Of mice and men


Eu fui jogado no esgoto
Cheiro forte, luz fraca
Minha cabeça girando
Meus olhos queimando

O meu corpo falhava
Meu sangue fervia
Uma fumaça negra me rodeava
Fecharam o bueiro

Dentro da escuridão
Meus olhos se acostumaram
Vi luz onde não esperava
Vi muitos ratos

Pensei que iriam me devorar
Não imaginava o que eles comem
Eles me rodearam
Cheios de interesse

Fechei os olhos
Os senti tocando me tocando
Em volta de mim
Nenhum subiu em cima

Ouvi o som de uma queda d’água
Se tornava mais intenso
Até que caí, abri os olhos
Água salgada, ardeu...

Dois ratos caíram comigo
Os levei até a areia, e sumiram
Nem me dei conta do horário
Era manhã, e o sol nunca esteve tão lindo...

Recebi amor de ratos
E não de homens
Os pequenos e indefesos
Salvaram meu espírito...

Porque vivo em esgotos
Sou chamado de louco
Mas os grandes homens
Têm cheiro pior...

A fome


Eu abri a dispensa de casa. Cheia de coisas que me dão asco. Eu não queria comer nada daquilo, embora estivesse cheia. Um biscoito lacrado estava atraindo formigas. Mas aquilo não tinha como me tirar minha fome. Saí de casa andando sem rumo. Eu tinha rumo definido, mas não na mente. Em outro lugar. No inferno, talvez.
Fui selecionando esquinas aparentemente de maneira aleatória. Eu só olhava pro chão, com minha respiração acelerada e minhas mandíbulas rígidas. Minha boca cheia de água: eu estava com fome.
Quando dei conta de mim, estava na frente daquele santuário da perdição. B&K empreendimentos. Uma empresa de contabilidade sem nem uma máquina de vender refrigerante. Entrei assim mesmo.
Nove e meia da noite, o guarda veio me avisar que eu não poderia entrar, ao que tirei uma faca de algum lugar e cortei sua garganta. Continuei andando meio inconsciente, cheguei a pensar de onde tirei a faca. Devo ter pegado em casa e nem vi. O sangue do guarda escorria pelo chão. Eu assisti enquanto esperava o elevador. Bati o pé no chão num ritmo meio acelerado, quase compulsivo.
Subi até o nono andar, eu sabia exatamente onde estava indo. Não havia como esquecer. Foi ali que ele despertou, ou que eu despertei. Não sei, mas ali que tudo despertou. Eu lambi a faca. Detesto gosto de sangue. Tem vida demais...
Aquele lugar era cheio de divisões falsas. Originalmente era um grande salão, mas depois foi dividido e a maioria ficou comprimida num canto pro chefe pode jogar golfe. Só pra ele jogar golfe! Isso enquanto eu desfazia as merdas que ele faz.
Mas não estou enganando você e nem a mim mesmo. Não é porque ele me difamou que estou aqui. Não é porque perdi meu cargo por ele. Eu não ganhava nada por isso, só a empresa. A razão de eu estar aqui é por causa da minha fome que nunca está saciada. Uma fome que me trás sofrimento, desgosto, delírio, agitação, morte. As portas do porão da minha alma foram abertas.
Passei a faca no rosto. O outro lado ainda tinha sangue. Lá estava ele. Tinha uma mulher de lingerie. Gostosa, ela. A secretária dele. Estava chupando o pau dele, enquanto ele segurava um bolo de dinheiro olhando pra cima. Eu sempre fui sorrateiro, nem me viram chegando.
Meu corpo começou a se agitar. Se preparando pro combate, como um primitivo pedindo o auxílio dos deuses. Minha cabeça se contorcendo, tudo girou por uns instantes. Fiquei nervoso, calmo, ansioso, receoso.
Na hora nem vi nada. Quando me dei conta a mulher já estava com a faca atravessada na garganda se debatendo no chão e eu estava derrubando o maldito na mesa de vidro. O som foi delicioso. Quebrou com a cabeça careca do filho da puta. Ele segurou no meu terno com os olhos fechado e eu mordi o pulso dele com toda a força. Ele gritou e me soltou.
Pegou um pedaço pontudo de vidro e apontou pra mim, com um olhar de desespero. Covarde.
Peguei a faca do pescoço da mulher e enfiei o dedo na boca dela. Achei que isso iria perturbar o sujeito, mas ele não mudou a expressão. Ele não dava a mínima pra vadia.
Levantei com a faca, meus joelhos meio dobrados. Percebi que estava com uma bota grossa, como coturno ou algo assim. Ele, por outro lado, estava descalço, pisando no vidro com dificuldade.

- Quem é você? Olha, seja quem for que te mandou, eu pago mais. – gritou ele

Nesse momento eu percebi que uma toca cobria meu rosto e só o olho ficava amostra. Quando foi que coloquei isso na cabeça eu não sei.
Lembrei de alterar minha voz, que, por algum motivo, já estava naturalmente mais grave do que o normal.

- Você vai pagar com sangue.
- Caralho, te dou um milhão de reais!

Eu girei e dei um chute no ombro dele, ao que ele caiu no chão e derrubou seu caco de vidro. Se arrastou até a janela e eu subi em cima  dele. Deixei a faca na garganta dele e fiquei olhando a cidade. Carros andando, algumas janelas acesas noutros prédios. Ninguém se importava com aquilo.

- Porque você está fazendo isso? – perguntou ele
- Não sei e não me importo em descobrir.
- Quem te mandou
- O diabo.

Saí de cima dele e ele se levantou. Andei calmamente pelo lugar e ele ficou parado no mesmo lugar. Olhava pro telefone, então corri e enfiei uma faca na barriga dele. A janela estava aberta e o sangue escorria pra fora. Empurrei-o pra fora e ele se segurou na minha mão. Um desespero naqueles olhos negros, naquela cara de idiota. Mergulhei pela janela com ele e chutei a cara dele antes de me segurar numa corda. Não senti minha mão doer enquanto escorregava devido à velocidade em que já estava, e foi aí que vi que usava uma luva legra de couro. Eu nem lembro de ter essa luva. Meu corpo estava todo numa roupa preta de couro que eu não reconheço. Aquela corda eu me lembro de tê-la visto de manhã. O sujeito estava limpando o vidro e ela ficou pendurada. Não sei se ele esqueceu ali ou se era pra ficar mesmo, mas estava bem na janela dele. Lembro de ter feito essa estimativa quando saí à tarde...
Desci até o segundo andar, onde a corda acabou e eu soltei. Caí em cima dele e isso espirrou sangue da boca dele. Sexta feita à noite, o lugar deserto. Ninguém viu o cadáver.
Sentei ali e acendi um cigarro. Eu não sabia que tinha, tampouco que eu fumava. Detestei, tossi, mas fumei tudo. Não sei porque.
Ele ficava tremendo, então fiquei, de alguma maneira, irado e comecei a esfaquear a barriga gorda dele. Nem sei quantas vezes enfiei a faca nele. Só parei quando perdi o fôlego. Depois eu só fiquei arrastando a faca, cortando sem furar. Quando me senti satisfeito, vomitei num bueiro. Nem meu vômito eu deixei no chão. Tirei um saco preto de lixo do meu bolso e comecei a tirar minha roupa. Havia outra por baixo, como se tudo tivesse sido meticulosamente planejado. Nenhuma gota de sangue na parte de baixo.
Coloquei a faca dentro do casaco. Tinha uma caveira na parte de trás dele. Que pena que tive que destruir. Fui até aquela baia podre, cheia de lixo boiando. Não vão acreditar se eu disse, mas tinha uma garrafa de álcool intacta escondida lá. Acho que fui eu quem a deixou ali.
Queimei tudo, mas ainda sobrou algo. Isso eu coloquei dentro de outra sacola, com várias pedras. Daí joguei na água e afundou.
Não sei o que estão pensando, nem o que estão sentindo. Mas eu não pensava nada e me sentia tranqüilo. Não vou mentir não. Foi bom, libertador. Sentei na beira daquela água com cheiro de merda, depois dentei perto daquela pilastra com cheiro de mijo. Foi o momento mais tranqüilo que tive em meses...
Matei minha fome...

Força de vontade



É a máxima desse mundo
Força de vontade, força de vida
Vá, adiante, cabeça erguida
Mas eu nem sou desse mundo...

Aqui tem coisas simples
Que desaprendi a apreciar
Aqui os detalhes são mais interessantes
O principal não tem graça

As pessoas andam pra lá e pra cá
Elas querem, elas perseguem
Nem sabem quem são
Mas isso nem importa

Eu sei quem sou, de onde vim
Já cheguei a uma conclusão satisfatória
Não sei meu destino, mas sei quem sabe
Só não consigo andar

Eu sei o caminho do paraíso
Mas não tenho força pra saltar
Não consigo chegar lá
Porque não tenho nenhuma

Força de vontade

O herói precisa de uma musa
O algoz de uma vítima
O salvador de inocentes
O sábio de loucos

Todos possuem uma fonte
Um por amor, outro por ódio
Um por piedade, outro por indignação
Mas eu não

Não tenho musa, nem vítima
Não tenho a quem salvar
Tampouco alguém a ensinar
Onde tudo foi parar?

Às vezes esqueço que sou louco
Penso que não inventei meu mentor
E me pergunto num tom pesaroso
“Porque você me escolheu?”

“Porque os miseráveis precisam de mais.”
“São desajustados por fora,”
“Vazios por dentro”
“Precisam de grandes espíritos”

Acerca do Multiverso Social e sua implicações práticas (pessoais e coletivas)

Introdução

A natureza dessa idéia é adaptativa. Não se trata bem de uma concepção explicativa, pois as explicações em si, imagino, parecerão óbvias. O que concebi não passa de uma racionalização acerca da organização social, o que me permitiu uma maior capacidade de interagir com outras pessoas. Não só esse pensamento é uma muleta de auxílio ao relacionamento com o próximo, mas também apresenta o que chamo de espectro da personalidade individual: não chego nem perto de dizer o que uma pessoa é em si, mas falo sobre as manifestações e isso possui implicações práticas muito maiores do que definições abstratas.
Como eu asseverei antes e volto a deixar claro, esse texto não é pra ser levado a sério, a não ser que o leitor realmente ache algo de útil nele: na verdade, imagino que a grande maioria dos textos dessa natureza devam ser tratados assim, sejam do autor que for, e é lamentável que isso não aconteça.
Falarei a seguir de duas faces do que chamo de multiverso social, definindo o efeito da globalização sobre ambas, além de me usar como exemplo pessoal. Se o leitor quiser saber algo sobre mim, provavelmente encontrará a informação que busca nesse texto (embora, com minha visão narcisista projetada no outro, eu não seja capaz de imaginar um motivo plausível para alguém querer uma coisa dessas) tanto no seu conteúdo como na forma como lido com os dados e construo o pensamento.
Que não se assustem com o fato de que citarei alguns dos meus autores preferidos: estou exercitando minhas faculdades não-narcisistas.

Sobre o multiverso espacial

Em suma, para dar uma definição teórica, um multiverso espacial é um senso comum de algum lugar. Sociedades do passado possuíam um multiverso espacial muito mais forte e determinante do que as contemporâneas, embora alguns lugares (especialmente os pequenos) tenham esse multiverso intacto até o presente momento.
Pra colocar de maneira clara, o multiverso espacial é a tendência de certos pensamentos e hábitos se repetirem em qualquer parte do mundo. Em cada parte do mundo (ou mesmo de uma cidade) se forma um universo isolado, e quando dois universos espaciais diferentes se encontram, há estranhamento. Isso aconteceu, mais radicalmente, quando os indígenas entraram em contato com os invasores europeus, ou quando um jogador de futebol pobre brasileiro se viu na Europa. Os lugares, bem como as classes sociais, criam diferentes universos que dificilmente se misturam: antes, é mais fácil um sobrepor o outro.
Quando me refiro à classes sociais como parte do multiverso social, quero falar abstrata e praticamente: não só cada classe ocupa um “lugar” na sociedade, como também, de um modo geral, vivem em regiões diferentes e não se misturam com freqüência.
É uma tendência de pessoas que não possuem a própria personalidade individual definida se guiarem por universos espaciais. Numa linguagem simples, o indivíduo se identifica com o senso comum de seu bairro, de sua classe social, de sua turma na faculdade. Ele não faz mais do que se identificar com a forma rudimentar de pensamento que parece surgir em meio a grupos, como uma mentalidade grupal.
Tal capacidade já foi crucial, como uma questão de sobrevivência, especialmente em tempos remotos em que o indivíduo precisava estar ligado ao grupo para sobreviver. Para os primitivos, é completamente natural que todo o seu universo seja sua tribo, que sua visão religiosa e praticamente tudo o que ele é seja determinado pelo grupo. Jung relatou, por exemplo, o tratamento que certas tribos davam ao sol era tão comum para os nativos que eles riam dele por não entender o óbvio (que você tem que cuspir na mão quando o sol nasce, por exemplo). Os primitivos viviam num universo, e Jung noutro. Provavelmente eles não entenderiam, por exemplo, qual era o motivo de termos tantos edifícios com tanto espaço e ainda assim deixarmos nossos companheiros dormirem nas ruas.
Em termos capitalistas, podemos ver americanos intrigados com o fato de que, ao menos aqui no rio de janeiro, lanchonetes tenham frutas amostra e façam sucos naturais na hora, pois isso não é comum por lá, ou talvez um brasileiro ache estranho que não sirvam guaraná por lá. No entanto, tanto o americano acha normal nunca beber guaraná quanto o carioca acha comum que sucos naturais sejam preparados diretamente da fruta.
Claro que, como sou do tipo intuitivo, não poderei de colocar influências desses universos no nosso pensamento.
Temos, por exemplo, o pensamento americano com uma forte tendência ao pragmatismo, com quantificações e medidas exatas, enquanto que o pensamento alemão se comporta de maneira diversa: Freud baniu Reich do meio psicanalítico pelo fato de que ele quis quantificar a Libido, tranformando-a no que chamou mais tarde de “Orgone energy”.
Não tenho a intenção, aqui, de me aprofundar nessa questão. Não só por não dispor de dados para tal, mas também porque isso foge do escopo desse texto. Provavelmente ainda se passarão uns cinco anos antes que eu volte a me aprofundar nessa questão.
Os universos espaciais não se limitam a determinar juízos racionais. Na verdade, observei que geralmente são juízos de valor que mais são influenciados por esses universos: existem mais coisas que um grupo gosta ou despreza do que coisas que o grupo considera sensatas e racionais. Isso precisamente porque os grupos não formam um pensamento muito profundo, devido à necessidade de aceitação dos indivíduos, que bloqueia a criatividade individual.
Na organização de universos espaciais, o indivíduo que quiser realmente se integrar só terá três alternativas: ele pode efetivamente suprimir a individualidade, se tornando parte do grupo, fingir que suprimiu a própria individualidade e lidar com o desconforto e o risco da desonestidade ou assumir quem realmente é e ser excluído.
Os indivíduos que não possuem qualquer consciência de sua própria identidade não precisam se preocupar, pois o grupo tratará de mantê-los assim. Os que têm uma vaga idéia podem se apegar a convicções e esquecer da individualidade (que simplesmente não se desenvolve em pessoas demasiadamente convictas, pois a personalidade total sempre terá algo que contradiz alguma convicção). Aqueles que percebem quem são e não podem se esquecer, no entanto, permanecerão desajustados e excluídos. Perceber quem somos não é um ontológico, mas apenas as manifestações claras. Como demonstrarei mais a frente, há formas de falarmos de nós mesmos sem dar uma definição final (conservando, assim, nossa ignorância sobre o que somos em essência [se é que isso existe]) e de esse discursos ter implicações práticas sobre como podemos lidar com o mundo e sobre como os outros nos entenderão. Para isso, preciso ir adiante na questão do multiverso psicológico.

O multiverso psicológico em implicações pessoais

Como o introvertido que sou, naturalmente falarei de como essa forma de pensamento pode, de maneira rápida e prática, nos dizer algo sobre quem somos e nos trazer material para reflexão posterior, bem como pode nos ajudar a criar uma imagem que corresponda mais completamente ao que sentimos ser (sentir não equivale a saber).
Para isso, me usarei como exemplo, definindo meu próprio multiverso psicológico e seus universos.
Faço parte de universos que englobam música, literatura, pensamento, jogos eletrônicos e religião. Alguns possuem menor relevância do que outros, e vou tentar deixar claro nos exemplos abaixo ao definir cada uma dessas e suas ramificações.

Em música, tenho a tendência de gostar de heavy metal e seus variantes mais pesados, grunge, e diversos formas de rock agressivo. Também me agradam músicas mais brandas, como Norah Jones ou BB King. Em termos pessoais, isso parece pra mim como um sinal de dicotomia simples: há um lado selvagem e agressivo, enquanto que outro é mais calmo, até mesmo passivo. Nesse caso, são sentimentos que se refletem na sensação que a música me passa: Obvio que a mesma música que percebo pode passar outra sensação a outra pessoa que gosta delas, e ter outros sentimentos associados às sensações. Por isso que isso só serve pro indivíduo, de si pra si: porque uma pessoa pode gostar da mesma música que eu por razões diferentes e associar sentimentos bem diferentes á música. Embora eu coloque tanto relativismo, parece que todos percebem que uma música é agressiva ou outra é triste. Isso é fácil de perceber, mas é reducionismo dizer que uma pessoa ouve uma música agressiva por ser agressiva, ou uma triste porque é triste. De um modo geral, o gosto musical pode servir como ponte na formação de grupos, mas não são, de um modo geral, duradouros senão entre músicos profissionais.

Em literatura, me agradam poesias, contos e romances. No entanto, há uma relação direta entre o gosto literário e o músico: há uma dimensão sombria, agressiva, e outra “cor de rosa” (como diz um amigo meu). No entanto, como sou escritor, há uma mistura efetiva de tudo o que sou dentro da criação artística: isso não acontece na música porque eu não crio, apena ouço. Poderia acontecer se eu fosse músico. Muito do que eu disse na parte da definição de música também se aplica à literatura, embora sejam expressões diferentes. Naturalmente ambas lidam com sentimentos e sensações, embora a literatura possa ter mais implicações intelectuais do que a música (a não ser em poesias).
A maior diferença, no entanto, é que a literatura possui maior relevância pra mim, já que tenho o hábito de escrever e sentir as minhas próprias criações. Através da criação artística, aliás, é como se o que eu sou fosse sendo revelado por uma via que não a racional, e a criação vai, junto com outras forças, revelando a mim mesmo que eu sou, embora muitas coisas sejam impossíveis de se exprimir em meios racionais.

Em pensamento, tenho interesse por Psicologia, Filosofia (especialmente filosofia da ciência), Sociologia, e pensamento “esotérico”. Seria muita ingenuidade pensar que, num texto que não trata desse assunto especificamente, eu poderia explicar satisfatoriamente a razão dessas preferências (e nem possuo uma explicação terminada). Deixo, no entanto, nomes que me agradam: Jung, Fromm, Schopenhauer, Feyerabend, Marx, Proudhon, Kardec, Goswami, Lao Tse, etc.
Meu pensamento parece se direcionar à duas direções, e esse texto mesmo é um reflexo de ambas: Uma à compreensão do indivíduo, recorrendo a conceitos psicológicos e místicos,e outro à compreensão da sociedade em si. A primeira pra descobrir quem sou, e a segunda pra me relacionar melhor com o próximo. A despeito do meu esforço, a primeira sempre acaba sendo prioridade.
O pensamento filosófico é, por um lado, uma forma de libertar o intelecto das amarras e esquecer de regras e limites na imaginação, e por outro pra pensar o pensar: Pra expandir o conceito de realidade na medida do psicologicamente possível (porque desejos e tendências influenciam o pensamento) e tentar entender como se processou esse pensamento (porque [por algum motivo] esse é o meu maior objeto de estudo no momento).
Minha criatividade literária e intelectual se misturam em prioridade, mas a tendência é a intelectual sobrepor a sentimental: me considero melhor como filósofo do que como poeta, embora aprecie a poesia tanto quanto a filosofia¹.

Os jogos eletrônicos me atraem desde a infância. Depois que ganhei um Master System 3 com Sonic percebi que bonecos e carrinhos não eram divertidos de verdade. O vídeo game não era tão inanimado: possuía interatividade e um universo a ser descoberto. Qual não foi minha satisfação quando reuni todas as esmeraldas e percebi que aquilo limpava a terra.
Pensando sobre essa questão, as vezes vejo essa tendência como uma fraqueza ou um vício, mas nem sempre. Na verdade, percebi que meu segundo livro e sua futura continuação ficariam perfeitos se expressos em forma de jogo. Criando um jogo, eu usaria a criatividade intelectual pare conceber mecanismo a serem programados e a sentimental para dar vida literária ao roteiro (porque me aborrecem os jogos sem roteiro, sem personagens dignos de menção ou estória decente). Obvio que a criatividade intelectual seria um tanto matemática, talvez até mesmo física, e minhas aspirações psicológica e filosoficas teriam poucas utilidade nesse meio. Sendo essas aspirações as minhas preferidas, e sendo o meio intelectual o mais atraente, provavelmente a vontade de criar um jogo, mesmo unida às aspirações literárias, não terá força para se tornar prioridade, embora não precise ser prioridade pra ser executada.

Como um intuitivo, jamais poderei escapar das questões religiosas. Na verdade, me chamem de esquizofrênico, tenho o hábito de conversar com o Daimon. Pode ser um espírito, uma personalidade número 2 (Jung), um anjo da guarda ou o nome que quiserem dar. O que sei é que nos momentos de mudança, aqueles em que fico desorientado, Daimon intervém e me traz certas epifanias que basicamente definem todo o curso da minha vida. Eu ousaria dizer, aliás, que eu (enquanto Ego) executo ao invés de planejar: Não sou, de maneira alguma, o senhor do meu próprio destino. Poderia ser, mas há algo como uma potencialidade uma Semente de Carvalho(Hillman) que pede tão insistentemente para ser seguida que eu não consigo ver nada tão sedutor, tão atraente, como ouvir e seguir essa voz interna: não, não aceito argumentos de que isso é um condicionamento externo proveniente de educação religiosa ou que seja simplesmente loucura.
Tenho tendências espíritas, taoistas, Budistas e até mesmo Cristãs², mas, no final das contas, eu tenho uma visão religiosa própria, que, por ser todas essas juntas com detalhes de outras filosofias, não é nenhuma delas especificamente.
Este é, de longe, o aspecto mais relevante da minha vida, embora minhas atitudes demonstrem maior tendência para o intelectualismo: até mesmo o intelectualismo foi determinado por essa “força oculta”. Por isso que se me pedirem pra usar apenas uma palavra pra me definir de maneira inteligível, direi que sou um místico.

Depois de toda a sessão de confissão, cabe chegar ao ponto de adaptação social, tendo por base essa informação e outras relevantes que serão apresentadas a seguir.

O multiverso psicológico em implicações sociais

O multiverso psicológico, mais intensamente com a expansão dos meios de comunicação e com a globalização, está se tornando mais influente do que o espacial. Trata-se da formação de grupos baseada em preferências ao invés de localidade. Em grande metrópoles isso aparece de maneira mais clara.
Há dois documentários interessantes sobre o universo psicológico do Heavy metal³ que demonstram, de maneira interessante, a maneira como isso acontece.
A um músico experiente, numa entrevista, foi perguntado se ele percebia diferenças nos públicos de diferentes países.
Ele relatou que, no Japão, tocou num show em que os expectadores tiveram que ficar sentados por conta de regras rígidas típicas da cultura japonesa, o que demonstra o efeito do multiverso espacial, mas também asseverou: “Kids are Just kids. No matter where they come from” ( Jovens são só jovens. Não importa de onde vêm). Em todos os cantos, os shows de heavy metal parecem repetir certos padrões: Gente pulando e gritando, roda punk no meio da platéia... E não é só o show, mas também hábitos diários, tipo de roupa, cortes de cabelo. Na verdade, é freqüente que em diversos lugares se formem grupos de “metaleiros”, que não se organizaram por pressão da sociedade local, mas, ao contrário, à despeito da pressão contrária.
Percebi isso claramente quando ia ao Show do Matanza com colegas, todos vestidos de preto alguns com correntes e garrafas de cachaça nas mãos. Um grupo de moleques desafiando a cultura local em detrimento de outra global na qual podiam manifestar mais efetivamente a própria individualidade: porque pra ir nesse show, você tem que ser desse universo.
Esses grupos se formam, tanto física quanto virtualmente (internet) de maneira espontânea em relação a todo o tipo de universo que posso imaginar.
Há grupos de literatura, debate e pesquisa intelectual, religião (ou, no meu caso, especulação mística), música e até mesmo grupos que se reúnem pelo gosto comum por certos tipos de jogo(como o RPG). Na verdade a quantidade de universos psicológicos é tão grande que eu nem ousaria falar sobre todas elas, mas o ponto é que dificilmente encontraremos alguém que realmente vive nos mesmos universos, mas certamente encontraremos quem faça parte de algum dos nossos universos.
Em suma, para uma vivência coletiva saudável, eu me envolvo num grupo de escritores (Bar do escritor), embora não tão assiduamente, em grupos de discussão racional, de especulação mística, e até de grupos em shows de heavy metal ou de amigos de infância com os quais jogo (Worlf of Warcraft, atualmente).
Assim, mesmo sendo desajustado no conceito de grupo tradicional (o especial), ainda assim consigo me encaixar em subgrupos, que fogem completamente á compreensão tradicional e só se estabeleceram por causa dos novos meios de comunicação. Na verdade, creio que tudo isso, nesse século, possibilitará um maior desenvolvimento da individualidade humana, sendo um passo histórico nunca dado devido ás pressões locais que não tinham nada para contrapor sua força tirânica. Muito prazer, esse sou eu e é assim que me adaptei ao mundo. Espero que isso possa ser útil para alguém...
________________X_________________X________________X_____________
1)    Explico o fenômeno segundo os tipos psicológicos de Jung, já que sou intuitivo com função auxiliar pensamento: o sentimento vem logo depois do pensamento, tanto em prioridade quanto em desenvolvimento.
2)    A despeito do fato de que eu passei anos odiando essa religião, partes dela foram integradas profundamente na minha cosmologia e me agradam profundamente.
3)    Metal: a headbanger’s journey e Global Metal. Ambos podem ser encontrados na interner, tanto em blogs quanto em servidores P2P (pirate bay, mininova, etc.).

Sobre o Zeitgeist como um fenômeno


Porque eu vou postar esse texto em dois lugares, deixo logo claro que me refiro ao documentário Zeitgeist: The Movie e ao Addendum, publicados respectivamente em 2007 e 2008.
Já não é a primeira vez que escrevo sobre esse documentário. Quem não lê as coisas que escrevo talvez não conheça o nível de narcisismo que o que eu escrevo tem. Comentar as idéias de outras pessoas é uma coisa que raramente eu faço, muitas vezes porque isso exigiria investigação meticulosa, marcar meus livros (não gosto muito disso) e também uma boa carga de esforço para a qual geralmente não tenho motivação.
Assim, se eu chego a escrever sobre as idéias de alguém, isso quer dizer que o autor é muito admirado. Tenho, no meu blog, um marcador para Jung, por exemplo.
No entanto, cá estou aqui começando a escrever novamente sobre o Zeitgeist. Na verdade, encontrei inconsistências nesse documentário, especialmente sobre a forma como torna mágico o poder do método científico e também sobre o tratamento irresponsável que dá as religiões. Em meu narcisismo, não há motivos plausíveis para eu estar escrevendo isso.
O curioso aqui é que vou escrever precisamente sobre o motivo de eu estar escrevendo, que saltou à minha mente enquanto eu lia uma citação de Stuart Mill:

“Mas esse Estado de coisas é necessariamente transitório: algum corpo particular de doutrina finalmente arregimenta a maioria em torno de si; organiza instituições sociais e modos de ação em conformidade consigo mesmo; a educação incute esse novo credo à nova geração sem os processos mentais que conduziram a ele; e ele, gradualmente, adquire exatamente o mesmo poder de opressão por longo tempo exercido pelos credos cujo lugar tomou.”

Não estou certo, porque a citação de Mill foi encontrada num livro de outro autor (Contra o método – Feyerabend), se ele criticava essa prática com um ideal a ser contraposto, acusando esse fenômeno de ser um erro que “não deveria acontecer”.
Mas o que me deixou abismado é que isso me fez voltar à minha crítica feita ao Zeitgeist, e me lembrou de um tópico que encontrei ao acaso.
Se você não está lendo isso na comunidade do próprio Zeitgeist, então pode não saber que sou moderador por lá. Há algumas horas atrás eu entrei na pasta lixeira como que ao acaso, e fui para a última página. Posts de janeiro de 2008 estavam lá, e um me chamou a atenção por ser o Zeitgeist sendo anunciado numa revista.
Lembro de ter pensado algo como: realmente, o Zeitgeist é o símbolo do novo Zeitgeist.
Eu estava conversando naquele momento, então não levei essa construção adiante, mas agora isso veio me perseguir, então vou expor a concepção. Bem simples, por sinal.
É comum que se atribua a um vilão antigo o surgimento de uma ideologia. Por exemplo, dizem que foi por culpa de Constantino que o “terrível” Cristianismo “assolou” nossa sociedade. Que se ele não tivesse distorcido o cristianismo ou mesmo se não o tivesse alimentado, nosso mundo estaria “melhor”. Isso eu já li dezenas de vezes na internet, especialmente no Yahoo! Respostas: parece que é uma opinião normal.
No entanto, o que eu percebi nas minhas pesquisas, e nem foram tão rigorosas, foi que o cristianismo funcionou como um fenômeno. Ele simplesmente chegou e se multiplicou, fora do controle daqueles que estavam no poder, e se tornou tão grande que dobrou os homens mais poderosos da época.
Da mesma forma o iluminismo, com o novo e(para a época) empolgante materialismo, trouxe novas possibilidades e levou o pensamento coletivo. A igreja, o Zeitgeist anterior, lutou contra até com propriedade, mas acabou sendo dobrada, da mesma forma que o império romano também foi.
E não foram vilões que fizeram isso acontecer. Simplesmente aconteceu, foi uma transição de mentalidade. Talvez o leitor não esteja familiarizado com meu misticismo, mas eu não posso deixar de ver algo de teleológico nessas transições, principalmente por causa da visão Junguiana sobre o assunto. No entanto, isso fica para outra ocasião.
O caso aqui é que não foi um banco mundial, e nem Harvard que começou o Zeitgeist. Foi Peter Joseph, um músico que trabalha com propagandas (até o que sei) e que nem mesmo se dedica à vida acadêmica.
Ele não disse novas teorias revolucionárias e nem recebeu apoio da mídia Mainstream, e ainda assim a comunidade brasileira sobre seu documentário no Orkut tem quase 9 mil membros!
Será o “Zeitgeist” um sinal, um símbolo para o próximo Zeitgeist?
Não sei dizer, mas idealistas jovens estão se multiplicando, assim como acontece com as novas idéias. Os velhos pensadores não aceitam a idéia, pois não é parte de seu Zeitgeist, mas os que ainda não transformaram seus cérebros em pedra começaram a abraçar esse “movimento” apaixonadamente. E, pasme, isso está acontecendo voluntariamente!
Parece que, da mesma forma que a igreja mantinha livros considerados anátema escondidos, tendo eles a chave para o paradigma iluminista (que endeusou os gregos), também o nosso sistema criou dentro de si a chave para a própria destruição. A comunicação em rede.
Se a internet se mantiver, e não houver monopólio, pessoas voluntariamente continuarão a agir por aí, espalhando informação sem limite metodológico, ideológico, econômico...
E os nossos idealistas, nossos jovens (estou entre eles) estão se apaixonando pelo novo Zeitgeist. É um conjunto de idéias novo, e como todos os novos possuem inconsistências. Precisa se expressar segundo métodos novos, porque não se pode usar os termos do pensamento a ser contestado para contestá-lo: não há como, por exemplo, falar sobre existência além da matéria em premissas materialistas, da mesma maneira que não se pode falar de um novo sistema econômico usando premissas capitalistas.
Assim, criou o termo economia baseada em recursos e um novo e hipotético sistema, que, apesar de possuir muitas falhas, ativou a imaginação da nossa época, tocou tão diretamente o nosso Zeitgeist que, mesmo sem a mídia, ganhou espaço: e não foi em cátedras escondidas, mas em pessoas comuns, não necessariamente envolvidas com debates intelectuais (não estou presumindo que essas pessoas são especiais). É uma ideologia viva!
Assim como qualquer idéia nova em qualquer campo, essa ideologia passará por muita teorização e, então, muitos dados, fatos, informações, serão reunidos e feitos relativamente coerentes. Noutras palavras, o que estou querendo dizer que a reação ao filme não se deve ao gênio de Peter Joseph, mas que ela não passa de um sinal.
Vivemos numa época em que a mídia massifica a população, e todos vivem num estado de excessiva atividade física (lógica vazia, esforço mental e físico) por conta do trabalho e paralisia mental por conta de estratégias sofisticadas de manipulação.
Obvio que o capitalismo é um sistema extremamente flexível em diversos aspectos, e que possui meios muito mais eficazes de coerção do que o império romano ou a Igreja. Enfrentar o controle da mídia é coisa difícil. Mas, à despeito da força da mídia mundial, Chávez tomou o poder, e quando fazem manifestações contra ele, outros se levantam e fazem manifestação à favor. Gostam de demonizar o indivíduo, como se ele fosse algo além de um símbolo. Como se a mobilização do povo fosse apenas fruto de maquinações ditatoriais de um megalomaníaco.
Mas não se trata de manipulação: até porque, a Fox News deveria ter mais conhecimento sobre manipulação de massas do que Chávez, não?
Na verdade ele também é um sinal desse Zeitgeist, pelo que percebi, e o mundo está se movendo enquanto eu escrevo.
Podem destruir a Venezuela, matar os novos vilões subversivos e manipular a mídia o quanto quiserem: não está no poder de alguns homens realmente decidirem a mentalidade geral.
O novo Zeitgeist, com conteúdos ainda não revelados claramente, se multiplicará feito uma praga na pele. Quanto mais obstinação nós temos em coçar, maior é a velocidade com que ela se espalha. Só que não há um remédio para essa “praga”.
Creio que não fui só eu que senti algo como uma sensação de despertar ao assistir ao documentário.
Essa mudança de Zeitgeist não começou na nossa geração e provavelmente não será efetivada nela, mas é inevitável. Segundo o que proponho, estamos efetivamente em uma fase de profunda transição: as práticas de hoje serão consideradas selvageria e, talvez, um século.
E não se trata de racionalidade, não serão os argumentos que moverão essa mudança. É uma força oculta, irracional, envolvida por diversas características consideradas alheias ao meio acadêmico, como postula Feyerabend:

“O ensino e a defesa de padrões jamais consistem meramente em colocá-los diante da mente do estudante e torná-los tão claros quanto possível. Supõe-se que os padrões tenham igualmente a máxima eficácia causal. Isso faz que seja realmente muito difícil distinguir entre força lógica e o efeito material de um argumento.
(...)
A criação de uma coisa e a criação mais a compreensão plena de uma idéia correta da coisa são com muita freqüência partes de um mesmo processo indivisível, e não podem ser separadas sem interromper esse processo. Tal processo não é guiado por um programa bem definido e não pode ser guiado por um programa dessa espécie, pois encerra as condições para a realização de todos os programas possíveis. É, antes, guiado por um vago anseio, por uma ‘Paixão’. Essa paixão dá origem a um comportamento específico que cria as circunstâncias e as idéias para analisar e explicar o processo, para torná-lo ‘racional’.”

Noutras palavras, a transição não se dá de acordo com moldes, mas antes representa a quebra de velhos moldes e a formação de novos. O que vejo é isso acontecendo diante dos nossos olhos, tendo o Zeitgeist como um sinal de um fenômeno.
É precisamente isso que me motivou a escrever novamente sobre esse assunto: porque eu estou vivendo em mim mesmo esse período de transição do Zeitgeist, e eu mesmo fui “despertado” por esse documentário, bem como por pesquisas posteriores, muitas delas motivadas por ele. Eu me sinto, como muitos outros, impelido a me aglomerar sobre esse novo molde e a dar a ele a substância, racionalizar o novo e irracional movimento. Esse novo passo da humanidade.