Sobre a dualidade da ética

Eis aí um tema discutido incansavelmente. Sobre o que é a Moral e sobre qual é seu fundamento. O primeiro post do meu blog trata desse tema, mas agora ele só serve como histórico: minha opinião mudou tão radicalmente(ou nem tanto) que achei necessário refazer todo o discurso, tornando-o mais completo.


Duvido, honestamente, que alguém que esteja lendo isso tenha visto o outro post, mas vou comentar minha mudanças de opinião dentro de um capítulo nesse mesmo texto. Será simples: é só pular essa parte e continuar até o próximo subtítulo: Sobre a nova visão. O novo insight será exposto como novo.

Sobre as mudanças no paradigma

“Falo mesmo pelo meu próprio código de ética, que na parte relacionada a sentimentos é muito restrito justamente porque, comigo, os sentimentos que são fortes o bastante para me mover são direcionados a poucas pessoas, sobrando para as outras a ajuda motivada pelo código.”

Nesse caso a falta de fundamento mais profundo me impeliu a exprimir a idéia de forma incompleta. Enquanto introvertido, é natural que apenas poucos fiquem próximos, pois para isso seria necessário que entrassem no meu mundo. Daí decorre que apenas com a força da consciência eu conseguia agir de forma ética para aquelas pessoas que não “existem” no meu mundo. Não é bem por não me importar com elas, mas sim pelo fato de que, como disse, é como se ela não existissem.
“Um sujeito egoísta tende a agregar perto de si outros igualmente egoístas. Assim, ele consegue sucesso e dinheiro, mas todos os que o envolvem só querem isso. Para esses, a companhia dele não é importante, mas o dinheiro e o sucesso sim. Daí decorre que indivíduos que não cooperam, voluntariamente não conseguem fixar laços afetivos. Colocam amores e amizades abaixo de desejos por dinheiro e poder e acabam descobrindo tarde demais quais são as coisas mais valiosas.”

Eis aí um erro. Uma pessoa não precisa ser materialista para ser egoísta e não precisa ser egoísta para ser materialista. Pelo contrário, pessoas egoístas agregam em torno de si aquelas que podem ser sugadas: justamente as altruístas. Algo parecido com a relação entro eco e Narciso. Existem vampiros psíquicos que não estão, em absoluto, interessados em bens materiais, mas apenas em sugar energia. Pessoas egoístas não atraem esses vampiros e, portanto, nesse ponto, estão protegidas e o egoísmo não é completamente negativo a curto prazo.

Comecei a explorar o universo extrovertido da ética, e justamente porque ele era o menos desenvolvido, tive mais atenção no que dizia:

“E não é só no sentido mais intimo que a moral (baseada na ética) trás benefícios ao indivíduo, pois é obvio para quem observa o mundo de modo mais amplo que o companheirismo e a ética é tudo o que precisamos para um verdadeiro progresso. (...) Sendo assim, a moral baseada na premissa de que nós devemos pensar sempre no bem coletivo, nunca o negligenciando por causa de benefícios desnecessários e também nunca fazendo nada contra a sociedade, pois ela é a mãe de todos e dela que todos recebem o que têm.”

Cheguei no ponto essencial nessa frase, embroa eu não o tenha explorado tão profundamente quanto pretendo fazer agora nessa parte:
“Assim, deve-se refletir num principio moral pessoal que beneficie a sociedade e o individuo. O meu código é muito longo na minha mente, com diversas clausulas, mas pode ser facilmente abstraído dos seus princípios básicos. Todos os itens funcionam para o pessoa e para o coletivo (com variação obvia de intensidade) e devem ser igualmente buscados para si e para os outros. Conhecimento, Liberdade, justiça e Amor.”

Os quatro princípios sempre foram fundamentais, mas eu hoje os separo em apenas dois: os introvertidos e os extrovertidos. Conhecimento e liberdade não podem ser transmitidos com tanta intensidade quanto amor e justiça. Afinal, eis aí a grande falha do nosso sistema de ensino: O ser humano não pode ter sua liberdade violada ao ponto de alguém dizer a ele o que é interessante que ele aprenda. O próprio conhecimento, já que é imposto, não é absorvido. Depois de algum tempo, a maioria das pessoas simplesmente esquece daquilo que aprendeu no colégio. Daí decorra que o conhecimento é muito mais um despertar: se pessoa está realmente interessada, então esse conhecimento se integrará nela. Caso contrário, ele só será uma memória efêmera e desconectada da totalidade paradigmatica. Daí decorre que a busca de conhecimento é muito para voltada para o íntimo do que para o coletivo, de forma que passar conhecimentos para fora não é tão fácil. Passar liberdade adiante é quase utopia. Afinal, grande parte das prisões dos homens são criadas por eles mesmos. Reconhecendo isso ou não, o fato de que o outro diz para ele se libertar é inútil. Somente o indivíduo pode libertar-se de si mesmo e ele não pode delegar essa responsabilidade a ninguém. Os outros princípios precisam ser mais claramente explorados e vou fazer isso no capítulo seguinte.

“‘Minha religião é o amor’ é uma frase que da uma base perfeita à moral sentimental destituída de fundamentos ontológicos que, por sua natureza quimérica, são frágeis.”

Minha visão sobre a metafísica e foi revista e totalmente alterada em reflexões recentes, então esse é um ponto que eu simplesmente me forço a remover. Os sentiemntos formam a metafísica da pessoa, então essas ontologias SÃO os sentimentos, de forma que não devem ser negligenciadas. Apenas seria útil que elas não carregassem consigo uma carga grande demais de convicção.

A explicação subseqüente no texto acerca dos tipos psicologicos nem merece comentário: a descarto.

Sobre a nova visão

Em primeiro lugar, vamos à etimologia. Moral vem de Mores, do latim, que quer dizer comportamento, conduta, costumes. Quando falamos num código moral, estamos procurando definir um código de conduta que deveria ser seguido pelos indivíduos a fim de dar ordem ao mundo.
Essa definição amplamente aceita embarca apenas um universo: o externo. E, no entanto, existe outro universo, que é o interno. Apesar de estarem intimamente ligados, sendo inseparáveis, os dois universos possuem regras completamente diferentes, de forma que quando o indivíduo toma o funcionamento de um como premissa para lidar com o outro surgem duas formas aberrantes de comportamento.
A primeira é mais conhecida, porque vivenciamos na nossa sociedade cristã: a moral externa se impondo à interna. Com essa distorção, pretendendo que uma parte englobe o todo, se criou um código moral totalmente doentio, pois ele simplesmente contradiz a existência humana. Seguir tais códigos no mundo interno presume negar a si mesmo. No momento em que o indivíduo “decide” que deve ser do bem e lutar contra o mal, ele nega uma realidade: o mal existe dentro dele. Por mais que ele se esforce, não há como simplesmente reprimir uma parte de si mesmo e se santificar por meio de uma convicção. Por mais que não queiram acreditar nisso, nossa consciência não tem poder absoluto sobre o que somos. Nada mais fazemos do que decidir seguir as orientações do íntimo ou não.
Isso sem falar sobre regras que não são mais válidas, como a abstinência sexual. Sem me aprofundar, é bom lemrbar que no momento em que tal “mandamento” foi criado não existiam camisinhas. Hoje em dia, mesmo nas implicações práticas, essa regra moral é inútil e prejudicial, pois coloca repressões no pensamento e no sentimento das pessoas, castrando seu desenvolvimento.
De um modo geral, isso é fruto da nossa visão de que o que é natural não é bom. De que deve ser renovado, purificado, santificado. De que “isto não poderia ter acontecido”.
Mas o mundo interno simplesmente não pode aceitar tal pensamento, e é por isso que deve ser difícil para um introvertido lidar com essa cultura: afinal, ele sabe que tudo o que ele é contradiz seu ideal.
É justamente por isso que o ideal é uma farsa: porque ele pretende forçar o homem a ser algo que ele não é. Essas regras, reconheço, forame são úteis, mas estão ultrapassadas e precisam ser profundamente revistas. Em relação a isso nesse mesmo texto pretendo apresentar uma proposta que está longe de ser só minha.
Por outro lado, também existe a moral interna. Essa serve como reguladora de outro universo. Um universo que se guia pro regras diferentes: naturais. Quem já conhece tal universo deve saber que não há como molda-lo com regras. Que ele contém opostos racionalmente impossíveis de serem reconciliados. Na verdade, nesse universo existe tudo aquilo que desprezamos em nós mesmos ou , em caso de projeções, nos “outros”.
É um mundo “incoerente”. Cheio de símbolos, totalmente fora de controle. Você não pode controla-lo com artifícios ou força de vontade. Pelo contrário, é mais sensato aprender com esse mundo do que tentar simplesmente submete-lo.
Nesse mundo não há separação entre o bem e o mal, e por isso coisas aparentemente impossíveis serão vistas. Por exemplo, num fragmento de uma grande fantasia que tenho, dois primos representam o ódio e o amor. Apesar de serem tão contrastantes, eles são amigos íntimos.
Pareceria racional, no mundo externo, que os dois fossem oponentes, mas no mundo interno não há essa separação nítida entre o bom e o mau, o certo e o errado. Por lá, o bem é liberdade, onde nenhuma das partes é reprimida por conta do mundo de fora e o mal é a escravidão, seja por processos internos que querem dominar todo o universo ou por influencia do mundo externo. Da mesma forma que, se você ferir o código moral de fora, as pessoas protestarão contra seu comportamento, se você ferir o de dentro o seu íntimo se revoltará contra você de diversas maneiras. Dentre elas posso citar doenças psicossomáticas, surtos depressivos e complexos poderosos.
Não há motivo para se supor que o mundo externo é mais importante que o interno e vice-versa: são complementares e completamente interdependentes.
Aliás, é interessante notar como, por meio de sonhos e fantasias, o próprio mundo interno nos pede para termos atenção com a existência externa. Por mais que isso seja com pouca freqüência, o externo também faz isso.
As exigências do mundo interno são simples: desperte para o que você realmente é. Encontre aquele valioso conhecimento dentro de si mesmo. A Gnose...
Mas a tentativa de viver segundo as regras desse mundo interno no externo se mostra, no mínimo, engraçada.
Afinal, teríamos que viver numa caverna, apenas com uma cobra e uma águia, tal como o Zaratustra, ou vivermos isolado num mosteiro em reflexão profunda.
E isso quer dizer que deveríamos negligenciar o mundo externo em detrimento do interno.
Mas o espírito tampouco suporta tal situação a não ser que esteja cegado por alguma convicção. Até Zaratustra me apóia:

“Pois bem: já estou tão enfastiado da minha sabedoria, como a abelha que acumulasse demasiado mel. Necessito mãos que se estendam para mim.”

(preâmbulo de Zaratustra)

Recolher-se sobre si mesmo indefinidamente causa um vazio no ser humano, porque é da nossa natureza a necessidade de conexão com os outros. E se formos longe demais, podemos perder o contato com o outro por completo, o que significa um severo dano á nossa psique. É como meu “velocista”:

“A musculatura da perna é forte
Ele avança determinado
Cruzarei a linha de chegada
Diz ele em seu coração

(...)

Tenta enfrentar seu medo
Enquanto corre devagar
Pobre coitado
Só tem uma perna...”

Não se pode seguir apenas a moral de um dos universos e o preço é existir como O velocista: Correndo devagar, pois embora seja forte, é só uma perna.
Para isso deve-se propor, então, um caminho mediano entre um mundo e outro e é justamente aí que o problema começa. Jung disse que há sempre um conflito entre a moralidade de fora e a de dentro. Eis aí uma verdade.

No artigo “A DIMENSÃO ÉTICA DA PSICOLOGIA ANALÍTICA: INDIVIDUAÇÃO COMO ‘REALIZAÇÃO MORAL’”, Marco Heleno Barreto traz uma ótima explicação a respeito disso e deixou fragmentos da obra Junguiana citados por ele aqui como ilustração da minha visão.

“Embora todo ato de conscientização seja no mínimo um passo adiante no caminho da individuação, ou seja, da ‘totalização’ do indivíduo, a integração da personalidade é inconcebível sem a relação responsável, ou seja, moral das partes entre si, assim como é impossível a constituição de um país sem a inter-relação de seus membros. Portanto, o problema ético se coloca por si, e é primariamente a tarefa do psicólogo encontrar uma resposta ou ajudar seu paciente a encontrá-la”

“A questão [terapêutica] propõe-se do seguinte modo: o que, para este indivíduo, e neste dado momento, surge como um progresso à altura da vida? Isto não pode ser respondido por nenhuma ciência, por nenhuma sabedoria de vida, por nenhuma religião, por nenhum bom conselho, mas só pela consideração absolutamente sem preconceitos da semente de vida psicológica que se expande da cooperação natural do consciente e do inconsciente, por um lado, e do individual e coletivo, por outro.”

“Por outro lado, é imperativo observar que o confronto entre Eu e Si mesmo tem necessariamente como pano de fundo a comunidade ética a que o sujeito solicitado pelo impulso de individuação pertence. Isso entranha duas consequências: a primeira é que o abandono – doloroso, para um sujeito ético – das diretrizes morais comunitárias não significa arbitrariedade ou anomia, mas sim o encontro de uma lei que Jung afirma ser mais severa do que qualquer outra lei: a lei que determina os contornos da própria individualidade (Jarret, 1988). A segunda – que nada mais é do que a outra face da primeira – é que a anuência ao impulso de individuação, representando frequentemente uma transgressão ou uma ultrapassagem dos valores estabelecidos que regem a vida de uma comunidade ética, impõe ao indivíduo a dolorosa experiência de sua própria solidão, consequência inevitável da ruptura da inconsciente adesão ao grupo social. Evidentemente, isso não significa o cancelamento da socialidade que define essencialmente o ser humano, mas a transformação da relação intersubjetiva para o indivíduo: acirra-se a necessidade agudamente sentida de comunicação em profundidade com o outro, e a construção dessa comunicação aparece como uma exigência constitutiva da própria individuação. Jung reiteradamente insiste em que a individuação só pode se dar no mundo e não leva a um isolamento do sujeito, implicando sempre a interação intersubjetiva, a comunicação humana profunda.”


E por Jarret:

“Não devemos entender o indivíduo como voltado para dentro apenas sobre si mesmo; senão a individuação levaria ao completo desaparecimento do indivíduo são. Ele deve reaparecer de novo. […] Não faz sentido voltar-se para dentro – desaparecer – se você não retornar com uma mensagem para as pessoas que estão fora”

Como foi demonstrado com as citações, a organização do mundo interno depende do externo e vice versa. Se assemelha, aliás, a uma passagem do livro A republica de Platão, onde ele estabelece um paralelo entre a ordem do mundo interno dos homens e da sociedade que eles constroem. Nossa sociedade é bem extrovertida e coloca os indivíduos para se voltarem ao seu funcionamento. Apesar disso, como uma contradição, ela é extremamente violenta, injusta e desigual. Sobre isso, não consigo deixar de concluir que é a negligencia com o mundo interno que trás tais conseqüências da mesma maneira que negligenciar o outro torna difícil, senão impossível, a individuação, de maneira que o convívio externo é essencial para o crescimento íntimo.
Deve-se, ao invés de buscar isolamento ou de negar-se em prol do externo, haver um equilíbrio, sem o qual continuaremos vivendo numa sociedade doente constituída por pessoas doentes simplesmente porque se identificam apenas com metade do “biverso” no qual todos vivemos.
Posso imaginar o que essa avalanche de idéias e sentimentos podem estar gerando em vc. Espero que vc as utilize bem, em seu processo de transformação pessoal.

Eu vou lembrar

Daquilo que foi,
E que ainda é.
Que esqueci,
Que tive que esquecer.

Vou lembrar de você,
De nós, de tudo.
E aí haverá simbiose,
Sim, o fim da separação.

O Portão do submundo
Cairá por terra.
Ele mesmo será a ponte,
E me levará a outro domínio.

Aí poderei chegar aí.
No seu universo...

Vou me queimar no teu fogo,
Refrescar-me no teu rio.
Eu vou voar nas tuas nuvens,
Deixar o meu rastro.

Quando isso acontecer,
Eu serei eu
Porque eu hoje sou uma miragem
Um vulto no nevoeiro...

Sobre o fundamento do mal e seu funcionamento

Percebi que há um princípio para o mal que vai além de todas as formas de corrupção. Essas, conforme percebemos, se guiam em determinadas direções em busca de certos objetivos, mas o mal em si não é pessoal. É tão impessoal quanto universal: todos os homens têm essa essência maligna em si.
Esse fator sombrio que reveste os homens é visto e tratado por eles de formas diversas. Para alguns, com o paradigma maniqueísta, esse mal é projetado no mundo externo. Assim, o mal reside no Diabo, no capitalismo, no comunismo, no fascismo, na religião alheia, etc.
É difícil para um religioso que acredita numa figura como a do Diabo assumir que essa “entidade” possua o mesmo direito de perdão. Pelo contrário, o paradigma deles é: “Satanás, debaixo do meu pe”.
Isso ocorre basicamente porque essas pessoas precisam de um objeto externo para direcionarem seu ódio. Precisam, acima de tudo projetar a própria essência maligna num objeto externo, já que seus paradigmas racionais negam o mal e sua consciência não parece estar pronta para confronta-lo.
Não posso deixar de citar o caso de um indivíduo chamado Lindomar, que ficou célebre na internet por ter atacado uma empregada que havia agredido crianças das quais tomava conta. Ora, não há nenhuma diferença entre o ataque de Lindomar e o da empregada a não ser o fato de que, socialmente, Lindomar estava justificado e foi apoiado em massa.
Isso porque quem não tem consciência do mal dentro de si necessita depositar o que há de maligno nalgum vilão e, especialmente, precisa descarregar sua raiva contra esse vilão. Como tais projeções são irrefletidas, é comum que o vilão não seja de fato um vilão.
Outros, por outro lado, se identificam com esses complexos sombrios em suas mais diversas formas, e, motivados por essa identificação sucumbem ao domínio de impulsos incontroláveis e destrutivos.
Dessa forma, se identificam com algum tipo de mal: alguns são assassinos, outros ladrões, outros hipócritas, outros compulsivos por poder. Criam racionalizações para justificarem suas atitudes. Por exemplo, há ladrões compulsivos que alegam a necessidade do roubo, há assassinos que encontram as mais diversas justificativas para dar continuidade aos seus impulsos de assassínio, e assim em diante, todos encontram sua justificativa.
A partir disso fui levado a concluir que os criminosos e aqueles que se sentem indignados com esses são movidos justamente pelos mesmos impulsos: os impulsos sombrios.
Quem rouba de ladrões é ladrão, assim como um matador de assassinos é um criminoso. Se deixarem de tentar justificar seus impulsos com eventos externos perceberão que participam de um conflito em que um alimenta o outro.
Esse é um dos motivos pelos quais a guerra no oriente médio não acaba, e também é um dos motivos pelos quais o bandido odeia e polícia e a polícia o bandido. A polícia está socialmente justificada para publico (ou parte dele) quando ataca bandidos, e esses estão justificados entre si.
O que observei é que o que alimenta esses conflitos não são apenas as circunstancias, mas apenas o fato de que eles querem algo para odiar, algo para destruir. Afinal, por mais que sejam precárias, há escolhas para as pessoas: ela decidem entrar num dos lados da guerra.
Mas o mal em si é impessoal. Ele não visa destruir essa pessoa, essa organização ou mesmo esse mundo¹. É apenas uma força natural que se contrapõe com o bem direta e indiferenciadamente. Tomar consciência de que seu ódio não precisa de um inimigo, mas que na verdade ele existe por si só ajuda o indivíduo e controlar tais impulsos². Temos, na nossa época, diversas ferramentas para deixarmos fluir tais impulsos, tais como jogos eletrônicos, manifestações artísticas diversas e artes marciais. Dessa maneira, podemos matar, roubar, escravizar civilizações e cometer diversas outras atrocidades através do ambiente virtual, e, dependendo do indivíduo, isso pode bastar para aliviar suas tensões malignas, sendo uma via de saída. Isso, por outro lado, também pode despertar o mal do indivíduo, trazendo comportamentos destrutivos: Só depende do indivíduo em si. Eu mesmo, aliás, costumava apreciar um jogo repleto de violência, no qual minhas próprias pulsões agressivas extravazavam. Hoje em dia, tais pulsões saem em contos e poesias como minhas obras de arte, mas poderia sair em pinturas, música, dança, escultura e qualquer tipo de arte.
Só que essa é apenas uma forma de amenizar o problema, pois assim ninguém precisa sofrer com os efeitos práticos do nosso mal. Enquanto não entendemos o significado do nosso mal, não o integramos e continuamos sujeitos a sermos dominados por eles.
Ora, para falarmos do lado sombrio do ser humano não basta a racionalidade (que nos manteria num lugar moralmente cômodo). Não basta observarmos de forma sistemática o comportamento daqueles que apresentam tais condutas. Para termos uma visão mais completa e, acima de tudo, mais humana, precisamos dar lugar à subjetividade, fazendo uma viagem pelo próprio lado negro sem restrições morais maniqueístas. Somente através da consciência vivencial é que poderemos realmente entender o lado negro da existência. Assim, é bom que se tenha em mente que apresentarei certos modelos que não passam de ideais. Eu jamais aceitaria que esses ideais fossem plasmados em outras pessoas, pois o grau de subjetividade do próprio mal é enorme e não pode se enquadrado em padrões. Pretendo dar, no entanto, um fundamento teórico sobre o qual poder-se-á perceber pela intuição o mal se manifestando. Assim poderemos entender pessoas que se encaixam em tais padrões em maior ou menor intensidade, e também aqueles que são possuídos por um tipo de mal que vai para além desses ideais. Com o passar do tempo, espero ter acumulado experiência suficiente para dar uma boa luz e um bom fundamento intuitivo para a percepção do mal e para lidarmos com ele. Nesse momento, no entanto, o que escrevo é elementar: Chega a ser uma brincadeira.
Quero, também, ressaltar que o mal é, por vezes mascarado, mas que seus efeitos são sempre idênticos. Sempre resulta em mentiras, manipulação, assassínios, obsessão pelo poder, etc. Pode ser chamado de justiça, de revolução, de proteção contra ameaças ou de Nova ordem mundial. As facetas do mal não o revelam por inteiro, pois quando identificamos o mal apenas por uma de suas vertentes ele se torna nebuloso.
O mal, em primeiro lugar, não é unilateral. Pelo contrário, não só ele se confronta com o bem, mas também contra si mesmo. Assim, é provável que aqueles que proclamam uma revolução contra o mal sejam igualmente maléficos: todo ditador já foi um salvador.
Sempre que algo que consideramos maligno é combatido com o mau em si, isso quer dizer que o que vem em seguida não difere em nada do que veio antes. É apenas o mal, que vai além de “ismos”, sob uma nova mascara.
Um bom exemplo é a sucessão de presidentes americanos financiados pela wall street, que, um atrás do outro, são a esperança no começo e a desgraça no fim.
Ora, o ódio contra o mal é o próprio mal: só se pode realmente apresentar uma contraposição ao mal com o bem. De outra maneira, o mal se manterá através de sua natureza cíclica e tomando “ismos” como máscara.
As diferentes formas de manifestação do mal não se excluem, de maneira que um só indivíduo pode se encaixar em todos os “tipos”. Para isso, basta que ele tenha passado por uma experiência que tenha despertado o arquétipo em questão (como o de Hermes para ladrões) para que este tenha se tornado complexo.
É ingenuidade pensarmos que o bem simplesmente vence o mal: não podemos ajudar um raivoso ou um ladrão simplesmente dando amor a eles. Alguns nem concebem o que seja amor, outros podem apenas pensar que mentimos. Tratar o mal com o mal, por outro lado, só alimenta este: podemos remediar o mal usando mal, mas não elimina-lo. Logo que o indivíduo se perceber livre de vigia ele deixará sair seu mal, que foi ampliado com punições.
O processo deve ser lento, dando atenção ao tipo psicológico, à história de vida, aos tipos de comportamento (porque são simbólicos) e à receptividade do indivíduo. É provável que resistam, que mintam sobre estarem recuperados dentre outras falcatruas. Encher o peito porque uma pessoa se recuperou será, via de regra, ser apenas uma marionete de um complexo (autônomo) do individuo tratado.

“Sombra e luz, escuridão e claridade. Essa realidade dupla forma o interior do ser humano, que tenta negar-se a cada dia, enganando-se. A maioria das pessoas quer ser apenas luz. Recusam-se a identificar a sombra que faz parte delas. Religiosos de um modo geral falam de um lado sombrio, diabólico, umbralino, como se esse lado escuro fosse algo externo, ruim, execrável. Até quando negar a realidade íntima? Até quando adiar o conhecimento do mundo interno? Várias tentativas foram realizadas para conscientizar o homem terreno de que as chamadas trevas exteriores são apenas o reflexo do que existe dentro dele. Luz e sombra são aspectos internos do ser e não representam necessariamente um lado ruim e outro bom. A sombra não é pior do que a luz. Apenas faz parte de um equilíbrio universal ainda necessário para a visão do homem terrestre. São dois pólos de uma verdade interna, mais profunda. A sombra representa um aspecto transitório, porém necessário para o ser reavaliar-se ante os apelos da vida e as lutas que o fizeram ser o que é. Essa transitoriedade em qualquer plano da vida é uma etapa de aprendizado, adaptação, revisão dos valores adquiridos em lutas e desafios na grande jornada interna, pessoal, íntima. Portanto, viver esse lado de forma mais plena, conhecer-se mais profundamente, enfrentar-se sem mascarar-se talvez seja um caminho mais excelente — parafraseando o apóstolo Paulo — do que aquele que as religiões do mundo vêm oferecendo e que se reflete em fugas da realidade. Quando é proposta a realização de uma excursão aos domínios das sombras, espera-se que haja coragem para admitir que esse reino obscuro tem sua raiz dentro do próprio ser humano. Ele não existe à parte ou em separado. (...). Esse mundo de trevas e escuridão é algo muito enraizado no ser humano; não é realidade extrahumana, mas intra-humana. Se você evita conhecer-se, rejeitando que é simultaneamente sombra e luz, não há razão para prosseguir nesta jornada de descobrimento interno. Adentrar o umbral ou o astral é se obrigar a penetrar na própria sombra. Conhecer as estruturas internas das falanges do mal é, sobretudo, conhecer a própria capacidade de esparzir escuridão em si e em torno de si. Descer aos domínios das trevas e tomar conhecimento de seus métodos, de suas falanges, de sua força talvez seja uma forma de se revelar — trazer à consciência a própria realidade. Admitir-se, sem culpas e sem máscaras. O passado humano é fixo e dependente de conceitos religiosos deturpados e castradores, que foram amplamente difundidos e ainda estão arraigados no psiquismo, mesmo naqueles que afirmam rechaçar atualmente qualquer crença. Isso faz com que o ser humano, principalmente aquele mais apegado às questões religiosas, negue a verdade de sua sombra.”.

(Legião - um olhar sobre o reino das sombras – Ângelo Inácio (Robson Pinheito))
(http://www.scribd.com/doc/3506214/Legiao-Um-olhar-sobre-o-reino-das-sombras-Angelo-Inacio)

1 – Afinal, se destruísse precisaria criar um novo inimigo, porque, por mais que o odeie, precisa dele.
2 – A não ser, é claro, que ele não tenha um ego forte o bastante para suportar a pressão de admitir o mal. Nesse caso, talvez seja melhor apenas encontrar uma forma de canalizar as projeções para que, do ponto de vista coletivo, causem mais construção do que destruição (como já acontece nos casos em que o indivíduo odeia o mal) ao colocar o mal contra si da forma mais isolada possível.

Gaia e Daemon


- You’re wrong!
- Como posso estar errado se nem ao menos estou certo de nada?
- Está certo sim. Você sabe. Está errado em negar isso.

Estava eu e Gaia num escuto total. A voz de fora clamou por um caminho cercado por flores, e ele surgiu. Gaia começou a flutuar por ele, e eu a acompanhei andando até que também consegui flutuar.

- Porque tão calada, minha Deusa?

Ela nada respondeu e a voz de fora clamou por um portal e ele surgiu. Gaia o abriu e entrou por ele, ao que eu a segui. Lá dentro tudo era escuro até que a voz de fora camou por um jardim, que surgiu. Mandou-nos sentar num banco, que surgiu. Gaia se sentou e recebemos a escolha de deitar. Fomos a um pano forrado na grama e ficamos olhando para o céu.

- Porque tão calada, minha amada?
- Pra que falar mais? Já disse o que tinha que dizer, agora você precisa sentir.

A deusa colocou-se sobre mim com sua boca no meu pescoço. No beijamos, nos abraçamos. Senti o calor, o contato. Uma sensação muito agradável. Nos beijamos suavemente.
A voz de fora clamou que visualizássemos aquilo definido como Anima, ao que Gaia se transformou numa menina. Aquela com a qual me relacionei a algum tempo. Ela se tornou pó e foi embora. Não me tocou em nenhum momento. Tão bela e, no entanto, tão frágil que o vento a carrega. De aparência tão concreta, mas tão desconexa.
Depois disso ela se transformou numa mulher mais velha, com a qual me relacionei. Tão alta. Quase do meu tamanho. Ela se transformou em fumaça e me envolveu como um tornado. Mas não me atormentava: me abraçava. Levou-me até o céu e depois me soltou.
A terceira era uma paixão impossível que tive, que mesmo sendo impossível causou um envolvimento beirando as barreiras éticas, mas nunca as transgredindo. Ela era gigante, e seu rosto, antes tão amistoso e amável, tinha um ar de malícia. Me fitava do alto e eu a fitava. Não havia reação da minha parte em relação a ela assim como as três primeiras.
Depois ela desapareceu e surgiu uma com seus cabelos loiros, ao que, logo em seguida, surgiu outra com os cabelos cacheados. Elas eram uma, e se uniram. Num aspecto meio fantasmagórico, era metade uma e metade outras, mas eu sabia que ambas eram inteiras. Elas se mantinham juntas por serem, ambas, filhas de Gaia.

Então a voz de fora me falou algo que ignorei. Gaia voou até o alto céu, e eu fui capaz de acompanha-la. Voamos rápido, e o terreno do mundo mudava enquanto nos movíamos. Primeiro vi uma floresta densa. Nada se via senão um verde intenso de arvores. Depois o inferno. Era um solo negro e rachado com algumas partes repletas de magma vulcânico. Havia algumas nuvens ali que surgiam e sumiam.
Depois eu vislumbrei uma grande montanha no horizonte e chegamos em calotas de Gelo. Ignorando-as, voamos até o sue limiar e descemos até o mar. Era negro e estava calmo.
Voamos na beira da água e nosso rastro ficava como o de uma lancha na água.
Paramos no meio do mar, entre as calotas e a montanha e a Deusa afundou minha cabeça na água como quem vai afogar, mas eu não me assustei.
- Está fria?
- Não.

Ela afundou minha cabeça na água de novo e me mandou abrir os olhos. Havia luz de cima penetrando a água, embora ela fosse negra. Estava vazia em principio, mas logo se formou um vulto. Esse vulto foi se aproximando e percebi que era uma grande baleia. Ela nadou até mim e ficou parada diante de mim. A fitei, mas nada senti ou pensei.
Gaia me levantou e voamos até a base da montanha, onde havia uma entrada circular. Nos levava a um túnel que daria no fundo da montanha. Gaia permaneceu do lado direito da entrada.

- Você não vem comigo, minha deusa?
- Não. Este é o fim do meu domínio.

Através de uma intuição, uma certeza íntima, eu sabia que isso era verdade, então entrei.
O túnel estava escuro, mas eu sabia exatamente quando mudar de direção. Depois de alguns instantes eu acendi uma luz que ficava na minha cabeça, como de um minerador até que isso se tornou desnecessário porque o caminho passou a apresentar iluminação própria.
Cheguei ao fim numa grande luz. Abri os olhos.
A voz de fora disse algo, mas a tempo que eu havia me tornado incapaz de ouvi-la. Fechei meus olhos e me encontrei em meio a escuridão. Surgiu um tornado envolvido por radio e começou a percorrer uma trilha cíclica. Nessa trilha se formou um circulo luminoso e esse determinava onde era o chão em meio a escuridão. Então os raios passaram a atingir o chão aleatoriamente até que um maior atingiu o centro e surgiu uma chama onde ele caiu. Era Daemon.

- Ela te levou à epistemologia e você não aprendeu nada? Eu sou você e não sou. Às vezes estou contigo e as vezes estou no espaço.

A voz de fora me convocou para voltar ao mundo real, e foi o que fiz.

Você também sente?



Quando te olho,
Sinto uma chama secular
Vejo-te como uma deusa
Amiga, amante, esposa, mãe, irmã.

São diferentes formas de amor
Todas unidas numa só
Que não podem se distinguir
Não podem se separar

Quando vejo teus olhos
Penso que já nasceram me conhecendo
Que quando pousaram sobre mim
Só se lembraram

Isso porque eu me sinto assim
Como que desperto para ti
Sim, me lembro de você.
Filha da Deusa

Você também sente esse amor?
Esse que une sem prender?
Que liberta sem deixar só?
Que não pode ser definido, mas apenas sentido?