Uma dúvida sobre o conflito entre Monogamia e Poligamia

O presente post foi criado como um tópico na comunidade de Carl Jung, no Orkut. Por questões de compreensão mais clara, terei que colocar o debate dentro do próprio post. Se alguém se prestar a comentar isso aqui no blog, também ficarei grato... Como o leitor atento poderá perceber, essa está longe de ser uma questão sobre a qual eu tirei alguma conclusão. Se e quando isso acontecer, ela virá noutro post. E tem apenas como objetivo manter o bruto do debate, que está bem produtivo.


Estive pensando sobre as atitudes descritos por Jung em Tipos Psicológicos, especificamente depois de ler a seguinte passagem:

“Biologicamente falando, a relação entre sujeito e objeto é sempre uma relação de adaptação. Cada relação dessas pressupõe efeitos modificativos de um sobre o outro. Essas modificações constituem a adaptação. As atitudes típicas para com o objeto são, portanto, processos de adaptação. A natureza conhece dois caminhos fundamentais diferentes de adaptação que tornam possível a sobrevivência dos organismos: um caminho é a enorme proliferação, mas com relativamente pouca força defensiva e curta duração; o outro é a dotação do indivíduo com inúmeros meios de autoconservação, mas com relativamente pequena proliferação. parece-me que este contraste biológico não é apenas análogo, mas o fundamento geral de nossos dois modos psicológicos de adaptação.”

(Tipos Psicológicos, Vol VI segunda edição, Editora Vozes, parágrafo 624 - página 317)

Até onde pude ver nesse trecho, Jung parece ter aberto um enorme espaço para implicações nas relações humanas, especificamente nas relações reprodutivas e, portanto, amorosas. Imaginei que isso poderia ser visto no nosso contexto (que considera a bigamia um crime) segundo casos bem típicos: algumas pessoas facilmente se envolvem e relações vitalíceas enquanto outras vivem pulando de relação em relação sem envolvimento demasiadamente profundo. Ficou, então, demonstrado para mim que essa descrição de Jung se aplica na interpretação de porque há tais diferenças típicas.

No entanto, continuei pensando e fui levado à outras considerações, lembrando de uma passagem no início do livro(prólogo, parágrafo 4):

“Mas todo o indivíduo possui os dois mecanismos, tanto o da introversão como o da extroversão; e apenas a relativa preponderância de um ou de outro define o tipo.”

E depois, no parágrafo 73(da tentativa de conciliação de Abelardo):

“Toda expressão lógico-intelectual, por mais perfeita que seja, retira da impressão objetiva sua vitalidade e imediatidade. Ela tem que fazer assim para poder chegar a uma formulação. Com isso se perde, no entanto, o que parece ser o mais essencial para a atitude extrovertida: a relação com o objeto real. Não há, portanto, nenhuma possibilidade de encontrar, através de uma ou de outra atitude, uma formula de conciliação satisfatória. (...) Para a solução, é preciso um terceiro ponto de vista, intermediário.

Confesso que, nessa parte, ficou confuso em que trechos ele fala sobre a diferenciação de Sensação e Intuição e quando fala de Extroversão e Introversão. Parece que nessa parte ele associa Intuição à Introversão e Sensação a Extroversão. Mas isso eu deixo de lado pois não vem ao caso.

Então, reformulando, a Extroversão e a introversão são formas típicas de manifestação que podem ser vistas até entre os animais. É algo como um par de opostos natural: tartarugas deixam milhares de ovos na praia e Baleias carregam um filhote por meses na barriga, que demora anos para amadurecer e exige muita dedicação e proteção.

E, segundo a teoria de Jung, o ser humano não possui apenas uma dessas atitudes, mas ambas. As duas se manifestam na sociedade e até mesmo num indivíduo. Apesar de nosso mecanismo biológico exigir dedicação natural para a proliferação, nossa atitude psicológica com é tão variável quanto é grande a diferença de reprodução entre tartarugas e baleias.

Para fora do contexto, poderíamos classificar uma relação tribal de poligamia:

No regime de matrimônio por grupos, ou talvez antes, já se formavam uniões por pares, de duração mais ou menos longa; o homem tinha uma mulher principal (ainda não se pode dizer que fosse uma favorita) entre suas numerosas esposas, e era para ela o esposo principal entre todos os outros. Esta circunstância contribuiu bastante para a confusão produzida na mente dos missionários, que vêem no matrimônio por grupos ora uma comunidade promíscua das mulheres, ora um adultério arbitrário.” (Friedrich Engels, 1891)

Lendo isso, vi que essa forma de relação é, em essência, extrovertida, embora, em seu âmago, exista algo de introversão: porque há uma (e um) principal. E vendo nossa forma, vejo precisamente o contrário: temos relações monogâmicas, mas que se quebram tão facilmente que é possível ao indivíduo ter relações com diversas pessoas. Assim, em ambos os contextos, as duas atitudes são manifestas (e não pode ser de outra maneira), mas cada um favorece um tipo psicológico diferente.

Pode-se dizer, portanto, que são casos parciais os de ambos os contextos. No regime “primitivo”, o matrimônio por grupos é mais extrovertido, e no nosso, o casamento monogâmico é mais introvertido: apesar de que no caso do primitivo há uma (um) conjugue principal e que, no nosso contexto, a traição seja extremamente freqüente.

Jung, por exemplo, teve um caso vitalício com Toni Wolff, que Jung considerou como uma “segunda esposa”. Isso sem falar nos possíveis casos com Sabina Spielrein e Maria Moltzer. Inclusive, até onde sei, a relação de Jung co Wolff foi essencial para o processo de individuação dos dois, mesmo contrariando o estabelecimento cultural monogâmico (apesar de que com o consentimento de Emma).

Considerando esses pontos e a explicação sobre o processo de individuação, onde fica claro que todas as funções e atitudes psicológicas estão envolvidas no processo, minha duvida surgiu:

Nesse caso, as relações íntimas de “individuados” não é monogâmica e nem grupal: Então como é?

Se for como o caso de Jung, então como pode um indivíduo alcançar a individuação numa sociedade que certamente recrimina tais hábitos?

Aceito (e busco) qualquer tipo de correção no presente texto e também a indicação de artigos e livros vindos de qualquer autor sobre esse tema, mas prefiro ler comentários feitos diretamente pelo pessoal daqui.



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A partir daqui começa o debate da comunidade do orkut. O indicativo de quem fala o que é o nome seguido de dois pontos e logo depois um texto entre aspas. Quando as aspas se fecham, uma linha divisa o fim da fala de um dos participantes e o início de outro, com o nome, dois pontos, etc.
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Charles:

“Nesse caso, as relações íntimas de “individuados” não é monogâmica e nem grupal: Então como é?

Essa é uma expressão que afirma existir seres individuados... Mas será que existem? Eu diria que é uma proposição mais idealista. Quando afirma que as relações de individuados não é monogâmica e nem grupal, é como se afirmasse que não é nem introvertida nem extrovertida... É como se o equilíbrio no individuado fosse total. Mas não é. O individuado é um indivíduo no mundo e não fora dele. Assim, ele considerará o meio em que vive, assim como sua própria pessoa, pois a individuação não exclui o outro, mas inclusive, é instigada por ele. Como indivíduo ainda mais exclusivo que qualquer outro, é difícil prevermos o comportamento de um "individuado", pois ele leva em conta a totalidade de seu ser e das situações porque passa, e faz justiça a elas. Mas veja bem: todas essas são considerações ideais. Se considerarmos Jung como um "individuado", já que ele disse que realizou o inconsciente em sua vida, seu comportamento teria sido previsível? Ele foi monogâmico ou grupal? Ele traiu a esposa, mas outro "individuado" a teria traído? Não sei...

Se for como o caso de Jung, então como pode um indivíduo alcançar a individuação numa sociedade que certamente recrimina tais hábitos?

Em termos de individuação, eu diria que a recriminação pode servir tanto de estímulo quanto de desencorajamento. Se você ler o livro de Hillmann - "O código do ser", compreenderá o que quero dizer. Dei uma pesquisada e aqui na comunidade há tópicos a respeito:

- O código do ser
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Eu:

“Charles,

Eu li esse livro. Baixei, inclusive, do seu 4shared e editei. Diminuí consideravelmente a quantidade de páginas, mas ele perdeu a proporção com o original por isso. Se quiser te envio, só passar o e-mail por depoimento.

Enfim, de que trecho desse livro você fala? Da determinação platônica da poligamia, que poderia ser para alguns e não para outros?

Não lembro se há algo específico sobre esse assunto.

Teríamos, então, que esquecer qualquer classificação genérica e deixar esse ponto para um plano essencialmente pessoal, sem que seja possível um mínimo de "tipificação"?”
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Trismegistos:

“Silas;

Acho que é possível uma “tipificação”, só que muito mais branda. Penso que a forma como você assimilou a questão é que está um pouquinho equivocada, veja bem:

As relações mono e poligâmicas não são determinadas pelos tipos e os tipos, por sua vez, à questão da proliferação, como se fossem seu fundamento orgânico. O que Jung quis dizer com “fundamento geral” é apenas esse “traço energético”, essa potência, que segue uma “tendência a” adaptação de uma forma ou de outra, essa é a raiz da fenomenologia dos tipos, mais é bem mais complexa do que uma questão puramente biológica ou padrões de comportamento sexual.

Toda a ênfase está na possibilidade de “oscilação” dessa energia, de como a adaptabilidade pode ser levada a cabo de maneiras opostas (e aqui temos o “problema” dos opostos). É isso que Jung põe no “fundamento geral”, entende?
Quando falamos em aspectos culturais das relações amorosas falamos, num ponto de vista amplificado, das estruturas de parentesco de uma sociedade, algo tão elementar de qualquer organização social que não podemos reduzir aos aspectos tipológicos, somente tentar identificar pequenos pontos em que essa dinâmica ocorre no âmbito dessas relações.

Podemos identificar, por exemplo, um tipo de sociedade que dá mais ênfase a uma ou outra atitude de uma maneira mais ou menos clara, daí compreender uma nuance no sujeito de tipo oposto. Aqui concordo com o que o Charles disse, isso pode encorajá-lo ou dificultar o processo de individuação. Aqui caímos no plano da subjetividade particular, e as coisas se tornam tanto mais claras (pela fala do sujeito) quanto mais complexas.

É difícil teorizar, já que entre “introversão” e “extroversão” (que é pura teoria), ou seja, nas possibilidades opostas dessa fenomenologia, existem milhões de graus intermediários. Por isso só podemos dizer “mais para introvertido”, “mais para extrovertido”, “Meu Deus, ele é um extrovertido unilateral!” etc,etc ... Lembrando sempre que ainda temos a questão da “marca” subjetiva.

Você traz a questão do “individuado”, por isso a argumentação não pode fugir do “sujeito”, no que ele tem de mais particular como, por exemplo, sua tipologia. Na resposta às suas perguntas eu concordo com o Charles também, depois eu acrescento alguma coisa.
Eu entendi bem sua linha de raciocínio, é muito interessante, se você amadurecer mais essa idéia com certeza ficará mais ainda.

Se eu puder ajudar, estou aí.

Abraços.”
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Eu:

 

“trismegistos

 

Você disse : “As relações mono e poligâmicas não são determinadas pelos tipos e os tipos, por sua vez, à questão da proliferação, como se fossem seu fundamento orgânico.”

Na verdade o que penso sobre isso é mais abstrato. Não estou cometendo a ofensa comum de redução ao biológico. Apenas disse que Jung amplificou as atitudes psicológicas de modo que elas possam também classificar a forma de reprodução dos animais. Ou seja, é um princípio natural e abstrato que se manifesta tanto no nosso psiquismo quando na natureza de um modo geral. Na verdade, por conta do tempo de gestação e dos cuidados que precisamos ter com nossos filhos, se eu fosse levar isso pro puramente biológico, provavelmente o argumento daria maior ênfase à monogamia, que permite maior concentração do pai no bebê.

Você disse: “Quando falamos em aspectos culturais das relações amorosas falamos, num ponto de vista amplificado, das estruturas de parentesco de uma sociedade, algo tão elementar de qualquer organização social que não podemos reduzir aos aspectos tipológicos, somente tentar identificar pequenos pontos em que essa dinâmica ocorre no âmbito dessas relações.”

Pois esse é um ponto que me deixa pensativo. A tipificação de Jung, até onde sei, pode ser transposta para as idéias (sendo assim, podemos avaliar premissas e até metodologias correspondentes a um tipo ou outro), para o reino animal e para grupos de indivíduos. Não sei você, mas parece que em tudo eu vejo essa dicotomia extroversão X introversão. Daí, como coloquei, há traços de monogamia e poligamia nas duas sociedades, mas cada uma tende para um lado. E agora que chega o ponto: não seria, porventura, um ser humano harmonizado precisamente aquele que pode, dentro do seu contexto, manifestar as mais diversas formas de relacionamento? E não é o relacionamento introvertido mais profundo e o extrovertido mais amplo?
O que quero dizer é que poderíamos tipificar as próprias relações: a relação poligâmica seria extrovertida, e a monogâmica introvertida. Isso implica dizer que pessoas introvertidas se adaptariam melhor numa relação monogâmica, e as extrovertidas numa poligâmica.

Uma coisa que me deixa meio confuso sobre o processo de individuação é isso: que todos nós tomamos consciência da Persona; confrontamos e integramos a Sombra; integramos Anima/Animus (alcançando, assim, uma espécie de condição psicologicamente andrógina original, como aquela apresentada em O Banquete); e daí chegamos no Self (que é um conceito meio nebuloso pra mim). E, até onde sei, individuar-se implica a vivência das mais diversas faculdades humanas, que incluem as atitudes e as funções psicológicas. Não podemos esperar, por exemplo, que nos individuemos sem desenvolver o sentimento ou sem o pensamento. Da mesma maneira, sem desenvolver a extroversão e a introversão, porque o próprio processo nos mantém numa constante alternância tipológica, mesmo mantendo o tipo primordial mais ou menos fixo.

Ora, se a relação introvertida é monogâmica e a extrovertida é poligâmica e nosso tipo se alterna durante a vida, isso quer dizer que temos “períodos poligâmicos”. Pra isso não ficar demasiadamente abstrato, basta recorrer aos fenômenos que essa exposição explica: a constante infidelidade e o fato de que nossas relações, na ausência de coerções sociais, geralmente não duram a vida inteira (O que, de certa forma, é uma poligamia parcial). E também em relações poligâmicas, que exista uma primeira esposa, uma principal, a mais amada entre as esposas (como a relação entre Jacó, Raquel e Lea, da bíblia). Outra coisa interessante, embora não tão significativa, é que postei esse texto no meu blog e, como sempre faço, anunciei no meu perfil: a quantidade de cliques foi pelo menos três vezes maior do que meus contos mais populares (as pessoas geralmente não entram no blog, mas nesse caso houve mais interesse do que o normal :p).
A mim parece que nosso contexto social vive uma contradição: porque dá tanta ênfase às relações amorosas, mas estabelece regras que tornam a maioria dessas relações impossíveis e dolorosas, porque, à despeito do regulamento social, nossa mente continua buscando sua manifestação plena e harmônica, e isso contraria nossos paradigmas.
Talvez isso não seja um pensamento na língua Junguiana, mas me parece que nosso tipo psicológico diz apenas como funcionamos, e não quem somos. Não posso dizer que sou um introvertido-racional com intuição. Isso é como eu funciono (e nem tenho certeza). Quem eu sou, isso se define por outros termos. Nem sei quais.

A nossa cultura parece estar se tornando mais... declaradamente múltipla: mesmo diante das imposições, mórmons e muçulmanos continuam realizando esse tipo de relação, e as informações cruzam pela internet de maneira que, conforme o tempo passa, vai ficando mais difícil o indivíduo viver preso apenas em sua cultura local. Assim, conforme o tempo passa isso vai se tornando mais uma manifestação do indivíduo do que do contexto coletivo, já que praticamente tudo o que ele pode imaginar tem alguém defendendo por aí (até coprofagia!).

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Marlon:

“chê, há MUITAS questões neste tópico, o que torna difícil responder... mas, sobre alguns pontos:
-- sobre a tipologia: às vezes acho que vocês levam demasiado a sério essa "classificação". a tipologia de Jung é um "compasso psicológico", como diz o Meier. talvez seja útil ter em mente que Jung (as citações a seguir são de diversos materiais de Jung citados por Shamdasani [2005], Jung and the making of modern Psychology)não propôs uma caracterologia, mas sim uma tipologia: "My intentions and interests are also in no way directed to characterology, but in complete contrast, to typology. But not in the sense that I have established types in order to classify people with, but to have a schema with which I can order psychological material (...) Hence my typology aims, not at characterizing personalities, but at classifying the empirical material in relatively simple and clear categories, just as it is presented to a practising psychologist and therapist." (p. 86) - e especialmente esta frase: "The theory of types, he [Jung] stated, was a theoretical function “without muscle or flesh, and if you identify with it you identify with a corpse”. por último, acho que estás vendo como equivalentes fatores que não o são (extroversão e poligamia, intro e mono).

-- concordo com Charles e Trismegistos. algumas coisas que considero importantes: Emma não deu "consentimento" pro Jung (mesmo porque, para um homem como ele, isso seria ridículo); acho que Toni foi o grande amor do Jung (sem dúvida foi sua musa, sua Anima realmente criativa); Jung não tava nem aí pro "estabelecimento cultural'. Jung é UM modelo de individuação; mas não quer dizer que tenhamos que serguir uma imitatio Jungi - por exemplo, para um cara essencialmente monogâmico, isso seria errado.

-- Charles: não considero que Jung tenha "traído" a esposa. ela sabia muito bem de tudo. a Toni inclusive almoçava com Jung e família determinados dias da semana (Emma provavelmente odiava isso...). Compara isso com a moral burguesa hipócrita do Freud (que, encarnada no superego, é obrigatória para o funcionamento "normal" tanto do indivíduo como da sociedade), que teve caso com a cunhada e fez ela abortar...”

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Charles:

“Tipologia x tipificação

Silas, se vc mandar eu agradeço. Tentei baixar um, mas muitas palavras encontram-se truncadas (o seu deve estar melhor).

Com relação ao "Código do Ser", eu me referi somente aos exemplos que ele dá. É incrível, por exemplo, como a oposição a determinados aspectos de uma criança pode fazê-la desenvolvê-lo num grau ainda maior... O que mais achei importante no livro foi a desconstrução que Hillmann faz do aspecto parental. Também o acho essencialista, como o Fernando colocou no tópico sobre o livro

A tipificação só é possível na medida em que as pessoas não são plenamente elas mesmas, na medida em que se aferram a determinadas características em detrimento de outras, em que se tornam unilaterais. A tipologia não pode abarcar - não tem esse poder - de classificar as pessoas que estão sequer trilhando a individuação conscientemente. Isso porque de repente você aplica um teste a ela num momento em que ela está desenvolvendo outra função ou atitude... Se bem que seria também correto perguntar: mas a tipologia inata é a que classifica realmente uma pessoa? A resposta seria tanto mais negativa quanto mais a pessoa se conhecesse. O autoconhecimento liberta a pessoa do destino, da fatalidade da previsibilidade, da massificação.

Como o Marlon disse, Jung usava a tipologia como uma forma de se nortear na psicoterapia e não para classificar as pessoas. Embora ache útil em certo sentido, não gosto da tipologia Myer-Briggs, pois parece passar uma filosofia onde as pessoas se aferram ao seu tipo e não adotam uma perspectiva de autodesenvolvimento. Elas ficam presas no que podem fazer, no que fazem melhor e esquecem sua sombra. É a tipologia voltada à desumanização: "faço o que é mais fácil e mais prático", como uma máquina. Esse tipo de esquema não é nada dinâmico, ao contrário do que Jung fazia. Para você ter uma idéia, Jung sequer usava testes (pelo que sei), ele deduzia um tipo via observação...”

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Eu:

“Marlon

Um dos entrevistados no documentário Matter of the Heart (se não em engano, Van der Post) disse o seguinte:

“Emma Jung said to a close friend of mine just before she died... That she had never ceased to be grateful in her life for Toni Wollf... Because Tone Wolff was able to do for her husband something she could not have done”

E depois uma mulher entrevistada disse:

“I think that what’s remarkable is that… They made it… And I think that they are the ones, Tonni and Emma, they are the ones that made the threesome relation possible… they worked out something between them.”

O vídeo está no google videos:

http://video.google.com/videoplay?docid=-3225765193573569458#

Pra ver do que estou falando, vá para 1:05:25 no vídeo. Talvez você saiba quem é quem lá.

O meu ponto aqui não é a tipificação de pessoas, mas de idéias de hábitos. No Tipos Psicológicos, vemos Jung tipificar os pensamentos realista e nominalista. Tem um trecho bem relevante para esse argumento:

Parágrafo 31:
“Reconhecemos, sem dificuldade, nesta briga, novamente aqueles elementos fundamentais que já encontramos nas disputas mencionadas antes, isto é, o ponto de vista abstrato que rejeita a mistura com o objeto concreto, e o concretista que está voltado para o objeto.(...)”

Parágrafo 32:
“Quero ressaltar que esses argumentos nada pretendem ter dito de decisivo sobre a psicologia individual dos dois personagens. O que conhecemos da pessoa de SCOTO ERÍGENA – apenas o pouco necessário – não é suficiente para fazer diagnóstico seguro de seu tipo.”

Ou seja, ele identificou o conflito em nível ideológico como típico, mas ainda assim não considerou seguro determinar o tipo do pensador. Isso significa que ele admitia que uma pessoa do tipo sensação, por exemplo, poderia ter uma idéia que, em si, é abstrata, intuitiva. Mas as idéias em si, a divergência teológica, o conflito entre realistas e nominalistas, são típicas e tipificáveis. Então não se trata de tipificar as pessoas. Muito pelo contrário. Trata-se de tipificar idéias e hábitos. Assim, se determinada pessoa tem muitos hábitos e idéias de um tipo, esse provavelmente é seu tipo pessoal.

E aí que vem a questão:

Marlon disse: “por último, acho que estás vendo como equivalentes fatores que não o são (extroversão e poligamia, intro e mono)”
Não estou vendo como fatores equivalentes. Talvez eu não tenha entendido bem o que foi dito. Me explica melhor? Mas estou dizendo aquilo que Jung disse:

“um caminho é a enorme proliferação, mas com relativamente pouca força defensiva e curta duração; o outro é a dotação do indivíduo com inúmeros meios de autoconservação, mas com relativamente pequena proliferação.”

Não é característico do introvertido entrar em relações vitalíceas enquanto que o extrovertido entra em muitas relações curtas? Ou, para ser mais leal à idéia original, não é um hábito introvertido possuir relações menos numerosas e mais profundas, e um extrovertido justamente o contrário?

E, nesse caso, não poderíamos levar essas implicações para o nível dos relacionamentos amorosos e dizer que o relacionamentos amorosos? Dizendo, por exemplo, que é uma característica extrovertida que o indivíduo tenha muitas relações de menor profundidade no âmbito amoroso (porque não há como um indivíduo ser tão próximo de mais de uma companheira quanto ele seria com uma esposa única) e também que o exato oposto, a monogamia, é de natureza introvertida?

to have a schema with which I can order psychological material (...) Hence my typology aims, not at characterizing personalities, but at classifying the empirical material

O que você postou aqui parece estar diretamente relacionado ao que eu estou falando. Sobre classificar o material empírico. Só que o material empírico aqui seria os hábitos monogâmico e poligâmico.

E é aqui que o ponto principal chega: se os indivíduos não são enraizados numa atitude, então é plausível que eles se alternem entre hábitos monogâmicos e poligâmicos durante a vida e que, portanto, ambas as formas de relação deveriam estar integradas na cultura para que as relações se manifestassem “plenamente”.

Vejam bem: não estou falando necessariamente do que Jung disse ou deixou de dizer. É mais sobre as implicações filosóficas dessa classificação. O livro Tipos Psicológicos é genial porque ele corre pela cultura: não fica apenas preso na utilidade clínica da tipologia. Ele fornece meios de compreensão de hábitos, costumes e idéias em nível filosófico. Conhecem algum autor que fala sobre isso, mesmo que de passagem, ou contra isso?

Charles

Tentei revisar o arquivo e arrumei diversos erros decorrentes da interpretação do scanner: como “rn” no lugar de “m” por causa da tinta apagada, além de remover a paginação original (o arquivo ficou com 186 páginas) pra ocupar plenamente as páginas e não apenas metade como estava. Daí deve ficar difícil citar referência do livro par quem tem a versão impressa, mas pra ler no computador está bom. Me passa seu e-mail por depoimento (se estiver no seu perfil, depois eu acho e envio) que te mando hoje mesmo.”

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Marlon:

“bá, essa discussão é bastante complexa. acho que não havia entendido o que o Silas queria dizer. agora infelizmente não tenho tempo pra reler todos os comentários e pensar numa resposta... mas uma hora eu respondo.
sobre a Emma e a Toni, se a Emma realmente disse isso... o que eu não duvido... sinal de que foi uma grande mulher. (mas foi realmente um processo, e acho que bem complicado, aceitar e fazer funcionar essa relação entre os 3). vi a parte do video agora, muito interessante (quero ver inteiro uma hora); acho que o senhor é Van der Post, a mulher eu não sei... talvez Barbara Hannah, mas tem sotaque americano, me parece, e Hannah era inglesa...”

Acerca do anarquismo em nível metodológico.

Contra o Método – Paul K Feyerabend
Apêndice 1

Tradução por Cezar Augusto Mortari

Tendo ouvido um de meus sermões anarquistas, o professor Wigner exclamou: “mas com certeza você não lê todos os manuscritos que as pessoas lhe enviam; você joga a maioria deles na lata de lixo”. Mas á claro que eu faço isso. “Tudo vale” não significa que eu vá ler cada artigo que tenha sido escrito – Deus me livre! -, mas significa que faço minha seleção de maneira de forma altamente individual e idiossincrática, em parte porque não me dou ao trabalho de ler o que não me interessa – e meus interesses mudam de semana a semana e mesmo de um dia para o outro – e em parte porque estou convencido de que a humanidade e até a ciência sairão lucrando se cada um se dedicar a sua própria área: um físico talvez prefira um artigo mal-escrito e parcialmente incompreensível, cheio de erros, a uma exposição cristalina porque tal artigo é uma extensão natural de sua própria pesquisa, ainda bastante desorganizada, e ele pode ter êxito bem como clareza muito antes de seu rival que jurou jamais ler uma única linha confusa (uma das qualidades da escola de Copenhague era sua habilidade em evitar decisões prematuras). Em outras ocasiões, ele talvez busque a prova mais perfeita de um princípio que está prestes a usar, a fim de não ser posto de lado na discussão do que considera ser seus resultados principais. Há, é claro, os assim chamados “pensadores” que separam sua correspondência exatamente da mesma forma, faça chuva ou faça sol, e também imitam mutuamente seus princípios de escolha – mas dificilmente os admiraremos por sua uniformidade e certamente não pensaremos que seu comportamento seja “racional”. A ciência precisa de pessoas que sejam adaptáveis e inventivas, não rígidos imitadores de padrões comportamentais estabelecidos.

No caso de instituições e organizações, como a National Science Foundation, a situação é exatamente a mesma. A fisionomia de uma organização e sua eficiência dependem de seus membros e melhoram de acordo com sua agilidade mental e emocional. Mesmo Procter na Gamble perceberam que um bando de bajuladores tem potencial competitivo inferior ao de um grupo de pessoas com opiniões incomuns, e os negócios acharam maneiras de incorporar os mais assombrosos não-conformistas em sua maquinaria. Problemas especiais surgem para fundações que distribuem dinheiro e desejam fazê-lo de maneira justa e razoável. A justiça parece exigir que a alocação de fundos seja efetuada com base em padrões que não mudam de um requerente a outro e refletem a situação intelectual nos campos e receberem apoio. Essa exigência pode ser satisfeita de maneira ad hoc sem recurso a “padrões de racionalidade” universais: qualquer associação de pessoas que seja livre tem de respeitar as ilusões de seus membros, bem como dar-lhes apoio institucional, A ilusão de racionalidade torna-se particularmente forte quando uma instituição científica opõe-se a exigências políticas. Nesse caso, uma classe de padrões é contrastada com outra classe desse tipo – o que é inteiramente legítimo: cada organização, cada partido, cada grupo religioso tem direito de defender sua forma de vida particular e todos os padrões que contém. Os cientistas, contudo, têm de ir mais longe.Tal como os defensores da Única religião Verdadeira, ou para obter resultados, e negam tal autoridade ás exigências do político. Põem-se a qualquer interferência política e mostram-se uns mais ávidos do que outros a tentar lembrar ao ouvinte, ou ao leitor, do resultado desastroso do caso Lysenko.

Ora, vimos que não passa de uma quimera a crença em um único conjunto de padrões que sempre tenha levado ao êxito, e sempre levará ao êxito. A autoridade social, no entanto, tornou-se entrementes tão esmagadora que se faz necessária uma interferência política para restaurar um desenvolvimento equilibrado. E para avaliar os efeitos de tal interferência é preciso estudar mais do que um caso não analisado. É preciso lembrar aqueles casos em que a ciência, deixada por sua própria conta, cometeu erros graves,e também não se pode esquecer as instâncias em que a interferência política realmentemelhorou a situação. Tal apresentação equilibrada da evidência pode até convencer-nos de que passou há muito o tempo de acrescentar a separação entre Estado e ciência à agora costumeira separação entre Estado e Igreja. A ciência é tão-só um dos muitos instrumentos que as pessoas inventaram para lidar com seu ambiente. Não é o único, não é infalível e tornou-se poderosa demais, atrevida demais e perigosa demais para ser deixada por sua própria conta. A seguir, algumas palavras sobre o objetivo prático que os racionalistas querem realizar com o auxílio de sua metodologia.

Os racionalistas estão preocupados com a poluição intelectual. Compartilho dessa preocupação. Livros ignorantes e incompetentes inundam o mercado, uma verborréia vazia e cheia de termos estranhos e esotéricos sustenta expressar insights profundos, “especialistas” sem cérebro, sem caráter e até mesmo sem uma pequena quantidade de temperamento intelectual, estilístico e emocional falam-nos a respeito da nossa “condição” e dos meios para melhorá-la, e não apenas pregam a nós – que talvez sejamos capazes de olhar por intermédio deles -, mas são deixados à solta entre nossas crianças e permite-se a eles arrastá-las para o interior [de] sua própria esualidez intelectual.¹ “professores” usando notas e o medo do fracasso moldam a mente dos nosso jovens até que eles tenham perdido toda a grama de imaginação que possam alguma vez ter possuído. Essa é uma situação desastrosa, que não é facilemnte corrigida. Mas não vejo como uma metodologia racionalista possa ajudar. No que me diz respeito, o primeiro e o mais urgente problema é tirar a educação das mãos dos “educadores profissionais”. As coerções de notas, competições e exames regulares devem ser eliminadas e devemos também separar o processo de aprendizagem e a preparação para uma profissão particular.  Admito que negócios, religiões e profissões especiais, como a ciência, ou a prostituição, tenham direito de exigir que seus participantese/ou praticantes conformem-se a padrões que elas consideram importantes, e devam ser capazes de averiguar sua competência. Admito também que isso implica a necessidade de tipos especiais de educação que preparem um homem ou uma mulher para os “exames” correspondentes. Os padrões ensinados não precisam ser “racioanais” ou “razoáveis” em nenhum sentido, embora usualmente sejam apresentados como tais; é suficiente que sejam aceitos pelos grupos que se deseja ingressar, seja a ciência, ou os Grandes Negócios, ou A Única Religião verdadeira. Afinal de contas, em uma democracia, a “razão” tem tando direito de ser ouvida e expressacomo a “não-razão”, especialmente em vista do fato de que a “razão’ d euma pessoa é a insanidade de outra. Uma coisa, contudo, deve ser evitada a todo custo: não se deve permitir que os padrões especiais que definem assuntos especiais e profissões especiais permeiem a educação geral e não se deve fazer deles a propriedade definidora de uma “pessoa bem-educada”. A educação geral deve preparar os cidadãos para escolher entre os padrões, ou achar seu caminho em uma sociedade que contém grupos comprometidos com vários padrões, mas não deve em condição alguma subjugar a mente deles de modo que se conformem aos padrões de algum grupo particular.Os padrões serão considerados, serão discutidos, as crianças serão encorajadas a ter proficiência nos assuntos mais importantes, mas só como se proficiência em um jogo, ou seja, sem compromisso sério e sem roubar a mente de sua capacidade de jogar também outros jogos. Tendo sido preparada dessa maneira, uma pessoa jovem pode decidir devotar o restante de sua vida a uma profissão particular e pode começar a levá-kla a sério daí em diante. Esse “comprometimento” deveria ser o resultado de uma decisão consciente, com base em um conhecimento razoavelmente completo das alternativas, e não um resultado inevitável.

Tudo isso significa, é claro, que devemos impedir os cientistas de assumir[em] a educação e de ensinar como “fato” e “o único método verdadeiro”, seja lá qual for o mito do dia. A concordância com a ciência e a decisão de trabalhar de acordo com os cânones da ciência deveriam ser o resultado de exame e escolha, e não de uma forma particular de educar as crianças.

Parece-me que tal mudança na educação e, em conseqüência, de perspectiva removerá muito da poluição intelectual que os racionalistas deploram. A mudança de perspectiva deixa claro que há muitas maneiras de ordenar o mundo que nos cerca, que as restrições odiadas de um conjunto de padrões podem ser quebradas pela livre aceitação de padrões de espécie diferente, e de que não há necessidade de rejeitar toda a ordem e permitir-se ser reduzido a uma queixosa corrente de consciência. Uma sociedade que é baseada em um conjunto de regras restritivas e bem definidas, de forma que ser humano torna-se sinônimo de obedecer essas regras, força o dissidente a uma terra de ninguém sem regra nenhuma e despoja-o assim de sua razão e de sua humanidade. É o paradoxo do irracionalismo moderno que seus proponentes identificam silenciosamente o racionalismo com ordem e fala articulada, e vêem-se, assim forçados a promover gaguejos e absurdos – muitas formas de “misticismo” e “existencialismo” são impossíveis sem um comprometimento firme, mas irrealizado, com alguns princípios da ideologia desdenhada (recordemos apenas da “teoria” de que poesia não passa de emoções vividamente exprimidas). Removam-se os princípios, admita-se a possibilidade de muitas formas de vida diferentes, e tais fenômenos desaparecerão como um sonho ruim.

Meu diagnóstico e minhas sugestões coincidem com os de lakatos – até certo ponto. Lakatos identificou princípios de racionalidade excessivamente rígidos como fonte a fonte de algumas versões de irracionalismo e insistiu conosco para que adotemos padrões novos e mais liberais. Identifiquei princípios de racionalidade excessivamente rígidos, bem como um respeito geral pela “razão”, como fonte de algumas formas de misticismo e irracionalismo, e também insisto na adoção de padrões mais liberais. Porém, ao passo que o grande “respeito pela grande ciência” que tem Lakatos leva-o a buscar esses padrões nos limites da ciência moderna “dos dois últimos séculos”, recomento colocar a ciência em seu lugar como uma forma de conhecimento interessante, mas de modo algum exclusiva, que tem muitas vantagens mas também muitos inconvenientes: “embora a ciência como um todo seja um aborrecimento, ainda assim pode-se aprender dela”. Também não acredito que se possa banir os charlatães simplesmente tornando-se mais rígidas as regras.

Charlatães existiram em todos os tempos e nas profissões mais firmemente consolidadas. Alguns dos exemplos que Lakatos menciona parecem indicar que o problema é criado por excesso de controle, e não por falta dele. Isso é especialmente [a] verdade dos novos “revolucionários” e sua “reforma” das universidades. Sua falha é que são puritanos e não que sejam libertinos. Além disso, quem imaginaria que os covardes melhorassem o clima intelectual mais rapidamente do que os libertinos?
(Einstein percebeu esse problema e, portanto, aconselhou as pessoas a não associar sua pesquisa à sua profissão: a pesquisa tem de estar livre das pressões que as profissões tendem a impor.) Precisamos também lembrar que aqueles raros casos em que metodologias liberais de fato encorajam verborréia vazia e pensamento desconexo (“desconexo” de um ponto de vista, embora talvez não de outro) Possam ser inevitáveis no sentido de que o liberalismo culpado é também uma precondição de uma vida livre e humana.

Finalmente, permitam-me repetir que, para mim, o chauvinismo da ciência é um problema muito maior do que o problema da poluição intelectual. Pode até ser uma de suas maiores causas. Os cientistas nãos e dão por satisfeitos em organizar seus próprios cercadinhos de acordo com o que consideram ser as regras do método científico, mas querem universalizar essas regras, querem que ela se torne parte da sociedade em geral e usam de todos os meios à sua disposição – argumento, propaganda, táticas de pressão, intimidação, práticas de lobby – para atingir seus objetivos. Os comunistas chineses reconheceram os perigos inerentes nesse chauvinismo e procederam de modo que o removesse. No decurso disso, restauraram partes importantes da herança intelectual e emocional do povo chinês, bem como aperfeiçoaram a prática da medicina. Seria vantajoso se outros governos seguissem esse exemplo.

1)      Até mesmo a lei agora parece apoiar essas tendências, como está mostrado no livro de HUBER, Peter. Galileo’s Revenge. Nova York, 1991.

Sobre a escravidão psicológica moderna

Este post contém apenas um pequeno fragmento de minha autoria. Seu conteúdo foi copiado de um grupo Junguiano do qual participo. Dentro do grupo, há um tópico com textos que considerei profundamente interessantes, de maneira que decidi postar todos aqui.

Link original: http://pos-jung.ning.com/forum/topics/controle-dominacao-matrix?xg_source=activity

Post inicial, por Anubys:

No início da era cristã, os gnósticos identificaram e descreveram um complexo sistema que operava simultaneamente nos planos físico, psíquico e social, e cuja finalidade era dupla: de um lado, manter o ser humano em uma condição de dependência dos poderes externos (sejam eles outros seres humanos, as forças determinísticas da natureza ou divindades tirânicas); do outro, drenar a energia excedente da psique, para impedir que a consciência do ser humano se elevasse a um nível incompatível com essa dominação. Esse sistema foi minuciosamente analisado por Valentino, fundador de uma das principais linhagens gnósticas da antigüidade, que deu a ele o nome de sístase

Os gnósticos foram os primeiros a apontar com clareza para o modo como as estruturas de poder da sístase se enraízam no próprio corpo. Mal-interpretada por seus detratores cristãos, essa descoberta deu origem à falsa crença de que os gnósticos fossem dualistas, que pregavam uma separação radical entre o espírito e o corpo, enxergando este último como a fonte de todo o mal.

Não é verdade, e o estreito vínculo entre corpo e poder foi redescoberto no século XX por Wilhelm Reich, que rebatizou a sístase como "couraça muscular" e intitulou o primeiro capítulo de seu Psicologia de Massas do Fascismo de "A Ideologia como Força Material". Reich descobriu também, aprofundando uma idéia lançada originalmente por Freud no início da psicanálise, que o principal aparelho ideológico usado pelo sistema para gravar essas estruturas na própria carne das pessoas (à maneira da Máquina em "Na Colônia Penal", de Kafka) é nada menos que a família.

O passo seguinte, por assim dizer, veio com Foucault, na década de 60. De um lado, Foucault confirmou a alegação gnóstica sobre a universalidade do sistema de dominação, ao mostrar que o poder não se difunde apenas verticalmente, imposto de cima para baixo, mas também horizontalmente, através de uma malha ubíqua de relações sociais (inclusive as familiares), o que faz com que cada um de nós torne-se um agente involuntário do poder, ao mesmo tempo prisioneiro, carcereiro e cárcere.

Do outro, Foucault salientou o caráter histórico da sístase: embora o sistema de dominação, como tal, se perpetue através das gerações, estendendo-se sabe Deus desde quando (talvez desde Adão tremendo de medo aos pés da Árvore do Conhecimento), suas estruturas sofrem mutações periódicas para se adaptar às novas circunstâncias sociais e históricas que inevitavelmente surgem.

Como exemplo dessas mutações, pode-se citar a sexualidade (tema de um estudo clássico de Foucault em três volumes, a História da Sexualidade ). Durante a Era Vitoriana, o sexo foi submetido a um escrutínio feroz por parte das autoridades médicas, sociológicas e políticas, com o objetivo de mantê-lo sob um rigoroso controle, devidamente enquadrado no sistema.

Na época de Reich (e de Freud), essa repressão sexual embora mais complexa do que tanto Freud quanto Reich acreditavam, já que não visava a calar o sexo mas, pelo contrário, a fazê-lo falar, como um prisioneiro sob interrogatório, era um dos traços dominantes da sístase, e se tornou a pedra-de-toque de seus respectivos métodos terapêuticos. Vieram as duas grandes guerras mundiais, que despedaçaram a sociedade vitoriana e uma das conseqüências disso foi a revolução sexual dos anos 60, saudada pela Contracultura e por uma geração de hippies como uma libertação.

Mas, como Marcuse alertava em Eros e Civilização, a liberação sexual fazia parte, na verdade, de uma estratégia do sistema, a que ele chamou de dessublimação repressiva, depois de interrogado, torturado e virado do avesso, o prisioneiro passou a colaborar com a sístase, que continua muito bem, obrigado, mesmo em tempos de sexualidade aparentemente livre.

Qualquer dúvida quanto a isso, é só ver o constante apelo da publicidade ao sexo como motivação para o consumismo. Quem olha para essa deslumbrante mulher seminua, orgulhosamente adaptada depois de um século de lavagem cerebral, jamais adivinharia seu passado de revolucionária. Sexualidade, teu nome é Patty Hearst.

E agora, que a revolução informática conectou o mundo todo, gerou acesso instantâneo à informação e, durante um breve período, ameaçou chacoalhar as estruturas de dominação (numa promessa, infelizmente, não cumprida, mas que, mesmo assim, gerou seus frutos), tudo indica que o estado de sístase está prestes a sofrer uma nova mutação.

É o que indica o artigo de Hara Estroff Marano. Corroídos pela ansiedade. Editora da revista Psychology Today (em cujo site, pode ser lida gratuitamente a versão original do artigo, sob o título de "A Nation of Whimps"), Marano considera que a tendência da atual geração de pais americanos a superproteger os seus filhos pode ter graves conseqüências quando eles se tornarem adultos:

Bem-vindo à infância inteiramente higienizada e protegida, sem joelhos esfolados ou uma ou outra nota "C" no boletim. "As crianças precisam sentir-se em falta de vez em quando", diz o psicólogo infantil David Elkind, professor na Universidade Tufts [Massachusetts, EUA]. "Aprendemos por meio da experiência, incluindo as experiências negativas. Por meio do fracasso, aprendemos a enfrentar as dificuldades." Mas cometer enganos, mesmo no playground, é algo que anda totalmente fora de moda. Apesar do fato de tentativa e erro serem os verdadeiros "pais" do sucesso, os pais estão se dando muito trabalho para remover os erros dessa equação. Ninguém duvida da existência de forças econômicas importantes que estão impelindo os pais a investir tão pesado na produção de seus filhos, desde a mais tenra idade. Mas tirar do desenvolvimento das crianças todo o desconforto, as decepções e até mesmo a brincadeira, especialmente quando isso é acompanhado de uma pressão crescente de exigência de sucesso, revela ser um erro de rumo de mais ou menos 180 graus. Quando enfrentam poucos desafios próprios, as crianças não conseguem criar suas adaptações criativas próprias às vicissitudes normais da vida. Não apenas isso as torna avessas ao risco, como as faz psicologicamente frágeis, corroídas pela ansiedade.

Parece uma reedição do velho debate que atravessa a pedagogia, sobre se os bons pais devem ser permissivos ou controladores, e em certo sentido não deixa de ser. Por outro lado, também não deixa de ser sintomático que os adultos produzidos por essa "infância higienizada" pareçam feitos sob medida para uma sociedade de controle: "Nesse processo elas perdem o senso de identidade, de sentido e de realização", escreve Marano, "sem falar em suas chances de alcançar a felicidade 'real'. Além disso, não aprendem a ter perseverança, que não é apenas uma virtude moral, mas uma habilidade necessária à vida."
Na ausência de um senso de identidade solidamente enraizado em si próprias, as crianças passam a depender de uma autoridade externa que lhes diga quem são, o que devem fazer e qual o sentido de suas vidas.

E no afã de proteger seus filhos de todos os problemas, mostrando-se sempre disponíveis para resolver prontamente qualquer dificuldade que surja, os pais, imbuídos das melhores intenções, mas eles mesmos vítimas de sua programação inconsciente, só fazem perpetuar essa condição de dependência, que já começa a mostrar seus reflexos fora do âmbito familiar: "Na estufa em que se transformou o processo de criação das crianças, o brincar é algo que praticamente desapareceu. Mais de 40 mil escolas americanas não têm mais recreio. E o pouco tempo que ainda resta para brincar foi corrompido. Os esportes organizados dos quais muitas crianças participam são administrados por adultos. As dificuldades que surgem ali não são resolvidas pelas crianças, e sim por decreto de árbitros adultos."
Obviamente, quando essas crianças crescerem, os pais não vão estar sempre por perto para lhes dizer o que fazer. Ganha um doce quem for capaz de adivinhar o que é que entrará no lugar dos pais ausentes como fonte de autoridade.

Um superego externo. - Na produção dessa dependência perpétua, o celular ocupa um lugar de destaque, o que o torna, ao mesmo tempo, uma imagem exemplar da forma como o estado de sístase é capaz de absorver qualquer elemento que surja e convertê-lo em um instrumento para sua própria manutenção.

Criado originalmente com a finalidade de facilitar a comunicação, o celular logo se transformou em uma ferramenta de controle que funciona nos dois sentidos: se o filho, criança ou adolescente, tem um celular, os pais sempre poderão encontrá-lo, a qualquer hora ou em qualquer lugar e, em troca, ele também terá acesso ilimitado aos pais para que eles lhe digam como agir.

"Pense-se no celular como o cordão umbilical eterno", diz Marano, que contrasta essa situação com o modelo clássico de crescimento: "Um dos modos pelos quais nos tornamos adultos é internalizando uma imagem de nossos pai e mãe e dos valores e conselhos que eles nos passaram em nossa infância. Então, sempre que nos defrontamos com incertezas ou dificuldades, recorremos a essa imagem internalizada. Nós nos tornamos, de certa maneira, todos os adultos sábios que já tivemos o privilégio de conhecer." O psicólogo infantil David Anderegg complementa: "O celular impede os jovens de descobrirem por conta própria o que fazer. Eles não chegam a internalizar nenhuma imagem. A única coisa que internalizaram é o comando 'ligue para papai ou mamãe'."

Obviamente, a internalização da imagem paterna, que tanto Marano quanto Anderegg parecem ver como uma condição saudável que está sendo destruída pela nova situação, é tudo menos saudável. Em linguagem psicanalítica, o que eles estão descrevendo é a formação do superego, que Freud descreveu como a colonização da psique pelos padrões e valores impostos pela sociedade.
Em outras palavras, o superego é, ele próprio, um dispositivo de controle implantado nas mentes das pessoas. Mesmo se o diagnóstico deles quanto aos efeitos psicológicos do celular estiver correto, não estamos passando de uma situação de liberdade para uma situação de dependência, e sim de uma situação de dependência internalizada para uma dependência externa.

Dependência é dependência, só mudam as suas formas de atuação. O superego, que antes era uma instância puramente intrapsíquica, passa a ser projetado no ambiente externo que, num certo sentido, torna-se ele mesmo superegóico, fazendo eco às palavras do (às vezes reacionário, às vezes visionário) filósofo francês Jean Baudrillard: "Tudo aquilo que é interior (rede, funções, órgãos, circuitos conscientes ou inconscientes) será exteriorizado na forma de próteses, que constituirão ao redor do corpo um corpus ideal satelizado, do qual o próprio corpo tornar-se-á satélite. Todo o núcleo será desnucleizado e projetado no espaço satélite."

Os Cem Olhos de Argos - Deleuze referiu-se a esse espaço-satélite que, hoje vemos com clareza, é um satélite de vigilância e espionagem como sendo a nova sociedade de controle que começou a emergir na segunda metade do século XX, e que é a nova face assumida pelo estado de sístase denunciado e combatido pelo gnosticismo.

Ao contrário de Baudrillard o qual, como Marano e Anderegg, embora num outro contexto, tende a idealizar os estágios anteriores da sístase como uma espécie de "paraíso perdido", Deleuze não vê a sociedade de controle como pior ou melhor do que as formas prévias que ela vem substituir especialmente a sociedade disciplinar do século XIX, que Foucault estudou em Vigiar e Punir, e de cujo ventre o superego freudiano é o fruto. Ela é apenas uma forma diferente de fazer a mesma coisa, garantir que, quanto mais as coisas mudem, mais elas permaneçam iguais.

A mitologia grega conta a história de Io, uma das incontáveis amantes de Zeus perseguidas pelo ciúme de Hera e que, depois de ser transformada em novilha, foi aprisionada e colocada sob a vigilância implacável do gigante Argos. Em uma das versões da lenda, Argos era um cíclope, dotado de um único olho, e para se submeter a seu olhar monocêntrico, a novilha Io teve de ser amarrada a uma árvore. Segundo outra versão, mais difundida, Argos tinha cem olhos espalhados pelo corpo. Não havia necessidade de prender Io porque, onde quer que ela fosse, os olhos de Argos a seguiam. Curiosamente, a diferença entre as duas variantes do mito é a mesma que existe entre a antiga sociedade disciplinar e a nova sociedade de controle.

As sociedades disciplinares organizam-se sob a forma de uma série de espaços fechados, a família, a escola, o quartel, a fábrica, o hospital para os doentes físicos e o hospício para os doentes mentais, cujo paradigma é a prisão. No decorrer de sua vida, o indivíduo simplesmente passa de uma forma de clausura para outra, sempre submetido a alguma forma de vigilância e disciplina, até ser trancafiado nesse derradeiro espaço fechado que é o cemitério.

O mecanismo funcionou como uma engrenagem perfeitamente azeitada durante aproximadamente duzentos anos, do século XVIII, quando ela começou a se constituir, até mais ou menos a metade do século XX e atingiu seu apogeu no século XIX. Daí para a frente, começou a fazer água, até entrar em uma espécie de colapso, do qual, talvez, a contracultura das décadas de 50 e 60 foi o grande anunciador: Nas palavras de Deleuze:

Estamos em uma crise generalizada de todos os locais de clausura: prisão, hospital, fábrica, escola, família. A família é um "interior" em crise, como todos os interiores, escolares, profissionais, etc. Os ministros competentes não deixaram de anunciar reformas supostamente necessárias. Reformar a escola, reformar a indústria, o hospital, o exército, a prisão; mas todos sabem que estas instituições estarão extintas, a um prazo mais ou menos curto. Trata-se apenas de administrar sua agonia e de ocupar as pessoas até a instalação das novas forças que estão batendo à porta.

Essas novas forças são as da Sociedade de Controle, termo que Deleuze pegou emprestado de William Burroughs, e que são organizadas sob moldes profundamente diferentes dos da sociedade disciplinar.
O paradigma não é mais fornecido pela prisão e a fábrica, mas pela empresa e pelo comércio. O espaço deixa de ser rigidamente demarcado, as fronteiras tornam-se fluidas, permeáveis, e a vigilância monocêntrica, concreta, torna-se desnecessária, substituída por uma vigilância ubíqüa e virtual: "Não é preciso a ficção científica para conceber um mecanismo de controle que assinale a cada instante a posição de um elemento em um lugar aberto, animal em uma reserva, homem em uma empresa (coleira eletrônica)."

É fácil perceber no uso do celular como instrumento de controle um dos avatares da coleira eletrônica mencionada por Deleuze. Não é o único, e talvez em breve deixe de ser o mais importante. A proliferação de câmeras de segurança, acompanhadas ou não da hipócrita advertência de que "sorria, você está sendo filmado", é outro sintoma da crescente onipresença dos cem olhos de Argos.
Acuada pelo medo e a insegurança crescente, a população passa a encarar essa onipresença com alívio, como uma proteção ilusória contra a criminalidade urbana, e pode-se perguntar, como Arthur Dapieve, se a função da criminalidade não será exatamente essa, fazer com que a sociedade se submeta ao controle por livre e espontânea vontade ou seja, uma vontade que não é verdadeiramente livre, nem espontânea e muito menos vontade.

No extremo oposto, o sucesso dos reality shows cumpre o papel pedagógico de ensinar as pessoas não apenas a aceitar como de fato a desejar essa exposição constante às lentes das câmeras, e o título de um dos primeiros e até hoje mais bem-sucedidos programas nesse formato encerra menos uma ironia do que uma admissão cínica, não dos produtores mas do próprio sistema, quanto às intenções que presidiram ao seu surgimento.

E não deixa de ser significativo que os chips de localização, desenvolvidos inicialmente com o objetivo de serem implantados nos criminosos, comecem a aparecer no mercado como um produto a ser adquirido pelo respeitável cidadão, permitindo que a polícia saiba a qualquer momento onde ele pode ser encontrado em caso de seqüestro. O chip de localização é um símbolo perfeito da passagem da sociedade disciplinar para a sociedade de controle e aponta para o fato de que ainda somos todos prisioneiros, mas de uma prisão desprovida de muros concretos e portões intransponíveis. Nossa liberdade de ir e vir é assegurada apenas na medida em que levamos a nossa prisão conosco.

Criando o cidadão de amanhã. - De posse desses dados quanto ao contexto geral, podemos voltar ao problema específico levantado por Marano em seu artigo. Filhos de uma civilização em transição, nascidos sob a égide do esfacelamento da sociedade disciplinar, precisamos ser coagidos pelo medo à criminalidade ou adulados pela promessa de nossos quinze minutos de fama para que aceitemos o novo regime imposto pela sociedade de controle.

Nossos moldes não se encaixam muito bem no novo esquema geral das coisas, e é por isso que o sistema tem de recorrer a engodos e ardis para que nos adaptemos. Outro caso completamente diferente é o dessa geração que preocupa Marano e os psicólogos infantis que ela cita:
John Portmann acha que os efeitos da superproteção são ainda mais perniciosos que eles enfraquecem toda a tessitura da sociedade. Ele vê os jovens se tornando cada vez mais fracos, cada vez mais ansiosos por pertencer ao rebanho maior, demasiado ansiosos por se enturmar afirmando-se menos em sala de aula, pouco dispostos a discordar de seus pares, com medo de questionar a autoridade, mais dispostos a satisfazer as expectativas dos que estão situados um pouco acima deles na escala de poder.

Portmann só erra quanto ao pressuposto de que os efeitos da superproteção "enfraquecem a tessitura da sociedade" uma afirmação otimista demais, que ignora completamente a dinâmica do estado de sístase.

Ansiosos, submissos e desprovidos de livre-iniciativa, os adultos de amanhã são os cidadãos ideais de uma sociedade de controle que já começa a cravar suas garras no hoje. Quando essas crianças crescerem, descobrirão provavelmente sem esboçar qualquer reação quanto a isso que foram feitas à imagem e semelhança do novo rosto assumido pelo eterno deus do sistema.

Resposta de Juçana:

Bela análise do momento atual, pouco ou nada teria a ser acrescentado para tornar o quadro geral da humanidade mais completo, nos meandros históricos, político e psicológicos e também nessa estranha relação do homem contemporâneo entre o que é aparente e o que é oculto, entre o que ele quer, o que ele faz e o que obtém. Concordo inclusive com o diagnóstico, mas teria algo a discordar do prognóstico...

Por mais que o homem seja estes descaminhos todos e esteja, digamos, em estado de sístase permanente, ainda assim eu vejo nas crianças de hoje uma identidade desapegada dos papéis antigos, como poucas gerações anteriores tiveram oportunidade, ou mesmo liberdade, de experimentar. A geração dos novos que estão chegando, têm realmente uma maneira diferente de estar no mundo. Muitas causas contribuem para essa relativa - e frágil - "liberdade", mas, por mais paradoxal que possa parecer, acho que é justamente a sociedade do controle a que propicia o espaço ou fornece motivação para que esse novo homem, que "está vindo", possa construir uma identidade desapegada do "controle central". Pois quando todos são vigiados, quando o controle é levado às raias do absurdo, o controle em si mesmo cai por terra e outra coisa nasce em seu lugar e bem poderíamos chamar essa coisa de "liberdade". É quase uma enantiodromia junguiana, ou sístole aristotélica, ou libido freudiana vagando entre eros e tanatos. O homem é esse vagar entre, e não podemos desconsiderar as consequências deste permanente estado de contradição, como uma condição para sua existência.

Eu percebo que tudo o que o homem pensa, constrói, imagina, sente, de algum modo existe e se faz real para ele, e não há como o homem não lançar mão daquilo que para ele é ou se faz real, seja um pensamento, um sentimento ou até mesmo um objeto. Porém, se homem fosse apenas esse vetor, do que ele "constrói", há muito nós não estaríamos mais aqui nesse planeta. Existe igualmente uma outra força contrária e sem nome, seria o contra-objeto, o contra-conhecimento ou o contra-sentimento, ou qualquer coisa que poderíamos chamar de "o antídoto".

Ou seja, do mesmo modo que o homem destrói o planeta, de outro ele o preserva - e também se ele não estivesse destruindo o planeta, não haveria necessidade de pensar e de colocar em prática um outro modo de vida sustentável. E do mesmo modo que o homem inventa a bomba H ou artefatos cada vez mais bélicos e destrutivos - e tudo que ele constrói não há meios que o impeça de lançar mão do objeto construído, a não ser o conhecimento do mal que ele provocaria, que é o que efetivamente segura a sua mão na hora de apertar o gatilho e lançar tudo pelos ares. Ainda existe o contrasenso de que a energia nuclear seja mais limpa e o que foi feita para destruir seja, num curto prazo, a alternativa ecológica mais viável para preservar a atmosfera. Assim, concluo, quando o homem é vigiado de fora, é quando ele encontra condições ideais de formular regras interiores independentes. Mas, é claro, o quadro que estou delineando talvez seja uma experiência para poucos, mas quero crer é o começo duma outra realidade e que passa longe por uma sociedade de controle absoluta.

Minha resposta:

Talvez exista um problema nessa argumentação. É bem simples: se estamos mesmo escravizadas, "Ansiosos, submissos e desprovidos de livre-iniciativa", então como é que há uma constante força arquetípica no pensamento de um modo geral contra isso? Lembro da última pergunta que foi feita a Jung na entrevista do “Face to Face”, que inclusive traduzi e postei noutro forum:

Entrevistador: “Na medida em que o mundo se torna mais eficiente tecnicamente, parece cada vez mais necessário que as pessoas se comportem de maneira comum, coletiva. Você acredita que no maior grau de evolução humana, acabemos submersos em algum tipo de consciência coletiva?
.
Jung: “Isso é muito improvável. Penso que haverá uma reação. Uma reação contra essa dissociação comunal. Sabe, o homem não suporta sua nulificação para sempre. Em algum momento haverá uma reação, e eu a vejo chegando. Quando penso nos meus pacientes... Todos eles estão buscando sua própria existência e. Buscam assegurar sua existência contra essa completa atomização que leva ao nada, à ausência de sentido. O homem não pode suportar uma vida sem um propósito, um sentido(meaning).

Eu vejo reações em toda a parte: Neo-pentencostais pregam libertação contra vícios e criminalidade; conspiracionistas pregam a libertação contra o sistema dos maçons, illuminati, sionistas, etc.; os mais místicos pregam a libertação contra os "reptilianos" ou "dragões", os ativistas "verdes" buscam libertar o homem da destruição do meio ambiente, os Junguianos(e não só eles) buscam propiciar a individuação, que liberta o homem de ser algo que ele não é; os Socialista buscam libertar o homem da opressão da burguesia, que supostamente mantém a escassez para perpetuar o sistema.

Inclusive seu primeiro parágrafo me lembrou um livro meu, que ainda está em fase de construção (50 páginas, mais ou menos 20% do total). Esse livro possui temática de extra-terrestres(Mito moderno?) e há muitas espécies no universo. Agindo no nosso planeta há basicamente duas. Uma delas, uma civilização de "escravos-soldados", buscam dominar nosso planeta e transformá-lo numa "usina". Só que a energia que eles absorvem é mental (Orgone, Libido, Energia psíquica?). A energia criativa do ser humano. Na medida em que eles sugam a nossa energia criativa, não percebemos nada além do banal e a vida se torna uma escravidão mental. Assim, eles mantém nossa sociedade estagnada em diversos aspectos e ainda usam essa energia em guerras fora daqui. Nossa espécie progride(no sentido de individuação dos indivíduos) num ritmo muito mais lento do que deveria por conta disso.
Além de sugarem nossa energia mental, eles se infiltram em todos os ramos de ação local e assumem cargos altos, para manter a ordem social mais ou menos estável.

No entanto, não para por aí. Há uma civilização "salvadora". Chegou apenas recentemente que também é uma cilização de soldados, mas é livre. O objetivo dessa civilização é permitir que a energia dos habitantes locais possa fluir na direção deles próprios, e a partir do momento em que isso acontecer, os problemas sociais serão eliminados. Porque, como Jung diz, o homem é a maior fonte de problemas do mundo, e também a maior fonte de solução. Enquanto o homem não tomar consciência de si mesmo e continuar projetando sua sombra no próximo, os conflitos continuarão. Inclusive, nesse contexto, a civilização chegou nesse momento por conta de uma espécie de "período de transição", sobre o qual Jung fala em O mito moderno e nessa entrevista(face to face).

Independente da "realidade" de tais pontos, pra mim parecem de natureza arquetípica. Inclusive foi com muita surpresa que li seu primeiro parágrafo, porque o que eu falo no meu livro é muito parecido com o que os gnósticos diziam:

"No início da era cristã, os gnósticos identificaram e descreveram um complexo sistema que operava simultaneamente nos planos físico, psíquico e social, e cuja finalidade era dupla: de um lado, manter o ser humano em uma condição de dependência dos poderes externos (sejam eles outros seres humanos, as forças determinísticas da natureza ou divindades tirânicas); do outro, drenar a energia excedente da psique, para impedir que a consciência do ser humano se elevasse a um nível incompatível com essa dominação."

É exatamente isso que essa civilização faz! E eu nunca tinha lido sobre os gnósticos! Mesmo assim, minha mente parece ter captado isso da mesma forma que eles. A diferença é que eu representei nesses termos, e eles noutros. Aliás, eu soube que os espíritas acreditam em algo análogo, a respeito dos Dragões que vivem no Umbral. Cada um representa a questão segundo os próprios termos, mas questão está sempre aí.

Mas essas representações sempre mostram um salvador. E a nós é dada relativa liberdade entre escolher a liberdade ou a prisão. Entre abrir a mente o ficarmos acorrentados à paradigmas insípidos. Acha que deveríamos baixar a cabeça e lamentar diante da estupidificação? Que é o destino da nossa espécie que todos se tornem zumbis, autômatos?

Não... Eu concordo com a Juçana. Ainda tenho esperança...

Carta de Amor


Talvez não se faça necessário te escrever, talvez essa carta não te vás sequer roçar aos dedos, mas enfim, te escrevo. Um dia cri ser impossível até dizer que te amo, mas já não mais faz qualquer diferença a mim. Não me traz contento saber que estás insatisfeito por nossas próprias condições, e mesmo assim insisto nessa loucura de negar nossos bloqueios, meu sangue e tua origem, porque somos mais que isso.

A tua face me traz a calma necessária para não impedir que minhas lágrimas borrem a pena. Teu sorriso, meu amor, teu sorriso me dá o mundo que espero ver por teus olhos quando as grades se esfarelarem. É por ti que hoje alimento este corpo que tanto odeio, por ser de quem é, e por ser a causa de todo nosso sofrimento, mas que sem ele não posso viver e te amar. Quisera eu cerrar meus cabelos, e cegar-me, tornar-me inútil àquilo que deveria servir, para ter o poder de abandonar meus grilhões para amar-te, meu amor.

Não hei de lhe tomar o escasso tempo da juventude, cerrar-me-ei por ti; mas não serão minhas tranças as vítimas de tamanha transgressão, mas meus olhos. Hoje morro por ti, deixe que me chorem, e depois resgate meu corpo da tumba da qual não pertenço.

Da sua Julieta. 

Fonte: http://pesares-literarius.blogspot.com/2010/05/carta-de-amor.html

The Car



O tempo parou
Mas estava voando
Tudo silencioso
Mas com ruído insuportável

Porque assim?
Porque não lá?
Porque... ?
Destino, talvez?

Ainda sinto a marca
Os olhinhos fechados
Boca latejando
Transe, êxtase, paz

Estávamos num carro
Calor da pele, do coração
Diante do inimigo
O Frio, o gelo, A estrada

O carro veio atrás de mim
Mas eu estava na janela errada
Será que eu teria chorado vendo cena?
Mataria a saudade?

Quero passear lá novamente
Nos dias de sol frios
Noites de lugares estranhos
Estacionamentos calorosos...

Quero passear no carro...