Biohazard: a limpeza (parte 3)

No mercado o tempo parecia que não passava. A bateria do meu relógio acabou e eu nem queria mesmo saber as horas. Comemos primeiro os pães e as coisas que a gerente disse que estragariam rápido. Minha mente fervilhava com idéias sobre denunciar toda essa desgraça, mas vendo os fatos, é difícil acreditar que eu possa sobreviver. Já passou uma semana, eu acho, e os monstros lá fora continuam de pé normalmente. Como é que essas coisas conseguem?

Eu só vivia dentro de casa, então não conhecia muita gente. Mas reconheço alguns. Tem o cara da padaria. Grandão. O segurança do banco, a mulher da loja de presentes. Vai ver se não tivesse vindo trabalhar estariam vivos. Só penso merda: provavelmente estariam mortos mesmo.
Isso me faz pensar no valor do corpo. Será que essas coisas possuem algum espírito? O que as mantém vivas? O que da a elas energia e motivação?

A gerente do banco nos mostrou o forno que usávamos para assar comida às vezes. Também usávamos o fogão que tinha lá. Estava muito velho. Nem sei porque um mercado tem fogão.
Depois de comer, limpar as coisas e organizar os produtos, coisa que ela fazia compulsivamente, ela se sentava no canto onde foi encontrada e abraçava as pernas. Ficava se balançando. Tentei uma vez falar com ela, mas ela me ignorou completamente. Só respondia quando se tratava de um problema pra ela resolver.
O sargento logo percebeu isso.

- Alberto, chama lá a gerente.
- Sim, senhor.

Alberto veio andando. Não entendo bem porque ainda obedece às ordens do sargento. Afinal, toda a estrutura hierárquica não tinha nenhum valor nesse momento. Talvez ele só queira se ocupar, e obedecer ordens seja o bastante. Ou talvez ele esteja tão habituado a ser comandado que isso se tornou natural como respirar.

- Isabela, Sargento quer falar contigo.

Ela não respondeu. Continuou balançando agachada no chão.

- vum bora, tu tem que resolver um problema pra ele.
- Que problema? – perguntou ela
- Sei lá, porra. Não é problema meu. Bora!

Ela foi com ele, que a segurou no braço. Consegui deduzir pelo olhar dele que queriam se aproveitar dela, mas ela parecia fora de si. Talvez seja estresse pós-traumático ou algo assim. Segui-os e vi o que aconteceria.
- Qual é o problema? Perguntou Isabela com seu ar de sempre.

Ela sorria muito quando falava com os outros. Sempre parecia alegre. Percebi que era um sorriso compulsivo. Nada natural. Enquanto sozinha ela falava sozinha com voz de angustia. Quem seria essa mulher de verdade? Será que sua mente poderia se recuperar?

- Não façam isso! – exclamei
- Não é lerdo mesmo, em moleque. Já sacou a porra toda, então?
- Ela ta traumatizada cara. Isso vai ferrar com a cabeça dela. Não faz isso.
- Vai pra merda, moleque. Tu fica se fazendo de santo aí, mas tava olhando pra bunda dela que eu vi. Vai tomar no cu. Tu também quer!
- Pra isso que tenho um código de ética.
- Hahahahahaha! Tu é maluco, cara. Olha só pra ela. Ficou maluca. Se duvidar nem sente nada!

Eles tinham armas pesadas e eu não. Não adiantaria enfrenta-los. Eles eram cinco, sempre armados. Eu tinha só uma pistola e mesmo assim nem sabia atirar. Minhas palavras foram vazias.
Eles fizeram uma fila. Colocaram-na no caixa, onde passavam os produtos. Olhando aquela cena eu sentia um misto de cólera, tristeza, desespero e desejo. Sim, devo admitir que também queria. Mas meu senso de ética jamais me permitiria. Não eu, que luto pelo bem. Não eu...
Peguei uma garrafa de vodka e fui pro açougue. Bebi rápido e apaguei. Disso eu lembro apenas uns fragmentos. Alguém com a garrafa na mão. Alberto. Ria muito, me levou pra algum lugar.

- Isso aí, cara! Isso aí porra!

Acordei no segundo andar do mercado, onde ficavam algumas mesas e havia um vidro que dava visibilidade para a rua. Levei um susto com os monstros, mas estava de ressaca, e me movi devagar. Meu movimento lento não causou admiração neles. É como se eles esperassem desespero. Os movimentos lentos, tranqüilos ou mesmo atrapalhados como os meus não surtiam qualquer efeito. É como se eu já fosse um deles.
Talvez seja isso. Talvez só estejam embriagados e um dia acordarão com uma tremenda ressaca. Quem sabe tudo volta a ser como era?
Como se o que era fosse algo bom...

- Acordou, garoto!
- Sargento?
- A partir de hoje pode me chamar de Silva.
- To acostumado a te chamar de sargento já.
- Chama de sargento silva, então.
- Ta. Que aconteceu ontem?
- Lembra não?
- Nada, cara. Bebi pra caralho.
- Porra, tu comeu a Isabela com vontade, maluco. Tinha que ver. A mulher nem reclamou, Gozou e os caralhos.
- Que?
- É, maluco. Tu apagou e ela continuou tentando te agarrar mesmo você estando apagado.
- Puta que pariu...
- To falando que no fundo tu não é tão certinho assim! Bora, ela acordou de bom humor e fez carne.

Desci e fui recebido pelos soldados com um certo grau de admiração. Não é possível que me admirem assim só porque comi a mulher. Devo ter feito algo mais.

Perto do depósito estavam empilhadas caixas, como que formando uma mesa. Estava forrada com uma toalha que estava a venda no mercado. Ela fritou um bife de alcatra, e realmente estava bom. Com farofa pronta, batata palha, arroz, feijão e queijo. Estava tudo bom.
Ela se sentou do meu lado e ficou segurando meu braço. Era estranho pra mim. Ficava beijando meu braço.

- Que mais eu fiz ontem à noite?
- Maluco, tu virou outra pessoa. Vou te falar uma parada: nunca esperei isso de você.
- Que eu fiz?
- Tu catou um fuzil, subiu no telhado e explodiu um carro lá no fim da rua. Daí todos os zumbis correram pra lá e tu deu o papo: cata as bombas do carro. Sargento já tinha sacado seu plano, daí já chegou com os explosivos. Agora temos a corneta e mais quatro bombas, neguinho. Vamos mandar esses monstros de merda pro saco. Porra, a gente vai sair desse buraco!
- Eu atirei com o fuzil?
- Pois é, maluco. Tu parecia que tava possuído. Ficava chamando a gente de burro, que já devíamos ter feito isso.
- Algo mais?
- Ah sim. Deu mais uma idéia quando tava chapado quase dormindo.
- Qual foi?
- Foi assim que tu falou: Dois no teto. Um explode um carro do estacionamento na frente e atrai os monstros e o outro avisa pro sargento se a barra estiver limpa do lado de trás. Daí se estiver eles saem, atravessam a rua e colocam a bomba lá. Longe do carro, pra não foder com ele. Daí voltamos, trancamos tudo e acionamos a corneta. Depois de explodirmos a maioria, matamos o resto com fuzil. A gente tem bala pra caralho. Maluco, tu é inteligente pra caralho. Só fica pensando e sai com uma dessas.

Pareceu mesmo uma idéia razoável. Só não me imagino fazendo esse tipo de coisa. Pareceu como um plano que não viria de mim. Fico sempre concentrado nas questões abstratas. Será que inventei mesmo esse plano? Quem sabe?
Depois de comermos, Isabela lavou os pratos e os talheres. Poderíamos simplesmente jogar fora e pegar outros, mas ela lavou e guardou no mesmo lugar em que encontrou.
Sargento Silva e os soldados ficaram no teto praticando tiro ao alvo e eu sentei num canto. Minha cabeça tava explodindo.

- Ei, qual é o seu nome?
- Roberto.
- Posso te contar um segredo? – disse ela ao abraçar meu braço.
- Conta.
- Sei que você é um anjo. Pode deixar que eu não conto pra eles. São do diabo. Se eu contar pra eles, acabam te matando.
- Não sei bem se sou anjo.
- Porque?
- Porque anjos são bons. Não acho que eu sou bom.
- Você é bom. Eu posso sentir que é bom.
- Eu te estuprei ontem.
- Não.
- Não?
- Você fez amor comigo, me trouxe de volta pro mundo. É um anjo, tenho certeza.

Fiquei sem palavras. A fantasia daquela mulher a levou a efetivamente me endeusar. Mal sabia ela que não sou nada disso. Bem, se essa fantasia é boa pra ela, quem serei eu a negar?
Abracei-a, o que pareceu para ela como uma confirmação das afirmações que ela acabara de fazer. Ficamos abraçados ali o dia todo. Me acostumei com o calor dela. Peguei no sono

Havia um menino na frente do lago, e de repente ele se tornou um gato filhote. Parecia débil. Ao que parecia, o gato pretendia mergulhar e pegar um peixe.
Contrariando todas as expectativas, o gatinho mergulhou com tanta destreza e velocidade que não foi possível vê-lo antes de ele sair do lado com um peixe quase do seu tamanho na boca.
O menino cresceu e teve que voltar ao colégio depois de grande. Seu diploma havia perdido a validade. Ainda precisava aprender antes de continuar: é o que o estado decidiu.

- Ô moleque. Ta dormindo porque? Cacete, agora só vai dar pra detonar os zumbis amanhã.
- Beleza, então.
- Dormiu feito anjo. - Disse Isabela
- Aé? Estranho...
- Sonhou com o que?

Contei meu sonho a ela, ao que ela reagiu imediatamente.

- É uma mensagem de Deus!
- Que?
- Ta dizendo que você vai conseguir.
- Conseguir o que?
- Não sei dizer, querido. Mas é algo para o qual você não se imagina preparado. Vai conseguir e contrariar suas expectativas.

Sobre a utilidade dos debates

Antes de explicar a argumentação é bom deixar claro o caráter subjetivo desta: é claro que as objeções são bem vindas, mas ao faze-las deve-se ter em mente que não pretendo colocar isso como uma regra a todos os indivíduos. Daí decorre que opiniões contrárias podem se somar ao meu argumento ao invés de contraria-lo. Isso, aliás, já parte das premissas do próprio texto.
Dividi os debates em dois tipos, e espero deixar meu julgamento de valor acerca dos tipos claro para os leitores.
O primeiro tipo de debate é o que se baseia em competição: Cada indivíduo pretende colocar seu ponto de vista acima do alheio.
Por mais que isso possa soar deprimente, há casos em que esse tipo de debate é inevitável. Principalmente nas questões prática. Se tivermos, como exemplo simplório, que escolher entre dois caminhos e cada um dos argumentadores tiver uma posição em relação, dever-se-á apresentar argumentos que, naturalmente se contrapõem. Nesse tipo de debate, por vezes a razão não tem qualquer efeito: vence quem fala mais alto, quem possui voz de comando ou quem possui o poder deliberativo maior (R$).
Quando esse tipo de debate acontece no nível abstrato, se demonstra o conflito psicológico. Porque nas questões filosóficas, metafísicas, epistemológicas e suas ramificações, não há definição. A definição que cada indivíduo tem nada mais é do que um reflexo de seu psiquismo: não vai além da subjetividade.
O simples fato de esse tipo de diálogo ocorrer já nos prova que precisamos reafirmar nossos complexos: reafirmar nossa fé na proposição intelectual (ainda que cética). Apesar de tomar dimensão dialética (retórica) considerável (algumas vezes), na maioria das vezes esses diálogos não passam de discussões entre crianças: não é. É. Não é. É. Ad infinitum, porque basta que afirmemos uma opinião repetidamente para que ela se torne verdadeira.
Nesse caso, embora possa parecer, o debate não é inteiramente inútil, porque sempre que dialogamos há uma nova oportunidade para reorganizarmos nossos pensamentos. É sempre um exercício para o intelecto e para a capacidade de expormos idéias. Apesar disso, quem já participou de diálogos como esse, entendem que é inútil para o crescimento pessoal: serve apenas para dialetizarmos nossa opinião mais intensamente, e isso pode até ser prejudicial se o indivíduo fizer isso para reafirmar suas convicções de origem psicológica.
Há outro tipo de debate, que seria melhor definido como diálogo se as opiniões não fossem discordantes, havendo atrito. Um exemplo desse tipo de debate pode ser encontrado no meu blog. Um registro de um debate relativo ao conflito entre poligamia e monogamia.

http://insilasbrain.blogspot.com/2009/04/poligamia-x-monogamia-profundidade-e.html

Não é necessário que, nesse caso, os debatentes sejam individuados e nem que sejam espíritos “superiores”. Apenas se requer que ambos saibam que é improvável que suas idéias não sejam parciais. Noutras palavras, isso também poderia ser definido como humildade, embora, mesmo eu sendo arrogante pessoalmente, tenho conseguido alcançar essa meta. Para isso, é necessário que vejamos o caráter efêmero de nossas idéias, que coloco insistentemente nesse blog.
Para esse tipo de diálogo acontecer, deve haver essa “humildade” dos dois lados (se só existirem duas opiniões). Caso contrário, um afirmará que a opinião é universal, o outro afirmará que é relativa e nenhum dos dois fará mais do que repetir essas afirmações.
Quando duas pessoas partem da premissa de que anda do que pensam é absoluto, já que foram capazes de entender contextos externos e internos para o desenvolvimento de sua opinião, identificando nela seu caráter subjetivo, o debate se torna extremamente produtivo e prazeroso.
Nesse caso, os dois lados realmente se importam com a opinião do outro, tanto como complemente para a própria como para entender o psiquismo deste, o que poderia possibilitar amizades mais verdadeiras e menos fundamentadas e projeções e expectativas irracionais.
Daí decorre que os dois constroem uma visão mais profunda e até mesmo mais próxima da verdade (se é que há alguma verdade), porque um consegue dar conta das miopias do outro. Afinal, por mais que saibamos que somos míopes, isso não nos torna isentos de emitir conclusões parciais. Porque não se trata de compreensão racional, e sim de vivência: se não vivemos experiência que nos individuaram, nosso entendimento será parcial por causa de nossos complexos e do nosso tipo psicológico.
Não há a necessidade, nesses diálogos, de repetir o mesmo argumento incansavelmente, e por isso ele não nos ajude no nosso exercício dialético tanto quanto os de competição.
Mas o exercício dialético serve apenas para a comunicação: seria um absurdo pensarmos que pela mera construção dialética nós podemos encontrar alguma verdade, porque essa dialética nada mais faz do que expressar uma opinião íntima que não possui forma de palavras, mas permanece em forma de pensamento até que precise ser traduzida em palavras para ser expressa.
Justamente por isso que quem memoriza palavras pode, muito bem, não ter nenhum conhecimento acerca de seu conteúdo.

Biohazard: a limpeza (parte 2)

Continuei pela estrada a uns 110 por hora até chegar no caminhão do exercito que vi da praia. Apontaram metralhadoras para o carro, ao que parei o carro.

- Sai do carro com as mãos na cabeça
- To com uma pistola na mão direita. Não vou atirar. Olhem estou segurando só com dois dedos.
- Matamos ele ou não?
- Não sei, não parece ferido.
- Me matar é um desperdício. Não to infectado.
- Como sabe que é uma infecção?
- Deduzi. Enfim, também tenho uma arma. Apesar de não saber atirar eu posso aprender e acho que pra enfrentar essas coisas você precisarão de ajuda.
- Sei não. Você tem cara de lerdo.
- Se eu atrasar vocês é só me deixar pra trás.
- Ta certo então.
- O que vocês tão fazendo aqui?
- Acabamos de fugir do bairro mais próximo: completamente infectado.
- Puta que pariu! Lá pra Angra também ta?
- Ta tudo infectado pra esse lado da estrada. Só paramos aqui porque não temos mais gasolina.
- Se souberem como podem tirar a gasolina desse carro que eu vim dirigindo. Se não, podemos nos amontoar nele mesmo e ir.
- Somos cinco: um vai ser que ir no porta-malas.

Um deles quebrou o vidro do porta-malas com o fuzil, tirou os cacos de vidro e entrou.

- Fico aqui de olho atirando neles se vierem atrás da gente.
- Tem zumbis vindo de onde você vieram?
- Eles correm pelas estradas quando dão com carros, mas quando não tem eles vêm andando. Devem levar algumas horas até chegarem aqui.
- Tinha alguns vindo atrás de mim de onde eu vim também, mas a vila não tem tanta gente.
- Tem mercado lá?
- Tem.
- Temos que parar num mercado. É ponto de suprimentos.
- Só voando, cara. Ta cheio deles lá.
- Disse que o moleque e lerdo. Cara, nós temos como matar eles com explosivos. Temos detonadores de controle remoto.
- Como vão fazer pra juntar eles em volta do detonador?
- A gente ta com uns sinalizadores sonoros. Só ligar que eles vêm correndo atrás do barulho.
- Caralho, pensaram nisso quando?
- A uns quatro dias.
- Puta que o pariu! Pensei que isso era dessa madrugada.
- Dessa madrugada aqui. Lá pro centro do rio já ta tudo destruído. Estamos fugindo pro sul porque disseram que lá ta seguro.
- Certo. Deve haver um aglomerado deles perto da entrada da usina a estrada principal tava com pelo menos cem que estavam me seguindo, mas se formos pela usina tem uma passagem direto pra vila. Se não formos por lá não vai ter como entrar com o caminhão.
- Tem monstros perto dessa entrada da vila?
- Vi um grupo grande numa rua próxima. Nesse momento devem estar parados. Com seu detonador podemos pegar eles e chegar até o mercado.
- Não é tão lerdo assim. Só temos dois sinalizadores, embora ainda tenhamos uns cinco detonadores. Vamos explodir eles na entrada da usina e na vila. Daí entramos no mercado e fechamos tudo.
- E depois? – perguntou um dos soldados
- Depois não sei, porra. Tenho cara de comandante. Lá a gente decide.
- Beleza, bora. O motorista do caminhão assumiu o comando do carro. Pegaram mais uns cinco fuzis com silenciador e cinco bombas.

Dirigimos até um ponto próximo à usina: bem na entrada havia vinte deles. Pararam com o carro e atiraram de longe. Um barulho insignificante no tiro. Pareciam mesmo preparados para enfrentar essa praga. Preparados demais...

- deve haver mais deles la pra baixo. Vamos colocar o explosivo naquele ponto, onde não danificaremos a passagem da estrada e nem a entrada.

Fui com eles, que agiam como se eu não existisse. Alguns zumbis nos avistaram e vieram correndo e berrando.

- Esses aí vão atrair outros.
- Vão nada. Se matamos rápido os outros meio que interpretam como alarme falso.
- O que são essas coisas?
- Para de falar, porra.

Me calei e observei como eles trabalhavam coordenadamente. Simplesmente não atiravam no mesmo zumbi, e sempre acertavam a cabeça. Provavelmente eram soldados de elite ou algo assim. Ativaram a bomba e em seguida o som. Parecia o sinal do meu colégio.
Correram imediatamente e eu fui junto. Felizmente consegui acompanhar o ritmo.
Do ponto em que estávamos era possível que os monstros nos avistassem, mas apenas poucos nos viram. Todos correram em direção ao som. Quando se aglomerou uma grande quantidade eles detonaram o explosivo, que lançou alguns longe.
Alguns estavam em chamas, outros desmembrados. Somente alguns pareciam começar a se levantar. Arrancaram com o carro. Três ficaram do lado de fora atirando nos que nos perseguiam. Eram poucos.

- É pra onde, moleque?
- Vira pra direita ali. Vai direto e quebra a cerca

Seguimos por aquele caminho que eu nunca havia visto e acabamos na estação de tratamento de água da vila. Lá de cima deu para ver muitos zumbis tentando sair do valão. Provavelmente desceram por outra parte atrás daquele meu colega que escapou. Será que ele sobreviveu?

- Há muitos deles presos no valão, mas se correrem até a praia se libertam.
- Foda-se, não vou gastar bala com zumbi que não ataca. Aliás, falando em praia, tem cais nessa praia?
- Não, não é permitido nem permanecer com barcos na praia.
- Que merda...

Seguimos pela rua da extremidade. Tudo estava deserto por ali. Alguns zumbis estavam sozinhos espalhados pelo local. Os soldados os mataram rápido. Muitos nem perceberam nossa presença. Na parte de trás do mercado havia aquele típico cheiro ruim. Um caminhão de refrigerante estava com a porta aberta, e a entrada estava escancarada. Provavelmente lá dentro confrontaríamos problemas. Entramos e passamos por alguns corredores escuros.

- Moleque. Volta e pega os rifles.
- Porra. Sozinho?
- Vai logo, porra.

Voltei contrariado, mas não tinha escolha. Eram cinco, e pensei que poderia carregar todos de uma vez. Um erro, pois eram muito pesados. Com dificuldade peguei dois e levei pra dentro. Quando sai para a segunda viagem ouvi berros de dentro do mercado e tiro. O barulho por certo atrairia mais monstros, e por isso me apressei em carregar outros dois rifles. Quando voltei, vi uns dez deles vindo correndo. Coloquei a pistola na cintura e usei o rifle para atirar neles. Segurei a arma como os personagens dos jogos fazem e dei uma rajada. Caí no chão e acertei apenas um na perna. Ele caiu e outro tropeçou nele, mas seria inútil tentar enfrentálos. Entrei e tentei fechar a porta, mas um deles colocou o braço pra dentro antes. Apoiei as duas pernas na parede e fiz força para não abrirem, mas percebi que não agüentaria muito: os malditos são muito fortes.

- ajuda aqui! Caralho, vão entrar!

Um dos soldados veio e começou a atirar pela fresta aberta graças ao braço do zumbi. Depis que o braço parou de se mover eu tirei os pés da parede e ele continuou atirando. Joguei o braço do monstro pra fora e fechei a porta.

- Trouxe os explosivos?
- Não. Não deu tempo.
- Porra, seu animal. Agora vamos sair como? Tomar no cu! Lerdo pra caralho!

Peguei barras de ferro e travei a porta com elas. Estava em choque e não queria falar nada. Lá dentro, uma carnificina. Uns trinta zumbis estirados no chão.

- vão apodrecer. Temos que tirar os corpos daqui. Vai levar pra onde? Pro jardim da sua casa?
- Não sei, cara. Mas deixar aqui vai ser foda.
- Larga eles no frigorífico. – Falou uma voz feminina vinda do acouge. – Tem espaço lá e não vão apodrecer, feder e nem trazer pestes.

O olhar dela era maio vazio. Nem quero imaginar o que ela presenciou aqui. Parece que suas emoções estão escondidas dela mesma.

- Quem é você?
- Sou Isabela. Sou gerente do mercado. Tava escondida no açougue. Fecharam lá atrás?
- Sim.
- Então aproveitem que ainda tem eletricidade aqui. Vou tentar acessar a internet la em cima. O combustível do gerador deve acabar logo logo.

Sentei no chão perto das frutas. Peguei uma maçã e me encostei uma prateleira. Imaginei que essa seria a hora em que o pesadelo acabaria...

- ô Maria mole. Sentou porque. Temos que carregar os corpos!
- Beleza.

Me levantei e joguei a maçã numa caixa vazia. Quatro soldados carregavam dois corpos, então provavelmente eu carregaria um com esse que me chamava.

- qual é o seu nome, cara?
- Soldado Costa.
- Não, to falando do seu nome.
- Alberto.
- Então, Alberto. Vocês mataram todos esses ou alguns já estava caídos? Já tinha uns cinco caídos.
- Vamos tomar cuidado com os que já estavam caídos. Sei lá, podem se levantar.

Ele deu um tiro na cabeça de um que estava próximo.

- ta seguro pra você agora?
- Que porra foi essa aí? – chegou gritando outro militar.
- Né nada não, sargento. É que esse moleque ta com medo de os caídos levantarem.
- Para de sacanear o moleque, porra. Os caídos levantam mesmo. E para de enrolar e começa a carregar essa porra.
- Sim, senhor!

Pegamos o corpo, eu pelas pernas e ele pelos braços. Sacudiu o cadáver, o que me deu um susto. Começou a rir. Numa situação dessas eu também riria, mas as imagens que estavam na minha mente me impediam. Chegamos no frigorífico e colocamos o corpo em cima de outros dois, lá no fundo. Tinha um cheiro estranho. Uma mistura de carne crua com cadáver. Até que o cheiro não era assim tão diferente.
Carregamos todos os corpos. No total trinta e um. No final eu estava exausto, mas ainda tivemos que limpar o chão. Quase todo o hospital estava banhado em sangue. Todo aquele trabalho mantia pensamentos distantes da minha mente. Não sei dizer se isso é bom ou ruim. Por um lado, isso alivia a angústia que toma conta de mim, e por outro eu sei que reprimir não vai me ajudar a longo prazo. Mais cedo ou mais tarde vou ter que enfrentar essas imagens.
Quando tudo estava em ordem o sargento nos deu ordem para descansar. Eu tinha, efetivamente, me tornado um soldado. Em meio Àquele desespero ele demonstrava uma firmeza que, de certa forma, me fazia ouvi-lo.
Peguei um saco de arroz, fiz de travesseiro e deitei no chão.

- Já vai dormir, moleque?
- Porra, se eu não dormir eu vou entrar em parafuso, cara. Caralho, ta todo mundo morto!

Tentei segurar, mas uma lagrima escorreu pelo meu rosto. Pensei que Alberto iria rir, mas ele se calou. Com um olhar meio vazio e triste ele se foi ao comando do sargento. Nem quero saber o que vão fazer.

O cavaleiro azul voltou. Eu já o conhecia de outro sonho. É um sonho lúcido, e o ambiente está agradável de novo. Cheiro bom, dia claro. Eu e o cavaleiro azul estávamos no quintal da minha casa.
- E agora? – perguntei
- Agora tudo se renova.
- Tudo está sendo destruído!
- Tinha que ser assim.
- Porque?
- Não tenho nada com explicações ou justificativas. É assim que acontece.
- Acontece o que?
- De que vale minha explicação? Vá adiante e verá!

Acordei com o barulho de tiros. Abriram um buraco no telhado e subiram.

- Da pra pisar, sargento!
- Como é que ta aí fora?
- Ta foda, sargento. Tem pelo menos uns 150 lá atrás. Na frente mais sessenta. Isso sem falar nos que tão vindo pra cá das ruas. Vão chegando um a um.

Levantei e fui até eles.

- Se matarmos eles e ficarmos em silêncio, talvez aqui seja seguro. A entrada principal ta destruída e aquela de onde viemos é meio escondida. Duvido que muitos venham de lá.
- Ta, mas e depois. Rapa, o coronel deu o papo antes de sair que quem chegar no sul será levado pro hemisfério norte. Pra lá não tem infecção.
- Onde isso começou?
- Sei lá, porra.
- Como sabe que não tem no hemisfério norte?
- Porque o coronel disse.
- Isso é burrice. Se sairmos daqui pro sul a gente vai acabar morrendo. Ou morremos no meio do caminho ou morremos lá: é só em filmes que os americanos sobrevivem às piores tragédias.
- Isso não é verdade. – interferiu um dos soldados. – diz pra ele sargento.
- Porra, não é pra ficar passando essas informações!
- E quem vai reclamar?
- Ta legal. Se liga, nosso coronel nos treinou contra esses monstros um mês antes de a pandemia começar.
- Caralho, você estavam prontos?
- Mais ou menos. Sabemos como eles se comportam, mas na prática é complicado. Éramos um grupo de dez.
- Puta que o pariu!
- Que foi? – disse o soldado.
- Isso foi um plano de extermínio, cara. Eles exterminaram nosso país!
- Que se foda. Vou pros estados unidos e la terei vida boa.
- Porra, pensei que no exercito ensinavam patriotismo. Quer dizer que os caras destruíram sua vida e sua nação e você não se importa. E sua família
- Eu não tenho família, e esse papo de patriotismo é balela. Na hora do vamos ver as pessoas só pensam em si.

O outro soldado pareceu movido pelas coisas que eu disse. Não acredito com tanta convicção em patriotismo. Na verdade também me sinto indignado por todos os outros países que provavelmente também foram dizimados por essa praga. Só estava tentando me articular na linguagem deles, o que pareceu inútil.

Sobre Humanas, Musas e Deusas

Não quero submeter esse raciocínio metafísico análise psicológica. Se alguém, algum dia e por algum motivo desejar fazer isso, que o faça. Eu não o farei.
Quero falar aqui sobre algo para além de qualquer definição racional e que, no entanto, exponho com as palavras racionalmente (e não me importo com a contradição).
Mulheres são, para mim, criaturas peculiares e especialmente atraentes. Conseguem, com suas qualidades estéticas e espirituais, carregar meu espírito com enorme facilidade. Falo delas, então, com o coração.
As humanas são mais comuns e, não por isso, pouco encantadoras. Toda a musa e toda a Deusa também é humana. As humanas têm olhares penetrantes. Elas iluminam a alma do homem com sorriso, incendeia um espírito com uma bela dança.

“Sucedeu que, quando os homens começaram a multiplicar-se sobre a terra, e lhes nasceram filhas, viram os filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas; e tomaram para si mulheres de todas as que escolheram.”
(Gênesis 6:1-4)

As humanas garantem aos homens que não há como viver só de espírito. Nos trazem a carne, e quem disse que isso é ruim? Não é! Humanas possuem algo que seria interessante para muitos homens: são capazes de remover deles todo o pensamento, toda a arbitrariedades. Com elas, só somos, só queremos. Mostram, efetivamente, que estamos vivos...

As musas, de forma geral são bem humanas. Sua forma, aos nossos olhos, é atraente. Não menos do que as humanas. Mas elas possuem algo para além disso. É o germe do divino. São realmente semi-deusas que tocam no profundo da alma dos homens. As mudanças que uma musa pode trazer a um homem são tão profundas que eu arrisco deduzir que elas estão aqui, efetivamente, para ajudar-nos no nosso progresso espiritual. Quando em contato com a musa, é comum que o mundo desapareça para o observador. E ela nem precisa ter consciência disso. É que, para os homens que olham com a alma, elas mostram um brilho tão grande que não há como olhar para algum outro lugar. Elas queimam a alma e trazem aos homens o poder do intelecto ou o da paixão.

Que a deusa abençoe todas as musas desse mundo, que cruzam nosso caminho nos ensinando a existir e nada pedem em troca além de nossa devoção. E essa devoção nem precisaria ser pedida: os que são realmente devotos não o são por escolha. Por que o que motiva é emoção, e emoção não depende de escolha ou determinação.

A Deusa também a chamam de gaia, para mim é Ângela. São só nomes: todos sabemos que se trata da grande mãe. A genitora de todos os espíritos.

Existem, além da Deusa, outras deusas. Algumas delas vivem entre os homens, embora muitos sejam demasiadamente ignorantes para dar-lhes seu devido valor. Porque somente a idéia de valor que temos é insuficiente. Posso dar muito valor aos meus amigos, aos meus pertences. Mas esse valor é efêmero, e o valor das deusas é infinito.
Só se pode retribuir o amor das deusas com um amor como o delas, e quem são os homens que podem fazer isso?

Ou eles se escondem em timidez ou eu sou cego (ambas as possibilidades são prováveis).

Porque as deusas são tudo. Elas são humanas e também são musas. Porque uma deusa te prende (e te liberta) tanto pela forma de andar, quanto pelo olhar e pelo sorriso. Tanto pela capacidade única de compreender sua alma quanto a de senti-la. Porque entender e sentir não se separam. Tão lindas são as deusas que não me importaria de serem pouco humanas. Não me importaria de vê-las sem a estética que possuem. Mas a verdade é que o espírito divino gera um reflexo nos seus olhos. Torna o olhar bonito, o sorriso sereno, o caminhar tranqüilo.
O espírito das Deusas se espalha por toda a totalidade delas e do mundo, e não o separa delas. Porque elas são o mundo. Olhando para uma deusa eu me volto à Deusa e pergunto: somos mesmo dignos de viver com tal criatura?

Sou um covarde e nada mais, porque me reservo a observar. E observar é tão bom. Cada gesto, cada olhar, cada raciocínio, cada emoção. É tudo tão belo, tão peculiar...
Apesar de reconhecer que nosso mundo não merece tamanha benção, lastimo profundamente o fato de que são raras tais presenças divinas.
Lastimo o fato de que as Deusas passam rapidamente. De que só por um curto período de tempo o mundo todo se reflete em suas almas.
Afinal, quem sou eu para ao menos desejar a compania de uma deusa? E mesmo que eu fosse digno, de onde eu tiraria a ousadia de dizer a elas que sei de tudo?
Como eu diria pra elas que são deusas e que as amo sem que minha mortalidade me refreasse?
Não. Me limito a escrever sobre elas. A fazer uma poesia, a sonhar, a imaginar todo o encanto que me trazem. Só imaginar, porque sou mortal demais: Somente com o auxílio de uma deusa eu chegaria ao olimpo. Atenas...
E eis minha convocação.

Deusa clara
Deusa dourada
Deusa brilhante
Deusa flamejante

Traz para mim o poder
O poder de trazer o espírito
Ao corpo débil
de poder toca-las.

Porque meus olham choram por ti
E meu coração clama vigorosamente
Porque meus pelos se arrepiam
E o meu corpo treme

Abriga, deusa
O som das minhas palavras
E, se desejar,
Delicia-me com o som das tuas

Porque a sua alma é um balsamo
Ela é como posso amar o mundo
Porque é somente tu, ó Deusa
Que pode enfrentar a sombra do diabo.

Pensamento passivo, moral, metafísica e individuação.

Em primeiro lugar, para desenvolver o raciocínio, vou definir os principais termos que pretendo utilizar.

O pensamento passivo é um tipo de raciocínio que vai fluindo sem o controle do Eu¹. É quase que um tipo involuntário de pensamento que, no entanto, nos leva a conclusões, por vezes interessantes. Segundo a tipologia Junguiana, esse é o pensamento orientado pela intuição. O que o contrapõe, que é o pensamento orientado pela sensação, é estruturado e planejado em busca de uma conclusão ou resposta. Diferente do pensamento passivo, o pensamento ativo é controlado pelo Eu.

Já que o pensamento passivo é aquele que determina nossa metafísica (porque esta é algo irrefletido), é forçoso que o pensamento ativo é submetido a ele, embora se deseje que as determinações do eu sejam absolutas.
Evitando discussão sobre a conceituação da moral, quero deixar claro que falo de um aspecto desta, aqui. Não falo da moral como um sistema de regras para o comportamento objetivo, mas apenas de moral como regras para pensamentos e sentimentos. A moral que define o que pode ser pensado e o que pode ser sentido.

Por vezes um pensamento passivo, já que está fora do nosso controle, contraria certos paradigmas ou valores do Eu. Assim, se eu tenho uma visão maniqueísta baseada numa religiosidade dogmática, é provável que meus valores rejeitem certos sentimentos (a saber, raiva, ressentimento, etc.) e que meus paradigmas rejeitem certas idéias (ateísmo, outra visão religiosa, etc.).

Apesar desse funcionamento imperativo do Eu em relação ao filtro de idéias e sentimentos, podendo reprimir certos pensamentos alcançados de forma passiva, seria essencial para o desenvolvimento do indivíduo que ele seguisse o conselho de Nietzsche: Se transformar em leão, a fim de matar o dragão, que possui em suas escamas o “tu deves”.

Não quero passar aqui uma idéia de que deve-se abrir a mente a outras (todas as) perspectivas. Não adianta tentarmos assimilar idéias que contrariem nossa essência ou estágio, pois a idéia não passará de um conjunto de palavras sem valor (eis aí um argumento contra a disciplina). Somente seria saudável reconhecer o caráter efêmero das idéias. Como já disse noutras postagens, nossos pensamentos, em sua maioria, nada mais são do que um reflexo de nossa identidade ou do estágio no qual no encontramos.
Daí decorre que abraçar dogmaticamente a alguma idéia é se prender ao passado e impedir o próprio desenvolvimento.

Poder-se-ia objetar que é escolha do Eu decidir se quer desenvolver-se ou não. E seria plausível tal objeção em nível filosófico. Só que em nível psicológico, a deliberação do Eu não é assim tão poderosa quanto queremos que seja: O impulso para o desenvolvimento e o equilíbrio continua acontecendo na psique inconsciente.

O juízo de valor sobre uma idéia alcançada de forma passiva deveria ser sempre positivo, embora, mesmo com boa vontade, nem sempre isso seja possível, já que esse tipo de idéia flui do inconsciente com certas mensagens, que podem, por vezes, integrar conteúdos reprimidos ou que nunca foram conscientes. Assim a consciência seria expandida e mesmo a qualidade de vida seria melhorada.

No entanto, quando um padrão moral toma conta da mente do indivíduo, alguns símbolos são negados e ele se mantém estagnado em seu desenvolvimento.
Tudo isso por uma moral que, embora possa parecer firme, é tão efêmera quando os paradigmas que vem e vão. É de suma importância entender que nem sempre pensamentos passivos são equivalentes a algo que precede os atos. Muitas vezes (senão todas) eles são símbolos que nos ocorrem com o objetivo de expandir a consciência.

Concluindo, a mensagem aqui é que deve haver sempre uma reflexão crítica sobre a metafísica: é dela que fluem nosso desenvolvimento de raciocínio e nossa conclusão. Por mais que queiramos, escolher nossa metafísica é impossível. Até porque, do ponto de vista racional, uma metafísica não é melhor do que a outra. Apenas aquela que mais se adequar à nossa identidade ou estágio parecerá mais agradável e aceitável. Uma reflexão sobre nossa metafísica nos leva a uma maior compreensão sobre nossa própria identidade. Quando digo identidade ou estágio, quero postular que, embora mudemos, não mudamos. Noutras palavras, a mudanças pelas quais passamos na vida nada mais são do que estágios para a realização do que verdadeiramente somos. Para a individuação.

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1: O Eu a que me refiro é o Ego. O centro da consciência. É aquilo que é identificado na consciência como o que somos.