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An open wound


Tenho uma ferida aberta
Ela pulsa, emana perfume
Mas apesar da dor...
É ela que me faz respirar

A ferida separa um lado do outro
Nada poderia uni-los, sará-la
Mas é ela que me põe em movimento
A dor move a vida, parece

Eu passo pelos lugares
O sangue vai pingando
Parece até infinito
Ele se dilui no mar do cotidiano

Pragmatismos me distraem
Conhecimentos me arrebatam
Mas nada disso seria possível
Sem o perfume de saudade

Dessa ferida aberta que tenho no peito...

Foi de início como a lança do destino
Não poderia ser de outra maneira
Atravessou a minha alma
Pôs tudo em chamas

Depois a ferida secou
Já até ameaçava sarar
Quando foi reaberta brutalmente
Veio pra ficar...

Então eu aperto e deixo sangrar
Que é pra sentir o aroma
Há alguma força no universo
Que não me deixa esgotar...

Chamemos isso de amor...


A Sombra e o por do sol


Há algum tempo senti
A brisa de uma bela manhã
A luz do sol invadiu o meu quarto
Despertei com vigor

E apesar de algumas nuvens
Apesar da leve chuva
O sol iluminou o dia
Quis congelar aquele momento

Em minha tolice
Quis que a chuva parasse
Mas que chuva responde ao nosso desejo?
Antes do meio dia, a sombra chegou

Justamente na parte mais intensa
Quando o sol te queima
Quando o verão mostra sua natureza
Lá estava aquela enorme nuvem

O Dia ficou cinza

Eu procurei saber
Sobre rituais, danças, alguma coisa
Pra mandar a chuva embora
Até tentei alguns

Nada adiantou

O dia passou assim, frio
A despeito da previsão, que dizia o contrário
Até que chegou o entardecer
E eu vi o sol por um instante

Mas logo desapareceu

Entrei novamente em casa
Deixei o guarda chuva na porta
Tenho minha proteção contra a tempestade
Uma cama quente...

Mas passou-se o por do sol
Passou-se o dia, sem que eu o visse
E agora resta a noite, o abismo
Resta mergulhar

E procurar as belezas do submundo

Afinal, o reino dos céus já não me aprova...

Deixem-me voltar pra casa



Esse mundo é frio, congelado
Vocês o sabem, já vieram aqui
Andar por aqui queima a pele
Fere o coração, mesmo de um soldado

Selvageria, brutalidade, imbecilidade

A noite está fria
Quero meu cobertor
Ele está em casa, com os meus
Tudo o que eu amo está em casa

As palavras falham, sabe?
Na verdade nem sei mais nomear
As coisas que mais amo
Não tenho capacidade de relembrar

São idéias inconcebíveis de um mundo antigo

Mas essa noite está silenciosa
Quero os sons do lar
Então deixem o sono me levar
Só por essa noite, voltar pra casa

Porque vivendo nesse mundo
Carregando essa sensação horrível
Tudo o que eu preciso agora é disso
Ir para o meu lar, onde nada mais importa

Poderiam vocês, generais dos astros,
Conceder um dia de folga dessa tarefa?
Deixar-me esquecer meu posto
E voar no túnel pelo espaço?

Estávamos na praia

Eu os vi removendo seu hímen
Cirurgicamente, quase indolor
Mas eu ouvi seu gemido
Eu vi que você me olhou

Você me convidou com seu olhar
Fomos pra água
Estava escuro
A água estava perigosa

Brincamos feito crianças
A correnteza nos arrastou
Você não se importou
Tentei fingir que estava tudo bem

Mas acabei saindo de lá
Te avisei, e você veio comigo
Não tinha medo da água
Só veio porque eu vim

Deitamos na areia, rolamos
Sorrimos, vi seus olhos brilhando
Quis te beijar, e um menino gritou
Percebi a multidão que nos assistia

Afinal, como declarar isso a eles¿
Que uma das regras mais fundamentais,
Meu temperamento contradiz¿
Com discursos racionais¿

Eu poderia dizer-lhes
Que cuidem de sua própria vida
Que não sou um libertino
Que isso é amor...

Mas não...
Eu escolhi fugir.
Corri contigo pela praia, alguns nos seguiram
Tinham veredictos em suas mentes

Eu nem percebi
Mas no meio dessa fuga,
Perdi você
Nosso momento passou

Num instante, eu estava no telefone
Falava com ela
Aquela que amo e que permitem
Que posso abraçar sem ser condenado

E foi bom...

Mas em alguns momentos
De reflexão, meditação
Lembro do que senti
Quando estávamos na praia...

Angel's Sleep

Às vezes quando alguém dorme
Devemos parar por uns instantes
Porque se quebram barreiras
Que dividem a alma da luz mundana

Algo como uma expressão
Linguagem corporal espontânea
Imaginamos sonhos, pesadelos
E aí nosso próprio coração se revela

Sentimos desejo ou repulsa
Queremos acolher ou rejeitar
Seja o que for, é claro, límpido
Certeza louca, intuitiva

As pessoas mostram sua identidade
O que são lá no fundo
E se amamos essa vista
Então amamos essa alma

São coisa que você descobre
Assistindo o sono de um anjo

Hera

Vigia, interfere, protege
Define as estações do ano
Ela é a rainha do Olimpo
Odeia a infidelidade

Eu quis tomar Perséfone
Sim, levá-la para o submundo
Torná-la minha rainha
Cuidando dos mortos

Como se fossem seus filhos

Mas hera interferiu.
Desde o começo...
Ela a trouxe de volta
E com ela, a primavera

Quando a vejo no mundo dos vivos
Minha avidez por possuí-la passa
Até minha vivência infernal amansa
Tantas cores, tantos aromas...

Hera, que deveria estar ofendida,
Veio me resgatar do meu tormento
Trabalhando em silêncio
Pensando que não a ouço...

What i am to you



Sou só mais um
No meio da curva normal
Mediano, previsível, comum
Uma representação média

Eu sou algo irrelevante
Que é indigno de preocupação
A sombra do homem invisível
Um detalhe pequeno demais

Sou uma fonte útil de calor
E também uma força propulsora
Dou proteção e sou força motriz
Sou instrutor e escudeiro

Enquanto eu for uma distração
E enquanto tiver alguma utilidade
Terei meu lugar dentro de você
Dentro do seu tubo digestório

Vou ser ruminado, corroído
Arrastado, sugado até a última gota
Então meus restos mortais serão expulsos
E meu funeral será girar e ser eliminado

Mas saiba de uma coisa
Que talvez eu entre no seu sangue
E aí chegue ao seu coração
Nesse ponto, não haverá volta

Lua

E eis que você surge
No meio da escuridão
Vem encantar, encaminhar
Tomar para si toda a atenção

Denomino-te Deusa
Presto-te homenagens
Subo em altas montanhas
Senão para tocá-la,

Para ao menos vê-la mais de perto

Sou eu que imagino coisas,
Ou você tem mesmo esse rosto lindo¿
Sou louco,
Ou você olha pra mim¿

Eu quero me banhar na sua luz,
Girar na tua órbita
Quero ser um com você,
E esquecer todo o resto...

Eu sou um lunático!

Hell's Fire(Flower)


Tem um calor em mim
Uma chama ardente
Por mais que eu tente
Não se apaga...

É uma chama infernal
Daquelas que dão alegria
Ela move meu espírito
Num jogo irracional

Num dia me centro
Delibero meu próprio destino
Pra no outro, surpreso,
Ver esse fogo consumir tudo

Isso é amor¿
É paixão, luxúria¿
Não...
Tenho que dizê-lo na minha língua:

Isso é o fogo do inferno

Vem das profundezas
Tira-nos o sono
Derruba-nos pedestal
Nos torna humanos...

E eu queimo, minha musa
Eu, Dante, vou queimando
Espero com paciência
Que você me leve ao paraíso

Eu sinto teu aroma daqui...

Branca de Neve


Minha cabeça queima
Meu sangue ferve
Porque quando eu te vi
Entendi a natureza do desafio

Abandonar promessas
Aceitar a realidade
Sofrer a dor necessária
Mergulhar no abismo

Eu vi nos seus olhos desatentos
A imagem que escondi de mim mesmo
Que eu não transformei água em vinho
Não sou senhor do destino

E o meu sangue ferveu
Minha barriga esfriou
Meus olhos foram arrastados
Por curvas entre obstáculos

Até que, em meio ao abismo
Vi seus olhos atentos
Eu observei o seu sangue ferver
Por nossa contradição

E será que no fim do desafio,
Terei alívio, alegria?
Diga, ó branca de neve
Viveremos felizes para sempre?

The Car



O tempo parou
Mas estava voando
Tudo silencioso
Mas com ruído insuportável

Porque assim?
Porque não lá?
Porque... ?
Destino, talvez?

Ainda sinto a marca
Os olhinhos fechados
Boca latejando
Transe, êxtase, paz

Estávamos num carro
Calor da pele, do coração
Diante do inimigo
O Frio, o gelo, A estrada

O carro veio atrás de mim
Mas eu estava na janela errada
Será que eu teria chorado vendo cena?
Mataria a saudade?

Quero passear lá novamente
Nos dias de sol frios
Noites de lugares estranhos
Estacionamentos calorosos...

Quero passear no carro...

The Blue Flower


Eu caminhava trôpego
Por um caminho que nem conhecia
Nem abria muito meus olhos
Só andava, sem paixão...

Eu às vezes via miragens
Com meus olhos fechados
Eu via flores
Uma mais bela que a outra

E todas as vezes era ilusão

Foram tantos enganos
Que quando ela surgiu
Nem acreditei
Parei, olhei, hesitei.

Não acreditei...

Já havia visto tantas flores de mentira
Que não tinha mais fé
Mas essa é diferente
Ela sim possui aquele aroma

Aquele que te faz querer mais

Eu fui à direção dela
Ela se fechou
Voltei e ela se abriu
Fui de novo e ela fechou

Eu tinha que esperar o momento certo

Quis me convencer que era miragem
Mas não consegui
E o que me salvou mesmo
Foi um milagre

Na noite, no momento de descanso
Eu a assisti, tão bela
Estava decidido a seguir em frente
Chorava por partir, sorria com lembranças

Mas ela se abriu
No meio da noite
Contra todas as expectativas
E mesmo naquela noite sem lua

Estava azul

O vento ajudou, e senti seu aroma
Tão suave...
Se abriu pra mim!
É real, se abriu de noite!

Riam, digam que é mentira
Que sou louco!
Nunca me importei mesmo...
O que sei é que ela se abriu

O que mais importa?

Of mice and men


Eu fui jogado no esgoto
Cheiro forte, luz fraca
Minha cabeça girando
Meus olhos queimando

O meu corpo falhava
Meu sangue fervia
Uma fumaça negra me rodeava
Fecharam o bueiro

Dentro da escuridão
Meus olhos se acostumaram
Vi luz onde não esperava
Vi muitos ratos

Pensei que iriam me devorar
Não imaginava o que eles comem
Eles me rodearam
Cheios de interesse

Fechei os olhos
Os senti tocando me tocando
Em volta de mim
Nenhum subiu em cima

Ouvi o som de uma queda d’água
Se tornava mais intenso
Até que caí, abri os olhos
Água salgada, ardeu...

Dois ratos caíram comigo
Os levei até a areia, e sumiram
Nem me dei conta do horário
Era manhã, e o sol nunca esteve tão lindo...

Recebi amor de ratos
E não de homens
Os pequenos e indefesos
Salvaram meu espírito...

Porque vivo em esgotos
Sou chamado de louco
Mas os grandes homens
Têm cheiro pior...

Força de vontade



É a máxima desse mundo
Força de vontade, força de vida
Vá, adiante, cabeça erguida
Mas eu nem sou desse mundo...

Aqui tem coisas simples
Que desaprendi a apreciar
Aqui os detalhes são mais interessantes
O principal não tem graça

As pessoas andam pra lá e pra cá
Elas querem, elas perseguem
Nem sabem quem são
Mas isso nem importa

Eu sei quem sou, de onde vim
Já cheguei a uma conclusão satisfatória
Não sei meu destino, mas sei quem sabe
Só não consigo andar

Eu sei o caminho do paraíso
Mas não tenho força pra saltar
Não consigo chegar lá
Porque não tenho nenhuma

Força de vontade

O herói precisa de uma musa
O algoz de uma vítima
O salvador de inocentes
O sábio de loucos

Todos possuem uma fonte
Um por amor, outro por ódio
Um por piedade, outro por indignação
Mas eu não

Não tenho musa, nem vítima
Não tenho a quem salvar
Tampouco alguém a ensinar
Onde tudo foi parar?

Às vezes esqueço que sou louco
Penso que não inventei meu mentor
E me pergunto num tom pesaroso
“Porque você me escolheu?”

“Porque os miseráveis precisam de mais.”
“São desajustados por fora,”
“Vazios por dentro”
“Precisam de grandes espíritos”

Enganos no amor

 

O destino está traçado
Sempre esteve ao que parece
E ignorou completamente
Minhas acusações de engano

Primeiro se mostrou em loucura
Depois em volúpia
Mais tarde se tornou um sonho
E depois uma invenção arbitrária

Em cada fase, em cada momento
Identifiquei falhas e erros
Enganos no amor, do amor
Sobre o amor

A loucura me matou
E me fez renascer
Sem ela eu não chegaria aqui
Louco, são e nenhum dos dois

A volúpia destruiu a ordem
Tudo se reduziu ao impulso
Soltou meus braços duros
Aprendi a dançar

Meu sonho me mostrou o caminho
Eu aprendi a andar
Num caminho de mentira
Minhas pernas estão fortes por isso

E a invenção abriu meus olhos
Não sou senhor do meu destino
Nem mesmo sei quem sou
Como posso dizer

Que há enganos no amor?

Espinhos na minha cama



 Tem espinhos dentro do meu cobertor
E fui eu que os coloquei ali
Meu sangue já manchou o pano
Só porque eu quis

Nem sei se quero mesmo sofrer
To deitado agora nos espinhos
Lamentando por tê-los deixado aqui
E incapaz de me livrar deles.

É claro que também há uma rosa
E tem vezes que eu nem me furo
Tem sempre um cheiro bom
Mas as feridas não fecharam

Meu sangue está saindo
Minha vida vai acabando
Enquanto eu tenho rosas
E espinhos na minha cama...

Nunca seremos




Agora digo isso com certeza
Nunca seremos um
É lamentável e libertador
Dolorido e estimulante

Porque eu dou
E você recebe
Nada mais
Nem peço nada

Se pedir, você foge

Você me convida para a sua casa
E me manda trazer o jantar
Se não temperei bem
Não me chama mais

Porque meu valor vem disso
Do sustento pro teu espírito
Mas isso acabou
Não me ajoelho mais

Você deixou claro
Que nunca seremos um
Que queria que eu fosse um membro
Como um braço

Bom quando é útil

Você não barganhou com a carne
Só deixou minha ilusão fluir
Eu me apaixonei pela sua máscara
Mas sua alma me desiludiu

Se você estivesse aqui
Diria o obvio
Não tem nada a dizer
Não se interessa

Decreto o fim
Não me procure mais
Não se confesse comigo
Não espere que eu te entenda

O rosto da Deusa


Ele me deixa encantado
Entorpecido, perplexo
É belo e divino
Malicioso e poderoso

Ela tem lindos dentes alinhados
Caninos afiados, lábios convidativos

Tem cabelos longos e lisos
Com folhas que se envolvem entre os fios
Tudo nela é original
A lua vive na testa dela

Seus olhos não só recebem luz
Eles também a emitem
Ela auxilia-me na escuridão
Não sou totalmente cego

Graças ao rosto da deusa

Eu vou lembrar

Daquilo que foi,
E que ainda é.
Que esqueci,
Que tive que esquecer.

Vou lembrar de você,
De nós, de tudo.
E aí haverá simbiose,
Sim, o fim da separação.

O Portão do submundo
Cairá por terra.
Ele mesmo será a ponte,
E me levará a outro domínio.

Aí poderei chegar aí.
No seu universo...

Vou me queimar no teu fogo,
Refrescar-me no teu rio.
Eu vou voar nas tuas nuvens,
Deixar o meu rastro.

Quando isso acontecer,
Eu serei eu
Porque eu hoje sou uma miragem
Um vulto no nevoeiro...

Você também sente?



Quando te olho,
Sinto uma chama secular
Vejo-te como uma deusa
Amiga, amante, esposa, mãe, irmã.

São diferentes formas de amor
Todas unidas numa só
Que não podem se distinguir
Não podem se separar

Quando vejo teus olhos
Penso que já nasceram me conhecendo
Que quando pousaram sobre mim
Só se lembraram

Isso porque eu me sinto assim
Como que desperto para ti
Sim, me lembro de você.
Filha da Deusa

Você também sente esse amor?
Esse que une sem prender?
Que liberta sem deixar só?
Que não pode ser definido, mas apenas sentido?