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An open wound


Tenho uma ferida aberta
Ela pulsa, emana perfume
Mas apesar da dor...
É ela que me faz respirar

A ferida separa um lado do outro
Nada poderia uni-los, sará-la
Mas é ela que me põe em movimento
A dor move a vida, parece

Eu passo pelos lugares
O sangue vai pingando
Parece até infinito
Ele se dilui no mar do cotidiano

Pragmatismos me distraem
Conhecimentos me arrebatam
Mas nada disso seria possível
Sem o perfume de saudade

Dessa ferida aberta que tenho no peito...

Foi de início como a lança do destino
Não poderia ser de outra maneira
Atravessou a minha alma
Pôs tudo em chamas

Depois a ferida secou
Já até ameaçava sarar
Quando foi reaberta brutalmente
Veio pra ficar...

Então eu aperto e deixo sangrar
Que é pra sentir o aroma
Há alguma força no universo
Que não me deixa esgotar...

Chamemos isso de amor...


Resposta à may

Este post contem comentário meus a um artigo. Se você leu, por algum motivo, a minha resposta e tem curiosidade sobre o texto comentado, entre no meu perfil do blogger e, lá, veja meu e-mail.

Hey...!
Em primeiro lugar, não espere uma super crítica, elaborada de maneira extremamente cuidadosa e seguindo à risca seja que método for. Minhas considerações são de um intuitivo, porque não gosto de me prestar ao serviço de robô intelectual. Vou ser humano, vou entrar em contradição e, em alguns aspectos, posso não fazer sentido algum. Apesar de que, até onde eu vejo, minhas idéias parecem ter uma relação de coerência interna (não se contradizem entre si), o mesmo pode não se aplicar á minha linguagem, porque aqui eu posso me dar ao luxo de não escrever submisso à regrinhas acadêmicas. Você verá que minha crítica parte de uma perspectiva bem diferente e que, portanto, corro o risco de interpretar de maneira dúbia a posição do texto. Espero que me perdoe nesse caso e que tenha a paciência de apontar meus equívocos. Então chega de blá blá blá.
Em várias partes do texto eu notei que se fazem críticas ao dogmatismo dos meios de conhecimento técnico, explicitando que há fragmentação e historicidade inclusas nesse conhecimento e que através destas é possível haver uma reflexão mais profunda. E através dessa, o indivíduo pode entender porque está onde está e, assim, construir uma vida crítica em relação a isso.
Para ser o mais claro possível, bem no começo, o texto possui como intenção demonstrar que seria vantajoso para a sociedade se todos os indivíduos tivessem esse tipo de atitude.
No texto, é dito:
“‘nas grades curriculares, são eliminadas quase todas as disciplinas que fazem “pensar”, pois o mercado quer “gente que faz”. As instituições literalmente disputam os “clientes” e estes vão escolher aquelas que são mais atraentes e que, geralmente, não exigem muito em termos de estudo.’”
No entanto, essa parece uma redução. Na verdade o mercado quer gente que saiba inovar para, assim, se manter na competição. Pessoa incapazes de inovar através da reflexão não suportam a competição e precisam abrir mão de suas ambições materialistas.
Na verdade uma coisa marcante nessa idéia de pensar é que ela é bem mais abstrata. O indivíduo refletir sobre sua condição histórica, aqui, é colocado como sendo mais relevante do que o indivíduo conseguir inovar numa oferta de produto ou serviço. Mas porque?
Ora, é aí que chega a minha pesquisa: porque o tipo psicológico dos autores (incluindo você e os citados) é intuitivo. Isso significa, a grosso modo, que é característico que se pressuponha que abstrações, reflexões sobre porque, para que, qual é o sentido são mais relevantes do que como, quando ou onde.
A reflexão filosófica, histórica e a percepção e representação artística, nesse sentido, são coisas valorizadas por esse tipo, para além das coisas práticas da vida. Até aí, está tudo bem. É uma perspectiva sendo apresentada, uma visão tão humana quanto qualquer outra e sem a pretensão de englobar outras em si mesma.
Só que existe outro tipo psicológico. Existe outra maneira de se ver o mundo e lidar com ele, e ela não pode (especialmente enquanto houver escassez) deixar de ser vital. Essa é a visão pragmática, tão criticada nesse texto.
Dentro dessas premissas o ser humano reflete criticamente sobre sua vida sob diferentes perspectivas? pouco provável.
Cria e/ou aprecia a arte (não o entretenimento)? também é pouco provável.
Possui, em si, ainda aquele rastro de humanidade intuitiva, aquela paixão, imaginação? duvido...
Mas por quê?
Segundo o texto, precisamente o contexto induz as pessoas a serem assim. É apresentado o seguinte trecho falando a esse respeito:
“As disposições subjetivas se encontram no âmbito da disciplina de estudo, vontade, objetivos pessoais e acadêmicos, tenacidade, interesse, formação intelectual, vida cultural, capacidade de autoavaliação e auto-organização de seus processos de estudo. [criatividade?]
As disposições objetivas se constituem dos recursos materiais e financeiros, tempo hábil de estudo, instalações institucionais e outros aspectos que proporcionam contato com a cultura e conhecimentos formais e científicos.”
E bem antes diz coisas como: “a promoção da consciência crítica” ou “A formação, enfim, sugere a apropriação dos saberes historicamente constituídos”.
O que logo culmina nisso:
“conhecer os pensadores e os pensamentos, integrar-se pela via das apropriações, às questões filosóficas e científicas que se objetivam em obras humanas imprescindíveis para que o sujeito do conhecimento tome consciência do seu tempo histórico, de suas possibilidades e limites. É preciso compreender o movimento e a gênese daquilo que se tem intenção de conhecer e transformar.”
Quando leio promoção da consciência crítica, não penso em outra coisa que não doutrinação. Felizmente quis Deus que esse tipo de doutrinação seja impossível na prática, mas já que estamos brincando de teorizar, porque não refletir sobre o assunto? Já que isso pra mim não passa de brincadeira, então agora é “à vera”.¹
Porque não é citada a criatividade (como disposição subjetiva), que é basicamente o que há de mais importante na produção de conhecimento? Bem, isso porque parece que há certos autores que procuram induzir estudantes a produzirem o “senso crítico” com base em seus próprios pensamentos. Isso fica claro quando lemos teses (inclusive de mestrado e doutorado) onde os alunos citam basicamente os próprios professores. E ainda têm a cara de pau de dizer que estão “promovendo o pensamento crítico!” (lembre-se que não estou falando de você e que está longe de mim a intenção de ser grosseiro. Isso pra mim é brincadeira!)
E porque o conhecimento tem que ser formal? Porque tem que estar nesse formato acadêmico que, com freqüência, faz meu estômago se revirar, de tão robótico que é? Fico pensando sobre o mesmo tópico: será que a intenção desses autores é realmente promover o pensamento crítico? Ou será que buscam apenas promover a si mesmos através de seus alunos e de suas apresentações e teses?
Como Feyerabend disse e citei no e-mail que te enviei (enrolando por preguiça de escrever isso tudo que eu, se fosse você, teria preguiça de ler):
“um físico talvez prefira um artigo mal-escrito e parcialmente incompreensível, cheio de erros, a uma exposição cristalina porque tal artigo é uma extensão natural de sua própria pesquisa, ainda bastante desorganizada, e ele pode ter êxito bem como clareza muito antes de seu rival que jurou jamais ler uma única linha confusa (uma das qualidades da escola de Copenhague era sua habilidade em evitar decisões prematuras).”
Só que isso pode não ser considerado formal e nem mesmo científico. Aliás, a decisão de que tipo de leitura o indivíduo precisa é sempre e completamente estúpida. Não é assim que as coisas funcionam se o indivíduo busca autonomia intelectual. Não mesmo!

Uma das idéias mais interessantes que já tive e que culminou em várias outras, eu a tive assistindo um filme de zumbi! Exatamente um filme de zumbi!
Isso porque o que propicia a nossa criatividade não é a leitura e o conhecimento da visão de um zilhão de teóricos (que, em sua maioria, só estão copiando o pensamento crítico de alguém). Não mesmo. O que nos propicia essa criatividade (em termos de leitura [não creio que a leitura seja o mais importante, mas isso eu falo depois]) é muito mais deixar nossas leituras fluírem conforme nos agradar, sem regras, sem restrições e, especialmente, sem disciplina.
Existe uma relação direta de oposição entre criatividade e disciplina. Um soldado é disciplinado, mas não é criativo. Um artista é criativo, mas não disciplinado. E a produção de conhecimento também é uma forma de arte. Apenas numa linguagem mais feia e racional. Isso, claro, quando me refiro ao conhecimento sobre o ser humano e sua cultura, que é sempre imerso em subjetividade. E dou Graças à Deus por isso, porque se fosse objetivo, seríamos robôs. Tomei gosto pelas infinitas contradições e incoerências dessas áreas do conhecimento.
Então não, “a relação com o conhecimento [não] está diretamente definida por sua postura de estudo e de conhecimento de mundo em função do acesso a cultura escrita fundamentada por suas disposições objetivas e subjetivas.” Como o Feyerabend aponta (procurei no livro essa citação só pra você!) :
“A criação de uma coisa e a criação mais a compreensão plena de uma idéia correta da coisa são com muita freqüência partes de um mesmo processo indivisível e não podem ser separadas sem interromper esse processo. Tal processo não é guiado por um programa bem definido e não pode ser guiado por um programa dessa espécie, pois encerra as condições para a realização de todos os programas possíveis. É, antes, guiado por um vago anseio, por uma ‘paixão’ (Kierkegaard). Essa paixão dá origem a um comportamento específico que cria as circunstâncias e as idéias necessárias para analisar e explicar o processo, para torná-lo ‘racional’.”
Assim, a relação com o conhecimento é muito mais uma questão de refletir, de estar antenado(a) para esse vago anseio, do que para passar horas e mais horas debaixo de livros numa biblioteca buscando a coisa certa a se pensar. Não falo mal dos livros e de seus autores. Afinal, eu mesmo já escrevi dois livros, continuo escrevendo e lendo livros (a maioria deles teóricos, filosóficos, científicos). Apenas o que digo é que não é assim, não é com a leitura, que o senso crítico se forma. Com a leitura exacerbada, se forma a disciplina. E disciplina no meio intelectual é sinônimo de esterilidade.
Não existem obras humanas imprescindíveis. Não existe sequer um livro nesse mundo que deveria ser lido e estudado por todos os indivíduos. E felizmente, isso nunca será possível, por maior que seja o investimento financeiro e o lobby em relação às outras formas de se pensar.
Daí decorre que, na verdade, tais pensamentos parecem demonstrar basicamente aquela cristalização metodológica que eles criticam. Uma atitude é colocada no pedestal, promovendo a esterilidade intelectual e a chamando de crítica.
Assim, de um modo geral, a diferença entre o indivíduo pragmático e o que vive lendo e estudando um zilhão de livros “obrigatórios” é pequena em nível pessoal. Na prática, no entanto, o pragmático produz, enquanto que o teórico não faz absolutamente nada além de se promover com sua pseudo-intelectualidade. Em nível econômico, um é útil e o outro é inútil.
Não quero, com isso, atacar a própria noção de produção acadêmica. Pelo contrário. Apenas digo que é estéril a concepção apresentada sobre como isso deveria ser feito, e que mesmo aqueles que consideram o pensar crítico importante não poderiam tolerar por muito tempo esse tipo de doutrinação (castração) do intelecto. Você mesma, aliás, se voltou para a arte, contra toda essa besteirada. Isso me lembra uma voz que Jung ouviu, dizendo que a psicologia na verdade é uma arte. Eu extrapolo até para o conhecimento filosófico: isso pra mim é arte. Só assim que pensar, refletir e pesquisar pode realmente ser gratificante. O que existe fora disso é auto-afirmação e bobagem.
Romão (meu lulu na... não vou nem rimar) disse:
“a ciência não significa adequação perfeita dos juízos à realidade, nem é um conhecimento absolutamente certo a orientar uma ação isenta de riscos, mas uma correção progressiva das distorções introduzidas pelo entendimento humano na abordagem da realidade, tanto em função de sua ontologia quanto de sua ideologia.”
Quando eu vejo alguém escrever uma coisa dessas só uma palavra (neologismo?) surge na minha cabeça: whatahell!?
Assim, só lembrando que a ciência também é uma forma de entendimento humano, e que, cientificamente, um zilhão de atrocidades foram cometidas, como o darwinismo social. Parece que é sacanagem quando dizem que a ciência corrige alguma coisa. É só mais uma forma de ver as coisas, só mais um método. Não há como provar que a ciência corrige distorções: em última análise, ela pode muito bem estar introduzindo novas distorções. Não é o melhor e nem o mais interessante (pelo menos na linha racionalista) do que outras formas de se perceber o mundo.
Eu agora me pergunto se você ainda está lendo essa bobagem. Mas enfim, já que me propus a escrever, então pelo menos cumpro minha palavra. Talvez eu publique no meu blog, pra que seja publicamente ignorado. Mas enfim...
Chego agora numa parte que exalta o conhecimento escrito... E eis aqui algo que me deixou ligeiramente indignado:
“[A] ubiqüidade da cultura escrita permite percebê-la como um modo de organização social em que a produção e a circulação do conhecimento, dos costumes e dos valores se fazem por meio de e em função de seu uso.”
(...)
“O ato de ler e de escrever transcende as formas simplesmente de ensino a que se dispõe a escola”
(...)
“O ato de ler e escrever assume um papel fundamental em relação ao pensamento. O indivíduo, ao lidar com a língua e a escrita, toma consciência do mundo e da linguagem e encontra condições favoráveis para monitorar a atividade intelectual.”
Aqui eu planejava encontrar um trecho de um livro com textos de Schopenhauer chamado Sobre o ofício de escritor. No entanto, à despeito dos meus obstinados dois minutos de procura, não achei o bendito. De qualquer maneira, lembro da idéia, então a expresso fingindo ser minha.
O ato de pensar é diferente do de ler e, com freqüência, está oposto a este. É mais importante para um indivíduo refletir sobre o que ele leu cuidadosamente do que simplesmente continuar lendo. Porque a reflexão é ativa e a leitura é passiva. Se o volume de leitura é grande demais, o conteúdo é absorvido através de memória mecânica, não é atribuído a ele nenhum valor, nenhum tipo de juízo. Morre o senso crítico. Claro que na ausência de leitura o indivíduo viverá fechado num ovo, se esperança de transcender seu próprio egocentrismo. Mas isso não quer dizer que a leitura seja o último biscoito do pacote.
A transmissão dos costumes e valores há muito não se faz pela escrita. Pelo contrário, a TV e o Cinema tomaram essa função para si com grande facilidade. Podemos escrever a tese mais límpida coerente e louvável: ela nunca terá mais influência que um filme Avatar ou Crepúsculo (abominação).
Diferentemente do citado, creio que as potencialidades de representação e ensino de uma aula são muito maiores do que as da escrita e da leitura para a maioria das pessoas.
Em primeiro lugar porque uma coisa escrita não responde às suas contestações e nem às suas duvidas. Ela não tem consideração sobre sua forma de se expressar e entender, então não vai tentar te explicar com outras palavras. Isso seria resolvido com o contato virtual, onde você poderia ler e ao mesmo tempo interagir.
Só que aí é necessária uma ferramenta eficiente de comunicação e equipamentos bem eficientes. Seria basicamente uma aula à distância.
Pra mim o abismo em potencial da aula presencial e um livro é a afetividade. É o professor envolver os alunos, demonstrar a eles que se importa, que os ama, que quer pra eles o melhor. Ser divertido, criativo, cativante. Cite pra mim um texto acadêmico que faça isso e eu vou dar um salto mortal pra trás no mesmo instante: todos os que eu vi são um porre, que só consegui mesmo ler por amizade ao autor ou por apresentar uma perspectiva interessante sobre um tema de pesquisa.
Claro que se a aula é uma caricatura do conhecimento escrito, onde o professor faz os alunos lerem a matéria e fica simplesmente falando e esperando que eles memorizem é inferior ao conhecimento registrado nos livros. Mesmo que, na prática, alguns indivíduos aprendam com maior facilidade ouvindo do que lendo, esse tipo de aula é cansativo, chato. É um pé no saco.
Pensar criticamente, refletir, aprender é criar. O pensamento que não envolve um processo criativo onde o sujeito integra o conhecimento em si mesmo (mesmo que seja para criticá-lo) não é aprender. É memorizar. Para isso seria mais adequado o indivíduo instalar um disco rígido na cabeça e “armazenar” a informação.
Sabe, may, eu sou da opinião de que faríamos muito pela sociedade promovendo autonomia e criatividade. Promovendo, através disso, o desenvolvimento da individualidade dos indivíduos ou, como você verá no livro da Nise, o processo de individuação. Promovendo não o conhecimento como forma de reformar a sociedade, mas de o indivíduo tomar consciência de si mesmo. Porque há um conflito entre uma forma chata de saber, onde o indivíduo apenas memoriza informações por obrigação, e uma forma vazia de entretenimento, que é justamente o momento em que ele esvazia a mente. Em nenhum momento o indivíduo é criativo, em nenhum momento alguém o permite ser criativo, ninguém o instiga a isso. Só vemos um monte senhores da verdade, dizendo que obra são obrigatórias e coisas do gênero.
Pra mim, a pessoa pode ter escrito a maior abobrinha do mundo. Se ao menos ela se deu ao trabalho de pensar essa abobrinha sozinha, com a informação que ela possui integrada na própria mente, isso já é um milagre. Eu, afinal, comecei convencido de que semanas na verdade possuem 8 dias e de que morango é o exato oposto de chocolate! Por sorte eu era calado demais ou não houve ninguém pra me dizer que o que eu pensava é idiota e indigno. Não, eu segui pensando isso até comer o biscoito de doce de leite!
Pra mim não tem diferença se é um robô pragmático ou um robô acadêmico. Ainda assim ele só segue algoritmos, ele só repete padrões. É estéril...!
Nesse ponto eu fui dormir, então talvez fique evidente uma diferença na minha forma de me expressar. Tomara que não piore :p
Não texto, foi dito:
“diante da atual conformação do capitalismo, em que se destacam as inovações tecnológicas, seria grande a necessidade de uma educação ampla, formativa, que transcendesse o tecnicismo e o pragmatismo
(...)
“O reconhecimento do caráter histórico, dinâmico, inacabado e provisório do conhecimento, estendendo essa compreensão da mutabilidade e historicidade para a análise da sociedade e da própria humanidade. (MACHADO, 1995, p. 84)”
Aqui parece haver um juízo pragmático implícito. À saber, que a educação ampla e formativa seja de utilidade para o desenvolvimento tecnológico, auxiliando no avanço da ciência. Para isso, seria necessário tomar consciência da verdadeira “fragilidade” do conhecimento, para que a ciência e a tecnologia possam se desenvolver de maneira apropriada, sem cristalização paradigmática. Só que há um pequeno problema: o avanço da tecnologia ocorre com rupturas. Novos princípios físicos, por exemplo, fundamentam novas formas de tecnologias, mas esses princípios não surgem da extrapolação de uma teoria mais antiga, tampouco da observação de novos fatos. Antes, uma teoria antiga é literalmente demolida para ser substituída por outra, que trará novas implicações tecnológicas. E, de um modo geral, essa mudança se faz pratica apenas lentamente: no início, tecnologias surgem com a combinação prática dos dois princípios, até que um substitua completamente o outro.
Só que há um problema todos os paradigmas possuem implicações técnicas e tecnológicas próprias. Um indivíduo com os paradigmas físicos da época em que Nikola Tesla não tinha inventado a corrente alternada (que usamos hoje em dia) usava a corrente contínua e fazia a sociedade funcionar com esse princípio. Naquela época, de nada adiantaria reconhecer que esse ou aquele paradigma é frágil em nível histórico e/ou ontológico: para ele trazer luz pra casa das pessoas, era o paradigma daquela época que ele usava.
Não adiantaria para um empresário, por exemplo, conhecer o contexto histórico da economia e ter lido O capital, de Marx. O que ele precisa saber, onde ele precisa inovar, são coisas que existem no nosso Zeitgeist² de agora. Não é relevante para quem vai produzir saber uma coisa assim. A relevância desse conhecimento está mais na hora de entender o contexto local para a implementação de políticas públicas. Mas para a educação de todas as pessoas isso está longe de ser necessário: é bom que aqueles que vão precisar desse conhecimento o possuam, e vantajoso que quem possua interesse também o possua. Nossa sociedade é dinâmica demais para se afirmar que existe algum tipo de conhecimento teórico que todos deviam ter, algum livro que todos deveriam ler. Nem todas as pessoas querem analisar a realidade, e é lícito que elas façam o que bem entenderem...
“A assunção da educação geral como um bem intrínseco e não como algo que se determina em função de seus fins. A verdade mais nobre seria a procura do conhecimento enquanto tal, de modo que a Universidade se caracterizaria como lugar da procura da verdade e, só depois, como o lugar de sua aplicação; as faculdades profissionais só têm razão se submetidas ao cultivo da ciência.” (PEREIRA, 2008, p. 70).
É aquilo que falei. Procurar a verdade é bonito, mas não enche barriga. É bonito, mas fútil, porque há tanta multiplicidade paradigmática que não vejo como alguém pode realmente acreditar que há uma verdade. Existem universidades que formam trabalhadores e outras que formam cientistas e pensadores. E, até onde sei, há um equilíbrio entre oferta e procura desses cargos. Que a educação como bem intrínseco seja apresentada por professores (como com freqüência o é) e que os alunos decidam se isso é verdadeiro ou não.
“A compreensão da formação profissional incorporando a perspectiva de cidadão instruído, culto e ético. A educação completa ofereceria mais que conhecimentos e habilidades pragmáticos, contribuindo para que o indivíduo seja ativo e reflexivo. O princípio básico dos estudos de educação geral encorajaria a participação na vida social como pessoa livre, instruída e culta (PEREIRA, 2008, p.70).”
Ficou vago. Na prática, o que isso significaria? se todos nós lêssemos a constituição, conhecêssemos a lógica da luta entre as classes. O que isso mudaria na nossa vida? a mim parece que não há consciência que seja mais poderosa do que as exigências do mercado. A mobilização popular, por mais que seja bela, é economicamente desastrosa. Vivemos num mundo de escassez e precisamos de um mercado. E o mercado demanda esse tipo de educação. Isso é feio e desagradável, mas fazer o que? (não é uma pergunta retórica)...
É aquilo que eu falei: se 40% da humanidade fosse precisamente como eu, passando todo esse tempo lendo e estudando coisas teóricas, nossa população nunca poderia ter se tornado tão grande. Porque nossa população é muito grande e não é necessário que tantos indivíduos produzam conhecimento dessa natureza. Temos nossa demanda e nossa oferta. Um desequilíbrio aqui seria economicamente desastroso. Aliás, se todos fossem intelectuais, nossa espécie desapareceria. O pragmatismo não é uma praga. É desumano, feio, irritante, mas completamente necessário á nossa sobrevivência.
Eu mesmo lendo isso (se é que chegaria a ler tudo) ficaria irritado. Tal nível de pragmatismo me dá nos nervos, precisamente porque não está na minha natureza, no meu modo operante, aceitar coisas assim. E a humanidade, apesar de que em grau pequeno, ainda necessita de alimento para o espírito. Ainda é crucial pararmos para ouvir uma música, lermos um romance, assistirmos um filme (que não seja clichê de Hollywood). No fim do dia, o ser humano ainda quer filosofia, ainda quer arte, ainda quer sua humanidade. E, segundo minha visão, isso é mais freqüente hoje do que antigamente, especialmente por conta da Internet e da diminuição da escassez.
De fato, a indústria cultural produz merda diariamente. E de fato cria produtos que mais esvaziam a mente do indivíduo do que o fazem refletir. E realmente eu consideraria preferível que programas que instigam que fazem o indivíduo pensar, tomassem frente. Mas a verdade é que não há demanda. Esse não é o nosso Zeitgeist. Pessoas comuns gostam de coisas banais e comuns, e não seremos nós a moldar suas mentes. Sim, o mundo está uma merda, vemos coisas revoltantes acontecendo todos os dias. Coisas que não fazem sentido³. Só que é isso que temos...! E felizmente, para nós, há espaço para manifestarmos nossa arte e o nosso pensamento, não?
Nossa função aqui é conservar o espírito humano e deixá-lo sempre disponível a quem quiser procurá-lo. Tenho para mim que conforme a escassez for diminuindo através do avanço tecnológico, os trabalhadores sairão do setor de produção (que produzirá mais com custos menores) e passarão para o setor de serviços.
E não é a educação parte desse setor. Na prática, creio que só precisamos viver mais e que a proporção entre o número de professores e alunos mude. Um professor de ensino médio com uma turma de 35, 40 alunos, simplesmente não tem como transmitir o conhecimento de maneira dinâmica: o tamanho do grupo inibe qualquer manifestação individualizada.
Por enquanto, as coisas permanecerão como estão. Creio que é possível que vejamos essa mudança começar no nosso tempo de vida. Daqui a uns 50 anos, quando a biotecnologia estiver mais desenvolvida, teremos uma diminuição dramática na escassez. Aí a produção será mais barata e teremos que nos preocupar cada vez menos com a sobrevivência, tendo mais tempo para a reflexão.
Isso me leva à parte mais mística das minhas opiniões, que talvez pareça ridícula ou revoltante.
Estamos num período de transição na nossa sociedade, onde valores como o conhecimento, a liberdade e o amor estão se tornando mais... Psicologicamente imperativos. Temos o Movimento Zeitgeist⁴. Inclusive escrevi um texto⁵ a respeito disso, onde expus que nosso psiquismo está se alterando em nível coletivo, especialmente por conta das mudanças climáticas. Aconselho que você dê uma olhada nesse material quando tiver tempo. Nossa civilização está se emancipando e somos parte disso.
Estou honestamente de saco cheio. Considerarei um milagre se você chegar a ler isso. Se nos correspondermos, no entanto, você verá que esse texto dá uma introduzida (mesmo que mais ou menos incoerente) à minha forma de pensar, de maneira que se você ler mais alguma coisa, será muito mais fácil assimilar.
Anyways, chega dessa bobagem intelectual por hoje...
1)      Não sei se dizem isso por aí, mas por aqui isso significa que um jogo de bolinha de gude valia a bolinha. Se você é acertado jogando à vera, você perde sua bolinha.
2)      O espírito do tempo, o conjunto de conhecimentos de uma determinada época.
4)      Movimento que surgiu depois do lançamento de dois documentários na Internet por Peter Joseph:
Esses vídeos foram apresentados num festival artístico e depois postados na internet. Incrivelmente, logo nos primeiro meses eles tiveram dez milhões de vizualizações e ficaram muito populares sem nunca ter sido publicado na TV.

Carta de Amor


Talvez não se faça necessário te escrever, talvez essa carta não te vás sequer roçar aos dedos, mas enfim, te escrevo. Um dia cri ser impossível até dizer que te amo, mas já não mais faz qualquer diferença a mim. Não me traz contento saber que estás insatisfeito por nossas próprias condições, e mesmo assim insisto nessa loucura de negar nossos bloqueios, meu sangue e tua origem, porque somos mais que isso.

A tua face me traz a calma necessária para não impedir que minhas lágrimas borrem a pena. Teu sorriso, meu amor, teu sorriso me dá o mundo que espero ver por teus olhos quando as grades se esfarelarem. É por ti que hoje alimento este corpo que tanto odeio, por ser de quem é, e por ser a causa de todo nosso sofrimento, mas que sem ele não posso viver e te amar. Quisera eu cerrar meus cabelos, e cegar-me, tornar-me inútil àquilo que deveria servir, para ter o poder de abandonar meus grilhões para amar-te, meu amor.

Não hei de lhe tomar o escasso tempo da juventude, cerrar-me-ei por ti; mas não serão minhas tranças as vítimas de tamanha transgressão, mas meus olhos. Hoje morro por ti, deixe que me chorem, e depois resgate meu corpo da tumba da qual não pertenço.

Da sua Julieta. 

Fonte: http://pesares-literarius.blogspot.com/2010/05/carta-de-amor.html

O domador de mentes no reino das abominações


Nossa pequena vila estava sendo violentamente afetada pelo desmatamento. O novo império se ergueu, e derrubava árvores para suas enormes construções, que não pareciam ter muita utilidade para nós. Os animais fugiram, e os que não fugiram morreram. Não tínhamos muito mel, porque as abelhas não tinham arvores para fazer ninhos, e nosso plantio era constantemente saqueado por membros do império.
Certo dia decidiram que nossa vila deveria deixar de existir. Segundo eles, éramos primitivos e, portanto, estávamos ali envergonhando o império e ocupando um espaço que não era nosso.
Para nós, no entanto, era difícil entender o que diziam. Porque é que nós éramos primitivos? Porque o espaço não era nosso?
O sábio da tribo soube nos responder a segunda pergunta. Para ele, a terra não é nossa e nem de ninguém. Somos nós é que pertencemos à terra, e devemos, por essa razão servi-la.
Eu me convenci de que bastava eu falar disso ao emissário, para o povo dele entender que temos que cuidar da terra, pois ela é a nossa mestra. Quando ele veio, chegou com trinta homens. Eles tinham expressões agressivas, como se estivessem ameaçando suas famílias o tempo inteiro. Tentei apaziguar um deles, mostrando que éramos um povo de paz, mas ele me deu um soco no peito. Ele não sabia falar minha língua. Olhava pra mim como se eu não fosse nada, porque minha roupa era diferente e eu usava brincos.

- Atenção primitivos, viemos aqui comunicar-lhes que já por muito tempo permitimos que vocês usem nossas terras sem pedir-lhes nada em troca. Agora, no entanto, precisamos de força contra um inimigo que pretende desafiar a autoridade máxima de nosso senhor. Eu vejo que há homens fortes aqui. Os que podem lutar devem vir comigo.

O sábio da nossa tribo se pôs a falar, parecendo tão irritado quanto os soldados. Estavam ameaçando a família dele.

- Vocês, filhos da terra, homens de lama como nós, chegaram nesse lugar quando meu avô era ainda criança. Estávamos aqui, de acordo com as leis dos deuses, e vocês as profanaram destruindo os animais, prendendo alguns, e tornando as águas dos rios podres. Somos nós os que toleram sua presença, pois sentimos na nossa vida a miséria causada pela sua falta de sabedoria. O nosso povo é de paz, e, portanto, não lutará.

O homem e seus soldados riram violentamente. Não os entendemos. Quando o homem percebeu que todos nós estávamos com o sábio, puxou sua espada e cortou-lhe a garganta.
Choramos diante do corpo dele, pois era nosso maior guia, tendo nos instruído nos conhecimentos da terra. Foi ele, aliás, que me ensinou a arte de domar as mentes. Ele dizia que sou muito curioso e que, como um xamã, deveria saber como me defender. Dizia ele que eu tenho sabedoria para lidar com a mágica, então todos me prepararam. Ele me salvou da loucura, quando o espírito do mal me atormentava, e me ajudou a ser o mágico que sou hoje.
Na verdade, imagino que os outros passarão a me ver como chefe, embora eu não me considere pronto.

- Seus tolos. Não percebem que esse homem os ilude com bobagens? Não existem deuses e nem espíritos, e a natureza não existe senão para nos servir. Se há deuses, porque não falam conosco, que os afrontamos? Tolos! É só porque vocês acreditam que as palavras desse tolo têm efeito sobre suas mentes!

Todos me olharam. Como eu esperava:  me olharam como quem espera uma resposta. Então fui até ele, engoli o choro e falei.

- Nosso ancião, admirado, não fazia mais do que despertar em nós aquilo que havia em nosso coração. Na verdade, nos mostrou a sagrada terra e o sagrado espírito, os quais encontramos dentro de nós. Nunca nos iludiu. Você, por outro lado, que se imagina como sendo parte do centro de todas as coisas, não percebe como é insignificante diante da Grande Mãe.

O homem me olhou querendo rir, mas percebeu que eu falava sério. No fundo, pelo que percebi, ele conservava em seu coração a crença de que minhas palavras não passavam de brincadeiras. Falou, então, ignorando minha posição.

- Não tenho tempo para seus delírios idiotas. Você é um jovem bem robusto, como alguns outros. Você sabe lutar.
- Posso me defender com lança e flecha, mas minha arte mais refinada é a mágica.
- Um mágico? Temos muitos na nossa cidade!
- Então porque não há mágica correndo pelo seu corpo?
- Truques! São todos truques e nada mais! Eu, na verdade, nunca caio nos truques, mas gosto de rir-me dos tolos que se impressionam com seus truques. Faça um e demonstrarei ao seu povo que você é uma farsa.

Eu mergulhei minhas mãos no chão, tal como nosso velho sábio me havia ensinado, e debaixo da terra encontrei os demônios que aquele homem havia enterrado. É onde todos os demônios escondidos ficam.
Uma imagem terrível, na qual um homem raptou sua mãe e a violou, me foi revelada, enquanto o comandante dos soldados se retorcia no chão, chorando e gritando.

- Servo de Satã! O que você fez comigo? Como você fez essa imagem surgir na minha cabeça? Tire já isso que você colocou! Eu te mato!
- Não sei o que é Satã, e não sou servo de ninguém senão da natureza. Se satã é a natureza, não há sentido e tratá-la com tal tom de voz. O que eu fiz não foi nada de mais. Apenas despertei um de seus muitos demônios e deixei você ver.
- Mas o que são demônios?
- São obscuridades da natureza. Você os esconde para se esconder deles, mas eles estão sempre debaixo do chão que você pisa, na profundidade de um palmo.

O homem pareceu curioso sobre aquilo que eu havia feito. Um brilho nos seus olhos surgiu. Aproximou-se de mim e tocou no meu cajado.

- Sua habilidade é só essa? Desenterrar os demônios?
- Eu sei desenterrar todo o tipo de demônios e anjos, porque homens também enterram anjos. Minha arte, na verdade, é a de conciliar as forças da natureza. No entanto, através do domínio de anjos e demônios, também consigo controlar a mente dos homens que não têm os pés enterrados no chão.
- Então você controla todos os homens que não estão parados com o pé debaixo do chão?
- Não. Os homens que eu controlo são aqueles que voam. Tal como você.
- Então quer dizer que eu sei voar? – gritou o homem gargalhando. – Nesse caso, controle a minha mente!

Eu fechei meus olhos com minhas mãos no chão, e os vermes da terra foram trazidos a mim pelos espíritos aflitos. Falaram a mim da seguinte maneira:

- Ajude-nos, porque vivemos presos dentro desses vermes, escondidos da luz do sol. Você, como iniciado nos mistérios da natureza, deve saber que todos nós devemos ser iluminados pelo sol. Há, no entanto, essa barreira. Se nos ajudar a quebrá-la, te serviremos em teu propósito.

Quando eu abri os olhos, eles olhavam pra mim com sorrisos zombeteiros. Falei ao comandante da seguinte maneira.

- O senhor, que é hábil no uso da espada, poderia me atacar?
- O que, está com vergonha de não poder me controlar? Olhe, tudo bem, eu te dou a dica. Eu não sei voar!
- É o senhor fraco demais para me atacar, fungindo com piadas? – respondi simulando um tom de provocação.

O homem se ofendeu e desceu de seu cavalo. Pegou sua espada e veio na minha direção. Quando ele chegou perto, os vermes entraram em suas botas pesadas. Entraram dentro da sua unha, e seu espírito foi dominado. Anjos e demônios, causando comportamentos aparentemente sem sentido. Mas eu os pude perceber. Um deles era o demônio do medo, que se aliou ao anjo do amor. Assim, o homem passou a ter medo do amor. Outro era o anjo da piedade, que foi dominado pelo demônio da ganância. Assim, ele só tinha piedade dos ricos.
Mas na verdade o espírito mais poderoso era o mensageiro, que ele ignorava completamente. O mensageiro dele era um anjo e também um demônio, porque assim ele era natureza. Tal é a sabedoria dos nossos mensageiros. Mas ele era ignorado, porque a sombra havia tomado seu lugar. O vulto com o qual o comandante se identificou escondeu o mensageiro debaixo da terra, e esse exigia ser ouvido.
Contei a ele o que eu desejei em voz alta, e ele executou no corpo do homem. Facilmente tentado a se aproximar de mim e ingenuamente seguro de si, o homem dançou como uma mulher, com movimentos leves, embora o espírito do medo lhe tenha feito sentir um enorme tormento. Ele dançou, e chegou a ficar na ponta dos pés.
Logo ele foi assistido pelos espíritos que lhe dominavam. Eram o espírito da arrogância e da soberba, guiados pela ganância. Eles lutaram com o mensageiro sem sucesso, até que lhe ordenei que parasse a dança, e ele voltou para debaixo da terra, agradecendo por poder respirar.
O homem, caído no chão, não se ofendeu com aquilo. Pelo contrário se encheu de ambição e curiosidade.

- Você é poderoso! Meu mestre se interessaria por suas habilidades e poderia dar benefícios a você por elas! Venha comigo!
- Não tenho poder algum. O poder é da terra. Não quero benefícios pra mim além daqueles que a terra pode me oferecer.
- São frutos da terra! Você poderia morar no palácio, poderia ter concubinas. Seria autoridade!
- Essas palavras que você usa vêm de espíritos desconectados. Somente espíritos incompletos admiram a posição de comando ou de subordinado. Os homens sábios conhecem a natureza, e sabem que tal coisa não é senão erro humano.
- Podemos ajudar seu povo a ter mais comida. Sabemos que passam aqui fome e sede, porque nossos soldados não lhes protegem a plantação. Você poderia conversar com o nosso mestre, o imperador, e então ajudar seu povo.

As anciãs me olhavam com olhos aflitos, pois seus netos choravam com fome em seus braços. Eles me escolheram como o guia, e era minha função ajudá-los.

- Pois bem. Aceito ir ver seu mestre.

Eu segui a pé e o comandante guiou os soldados. Esses desfizeram a organização quando me aproximei por medo de se aproximarem de mim. Quando percebi isso, me afastei deles e os acompanhei da metade da distância de um lançamento de pedra. Somente assim eles se alinharam e marcharam.
Se perto da minha aldeia havia poucas árvores, por outro lado quando mais eu me afastava, mas escassas elas ficavam, até que num ponto elas desapareceram. Caminhamos por duas horas, até chegarmos na cidade. Havia plantas sendo tratadas por homens magros e fracos. Possuíam dor em seu olhar, e aquilo me deprimiu profundamente. Um deles, percebendo que eu olhava para ele, veio até mim e me falou com sua voz rouca.

- Não teria o senhor algumas moedas para eu alimentar minha família? – disse ele.
- Mas moedas são duras e não podem ser comidas. Porque você quer moedas? – perguntei curioso.

O homem me olhou confuso. Parecia tratar aquilo que eu falava como um quebra cabeça ou um jogo que se faz com crianças para que ganhem esperteza com a linguagem.

- Mas sem as moedas, meu senhor, não posso ter comida. É por moedas que trocamos comida. A água eu busco a uma légua daqui, mas comida eu preciso comprar. Essa terra na qual trabalho não é minha.

- Peço perdão, mas não tenho moedas. Na minha terra não temos moedas.
- Por favor, senhor. Meu filho passa fome!
- Estou entrando na cidade para tratar com o imperador. Falarei com ele sobre sua situação.

Os olhos do homem brilharam, e outros que ali estavam vieram até mim, pedindo também que eu falasse sobre eles ao imperador. Guardei o nome de cada um deles, porque cada um tinha uma família separada do outro, quando um soldado voltou para me buscar. Ele estava assustado ao lidar comigo, mas não hesitou em bater no homem que falava comigo e lhe ordenar que trabalhasse.
Conforme eu me afastava, ele se afastava me seguindo. Quando eu lhe olhava, ele apontava a direção pra onde eu devia ir, tendo o cuidado de se manter distante. Entrei para ele parar de bater no homem faminto.
Naquela cidade eu vi abominações sem tamanho. Animais presos, alguns mortos. Homens gritando todo o tipo de coisas. Uma confusão, todos correndo de uma parte para a outra, como se seus espíritos os levassem com urgência para algum lugar, mas paravam diante de pedras brilhantes e as fitavam. Meu cajado possuía uma dessas pedras, e por causa disso um homem parou para conversar comigo.

- Ei, selvagem! Onde você conseguiu essa vara?
- O mestre sábio a deu a mim quando me iniciou.
- Bem, cá está o sábio que a tomará de você por um preço justo. Cem moedas de prata!

Alguns homens olharam para nós por causa da fala dele, e se amontoaram em volta de nós olhando para o cajado. O homem se orgulhou disso e continuou.

- É isso mesmo que ouviram. Vou comprar esse cajado por cem moedas de prata! E ainda me chamam de avarento por essas bandas!
- Perdoe-me a decepção, mas esse cajado pertence à minha tribo, e através dele que nos conectamos com a mãe natureza a muitas gerações. Ele nos foi mandado pelos deuses.

O homem deu usa risada e me falou.

- Seu cajado foi mandado pelos deuses? Bem, essas moedas que lhe ofereço, são tantas que, por algum tempo te tornarão, você mesmo um deus, e não precisará mais dos deuses.

Num momento sem eu perceber com certeza, um homem me tomou o cajado e correu entre a multidão. Consegui achá-lo e o persegui pela cidade, até que um soldado lhe derrubou e tomou meu cajado dele. Junto comigo, trouxe o homem que gritava chorando a palavra clemência.

Foi quando entramos no palácio.

O que mais me surpreendeu ali foi que homens estavam sentados próximos da entrada, envoltos em panos. Eles pareciam não ter casa. No entanto, dentro daquele palácio, havia muito espaço sobrando e quase ninguém senão guardas e homens com roupas estranhas e perucas.
Dentro do palácio encontrei novamente o comandante, que brigava com o soldado por ter me perdido de vista. Quando entramos, ele foi comunicado sobre o roubo, e sua ira caiu sobre o ladrão, que nunca removia do rosto aquele espanto.
Agarrou-se nos meus pés chorando e me falou da seguinte maneira.

- Perdoe, senhor minhas atitudes. Eu preciso dar comida aos meus filhos! Não quis lhe fazer mal, tampouco acumular riquezas! Eu só queria comida!

Eu chorei. Não era ele o único a padecer de fome em um lugar com tanta comida. Eles possuíam muita comida e bebida. Também possuíam grandes edifícios. Mas os espíritos que ali habitavam eram abomináveis. Nunca eu havia visto um lugar tão profundamente desconectado da Grande Mãe como aquele, onde homens viviam voltados apenas para si mesmos. Todo aquele ambiente me deprimia.

- Não deixe que esse vadio te faça ter compaixão! Temos leis nessa cidade, e ladrões aqui perdem a mão. Esse ladrão perderá a mão, e eu tenho o poder de executar a lei.

O homem estendeu o braço esquerdo e começou a chorar. No entanto, o comandante lhe tomou o braço direito, o que lhe fez chorar ainda mais. Mas ele abaixou a cabeça e não tentou reagir. O sábio, através dos poderes da terra, falou à minha mente como um relâmpago, e, através da pouca força natural que havia no ar, controlei o comandante, que lutou com mais força do que antes contra mim inutilmente. Por causa da força dos espíritos maligno que o controlavam, eu só pude deixá-lo imobilizado. Tive que falar, então, e esperar que somente o poder das palavras ajudasse-o a entender a situação de maneira apropriada.

- Este homem não me ofendeu, e, portanto, não deve receber qualquer punição, seja na consciência ou no corpo. Vocês têm suas regras então lhe declaro que ele me tomou o cajado brincando, da maneira que fazem as crianças, e eu o persegui correndo também como uma criança.

Meu espírito se contorcia por eu ser obrigado a dizer aquilo, mas o homem morreria se eu não o fizesse. Naquele ambiente, os homens que ousassem ser honestos acabavam causando o mal, porque a luz incomoda os olhos de seres que vivem por tanto tempo em abominável escuridão.
Mas minha fala não teve o efeito que desejei. Eles espancaram o homem e o mandaram para fora mal podendo andar, embora com ambos os braços. Soltei o espírito do comandante, que passou a me temer.

- Você é poderoso, mas não aprendeu a usar seus poderes. Você não pode ter piedade dos homens miseráveis, pois eles lhe sugarão cada moeda que possuir. Deve ter piedade apenas dos homens ricos e dos poderosos, pois esses, pelo contrário, lhe recompensarão por sua piedade.
- Mas todos os homens, ricos ou pobres, são filhos da terra e a todos foi concedido um mensageiro do outro mundo.
- Bárbaro, bárbaro... Quanto ainda não temos a te ensinar? Verá que a vida não é bem como explicam seus contos.

Não entendi bem o que ele quis dizer, e sentia em meu coração que não poderia aprender nada ali, pois quanto mais eu me adentrava no lugar, mais abominável ele se tornava. O chão era coberto por pele de animais misturada com pelo. Enfeites coloridos haviam sido feitos com as árvores, profanando as leis da grande mãe. Quase nada naquele lugar era necessário, e, no entanto, os homens tomavam todo o cuidado com cada detalhe, como se fossem de extrema urgência. Havia armaduras que seguravam armas. Havia escuridão dentro delas, e ma causavam calafrios. Como se desvirtuavam os homens da grande mãe usando tais vestes! Só podiam ser amaldiçoadas.
Eu constatei quais eram as falhas daquele reino, e ainda tinha em minha memória o nomes dos homens que passavam fome com suas famílias. Achei estranho que o sábio dali não percebesse o ambiente opressor que o envolvia, mas pretendi dar-lhe a mensagem, pois a isso me orientava o sábio da aldeia, falando em meu coração. Ele se tornou meu espírito protetor, como o outro que me protegia antes de ele morrer. O espírito de um ancestral que conhecemos é mais poderoso do que um ancestral mais antigo, porque há um laço de espírito e de matéria. Isso eu descobri ao sentir com que nitidez ele falava ao meu coração, trazendo pensamentos inteiros como relâmpago à minha mente.
Entrei numa sala enorme e vazia, no fim da qual estava sentado um ancião. Havia na cabeça dele uma tiara brilhante. Tinha a cor das moedas. Na verdade parecia com as moedas moldadas como folhas de uma tiara. Ele comia a carne de uma ave, até que mordeu algo que não gostou, ao que derrubou toda a comida.

- Quem foi o maldito que colocou tanto sal na minha comida? Já não basta o sal que perco com seus roubos, ainda preciso desperdiçar sal assim na comida e torná-la intragável! Seus vermes!

O homem gritava enquanto os outros pareciam reagir com um misto de medo e tristeza. Decidi reagir

- Não percebe o senhor, como o guia dessas pessoas, que faz mal ao espírito delas com tal repreensão? Não seria melhor que as ensinasse, cozinhando você mesmo, a maneira correta de preparar o alimento?
- O que esse selvagem faz no meu palácio?! – gritou o homem. – Quem foi que lhe concedeu o direito de falar, seu indigno!?

O comandante que me acompanhava se ajoelhou e fez um som com a garganta como o de quem está doente, mas ele estava com o corpo são. Diante disso, o guia lhe falou.

- O que é isso, comandante? Procura levantar minha ira trazendo um selvagem maltrapilho para meu palácio?
- Senhor, se me conceder a honra de demonstrar o que esse selvagem faz, perceberá que seu poder sobre o inimigo será infalível. Ele tem o poder de controlar os homens, é um feiticeiro.
- O que você fala para mim no meu período de comer? Logo o senhor, que possui a cabeça clara e sóbria, vem me importunar com crendices?
- Não te importunaria se não tivesse visto eu mesmo a prova, e trouxe-o para mostrar-lhe como ele faz.

Naquele momento ele mandou trazer um aldeão. Ele trabalhava na lavoura e também era cozinheiro. O rei o detestava em especial, e embora a comida estivesse mais saborosa do que nunca, reclamava contra o homem.

- Mostre-me, então, como ele controla os homens. – disse o guia daquela cidade
- Para fazer com que nosso mestre te ouça, você precisa primeiro mostrar suas habilidades a ele.
- Não são habilidades. No entanto, se é assim que ele me ouvirá, a demonstrarei.
- Sim, mas não sobre mim, mas sobre aquele aldeão.

Trouxeram o homem para diante de mim e o colocaram de joelho. Afundei minha mão na terra que o comandante me trouxe dentro de um vaso. A terra serviu, e nela só encontrei um verme. Ele me falou da seguinte maneira.

- Como você deve saber, eu sou o orgulho. Mas não se engane sobre eu estar escondido na terra, porque não é sempre que estou aqui. Na verdade, estou aqui por vontade própria, pois eu sou um grande aliado do espírito da honra.

Fiquei muito contente e perplexo, vendo que aquele homem possuía um espírito muito valoroso dentro de si. Na verdade, o que eu senti é que ele devia ser o guia do lugar. Possuía contato com a natureza, que puder ver nos espíritos que habitavam seus pulmões, e também com os deuses. Pulsava dentro dele um sentimento de equilíbrio tão grande que ele passava pela punição de ser ajoelhado diante de mim sem quase nenhuma impressão negativa.

- Não posso controlar esse homem, pois seu espírito está em harmonia. Se quiserem que eu demonstre, posso fazê-lo no seu guia, dando a ele revelações de que ele precisa.

O comandante dos soldados tentou me impedir, mas o rei ficou curioso. Ordenou que o soldado me permitisse tentar controlá-lo. Arregaçou as mangas de seu manto colorido e andou até a minha direção, com o corpo ereto e o peito estufado, como ficam os jovens sem sabedoria quando querem se impor.
E quando eu olhei para o que estava escondido, percebi, para a minha surpresa, que não era senão um pequeno espírito, daqueles que recebem atenção na aldeia por serem os mais insensatos. Na verdade, a imagem da alma dele era a de uma criança que não recebeu os devidos limites dos pais. Seu espírito guia tinha a forma de um menino.
Quando o libertei, o espírito guia tomou o controle do guia, e ele começou a fazer travessuras com os soldados. Puxou um deles pelo capacete, jogou comida em mim, e até rolou pelo chão.
Aquele espírito não era o de um guia, então imaginei que estavam apenas testando minha sabedoria com tudo aquilo. Por isso, falei da seguinte maneira.

- Já entendi que esse homem não é o seu guia. Mostrem a mim aquele que é seu verdadeiro velho sábio para que eu possa tratar com ele sobre os problemas da cidade e sobre como estão lidando com a natureza sem o consentimento dele.

O velho, ao ouvir aquilo, se ofendeu profundamente e ordenou que me expulsassem do palácio, ignorando as recomendações do comandante sobre meu potencial. Pelo que percebi, ele gostou de  fazer tais travessuras, mas me detestou, e percebi que realmente era ele quem guiava aquelas pessoas. Não pude falar a ele sobre os que sofriam com fome e fui deixado à própria sorte na entrada do palácio, onde o ladrão me encontrou. Beijou os meus pés, o que me incomodou, então dei um passo para trás e estendi a mão para ele se levantar, ao que ele a segurou um tanto confuso.

- Você não aceita meu agradecimento? – perguntou ele
- Eu não fiz nada de bom que mereça agradecimentos. Na verdade eu menti e não aceito ser glorificado por isso. Eu queria solicitar ao guia dessa cidade que ele ajudasse os homens necessitados, mas ele é um tolo e me ignorou.

O homem bateu no peito três vezes com os olhos cheios de lágrima.

- Te seguirei até a morte. Você é um homem santo!
- Se me seguires até a morte, teu espírito será atormentado. No entanto, se seguires a ti mesmo, então seu espírito lhe mostrará o caminho.

O homem pareceu não me entender, e não me surpreendi, já que ele foi criado naquele meio abominável. Ele me seguiu até a saída da cidade, onde me esperavam os homens famintos. Quando os vi, ansiosos em seus corações por comida, meu coração foi comprimido pelos meus sentimentos. Tamanha foi a minha dor por aqueles homens que chorei ao vê-los, e diante do meu choro eles abaixaram a cabeça. Fui até eles e o homem que me seguia começou a falar.

- Esse homem disse que o mestre é um tolo! Ele é um santo e salvou a minha vida mesmo depois de eu tentar roubar seu cajado!

Os homens me rodearam e logo me levaram a uma pequena casa, na qual quatro crianças estavam fazendo alguns serviços. Lá, ordenaram que me trouxessem comida.
Por uma hora, falei a eles sobre meu lar, e me explicaram que havia maneira de impedir o roubo das colheitas. Ficaram, acima de tudo, maravilhados ao ouvir sobre a Grande mãe, e desejaram em seus corações poder vir comigo, mas não havia, na aldeia, os recursos para dar a eles o que comer.
Imerso em mim mesmo, encontrei-me com o velho sábio, que me falou, rápido como o relâmpago, da seguinte maneira.

- Venda agora o seu cajado para quem o comprar, e compre com o dinheiro toda a comida que puder. Começa agora um novo período na vida, com terríveis lutas e provações para todos os homens. Leve consigo esses homens e toda a comida que puder. Será através do coração de cada homem que ele se conectará com a terra e com os deuses dos céus.

Quando declarei que venderia o cajado, o homem que me seguia se revoltou.

- Você não pode vender o cajado! Ele é da sua tribo! Não faça isso!
- Entenda, homem, que me foi revelado que um novo período chegou, no qual o cajado não poderá nos conectar com a terra, mas apenas o nosso coração. Imagino que com as cem moedas de prata que me foram prometidas, poderei conseguir comida e levar todos vocês comigo para minha aldeia. Fica próxima, logo atrás daquela colina, cercada pelo que sobrou das florestas. Com sementes poderemos plantar e ali vocês poderão fazer parte da família e conhecer a Grande Mãe.

- Entendo que você fale com seu coração. Tenho a acrescentar que a pedra desse cajado vale muito mais do que cem moedas e que há ainda um homem que deve vir conosco. Venderei o cajado, com sua permissão, e trarei os recursos. Sementes e comida. Trarei também lanças de aço para defendermos a lavoura. Comprarei tudo o que eu puder e iremos embora, mas com um homem de valor que não merece viver nesse lugar.

O homem saiu, com espíritos poderosos o guiando. Senti em meu coração que era muito grande a quantidade de força que seu espírito possuía, e que eu fui capaz de despertar nele aquilo que era dele mesmo. Ele, na verdade, não seguia a mim, mas àquilo que descobriu sobre si mesmo e atribuiu a mim. Seria simples demonstrar isso a ele quando ele estivesse na aldeia, e fosse iniciado nos mistérios da Grande Mãe.
Continuei falando aos homens, que ouviam e gravavam cada palavra que eu pronunciava. As mulheres deles me serviam praticamente tudo o que tinham, cheia de esperanças. Apenas uma permaneceu descrente e não gostou de mim, mas não se separou dos outros.

Quando voltou, o homem trazia consigo dois burros com sementes e comida, além do cozinheiro do palácio. Quando o cozinheiro chegou diante de mim, recebi a mensagem do Velho sábio, a qual transmiti diretamente, quase sem consciência do que eu falava.

- Não poderemos levar esse homem.
- Mas por quê?
- Ele é um guia mais sábio e poderoso do que eu, e é a luz desse lugar. Não possuo sabedoria para guiá-lo, e seu espírito é de tal forma iluminado pelos deuses dos céus e pela Grande Mãe que, mesmo vivendo na terra das abominações, conseguiu alcançar sabedoria. Os homens que não vierem conosco precisam dele para que os ilumine e guie.

O cozinheiro, então, se pronunciou.

- Você atribui a mim maior valor do que possuo. É fato e sei do fundo do coração que você ainda é jovem e precisa aprender com a vida, mas não sou maior do que você. Apenas tive mais tempo e despertei meu espírito do sono em que ele foi trazido ao mundo. Contudo, sobre eu ficar aqui, lhe digo que isso sim é mensagem dos espíritos, pois me dizem a mesma coisa. É meu dever ficar aqui, e logo serei morto por isso, mas ficarei. Por aqui, sou dos poucos que ouvem os espíritos, e sem mim os homens mergulharão no abismo, dominados pelas trevas sem terem a quem recorrer.
- Entendo. Eu não conheço o que é meu potencial, se sou poderoso ou se não sou. O que te falei não fui eu quem disse, mas o Velho Sábio da minha tribo. Pode ser que no futuro eu seja capaz de ter sabedoria igual à tua, mas preciso ainda viver com a terra e na terra, como você disse. Eu falava, no entanto, sobre o presente momento, no qual não possuo sabedoria para lhe guiar, tampouco para poder entender aquilo que você precisa. – respondi.
- Você é um bom jovem. Estamos entendidos. Levem consigo ainda esses instrumentos para lavrar a terra que construí. Funcionam melhor do que esses que compraram. Os preparei justamente para isso.

Meu coração se encheu de admiração por aquele homem e por ele conseguir alcançar a sabedoria sem cajado e sem ser iniciado numa aldeia. Repetia-se na minha mente aquilo que o velho me disse. Que agora é com o coração que nos ligamos com os deuses e com a grande mãe. O cozinheiro já sabia disso, e já vivia assim. Precisei vir até a terra das abominações, onde ele aprendeu isso, para também aprender. Nenhuma parte do meu tormento ali foi em vão, mas foi planejada pelos deuses.

Seguimos para a aldeia, e todos nos olhavam enquanto partíamos. O rumor havia corrido entre os soldados sobre eu ter poderes para controlar os homens, e eles me temiam, motivo pelo qual não tentaram nos impedir. Mas vi em meu coração que aquilo era só o começo, e que o guia tolo ainda iria querer nos afligir.
Um dia eu terei que voltar, e quem sabe ajude o cozinheiro ou outro guia de verdade a se tornar o verdadeiro e legitmo sábio daquela cidade. Por agora, no entanto, não possuo sabedoria para isso, e me reservo a viver em harmonia com a natureza, ouvindo o que ela quiser me dizer para me preparar, pois, apesar de eu não o entender bem, parece que ainda há propósitos a serem realizados.

- E foi assim a minha aventura pelo reino das abominações, onde me viam como domador de mentes, quando na verdade o que eu quero é libertá-las. Fiquem atentos, meus irmãos, e aceitem entre nós os novos e os ensinem sobre os caminhos da natureza.

Naquela noite aconteceu uma festa, e todos dançaram e se alegraram com os novos membros da família. Passaram a trabalhar conosco e nos ensinaram técnicas para a construção de nossas casas, para a nossa plantação e também para a nossa defesa, o que, percebi na viagem, se tornou de grande importância. Um novo período começou. E espero ter sabedoria para viver nele...

Sobre a dualidade da ética

Eis aí um tema discutido incansavelmente. Sobre o que é a Moral e sobre qual é seu fundamento. O primeiro post do meu blog trata desse tema, mas agora ele só serve como histórico: minha opinião mudou tão radicalmente(ou nem tanto) que achei necessário refazer todo o discurso, tornando-o mais completo.


Duvido, honestamente, que alguém que esteja lendo isso tenha visto o outro post, mas vou comentar minha mudanças de opinião dentro de um capítulo nesse mesmo texto. Será simples: é só pular essa parte e continuar até o próximo subtítulo: Sobre a nova visão. O novo insight será exposto como novo.

Sobre as mudanças no paradigma

“Falo mesmo pelo meu próprio código de ética, que na parte relacionada a sentimentos é muito restrito justamente porque, comigo, os sentimentos que são fortes o bastante para me mover são direcionados a poucas pessoas, sobrando para as outras a ajuda motivada pelo código.”

Nesse caso a falta de fundamento mais profundo me impeliu a exprimir a idéia de forma incompleta. Enquanto introvertido, é natural que apenas poucos fiquem próximos, pois para isso seria necessário que entrassem no meu mundo. Daí decorre que apenas com a força da consciência eu conseguia agir de forma ética para aquelas pessoas que não “existem” no meu mundo. Não é bem por não me importar com elas, mas sim pelo fato de que, como disse, é como se ela não existissem.
“Um sujeito egoísta tende a agregar perto de si outros igualmente egoístas. Assim, ele consegue sucesso e dinheiro, mas todos os que o envolvem só querem isso. Para esses, a companhia dele não é importante, mas o dinheiro e o sucesso sim. Daí decorre que indivíduos que não cooperam, voluntariamente não conseguem fixar laços afetivos. Colocam amores e amizades abaixo de desejos por dinheiro e poder e acabam descobrindo tarde demais quais são as coisas mais valiosas.”

Eis aí um erro. Uma pessoa não precisa ser materialista para ser egoísta e não precisa ser egoísta para ser materialista. Pelo contrário, pessoas egoístas agregam em torno de si aquelas que podem ser sugadas: justamente as altruístas. Algo parecido com a relação entro eco e Narciso. Existem vampiros psíquicos que não estão, em absoluto, interessados em bens materiais, mas apenas em sugar energia. Pessoas egoístas não atraem esses vampiros e, portanto, nesse ponto, estão protegidas e o egoísmo não é completamente negativo a curto prazo.

Comecei a explorar o universo extrovertido da ética, e justamente porque ele era o menos desenvolvido, tive mais atenção no que dizia:

“E não é só no sentido mais intimo que a moral (baseada na ética) trás benefícios ao indivíduo, pois é obvio para quem observa o mundo de modo mais amplo que o companheirismo e a ética é tudo o que precisamos para um verdadeiro progresso. (...) Sendo assim, a moral baseada na premissa de que nós devemos pensar sempre no bem coletivo, nunca o negligenciando por causa de benefícios desnecessários e também nunca fazendo nada contra a sociedade, pois ela é a mãe de todos e dela que todos recebem o que têm.”

Cheguei no ponto essencial nessa frase, embroa eu não o tenha explorado tão profundamente quanto pretendo fazer agora nessa parte:
“Assim, deve-se refletir num principio moral pessoal que beneficie a sociedade e o individuo. O meu código é muito longo na minha mente, com diversas clausulas, mas pode ser facilmente abstraído dos seus princípios básicos. Todos os itens funcionam para o pessoa e para o coletivo (com variação obvia de intensidade) e devem ser igualmente buscados para si e para os outros. Conhecimento, Liberdade, justiça e Amor.”

Os quatro princípios sempre foram fundamentais, mas eu hoje os separo em apenas dois: os introvertidos e os extrovertidos. Conhecimento e liberdade não podem ser transmitidos com tanta intensidade quanto amor e justiça. Afinal, eis aí a grande falha do nosso sistema de ensino: O ser humano não pode ter sua liberdade violada ao ponto de alguém dizer a ele o que é interessante que ele aprenda. O próprio conhecimento, já que é imposto, não é absorvido. Depois de algum tempo, a maioria das pessoas simplesmente esquece daquilo que aprendeu no colégio. Daí decorra que o conhecimento é muito mais um despertar: se pessoa está realmente interessada, então esse conhecimento se integrará nela. Caso contrário, ele só será uma memória efêmera e desconectada da totalidade paradigmatica. Daí decorre que a busca de conhecimento é muito para voltada para o íntimo do que para o coletivo, de forma que passar conhecimentos para fora não é tão fácil. Passar liberdade adiante é quase utopia. Afinal, grande parte das prisões dos homens são criadas por eles mesmos. Reconhecendo isso ou não, o fato de que o outro diz para ele se libertar é inútil. Somente o indivíduo pode libertar-se de si mesmo e ele não pode delegar essa responsabilidade a ninguém. Os outros princípios precisam ser mais claramente explorados e vou fazer isso no capítulo seguinte.

“‘Minha religião é o amor’ é uma frase que da uma base perfeita à moral sentimental destituída de fundamentos ontológicos que, por sua natureza quimérica, são frágeis.”

Minha visão sobre a metafísica e foi revista e totalmente alterada em reflexões recentes, então esse é um ponto que eu simplesmente me forço a remover. Os sentiemntos formam a metafísica da pessoa, então essas ontologias SÃO os sentimentos, de forma que não devem ser negligenciadas. Apenas seria útil que elas não carregassem consigo uma carga grande demais de convicção.

A explicação subseqüente no texto acerca dos tipos psicologicos nem merece comentário: a descarto.

Sobre a nova visão

Em primeiro lugar, vamos à etimologia. Moral vem de Mores, do latim, que quer dizer comportamento, conduta, costumes. Quando falamos num código moral, estamos procurando definir um código de conduta que deveria ser seguido pelos indivíduos a fim de dar ordem ao mundo.
Essa definição amplamente aceita embarca apenas um universo: o externo. E, no entanto, existe outro universo, que é o interno. Apesar de estarem intimamente ligados, sendo inseparáveis, os dois universos possuem regras completamente diferentes, de forma que quando o indivíduo toma o funcionamento de um como premissa para lidar com o outro surgem duas formas aberrantes de comportamento.
A primeira é mais conhecida, porque vivenciamos na nossa sociedade cristã: a moral externa se impondo à interna. Com essa distorção, pretendendo que uma parte englobe o todo, se criou um código moral totalmente doentio, pois ele simplesmente contradiz a existência humana. Seguir tais códigos no mundo interno presume negar a si mesmo. No momento em que o indivíduo “decide” que deve ser do bem e lutar contra o mal, ele nega uma realidade: o mal existe dentro dele. Por mais que ele se esforce, não há como simplesmente reprimir uma parte de si mesmo e se santificar por meio de uma convicção. Por mais que não queiram acreditar nisso, nossa consciência não tem poder absoluto sobre o que somos. Nada mais fazemos do que decidir seguir as orientações do íntimo ou não.
Isso sem falar sobre regras que não são mais válidas, como a abstinência sexual. Sem me aprofundar, é bom lemrbar que no momento em que tal “mandamento” foi criado não existiam camisinhas. Hoje em dia, mesmo nas implicações práticas, essa regra moral é inútil e prejudicial, pois coloca repressões no pensamento e no sentimento das pessoas, castrando seu desenvolvimento.
De um modo geral, isso é fruto da nossa visão de que o que é natural não é bom. De que deve ser renovado, purificado, santificado. De que “isto não poderia ter acontecido”.
Mas o mundo interno simplesmente não pode aceitar tal pensamento, e é por isso que deve ser difícil para um introvertido lidar com essa cultura: afinal, ele sabe que tudo o que ele é contradiz seu ideal.
É justamente por isso que o ideal é uma farsa: porque ele pretende forçar o homem a ser algo que ele não é. Essas regras, reconheço, forame são úteis, mas estão ultrapassadas e precisam ser profundamente revistas. Em relação a isso nesse mesmo texto pretendo apresentar uma proposta que está longe de ser só minha.
Por outro lado, também existe a moral interna. Essa serve como reguladora de outro universo. Um universo que se guia pro regras diferentes: naturais. Quem já conhece tal universo deve saber que não há como molda-lo com regras. Que ele contém opostos racionalmente impossíveis de serem reconciliados. Na verdade, nesse universo existe tudo aquilo que desprezamos em nós mesmos ou , em caso de projeções, nos “outros”.
É um mundo “incoerente”. Cheio de símbolos, totalmente fora de controle. Você não pode controla-lo com artifícios ou força de vontade. Pelo contrário, é mais sensato aprender com esse mundo do que tentar simplesmente submete-lo.
Nesse mundo não há separação entre o bem e o mal, e por isso coisas aparentemente impossíveis serão vistas. Por exemplo, num fragmento de uma grande fantasia que tenho, dois primos representam o ódio e o amor. Apesar de serem tão contrastantes, eles são amigos íntimos.
Pareceria racional, no mundo externo, que os dois fossem oponentes, mas no mundo interno não há essa separação nítida entre o bom e o mau, o certo e o errado. Por lá, o bem é liberdade, onde nenhuma das partes é reprimida por conta do mundo de fora e o mal é a escravidão, seja por processos internos que querem dominar todo o universo ou por influencia do mundo externo. Da mesma forma que, se você ferir o código moral de fora, as pessoas protestarão contra seu comportamento, se você ferir o de dentro o seu íntimo se revoltará contra você de diversas maneiras. Dentre elas posso citar doenças psicossomáticas, surtos depressivos e complexos poderosos.
Não há motivo para se supor que o mundo externo é mais importante que o interno e vice-versa: são complementares e completamente interdependentes.
Aliás, é interessante notar como, por meio de sonhos e fantasias, o próprio mundo interno nos pede para termos atenção com a existência externa. Por mais que isso seja com pouca freqüência, o externo também faz isso.
As exigências do mundo interno são simples: desperte para o que você realmente é. Encontre aquele valioso conhecimento dentro de si mesmo. A Gnose...
Mas a tentativa de viver segundo as regras desse mundo interno no externo se mostra, no mínimo, engraçada.
Afinal, teríamos que viver numa caverna, apenas com uma cobra e uma águia, tal como o Zaratustra, ou vivermos isolado num mosteiro em reflexão profunda.
E isso quer dizer que deveríamos negligenciar o mundo externo em detrimento do interno.
Mas o espírito tampouco suporta tal situação a não ser que esteja cegado por alguma convicção. Até Zaratustra me apóia:

“Pois bem: já estou tão enfastiado da minha sabedoria, como a abelha que acumulasse demasiado mel. Necessito mãos que se estendam para mim.”

(preâmbulo de Zaratustra)

Recolher-se sobre si mesmo indefinidamente causa um vazio no ser humano, porque é da nossa natureza a necessidade de conexão com os outros. E se formos longe demais, podemos perder o contato com o outro por completo, o que significa um severo dano á nossa psique. É como meu “velocista”:

“A musculatura da perna é forte
Ele avança determinado
Cruzarei a linha de chegada
Diz ele em seu coração

(...)

Tenta enfrentar seu medo
Enquanto corre devagar
Pobre coitado
Só tem uma perna...”

Não se pode seguir apenas a moral de um dos universos e o preço é existir como O velocista: Correndo devagar, pois embora seja forte, é só uma perna.
Para isso deve-se propor, então, um caminho mediano entre um mundo e outro e é justamente aí que o problema começa. Jung disse que há sempre um conflito entre a moralidade de fora e a de dentro. Eis aí uma verdade.

No artigo “A DIMENSÃO ÉTICA DA PSICOLOGIA ANALÍTICA: INDIVIDUAÇÃO COMO ‘REALIZAÇÃO MORAL’”, Marco Heleno Barreto traz uma ótima explicação a respeito disso e deixou fragmentos da obra Junguiana citados por ele aqui como ilustração da minha visão.

“Embora todo ato de conscientização seja no mínimo um passo adiante no caminho da individuação, ou seja, da ‘totalização’ do indivíduo, a integração da personalidade é inconcebível sem a relação responsável, ou seja, moral das partes entre si, assim como é impossível a constituição de um país sem a inter-relação de seus membros. Portanto, o problema ético se coloca por si, e é primariamente a tarefa do psicólogo encontrar uma resposta ou ajudar seu paciente a encontrá-la”

“A questão [terapêutica] propõe-se do seguinte modo: o que, para este indivíduo, e neste dado momento, surge como um progresso à altura da vida? Isto não pode ser respondido por nenhuma ciência, por nenhuma sabedoria de vida, por nenhuma religião, por nenhum bom conselho, mas só pela consideração absolutamente sem preconceitos da semente de vida psicológica que se expande da cooperação natural do consciente e do inconsciente, por um lado, e do individual e coletivo, por outro.”

“Por outro lado, é imperativo observar que o confronto entre Eu e Si mesmo tem necessariamente como pano de fundo a comunidade ética a que o sujeito solicitado pelo impulso de individuação pertence. Isso entranha duas consequências: a primeira é que o abandono – doloroso, para um sujeito ético – das diretrizes morais comunitárias não significa arbitrariedade ou anomia, mas sim o encontro de uma lei que Jung afirma ser mais severa do que qualquer outra lei: a lei que determina os contornos da própria individualidade (Jarret, 1988). A segunda – que nada mais é do que a outra face da primeira – é que a anuência ao impulso de individuação, representando frequentemente uma transgressão ou uma ultrapassagem dos valores estabelecidos que regem a vida de uma comunidade ética, impõe ao indivíduo a dolorosa experiência de sua própria solidão, consequência inevitável da ruptura da inconsciente adesão ao grupo social. Evidentemente, isso não significa o cancelamento da socialidade que define essencialmente o ser humano, mas a transformação da relação intersubjetiva para o indivíduo: acirra-se a necessidade agudamente sentida de comunicação em profundidade com o outro, e a construção dessa comunicação aparece como uma exigência constitutiva da própria individuação. Jung reiteradamente insiste em que a individuação só pode se dar no mundo e não leva a um isolamento do sujeito, implicando sempre a interação intersubjetiva, a comunicação humana profunda.”


E por Jarret:

“Não devemos entender o indivíduo como voltado para dentro apenas sobre si mesmo; senão a individuação levaria ao completo desaparecimento do indivíduo são. Ele deve reaparecer de novo. […] Não faz sentido voltar-se para dentro – desaparecer – se você não retornar com uma mensagem para as pessoas que estão fora”

Como foi demonstrado com as citações, a organização do mundo interno depende do externo e vice versa. Se assemelha, aliás, a uma passagem do livro A republica de Platão, onde ele estabelece um paralelo entre a ordem do mundo interno dos homens e da sociedade que eles constroem. Nossa sociedade é bem extrovertida e coloca os indivíduos para se voltarem ao seu funcionamento. Apesar disso, como uma contradição, ela é extremamente violenta, injusta e desigual. Sobre isso, não consigo deixar de concluir que é a negligencia com o mundo interno que trás tais conseqüências da mesma maneira que negligenciar o outro torna difícil, senão impossível, a individuação, de maneira que o convívio externo é essencial para o crescimento íntimo.
Deve-se, ao invés de buscar isolamento ou de negar-se em prol do externo, haver um equilíbrio, sem o qual continuaremos vivendo numa sociedade doente constituída por pessoas doentes simplesmente porque se identificam apenas com metade do “biverso” no qual todos vivemos.
Posso imaginar o que essa avalanche de idéias e sentimentos podem estar gerando em vc. Espero que vc as utilize bem, em seu processo de transformação pessoal.

Eu vou lembrar

Daquilo que foi,
E que ainda é.
Que esqueci,
Que tive que esquecer.

Vou lembrar de você,
De nós, de tudo.
E aí haverá simbiose,
Sim, o fim da separação.

O Portão do submundo
Cairá por terra.
Ele mesmo será a ponte,
E me levará a outro domínio.

Aí poderei chegar aí.
No seu universo...

Vou me queimar no teu fogo,
Refrescar-me no teu rio.
Eu vou voar nas tuas nuvens,
Deixar o meu rastro.

Quando isso acontecer,
Eu serei eu
Porque eu hoje sou uma miragem
Um vulto no nevoeiro...