E se tivesse dado errado?


Entrei dentro do ônibus. Como esperava, fiquei de pé, com aquela porra de mochila pesada. Pelo menos fiquei num ponto fixo. Às vezes ficam tão lotados que você fica no meio do corredor, entre outras pessoas. Naquela posição, pelo menos, dava pra alguém segurar minha mochila. Quase sempre tem uma alma caridosa.
Dessa vez foi diferente: demoraram meia hora pra me oferecer, e isso só foi por causa da minha técnica de coloca a mochila pra frente só com uma alça, dando a ela a possibilidade de balançar e quase acertar a cara de quem está sentado. Sempre funciona.
Dentro do ônibus é sempre o mesmo tédio: várias pessoas que ficam se olhando, daí quando a outra percebe e olha de volta, fingem que não estavam olhando. Uns fecham os olhos, outros fingem que tem algo mais ou menos na mesma direção. Os mais amadores viram a cara rapidamente.
Lembrei do dia que passei. Não me lembro de outro dia em que tanta coisa tenha dado certo de uma vez só. Cheguei na data certa, no horário certo sem saber. Resolvi tudo que havia para ser resolvido.
Como sempre, comecei a imaginar, e rever detalhes que poderiam ter dado errado.
Na inscrição do Sisu parece que houve um erro e muita gente recebeu um parabéns enganoso. Não foi o meu caso, mas e se fosse? Eu nem tinha impresso o papel como a menina que estava lá. Tava fodido, não conseguiria provar que me enganaram. Mas nem enganar, enganaram: o sistema falhou e foi só isso. Eu teria que pagar a porra da faculdade particular e não poderia continuar minha pesquisa. Pelo menos tinha uma criatura deliciosa naquela turma de faculdade. Pra ser honesto, não lembro de ter visto diante de mim uma garota tão linda e gostosa como aquela. Puta merda, não parece que é de verdade. Nesse ponto e tivesse dado errado eu ficaria só olhando pra ela, imaginando coisas que tenho pra falar. Pra uma aluna de psicologia? Puta merda, poderia falar pra cacete. Se eu não fosse travado, na verdade, imagino que teria chances. Quem sabe se, por força maior, como já aconteceu antes, eu não travasse. Nesse caso, só pelo olhar dela, pelo comportamento e pelo teor da pergunta que ela fez ao professor, eu manipularia a mente dela com tamanha facilidade que minha satisfação estaria garantida. Quem sabe eu até me apaixonaria por ela? Mas, no final das contas, eu queria mesmo é entrar nela. Acima de tudo.
Só que deu certo, e a gostosa/linda já era. Aliás, conheci outra gostosa quando estava fazendo inscrição. Vai fazer jornalismo e tem mesmo pinta de jornalista. Gostosinha, loirinha, estilo Barbie. Puta merda, espero que ela nunca leia isso. Mas certamente me imaginei entrando nela, e com direito a fetiche da profissão e tudo. Foi quando eu descobri que existe fetiche de jornalista. Imagina eu comendo a Padrão?! Imagino demais.
Eu precisava tirar cópias de um documento e ele tinha sumido. Fui descobrir que ele estava na minha mochila. Era um certificado da biblioteca que eu havia pegado pra poder cancelar a matrícula na faculdade particular.
Imagina se eu tivesse perdido essa merda? Cacete, demorei duas horas pra ser atendido, daí sem esse documento a mulher me mandaria na biblioteca buscar. Daí quando eu estivesse de volta, a porra da secretaria estaria fechada. Por um dia a mais eu teria que pagar a mensalidade, que vencia naquele dia mesmo. Aliás, cheguei 7 e o negócio fechava 9. Se eu chegasse 7:30 já era. Mas cheguei na hora certa e no dia certo. Não paguei nada e me dei bem.
Daí tinha o ônibus da faculdade. Saí da secretaria com a matrícula cancelada as 9 e o ônibus era só 11. Só que às vezes acontecia de o pessoal sair mais cedo. Eles combinavam com todo mundo que vinha nele. Como eu fui na outra faculdade de manhã, não vim nele, e o pessoal podia ter combinado de ir sem mim.
Fui até o ponto, comprei um podrão x-tudo e comecei a imaginar.
E se eu perder o ônibus?
Ia ficar perdido em rio comprido, na porta de uma universidade dentro da qual dava pra ver tiro voando de noite, como uma pequena faísca cruzando o céu. Não tava com grana pra ir pra casa, tampouco estava em horário pra ir longe o bastante para chegar na casa do parente mais próximo. Não tinha como dormir na rua, porque é perigoso demais. É como um macaco dormindo no chão, ao invés de num galho lá no alto. Único lugar acessível era a General Canabarro. Eu pega a são Francisco Xavier e chegava lá. Na casa dela.
Já faz quase dois anos que não nos falamos. Isso porque eu sou um egocêntrico, manipulador e filho da puta. Se bem que a situação é mais complexa do que coisa de vilão e vítima, mas que se dane: a prática é que o pessoal de lá me detesta.
Teria como eu me virar no dia seguinte, lá pra 5 da manhã, então quem sabe ela deixaria eu dormir num banco que fica no pátio do prédio dela?
Voei pra lá enquanto comia meu podrão (caro e que demorou pra sair).

- que você ta fazendo aqui? – perguntou ela.

Ela tava com aquele mesmo pijama da época em que eu passava dias nessa casa. Ele já era velho, e provavelmente hoje já nem existe mais. Só que não sei qual é o pijama dela hoje, tampouco se a aparência dela é a mesma de então. Depois fui descobrir que o cabelo dela agora é preto, mas naquela noite eu não sabia, então ele me veio com luzes. Eu sempre quis que fosse preto, mas ela nunca ligou. Enfim, depois de enrolar, respondi.

- Eu preciso de ajuda.
- porra, já são meia noite e você vem na minha casa? Porra, vai embora.
- Esse é o problema. Não tenho pra onde ir. Preciso de um lugar pra passar a noite.
- Não te falei que minha mãe não te deixa subir nem pintado de ouro?
- É só pra eu não dormir na rua. EU fico ali do lado, naquele pátio. Tem um banco ali. Eu nem vou dormir mesmo.

Pensei que ela estava pronta pra se vingar de todo o aborrecimento que eu já trouxe pra ela. Como eu fiz tudo de uma vez só, num pequeno instante trouxe todo o aborrecimento, ela poderia revidar naquela noite, me fazendo dormir ali pra ser assaltado e me foder. Mas ela abriu o portão. Quer dizer, ela falou com o porteiro e ele abriu o portão.
Entrar naquele lugar, por mais tenha sido minha imaginação, me causou uma impressão profunda. Eu terminei meu podrão, mas continuei ali imaginando.

- Como ta sua garganta?
- Ah, ta melhor.
- e teu tornozelo?
- eu to bem.
- Ah.

Ela não ia cair no mesmo truque duas vezes. Antigamente eu usava minha preocupação pra sensibilizar ela. Tudo bem que eu me preocupava mesmo, mas eu sabia trazer a devida recompensa pra minha preocupação. Naquela noite ela estava diferente. Permaneceu imune à minha preocupação, mas ficou ali sentada no banco, com as pernas de fora no frio.

- Você não tá com frio? – perguntei
- Porque você fez aquilo? – ela me fez a pergunta ignorando minha fala.

Eu olhei pra cima, pra varanda da casa dela. Eu gostava daquela varanda. Uma vez eu vi dois pombos transando dali. Coisa sem graça, coitado do pombo. Fica correndo a vida toda atrás da parceira e não faz quase nada com ela.

- É tão difícil assim de responder?

Eu dei uma risada e o cara do podrão ficou me olhando. Porra, até dentro da minha própria imaginação eu saio de foco pra imaginar dentro do imaginário!

- Eu fiz aquilo porque eu sou um narcisista. – respondi com segurança
- Como assim?
- Eu não sei quem é você, Paula. Nunca soube. Eu inventei uma Paula e queria que você fosse ela. Como você não era, a despeito de todo o meu esforço e até mesmo a minha manipulação, eu me revoltei.
- Pera aí, você me manipulava? Seu cretino!
- Se serve de alguma coisa, naquela época eu nem percebia. Eu só fazia de tudo que estava no meu alcance pra “despertar” em você aquilo que eu imaginava e queria. Isso incluía te induzir a certas opiniões e tudo mais. Na verdade eu achava que estava te despertando, mas estava é te manipulando. E em diversos aspectos você reagiu e mostrou quem realmente era. Isso que me frustrou: foi minha cegueira em não conseguir te ver.
- Você é um idiota.
- Eu sei. Ainda posso ficar aqui?
- Fica aí se quiser. Boa noite.

Ela subiu com aqueles passos que ela dá quando fica aborrecida. Como que pisando no chão para feri-lo e com a cabeça um pouco inclinada pra cima. Eu sempre ficava achando que ela ia ferrar o pé quando andava assim. Mania de achar que ela é feito de vidro fino, na época.
Deitei no banco e tentei olhar pras estrelas, mas as lâmpadas dali não deixavam. Da varanda dela dava pra ver.
Fechei os olhos, daí, quando eu abri, ela estava sentada na varanda me olhando. Quando ela percebeu que eu estava olhando, entrou e fechou o vidro.
Nesse momento, por causa do meu fone de ouvido, não percebi uma moto passando. Quase me atropelou. Um susto do cacete.
Fiquei imaginando se eu fosse atropelado. Tava fodido. Provavelmente eu morreria ali mesmo e ninguém reconheceria meu corpo. Iam pegar meu celular e ligar pra minha mãe pra avisar que morri. Eu deixaria uns livros interminados um punhado de amigos e uma vaga preenchida na faculdade federal. Todo esse esforço pra construir a porra da tese pra ser atropelado por uma moto e morrer.
Bem, se eu ficasse paralítico pelo menos eu não deixaria de fazer o trabalho. A não ser que ficasse com a mão incapacitada, como aquela mulher da novela.
Revi minha idéia sobre a consolidação de uma ideologia. Pensei nos textos de uma amigo meu sobre o estímulo financeiro dado aos autores do neo-liberalismo.
Iguais ao Freud, que construiu um império e não um conjunto de idéias. Eu não poderia usar o nome psicanálise no trabalho. Decidi ali usar o nome psicologia do Inconsciente, porque bem sei que Jung e Fromm, que vão ser os principais autores na obra, não são propriamente psicanalistas no sentido Freudiano do termo.
Lembrei das influência de Jung, com Flornoy e Janet, que os freudianos ignoram pra dizer que Jung foi um seguidor de Freud, e não um colaborador. Bando de noobs.
Quando entrei no ônibus, quis imaginar como seria se ele quebrasse, mas acabei dormindo.

Uma noite triste

 
 
Ah, quantas idéias estavam na minha mente! Eu estava eufórico, tinha que contar a alguém. Só poderia expor tais descobertas a um amigo e a ela. Ele, no entanto, estava excessivamente ocupado pelo fim de semana com uma viagem. Terminei meu trabalho mais cedo e, pela primeira vez, segui o hábito dos outros de sair uma hora mais cedo nesse dia. Se perguntarem, fui ao médico.
Peguei o carro e a rua não estava engarrafada. Talvez porque eu saí antes do horário do rush. Eu normalmente saio as 6 pra chegar em casa as 6. Nesse dia, saí às 4 e cheguei ás 4:30.
Passei na padaria, comprei uns doces que ela gosta, mas nunca come pra não engordar. Naquele momento minha mente já estava mais calma, mas eu sempre fui de me acalmar fácil. Enquanto falo de algo assim, minha euforia retorna. É normal.
Entrei em casa, como sempre, em silêncio. Fui ajudado por um vizinho nos fundos de casa com um funk no último volume e o vizinho do lado, como que reagindo, com heavy metal. Pensei em sair daquela casa, já que ambos os sons deviam estar incomodando ela profundamente.
Cheguei na cozinha e vi ela nos fundos. Fiz silêncio pra dar um susto nela, mas aí percebi o Jean ali. Eu soube que no dia do meu casamento com ela esse sujeito tentou se matar. Preferi não interferir, dar a ele a chance de falar o que sente. Afinal, talvez fosse bom pra ele.

- Jean, eu não te disse que acabou? – disse ela

Fiquei curioso, porque, segundo eu soube, nada nunca havia começado.

- Eu li livros de auto-ajuda e nem eles me ajudaram. Na verdade um me deprimiu ainda mais com aquele papo de que certas pessoas estão destinadas a se unir. Eu fui no psicólogo e ele disse pra eu deixar sair o que eu sentia. Só to fazendo isso. Eu te amo.

Houve um período de pelo menos 30 segundos de silêncio. Não pude ouvir nada por causa da música.

- Eu estou casada. Você sabe muito bem que com esse seu vício de bebida não tinha como.
- Vício? Eu parei de beber depois que aquele crente me salvou. Nunca mais bebi nada alcoolico.
- Que bom, fico feliz por você.
- Para com essa atuação piegas que eu sei o que você sente.
- haha. Você é a única pessoa que eu conheço que diz “piegas”.

Eu vi com os meus próprios olhos um beijo. Imóvel, firme e silencioso no começo. Eles se entrosaram, logo estavam abraçados. Derrubei um copo por acidente ou talvez um ato falho para aquilo acabar. Ouviram, mas rapidamente voltaram um ao outro. Estavam como que liberando uma besta retida já a muito tempo.
Eu fiquei sem ação. Não sabia se corria, se ficava, se gritava, se calava. Acabou que assisti em silêncio até o ponto em que ele a levantou na máquina de lavar e se enfiou entre as pernas dela. Ainda hoje sou apegado demais para conseguir assistir a uma cena dessas.
Fui até o quarto e fiquei chorando por alguns minutos. Eu não sabia o que fazer. Não era leviandade, não era só sexo. A mentira era muito maior. Eu pensava que o coração dela era meu, mas nunca foi. Ela provavelmente só me considerou mais adequado por eu ser um bom amigo. Não sei.
Mas a polícia chegou lá e a música parou. Dava pra ouvir o suspiro dela sem a música. Nunca pareceu sentir tanto prazer assim comigo. Eles dizem que o orgasmo da mulher é muito relacionado à paixão que ela sente. Talvez seja isso ou eu só seja ruim de cama mesmo.
Eu arrumei minhas coisas de qualquer jeito. Nunca fui de querer muita coisa e foi ela que comprou quase tudo na casa. Só levei meu computador, as roupas e os principais livros. Eu tinha que levar minha idéia adiante, aquilo era importante. Mas agora eu me pergunto como eu consegui pensar nisso naquela situação. Eu chorava carregando as pilhas de livros. Acho que enrolei pra encher o carro com as minhas coisas na esperança de ser interrompido. Foi uma esperança idiota: só ouvi eles transando até terminar.
Sentei na mesa do computador pra escrever uma carta de despedida. Escrevi algumas bobagens sem sentido e fui amassando e colocando no bolso.
No final, acabou saindo só uma palavra e em inglês, como se no fundo eu esperasse que ela não entendesse de princípio.
Farewell: vá bem, fique em paz, Adeus.
Minha aliança ficou junto com o pedaço de papel e minha cópia da chave da casa.
Quando eu saí o carro demorou pra ligar. Tinha que trocar a bateria ou algo assim. Isso acabou interrompendo os gemidos e eu vi. Eu juro que vi ela coberta com um lençol e com o cabelo bagunçado me olhando pelo retrovisor enquanto eu saia.

- Essa sim, meu amigo, foi uma noite triste. – Disse eu no bar pro velho

Ergui o copo e enchi novamente com vodka.

E bebi até cair com o velho surdo...

Acerca do “sine qua non” do estabelecimento de uma forma de pensar



Abandonei esse blog por uma série de razões, dentre as quais apenas uma eu considero relevante pro momento. Imaginei que não havia leitores e que, portanto, eu deveria buscar outros meios de comunicação, especialmente interpessoal em fóruns.
No entanto, porque uma pessoa pareceu interessada em continuar lendo as besteiras que escrevo aqui, decidi produzir mais uma de minhas racionalizações.
Aqui, falarei do elemento psicológico básico através do qual uma forma de pensamento se estabelece.
Logo adianto aos mais ingênuos que esse elemento não é a razão, não é a verdade e, tampouco, uma soma de ferramentas de manipulação.
Isso porque a razão em si é um conceito nebuloso e guiado por critérios. Esses critérios variam entre os indivíduos e, portanto, acabam surgindo diversos conceitos do que vem à ser a própria racionalidade. Daí já é estúpido alguém dizer que fulano está com a razão e seu oponente não: porque ambos estão com a própria razão e se não possuem critérios próximos jamais poderão chegar a um acordo obre coisa alguma. Como não há um critério racional que esteja acima dos demais e que, assim, possa regular e explicar a todos, não podemos presumir que a razão é o Sine qua non. Antes, é uma ferramenta tão eficaz quando a manipulação, propaganda, etc. que atinge um certo grupo de indivíduos e nada mais.
A verdade é um termo absurdo. A suposição ingênua de que, através da razão, encontraremos a verdade é completamente egocêntrica. Isso porque, em primeiro lugar, se presume que só existe um critério real para guiar a razão, e, em segundo, porque se presume que só há uma “verdade” a qual poderíamos chegar dentro desses critérios. Como já disse, é possível selecionar diferentes premissas de pensamento que são, em si, irracionais (não podem ser provadas ou refutadas e são aceitas como auto-evidentes quando na verdade não são.). Além disso, mesmo dentro de certas premissas, é possível o indivíduo entrar em contato com N elementos empíricos e, através deles, chegar a diferentes “verdades”, não havendo, portanto, nenhum motivo para que se torne legítima a afirmação de uma “verdade”.
Mas meu objetivo aqui não é falar o que não é.  O que pretendo é determinar a principal razão pela qual uma forma de pensar se estabelece.
Mas o que quero dizer como uma forma de pensar?
É simples. Falo de um conjunto de premissas que orientam ações e pensamentos aceitos por um grupo e pessoas diferentes entre si.
Para isso, vou recorrer ao pensamento cristão. Para quem está familiarizado com o blog e sabe que já critiquei a estrutura do pensamento cristão, se preparem pra uma surpresa. Segundo certas premissas, estarei, aqui, usando o cristianismo como um exemplo “positivo” até certo ponto. Provavelmente esse texto poderá refutar um argumento comum entre os cristãos, que usa Deus para explicar a razão pela qual essa religião se multiplicou. No entanto, também refuta uma afirmação minha, de que o cristianismo se reproduziu por ser um tipo eficaz e bem elaborado de praga.
Atualmente há o ateísmo, com suas próprias premissas com uma própria cosmologia plural (até certo ponto), mas no passado não existia e as pessoas não se sentiam revoltadas por isso.
Aquino e Agostinho trouxeram as perspectivas Aristotélica e Platônica para o cristianismo, e diversos subgrupos se formaram dentro desse. Alguns acreditavam que a ceia era um símbolo de cristo, outros que era efetivamente a carne e o sangue dele. Alguns acreditavam que Jesus era possuidor de suas vestes e outros que não. Claro que todos dentro da premissa de que Deus existe, Jesus é seu filho, etc., mas havia uma enorme variedade. Mente quem sai por aí dizendo que era proibido pensar na idade média. Ficam imaginando que as pessoas daquela época pensavam como as de hoje, que vão além das premissas cristãs (devo lembrar que falo da Europa?).
Mas a verdade é que o homem da época do cristianismo não pensava como o moderno, não lia Richard Dawkins e possuía uma ciência bem conformada dentro dos padrões da teologia. Na verdade, na época eles recorriam com freqüência à Deus como hipótese.
Gostam de usar o julgamento de Galileu como exemplo, mas a verdade é que, segundo o paradigma da época, ele estava refutado. Além disso, ele não tinha nenhuma evidência para o que dizia que não seu telescópio questionável e sua imaginação.
Mas voltando ao assunto, porque é que o cristianismo se firmou como uma forma de pensar dominante? É bem simples: porque não havia um topo, alguém pra decidir por último o que era verdade. Havia diversas formas de se pensar dentro do cristianismo, e os indivíduos conflitavam seu pensar dentro dessas premissas. Não só isso: havia espaço para uma enorme variedade de tipos psicológicos e vivências. O pensamento cristão se multiplicou porque permitiu que as pessoas manifestassem as mais diferentes características do homem na época, não porque as moldou.
Quando Agostinho e Aquino trouxeram o pensamento dos gregos para o cristianismo, isso permitiu que essas formas de pensar o mundo existissem dentro do cristianismo e que, assim, o cristianismo englobasse dentro de si os tipos mais diferentes de pessoas.
Apesar das diferenças culturais, das diferenças psicológicas e até as políticas, o cristianismo conseguia englobar todo o pensamento europeu daquela época.
Até que, é claro, o pensamento quebrou as barreiras do cristianismo, e esse não acompanhou tão rapidamente as mudanças. Claro que hoje há cristãos evolucionistas, mas certamente o cristianismo não possui mais a força hegemônica de antes.
Isso porque atualmente não há mais como se formarem pensamentos. Temos internet e diversos meios de comunicação que não podem ser controlados apenas por um grupo com uma forma de pensar. Tem tanto a sabermos, tanto para pesquisar, que dificilmente alguma ideologia conseguirá quebrar a barreira de todas as outras.
É sempre ingênuo, no nosso tempo, falar de uma forma de pensar ortodoxa na sociedade, porque parece que a cada canto que você vá, acaba encontrando alguém que pensa diferente.
No entanto, aquilo que deu força ao cristianismo pode dar força a outras formas de pensar.
Temos como exemplo a psicologia do Inconsciente (de Freud, Jung, Reich e outros) e o Marxismo.
Em ambos os casos, as premissas básicas de pensamento se multiplicaram e foram interpretadas de diversas maneiras. Dentro da psicologia do Inconsciente (e não da psicanálise, porque nessa Freud tratou de expulsar alguns que pensavam diferente) o pensamento se multiplicou para a arte, para a concepção de sociedade e diversos aspectos da vida humana. Não só isso, como, em cada um desses aspectos, sob diversas perspectivas. O pensar em psicologia do inconsciente se tornou amplo e, portanto, acabou se difundindo.
No marxismo é a mesma coisa. Há vários “marxismos” diferentes, que apresentam diversas perspectivas e relação com diversas áreas da vivência humana. Interessante, aliás, que muitos marxistas também são pensadores da psicanálise.
É isso e não razão ou a “veracidade” que torna uma forma de pensamento difundida.
O que nos leva à conclusão desse texto, que volta até os grupos revolucionários. Esses, no presente, costumam pensar que basta eles difundirem uma idéia. Pensam que as pessoas não pensam como eles porque ainda não os ouviu falar e que vão efetivamente mudar o mundo através do trabalho de difusão de idéias.
Ora, aí está o elemento da propaganda, que pode também envolver a transmissão de informações com técnicas de manipulação. Essas técnicas variam de estímulos ao Inconsciente à tentativas de atingir o sentimento do interlocutor com trilhas sonoras tocantes e imagens de impacto. Seja qual for a tática de manipulação, ela se anula pela multiplicidade das idéias na sociedade em si. Afinal, na presença de propagandas contrárias vindas de todos os lados deve haver algum critério interno de seleção. Senão nosso cérebro fritaria tentando processar tudo.
Daí decorre que de nada adianta ser um devoto e divulgar uma forma de pensamento se ela não é ampla o bastante. Também de nada adianta manipular, usar sua razão ou afirmar que se trata da verdade.
Na verdade, até mesmo quebrar a barreira lingüística é difícil: com freqüência falamos de coisas idênticas na forma de pensamento, mas expressamos com termos diferentes. Cada um entende os termos do outro de maneira diversa e acabam pensando que discordam quando na verdade uma “previsão” baseada em ambas as formas de pensar seria idêntica.
Não adianta mais pregar, não adianta mais achar que o mundo será mudado por um conjunto de idéias. Pelo contrário, é precisamente a variedade que torna o mundo mais humano. Porque por mais que um indivíduo seja Outsider, por mais que seja estranho, algo há nessa sociedade que seja adequado a ele. Não há como uma pessoa ser completamente estranha ao mundo.
Antes, se alguém conseguir estabelecer um meio de pensar hegemônico, todos se tornarão robôs, com uma intuição íntima de que algo muito errado se passa e uma sensação irreparável de completo desajuste.
Para uma ideologia nova se difundir e ser capaz de lidar com a variabilidade do ser humano, então, é necessário que não existam líderes. Exatamente isso. Porque jamais pode a visão de um homem apenas ser ampla para guiar um grupo quando ele se tornar suficientemente grande. A não ser que seja um grupo religioso. Nesse caso, no entanto, ao invés de emancipar a humanidade estaríamos trabalhando para restringir sua liberdade.
Não se pode pensar que um homem é inteligente o bastante para guiar um grupo grande, porque a quantidade de pessoas diferentes nesse grupo exige que o pensamento grupal englobe isso tudo. De outra maneira, grupo se torna uma massa e os membros perdem a autonomia. Tornam-se autômatos.
Antes, se houver diversos pensadores dentro da linha geral do grupo apresentando diversas perspectivas para entender as atividades do grupo, ele terá plasticidade para aceitar em si uma grande variedade de pessoas. Assim, o grupo pode ganhar um volume considerável e, sob diversos níveis, efetivamente mudar o mundo. Não quer dizer que transformarão o mundo num paraíso idealizado. Até porque, dentro do grupo certamente haveria divergências demais para isso. Mas certamente as linhas gerais do grupo se tornariam mais influentes.
Para isso, poderíamos pensar no Movimento Zeitgeist. Segundo fui informado, o movimento já possui meio milhão de membros por todo o mundo, mas a variedade interna é pequena.
Como linhas gerais desse movimento, vi as premissas de “mudança constante” e união. E aceito essas premissas, pois se adéquam à minha realidade psicológica.
No entanto, apesar de essas premissas serem bem amplas, as idéias apresentadas no movimento são estreitas. Com fixação pela forma comportamentalista de entender a mente humana, criam um “plano de ação” baseado apenas nela. Dizem que Jacques Fresco é um grande gênio, autodidata que já estudou as mais diversas disciplinas, mas não vejo nenhuma genialidade nessa cosmovisão limitada da psicologia dentro do movimento. Antes, há psicologias. Diversas perspectivas, muitas das quais eu conheço só de ouvir falar (de ler em livros de introdução à psicologia), e bem interessantes que tratam de fatos não observados na perspectiva comportamentalista acerca do ser humano.
O movimento é baseado num projeto, que lida com o ser humano apenas com a perspectiva comportamentalista e imagina que os seres humanos serão simplesmente condicionados a não serem destrutivos pelo meio. Dentro dessa cosmovisão, colocam que não será necessário haver leis ou política.
Ora, isso é completamente absurdo. Dizer que o ser humano não precisa de leis implica encerrar a discussão sobre o comportamento humano. Não sei de alguém que seja capaz de fazer isso. Sobre não haver política, nesse caso haveria totalitarismo. Dizem que as decisões seriam tomadas com base no método científico, mas, como Feyerabend aponta,

“O chauvinismo da ciência é um problema muito maior do que o problema da poluição intelectual. Pode até ser uma de suas maiores causas. Os cientistas nãos e dão por satisfeitos em organizar seus próprios cercadinhos de acordo com o que consideram ser as regras do método científico, mas querem universalizar essas regras, querem que ela se torne parte da sociedade em geral e usam de todos os meios à sua disposição – argumento, propaganda, táticas de pressão, intimidação, práticas de lobby – para atingir seus objetivos.”

Para mais além, pretendem que esse método seja acrescentado a um computador, responsável pelas decisões.
Com isso, eliminam a possibilidade do pensamento amplo, da integração da variedade humana. Para alguém ser ajustado nesse sistema, precisa acreditar no que eles dizem ser o método científico e também na concepção de psicologia deles, segundo a qual não haveria criminalidade sem a estratificação social.
Além disso, apresentam uma sociedade sem moeda corrente, o que já limita drasticamente as possibilidades para aqueles que aceitam os mais diversos tipos de monetarismo. Eles simplesmente presumem que o ser humano só usa o dinheiro como instrumento para lidar com a escassez e que, sem ela, não haveria necessidade de uma moeda corrente, porque haveria recursos abundantes a todos. Esquecem, no entanto, que alguns podem simplesmente discordar disso.
Para dar um exemplo, precisamos ver que, por mais que exista abundância de energia, comida, água e materiais de construção (para moradias), ainda assim haveria muitos bens e serviços na sociedade que variam em qualidade. Além disso, certamente existiriam funções, trabalhos a serem feitos. Ora, não há porque eliminarmos o ganho material como forma de motivação. Não é porque há abundância que um indivíduo não irá querer ter os produtos de melhor qualidade se ele trabalhar por isso. E, de qualquer maneira, uma sociedade que oferecer todos os bens de serviço em troca de nenhum trabalho desestimularia os seus membros de realizar o trabalho interno necessário. Isso, é claro, se estivermos lidando com a tecnologia de hoje e não com outra, imaginária, de um futuro próximo (daqui a 50 anos, digamos). E mesmo que exista tecnologia para no libertar dos trabalhos de produção de certos bens de consumo, ainda há profissões que não podem ser executadas por robôs e não vejo razão para negar com tanta veemência o tipo material de recompensa pelo trabalho.
Querem eliminar o dinheiro pelo fato de que, através dele, homens dominam os próximos para enriquecer por meios ilícitos, mas parecem nunca ter entrado em contato com o anarquismo de posse, por exemplo, onde isso não seria possível.
Além disso, a despeito do fato de que aceitam religiosos no movimento, preferem que o pensamento religioso não seja envolvido com este. Ora, foi do taoísmo que eu tirei minha premissa de mudança constante. Por causa de uma vivência religiosa e nada mais. A outra, a da união, também tirei de outra religião. E, a despeito do fato de que o pensamento dessas religiões poderia acrescentar muito ao movimento, Joseph declara que o movimento não admite em si pensamento religioso. Mas o pensamento religioso é tão humano quanto o científico ou qualquer outro e não tem sentido abrir mão dele dentro do movimento.
E certamente não são só esses questionamentos a serem colocados dentro das premissas de mudança constante e união. Esses são só os meus. Certamente muitos pensadores, pessoas que são, em si, diferentes, possuem diversas objeções em relação às idéias de Fresco e Joseph.
No entanto, o movimento possui uma cabeça, e por isso não admite em si a diversidade.
Mesmo que consigam reunir uma comunidade de pessoas que pensem de maneira análoga e construam uma cidade-modelo, e que essa cidade gere renda e se desenvolva (o que é pouco provável), logo na segunda geração, os filhos dos pioneiros, pensarão diferente e não poderão se adaptar ao ambiente. Para isso bastaria eles terem contato com o “mundo lá fora”.
Uma ideologia que possui líderes e não variedade de pensamento está fadada a se sustentar apenas através da fé. Aí entrará em conflito com todas as outras ideologias baseadas em fé, se tornará uma convicção rígida e entrará em contradição com o próprio pressuposto de mudança constante.
Em suma, qualquer forma de pensamento, seja nova ou não, só pode se estabelecer de maneira efetiva se englobar a variedade de indivíduos. Caso contrário, será só mais uma forma de fanatismo vazio em termos de implicações práticas na mudança da sociedade e também em estímulo da criatividade e do desenvolvimento humano.

Of mice and men


Eu fui jogado no esgoto
Cheiro forte, luz fraca
Minha cabeça girando
Meus olhos queimando

O meu corpo falhava
Meu sangue fervia
Uma fumaça negra me rodeava
Fecharam o bueiro

Dentro da escuridão
Meus olhos se acostumaram
Vi luz onde não esperava
Vi muitos ratos

Pensei que iriam me devorar
Não imaginava o que eles comem
Eles me rodearam
Cheios de interesse

Fechei os olhos
Os senti tocando me tocando
Em volta de mim
Nenhum subiu em cima

Ouvi o som de uma queda d’água
Se tornava mais intenso
Até que caí, abri os olhos
Água salgada, ardeu...

Dois ratos caíram comigo
Os levei até a areia, e sumiram
Nem me dei conta do horário
Era manhã, e o sol nunca esteve tão lindo...

Recebi amor de ratos
E não de homens
Os pequenos e indefesos
Salvaram meu espírito...

Porque vivo em esgotos
Sou chamado de louco
Mas os grandes homens
Têm cheiro pior...

A fome


Eu abri a dispensa de casa. Cheia de coisas que me dão asco. Eu não queria comer nada daquilo, embora estivesse cheia. Um biscoito lacrado estava atraindo formigas. Mas aquilo não tinha como me tirar minha fome. Saí de casa andando sem rumo. Eu tinha rumo definido, mas não na mente. Em outro lugar. No inferno, talvez.
Fui selecionando esquinas aparentemente de maneira aleatória. Eu só olhava pro chão, com minha respiração acelerada e minhas mandíbulas rígidas. Minha boca cheia de água: eu estava com fome.
Quando dei conta de mim, estava na frente daquele santuário da perdição. B&K empreendimentos. Uma empresa de contabilidade sem nem uma máquina de vender refrigerante. Entrei assim mesmo.
Nove e meia da noite, o guarda veio me avisar que eu não poderia entrar, ao que tirei uma faca de algum lugar e cortei sua garganta. Continuei andando meio inconsciente, cheguei a pensar de onde tirei a faca. Devo ter pegado em casa e nem vi. O sangue do guarda escorria pelo chão. Eu assisti enquanto esperava o elevador. Bati o pé no chão num ritmo meio acelerado, quase compulsivo.
Subi até o nono andar, eu sabia exatamente onde estava indo. Não havia como esquecer. Foi ali que ele despertou, ou que eu despertei. Não sei, mas ali que tudo despertou. Eu lambi a faca. Detesto gosto de sangue. Tem vida demais...
Aquele lugar era cheio de divisões falsas. Originalmente era um grande salão, mas depois foi dividido e a maioria ficou comprimida num canto pro chefe pode jogar golfe. Só pra ele jogar golfe! Isso enquanto eu desfazia as merdas que ele faz.
Mas não estou enganando você e nem a mim mesmo. Não é porque ele me difamou que estou aqui. Não é porque perdi meu cargo por ele. Eu não ganhava nada por isso, só a empresa. A razão de eu estar aqui é por causa da minha fome que nunca está saciada. Uma fome que me trás sofrimento, desgosto, delírio, agitação, morte. As portas do porão da minha alma foram abertas.
Passei a faca no rosto. O outro lado ainda tinha sangue. Lá estava ele. Tinha uma mulher de lingerie. Gostosa, ela. A secretária dele. Estava chupando o pau dele, enquanto ele segurava um bolo de dinheiro olhando pra cima. Eu sempre fui sorrateiro, nem me viram chegando.
Meu corpo começou a se agitar. Se preparando pro combate, como um primitivo pedindo o auxílio dos deuses. Minha cabeça se contorcendo, tudo girou por uns instantes. Fiquei nervoso, calmo, ansioso, receoso.
Na hora nem vi nada. Quando me dei conta a mulher já estava com a faca atravessada na garganda se debatendo no chão e eu estava derrubando o maldito na mesa de vidro. O som foi delicioso. Quebrou com a cabeça careca do filho da puta. Ele segurou no meu terno com os olhos fechado e eu mordi o pulso dele com toda a força. Ele gritou e me soltou.
Pegou um pedaço pontudo de vidro e apontou pra mim, com um olhar de desespero. Covarde.
Peguei a faca do pescoço da mulher e enfiei o dedo na boca dela. Achei que isso iria perturbar o sujeito, mas ele não mudou a expressão. Ele não dava a mínima pra vadia.
Levantei com a faca, meus joelhos meio dobrados. Percebi que estava com uma bota grossa, como coturno ou algo assim. Ele, por outro lado, estava descalço, pisando no vidro com dificuldade.

- Quem é você? Olha, seja quem for que te mandou, eu pago mais. – gritou ele

Nesse momento eu percebi que uma toca cobria meu rosto e só o olho ficava amostra. Quando foi que coloquei isso na cabeça eu não sei.
Lembrei de alterar minha voz, que, por algum motivo, já estava naturalmente mais grave do que o normal.

- Você vai pagar com sangue.
- Caralho, te dou um milhão de reais!

Eu girei e dei um chute no ombro dele, ao que ele caiu no chão e derrubou seu caco de vidro. Se arrastou até a janela e eu subi em cima  dele. Deixei a faca na garganta dele e fiquei olhando a cidade. Carros andando, algumas janelas acesas noutros prédios. Ninguém se importava com aquilo.

- Porque você está fazendo isso? – perguntou ele
- Não sei e não me importo em descobrir.
- Quem te mandou
- O diabo.

Saí de cima dele e ele se levantou. Andei calmamente pelo lugar e ele ficou parado no mesmo lugar. Olhava pro telefone, então corri e enfiei uma faca na barriga dele. A janela estava aberta e o sangue escorria pra fora. Empurrei-o pra fora e ele se segurou na minha mão. Um desespero naqueles olhos negros, naquela cara de idiota. Mergulhei pela janela com ele e chutei a cara dele antes de me segurar numa corda. Não senti minha mão doer enquanto escorregava devido à velocidade em que já estava, e foi aí que vi que usava uma luva legra de couro. Eu nem lembro de ter essa luva. Meu corpo estava todo numa roupa preta de couro que eu não reconheço. Aquela corda eu me lembro de tê-la visto de manhã. O sujeito estava limpando o vidro e ela ficou pendurada. Não sei se ele esqueceu ali ou se era pra ficar mesmo, mas estava bem na janela dele. Lembro de ter feito essa estimativa quando saí à tarde...
Desci até o segundo andar, onde a corda acabou e eu soltei. Caí em cima dele e isso espirrou sangue da boca dele. Sexta feita à noite, o lugar deserto. Ninguém viu o cadáver.
Sentei ali e acendi um cigarro. Eu não sabia que tinha, tampouco que eu fumava. Detestei, tossi, mas fumei tudo. Não sei porque.
Ele ficava tremendo, então fiquei, de alguma maneira, irado e comecei a esfaquear a barriga gorda dele. Nem sei quantas vezes enfiei a faca nele. Só parei quando perdi o fôlego. Depois eu só fiquei arrastando a faca, cortando sem furar. Quando me senti satisfeito, vomitei num bueiro. Nem meu vômito eu deixei no chão. Tirei um saco preto de lixo do meu bolso e comecei a tirar minha roupa. Havia outra por baixo, como se tudo tivesse sido meticulosamente planejado. Nenhuma gota de sangue na parte de baixo.
Coloquei a faca dentro do casaco. Tinha uma caveira na parte de trás dele. Que pena que tive que destruir. Fui até aquela baia podre, cheia de lixo boiando. Não vão acreditar se eu disse, mas tinha uma garrafa de álcool intacta escondida lá. Acho que fui eu quem a deixou ali.
Queimei tudo, mas ainda sobrou algo. Isso eu coloquei dentro de outra sacola, com várias pedras. Daí joguei na água e afundou.
Não sei o que estão pensando, nem o que estão sentindo. Mas eu não pensava nada e me sentia tranqüilo. Não vou mentir não. Foi bom, libertador. Sentei na beira daquela água com cheiro de merda, depois dentei perto daquela pilastra com cheiro de mijo. Foi o momento mais tranqüilo que tive em meses...
Matei minha fome...