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Uma brincadeira epistemológica com o Macro-evolucionismo e órgãos vestigiais

Introdução

Em primeiro lugar, para quem nunca leu esse blog e acabou aqui por acaso, deixo evidente no título o caráter desse texto. Não se trata de um texto com zombarias pueris, mas de uma concepção filosófica: que a reflexão, a busca por conhecimento, não passa de uma brincadeira. Na verdade, a impressão que tenho é que, se não fosse pela diversão, aprender e pensar seria uma perda total de tempo. Se você não tem prazer nisso, nem se preocupe em ler, porque não será um texto pequeno. Basta você descer a barrinha do seu navegador pra constatar a veracidade do que digo.

Já em segundo, e mais direcionado ao tema em questão, o que proponho aqui é fazer uma brincadeira com dois preceitos do evolucionismo, o de Macro-evolução e o que postula a existências de órgãos vestigiais. O que farei aqui é tomar a evidência que encontrei nesse site[1] e reinterpretá-la longe da visão evolucionista, dando ênfase noutro conjunto de premissas teóricas. Se eu for refutado por alguém, o que é provável, apesar de poucas pessoas se interessarem pelo tema e/ou pelo meu blog, ainda assim ficará como um registro de como são frágeis nossos modelos de interpretação dos fenômenos.

Premissas fundamentais

Em primeiro lugar, eu gostaria de postular premissas para essa base epistemológica com a qual irei interpretar os dados.

1)      As espécies em sua variedade cromossômica foram geneticamente contruídas.
2)      A construção foi gradual, tendo várias espécies sido construídas a partir de outras que a precederam.
3)      Não houve apenas um engenheiro trabalhando, mas vários. E em diferentes épocas do planeta.
4)      Micro-evolução é uma realidade observável.

Sobre a primeira, deixo claro do que estou falando. Se uma espécie de lagartos se separou e sofreu mutações morfológicas e comportamentais, inibindo a reprodução no caso do reencontro, isso não quer dizer que tenham mudado em nível cromossômico. Se duas espécies podem se reproduzir no nível das gônadas, então podemos dizer que são iguais em nível cromossômico. Portanto, que têm a mesma origem em Design e que se adaptaram a diferentes ambientes apenas, sem se transformarem em algo diverso.
Sobre o primeiro, é bom recorrermos ao conceito de Scrip em programação. Um Script de uma determinada linguagem de programação é um fragmento de programa que pode ser utilizado em outros programas para facilitar a programação. Assim, muitas vezes ao invés de programar todo o código, o programador usa scripts para facilitar a própria vida, o que pode tornar alguns programas bastante similares. No caso dos seres vivos, poderíamos presumir que os programadores construíram as diferentes espécies partindo de um preceito análogo a esse.
Ou seja, que usaram códigos genéticos já prontos para construir novas espécies. Nesse aspecto, a aparência de que as espécies se transformam gradualmente é verdadeira, mas tais transformações não foram, de forma alguma, espontâneas. Antes, foram o resultado de sucessivas reprogramações.
Quando presumimos que há vários programadores criando novas espécies a partir de outras que conseguiram sobreviver em épocas diferentes, fica claro que eles não possuíam um “backup” com um código puro da espécie. Portanto, não refuta tal proposta que humanos tenham marcas de DNA viral em seu organismo que são idênticas as dos chimpanzés. Isso só prova, segundo tais premissas, que ambas as espécies foram programadas segundo o mesmo DNA-base, de uma espécie ancestral.
Daí, portanto, decorreriam todas as semelhanças ontogenéticas, genéticas, fenotópicas e comportamentais dos animais.
Quando falo que há mais de um programador, postulo que Deus ou forças divinas estão excluídas de tal hipótese e que as evidências apontam para o fato de que as espécies são, em nível da biosfera, muitas vezes redundantes em função, além de terem comprovadamente idades diferentes. Presumir que todas foram feitas por um só “criador”, presume uma espécie que vive milhões de anos e que cria espécies redundantes ao invés de simplesmente reproduzir as mesmas de dada função no ciclo da vida.
Quando falo de micro-evolução, me refiro ás mudanças morfológicas e comportamentais que os animais sofrem dependendo da pressão seletiva de determinado meio. Assim, essa forma de pensamento admite a seleção natural, mas a integra noutro contexto.

Vamos, então, à brincadeira em si.

Analisando os dados

Ao buscar defender os órgãos vestigiais de adeptos do Design Inteligente, o autor do site indicado no início do site mostra autores usando uma definição deficiente desse conceito. Segundo ele, os autores em questão dizem que órgãos vestigiais são aqueles que não possuem mais função alguma. Ele coloca, para refutar tal postulado, que mesmo em A origem das espécies tal colocação nunca foi feita:

“‘Rudimentary organs, on the other hand, are either quite useless, such as teeth which never cut through the gums, or almost useless, such as the wings of an ostrich, which serve merely as sails.’ (Darwin 1872, p. 603) [Orgãos rudimentares, por outro lado, são ou praticamente inúteis, como dentes que nunca atravessam a gengiva, ou quase inúteis, como asas de uma avestruz, que servem apenas como uma vela(para o equilíbrio na corrida).]

E além disso:

“‘... as was pointed out in the introduction, the term vestigial, is, as a rule, only applied to such organs as have lost their original physiological significance.’ (Wiedersheim 1893, p. 205)”[Como foi indicado na introdução, o termo vestigial, é, via de regra, apenas aplicado a a órgãos que tenham perdido sua significância fisiológica original] {grifo meu}

Logo, os órgãos vestigiais não são necessariamente, mas apenas são aqueles não possuem mais a função original. Dessa maneira, pensar em órgãos vestigiais é observar tal fenômeno já com uma projeção evolucionista. Com a hipótese que pretendo colocar nessa brincadeira, os órgãos vestigiais são um absurdo. Na verdade, vou apresentar uma proposta explicativa alternativa pra demonstrar que essa evidência só tem peso para o evolucionismo se for vista sob a ótica evolucionista.

Como aponta este autor[2], no século XIX 180 órgãos eram considerados destituídos de função pelo simples fato de que sua função não havia sido clarificada. Além disso, postula a função do cóccix e do apêndice, tendo o primeiro a função de “anexar vários músculos pélvicos, formando o diafragma pélvico”.
Segundo o autor, “O cóccix, com seu diafragma pélvico, mantém fixos muitos órgãos em nossa cavidade abdominal evitando que estes literalmente caiam por entre as pernas. Alguns dos músculos do diafragma pélvico também são importantes para o controle de eliminação de dejetos de nosso organismo pelo intestino reto.”

Infelizmente, numa distorção do conceito de órgão vestigial, ele postula que o cóccix não é vestigial porque ele tem uma utilidade, enquanto que ele trabalha com um conceito de órgão vestigial que não pode possuir função. Diferente do que ele postula, os evolucionistas colocam que um órgão que não possui a função original é vestigial. Assim, o autor não refuta os evolucionistas, já que emprega um conceito que não é utilizado por eles.
Para os evolucionistas, o Cóccix, embora tenha funções próprias no organismo, é uma cauda vestigial. Para provar isso, mostram as evidências ontogenéticas, onde fetos apresentam uma espécie de cauda primitiva.

No link da nota 1, o autor diz: “As discussed below in detail, the development of the normal human tail in the early embryo has been investigated extensively, and apoptosis (programmed cell death) plays a significant role in removing the tail of a human embryo after it has formed. It is now known that down-regulation of the Wnt-3a gene induces apoptosis of tail cells during mouse development (Greco et al. 1996; Shum et al. 1999; Takada et al. 1994), and similar effects are observed in humans (Chan et al. 2002).”
[Como foi discutido abaixo com detalhamento, o desenvolvimento da cauda humana normal nos embriões jovens foi investidado extensivamente, e a apoptose (morte celular programada) tem um papel importante na remoção da cauda do embrião humano depois que ele está formado. É sabido atualmente que a down-regulation(Regulação para baixo)[3] do gene Wnt-3a induz a apoptose das células da causa durante o desenvolvimento do rato, e efeitos similares são observados em humanos.]


Ou seja, para os evolucionistas o cóccix é uma cauda vestigial que se apresenta numa fase inicial do desenvolvimento embrionário e, inclusive muitas vezes não sofre a apoptose. Nesses casos, humanos desenvolvem caudas que inclusive reagem a estados emocionais.
Ora, isso comprova que há uma semelhança entre os humanos e outros mamíferos, e é confirmado quando tratam do Gene Wnt-3a, que está presente em ratos e em humanos.
Não há dúvidas, então, de que há semelhanças entre essas espécies em nível ontogenético, e a partir da teoria evolucionista poderíamos concluir que essa é uma evidência de que ambas as espécies possuem um ancestral em comum, do qual herdaram tais genes.

Tais dados, no entanto, podem ser reinterpretados segundo as premissas que postulei no início do texto.

Ora, se ambas as espécies foram programadas a partir de estruturas análogas, é mais lógico que os órgãos e estruturas aproveitáveis para outras funções permaneçam. Afinal, presumimos que o autor de tal espécie estivesse tentando construir animais capazes de sobreviver. Se o cóccix é parte de uma estrutura que auxilia no nosso desenvolvimento embrionário e se ele serve, como indicado, como ponto auxiliar para o diafragma pélvico, seria sensato presumirmos que tal estrutura é útil para a nossa sobrevivência. Logo, o autor teria alterado a cauda e mantido o cóccix, com utilidade própria.

De um modo geral, o cóccix continua sendo vestigial, mas é analisado por outra ótica, que não presume o macro-evolucionismo.

Mas, afinal, pra que apresentar uma alternativa interpretativa?

1)      Para demonstrar que essa não é uma evidência para a macro-evolução exclusivamente, e que, portanto, não deveria ser usada dessa maneira.
2)      Para evidenciar diferenças práticas fundamentais:
a)      Se interpretarmos um órgão como recessivo, a tendência é pensar que ele é uma estrutura com pouca ou nenhuma função no organismo. Nesse caso, a tendência é não considerarmos esses órgãos relevantes em intervenções cirúrgicas, o que pode ser fatal no caso de ele possuir algum tipo de relevância que desconhecemos.
b)      Além disso, se presumimos que todos os órgãos vestigiais permaneceram no nosso corpo por uma intenção racional, provavelmente entenderemos melhor as estruturas dos organismos no momento em que nós mesmos formos programar espécies. Afinal, como alguns já devem fazer, já foi produzida uma bactéria 100% sintética. Essa perspectiva poderia, portanto, auxiliar os programadores de organismos a trabalhar em novas espécies a partir de antigas, como um programador aprendiz lendo o programa de outro mais experiente.
c)       Além disso, pode apresentar uma abertura metodológica para a aquisição de novas evidências, que não podem nem ser vistas dentro da perspectiva evolucionista. Afinal, nossa linguagem, nosso discurso de mundo, com freqüência delimita o conjunto de fatos que somos capazes de perceber. Pressupor alguma função oculta, alguma utilidade escondida, pode inclusive instigar a investigação.

 Conclusão

A utilização de órgãos vestigiais como evidência para a macro-evolução é no mínimo parcial, já que tal evidência poderia indicar uma programação logicamente estruturada. Afinal, é muito mais lógico preservar estruturas com utilidade apenas alterando-as do que eliminá-las completamente e desenhar outras. Tal programação daria mais trabalho ao autor e aumentaria as chances de erro. É sempre melhor manter o máximo possível do código que já está em funcionamento do que recriar tudo do zero. Vejam, aqui, que não se trata de um programador onisciente, portanto, mas apenas de um programador racional. Conseqüentemente, tal teoria também poderia prever e explicar a cauda em seres humanos e qualquer outro órgão recessivo, não sendo este um privilégio do evolucionismo.
Na verdade, se presumirmos que há uma infinidade de diferentes programadores que realizaram seus trabalhos em diferentes épocas, todos os fenômenos expostos pela macro-evolução podem ser reinterpretados. Apenas alguns conceitos, como o de que tal coisa acontece sem intervenção racional, seriam abandonados como irrelevantes.

Fica estabelecido, portanto, que o evolucionismo está longe de ser a única proposta coerente para explicar os fenômenos naturais.

E digo mais: em termos de probabilidade, creio ser mais razoável supormos que houve intervenção inteligente do que imaginarmos que tudo se deu a partir da lógica evolucionista. Afinal, nós mesmos já estamos começando a programar o DNA. Deixo uma questão relevante para ser tratada noutro post:
1)      Numa mutação que implica a mudança na estrutura cromossômica, não teríamos os filhotes do mutante como híbridos muito provavelmente estéreis?
(afinal, os híbridos geralmente possuem um número impar de cromossomos, o que inviabiliza a espermatogênese, além de outras complicações)[4]
2)      E se não forem estéreis, a tendência não seria que a terceira geração fosse estéril?
(Para ser mais claro, se um mutante com 25 pares de cromossomos e um espécime normal com 23 pares dão origem a um hibrido com 24, não seria esse híbrido capaz apenas de deixar descendentes férteis acasalando com outro híbrido [seu irmão]?)
3)      Não é correto postular que a pressão do meio só causa mudanças morfológicas e comportamentais, mas nunca em nível dos cromossomos?

Que me responda o aventureiro que leu esse texto até o fim.


[1] http://www.talkorigins.org/faqs/comdesc/section2.html#atavisms_ex2
[2] http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:qQ42heALOcIJ:www.veritatis.com.br/article/3888+http://www.veritatis.com.br/article/3888&cd=1&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br&client=firefox-a
[3] http://en.wikipedia.org/wiki/Downregulation_and_upregulation
[4] http://www.artigonal.com/biologia-artigos/genetica-e-citogenetica-na-caracterizacao-de-hibridacoes-interespecificas-em-diferentes-ordens-de-mamiferos-2626451.html

Resposta à may

Este post contem comentário meus a um artigo. Se você leu, por algum motivo, a minha resposta e tem curiosidade sobre o texto comentado, entre no meu perfil do blogger e, lá, veja meu e-mail.

Hey...!
Em primeiro lugar, não espere uma super crítica, elaborada de maneira extremamente cuidadosa e seguindo à risca seja que método for. Minhas considerações são de um intuitivo, porque não gosto de me prestar ao serviço de robô intelectual. Vou ser humano, vou entrar em contradição e, em alguns aspectos, posso não fazer sentido algum. Apesar de que, até onde eu vejo, minhas idéias parecem ter uma relação de coerência interna (não se contradizem entre si), o mesmo pode não se aplicar á minha linguagem, porque aqui eu posso me dar ao luxo de não escrever submisso à regrinhas acadêmicas. Você verá que minha crítica parte de uma perspectiva bem diferente e que, portanto, corro o risco de interpretar de maneira dúbia a posição do texto. Espero que me perdoe nesse caso e que tenha a paciência de apontar meus equívocos. Então chega de blá blá blá.
Em várias partes do texto eu notei que se fazem críticas ao dogmatismo dos meios de conhecimento técnico, explicitando que há fragmentação e historicidade inclusas nesse conhecimento e que através destas é possível haver uma reflexão mais profunda. E através dessa, o indivíduo pode entender porque está onde está e, assim, construir uma vida crítica em relação a isso.
Para ser o mais claro possível, bem no começo, o texto possui como intenção demonstrar que seria vantajoso para a sociedade se todos os indivíduos tivessem esse tipo de atitude.
No texto, é dito:
“‘nas grades curriculares, são eliminadas quase todas as disciplinas que fazem “pensar”, pois o mercado quer “gente que faz”. As instituições literalmente disputam os “clientes” e estes vão escolher aquelas que são mais atraentes e que, geralmente, não exigem muito em termos de estudo.’”
No entanto, essa parece uma redução. Na verdade o mercado quer gente que saiba inovar para, assim, se manter na competição. Pessoa incapazes de inovar através da reflexão não suportam a competição e precisam abrir mão de suas ambições materialistas.
Na verdade uma coisa marcante nessa idéia de pensar é que ela é bem mais abstrata. O indivíduo refletir sobre sua condição histórica, aqui, é colocado como sendo mais relevante do que o indivíduo conseguir inovar numa oferta de produto ou serviço. Mas porque?
Ora, é aí que chega a minha pesquisa: porque o tipo psicológico dos autores (incluindo você e os citados) é intuitivo. Isso significa, a grosso modo, que é característico que se pressuponha que abstrações, reflexões sobre porque, para que, qual é o sentido são mais relevantes do que como, quando ou onde.
A reflexão filosófica, histórica e a percepção e representação artística, nesse sentido, são coisas valorizadas por esse tipo, para além das coisas práticas da vida. Até aí, está tudo bem. É uma perspectiva sendo apresentada, uma visão tão humana quanto qualquer outra e sem a pretensão de englobar outras em si mesma.
Só que existe outro tipo psicológico. Existe outra maneira de se ver o mundo e lidar com ele, e ela não pode (especialmente enquanto houver escassez) deixar de ser vital. Essa é a visão pragmática, tão criticada nesse texto.
Dentro dessas premissas o ser humano reflete criticamente sobre sua vida sob diferentes perspectivas? pouco provável.
Cria e/ou aprecia a arte (não o entretenimento)? também é pouco provável.
Possui, em si, ainda aquele rastro de humanidade intuitiva, aquela paixão, imaginação? duvido...
Mas por quê?
Segundo o texto, precisamente o contexto induz as pessoas a serem assim. É apresentado o seguinte trecho falando a esse respeito:
“As disposições subjetivas se encontram no âmbito da disciplina de estudo, vontade, objetivos pessoais e acadêmicos, tenacidade, interesse, formação intelectual, vida cultural, capacidade de autoavaliação e auto-organização de seus processos de estudo. [criatividade?]
As disposições objetivas se constituem dos recursos materiais e financeiros, tempo hábil de estudo, instalações institucionais e outros aspectos que proporcionam contato com a cultura e conhecimentos formais e científicos.”
E bem antes diz coisas como: “a promoção da consciência crítica” ou “A formação, enfim, sugere a apropriação dos saberes historicamente constituídos”.
O que logo culmina nisso:
“conhecer os pensadores e os pensamentos, integrar-se pela via das apropriações, às questões filosóficas e científicas que se objetivam em obras humanas imprescindíveis para que o sujeito do conhecimento tome consciência do seu tempo histórico, de suas possibilidades e limites. É preciso compreender o movimento e a gênese daquilo que se tem intenção de conhecer e transformar.”
Quando leio promoção da consciência crítica, não penso em outra coisa que não doutrinação. Felizmente quis Deus que esse tipo de doutrinação seja impossível na prática, mas já que estamos brincando de teorizar, porque não refletir sobre o assunto? Já que isso pra mim não passa de brincadeira, então agora é “à vera”.¹
Porque não é citada a criatividade (como disposição subjetiva), que é basicamente o que há de mais importante na produção de conhecimento? Bem, isso porque parece que há certos autores que procuram induzir estudantes a produzirem o “senso crítico” com base em seus próprios pensamentos. Isso fica claro quando lemos teses (inclusive de mestrado e doutorado) onde os alunos citam basicamente os próprios professores. E ainda têm a cara de pau de dizer que estão “promovendo o pensamento crítico!” (lembre-se que não estou falando de você e que está longe de mim a intenção de ser grosseiro. Isso pra mim é brincadeira!)
E porque o conhecimento tem que ser formal? Porque tem que estar nesse formato acadêmico que, com freqüência, faz meu estômago se revirar, de tão robótico que é? Fico pensando sobre o mesmo tópico: será que a intenção desses autores é realmente promover o pensamento crítico? Ou será que buscam apenas promover a si mesmos através de seus alunos e de suas apresentações e teses?
Como Feyerabend disse e citei no e-mail que te enviei (enrolando por preguiça de escrever isso tudo que eu, se fosse você, teria preguiça de ler):
“um físico talvez prefira um artigo mal-escrito e parcialmente incompreensível, cheio de erros, a uma exposição cristalina porque tal artigo é uma extensão natural de sua própria pesquisa, ainda bastante desorganizada, e ele pode ter êxito bem como clareza muito antes de seu rival que jurou jamais ler uma única linha confusa (uma das qualidades da escola de Copenhague era sua habilidade em evitar decisões prematuras).”
Só que isso pode não ser considerado formal e nem mesmo científico. Aliás, a decisão de que tipo de leitura o indivíduo precisa é sempre e completamente estúpida. Não é assim que as coisas funcionam se o indivíduo busca autonomia intelectual. Não mesmo!

Uma das idéias mais interessantes que já tive e que culminou em várias outras, eu a tive assistindo um filme de zumbi! Exatamente um filme de zumbi!
Isso porque o que propicia a nossa criatividade não é a leitura e o conhecimento da visão de um zilhão de teóricos (que, em sua maioria, só estão copiando o pensamento crítico de alguém). Não mesmo. O que nos propicia essa criatividade (em termos de leitura [não creio que a leitura seja o mais importante, mas isso eu falo depois]) é muito mais deixar nossas leituras fluírem conforme nos agradar, sem regras, sem restrições e, especialmente, sem disciplina.
Existe uma relação direta de oposição entre criatividade e disciplina. Um soldado é disciplinado, mas não é criativo. Um artista é criativo, mas não disciplinado. E a produção de conhecimento também é uma forma de arte. Apenas numa linguagem mais feia e racional. Isso, claro, quando me refiro ao conhecimento sobre o ser humano e sua cultura, que é sempre imerso em subjetividade. E dou Graças à Deus por isso, porque se fosse objetivo, seríamos robôs. Tomei gosto pelas infinitas contradições e incoerências dessas áreas do conhecimento.
Então não, “a relação com o conhecimento [não] está diretamente definida por sua postura de estudo e de conhecimento de mundo em função do acesso a cultura escrita fundamentada por suas disposições objetivas e subjetivas.” Como o Feyerabend aponta (procurei no livro essa citação só pra você!) :
“A criação de uma coisa e a criação mais a compreensão plena de uma idéia correta da coisa são com muita freqüência partes de um mesmo processo indivisível e não podem ser separadas sem interromper esse processo. Tal processo não é guiado por um programa bem definido e não pode ser guiado por um programa dessa espécie, pois encerra as condições para a realização de todos os programas possíveis. É, antes, guiado por um vago anseio, por uma ‘paixão’ (Kierkegaard). Essa paixão dá origem a um comportamento específico que cria as circunstâncias e as idéias necessárias para analisar e explicar o processo, para torná-lo ‘racional’.”
Assim, a relação com o conhecimento é muito mais uma questão de refletir, de estar antenado(a) para esse vago anseio, do que para passar horas e mais horas debaixo de livros numa biblioteca buscando a coisa certa a se pensar. Não falo mal dos livros e de seus autores. Afinal, eu mesmo já escrevi dois livros, continuo escrevendo e lendo livros (a maioria deles teóricos, filosóficos, científicos). Apenas o que digo é que não é assim, não é com a leitura, que o senso crítico se forma. Com a leitura exacerbada, se forma a disciplina. E disciplina no meio intelectual é sinônimo de esterilidade.
Não existem obras humanas imprescindíveis. Não existe sequer um livro nesse mundo que deveria ser lido e estudado por todos os indivíduos. E felizmente, isso nunca será possível, por maior que seja o investimento financeiro e o lobby em relação às outras formas de se pensar.
Daí decorre que, na verdade, tais pensamentos parecem demonstrar basicamente aquela cristalização metodológica que eles criticam. Uma atitude é colocada no pedestal, promovendo a esterilidade intelectual e a chamando de crítica.
Assim, de um modo geral, a diferença entre o indivíduo pragmático e o que vive lendo e estudando um zilhão de livros “obrigatórios” é pequena em nível pessoal. Na prática, no entanto, o pragmático produz, enquanto que o teórico não faz absolutamente nada além de se promover com sua pseudo-intelectualidade. Em nível econômico, um é útil e o outro é inútil.
Não quero, com isso, atacar a própria noção de produção acadêmica. Pelo contrário. Apenas digo que é estéril a concepção apresentada sobre como isso deveria ser feito, e que mesmo aqueles que consideram o pensar crítico importante não poderiam tolerar por muito tempo esse tipo de doutrinação (castração) do intelecto. Você mesma, aliás, se voltou para a arte, contra toda essa besteirada. Isso me lembra uma voz que Jung ouviu, dizendo que a psicologia na verdade é uma arte. Eu extrapolo até para o conhecimento filosófico: isso pra mim é arte. Só assim que pensar, refletir e pesquisar pode realmente ser gratificante. O que existe fora disso é auto-afirmação e bobagem.
Romão (meu lulu na... não vou nem rimar) disse:
“a ciência não significa adequação perfeita dos juízos à realidade, nem é um conhecimento absolutamente certo a orientar uma ação isenta de riscos, mas uma correção progressiva das distorções introduzidas pelo entendimento humano na abordagem da realidade, tanto em função de sua ontologia quanto de sua ideologia.”
Quando eu vejo alguém escrever uma coisa dessas só uma palavra (neologismo?) surge na minha cabeça: whatahell!?
Assim, só lembrando que a ciência também é uma forma de entendimento humano, e que, cientificamente, um zilhão de atrocidades foram cometidas, como o darwinismo social. Parece que é sacanagem quando dizem que a ciência corrige alguma coisa. É só mais uma forma de ver as coisas, só mais um método. Não há como provar que a ciência corrige distorções: em última análise, ela pode muito bem estar introduzindo novas distorções. Não é o melhor e nem o mais interessante (pelo menos na linha racionalista) do que outras formas de se perceber o mundo.
Eu agora me pergunto se você ainda está lendo essa bobagem. Mas enfim, já que me propus a escrever, então pelo menos cumpro minha palavra. Talvez eu publique no meu blog, pra que seja publicamente ignorado. Mas enfim...
Chego agora numa parte que exalta o conhecimento escrito... E eis aqui algo que me deixou ligeiramente indignado:
“[A] ubiqüidade da cultura escrita permite percebê-la como um modo de organização social em que a produção e a circulação do conhecimento, dos costumes e dos valores se fazem por meio de e em função de seu uso.”
(...)
“O ato de ler e de escrever transcende as formas simplesmente de ensino a que se dispõe a escola”
(...)
“O ato de ler e escrever assume um papel fundamental em relação ao pensamento. O indivíduo, ao lidar com a língua e a escrita, toma consciência do mundo e da linguagem e encontra condições favoráveis para monitorar a atividade intelectual.”
Aqui eu planejava encontrar um trecho de um livro com textos de Schopenhauer chamado Sobre o ofício de escritor. No entanto, à despeito dos meus obstinados dois minutos de procura, não achei o bendito. De qualquer maneira, lembro da idéia, então a expresso fingindo ser minha.
O ato de pensar é diferente do de ler e, com freqüência, está oposto a este. É mais importante para um indivíduo refletir sobre o que ele leu cuidadosamente do que simplesmente continuar lendo. Porque a reflexão é ativa e a leitura é passiva. Se o volume de leitura é grande demais, o conteúdo é absorvido através de memória mecânica, não é atribuído a ele nenhum valor, nenhum tipo de juízo. Morre o senso crítico. Claro que na ausência de leitura o indivíduo viverá fechado num ovo, se esperança de transcender seu próprio egocentrismo. Mas isso não quer dizer que a leitura seja o último biscoito do pacote.
A transmissão dos costumes e valores há muito não se faz pela escrita. Pelo contrário, a TV e o Cinema tomaram essa função para si com grande facilidade. Podemos escrever a tese mais límpida coerente e louvável: ela nunca terá mais influência que um filme Avatar ou Crepúsculo (abominação).
Diferentemente do citado, creio que as potencialidades de representação e ensino de uma aula são muito maiores do que as da escrita e da leitura para a maioria das pessoas.
Em primeiro lugar porque uma coisa escrita não responde às suas contestações e nem às suas duvidas. Ela não tem consideração sobre sua forma de se expressar e entender, então não vai tentar te explicar com outras palavras. Isso seria resolvido com o contato virtual, onde você poderia ler e ao mesmo tempo interagir.
Só que aí é necessária uma ferramenta eficiente de comunicação e equipamentos bem eficientes. Seria basicamente uma aula à distância.
Pra mim o abismo em potencial da aula presencial e um livro é a afetividade. É o professor envolver os alunos, demonstrar a eles que se importa, que os ama, que quer pra eles o melhor. Ser divertido, criativo, cativante. Cite pra mim um texto acadêmico que faça isso e eu vou dar um salto mortal pra trás no mesmo instante: todos os que eu vi são um porre, que só consegui mesmo ler por amizade ao autor ou por apresentar uma perspectiva interessante sobre um tema de pesquisa.
Claro que se a aula é uma caricatura do conhecimento escrito, onde o professor faz os alunos lerem a matéria e fica simplesmente falando e esperando que eles memorizem é inferior ao conhecimento registrado nos livros. Mesmo que, na prática, alguns indivíduos aprendam com maior facilidade ouvindo do que lendo, esse tipo de aula é cansativo, chato. É um pé no saco.
Pensar criticamente, refletir, aprender é criar. O pensamento que não envolve um processo criativo onde o sujeito integra o conhecimento em si mesmo (mesmo que seja para criticá-lo) não é aprender. É memorizar. Para isso seria mais adequado o indivíduo instalar um disco rígido na cabeça e “armazenar” a informação.
Sabe, may, eu sou da opinião de que faríamos muito pela sociedade promovendo autonomia e criatividade. Promovendo, através disso, o desenvolvimento da individualidade dos indivíduos ou, como você verá no livro da Nise, o processo de individuação. Promovendo não o conhecimento como forma de reformar a sociedade, mas de o indivíduo tomar consciência de si mesmo. Porque há um conflito entre uma forma chata de saber, onde o indivíduo apenas memoriza informações por obrigação, e uma forma vazia de entretenimento, que é justamente o momento em que ele esvazia a mente. Em nenhum momento o indivíduo é criativo, em nenhum momento alguém o permite ser criativo, ninguém o instiga a isso. Só vemos um monte senhores da verdade, dizendo que obra são obrigatórias e coisas do gênero.
Pra mim, a pessoa pode ter escrito a maior abobrinha do mundo. Se ao menos ela se deu ao trabalho de pensar essa abobrinha sozinha, com a informação que ela possui integrada na própria mente, isso já é um milagre. Eu, afinal, comecei convencido de que semanas na verdade possuem 8 dias e de que morango é o exato oposto de chocolate! Por sorte eu era calado demais ou não houve ninguém pra me dizer que o que eu pensava é idiota e indigno. Não, eu segui pensando isso até comer o biscoito de doce de leite!
Pra mim não tem diferença se é um robô pragmático ou um robô acadêmico. Ainda assim ele só segue algoritmos, ele só repete padrões. É estéril...!
Nesse ponto eu fui dormir, então talvez fique evidente uma diferença na minha forma de me expressar. Tomara que não piore :p
Não texto, foi dito:
“diante da atual conformação do capitalismo, em que se destacam as inovações tecnológicas, seria grande a necessidade de uma educação ampla, formativa, que transcendesse o tecnicismo e o pragmatismo
(...)
“O reconhecimento do caráter histórico, dinâmico, inacabado e provisório do conhecimento, estendendo essa compreensão da mutabilidade e historicidade para a análise da sociedade e da própria humanidade. (MACHADO, 1995, p. 84)”
Aqui parece haver um juízo pragmático implícito. À saber, que a educação ampla e formativa seja de utilidade para o desenvolvimento tecnológico, auxiliando no avanço da ciência. Para isso, seria necessário tomar consciência da verdadeira “fragilidade” do conhecimento, para que a ciência e a tecnologia possam se desenvolver de maneira apropriada, sem cristalização paradigmática. Só que há um pequeno problema: o avanço da tecnologia ocorre com rupturas. Novos princípios físicos, por exemplo, fundamentam novas formas de tecnologias, mas esses princípios não surgem da extrapolação de uma teoria mais antiga, tampouco da observação de novos fatos. Antes, uma teoria antiga é literalmente demolida para ser substituída por outra, que trará novas implicações tecnológicas. E, de um modo geral, essa mudança se faz pratica apenas lentamente: no início, tecnologias surgem com a combinação prática dos dois princípios, até que um substitua completamente o outro.
Só que há um problema todos os paradigmas possuem implicações técnicas e tecnológicas próprias. Um indivíduo com os paradigmas físicos da época em que Nikola Tesla não tinha inventado a corrente alternada (que usamos hoje em dia) usava a corrente contínua e fazia a sociedade funcionar com esse princípio. Naquela época, de nada adiantaria reconhecer que esse ou aquele paradigma é frágil em nível histórico e/ou ontológico: para ele trazer luz pra casa das pessoas, era o paradigma daquela época que ele usava.
Não adiantaria para um empresário, por exemplo, conhecer o contexto histórico da economia e ter lido O capital, de Marx. O que ele precisa saber, onde ele precisa inovar, são coisas que existem no nosso Zeitgeist² de agora. Não é relevante para quem vai produzir saber uma coisa assim. A relevância desse conhecimento está mais na hora de entender o contexto local para a implementação de políticas públicas. Mas para a educação de todas as pessoas isso está longe de ser necessário: é bom que aqueles que vão precisar desse conhecimento o possuam, e vantajoso que quem possua interesse também o possua. Nossa sociedade é dinâmica demais para se afirmar que existe algum tipo de conhecimento teórico que todos deviam ter, algum livro que todos deveriam ler. Nem todas as pessoas querem analisar a realidade, e é lícito que elas façam o que bem entenderem...
“A assunção da educação geral como um bem intrínseco e não como algo que se determina em função de seus fins. A verdade mais nobre seria a procura do conhecimento enquanto tal, de modo que a Universidade se caracterizaria como lugar da procura da verdade e, só depois, como o lugar de sua aplicação; as faculdades profissionais só têm razão se submetidas ao cultivo da ciência.” (PEREIRA, 2008, p. 70).
É aquilo que falei. Procurar a verdade é bonito, mas não enche barriga. É bonito, mas fútil, porque há tanta multiplicidade paradigmática que não vejo como alguém pode realmente acreditar que há uma verdade. Existem universidades que formam trabalhadores e outras que formam cientistas e pensadores. E, até onde sei, há um equilíbrio entre oferta e procura desses cargos. Que a educação como bem intrínseco seja apresentada por professores (como com freqüência o é) e que os alunos decidam se isso é verdadeiro ou não.
“A compreensão da formação profissional incorporando a perspectiva de cidadão instruído, culto e ético. A educação completa ofereceria mais que conhecimentos e habilidades pragmáticos, contribuindo para que o indivíduo seja ativo e reflexivo. O princípio básico dos estudos de educação geral encorajaria a participação na vida social como pessoa livre, instruída e culta (PEREIRA, 2008, p.70).”
Ficou vago. Na prática, o que isso significaria? se todos nós lêssemos a constituição, conhecêssemos a lógica da luta entre as classes. O que isso mudaria na nossa vida? a mim parece que não há consciência que seja mais poderosa do que as exigências do mercado. A mobilização popular, por mais que seja bela, é economicamente desastrosa. Vivemos num mundo de escassez e precisamos de um mercado. E o mercado demanda esse tipo de educação. Isso é feio e desagradável, mas fazer o que? (não é uma pergunta retórica)...
É aquilo que eu falei: se 40% da humanidade fosse precisamente como eu, passando todo esse tempo lendo e estudando coisas teóricas, nossa população nunca poderia ter se tornado tão grande. Porque nossa população é muito grande e não é necessário que tantos indivíduos produzam conhecimento dessa natureza. Temos nossa demanda e nossa oferta. Um desequilíbrio aqui seria economicamente desastroso. Aliás, se todos fossem intelectuais, nossa espécie desapareceria. O pragmatismo não é uma praga. É desumano, feio, irritante, mas completamente necessário á nossa sobrevivência.
Eu mesmo lendo isso (se é que chegaria a ler tudo) ficaria irritado. Tal nível de pragmatismo me dá nos nervos, precisamente porque não está na minha natureza, no meu modo operante, aceitar coisas assim. E a humanidade, apesar de que em grau pequeno, ainda necessita de alimento para o espírito. Ainda é crucial pararmos para ouvir uma música, lermos um romance, assistirmos um filme (que não seja clichê de Hollywood). No fim do dia, o ser humano ainda quer filosofia, ainda quer arte, ainda quer sua humanidade. E, segundo minha visão, isso é mais freqüente hoje do que antigamente, especialmente por conta da Internet e da diminuição da escassez.
De fato, a indústria cultural produz merda diariamente. E de fato cria produtos que mais esvaziam a mente do indivíduo do que o fazem refletir. E realmente eu consideraria preferível que programas que instigam que fazem o indivíduo pensar, tomassem frente. Mas a verdade é que não há demanda. Esse não é o nosso Zeitgeist. Pessoas comuns gostam de coisas banais e comuns, e não seremos nós a moldar suas mentes. Sim, o mundo está uma merda, vemos coisas revoltantes acontecendo todos os dias. Coisas que não fazem sentido³. Só que é isso que temos...! E felizmente, para nós, há espaço para manifestarmos nossa arte e o nosso pensamento, não?
Nossa função aqui é conservar o espírito humano e deixá-lo sempre disponível a quem quiser procurá-lo. Tenho para mim que conforme a escassez for diminuindo através do avanço tecnológico, os trabalhadores sairão do setor de produção (que produzirá mais com custos menores) e passarão para o setor de serviços.
E não é a educação parte desse setor. Na prática, creio que só precisamos viver mais e que a proporção entre o número de professores e alunos mude. Um professor de ensino médio com uma turma de 35, 40 alunos, simplesmente não tem como transmitir o conhecimento de maneira dinâmica: o tamanho do grupo inibe qualquer manifestação individualizada.
Por enquanto, as coisas permanecerão como estão. Creio que é possível que vejamos essa mudança começar no nosso tempo de vida. Daqui a uns 50 anos, quando a biotecnologia estiver mais desenvolvida, teremos uma diminuição dramática na escassez. Aí a produção será mais barata e teremos que nos preocupar cada vez menos com a sobrevivência, tendo mais tempo para a reflexão.
Isso me leva à parte mais mística das minhas opiniões, que talvez pareça ridícula ou revoltante.
Estamos num período de transição na nossa sociedade, onde valores como o conhecimento, a liberdade e o amor estão se tornando mais... Psicologicamente imperativos. Temos o Movimento Zeitgeist⁴. Inclusive escrevi um texto⁵ a respeito disso, onde expus que nosso psiquismo está se alterando em nível coletivo, especialmente por conta das mudanças climáticas. Aconselho que você dê uma olhada nesse material quando tiver tempo. Nossa civilização está se emancipando e somos parte disso.
Estou honestamente de saco cheio. Considerarei um milagre se você chegar a ler isso. Se nos correspondermos, no entanto, você verá que esse texto dá uma introduzida (mesmo que mais ou menos incoerente) à minha forma de pensar, de maneira que se você ler mais alguma coisa, será muito mais fácil assimilar.
Anyways, chega dessa bobagem intelectual por hoje...
1)      Não sei se dizem isso por aí, mas por aqui isso significa que um jogo de bolinha de gude valia a bolinha. Se você é acertado jogando à vera, você perde sua bolinha.
2)      O espírito do tempo, o conjunto de conhecimentos de uma determinada época.
4)      Movimento que surgiu depois do lançamento de dois documentários na Internet por Peter Joseph:
Esses vídeos foram apresentados num festival artístico e depois postados na internet. Incrivelmente, logo nos primeiro meses eles tiveram dez milhões de vizualizações e ficaram muito populares sem nunca ter sido publicado na TV.

Acerca do “sine qua non” do estabelecimento de uma forma de pensar



Abandonei esse blog por uma série de razões, dentre as quais apenas uma eu considero relevante pro momento. Imaginei que não havia leitores e que, portanto, eu deveria buscar outros meios de comunicação, especialmente interpessoal em fóruns.
No entanto, porque uma pessoa pareceu interessada em continuar lendo as besteiras que escrevo aqui, decidi produzir mais uma de minhas racionalizações.
Aqui, falarei do elemento psicológico básico através do qual uma forma de pensamento se estabelece.
Logo adianto aos mais ingênuos que esse elemento não é a razão, não é a verdade e, tampouco, uma soma de ferramentas de manipulação.
Isso porque a razão em si é um conceito nebuloso e guiado por critérios. Esses critérios variam entre os indivíduos e, portanto, acabam surgindo diversos conceitos do que vem à ser a própria racionalidade. Daí já é estúpido alguém dizer que fulano está com a razão e seu oponente não: porque ambos estão com a própria razão e se não possuem critérios próximos jamais poderão chegar a um acordo obre coisa alguma. Como não há um critério racional que esteja acima dos demais e que, assim, possa regular e explicar a todos, não podemos presumir que a razão é o Sine qua non. Antes, é uma ferramenta tão eficaz quando a manipulação, propaganda, etc. que atinge um certo grupo de indivíduos e nada mais.
A verdade é um termo absurdo. A suposição ingênua de que, através da razão, encontraremos a verdade é completamente egocêntrica. Isso porque, em primeiro lugar, se presume que só existe um critério real para guiar a razão, e, em segundo, porque se presume que só há uma “verdade” a qual poderíamos chegar dentro desses critérios. Como já disse, é possível selecionar diferentes premissas de pensamento que são, em si, irracionais (não podem ser provadas ou refutadas e são aceitas como auto-evidentes quando na verdade não são.). Além disso, mesmo dentro de certas premissas, é possível o indivíduo entrar em contato com N elementos empíricos e, através deles, chegar a diferentes “verdades”, não havendo, portanto, nenhum motivo para que se torne legítima a afirmação de uma “verdade”.
Mas meu objetivo aqui não é falar o que não é.  O que pretendo é determinar a principal razão pela qual uma forma de pensar se estabelece.
Mas o que quero dizer como uma forma de pensar?
É simples. Falo de um conjunto de premissas que orientam ações e pensamentos aceitos por um grupo e pessoas diferentes entre si.
Para isso, vou recorrer ao pensamento cristão. Para quem está familiarizado com o blog e sabe que já critiquei a estrutura do pensamento cristão, se preparem pra uma surpresa. Segundo certas premissas, estarei, aqui, usando o cristianismo como um exemplo “positivo” até certo ponto. Provavelmente esse texto poderá refutar um argumento comum entre os cristãos, que usa Deus para explicar a razão pela qual essa religião se multiplicou. No entanto, também refuta uma afirmação minha, de que o cristianismo se reproduziu por ser um tipo eficaz e bem elaborado de praga.
Atualmente há o ateísmo, com suas próprias premissas com uma própria cosmologia plural (até certo ponto), mas no passado não existia e as pessoas não se sentiam revoltadas por isso.
Aquino e Agostinho trouxeram as perspectivas Aristotélica e Platônica para o cristianismo, e diversos subgrupos se formaram dentro desse. Alguns acreditavam que a ceia era um símbolo de cristo, outros que era efetivamente a carne e o sangue dele. Alguns acreditavam que Jesus era possuidor de suas vestes e outros que não. Claro que todos dentro da premissa de que Deus existe, Jesus é seu filho, etc., mas havia uma enorme variedade. Mente quem sai por aí dizendo que era proibido pensar na idade média. Ficam imaginando que as pessoas daquela época pensavam como as de hoje, que vão além das premissas cristãs (devo lembrar que falo da Europa?).
Mas a verdade é que o homem da época do cristianismo não pensava como o moderno, não lia Richard Dawkins e possuía uma ciência bem conformada dentro dos padrões da teologia. Na verdade, na época eles recorriam com freqüência à Deus como hipótese.
Gostam de usar o julgamento de Galileu como exemplo, mas a verdade é que, segundo o paradigma da época, ele estava refutado. Além disso, ele não tinha nenhuma evidência para o que dizia que não seu telescópio questionável e sua imaginação.
Mas voltando ao assunto, porque é que o cristianismo se firmou como uma forma de pensar dominante? É bem simples: porque não havia um topo, alguém pra decidir por último o que era verdade. Havia diversas formas de se pensar dentro do cristianismo, e os indivíduos conflitavam seu pensar dentro dessas premissas. Não só isso: havia espaço para uma enorme variedade de tipos psicológicos e vivências. O pensamento cristão se multiplicou porque permitiu que as pessoas manifestassem as mais diferentes características do homem na época, não porque as moldou.
Quando Agostinho e Aquino trouxeram o pensamento dos gregos para o cristianismo, isso permitiu que essas formas de pensar o mundo existissem dentro do cristianismo e que, assim, o cristianismo englobasse dentro de si os tipos mais diferentes de pessoas.
Apesar das diferenças culturais, das diferenças psicológicas e até as políticas, o cristianismo conseguia englobar todo o pensamento europeu daquela época.
Até que, é claro, o pensamento quebrou as barreiras do cristianismo, e esse não acompanhou tão rapidamente as mudanças. Claro que hoje há cristãos evolucionistas, mas certamente o cristianismo não possui mais a força hegemônica de antes.
Isso porque atualmente não há mais como se formarem pensamentos. Temos internet e diversos meios de comunicação que não podem ser controlados apenas por um grupo com uma forma de pensar. Tem tanto a sabermos, tanto para pesquisar, que dificilmente alguma ideologia conseguirá quebrar a barreira de todas as outras.
É sempre ingênuo, no nosso tempo, falar de uma forma de pensar ortodoxa na sociedade, porque parece que a cada canto que você vá, acaba encontrando alguém que pensa diferente.
No entanto, aquilo que deu força ao cristianismo pode dar força a outras formas de pensar.
Temos como exemplo a psicologia do Inconsciente (de Freud, Jung, Reich e outros) e o Marxismo.
Em ambos os casos, as premissas básicas de pensamento se multiplicaram e foram interpretadas de diversas maneiras. Dentro da psicologia do Inconsciente (e não da psicanálise, porque nessa Freud tratou de expulsar alguns que pensavam diferente) o pensamento se multiplicou para a arte, para a concepção de sociedade e diversos aspectos da vida humana. Não só isso, como, em cada um desses aspectos, sob diversas perspectivas. O pensar em psicologia do inconsciente se tornou amplo e, portanto, acabou se difundindo.
No marxismo é a mesma coisa. Há vários “marxismos” diferentes, que apresentam diversas perspectivas e relação com diversas áreas da vivência humana. Interessante, aliás, que muitos marxistas também são pensadores da psicanálise.
É isso e não razão ou a “veracidade” que torna uma forma de pensamento difundida.
O que nos leva à conclusão desse texto, que volta até os grupos revolucionários. Esses, no presente, costumam pensar que basta eles difundirem uma idéia. Pensam que as pessoas não pensam como eles porque ainda não os ouviu falar e que vão efetivamente mudar o mundo através do trabalho de difusão de idéias.
Ora, aí está o elemento da propaganda, que pode também envolver a transmissão de informações com técnicas de manipulação. Essas técnicas variam de estímulos ao Inconsciente à tentativas de atingir o sentimento do interlocutor com trilhas sonoras tocantes e imagens de impacto. Seja qual for a tática de manipulação, ela se anula pela multiplicidade das idéias na sociedade em si. Afinal, na presença de propagandas contrárias vindas de todos os lados deve haver algum critério interno de seleção. Senão nosso cérebro fritaria tentando processar tudo.
Daí decorre que de nada adianta ser um devoto e divulgar uma forma de pensamento se ela não é ampla o bastante. Também de nada adianta manipular, usar sua razão ou afirmar que se trata da verdade.
Na verdade, até mesmo quebrar a barreira lingüística é difícil: com freqüência falamos de coisas idênticas na forma de pensamento, mas expressamos com termos diferentes. Cada um entende os termos do outro de maneira diversa e acabam pensando que discordam quando na verdade uma “previsão” baseada em ambas as formas de pensar seria idêntica.
Não adianta mais pregar, não adianta mais achar que o mundo será mudado por um conjunto de idéias. Pelo contrário, é precisamente a variedade que torna o mundo mais humano. Porque por mais que um indivíduo seja Outsider, por mais que seja estranho, algo há nessa sociedade que seja adequado a ele. Não há como uma pessoa ser completamente estranha ao mundo.
Antes, se alguém conseguir estabelecer um meio de pensar hegemônico, todos se tornarão robôs, com uma intuição íntima de que algo muito errado se passa e uma sensação irreparável de completo desajuste.
Para uma ideologia nova se difundir e ser capaz de lidar com a variabilidade do ser humano, então, é necessário que não existam líderes. Exatamente isso. Porque jamais pode a visão de um homem apenas ser ampla para guiar um grupo quando ele se tornar suficientemente grande. A não ser que seja um grupo religioso. Nesse caso, no entanto, ao invés de emancipar a humanidade estaríamos trabalhando para restringir sua liberdade.
Não se pode pensar que um homem é inteligente o bastante para guiar um grupo grande, porque a quantidade de pessoas diferentes nesse grupo exige que o pensamento grupal englobe isso tudo. De outra maneira, grupo se torna uma massa e os membros perdem a autonomia. Tornam-se autômatos.
Antes, se houver diversos pensadores dentro da linha geral do grupo apresentando diversas perspectivas para entender as atividades do grupo, ele terá plasticidade para aceitar em si uma grande variedade de pessoas. Assim, o grupo pode ganhar um volume considerável e, sob diversos níveis, efetivamente mudar o mundo. Não quer dizer que transformarão o mundo num paraíso idealizado. Até porque, dentro do grupo certamente haveria divergências demais para isso. Mas certamente as linhas gerais do grupo se tornariam mais influentes.
Para isso, poderíamos pensar no Movimento Zeitgeist. Segundo fui informado, o movimento já possui meio milhão de membros por todo o mundo, mas a variedade interna é pequena.
Como linhas gerais desse movimento, vi as premissas de “mudança constante” e união. E aceito essas premissas, pois se adéquam à minha realidade psicológica.
No entanto, apesar de essas premissas serem bem amplas, as idéias apresentadas no movimento são estreitas. Com fixação pela forma comportamentalista de entender a mente humana, criam um “plano de ação” baseado apenas nela. Dizem que Jacques Fresco é um grande gênio, autodidata que já estudou as mais diversas disciplinas, mas não vejo nenhuma genialidade nessa cosmovisão limitada da psicologia dentro do movimento. Antes, há psicologias. Diversas perspectivas, muitas das quais eu conheço só de ouvir falar (de ler em livros de introdução à psicologia), e bem interessantes que tratam de fatos não observados na perspectiva comportamentalista acerca do ser humano.
O movimento é baseado num projeto, que lida com o ser humano apenas com a perspectiva comportamentalista e imagina que os seres humanos serão simplesmente condicionados a não serem destrutivos pelo meio. Dentro dessa cosmovisão, colocam que não será necessário haver leis ou política.
Ora, isso é completamente absurdo. Dizer que o ser humano não precisa de leis implica encerrar a discussão sobre o comportamento humano. Não sei de alguém que seja capaz de fazer isso. Sobre não haver política, nesse caso haveria totalitarismo. Dizem que as decisões seriam tomadas com base no método científico, mas, como Feyerabend aponta,

“O chauvinismo da ciência é um problema muito maior do que o problema da poluição intelectual. Pode até ser uma de suas maiores causas. Os cientistas nãos e dão por satisfeitos em organizar seus próprios cercadinhos de acordo com o que consideram ser as regras do método científico, mas querem universalizar essas regras, querem que ela se torne parte da sociedade em geral e usam de todos os meios à sua disposição – argumento, propaganda, táticas de pressão, intimidação, práticas de lobby – para atingir seus objetivos.”

Para mais além, pretendem que esse método seja acrescentado a um computador, responsável pelas decisões.
Com isso, eliminam a possibilidade do pensamento amplo, da integração da variedade humana. Para alguém ser ajustado nesse sistema, precisa acreditar no que eles dizem ser o método científico e também na concepção de psicologia deles, segundo a qual não haveria criminalidade sem a estratificação social.
Além disso, apresentam uma sociedade sem moeda corrente, o que já limita drasticamente as possibilidades para aqueles que aceitam os mais diversos tipos de monetarismo. Eles simplesmente presumem que o ser humano só usa o dinheiro como instrumento para lidar com a escassez e que, sem ela, não haveria necessidade de uma moeda corrente, porque haveria recursos abundantes a todos. Esquecem, no entanto, que alguns podem simplesmente discordar disso.
Para dar um exemplo, precisamos ver que, por mais que exista abundância de energia, comida, água e materiais de construção (para moradias), ainda assim haveria muitos bens e serviços na sociedade que variam em qualidade. Além disso, certamente existiriam funções, trabalhos a serem feitos. Ora, não há porque eliminarmos o ganho material como forma de motivação. Não é porque há abundância que um indivíduo não irá querer ter os produtos de melhor qualidade se ele trabalhar por isso. E, de qualquer maneira, uma sociedade que oferecer todos os bens de serviço em troca de nenhum trabalho desestimularia os seus membros de realizar o trabalho interno necessário. Isso, é claro, se estivermos lidando com a tecnologia de hoje e não com outra, imaginária, de um futuro próximo (daqui a 50 anos, digamos). E mesmo que exista tecnologia para no libertar dos trabalhos de produção de certos bens de consumo, ainda há profissões que não podem ser executadas por robôs e não vejo razão para negar com tanta veemência o tipo material de recompensa pelo trabalho.
Querem eliminar o dinheiro pelo fato de que, através dele, homens dominam os próximos para enriquecer por meios ilícitos, mas parecem nunca ter entrado em contato com o anarquismo de posse, por exemplo, onde isso não seria possível.
Além disso, a despeito do fato de que aceitam religiosos no movimento, preferem que o pensamento religioso não seja envolvido com este. Ora, foi do taoísmo que eu tirei minha premissa de mudança constante. Por causa de uma vivência religiosa e nada mais. A outra, a da união, também tirei de outra religião. E, a despeito do fato de que o pensamento dessas religiões poderia acrescentar muito ao movimento, Joseph declara que o movimento não admite em si pensamento religioso. Mas o pensamento religioso é tão humano quanto o científico ou qualquer outro e não tem sentido abrir mão dele dentro do movimento.
E certamente não são só esses questionamentos a serem colocados dentro das premissas de mudança constante e união. Esses são só os meus. Certamente muitos pensadores, pessoas que são, em si, diferentes, possuem diversas objeções em relação às idéias de Fresco e Joseph.
No entanto, o movimento possui uma cabeça, e por isso não admite em si a diversidade.
Mesmo que consigam reunir uma comunidade de pessoas que pensem de maneira análoga e construam uma cidade-modelo, e que essa cidade gere renda e se desenvolva (o que é pouco provável), logo na segunda geração, os filhos dos pioneiros, pensarão diferente e não poderão se adaptar ao ambiente. Para isso bastaria eles terem contato com o “mundo lá fora”.
Uma ideologia que possui líderes e não variedade de pensamento está fadada a se sustentar apenas através da fé. Aí entrará em conflito com todas as outras ideologias baseadas em fé, se tornará uma convicção rígida e entrará em contradição com o próprio pressuposto de mudança constante.
Em suma, qualquer forma de pensamento, seja nova ou não, só pode se estabelecer de maneira efetiva se englobar a variedade de indivíduos. Caso contrário, será só mais uma forma de fanatismo vazio em termos de implicações práticas na mudança da sociedade e também em estímulo da criatividade e do desenvolvimento humano.

Meu irmão e eu no reino das trevas


Eu estava no inferno novamente. Dessa vez eu cheguei até a mesa onde Mefistófeles e o velho estavam me esperando. O velho estava tenso e eu sentia que possuía uma mensagem em mim para ele. Não sabia muito bem que mensagem, mas tinha que deixar fluir das profundezas do meu ser.

-    Porque, irmão? Porque você me abandona? – perguntou o velho.
-    Não te abandono. Você está enganado.
-    Você está me deixando sozinho. Você fez um pacto de que não me deixaria sozinho aqui!
-    Irmão. Você deixa a si mesmo sozinho. O tempo de aprendermos sobre a destruição acabou. Precisamos agora continuar nosso caminho. Precisamos deixar a corrente nos levar para novas possibilidades.
-    Eles te contaminaram. Você devia ter impedido isso.
-    Não. Não devia.
-    Eu não posso continuar sem você. Será que não entende? Nós representamos o equilíbrio do universo!
-    Você está perdendo o contato com sua essência, irmão. Não percebe? Mefistófeles não é você. Não é a sua função manter o equilíbrio. – eu falei sem muita consciência do que isso queria dizer.

Mefistófeles me jogou a carta e eu peguei com a mão direita. Quando a passei pra esquerda ela desapareceu. O anel a destruiu.

-    Viu? Em breve esse anel terá te profanado tão profundamente que você já poderá voltar ao inferno. Eles te querem como um escravo, você sabe disso.
-    Não. Sou eu, irmão. A minha essência mudou nesses milênios. Eu já não sou aquela criatura destruidora que fez o pacto de servir a desintegração. Nem você.
-    Você está perdendo o juízo. A energia deles está tomando conta do seu ser.
-    Não. A totalidade está tomando conta do meu ser.

Eu levantei minha mão direita e mostrei a ele. Minha pele começou a envolver o anel de Mefistófeles. Ele se acoplou de tal maneira em mim que nos tornamos um.

-    Você é um só. Como pode ter essas forças dentro de si? Como pode ter todo o universo na sua alma e sua alma em todos universo? Como!?
-    Eu parei de perguntar como e deixei o meu corpo flutuando no cosmo. Aí os fluidos da natureza, os que caminha para a totalidade, me mostraram o caminho. Não é um caminho a ser controlado e entendido, mas a ser sentido e vivido. É o caminho para o infinito.
-    Então era esse o convite. – disse o velho ao jogar as cartas na mesa.

Mefistófeles não falava sequer uma palavra. Ele não é um ser humano, mas uma força do universo. Não pode deliberar. Ele só é.

-    Você também o recebeu, irmão. Junte-se a mim. – disse eu com esperança.
-    Não posso. A minha alma e Mefistófeles estão fundidos. Eu fiz isso para que você pudesse ser livre.

A mesa voou e eu vi a perna direita dele. A partir do joelho ela deixava de ser a perna dele e passava a ser a de Mefistófeles. Os dois permaneciam na mesa daquela maneira porque suas pernas estavam presas como que cirurgicamente. Por causa daquilo ele só poderia trilhar o caminho do diabo. Uma voz rouca, a minha voz, gritou perguntando quem eu era. Eu perguntando a mim mesmo como se eu fosse outra pessoa.

-    Meu tempo está acabando. Irmão, Encontrarei gaia. A encontrarei e você será livre. Eu prometo.

O velho me olhou com um olhar de quem não gosta da idéia, mas que ao mesmo tempo parece aceitá-la. Fui puxado para fora do inferno e o portão se fechou. Não seria pelo portão do tártaro mais o meu caminho. Tantas vezes o trilhei, mas isso tudo ficou no passado. Agora era a hora de buscar as respostas. De encontrar Gaia. Mas o mundo balançou e eu fui convocado à realidade.

Breves considerações sobre epistemologia e comunicação.


Pretendo, com esse texto, dar uma introdução a um tema extremamente amplo: a construção e o funcionamento de paradigmas racionais e sistemas de valor. Apesar de separar os termos para melhor me expressar, saliento que, na linguagem do pensamento, não existe tal separação: paradigmas influenciam valores e vice-versa.

O conhecimento transcende a informação, porque ele vai para além de só memorizar dados: ele é o resultado de julgamentos racionais e sentimentais acerca de determinada informação. A informação, por outro lado é algo destituído de juízos por si mesmo.
Para desenvolver o raciocínio, vou separar (por didática) dois tipos de pessoa: aquelas que absorvem informação e aquelas que absorvem conhecimento do mundo externo. Claro que não existe uma pessoa que se fixe apenas num pólo, pois isso é completamente impossível na prática em ambos os casos.

Alguns indivíduos, ao absorverem um conhecimento, absorvem também o juízo de valores e das premissas racionais de quem transmite tal conhecimento. Exemplos variam de propaganda à pregações religiosas. Quando um religioso ouve e acata o conhecimento transmitido por seu líder ele passa a se encaixar naquele modelo de pessoa que absorve conhecimento do mundo externo: seus paradigmas e valores vêm de fora e isso caracteriza extroversão. No entanto, como salientei no primeiro parágrafo, não há como ser totalmente passivo o tempo inteiro: se o mesmo líder decidir se opor a tudo o que explicitou até o momento é provável que o mesmo religioso se negue a aceitar a mudança, alegando que o líder perdeu o juízo ou está, de alguma forma, possuído (fora de si).

Outros indivíduos absorvem apenas informação, buscando filtrar os juízos e as premissas usados pelo autor para “purificar” a informação. Isso pode, com efeito, distorcer o pensamento alheio ao adaptá-lo aos próprios paradigmas. Apesar disso, por mais que esse tipo de indivíduo queira se libertar dos juízos do outro, todos os seus julgamentos são fruto dessa informação que ele absorve do mundo externo.

Entre os dois tipos descritos eu poderia criar uma enorme quantidade de sub-variáveis, mas não é minha intenção com esse texto criar uma tipologia psicológica (se fosse eu estaria sendo irresponsável).

Na verdade esse texto não é revolucionário nem para o mundo externo da produção de conhecimento científico e tampouco ao meu blog. Já discuti sobre epistemologia e em diversos posts desse blog. Nada mais escrevo aqui do que a forma de comunicação intelectual que considero mais eficiente.

De início cito uma lembrança de um vídeo que me trouxe algumas reflexões racionais e éticas. Um pálido ponto azul (the pale blue dot) que, se não me engano, é baseado num texto de Carl Sagan.

Falando superficialmente, o que o texto disse foi o seguinte: isso que vemos como imensidão e chamamos de mundo não passa de um pálido ponto azul no meio do universo imenso. Noutras palavras, o texto quis dizer que o nosso mundo não significa nada e que, conseqüentemente, nós também não significamos nada diante da imensidão do universo. Uma mensagem que salienta a necessidade de humildade.

Eu, ao entrar em contato com a informação acerca da dimensão do mundo, pelo contrário, não pensei que não somos nada, mas que somos tudo. Noutras palavras, do ponto de vista ontológico, eu vejo todas as coisas como sendo inseparavelmente conectadas ao ponto de poder dizer que nós somos o universo e vice-versa.

E no final, por mais que tenhamos feito uma viagem de raciocínio diferente, chegamos à conclusões parecidas. Afinal, se todos são um, apenas um indivíduo não pode se considerar como algo à parte (melhor), especial, digno de mais. E a conclusão de Sagan foi parecida: tudo aquilo a que damos valor não é assim tão especial. No final das contas, cada um de nós à sua maneira, estávamos julgando e condenando idealismos e atrocidades cometidas pelo ser humano em nome de algo “especial”.

Nossos pensamentos percorreram caminhos diferentes por causa de uma pequena premissa: ele presumiu que o pálido ponto azul (isso ficou implícito em julgar sua insignificância) é separado do resto do universo e eu que esse ponto é o universo. Noutras palavras, eu vejo tudo como um e ele como uma grande multiplicidade de diferentes e separados fatores.
É claro que as visões, ao menos do meu ponto de vista, são de caráter pessoal: ele olha e ver diversos organismos, eu olho e vejo um só.

Se ele não tivesse emitido seus juízos eu jamais teria pensado a mesma coisa que ele. A pura informação me levaria a conclusões totalmente diferentes, a despeito do fato de que ele acredita que qualquer um que veja tal coisa deva chegar à mesma conclusão que ele.

Daí decorre que nem sempre a mensagem (que existe em forma de pensamento) é traduzida perfeitamente para o agente passivo do processo de comunicação.

Por isso que saliento a importância da exploração de todas as premissas utilizadas na construção de um pensamento bem como a forma através da qual se construirá o conhecimento tendo por base tais premissas (porque uma premissa pode levar a diferentes conclusões). É sempre interessante criar esse itinerário para a expressão do pensamento porque isso facilitará a compreensão (trazendo críticas mais fundamentais e produtivas) como também eliminará a possibilidade de o pensamento ser interpretado como algo imperativo: afinal, assim o leitor tem a possibilidade de questionar fácil e claramente o fundamento do pensamento estando certo de que não está cometendo algum equívoco interpretativo (assim, se torna positivo para ambos os tipos que eu defini). Além disso, dessa maneira uma pessoa que se guia por premissas diferentes e por uma epistemologia diversa pode absorver a informação como o ponto de vista do autor ao invés de simplesmente discordar e não absorver por considerar um mero erro.

Se tal “exploração” das premissas e do método epistemológico não for feita detalhadamente, provavelmente aqueles que não acreditam nas premissas do autor vão começar a discordar do texto no começo e desconstruirão o conhecimento ao invés de agregá-lo e construí-lo.

Depois que tal conflito se inicia com a desconstrução, fica difícil dizer quem distorce o discurso de quem: o autor pode estar distorcendo a crítica e o crítico distorcendo o discurso do autor. Se inicia um “duélogo”.

Um ponto importante e salientado em outros posts é que seja exposto, sem piedade, o caráter metafísico inerente da metafísica escolhida. Do ponto de vista absoluto, sempre há algo no nosso pensamento que é injustificável(de origem psicológica pessoal). Por maior que seja nossa rigidez, o conhecimento é um fluido. Isso se aplica especialmente quando estudamos o ser humano com sua plasticidade. Afinal, não se pode definir um pensamento completamente.

O paradigma ao qual eu fiz alusão sobre a inseparabilidade é um juízo de valor sentimental e traz diversas influências sobre meu pensamento: Ele torna inacetiável o sistema de disputas do capitalismo, já que, segundo tal ponto de partida, eu estaria entrando em conflito comigo mesmo ao conflitar com o outro. Daí decorre que uma visão poilitico-social adequada a esse ponto de partida seria aquela em que ninguém está acima de ninguém (na prática) e que todos cooperam voluntariamente pelo bem coletivo (porque o coletivo coopera para o individual).

No entanto, seria irresponsabilidade substituir o paradigma mecanicista (divisibilidade, simplicidade e estabilidade) por esse de modo absoluto. Isso porque o paradigma citado possui implicações práticas que saltam aos olhos. Por mais que eu acredite que a matéria é, em essência, feita de não-matéria, não há como lidarmos com ela, na prática, partindo de tal premissa (não no presente momento). E esse é um forte argumento sobre a validade do paradigma antigo. Só não é possível, com esse, explicar algo relativo ao convívio humano, porque as premissas simplificadoras simplesmente não dão conta da plasticidade de um pensamento (que não é matéria e nem energia).

Creio que tal forma de expor um pensamento o torne mais inteligível e ordenado, sendo essa uma forma aceitável de expormos nosso pensamento através dessa linguagem deficiente.

Sobre o fundamento do mal e seu funcionamento

Percebi que há um princípio para o mal que vai além de todas as formas de corrupção. Essas, conforme percebemos, se guiam em determinadas direções em busca de certos objetivos, mas o mal em si não é pessoal. É tão impessoal quanto universal: todos os homens têm essa essência maligna em si.
Esse fator sombrio que reveste os homens é visto e tratado por eles de formas diversas. Para alguns, com o paradigma maniqueísta, esse mal é projetado no mundo externo. Assim, o mal reside no Diabo, no capitalismo, no comunismo, no fascismo, na religião alheia, etc.
É difícil para um religioso que acredita numa figura como a do Diabo assumir que essa “entidade” possua o mesmo direito de perdão. Pelo contrário, o paradigma deles é: “Satanás, debaixo do meu pe”.
Isso ocorre basicamente porque essas pessoas precisam de um objeto externo para direcionarem seu ódio. Precisam, acima de tudo projetar a própria essência maligna num objeto externo, já que seus paradigmas racionais negam o mal e sua consciência não parece estar pronta para confronta-lo.
Não posso deixar de citar o caso de um indivíduo chamado Lindomar, que ficou célebre na internet por ter atacado uma empregada que havia agredido crianças das quais tomava conta. Ora, não há nenhuma diferença entre o ataque de Lindomar e o da empregada a não ser o fato de que, socialmente, Lindomar estava justificado e foi apoiado em massa.
Isso porque quem não tem consciência do mal dentro de si necessita depositar o que há de maligno nalgum vilão e, especialmente, precisa descarregar sua raiva contra esse vilão. Como tais projeções são irrefletidas, é comum que o vilão não seja de fato um vilão.
Outros, por outro lado, se identificam com esses complexos sombrios em suas mais diversas formas, e, motivados por essa identificação sucumbem ao domínio de impulsos incontroláveis e destrutivos.
Dessa forma, se identificam com algum tipo de mal: alguns são assassinos, outros ladrões, outros hipócritas, outros compulsivos por poder. Criam racionalizações para justificarem suas atitudes. Por exemplo, há ladrões compulsivos que alegam a necessidade do roubo, há assassinos que encontram as mais diversas justificativas para dar continuidade aos seus impulsos de assassínio, e assim em diante, todos encontram sua justificativa.
A partir disso fui levado a concluir que os criminosos e aqueles que se sentem indignados com esses são movidos justamente pelos mesmos impulsos: os impulsos sombrios.
Quem rouba de ladrões é ladrão, assim como um matador de assassinos é um criminoso. Se deixarem de tentar justificar seus impulsos com eventos externos perceberão que participam de um conflito em que um alimenta o outro.
Esse é um dos motivos pelos quais a guerra no oriente médio não acaba, e também é um dos motivos pelos quais o bandido odeia e polícia e a polícia o bandido. A polícia está socialmente justificada para publico (ou parte dele) quando ataca bandidos, e esses estão justificados entre si.
O que observei é que o que alimenta esses conflitos não são apenas as circunstancias, mas apenas o fato de que eles querem algo para odiar, algo para destruir. Afinal, por mais que sejam precárias, há escolhas para as pessoas: ela decidem entrar num dos lados da guerra.
Mas o mal em si é impessoal. Ele não visa destruir essa pessoa, essa organização ou mesmo esse mundo¹. É apenas uma força natural que se contrapõe com o bem direta e indiferenciadamente. Tomar consciência de que seu ódio não precisa de um inimigo, mas que na verdade ele existe por si só ajuda o indivíduo e controlar tais impulsos². Temos, na nossa época, diversas ferramentas para deixarmos fluir tais impulsos, tais como jogos eletrônicos, manifestações artísticas diversas e artes marciais. Dessa maneira, podemos matar, roubar, escravizar civilizações e cometer diversas outras atrocidades através do ambiente virtual, e, dependendo do indivíduo, isso pode bastar para aliviar suas tensões malignas, sendo uma via de saída. Isso, por outro lado, também pode despertar o mal do indivíduo, trazendo comportamentos destrutivos: Só depende do indivíduo em si. Eu mesmo, aliás, costumava apreciar um jogo repleto de violência, no qual minhas próprias pulsões agressivas extravazavam. Hoje em dia, tais pulsões saem em contos e poesias como minhas obras de arte, mas poderia sair em pinturas, música, dança, escultura e qualquer tipo de arte.
Só que essa é apenas uma forma de amenizar o problema, pois assim ninguém precisa sofrer com os efeitos práticos do nosso mal. Enquanto não entendemos o significado do nosso mal, não o integramos e continuamos sujeitos a sermos dominados por eles.
Ora, para falarmos do lado sombrio do ser humano não basta a racionalidade (que nos manteria num lugar moralmente cômodo). Não basta observarmos de forma sistemática o comportamento daqueles que apresentam tais condutas. Para termos uma visão mais completa e, acima de tudo, mais humana, precisamos dar lugar à subjetividade, fazendo uma viagem pelo próprio lado negro sem restrições morais maniqueístas. Somente através da consciência vivencial é que poderemos realmente entender o lado negro da existência. Assim, é bom que se tenha em mente que apresentarei certos modelos que não passam de ideais. Eu jamais aceitaria que esses ideais fossem plasmados em outras pessoas, pois o grau de subjetividade do próprio mal é enorme e não pode se enquadrado em padrões. Pretendo dar, no entanto, um fundamento teórico sobre o qual poder-se-á perceber pela intuição o mal se manifestando. Assim poderemos entender pessoas que se encaixam em tais padrões em maior ou menor intensidade, e também aqueles que são possuídos por um tipo de mal que vai para além desses ideais. Com o passar do tempo, espero ter acumulado experiência suficiente para dar uma boa luz e um bom fundamento intuitivo para a percepção do mal e para lidarmos com ele. Nesse momento, no entanto, o que escrevo é elementar: Chega a ser uma brincadeira.
Quero, também, ressaltar que o mal é, por vezes mascarado, mas que seus efeitos são sempre idênticos. Sempre resulta em mentiras, manipulação, assassínios, obsessão pelo poder, etc. Pode ser chamado de justiça, de revolução, de proteção contra ameaças ou de Nova ordem mundial. As facetas do mal não o revelam por inteiro, pois quando identificamos o mal apenas por uma de suas vertentes ele se torna nebuloso.
O mal, em primeiro lugar, não é unilateral. Pelo contrário, não só ele se confronta com o bem, mas também contra si mesmo. Assim, é provável que aqueles que proclamam uma revolução contra o mal sejam igualmente maléficos: todo ditador já foi um salvador.
Sempre que algo que consideramos maligno é combatido com o mau em si, isso quer dizer que o que vem em seguida não difere em nada do que veio antes. É apenas o mal, que vai além de “ismos”, sob uma nova mascara.
Um bom exemplo é a sucessão de presidentes americanos financiados pela wall street, que, um atrás do outro, são a esperança no começo e a desgraça no fim.
Ora, o ódio contra o mal é o próprio mal: só se pode realmente apresentar uma contraposição ao mal com o bem. De outra maneira, o mal se manterá através de sua natureza cíclica e tomando “ismos” como máscara.
As diferentes formas de manifestação do mal não se excluem, de maneira que um só indivíduo pode se encaixar em todos os “tipos”. Para isso, basta que ele tenha passado por uma experiência que tenha despertado o arquétipo em questão (como o de Hermes para ladrões) para que este tenha se tornado complexo.
É ingenuidade pensarmos que o bem simplesmente vence o mal: não podemos ajudar um raivoso ou um ladrão simplesmente dando amor a eles. Alguns nem concebem o que seja amor, outros podem apenas pensar que mentimos. Tratar o mal com o mal, por outro lado, só alimenta este: podemos remediar o mal usando mal, mas não elimina-lo. Logo que o indivíduo se perceber livre de vigia ele deixará sair seu mal, que foi ampliado com punições.
O processo deve ser lento, dando atenção ao tipo psicológico, à história de vida, aos tipos de comportamento (porque são simbólicos) e à receptividade do indivíduo. É provável que resistam, que mintam sobre estarem recuperados dentre outras falcatruas. Encher o peito porque uma pessoa se recuperou será, via de regra, ser apenas uma marionete de um complexo (autônomo) do individuo tratado.

“Sombra e luz, escuridão e claridade. Essa realidade dupla forma o interior do ser humano, que tenta negar-se a cada dia, enganando-se. A maioria das pessoas quer ser apenas luz. Recusam-se a identificar a sombra que faz parte delas. Religiosos de um modo geral falam de um lado sombrio, diabólico, umbralino, como se esse lado escuro fosse algo externo, ruim, execrável. Até quando negar a realidade íntima? Até quando adiar o conhecimento do mundo interno? Várias tentativas foram realizadas para conscientizar o homem terreno de que as chamadas trevas exteriores são apenas o reflexo do que existe dentro dele. Luz e sombra são aspectos internos do ser e não representam necessariamente um lado ruim e outro bom. A sombra não é pior do que a luz. Apenas faz parte de um equilíbrio universal ainda necessário para a visão do homem terrestre. São dois pólos de uma verdade interna, mais profunda. A sombra representa um aspecto transitório, porém necessário para o ser reavaliar-se ante os apelos da vida e as lutas que o fizeram ser o que é. Essa transitoriedade em qualquer plano da vida é uma etapa de aprendizado, adaptação, revisão dos valores adquiridos em lutas e desafios na grande jornada interna, pessoal, íntima. Portanto, viver esse lado de forma mais plena, conhecer-se mais profundamente, enfrentar-se sem mascarar-se talvez seja um caminho mais excelente — parafraseando o apóstolo Paulo — do que aquele que as religiões do mundo vêm oferecendo e que se reflete em fugas da realidade. Quando é proposta a realização de uma excursão aos domínios das sombras, espera-se que haja coragem para admitir que esse reino obscuro tem sua raiz dentro do próprio ser humano. Ele não existe à parte ou em separado. (...). Esse mundo de trevas e escuridão é algo muito enraizado no ser humano; não é realidade extrahumana, mas intra-humana. Se você evita conhecer-se, rejeitando que é simultaneamente sombra e luz, não há razão para prosseguir nesta jornada de descobrimento interno. Adentrar o umbral ou o astral é se obrigar a penetrar na própria sombra. Conhecer as estruturas internas das falanges do mal é, sobretudo, conhecer a própria capacidade de esparzir escuridão em si e em torno de si. Descer aos domínios das trevas e tomar conhecimento de seus métodos, de suas falanges, de sua força talvez seja uma forma de se revelar — trazer à consciência a própria realidade. Admitir-se, sem culpas e sem máscaras. O passado humano é fixo e dependente de conceitos religiosos deturpados e castradores, que foram amplamente difundidos e ainda estão arraigados no psiquismo, mesmo naqueles que afirmam rechaçar atualmente qualquer crença. Isso faz com que o ser humano, principalmente aquele mais apegado às questões religiosas, negue a verdade de sua sombra.”.

(Legião - um olhar sobre o reino das sombras – Ângelo Inácio (Robson Pinheito))
(http://www.scribd.com/doc/3506214/Legiao-Um-olhar-sobre-o-reino-das-sombras-Angelo-Inacio)

1 – Afinal, se destruísse precisaria criar um novo inimigo, porque, por mais que o odeie, precisa dele.
2 – A não ser, é claro, que ele não tenha um ego forte o bastante para suportar a pressão de admitir o mal. Nesse caso, talvez seja melhor apenas encontrar uma forma de canalizar as projeções para que, do ponto de vista coletivo, causem mais construção do que destruição (como já acontece nos casos em que o indivíduo odeia o mal) ao colocar o mal contra si da forma mais isolada possível.