Biohazard: a limpeza (parte 1)

Pensando agora eu vejo tudo isso como uma profecia se manifestando coletivamente. Tanta gente tendo sonhos e visões. Tanta atração por filmes dessa natureza. Talvez eu só tenha me afetado com tudo isso e esteja apenas criando hipóteses irracionais. A questão é que, por mais que a ocasião demande atenção de mim, não consigo fugir dos meus pensamentos. É esse meu mundo interno que sempre me salvou agora me trazendo alívio.
Não estavam errados sobre o plano de dizimar a população mundial. Eu sempre acreditei, mas isso nunca ajudou. Aliás, essa operação pandemia que faziam antes tornou as pessoas incrédulas. Daí quando essa praga chegou ninguém acreditou. Bem, acreditar ou não foi irrelevante: já estão mortos por aí. Ao menos estou sozinho, e isso me ajuda a alcançar o equilíbrio por hora, mas daqui a um tempo a ausência de convívio social (mesmo falso) trará severos danos á minha personalidade.

Que merda eu to fazendo? O mundo caindo e eu refletindo sobre o efeito psíquico disso tudo?
A bateria do notebook ta viciada, mas tem o nobreak no outro quarto. Talvez eu consiga me conectar a internet. A merda do telefone é bloqueado e o celular não tem crédito: Maldito capitalismo. Nada: a internet ta fora...
Só me concentrando no meu mundo interno que a gritaria lá fora não me desespera. Nem adiantaria agora me encher de rancor pensando: eu avisei. Quero agora, em primeiro lugar, encontrar informações sobre como se encontra minha região em termos de infecção. Por certo deram alguma ênfase a essa localidade pela proximidade com a usina nuclear. Que eu to pensando? Até parece que ligam pro pessoal desse continente. Não passamos de “cucarachas”!
O funcionamento do organismo dessas coisas parece ter diversas fontes de energia. Dentre elas eu não deixo de pensar em forças ocultas: espíritos, alienígenas ou qualquer coisa sobre a qual eu possa projetar minha superstição.
Meu padrasto ta amarrado no outro quarto, e talvez eu possa fazer testes simples com ele. Graças a ele nossa casa tem um grande estoque de comida, embora eu não faça idéia de como cozinhar. Vou ter que me virar.
Tenho uma faca bem afiada, mas não tenho habilidade para usa-la: seria loucura enfrentar os monstros.
Ouvi vozes na rua.

- Fudeu, cara. Corre, porra!

Um cara que estudou junto comigo até o segundo grau e morava na minha rua estava correndo com o irmão. Eles fazem exercício físico e correm bem, mas não possuem as fontes de energia dos monstros. Algo interessante aconteceu: um deles atacou o irmão, que corria mais lentamente por estar cansado. Mordeu braço dele. Os dois se separaram: o irmão foi em direção à praia e ele foi à direção do mercado. Todos eles foram atrás dele, e o irmão, ferido, não os interessou.
A mim soa obvio que aquilo foi um julgamento racional: ele já estava infectado. Acredito que isso seja prova suficiente de que eles não queria comer, mas se reproduzir quando atacavam. Mas como diabos eles conseguiam tanta energia?

Não tinha sentido algum, mas devo confessar que não me esforcei tanto ao estudar o processo de produção de energia. De qualquer maneira, eles haviam perdido muito sangue, o que dificultaria a passagem de oxigênio pelo corpo. Aliás, as feridas estavam abertas e o sangue parecia coagulado: era simplesmente impossível eles terem energia para o movimento. E, no entanto, corriam quase desesperadamente. Meu colega de escola deu a volta no mercado e entrou do lado da padaria. Sempre soube que ali tem uma grade que leva pro valão, mas não o que há depois dele. Pulou facilmente a cerca e caiu pro outro lado. Eles não o seguiram, mas isso pareceu a mim como uma oportunidade. Ao ouvir os gritos desses, outros monstros foram correndo e gritando para lá. Isso gerou uma espécie de reação em cadeia, através da qual todos (espero) se reuniram no mesmo lugar. Depois de um minuto eu vi o irmão dele correndo pra lá. Ele se infectou rápido, então provavelmente não há doentes a serem infectados. Se eu não fugir agora, vou acabar morto.

Meu padrasto berrou, e isso me assustou: e se algum escutasse? Eu tinha que mata-lo, mas nem sabia como.
Degolei ele, mas ele não morreu. Apesar disso, afetando as cordas vocais, ele não gritava mais. Espero que minha mãe e minha irmã não voltem da viagem, que vejam isso nalgum documentário. Já basta a minha falta de perícia e fraqueza como dificuldade: não tenho como garantir a segurança delas.
Me preparei para sair como sempre, o que foi no mínimo irônico. Peguei minha carteira, meu celular, meu mp4 e minha chave. Dinheiro já não tinha valor antes, e agora ele se mostrou como realmente é: um papel destituído de valor. Não posso comprar uma saída desses monstros com esse dinheiro.
O que sei sobre direção só me traria problemas, já que o carro faz barulho e não sei passar a marcha direito. Coloquei o sapato e me assustei com o barulho que ele faz quando ando.
Esvaziei minha mochila. Cheia de lixo. Coloquei biscoitos, duas maçãs e água dentro dela. Tentei não colocar muito peso, porque minha viagem seria bem longa. Comi duas bananas e bebi o resto do suco de maracujá que tinha na geladeira. Que burrice!
Por sorte o meu estado de alerta não permitiu que o suco me tranqüilizasse. Os monstros já estavam se dispersando e eu decidi seguir pelos becos pra depois andar agachado na beira da praia. Quando cheguei no calçadão um carro passou pela minha rua, e isso chamou a atenção dos monstros. O que me aterrorizou foi que eles não puderam seguir o carro, mas estavam, agora, bem mais próximos de mim. Pensei em fingir ser um deles, mas seria melhor não arriscar. A expressão deles é de pressa. Parecem querer destruir as pessoas nas redondezas o mais rápido possível. Quando não recebem estímulo ficam parados, como que refletindo.

Segui pela até a beira da praia e vi na estrada um caminhão do exercito. Muito distante para saber se estava cheio de soldados. Parou no ponto em que toda a vila era visível e lá ficou.
Segui até o final da praia e entrei na via que conduzia o rio até o mar: o valão do outro lado da vila. Enquanto seguia debaixo do solo pude ouvir pessoas gritando na hospedagem acima. Saiu um carro e berros o seguiam. Bateu e explodiu. Eu teria que ser rápido, pois a explosão atrairia todos para o local. Aproveitando o alvoroço passei despercebido pela escada que levava a cachoeira. Colocaram uma placa dizendo que era proibido passar, mas que guarda me impediria, o zumbi?
Alando nisso, talvez eu consiga me armar na guarita, mas é melhor não contar com isso. Tive que descer na água, e por isso guardei o sapato e a meia dentro da mochila. Lá de cima eu vi a vila. Alguns pontos estavam pegando fogo. Daquele ângulo não dava pra ver a saída de carros para a estrada. Só espero que não tenha uma concentração de monstros lá. Passei pelo túnel em silêncio andando rápido. Escalei as pedras com facilidade, muito mais do que o normal. Fui seguindo até chegar na estrada. Havia um Fiat uno ligado no acostamento com um cara morto ou desmaiado no volante. Peguei a faca e cheguei na porta do carro. Teria que dar um jeito de dirigir, e para isso precisaria confronta-lo se fosse um deles. Bati com a faca no vidro o que o despertou. Estava preso dentro do carro. Respirei, me recuperando do susto, e me preparei para a luta.
Ele esmurrou o para brisas e o quebrou, mas estava preso no cinto de segurança. Percebi uma ferida feia no ombro direito dele. Agora era matar ou morrer.

Cheguei perto do carro e abri a porta do carona, ao que me afastei rapidamente. Ele parou de se debater e me fitou por um instante. De repente ele se articulou, soltou o cinto e saiu pela porta que eu abri, ao que eu me preparei para o combate. Ele parecia meio confuso em relação a mim. Ele me fitou por uns instantes ao invés de me atacar. A usina tocou a sirene e ele correu irracionalmente em direção a ela.
O motivo pelo qual ele me atacou eu deduzi depois de uns instantes. Talvez eles ataquem que demonstra medo. Seria estranho pensar isso, já que os primeiro, por ignorância, provavelmente não mostraram medo. Apesar disso, ele esmurrou o vidro procurando me atacar. Somente se acalmou quando eu abri a porta. Talvez tenha sido o controlador dele que o fez não me atacar. Talvez Deus, espíritos, alienígenas, ou seja lá o que seja tenha me salvado. É incrível como eu, enquanto cético arrogante, tenho criado essas teorias estranhas. Acho que esses eventos despertaram algo oculto em mim.

Consegui me locomover com o carro: No início com dificuldade para trocar as marchas, mas depois de um certo tempo consegui manusear o veículo. Decidi me dirigir até o caminhão que vi da praia. Havia uma pistola no banco de trás do carro.
Quando passei pela guarita dos seguranças percebi que estava em chamas. O carro que vi passando pela minha rua bateu ali e explodiu. Monstros subiam pela estrada e vinha na direção do meu carro, e em resposta a isso eu acelerei. Passei a marcha com facilidade, e rapidamente saí do alcance visual deles: espero que não continuem correndo.

Emanuel, o maligno


- Pare. Por favor. Já não suporto tamanho sofrimento.
- Não quero parar.

- O que você procura? Porque faz isso comigo? Tenho muito mais a lhe oferecer do que parece.
- Eu não estou procurando nada. Aquilo que eu devia encontrar, já encontrei.
- Então porque você está fazendo isso? O que eu fiz para merecer tamanha punição?
- Livre-se de pensamentos estúpidos. Você não está sendo punido por nada. Essa idéia de que você têm de merecimento é um grande erro.
- Se não me acha culpado, porque me odeia tanto?
- Ignorante. Não é porque você se move com afetos que eu também sou assim. Já que hoje é seu ultimo dia, posso te explicar essa questão. Isso me ocorreu apenas recentemente.
- Você acha que pode ser justificar?
- Que tenho eu com justificativas? Quer mesmo que eu te explique ou suas perguntas são retóricas?

O homem era bom com retórica, e pensou que, por isso, poderia convencer seu agressor de que seus pensamentos estavam errados.

- Quero que me explique.
- Pois bem. Eu percebi que os homens têm o mal dentro de si. Todos eles. Mas esse mal fica escondido e só sai em certas ocasiões. Claro que alguns já desenvolveram o poder do mal mais do que outros, mas são todos maus. Alguns só praticam o mal por um suposto bem. Daí surgem matadores de assassinos, exércitos da paz, lutas por amor. São maus, apenas não admitem.
- Está dizendo que todos os homens são maus?
- Sim, em suas devidas proporções. Por favor, não interrompa meu raciocínio.
- Certo, continue.
- Existe um principio do mal, que é mascarado com a razão. Eis o que a razão é: uma mascara e nada mais.
- Mas não pode o homem se libertar através da razão?
- Não. Através da razão os homens só fazem reproduzir ladainhas e preconceitos. Com ela, eles fazem qualquer absurdo se tornar justificável. Com o mau não é diferente. Só aqueles que alcançaram um maior nível de consciência entendem isso.
- Pode me explicar isso melhor?
- Facilmente. Veja só: muitas vezes vemos homens poderoso fazendo o mal para os outros. Dizem para si mesmos que o fazem pelo dinheiro. Ditadores matam pessoas por não o respeitarem, por serem inferiores ou qualquer que seja a ladainha que inventem. Pais espancam filhos por serem mal educados, maridos batem na esposa que é infiel. Enfim, o homem sempre encontra uma justificativa para o mal que pratica, mas nunca entende o que é o mal de verdade.
- Não são essas coisas que você definiu o mal em si?
- Não, elas são apenas o efeito do mal. São o mal maior plasmado em espíritos menores.
- E o que é o mal maior?
- O mal maior é liberto da razão. Ele não precisa de justificativa e muito menos de razões afetivas. É o mal, pelo mal e através do mal. Sem direção: um mal que vai para todos os lados. Sim, uma essência demasiadamente sutil para que espíritos inferiores percebam.
- E o bem?
- É a mesma coisa: O bem, pelo bem através do bem. Bem e mal precisam um do outro.
- Digo, você não tem o bem dentro de si?
- Eu sou o lado das trevas. Existe o lado da luz. Nós coexistimos. Eu nada mais sou do que um fragmento tornado completo. Puro mal.
- Se você reconhece que existe o bem, então deve reconhecer que, da mesma forma que todos os homens possuem dentro de si o mal, devem também possuir o bem.
- De fato.
- Daí decorre que você tem o bem dentro de si.
- Não.
- Como não?
- Eu não sou um homem.
- Parece a mim como um homem.
- Não. Eu sou metade da deusa em forma humana. Sou um semi-deus. A deusa é tanto da guerra quanto do amor. Eu sou o semi-deus que herdou a metade da guerra e havia outro semi-deus que herdou a metade do amor.
- Que houve com ele?
- A ignorância dos homens o matou, e com sua morte se foi a esperança desse mundo. Quando expulsaram daqui o amor por seus preconceitos e miopias eu tomei conta. Não podem me matar da mesma forma que mataram o amor, porque eu penetro-lhes as entranhas. Eu mesmo, por onde passo, deixo um rastro de destruição e ódio. Você tem muitas pessoas que vivem apegadas a você, justamente pro serem primitivas. Essas pessoas irão me odiar, e por isso serão iniciadas no meu mundo.
- Então é isso que você quer? Propagar seu ódio?
- Não. O que eu quero é destruir. Se meu ódio é propagado ou não, isso me é indiferente. Eu não vivo segundo o pensamento de alcançar algum objetivo. Como eu disse, faço o mal pelo mal e através do mal.
- Não se sente só?
- Todos os homens livres são solitários. Quando você mergulha no fundo da sua alma, acaba descobrindo as ligações entre os homens não passam de ilusões. Se não são expectativas criadas pelo convívio social, as expectativas têm origem no íntimo do indivíduo. O homem vive com vários mantos cobrindo sua consciência acerca da natureza das coisas, e por isso fica sempre longe do essencial.
- O que é o essencial?
- Que o apego é a causa da maior parte de seus sofrimentos. A ligação que as pessoas fazem umas com as outras traz dor sem fim.
- Ora, mas o bem poderia ser livre, tal como o mal. Assim, eu poderia chegar num nível de consciência acerca do bem tão grande que não mais teria expectativas e exigência. Da mesma forma, não me apegaria a nenhum homem, amando a todos indiferenciadamente. Não parece razoável?
- Razoável, razoável... Na verdade isso não me parece nem um pouco razoável, mas volto a dizer que a razão não me importa. Não passa de uma mascara.
- Então não reconhece o bem supremo?
- Tão humano... você é. Veja só, reconhecer com a razão é algo que já fiz a muito tempo. O Semi-Deus do amor me comunicou inúmeras vezes. É bem fácil de entender esse amor que chamam ágape através da razão. Mas entender pela razão é uma coisa, e viver é totalmente outra. Minhas palavras acerca do mal provavelmente não lhe tocaram, porque você nunca viveu nada de análogo. Eu, da minha parte, digo o mesmo acerca do amor. Nunca o vivi, e portanto acerca dele não posso emitir qualquer tipo de julgamento de valor.
- Você tem que buscar o amor.
- Você não espera, realmente, que eu simplesmente seja levado por uma tentativa tão arcaica de doutrinação, espera?
- Isso tudo que você falou são delírios! Você só quer justificar seus crimes!
- Idiota. Não entendeu nada. Não quero e nem preciso justificar nada. Eu vou te matar dentro de instantes por matar. Não quero nada de você, não tem nada me movendo a matar especialmente você e não a outro diabo. Só vou te matar porque foi o primeiro infeliz que cruzou o caminho.
- Por favor, tenha piedade.
- Essa é apenas uma palavra vazia para mim. Não reconheço um significado nela, porque não me lembro de ter sentido piedade alguma vez na vida. Como posso ter piedade de você se nem mesmo sei o que é isso?
- Piedade é me deixar viver!
- Haha! Como se sua vida fosse realmente importante! O Conceito de piedade pode, por vezes, legitimar o assassínio. Só depende de como a razão o contorce. Veja só, quando se trata de piedade eu só posso emitir raciocínios. Mas vou ser honesto. Não estou te matando por piedade e nem porque tenho algo contra você. Não é nada pessoal.

O homem fechou os olhos. Parecia rezar e pedir perdão a Deus para seus últimos momentos, esperando sua redenção.
De repente algo inacreditável aconteceu. As nuvens densas deram abertura à luz do sol, e algo veio do céu e se fixou no chão. Uma rosa vermelha, que pingava um líquido vermelho. Não havia como saber se era sangue, mas Emanuel foi hipnotizado pela flor.

- Matias, é Matias!
- Esse é o nome da Flor?
- Não, seu idiota. É sangue de Matias! Não está vendo?

A ultima gota caiu da flor, que desapareceu. Em volta do local cresceram outras flores de diversas cores, e as nuvens se foram completamente, dando lugar ao sol. A floresta, antes escura e sinistra, radiou com uma beleza imensa.

- É Deus. Veio me buscar!
- Sua estupidez não tem limites! Não percebe o que acaba de acontecer? O sangue de Matias se derramou no chão. Esse mundo será curado.
- E o mal? E você?
- Não sei. O que sei é que sempre haverá lugar para o mal no universo.
- Aquele sangue é o de Jesus! Aceite-o como seu salvador!
- Jesus, Matias. Qual é a diferença? Ambos são agentes do Ágape. Você não entendeu os símbolos que usei? Enfim, não aceito ninguém como meu salvador, Primeiro porque sou livre e ninguém me guiará a lugar algum. Segundo porque não vejo nada de que eu possa ser salvo, já que sou o mal personificado. O que você chamam de condenação é a essência da minha existência.
- Não se trata propriamente de te guiar, Emanuel, mas apenas de despertar o bem dentro de você.
- Já chega de conversa. Tenho reflexões a fazer.

Emanuel matou o homem com pressa. Pela primeira vez na vida ele não esperou o desespero de sua vítima o deliciar. Sim, havia coisas mais importantes a tratar do que o sofrimento de um diabo qualquer.

- A jornada tem que continuar. – disse seu companheiro demônio. - Tem que continuar!

Ele sentiu em sua mente a direção para a qual deveria caminhar, e foi nela sem ter idéia de onde chegaria ou mesmo se chegaria a algum lugar.

Et ecce ille surrexit cum rosam, et coelum jucundum in mihi vultum

Acerca dos complexos que impulsionam comportamentos destrutivos e corruptos


Introdução

Para colocar a idéias que tive disponíveis à todo o publico eu me vejo forçado a contestar dois grandes pilares que parecem estar em conflito. Precisarei desconstruir premissas teóricas do fundamento do método científico e rever grande parte dos padrões morais.
Isso me custaria, por certo, a fama, se eu a tivesse. Felizmente eu não a tenho e nem desejo algo do gênero, o que me dá maior segurança em desafiar quilo que há de sagrado no mundo moderno.
Eu não poderia começar meu trabalho sem explicar as razões pelas quais eu me nego a aceitar várias premissas difundidas no nosso tempo e o motivo pelo qual busco outras premissas que são, de um modo geral, negadas até mesmo com piadas, e por isso essa será a primeira parte do meu trabalho.
Depois de demonstrar a validade das minhas premissas, colocarei sobre elas as minhas observações, que têm o intuito de, em primeiro lugar, trazer à tona tudo aquilo que é maléfico sem, no entanto, emitir julgamentos de valor para, assim, tentar explicar esses acontecimentos. Seguir-se-ão, nesses casos, alguns dos diversos casos freqüentemente divulgados na mídia. Daí eu pretendo extrair um fundamento parecido com a pulsão de morte de Freud, mas com certas ressalvas teóricas que serão percebidas no trabalho (afinal, aceito premissas Junguianas).
A partir daí, pretendo demonstrar detalhadamente e com exemplos os mais diversos tipos de comportamentos destrutivos e corruptos, desde um simples ladrão compulsivo que rouba coisas sem valor a um banqueiro, ou desde um marido que bate na esposa até um serial killer. De acordo com as premissas da nossa ciência, (uma premissa que não nego) pretendo demonstrar como todos esses comportamentos têm fundamentos análogos por generalização e que possuem suas origens no fato de que os fundamentos da sociedade são essencialmente anti-sociais. Em especial, e não estou certo de já estar apto a isso, pretendo buscar uma forma de ao menos amenizar os efeitos dos complexos que movem os homens a tais comportamentos, buscando, assim, uma forma de convívio mais pacífica.
Cometerei uma série de erros, mas esse é um trabalho de toda uma vida e não apenas de uma monografia terminada, e por isso provavelmente será alterado em contato com novas evidências.
Que fique claro, no entanto, que não busco provar certas premissas como verdadeiras, mas que, pelo contrário, os próprios fatos me levaram a tais fundamentos.

Capítulo 1
Sobre os fundamentos do método

As premissas que aceito como fundamentos do pensamento destituem deste todo o poder que lhe atribuem no nosso tempo. Pelo contrário, o que procuro demonstrar, em primeiro lugar, é a extrema fragilidade de nossas formas de pensamento.
Por vezes percebi como, de forma explícita, as pessoas observam certos eventos e revestem estes de significados totalmente metafísicos.
Mas, diferente do que se assume normalmente, não é só o conhecimento religioso que se baseia em metafísica: todas as formas de pensamento possuem algo de metafísico, pois a metafísica é sempre o fundamento dos pensamentos. Sempre partimos de um ponto no nosso pensamento que simplesmente não pode ser provado de forma absoluta, e isso destitui de sentido nossas tentativas de dar um ar definitivo às nossas idéias.
A ciência, apesar de se afirmar empirista, se guia por certos fundamentos metafísicos, que pretendo explicitar.
Em primeiro lugar, nossa ciência está receptiva apenas aos conteúdos oriundos dos sentidos. Assim, foram criados (e continuam sendo) métodos com os quais podemos observar melhor todas as coisas com os sentidos, já que é só esse tipo de observação que é considerada correta nos dias de hoje.
A despeito do nosso sensacionalismo sobre a grande descoberta que é o fato de que a mente humana se encontra em constante mutação, Heráclito já havia chegado a tal conclusão sem acesso a isso por meio dos sentidos. Foi uma forma intuitiva de se conseguir o conhecimento. Uma abstração filosófica inteligentíssima, que o modo sensitivo de observação só pode entender milênios depois.
Esse e outros exemplos demonstram que existe outra forma de adquirirmos conhecimento que não apenas a observação objetiva e submetida ao rigoroso e dogmático método científico.
É claro que não pretendo generalizar a outra forma de se ver as coisas: ambas têm sua utilidade e validade contanto que não tentem invadir o campo da outra, como acontece hoje.
Essa forma Jung chama de intuição, e considero o termo adequado, e por isso me sirvo dele.
Através do conhecimento intuitivo, que não é menos válido do que o da sensação, percebemos como são ridiculamente óbvias e preconceituosas algumas idéias da ciência moderna sobre os fundamentos do comportamento humano.
Uma delas é a tentativa que vem sendo empreendida de submeter o comportamento humano, e traços comuns, ao paradigma evolucionista. Ora, considero esse paradigma excepcionalmente bem sucedido em integrar de forma didática o estudo sistemático dos seres vivos, e reconheço as diversas evidências que colocam o evolucionismo como teoria válida para justificar a origem das espécies, tais como os fósseis.
Apesar de ser logicamente plausível admitir que, se o ser humano se formou através de sucessivas mutações, ele deve ter tido grande parte de seus comportamentos inatos formados através da pressão seletiva, não deixo de notar certas características no próprio comportamento humano que contradizem esse paradigma de forma gritante.
Aliás, pelo que eu observei, o próprio paradigma, que é muito apoiado por ser o fundamento de nossa sociedade, parece estar fundamentado num complexo específico, que denomino o complexo de Frederico.
É claro que não podemos, já há muito tempo, colocar as premissas do evolucionismo no convívio entre os humanos, pois as variáveis são tão numerosas que até mesmo o mais inapto de todos os indivíduos pode deixar mais descendentes do que um extremamente hábil.
Ao contrário do que se diz, o que deu ao ser humano a possibilidade de subordinar as outras espécies não é um impulso essencialmente competitivo, mas sim cooperativo. Foi através da união que o ser humano formou a vida em sociedade, e encontramos em diversas sociedades essa mesma idéia: devemos amar ao próximo como amamos a nós mesmos.
Mas, do ponto de vista evolucionista, seria muito mais vantajoso criarmos uma imagem de que amamos ao próximo sem que isso seja verdade. Noutras palavras, nessa forma de pensamento e na sociedade que se baseia nela, o que trás “sucesso” é efetivamente o que os políticos fazem. Isso se plasma em certos livros propagados no meio corporativo, que proclamam ter encontrado uma forma revolucionária e nova de medir a inteligências das pessoas. Eu chamaria o que eles chamam de inteligência emocional de capacidade de manipulação, pois o paradigma está obviamente direcionado á ampliação do potencial de trabalho. Sendo fundamentado pelo evolucionismo, o livro é claramente um manual de hipocrisia.
Não fico admirado, então com o ímpeto com o qual os cientistas criacionistas buscam desacreditar o evolucionismo. Afinal, tal paradigma torna comuns certos comportamentos totalmente destrutivos, como mesmo o nosso capitalismo selvagem. Afinal, é natural que o mais forte tenha sucesso e o mais fraco seja derrotado.
Dessa forma, seguindo o ponto das sensações e do materialismo, se coloca em questão que o ser humano é essa maquina, que nada mais faz do que servir a esses impulsos egoístas.
É claro que, como se vê, existe outra questão a ser avaliada, que é a espiritualidade. As crenças religiosas em todos os tempos têm sido o fundamento para o comportamento mais ético para com os outros, fazendo com que os homens evitem buscar apenas o benefício próprio.
Algumas visões religiosas modernas não passam de fraudes dos sentidos. Noutras palavras, elas prometem justamente aquilo que vai contra a religiosidade: recompensas depois da morte, sucesso mesmo nessa vida. A teologia da prosperidade, que gerou um novo império no nosso país é um bom exemplo desse tipo de corrupção da religiosidade, que é notado pelos religiosos.
De fato, a maior mensagem que todas as religiões querem passar é aquela da conexão. Amai ao próximo como a ti mesmo, quer dizer, efetivamente, que devemos evitar o paradigma de que nós somos independentes do próximo, pelo contrário, é um sentimento comum no ser humano em todos os tempos e lugares: a necessidade de conexão. É por isso que existem religiões, e não porque alguns indivíduos desejam se iludir com ilusões vazias de sentido.
Dessa forma, no próprio desenvolvimento da psiquê humana, se percebe essa busca pela espiritualidade que contradiz abertamente a idéia de competição e à de separação. Se o ser humano, na sua constituição psíquica, busca a união, então é forçoso que ele não poderá moldar seus comportamentos com utilitarismo obviamente ridículos do evolucionismo. Até porque, a plasticidade do ser humano vai para muito além daquela vista nos animais, e, por conseguinte, seus comportamentos são moldados para muito além de questões meramente adaptativas.
É fato consumado que a vivência humana transcende a racionalidade, e a própria espiritualidade é prova disso. Além disso, a fragilidade da racionalidade ficou clara com a demonstração sobre a metafísica: não existe nenhuma forma de pensamento que não tenha um fundamento metafísico, e a metafísica se forma em paralelo à identidade dos indivíduos.
Com o paradigma evolucionista não é diferente: uma certa maneira de se ver o mundo como projeção da própria identidade torna totalmente plausível que o vejamos segundo tais premissas. Segundo a tipologia Junguiana, essa forma de pensamento seria fundada no materialismo, que é pensamento com função auxiliar de sensação ou sensação com auxiliar pensamento.
Mas a origem psicológica do evolucionismo vai para além da tipologia, pois, como percebi, ela também está pautada em certos complexos, que são conectados a arquétipos.
Muitos imperadores por toda a história da humanidade demonstraram ser dominados por tais complexos. Aliás, hoje não é diferente. Diversos documentários expõem aos olhos de quem quiser ver certos esquemas que homens criam para alcançar benefício material próprio. Por, no momento, não dispor de material mitológico que represente o que quero expor, usarei a história de um dos meus personagens, mas isso nos capítulos subseqüentes.
A questão aqui é que o próprio paradigma capitalista é um propulsor que pretende levar indivíduos a acreditarem que o benefício real é o material, já que toda a história da evolução assim o demonstra. É um fundamento doentio que se espalha rapidamente pela sociedade e que aumenta os índices de depressão. Ainda hoje, confusos pela falha de suas racionalizações, alguns indivíduos dizem: “ele tem de tudo, cheio de dinheiro. Como pode se deprimir?”.
Entra em depressão porque a mente humana é um projeto esperando para ser realizado, e este nada tem a ver com adquirir benefícios materiais. Muito pelo contrário, o equilíbrio que o Inconsciente induz leva os indivíduos buscarem coisas para além da matéria. Usar uma racionalização através da qual se afirma que são motivados por mesquinharia todos os tipos de manifestação religiosa não muda o fato de que essas manifestações continuam acontecendo, já que são naturais. Acerca do que vem após a morte não temos nenhuma garantia de nada, nem de que deixaremos de existir. Acreditar, então, em alguma metafísica para isso é seguir a própria natureza, enquanto que negar em nome de uma pretensa honestidade é impor uma interpretação a si mesmo e sofrer inutilmente (já que o fundamento desta visão é tão metafísico quanto o da religião).
No entanto, se até aqui um leitor religioso se manteve (imagino) satisfeito com o ponto de vista exposto, na continuação desta primeira parte ele deve mudar radicalmente de idéia. Tal como Jung, não busco agradar a gregos e nem a troianos.
A questão da religiosidade, em primeiro lugar, muitas vezes não passa de projeção de conteúdos inconscientes, como o arquétipo maternal projetado sobre a igreja. Na impossibilidade de integrar a vivência religiosa à consciência, o indivíduo faz projeções que, por vezes, tomam forma visível em visões, e, diante disso, ele atribui um caráter objetivo à sua vivencia religiosa, quando ela é subjetiva.
Além disso, a própria religião, na maioria dos casos não permite a integração dos conteúdos psíquicos á consciência, porque parte de premissas doutrinárias. Assim, na maioria das vezes, a religião não passa de um organismo que, através do poder das organizações coletivas, impõe certos códigos de conduta.
A vivência que Jung costumava definir como Participation Mystique não se trata do contato objetivo com Deus ou mesmo sua imagem arquetípica interna: na verdade o profundo sentimento dos participantes se deve ao contato com o grupo. Tanto isso é verdade que eles se unem em grandes grupos ao invés de realizar seus rituais sozinhos: porque sozinhos eles poderiam efetivamente integrar isso a consciência.
Na verdade, o que se vê são indivíduos, cegados pelo poder massificador da coletividade, seguirem códigos morais irrefletidamente, o que possibilita a manifestação dos indivíduos corruptos que eu me presto a avaliar, que, nesse contexto, surgiriam para manipula-los.
O paradigma evolucionista, objetivamente, leva à idéia de opressão do mais fraco e hipocrisia, e grande parte da moral religiosa leva à idéia de submissão. Noutras palavras, os dois juntos são dois fundamentos de mentalidade que causam a maior parte das nossas mazelas.
Eu não poderia, então, olhar essa questão do ponto de vista moralmente aceito, com indignação, e nem com o ponto de vista da ciência moderna, porque essa não passa de um complexo racionalizado.
Pelo contrário, para avaliar tais questões será preciso, em primeiro lugar, haver um confronto profundo com o lado negro da existência, transcendendo o maniqueísmo, e também será necessário expandir a compreensão das coisas para além de paradigmas parciais. Ir para além do bem do mal e para além da racionalidade.
Por um e por outro motivo que considero esse livro de difícil leitura: excluindo minha dificuldade de expressão, a mensagem simplesmente não será aceita por aqueles que se mostrarem racional ou sentimentalmente resistentes aos assuntos tratados, embora sejam de extrema importância.

2070

Eu estava na minha casa, que havia se tornado um abrigo. “O perigo espreita”, diziam as pessoas.
Eu não entendia bem o queriam dizer com isso, provavelmente se tratava da gripe suína. No entanto, algo me intrigou profundamente. Estávamos trazendo mais pessoas para dentro de casa, como se isso fosse, efetivamente, reforçar a nossa proteção.
No quintal dos fundos chegamos num beco que estava sendo como que consagrado pro pessoas com roupas brancas e varas douradas com lamparinas da ponta na mão. Isso em plena luz do dia.
Era a minha casa, e a minha família estava comigo junto com alguns estranhos. Decidi investigar.
Saí de casa e pude perceber, em meio as poucas pessoas que ainda andavam nas ruas um certo terror, que simplesmente não tomava conta de mim. De repente alguém gritou:

- Eles chegaram!

Vi uma grande armadura azulada, parecendo ser feita de aço, montada numa carruagem sem cavalos que era acompanhada por uma moto da mesma cor. Vinham em minha direção, e, num instante, eu estava montado naquela mesma moto. Acelerei e pulei o muro do quintal dos fundos. O muro estava baixo como costumava ser logo que me mudei.
O homem da armadura azul veio falar comigo.

- Chegou o tempo de purificação, e aqueles que são muito ansiosos e egoístas serão levados daqui para viveram noutro lugar até que se recuperem e possam voltar. É o ano 2070.

Eu não disse nada, pois era como se eu já soubesse que isso estava por vir. É por isso que eu não tinha medo. Eu não seria levado.
Pessoas apareceram na minha frente, oriundas de luminosidade e desapareceram logo em seguida. Entre elas havia crianças, adultos, adolescentes, velhos. Pessoas de todas as etnias e classes sociais. Estava sendo selecionadas segundo o nível de vibração da alma.
Todas as pessoas que estavam na minha casa desapareceram, inclusive uma irmã minha. Só sobraram minha mãe, minha irmã e o marido dela, que sorriam. Os outros foram levados e eles sorriam. Sabíamos que era para o melhor de todos.

A princesa dos ares


Ela brilha como a prata.
É resistente como o aço.
Maleável como a água.
Flui no céu e na terra.

Ela é terra firme,
E nela mergulhamos.
Nos alimenta com o brilho de cima,
E com a energia da terra abaixo.

É pequena, mas gigante.
É fogo, mas pode congelar.
É o sim e o não,
Em forma humana e divina.

O vento a carrega
E ela o guia
Porque é a Deusa do todo
A princesa dos ares...