesse dia, saí às 4 e cheguei ás 4:30.
Passei na padaria, comprei uns doces que ela gosta, mas nunca come pra não engordar. Naquele momento minha mente já estava mais calma, mas eu sempre fui de me acalmar fácil. Enquanto falo de algo assim, minha euforia retorna. É normal.
Entrei em casa, como sempre, em silêncio. Fui ajudado por um vizinho nos fundos de casa com um funk no último volume e o vizinho do lado, como que reagindo, com heavy metal. Pensei em sair daquela casa, já que ambos os sons deviam estar incomodando ela profundamente.
Cheguei na cozinha e vi ela nos fundos. Fiz silêncio pra dar um susto nela, mas aí percebi o Jean ali. Eu soube que no dia do meu casamento com ela esse sujeito tentou se matar. Preferi não interferir, dar a ele a chance de falar o que sente. Afinal, talvez fosse bom pra ele.

- Jean, eu não te disse que acabou? – disse ela

Fiquei curioso, porque, segundo eu soube, nada nunca havia começado.

- Eu li livros de auto-ajuda e nem eles me ajudaram. Na verdade um me deprimiu ainda mais com aquele papo de que certas pessoas estão destinadas a se unir. Eu fui no psicólogo e ele disse pra eu deixar sair o que eu sentia. Só to fazendo isso. Eu te amo.

Houve um período de pelo menos 30 segundos de silêncio. Não pude ouvir nada por causa da música.

- Eu estou casada. Você sabe muito bem que com esse seu vício de bebida não tinha como.
- Vício? Eu parei de beber depois que aquele crente me salvou. Nunca mais bebi nada alcoolico.
- Que bom, fico feliz por você.
- Para com essa atuação piegas que eu sei o que você sente.
- haha. Você é a única pessoa que eu conheço que diz “piegas”.

Eu vi com os meus próprios olhos um beijo. Imóvel, firme e silencioso no começo. Eles se entrosaram, logo estavam abraçados. Derrubei um copo por acidente ou talvez um ato falho para aquilo acabar. Ouviram, mas rapidamente voltaram um ao outro. Estavam como que liberando uma besta retida já a muito tempo.
Eu fiquei sem ação. Não sabia se corria, se ficava, se gritava, se calava. Acabou que assisti em silêncio até o ponto em que ele a levantou na máquina de lavar e se enfiou entre as pernas dela. Ainda hoje sou apegado demais para conseguir assistir a uma cena dessas.
Fui até o quarto e fiquei chorando por alguns minutos. Eu não sabia o que fazer. Não era leviandade, não era só sexo. A mentira era muito maior. Eu pensava que o coração dela era meu, mas nunca foi. Ela provavelmente só me considerou mais adequado por eu ser um bom amigo. Não sei.
Mas a polícia chegou lá e a música parou. Dava pra ouvir o suspiro dela sem a música. Nunca pareceu sentir tanto prazer assim comigo. Eles dizem que o orgasmo da mulher é muito relacionado à paixão que ela sente. Talvez seja isso ou eu só seja ruim de cama mesmo.
Eu arrumei minhas coisas de qualquer jeito. Nunca fui de querer muita coisa e foi ela que comprou quase tudo na casa. Só levei meu computador, as roupas e os principais livros. Eu tinha que levar minha idéia adiante, aquilo era importante. Mas agora eu me pergunto como eu consegui pensar nisso naquela situação. Eu chorava carregando as pilhas de livros. Acho que enrolei pra encher o carro com as minhas coisas na esperança de ser interrompido. Foi uma esperança idiota: só ouvi eles transando até terminar.
Sentei na mesa do computador pra escrever uma carta de despedida. Escrevi algumas bobagens sem sentido e fui amassando e colocando no bolso.
No final, acabou saindo só uma palavra e em inglês, como se no fundo eu esperasse que ela não entendesse de princípio.
Farewell: vá bem, fique em paz, Adeus.
Minha aliança ficou junto com o pedaço de papel e minha cópia da chave da casa.
Quando eu saí o carro demorou pra ligar. Tinha que trocar a bateria ou algo assim. Isso acabou interrompendo os gemidos e eu vi. Eu juro que vi ela coberta com um lençol e com o cabelo bagunçado me olhando pelo retrovisor enquanto eu saia.

- Essa sim, meu amigo, foi uma noite triste. – Disse eu no bar pro velho

Ergui o copo e enchi novamente com vodka.

E bebi até cair com o velho surdo...

A fome


Eu abri a dispensa de casa. Cheia de coisas que me dão asco. Eu não queria comer nada daquilo, embora estivesse cheia. Um biscoito lacrado estava atraindo formigas. Mas aquilo não tinha como me tirar minha fome. Saí de casa andando sem rumo. Eu tinha rumo definido, mas não na mente. Em outro lugar. No inferno, talvez.
Fui selecionando esquinas aparentemente de maneira aleatória. Eu só olhava pro chão, com minha respiração acelerada e minhas mandíbulas rígidas. Minha boca cheia de água: eu estava com fome.
Quando dei conta de mim, estava na frente daquele santuário da perdição. B&K empreendimentos. Uma empresa de contabilidade sem nem uma máquina de vender refrigerante. Entrei assim mesmo.
Nove e meia da noite, o guarda veio me avisar que eu não poderia entrar, ao que tirei uma faca de algum lugar e cortei sua garganta. Continuei andando meio inconsciente, cheguei a pensar de onde tirei a faca. Devo ter pegado em casa e nem vi. O sangue do guarda escorria pelo chão. Eu assisti enquanto esperava o elevador. Bati o pé no chão num ritmo meio acelerado, quase compulsivo.
Subi até o nono andar, eu sabia exatamente onde estava indo. Não havia como esquecer. Foi ali que ele despertou, ou que eu despertei. Não sei, mas ali que tudo despertou. Eu lambi a faca. Detesto gosto de sangue. Tem vida demais...
Aquele lugar era cheio de divisões falsas. Originalmente era um grande salão, mas depois foi dividido e a maioria ficou comprimida num canto pro chefe pode jogar golfe. Só pra ele jogar golfe! Isso enquanto eu desfazia as merdas que ele faz.
Mas não estou enganando você e nem a mim mesmo. Não é porque ele me difamou que estou aqui. Não é porque perdi meu cargo por ele. Eu não ganhava nada por isso, só a empresa. A razão de eu estar aqui é por causa da minha fome que nunca está saciada. Uma fome que me trás sofrimento, desgosto, delírio, agitação, morte. As portas do porão da minha alma foram abertas.
Passei a faca no rosto. O outro lado ainda tinha sangue. Lá estava ele. Tinha uma mulher de lingerie. Gostosa, ela. A secretária dele. Estava chupando o pau dele, enquanto ele segurava um bolo de dinheiro olhando pra cima. Eu sempre fui sorrateiro, nem me viram chegando.
Meu corpo começou a se agitar. Se preparando pro combate, como um primitivo pedindo o auxílio dos deuses. Minha cabeça se contorcendo, tudo girou por uns instantes. Fiquei nervoso, calmo, ansioso, receoso.
Na hora nem vi nada. Quando me dei conta a mulher já estava com a faca atravessada na garganda se debatendo no chão e eu estava derrubando o maldito na mesa de vidro. O som foi delicioso. Quebrou com a cabeça careca do filho da puta. Ele segurou no meu terno com os olhos fechado e eu mordi o pulso dele com toda a força. Ele gritou e me soltou.
Pegou um pedaço pontudo de vidro e apontou pra mim, com um olhar de desespero. Covarde.
Peguei a faca do pescoço da mulher e enfiei o dedo na boca dela. Achei que isso iria perturbar o sujeito, mas ele não mudou a expressão. Ele não dava a mínima pra vadia.
Levantei com a faca, meus joelhos meio dobrados. Percebi que estava com uma bota grossa, como coturno ou algo assim. Ele, por outro lado, estava descalço, pisando no vidro com dificuldade.

- Quem é você? Olha, seja quem for que te mandou, eu pago mais. – gritou ele

Nesse momento eu percebi que uma toca cobria meu rosto e só o olho ficava amostra. Quando foi que coloquei isso na cabeça eu não sei.
Lembrei de alterar minha voz, que, por algum motivo, já estava naturalmente mais grave do que o normal.

- Você vai pagar com sangue.
- Caralho, te dou um milhão de reais!

Eu girei e dei um chute no ombro dele, ao que ele caiu no chão e derrubou seu caco de vidro. Se arrastou até a janela e eu subi em cima  dele. Deixei a faca na garganta dele e fiquei olhando a cidade. Carros andando, algumas janelas acesas noutros prédios. Ninguém se importava com aquilo.

- Porque você está fazendo isso? – perguntou ele
- Não sei e não me importo em descobrir.
- Quem te mandou
- O diabo.

Saí de cima dele e ele se levantou. Andei calmamente pelo lugar e ele ficou parado no mesmo lugar. Olhava pro telefone, então corri e enfiei uma faca na barriga dele. A janela estava aberta e o sangue escorria pra fora. Empurrei-o pra fora e ele se segurou na minha mão. Um desespero naqueles olhos negros, naquela cara de idiota. Mergulhei pela janela com ele e chutei a cara dele antes de me segurar numa corda. Não senti minha mão doer enquanto escorregava devido à velocidade em que já estava, e foi aí que vi que usava uma luva legra de couro. Eu nem lembro de ter essa luva. Meu corpo estava todo numa roupa preta de couro que eu não reconheço. Aquela corda eu me lembro de tê-la visto de manhã. O sujeito estava limpando o vidro e ela ficou pendurada. Não sei se ele esqueceu ali ou se era pra ficar mesmo, mas estava bem na janela dele. Lembro de ter feito essa estimativa quando saí à tarde...
Desci até o segundo andar, onde a corda acabou e eu soltei. Caí em cima dele e isso espirrou sangue da boca dele. Sexta feita à noite, o lugar deserto. Ninguém viu o cadáver.
Sentei ali e acendi um cigarro. Eu não sabia que tinha, tampouco que eu fumava. Detestei, tossi, mas fumei tudo. Não sei porque.
Ele ficava tremendo, então fiquei, de alguma maneira, irado e comecei a esfaquear a barriga gorda dele. Nem sei quantas vezes enfiei a faca nele. Só parei quando perdi o fôlego. Depois eu só fiquei arrastando a faca, cortando sem furar. Quando me senti satisfeito, vomitei num bueiro. Nem meu vômito eu deixei no chão. Tirei um saco preto de lixo do meu bolso e comecei a tirar minha roupa. Havia outra por baixo, como se tudo tivesse sido meticulosamente planejado. Nenhuma gota de sangue na parte de baixo.
Coloquei a faca dentro do casaco. Tinha uma caveira na parte de trás dele. Que pena que tive que destruir. Fui até aquela baia podre, cheia de lixo boiando. Não vão acreditar se eu disse, mas tinha uma garrafa de álcool intacta escondida lá. Acho que fui eu quem a deixou ali.
Queimei tudo, mas ainda sobrou algo. Isso eu coloquei dentro de outra sacola, com várias pedras. Daí joguei na água e afundou.
Não sei o que estão pensando, nem o que estão sentindo. Mas eu não pensava nada e me sentia tranqüilo. Não vou mentir não. Foi bom, libertador. Sentei na beira daquela água com cheiro de merda, depois dentei perto daquela pilastra com cheiro de mijo. Foi o momento mais tranqüilo que tive em meses...
Matei minha fome...

Força de vontade



É a máxima desse mundo
Força de vontade, força de vida
Vá, adiante, cabeça erguida
Mas eu nem sou desse mundo...

Aqui tem coisas simples
Que desaprendi a apreciar
Aqui os detalhes são mais interessantes
O principal não tem graça

As pessoas andam pra lá e pra cá
Elas querem, elas perseguem
Nem sabem quem são
Mas isso nem importa

Eu sei quem sou, de onde vim
Já cheguei a uma conclusão satisfatória
Não sei meu destino, mas sei quem sabe
Só não consigo andar

Eu sei o caminho do paraíso
Mas não tenho força pra saltar
Não consigo chegar lá
Porque não tenho nenhuma

Força de vontade

O herói precisa de uma musa
O algoz de uma vítima
O salvador de inocentes
O sábio de loucos

Todos possuem uma fonte
Um por amor, outro por ódio
Um por piedade, outro por indignação
Mas eu não

Não tenho musa, nem vítima
Não tenho a quem salvar
Tampouco alguém a ensinar
Onde tudo foi parar?

Às vezes esqueço que sou louco
Penso que não inventei meu mentor
E me pergunto num tom pesaroso
“Porque você me escolheu?”

“Porque os miseráveis precisam de mais.”
“São desajustados por fora,”
“Vazios por dentro”
“Precisam de grandes espíritos”

Sim, a carta é pra você

Já faz tempo que não te escrevo, não? Nem sei quem você é!
Eu fui lá fora. Quero dizer, fui arrastado pra lá. Descobri que por lá as coisas não são como eu imaginava. Há todo um mundo onírico, sabe? Demasiadamente idealizado. Lá, onde o sol se recusa a bater, há homens com honra, e outros sem. Onde eu fui quem morre primeiro é quem não merece. Quem merece também morre. Às vezes cedo, as vezes não.
Lá fora são curvas que governam o mundo, sabe? As curvas do corpo de uma mulher, as que tomamos na vida. O problema de uma jornada repleta de curvas é que você nunca sabe onde vai chegar. Você olha e imagina, mas no fundo não sabe de nada. É tudo imaginação. Alguns têm a sorte de descobrir a tragédia apenas tardiamente, mas outros a descobrem cedo.
Descobri.
Não, a vida de um homem não vale tanto na vida real quanto no nosso mundo imaginário. Na vida real, um homem é um número. Alguns, os gananciosos, são números com muitos zeros.
Eu sei o que você vai me dizer. Que homens possuem almas. Mas de que adianta se eles vivem num mundo que exige que sua alma nunca venha à tona? Esses homens morrem cedo, lad. Morrem tão cedo que na maioria das vezes nunca entendem o que pode ser a alma. E quando entendem, perdem a consciência.
O máximo que podem aprender é a ter honra. A respeitar uma lei, aceitar algo acima de suas cabeças. Eles vivem em mundos separados, cada um no seu jardim...
A carta é pra você, mas não é sobre você e nem sobre mim. Ela é sobre a vida. Sobre se sentir vivo e perceber que isso em breve será sentir a vida ir embora.
Eu posso sair amanhã ou na quarta, e, nalgum desses dias, um daqueles metais voadores pode perfurar meu crânio, um carro pode me lançar a alguns metros de distância. Você sabe que tudo isso é muito efêmero.
Nós falamos muito sobre o mundo metafísico e até mesmo sobre o mundo psicológico.  Exploramos juntos o poder que um homem pode ter sobre a mente e sobre o corpo do outro.
Mas vamos encarar a verdade: a realidade desse mundo nos torna impotentes. Não somos mais espíritos. Todo o poder de um homem astuto se vai quando ele leva um tiro na cabeça.
Sejamos sensatos: tudo isso é muito maior do que imaginamos. É muito maior do que poderíamos imaginar.
Eles me disseram que a cada dia minha fé seria testada. Esqueci de avisar que eu não tinha fé.
Agora o que eu sei é que uma bala pode ser mais rápida que um pensamento. Agora eu tenho fé no fato de que a morte é certa, mas a vida não.
Eu vou construir idéias que serão capazes de curar a mente de homens. Já construíram isso, e conforme o tempo passa, nós chegamos aqui pra reconstruir, readaptar à nova época.
Mas dessa vez tem algo a mais. Eu não vim mostrar isso. A cura, uma cura. Meu espírito me carrega por terrenos sombrios. Cada vez mais podres são os caminhos para os quais sou levado, e é cada vez mais perigoso e sem volta o meu destino. Será que sou mesmo um mensageiro da morte?
Eu tenho ainda um lugar entre os anjos, lad? Lembram de mim por aí? Avise-os que talvez eu tenha ficado tempo demais na terra dos demônios. Nunca poderei ser um deles, mas perdi o brilho dos meus olhos. Eu não posso mais voar, bem aventurado pelos céus do universo. Não posso mais. As minhas lágrimas secaram.
Nem sei o que estou escrevendo. Você existe mesmo? Quem é você, quem sou eu, quem somos nós?
Essa carta é sobre a minha morte. Isso mesmo. Sei que não acreditamos na morte do corpo, e que concordamos sobre a nossa alma se conservar por um tempo tão longo que nos arriscamos a chamá-lo de eternidade, por ser tão longo que não o entendemos. Mas eu hoje morri. E não precisa guardar a data, porque tempo não existe. Amanhã devo nascer de novo, com as marcas das feridas pelo meu corpo. Então viverei mais um pouco e serei assassinado mais uma vez. Ser assassinado nesse mundo é um destino do qual poucos podem se livrar.
Porque enquanto o pedaço de metal voador perfura a cabeça de um homem, seja ele quem for, ele também atinge a minha alma, e ela se torna mais dura, mais ferida.
Alguém morreu hoje, e o que eu vou fazer?
Morrer também!
E continuar morrendo enquanto os pedaços de metal continuarem a matar os homens. Acho que vou morrer tanto, que me tornarei imortal. E aí a morte dos homens se tornará tão comum, que nem aos milhares, ao milhões, poderá me comover. Quando e se esse dia chegar, deixe de esperar minhas cartas. Estarei ocupado demais existindo como uma rocha. Só a chuva poderá me corroer, e me transformar em pequenos pedaços. Aí, esses pequenos pedaços entrarão novamente no ciclo de todas as coisas.
Sim, lad. A carta é pra você. É pra todos e pra ninguém...

O tormento do pecador


“Não existe certo ou errado”, dizia ele se revirando pela cama. “eu não tive escolha. Quem faria diferente?”
Mas a sua cabeça queimava. Como se linha de fogo a estivesse atravessando. Para um habitante daquele lugar, que é destituído de consciência, ele poderia encontrar justificativa. Mas para si, jamais.
O corpo estava ali. Todas as evidências foram devidamente removidas, mas ele nem se importava muito com ser pego. Só não se entregava definitivamente porque poderia causar o mal a pessoas inocentes. Aliás, não são inocentes porra nenhuma, mas são amadas. São humanas, carnais e fracas. Mas amadas.
Logo ele, aquele que pregava o amor ao próximo. Aquele que, naquela mesma noite, havia experimentado a sensação boa decorrente do amor genuíno. Logo ele cometeu tamanho crime.

- Eu só estava me defendendo. – disse pra si mesmo
- Mas eu poderia ter evitado todo o conflito. – respondeu
- Mas as circunstâncias foram adversas!
- Covarde. Sabe que era você o testado. Foi você quem falhou em demonstrar amor. Foi você que traiu a Deus e ao amor do universo. Quer culpar as circunstâncias?

Ele se deitou ao lado dos sacos. Todos bem embalados. Um crime tão limpo. Ele viu tudo acontecendo dias antes. Conversou com uma amiga, que o aconselhou a mudar o rumo da coisa. Naquela noite, antes de fazer o que fez, ele estava convicto e decidido a não fazer. Mas fez.
Ninguém saberia, ninguém sentiria falta. No dia seguinte, a vida de todos seguiria como sempre. Mas não a dele. Ele caiu da posição de amante do mundo. Ele possuía uma aura de amor, que o protegia de todo o ódio do mundo. Depois de fazer o que fez, o amor o abandonou. E a culpa o corroeu e o tornou fraco.
Sua própria força mental, que já não podia defendê-lo, estava partida em pequenos pedaços. Menores do que os fragmentos esquartejados e embrulhados em meio aos quais ele se deitava.
Nada que ele pensasse aliviava seu sofrimento. A TV o aborrecia. Felizmente não há pessoa falando na madrugada.

- Nenhum crime sai impune. – disse ele – ninguém abandona os caminhos do amor para se entregar à bestialidade e fica impune. O peso dos milênios queima a minha alma. Logo eu, que deveria ser um exemplo!

A morte teria que ser limpa e rápida. Ele pensava em como faria. Sem barulho, talvez sem dor.
Um fantasma apareceu ali naquela cozinha e falou-lhe.

- Você ainda pode se redimir. Você abandonou o amor, mas pode reencontrá-lo. Caia, se desejar a mudança, de joelhos no chão e peça perdão a si mesmo.
- Que perdão? Depois do que eu fiz? Eu não sou hipócrita! Eu não mereço qualquer perdão!
- Se desistir da sua missão por causa desse desvio, sofrerá por muito mais tempo e com muito maior intensidade. Não espere que tal evento saia impune. Aquele espírito que lhe foi prometido, o qual te daria forças nos momentos mais difíceis, não mais o acompanhará. Com o seu crime você foi condenado, até segunda ordem, a cumprir sua missão sozinho.

O fantasma saiu e ele chorou. Era tão cara a pessoa que ele perdeu. Tão próxima. Terrível era o fato de que ele se revelara um monstro indigno de tal companhia. As lágrimas distorceram sua visão.
O despertador tocou. Era a hora de se livrar do corpo e encarar um mundo que, a cada dia, se revelava mais amigável. Teria que se torturar com a admiração que algum tinham por ele e ouvir calado (embora atormentado), que pessoas estavam orgulhosas dele. Que ele era um herói, e que com sua luta pelo amor ele mudaria ao menos um pequeno fragmento do mundo.
Mas, diferente do que diziam, ele sabia que não era anjo. Ele sabia que, no fundo, era uma peste. Ele pecou, e sua maior punição foi que ninguém o odiou por isso.

Sua maior punição foi ter fama por algo que não merecia.

Afinal, de que valem todos os seus trabalhos e todos os seus esforços se, quando provado, ele sucumbiu à mais selvagem, embora atraente, vontade de destruir?
Não. Um anjo não sorriria enquanto apunhala uma criatura pelas costas. Por mais que ela seja desprezível.

- São os malditos e os desprezíveis que mais precisam de amor. – repetia ele em voz baixa.

Colocou os sacos no porta-malas e saiu de casa. Espalhou os pequenos sacos bem embrulhados e lacrados por lixeiras distantes da casa dele e distantes uma da outra. Viu o sol nascer. Ele tornou aquele dia um pouco mais podre para todo o mundo. Espalhou seu aroma fétido por diversos cantos.
O vidro estava aberto, mas ele mal podia respirar. Chorou quando o rádio ligou e tocou uma música. “ficar sem você, é como tentar viver sem respirar”.
Ele queria nunca ter existido. Morrer naquele momento não era o bastante. Havia pessoas que contavam com ele e eram todas caras. A única pessoa com a qual ele poderia compartilhar tal evento provavelmente cortaria relações com ele. Mas pra quê compartilhar esse lixo?
O mínimo que ele poderia fazer era aceitar o tormento merecido.


Nenhum crime sai impune

Um passo em direção ao fim dos dias



Entrei no quarto angustiado. Imaginei que a profundidade psicológica de Jane Austen pudesse ao menos me distrair. Estava errado.
Pelo contrário: ela conseguiu, justamente com os capítulos que li, reavivar meu tormento.
Eu sabia que naquele dia um passo foi dado numa direção terrível. Como um bandido que vê uma bala quase penetrar-lhe o crânio e de repente toma consciência de que mais cedo ou mais tarde uma delas o destruirá. Tudo porque eu coloquei a cabeça na luz! Eu coloquei o coração na luz!
Que erro maior?
A música que ouvi praticamente o dia inteiro sem entender bem porque de repente fez todo o sentido: seu tempo acabou, seu tempo acabou. É o que ela diz. Muito boa, a música.
A parte dolorosa desse ciclo está chegando. Eu já sinto o cheiro de sangue no ar. Meu sangue, escorrendo sem ninguém ver. Meu sangue fluindo para fora e escondido pelo silêncio.
Eu vou acabar correndo de novo. Vou fugir pelas ruas e dirão que sou louco. Tudo de novo. “Como que aquele sujeito tão calmo fez uma coisa dessas?”
É que sorriso não fecha ferida.
Eu já desisti de tentar de me convencer de que minhas intenções são boas. Recentemente isso se tornou inútil: sendo boas ou ruins, eu sempre acabo no mesmo lugar. Sempre cometo os mesmos erros. Tudo vai acontecendo diante dos meus olhos, cada vez com um disfarce mais complicado. Eu nunca consigo desvendar o mistério antes de ele ter invadido as minhas entranhas. Antes de sentir a dor.
É só quando a dor chega que me livro das ilusões. E aí fico me perguntando sobre como tudo veio a ser de tal maneira. Pergunto inutilmente, porque sei. Eu sei muito bem.
Minha barriga dói de fome, acho que tem vultos aqui no quarto. Eles sempre me visitam durante a noite. Sempre parece que tem gente andando por aqui. Que falam no meu ouvido e vou escrevendo loucuras que eles me dizem.
Tudo isso me fez ficar meio sem juízo e confessar meus pecados ao branco co Word. Isso mesmo. Nada romântico. Eu odeio escrever com caneta. Nunca nem vi uma pena usada pra escrever.
O caso é que eu dei mais um passo em direção ao fim dos tempos. Tal fim se apresentou recente e mortalmente. E, ironicamente, no momento foi tão doce.
Há aquela voz de sempre na cabeça. Intuição. “Tudo deveria mesmo ser assim”. “A gente só sente a dor pra aprender com ela”. “Tal provação não vai para além das suas possibilidades”. “Desperte sua verdadeira essência”. “Esse fantasma com o qual você se identifica é patético”. “Descubra de novo que você é e era já a mais de um século”. “Abra o terceiro olho”!
Acho que eu invento esses delírios religiosos mesmo pra fugir da realidade. A nua e crua: o meu sonho tá acabando. A alegria, o prazer, estão saindo. Em breve, como antes e, quem sabe, como sempre, chegará o meu próprio tormento.
Só que agora eu mudei as cores dele. O que era meio azulado ficou rosa. Mais escuro, com contraste. Ficou mais bonito.
Eu rio de mim mesmo quando imagino que alguém poderá ler isso. O que pensariam?
Não. Se alguém conseguir ler e entender o que eu estou escrevendo, meu destino se tornará pior. A interpretação dessas palavras confusas seria a própria bala atravessando meu crânio.
Nosso lar é onde o coração está. Aqui é o meu quarto já há uns 8 ou 9 anos. No entanto, tenho que ir pra casa. Meu desespero aumenta quando lembro que não faço idéia de onde é isso.

Espinhos na minha cama



 Tem espinhos dentro do meu cobertor
E fui eu que os coloquei ali
Meu sangue já manchou o pano
Só porque eu quis

Nem sei se quero mesmo sofrer
To deitado agora nos espinhos
Lamentando por tê-los deixado aqui
E incapaz de me livrar deles.

É claro que também há uma rosa
E tem vezes que eu nem me furo
Tem sempre um cheiro bom
Mas as feridas não fecharam

Meu sangue está saindo
Minha vida vai acabando
Enquanto eu tenho rosas
E espinhos na minha cama...

Uma maldição do passado



Nós nos encontramos no parque pela última vez. Pensei que ela nunca mais falaria comigo depois daquilo que fiz. Mas me chamou. Estranha, aquela sensação.
Noite passada eu nem acreditei no que eu fiz. Não era eu. Dormi por 16 horas e não queria levantar quando acordei. Eu queria acreditar que foi um sonho. Mas não foi, e tudo estava acabado.
Ela deixou recado com minha mãe no telefone. Queria me encontrar na praça lá em cima às dez. Perto da casa dela. Teve uma festa lá. Aniversário da mãe dela. Eu ainda tenho o convite.
Eram oito da noite. Passei o dia inteiro dormindo. Meu sonho estava bom, mas não consigo lembrar.
Eu me levantei e tomei um banho. Eu nem lembrava a última vez que eu tinha ido ao chuveiro. Tudo aquilo tirou meu foco das coisas. Como sempre, comecei a pensar no banho. Pensei na possibilidade de ela ter interpretado tudo como apenas um mal entendido. Ela confiava em mim, afinal. Como sempre, era eu inventando absurdos pro meu conforto.
Desliguei o chuveiro e tomei um banho frio. Foi bom, apesar de estarmos no inverno. Era o que eu queria.
Saí do quartinho dos fundos com a toalha. Foi até meu quarto e vesti qualquer coisa. Uma camisa de crente que sempre ficava em cima na gaveta como uma conspiração divina. Soldado de cristo. Hipocrisia do caralho eu usar aquilo.
Saí vagando pela rua. Estava deserta. Subi até a praça e a casa dela estava cheia. Carros estacionados por toda a parte, gente conversando na calçada. Gente sorrindo. Provavelmente não sabiam do que eu fiz.
Eu era um herói pra essas pessoas. Um salvador. Ir ali foi uma merda. Eu senti uma angustia horrível. Uma vontade de chorar, vomitar e se sair correndo. E também tinha medo.
Ela estava apoiada no muro de casa com o celular na mão. Estava rindo. Começou a escrever uma mensagem e nem viu que eu cheguei.
Deitei no banco da praça e olhei pro céu. Noite feia. Só nuvem no céu. Mesmo na parte escura você não via nenhuma estrela.
Meu celular tocou. Era o número dela, mas sem o nome. Eu nem estava lembrado de apagar da minha agenda.
Ela ouviu o toque e percebeu que eu estava escondido no escuro. Foi até lá. Ficou na parte clara. Irônico e verdadeiro, o contraste entre os ambientes.

- Como eu pude te amar? – perguntou ela
- Como pôde? – respondi.
- Porque você fez isso? – perguntou ela com voz de choro
- Não sei.
- Filho da puta, você tava planejando isso desde o começo.
- Não tava. Aconteceu.
- Quer dizer que um dia você simplesmente acordou querendo destruir a minha vida inteira? Aconteceu?
- É.
- Você é tão bom com as palavras. Pensei que pensaria em alguma coisa melhor pra dizer. Eu te deixei entrar na minha casa, seu merda. Você leu a porra do diário. Ninguém nunca leu aquilo além de você. Vai tomar no seu cú. Some da minha vida e não aparece mais. Nunca mais quero te ver. Você é podre e vazio. Vai morrer sozinho e infeliz.

Não falei nada. Deitei no banco novamente e olhei pro céu feio. Eu queria morrer.
Ela saiu. Foi em casa, mas depois voltou.

- Você não tem mais nada pra dizer? – disse ela
- Não. – respondi ao andar até ela.

Ela me deu um tapa na cara e cuspiu em mim. Ficou um tempo parada esperando eu dizer alguma coisa. Limpei o rosto e continuei em silêncio. Olhei pro chão e vi as sandálias dela. Ficavam bonitas nos pés pequenos que ela tinha. Eu que comprei, eram da moda e tudo. Me meti em cheque especial pra comprar. Disse pra ela que tinha sobrando, mas era mentira.
Pelo menos algo meu ela guardou.
Deu as costas pra mim. Entrou em casa e nunca mais a vi. Disseram que ela se mudou pra fazer faculdade fora.

Nunca seremos




Agora digo isso com certeza
Nunca seremos um
É lamentável e libertador
Dolorido e estimulante

Porque eu dou
E você recebe
Nada mais
Nem peço nada

Se pedir, você foge

Você me convida para a sua casa
E me manda trazer o jantar
Se não temperei bem
Não me chama mais

Porque meu valor vem disso
Do sustento pro teu espírito
Mas isso acabou
Não me ajoelho mais

Você deixou claro
Que nunca seremos um
Que queria que eu fosse um membro
Como um braço

Bom quando é útil

Você não barganhou com a carne
Só deixou minha ilusão fluir
Eu me apaixonei pela sua máscara
Mas sua alma me desiludiu

Se você estivesse aqui
Diria o obvio
Não tem nada a dizer
Não se interessa

Decreto o fim
Não me procure mais
Não se confesse comigo
Não espere que eu te entenda