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Um sonho sobre o grande segredo

Eu estava acompanhando minha mulher para o hospital. Ela estava possuída pelo demônio, conforme ditava a profecia. Apesar de no sonho ela ser minha esposa, eu não tinha nenhum sentimento por ela. Ela era uma estranha, eu nunca a tinha visto na vida. Ela era idêntica à figura de terror da menina no filme o exorcista, mas não me assustava.

Ela me pedia para ir embora, pois a possessão estava se tornando mais forte. E ela podia acabar tomando controle sobre meu corpo, demandando sexo. Eu disse que talvez toda a profecia fosse um erro.

Ela riu e disse: “Eu era como você. Não sabia qual era a real força nesse mundo. Ele já dizia, desde o começo, que quem comandava o mundo era a polícia britânica. A força especial inglesa. Eu não quis acreditar, como Jung, e todos os outros idealistas do mundo. Mas veja agora que isso ficou provado.”.

A mim não pareceu haver nada provado. Não entendi bem. Ela começou a se debater na cama pedindo mais cobertores. Pagou 1,50 por três cobertores e se levantou para ir buscá-los.
De repente eu estava na frente de uma construção gigante. Saímos do pátio externo por uma grade e fomos pela calçada até o outro lado, onde havia uma enorme catedral. Entramos e meu antigo professor de rede estava nos falando sobre tática de guerra. Ele nos disse que iríamos entender o grande mistério. A grande tática. Passamos novamente por fora do pátio e entramos na edificação logo ao lado da catedral. Havia lá dentro alguns prédios, e de repente eu soube que fazia parte do esquadrão de extermínio inglês. Minha missão era pegar uma faca e executar inocentes, mas eu não os vi em lugar nenhum. No lugar deles, aquele sítio de treinamento se tornou como um campo de batalha de verdade e me escondi com um fuzil. O inimigo estava a espreita.

Desci passei pelo corredor até a parte da qual os dois que me acompanhavam estavam incumbidos. Cheguei lá e havia duas pessoas, não lembro nada sobre elas. Me disseram: agora você entende o grande segredo¿ Ninguém extermina mais do que a polícia inglesa.
Eu fiquei espantado e vi os dois que me acompanhavam matando pessoas com facas. Um dele matou mais do que o outro. O outro disse: “porra, não tem como ele matar tanto”!

Eu não tinha certeza se aquelas pessoas eram reais ou se eram só hologramas para treinamento. Mas aí eu entendi o grande mistério: eram eles os grandes poderosos. Na verdade creio que meu espanto era por uma constatação mais profunda, a qual eu nem podia entender bem.

Dessa vez, ao invés de passar pela calçada, do lado de fora do pátio, eu passei dentro do pátio. Tinha um segurança parto e careca vigiando o lugar. Continuei andando até a frente da catedral, quando me surpreendi com o fato de que ela estava totalmente lotada. Outro segurança, também pardo se dispôs a nos contar sobre o que estava acontecendo.
Um dos meus companheiros de antes se sentou na cadeira de plástico dele, mas depois se levantou pelo olhar dele. Ele nos disse que havia começado a terceira guerra mundial. Que fizeram de tudo para evitar, mas não teve jeito. Pensei que era um reservista do exército (não sou), e que, portanto, iriam me convocar para a guerra. Chorei junto com todos no lugar. Estranhamente não era totalmente um choro de tristeza.

Enquanto a platéia ia saindo da catedral, eu buscava entrar e ver o que estava acontecendo. Todos se cumprimentavam, mas eram menores do que eu, então logo eu consegui ver o telão. Apertei a mão e muitos. Alguns a estendiam totalmente e eu tinha que descer minha mão para apertar a deles. Na tela, vi primeiro de relance o nome da Alemanha. Depois, o da França. Quando consegui um bom ângulo, vi a foto de Shiva e debaixo dele havia o nome Geusa (que eu também entendia como Deusa) e do lado oposto, com um X, havia o nome Ciência.

Era uma guerra entre Geusa e Ciência. Fiquei profundamente espantado.

Eu não sabia de que lado estava.

Acordei.

Sobre a vocação para a profissão de analista


O presente texto é um fragmento do livro psicoterapia, De Marie-Louise Von Franz. Para o leito intuitivamente atendo, ressalto a conexão profunda entre tais palavras e meu segundo livro Biohazard, a limpeza.

Profissão e vocação

Uma das questões mais difíceis no treinamento dos futuros analistas é a que concerne sua adequabilidade à profissão. Mesmo o programa mais abrangente que se dedique exclusivamente a fornecer o indispensável conhecimento, por mais necessário que seja, não pode transmitir às pessoas aquele "algo" que cria nelas uma emanação curativa. É verdade que a integridade moral e a necessidade de ajudar são indispensáveis, mas sozinhas não são capazes de produzir o resultado em questão. De acordo com minha experiência, todo aquele que dedicou longo tempo em sua análise ao reconhecimento consciente de seus problemas tornou-se atraente para as pessoas que o cercam. Elas sentem que ele possui algo que as atrai. Elas começam a apresentar seus sonhos e problemas para ele fora do ambiente profissional. Não obstante, parece-me que nem mesmo isso é sempre prova suficiente da adequabilidade da pessoa. Talvez ela tenha outras obrigações particulares a cumprir para as quais ela tem uma maior vocação do que passar adiante o estado de consciência relativamente mais elevado que alcançou. Lembro-me de uma mulher que estava nessa situação. Embora os pré-requisitos tivessem sido preenchidos, seus sonhos não pareciam apoiar a possibilidade dela se dedicar ao trabalho analítico. Somente depois que seus dois filhos saíram de casa é que ela teve o seguinte sonho: "Uma voz me dizia que agora eu podia construir uma piscina pública no pátio de minha casa e trabalhar ali como piscineira". Obviamente significava que agora ela podia tornar possível para os outros mergulharem nas águas profundas do inconsciente e garantir que eles iriam aprender a nadar nessas águas sem afundar. Ela se tornou uma prendada analista. É evidente que antes disso sua família precisava mais dela, o que não possibilitava que ela pudesse despender sua energia com terceiros.

Um problema difícil se apresenta pelos possíveis estagiários que são possuídos pelo arquétipo da cura. A imagem arquetípica do curador está relacionada com a do puer aeternus, filho-deus criativo da Grande Mãe. Número considerável de jovens que têm um complexo materno tem a tendência de se identificar com esse arquétipo. Eles costumam manifestar uma qualidade "maternal" como relação a todos que são indefesos ou sofredores, e freqüentemente também têm um dom para o ensino1. A partir desse ponto de vista, eles seriam adequados à profissão de analista; no entanto, por causa de sua identificação com o arquétipo, esses jovens sofrem de uma inflação. Nesses casos, é proveitoso compeli-los a empreender um sério estudo, talvez até estudos na área da medicina, porque a pessoa que está inflada não gosta de trabalhar; ela acha que já sabe tudo melhor e mais profundamente do que os outros. Um trabalho árduo, portanto, aliado aos necessários esclarecimentos através da análise, com freqüência tornam possível superar a inflação. É importante para essas pessoas compreender que é o consciente que, em última análise, causa e dirige o processo de cura, e que o analista é apenas aquele que ajuda e apóia o processo, e não seu autor. Gostaria de ilustrar o que acabo de dizer através do sonho vocacional de um jovem colega, que o teve na noite anterior à sua primeira sessão de análise. Um pouco mais cedo, na mesma noite, ele estivera meditando a respeito de o que efetivamente eram uma interpretação "adequada" do sonho e a análise no sentido junguiano. Ele sonhou então o seguinte:

Estou sentado em uma praça retangular e aberta, em uma velha cidade. Um jovem, vestindo apenas calças, senta-se diante de mim de pernas cruzadas. Seu tronco é forte e cheio de vitalidade. O sol brilha através do seu cabelo louro. Ele conta seus sonhos para mim e quer que eu os interprete para ele. Os sonhos são como uma espécie de tecido que ele estende diante de mim, enquanto os narra. Cada vez que relata um sonho, uma pedra cai do céu e acerta o sonho. Isso faz com que o sonho se despedace. Quando apanho os pedaços na mão, fica claro que são feitos de pão. Quando os pedaços do sonho se soltam, revelam uma estrutura interior que lembra uma escultura abstrata moderna. A cada sonho que é narrado, outra pedra cai sobre ele, e assim uma parte cada vez maior da estrutura básica, que é feita de porcas e parafusos com pontos de solda, começa a aparecer. Eu digo ao jovem que isso mostra como expor o significado de um sonho - ponto por ponto. Nesse ponto, surge a idéia de que a interpretação dos sonhos é a arte de saber o que jogar fora e o que reter, que também é a maneira como as coisas são na vida. A cena do sonho então muda. O jovem e eu estamos agora sentados de frente um para o outro, à margem de um rio largo e maravilhosamente belo. Ele ainda está me contando seus sonhos, mas a estrutura construída pelos sonhos assumiu uma forma diferente. Eles não formam uma pirâmide composta de porcas e parafusos, e sim uma pirâmide constituída de milhares de pequenos quadrados e triângulos. É como um quadro cubista de Braque, sendo porém tridimensional e vivo. As cores e as nuanças dos pequenos quadrados e triângulos estão constantemente se modificando. Expliquei que é essencial à pessoa manter o equilíbrio de toda a composição, sempre opondo imediatamente a uma mudança de cor uma modificação compensatória do outro lado. Essa questão de equilibrar as cores é incrivelmente complexa, porque todo o objeto é tridimensional e está em constante movimento. Olhei então para o alto da pirâmide do sonho. Não há nada lá. Esse é, na verdade, o único ponto em que toda a estrutura se aglutina, mas nesse ponto existe um espaço vazio. Quando olho para ele, começa a irradiar uma luz branca.

Uma vez mais a cena do sonho muda. A pirâmide permanece, mas agora é feita de material fecal solidificado. O topo ainda irradia. De repente compreendo que é como se o cume invisível se tornasse visível através do excremento sólido, e, inversamente, o excremento torna-se visível através do topo. Examino profundamente o excremento e percebo que estou olhando para a mão de Deus. Em um momento de iluminação, compreendo porque o pico é invisível: é a face de Deus.

Mais uma vez o sonho muda. A Dra. von Franz e eu estamos caminhando ao longo do rio. Ela diz, rindo: "Tenho sessenta e um anos, não dezesseis, mas os algarismos de ambos os números somam sete".
Acordo abruptamente, com a sensação de que alguém batera com força na porta. Para meu espanto, o apartamento está completamente quieto e vazio.

Na linguagem dos povos primitivos, esse é um "grande" sonho ou, na linguagem de Jung, um sonho arquetípico, que encerra um significado suprapessoal, universal. Como já o interpretei em "A auto-realização na terapia individual de C. G. Jung", que começa na página I, recomendo ao leitor que releia essa discussão. No atual contexto, o importante é apenas o fato de que no sonho o incosnciente vem à tona como ponto principal do tratamento, que a mão de Deus é vista no "humano, demasiadamente humano", e que o trabalho no desenvolvimento pessoal continua. Esse parece ser o aspecto crucial neste caso.

Esse grande sonho leva meu jovem colega para bem longe de seus temores e responde às suas perguntas com uma filosofia de vida, no centro da qual reside a questão da auto-realização. Toda a situação é apresentada como um acontecimento que ilumina meu colega. Isso não deve, contudo, levar-nos erroneamente a pensar que a análise não requer um esforço da parte do ego. Sabemos, a partir da experiência, que a análise envolve um trabalho árduo e requer muito conhecimento. Esse sonho, que apresenta o trabalho como mero acontecimento, importa em uma compensação, pois o meu colega, em sua ruminação que precedeu o sonho, levou seu ego e o papel do terapeuta excessivamente a sério. As pacientes que na vida real lhe haviam sido designadas, duas mulheres jovens, não aparecem no sonho; em vez disso, o paciente, o "sofredor", é uma figura interna no meu colega, um pedaço do seu Si-mesmo.

O sonho mostra que a parte principal do desenvolvimento interior do analista é algo puramente entre seu ego e o Si-mesmo (ou, em uma linguagem antiquada, a imagem de Deus dentro dele). O sonho também significa claramente que, para meu colega, é importante perceber a "mão de Deus" que governa o destino humano, em vez de querer "fazer alguma coisa" ele mesmo.

Toda a verdade psicológica pode ser, e até deve ser, revertida: nenhum analista deveria deixar de ter um sólido fundo de conhecimento, o mais abrangente possível. Freqüentemente, tem sido salientado que os psicólogos que não possuem treinamento médico facilmente não se dão conta dos estados psicossomáticos. É de indubitável importância que o analista que não é médico aprenda in totum a sintomatologia das doenças psicossomáticas, para que seja capaz de encaminhar ao médico os pacientes que precisam de tratamento clínico. Mas também existem outras áreas com relação às quais um conhecimento completo me parece indispensável. Lembro-me aqui de um estudante mexicano que estava em sua análise de treinamento. Eu tinha a sensação de que na verdade não o compreendia, e ele também parecia incapaz de entender o que eu tinha a dizer. A causa de tudo isso eram completamente misteriosa para mim, pois eu gostava muito dele. Ele então me trouxe o seguinte sonho:

Ele viu na bifurcação dos galhos de uma árvore uma grande pedra obsidiana. Quando ele avançou na direção dela, a pedra pulou da árvore e começou a segui-lo. Ele sentiu que ela era muito perigosa. Quando fugia, ele deparou com alguns trabalhadores que haviam cavado no chão um buraco retangular. Eles indicaram a ele, por meio de sinais, que ele deveria entrar no buraco e ficasse imóvel no meio dele. Quando ele fez isso, a pedra obsidiana que o seguia foi ficando cada vez menor e, finalmente, deitou-se aos pés dele como um pequeno seixo domesticado.

Quando ouvi esse sonho, exclamei: "Qual a sua relação com o deus Tetzcatlipoca?" Ele então desabafou. Disse-me que era três-quartos asteca. Ele não havia mencionado o fato em sua anamnese, porque no México, ao que parece, o preconceito racial ainda predomina. De repente, eu o compreendi. Interiormente, sem ter consciência disso, ele vivia na tradição espiritual dos astecas, mas havia negado isso dentro de si mesmo. Com esse sonho, sua individuação teve início bem como sua criatividade intelectual. Tetzcatlipoca, a suprema divindade asteca, tornou-se seu guru interior na imaginação ativa.

Mas o que teria acontecido a essa análise, se eu não soubesse que a obsidiana era um símbolo do deus Tetzcatlipoca? É claro que uma analista experiente não pode conhecer todos os temas mitológicos existentes, que montam a centenas de milhares. Por conseguinte, é importante educar o analista em perspectiva para que ele não interprete os sonhos de maneira precipitada e, sim, que continuamente se dê ao trabalho de procurar informações na literatura especializada dos símbolos e, além disso, precisa ser treinado para saber onde procurar. Afinal de contas, o médico também tem manuais que pode consultar para obter pormenores sobre medicamentos e sintomas. Na análise junguiana, o conhecimento da mitologia é significativamente mais importante do que na análise em outras escolas. Estas geralmente fundamentam sua abordagem em uma teoria de sonhos existentes, que desde o início sugere certas interpretações. Na abordagem junguiana existe o princípio de que todo o sonho expressa algo ainda desconhecido, algo novo para o paciente. Enquanto o analista está lidando com as imagens oníricas do incosnciente pessoal, um cuidadoso registro das associações do paciente freqüentemente são suficientes. Mas no caso de imagens arquetípicas, as pessoas amiúde têm muito pouco a dizer sob a forma de uma associação. Neste caso, é necessário procurar um material mitológico objetivamente comparável.

Embora esse problema diga principalmente respeito ao treinamento intelectual e ao conhecimento do futuro analista, não devemos nos esquecer do sentimento, ou seja, do coração. Por mais inteligente que um analista insensível possa ser, nunca vi nenhuma pessoa desse tipo curar alguém! E o "coração" não pode ser instilado. A pessoa que não o possui, na minha opinião, é a menos adequada para a profissão. Não obstante, existem aqueles que realmente têm sentimento e capacidade de sentir compaixão, mas não ousam expressá-lo. Esses indivíduos podem ser ajudados, através de treinamento, a se tornarem bons analistas.

Com efeito, idealmente falando, o analista precisa ter treinado as quatro funções da consciência. Precisa da função sensação, porque tem que ser realista e capaz de ver os fatos internos e externos para poder funcionar. Nunca deveria acontecer (embora eu já o tenha testemunhado) que o analista não saiba nada a respeito da situação financeira do paciente, ou não perceba que este não está se alimentando bem. A intuição, é claro, também é indispensável, porque sem ela é impossível compreender a função prospectiva e prognóstica dos sonhos, bem como adivinhar todas as coisas que o analisando deixou de contar, o que é, geralmente, particularmente importante.

É claro que é quase impossível, sob o aspecto prático, que todos os analistas sejam tão perfeitos e completos a ponto de terem assimilado as quatro funções da consciência. Freqüentemente precisamos ficar satisfeitos em tornar o futuro analista consciente de quais são suas funções não desenvolvidas, para que ele conheça suas fraquezas e fique atento a elas e, nos casos de incerteza, quando houver motivo para suspeitar de que algo na análise não está indo bem, para que ele se consulte com um colega.

Os problemas do conhecimento e do desenvolvimento das funções da consciência estão relacionados com o estado de normalidade do futuro terapeuta, com seu ajustamento ao mundo exterior e à sociedade. Mas a palavra vocação está relacionada com algo ainda mais profundo e essencial - a ligação com Deus ou com os deuses, ou seja, com as forças que se manifestam dentro da psique. Se examinarmos isso de uma maneira histórica, veremos que na Idade Média não era particularmente a pessoa "normal" que era considerada como tendo vocação para ser um benfeitor da psique ou da alma (embora ele também tivesse que ser relativamente normal), e sim o padre; ou então as pessoas procuravam ajuda no túmulo dos mártires ou dos santos, imaginando que a influência sobrenatural da personalidade deles talvez curasse aqueles que tinham distúrbios psicológicos. Se recuarmos mais na história, a cisão especificamente cristã entre religião e medicina nos vem à mente. Se recuarmos ainda mais, chegamos à figura do médico-sacerdote, que trabalhava, por exemplo, nos lugares consagrados a Asclépio (Cós, Epidauro e outros).2 Aprendemos, por exemplo, com Apuleio, que vivia a serviço da deusa Ísis como um katocho (internado voluntário)3, o que a vocação significava naqueles dias.

O sacerdote-curador da última fase da Antigüidade é uma variante arquetípica do tipo curandeiro ou xamã encontrado no mundo inteiro. Para ele, a vocação continua a encerrar o significado original da palavra: um chamado dos deuses ou dos espíritos para que ele se torne um curador. Os xamãs (bem como muitos dos curandeiros e curandeiras de outros povos) passam por período específico de treinamento e desenvolvimento. São chamados por espíritos do clã ou por outros espíritos, freqüentemente contra a vontade deles. "Antes que o xamã se apresente, a alma da pessoa destinada a essa função é tomada por espíritos e arrastada para o mundo subterrâneo ou o mundo superior."4 As almas dos futuros xamãs são então colocadas em ninhos de diferentes níveis nos galhos de uma árvore, sendo geralmente incubadas e criadas por uma mãe do reino animal sob a forma de um corvo ou outro pássaro, ou por um alce ou veado alado, etc. Essa mãe do reino animal é o alterego do xamã, seu duplo, seu espírito protetor e seu princípio vital. Às vezes, ela devora o xamã e o dá à luz novamente, ou então o choca enquanto ele está no ovo. Além disso, a iniciação xamanística geralmente também consiste, como sabemos, na mutilação do candidato e da sua redução a esqueleto. Este último representa a substância básica imperecível a partir da qual o xamã renovado pode ser reconstituído. Nem sempre o novo xamã está no controle de sua nova forma; às vezes, ele a encontra apenas nos momentos cruciais, durante a iniciação ou na hora da morte, mas é através desse alterego interior que ele realiza suas curas.5

A partir do ponto de vista da psicologia profunda atual, essa experiência xamanística importa em sofrer uma invasão do incosnciente coletivo e ter êxito ao lidar com ela. Quando a análise de treinamento do futuro analista permanece presa à discussão de problemas pessoais, de acordo com minha experiência essa pessoa nunca se torna, mais tarde, um analista eficaz. Somente quando experimenta o infinito na sua vida, como Jung o formulou, é que a vida encontra significado. Caso contrário, ela se perde em superficialidades.6 Poderíamos ainda acrescentar que essa pessoa só poderá oferecer aos outros algo superficial: bons conselhos, interpretações intelectuais, recomendações bem intencionadas voltadas à normalização. É importante que o analista viva interiormente no que é essencial, porque assim ele pode conduzir o analisando ao centro interno dele. Certo xamã disse adequadamente a um pedaço de madeira que ele queria transformar em tambor: "Liberta tua mente da contenda e da discórdia, lariço; tu te transformarás em tambor".7

Os símbolos do espírito animal-mãe, do tambor, da árvore e de muitos outros, em tão grande número que é impossível descrevê-los todos, são, sob o aspecto da psicologia junguiana, símbolos do Si-mesmo. Na tradição xamanística, o futuro curador não apenas precisa ter sofrido uma invasão do incosnciente coletivo, como também ter chagado ao seu núcleo, ao que Jung chamava de Si-mesmo. Estranhamente, com freqüência o Si-mesmo primeiro confronta a pessoa de maneira hostil, como algo explosivo que poderia até provocar a loucura.8 Os Tungus siberianos têm consciência disso. Eles dizem até que antes de a pessoa se tornar xamã, precisa ser molestada pelos espíritos durante alguns anos. Trata-se das almas de falecidos xamãs que fazem com que ela tenha delírios. Freqüentemente eles são aqueles que a mutilam durante a iniciação.9

Certo Buryat, por exemplo, ficou doente durante quinze anos. Ele corria nu, a esmo, no inverno, e "se portava como um idiota".10 Depois, encontrou seu espírito auxiliador, que lhe perguntou: "Por que você está se comportando dessa maneira? Você não nos conhece? Seja um xamã. Dependa de nós, seus utcha [antepassados = espíritos auxiliares]. Você concorda?" Ele consentiu, submeteu-se aos ritos de iniciação e começou a agir como um xamã: "onde quer que vá, ele cura e faz o bem". É estritamente proibido agir como xamã enquanto o período da iniciação não termina e o iniciado não está curado da sua doença iniciatória.11
Tudo o que dissemos aqui sobre o xamanismo dos povos circumpolares se aplica, de maneira surpreendente, à problemática vocacional dos terapeutas atuais. A pessoa que não tenha tido acesso às profundezas do inconsciente, e visto ali "a natureza de todos os espíritos da doença", dificilmente pode possuir uma empatia real e suficiente com relação ao grave sofrimento psíquico dos seus semelhantes. Ela só os tratará de acordo com as regras, sem jamais ser capaz de sentir empatia por eles, e este é freqüentemente o fator-chave para os pacientes. Além disso, aquele que começa prematuramente a agir como xamã, antes de haver superado sua doença iniciatória, é uma visão extremamente familiar. Muitos jovens entusiastas querem começar a tratar as pessoas desde os primeiros dias da sua análise de treinamento, antes de terem conseguido lidar com os próprios problemas e os conteúdos de seu incosnciente. Ao fazer isso, em participation mystique com um paciente, eles geralmente acabam no setor cego deste último. O resultado disso é uma folie à deux e não uma cura; ou então o paciente é inteligente o suficiente para detectar que esse suposto "médico" não está pisando em terreno muito firme. "Aquele cara está mais deprimido do que eu", disse-me, certa vez um analisando que estava servindo de "cobaia" para um "curador" ainda não plenamente desenvolvido.

Tem sido afirmado que os xamãs e curandeiros têm muita coisa em comum com as pessoas mentalmente doentes, ou pelo menos com aquelas que são psicologicamente instáveis, mas Eliade salientou, por exemplo, que os esquimós conseguem distinguir claramente uma doença "xamanística" de um caso comum de distúrbio mental.12 No decurso da doença iniciatória xamanística, o iniciado consegue encontrar a própria cura, o que é precisamente o que a pessoa comum que sofre de doença mental não consegue fazer. Além disso, os xamãs são os indivíduos criativos, os poetas e os artistas, das suas comunidades. Isso traz à baila uma questão que também é importante para os terapeutas de hoje - o chiste popular está bastante familiarizado com a figura do psiquiatra que é louco.13 Com relação a isso, gostaria de me associar à perspectiva dos esquimós: a pessoa que consegue curar a si mesma não é a pessoa doente e, sim, aquela capaz de ajudar os outros, pois essa pessoa está intacta em seu núcleo mais íntimo e possui a força do ego, dois pré-requisitos indispensáveis à profissão de terapeuta. Ela sofre sua doença iniciatória não por causa de uma fraqueza, e sim a fim de se familiarizar com "todos os tipos de doenças", para saber a partir de sua experiência o que significam a possessão, a depressão, a dissociação esquizóide, e assim por diante.

Tampouco seu desmembramento iniciatório é esquizofrenia. De acordo com a descrição mitológica, trata-se de uma redução ao esqueleto. Mas o que isso significa segundo os povos que criaram esses mitos é o indestrutível, o eterno no ser humano, e também aquilo que é perpetuado através da continuidade das gerações. Transportado para a linguagem atual, significa que o iniciado passa por uma "análise" no sentido de uma dissolução de todas as suas características não autênticas - por exemplo: convencionais ou infantis -, a fim de conquistar o caminho em direção ao que ele é em seu verdadeiro ser. Na linguagem junguiana, significa que ele se torna individuado, uma personalidade sólida que não é mais um futebol de afetos internos e projeções ou de tendências e modismos externos da sociedade.

No contexto etnológico, contudo, o curador também tem uma sombra específica, ou seja, essa vocação também possui um contra-aspecto sombrio. Trata-se da figura do xamã ou curandeiro demoníaco. A forma mais superficial disso é o terapeuta que é governado por um complexo de poder. É evidente que nessa profissão, na qual o indivíduo é seu próprio senhor e amo, e na qual as outras pessoas freqüentemente se agarram a ele de maneira ingênua e infantil, o abuso do poder representa uma enorme tentação. Por exemplo, o analista pode se ver tentando assumir o papel do pai ou do sábio, aquele que sabe o que está certo. Por mais repugnante que isso seja, não é, na minha opinião, o mais perigoso, visto que esses terapeutas são de modo geral devidamente importunados por pacientes igualmente possuídos pelo poder, ou punidos através do fato de que eles tendem a reunir ao redor de si um tedioso jardim-de-infância de pacientes que os atormentam com exigências.

O curador “demoníaco” é algo em escala maior, algo mais perigoso. Os Yakuts, por exemplo, acreditam que no momento da iniciação, o xamã tem a escolha de ser iniciado pelos espíritos da "fonte da destruição e da morte" ou pelos espíritos "da cura e da salvação".14 O que é confuso neste caso é que aquele iniciado pelos espíritos do mal também pode ser considerado um grande xamã.15 Mas para que esse indivíduo se torne xamã, muitas pessoas (freqüentemente do seu clã) tem que morrer16, ao passo que o clã de um xamã do lado da luz floresce.17 Por conseguinte, o primeiro tipo de xamã é chamado de "sanguinário". A partir de um ponto de vista psicológico, os xamãs do mal são aqueles que encontraram o acesso ao incosnciente e se mostraram suficientemente fortes para não serem derrubados por ele, mas que, por assim dizer, intencionalmente se rendem aos impulsos sombrios do inconsciente.

Jung descreveu o "demoníaco", que também poderia ser chamado de "magia negra", nos seguintes termos.18 Enquanto a "magia branca" se esforça para expulsar do inconsciente as forças da desordem, "a magia negra exalta os impulsos destrutivos como a única verdade válida em oposição à ordem até então prevalcente, além de aplicá-los a serviço do indivíduo em vez de a serviço de toda a comunidade. Os meios utilizados para isso são idéias, imagens e expressões primitivas, fascinadoras ou assustadoras, incompreensíveis para o entendimento normal, palavras estranhas", e assim por diante. "O demoníaco... se baseia no fato de que existem forças inconscientes de negação e destruição, e de que o mal é real". A pessoa que exerce essas forças de magia negra está geralmente possuída por um conteúdo incosnciente. Jung menciona aí o exemplo, de Hitler como um salvador negativo ou um destruidor. Na esfera da tradição xamanística, são conhecidos perigosos xamãs desse tipo, dos quais todo o mundo tem medo. Mircea Eliade fornece muitos exemplos da arrogância dos xamãs, que freqüentemente é vista como a verdadeira fonte do mal e como a causa do atual estado deteriorado do xamanismo.19 Na minha opinião, essa arrogância também existe entre os terapeutas modernos, e os que são marcados por ela são, creio eu, mais perigosos do que aqueles com treinamento profissional inadequado. Imagino que não haja nenhum procedimento organizacional ou racional para manter esses indivíduos fora da profissão da análise. Só podemos esperar que o público tenha discernimento suficiente para evitá-los.

Refletindo sobre os pontos apresentados até agora, vemos que a profissão do analista faz exigências eminentemente altas, exigências essas que dificilmente alguém é capaz de satisfazer inteiramente. Graças aos céus os povos nativos também têm consciência de que não são apenas os grandes xamãs, mas também os xamãs secundários e menos importantes que podem curar as pessoas. A grandeza ou a importância de um xamã depende da freqüência e da profundidade com que ele penetrou no inconsciente e de quanto sofrimento ele suportou para fazer isso. É por isso que, na minha opinião, o que é absolutamente necessário não é nos tornarmos um grande curador e, sim, conhecermos nossos limites. Porque pode acontecer - e não é tão raro assim - que um paciente cresça mais do que nós, ou seja, avance mais no processo interior do que nós já avançamos.

A tendência instintiva do analista é então tentar trazer o paciente de volta para baixo, de uma forma redutiva, para seu nível de consciência. É somente quando está consciente de seus limites que ele pode evitar esse perigo e não rebaixar o elemento significativo e crescente nos outros através de um estilo de interpretação !"nada mais do quê". Quando o analista permanece consciente dos seus limites, ele pode às vezes até mesmo ajudar um paciente que esteja além dele, sendo sincero e contentando-se em contribuir estritamente com a ajuda de que é capaz, deixando o resto por conta do paciente. Ele deve admitir seus pontos fracos e, invertendo as posições, pedir a compreensão do paciente. Nesse ponto, o processo deixa de ser um "tratamento", tornando-se um relacionamento que envolve um mútuo dar e receber. Isso, é claro, deve ser levado em conta na questão financeira na análise.

Um problema especial na profissão da análise é a criatividade. Sem sombra de dúvida, os melhores analistas são aqueles que, ao lado da profissão, estão envolvidos em alguma atividade criativa. Não é à toa que, nas sociedades primitivas, os curandeiros são também, de modo geral, os poetas, pintores e artistas do seu povo. Os elementos criativos e curativos estão muito próximos. "O ímpeto do caos ascendente", explica Jung, "procura novas idéias simbólicas que abarcarão e expressarão não apenas a ordem anterior como também os conteúdos essenciais da desordem. Essas idéias teriam um efeito mágico, mantendo enfeitiçadas as forças destrutivas da desordem, como foi o caso do cristianismo e em todas as outras religiões".20
O que Jung está dizendo aí, com relação ao nível coletivo em geral, também se aplica tanto a grupos menores quanto ao indivíduo. Em todos os contextos permanece a questão de encontrar no mais profundo de nós a influência ordenada do Si-mesmo e expressá-la nos símbolos, na arte, nas nossas ações. Se além de dar as consultas, o analista não estiver trabalhando também em sua tarefa, como salientou Jung, ele se torna escravo da rotina e, com tempo, torna-se uma analista insípido. Pude observar que nesta difícil profissão certo azedume e desprezo pelos nossos semelhantes tende a se insinuar em nós. É somente trabalhando continuamente em nossa tarefa criativa interior que podemos evitar essa deterioração. E não basta termos sentido uma única vez o chamado da vocação; o direito de praticarmos esta profissão precisa ser repetidamente conquistado dentro de nós.

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1 Ver Jung, "Psychological Aspects of the Mother Archetype", em CW 9/i
2 Ver C. A. Meier, Der Traum als Medizin (O sonho como remédio), Daimon Verlag, Einsiendeln, Suíça, 1985
3 Cf. G. Preusschen, Mönchtum und Serapiskult (O monasticismo e o culto de Serápis), Giessen, 1903, passim.
4 Citado em A. Friedrich e L. G. Budruss, Schamanengeschichten aus Siberien (Histórias dos xamãs siberianos), Munique, 1955, p. 45
5 Ibid, pág. 48
6 Jung, Memories, Dreams, Reflections, p 325. (Cf. trad. bras.: Memórias, sonhos, reflexões, Nova Fronteira, Rio de Janeiro)
7 Friedrich e Budruss, Schamanengeschichten, p. 80
8 Ver Jung, "The Philosophical Tree", in CW 13.
9 Cf. Friedrich e Budruss, Schamanengeschichten, pp. 212-13
10 Ibid., p. 209
11 Ibid, p. 159
12 Ver Mircea Eliade, Shamanism: Archaic Techniques of Ecstasy, Bollingen Series, Princenton University Press, 1964, pp. 23ss.
13 Mais ou menos como na seguinte piada: Qual a diferença entre a pessoa mentalmente perturbada e o psiquiatra? Resposta: O psiquiatra tem a chave do consultório.
14 Friedrich e Budruss, Schamanengeschichten, p. 171
15 Cf. ibid., p. 158
16 Ibid., p. 154
17 Ibid., pp. 150, 147
18 Jung, carta a Horst Scharschuch, 1º de setembro de 1952, Letters, vol. 2, pp. 81-82.
19 Eliade, Shamanism, p;. 72
20 Jung, Letters, vol. 2, p. 81

Meu irmão e eu no reino das trevas


Eu estava no inferno novamente. Dessa vez eu cheguei até a mesa onde Mefistófeles e o velho estavam me esperando. O velho estava tenso e eu sentia que possuía uma mensagem em mim para ele. Não sabia muito bem que mensagem, mas tinha que deixar fluir das profundezas do meu ser.

-    Porque, irmão? Porque você me abandona? – perguntou o velho.
-    Não te abandono. Você está enganado.
-    Você está me deixando sozinho. Você fez um pacto de que não me deixaria sozinho aqui!
-    Irmão. Você deixa a si mesmo sozinho. O tempo de aprendermos sobre a destruição acabou. Precisamos agora continuar nosso caminho. Precisamos deixar a corrente nos levar para novas possibilidades.
-    Eles te contaminaram. Você devia ter impedido isso.
-    Não. Não devia.
-    Eu não posso continuar sem você. Será que não entende? Nós representamos o equilíbrio do universo!
-    Você está perdendo o contato com sua essência, irmão. Não percebe? Mefistófeles não é você. Não é a sua função manter o equilíbrio. – eu falei sem muita consciência do que isso queria dizer.

Mefistófeles me jogou a carta e eu peguei com a mão direita. Quando a passei pra esquerda ela desapareceu. O anel a destruiu.

-    Viu? Em breve esse anel terá te profanado tão profundamente que você já poderá voltar ao inferno. Eles te querem como um escravo, você sabe disso.
-    Não. Sou eu, irmão. A minha essência mudou nesses milênios. Eu já não sou aquela criatura destruidora que fez o pacto de servir a desintegração. Nem você.
-    Você está perdendo o juízo. A energia deles está tomando conta do seu ser.
-    Não. A totalidade está tomando conta do meu ser.

Eu levantei minha mão direita e mostrei a ele. Minha pele começou a envolver o anel de Mefistófeles. Ele se acoplou de tal maneira em mim que nos tornamos um.

-    Você é um só. Como pode ter essas forças dentro de si? Como pode ter todo o universo na sua alma e sua alma em todos universo? Como!?
-    Eu parei de perguntar como e deixei o meu corpo flutuando no cosmo. Aí os fluidos da natureza, os que caminha para a totalidade, me mostraram o caminho. Não é um caminho a ser controlado e entendido, mas a ser sentido e vivido. É o caminho para o infinito.
-    Então era esse o convite. – disse o velho ao jogar as cartas na mesa.

Mefistófeles não falava sequer uma palavra. Ele não é um ser humano, mas uma força do universo. Não pode deliberar. Ele só é.

-    Você também o recebeu, irmão. Junte-se a mim. – disse eu com esperança.
-    Não posso. A minha alma e Mefistófeles estão fundidos. Eu fiz isso para que você pudesse ser livre.

A mesa voou e eu vi a perna direita dele. A partir do joelho ela deixava de ser a perna dele e passava a ser a de Mefistófeles. Os dois permaneciam na mesa daquela maneira porque suas pernas estavam presas como que cirurgicamente. Por causa daquilo ele só poderia trilhar o caminho do diabo. Uma voz rouca, a minha voz, gritou perguntando quem eu era. Eu perguntando a mim mesmo como se eu fosse outra pessoa.

-    Meu tempo está acabando. Irmão, Encontrarei gaia. A encontrarei e você será livre. Eu prometo.

O velho me olhou com um olhar de quem não gosta da idéia, mas que ao mesmo tempo parece aceitá-la. Fui puxado para fora do inferno e o portão se fechou. Não seria pelo portão do tártaro mais o meu caminho. Tantas vezes o trilhei, mas isso tudo ficou no passado. Agora era a hora de buscar as respostas. De encontrar Gaia. Mas o mundo balançou e eu fui convocado à realidade.

Biohazard: a limpeza (parte 3)

No mercado o tempo parecia que não passava. A bateria do meu relógio acabou e eu nem queria mesmo saber as horas. Comemos primeiro os pães e as coisas que a gerente disse que estragariam rápido. Minha mente fervilhava com idéias sobre denunciar toda essa desgraça, mas vendo os fatos, é difícil acreditar que eu possa sobreviver. Já passou uma semana, eu acho, e os monstros lá fora continuam de pé normalmente. Como é que essas coisas conseguem?

Eu só vivia dentro de casa, então não conhecia muita gente. Mas reconheço alguns. Tem o cara da padaria. Grandão. O segurança do banco, a mulher da loja de presentes. Vai ver se não tivesse vindo trabalhar estariam vivos. Só penso merda: provavelmente estariam mortos mesmo.
Isso me faz pensar no valor do corpo. Será que essas coisas possuem algum espírito? O que as mantém vivas? O que da a elas energia e motivação?

A gerente do banco nos mostrou o forno que usávamos para assar comida às vezes. Também usávamos o fogão que tinha lá. Estava muito velho. Nem sei porque um mercado tem fogão.
Depois de comer, limpar as coisas e organizar os produtos, coisa que ela fazia compulsivamente, ela se sentava no canto onde foi encontrada e abraçava as pernas. Ficava se balançando. Tentei uma vez falar com ela, mas ela me ignorou completamente. Só respondia quando se tratava de um problema pra ela resolver.
O sargento logo percebeu isso.

- Alberto, chama lá a gerente.
- Sim, senhor.

Alberto veio andando. Não entendo bem porque ainda obedece às ordens do sargento. Afinal, toda a estrutura hierárquica não tinha nenhum valor nesse momento. Talvez ele só queira se ocupar, e obedecer ordens seja o bastante. Ou talvez ele esteja tão habituado a ser comandado que isso se tornou natural como respirar.

- Isabela, Sargento quer falar contigo.

Ela não respondeu. Continuou balançando agachada no chão.

- vum bora, tu tem que resolver um problema pra ele.
- Que problema? – perguntou ela
- Sei lá, porra. Não é problema meu. Bora!

Ela foi com ele, que a segurou no braço. Consegui deduzir pelo olhar dele que queriam se aproveitar dela, mas ela parecia fora de si. Talvez seja estresse pós-traumático ou algo assim. Segui-os e vi o que aconteceria.
- Qual é o problema? Perguntou Isabela com seu ar de sempre.

Ela sorria muito quando falava com os outros. Sempre parecia alegre. Percebi que era um sorriso compulsivo. Nada natural. Enquanto sozinha ela falava sozinha com voz de angustia. Quem seria essa mulher de verdade? Será que sua mente poderia se recuperar?

- Não façam isso! – exclamei
- Não é lerdo mesmo, em moleque. Já sacou a porra toda, então?
- Ela ta traumatizada cara. Isso vai ferrar com a cabeça dela. Não faz isso.
- Vai pra merda, moleque. Tu fica se fazendo de santo aí, mas tava olhando pra bunda dela que eu vi. Vai tomar no cu. Tu também quer!
- Pra isso que tenho um código de ética.
- Hahahahahaha! Tu é maluco, cara. Olha só pra ela. Ficou maluca. Se duvidar nem sente nada!

Eles tinham armas pesadas e eu não. Não adiantaria enfrenta-los. Eles eram cinco, sempre armados. Eu tinha só uma pistola e mesmo assim nem sabia atirar. Minhas palavras foram vazias.
Eles fizeram uma fila. Colocaram-na no caixa, onde passavam os produtos. Olhando aquela cena eu sentia um misto de cólera, tristeza, desespero e desejo. Sim, devo admitir que também queria. Mas meu senso de ética jamais me permitiria. Não eu, que luto pelo bem. Não eu...
Peguei uma garrafa de vodka e fui pro açougue. Bebi rápido e apaguei. Disso eu lembro apenas uns fragmentos. Alguém com a garrafa na mão. Alberto. Ria muito, me levou pra algum lugar.

- Isso aí, cara! Isso aí porra!

Acordei no segundo andar do mercado, onde ficavam algumas mesas e havia um vidro que dava visibilidade para a rua. Levei um susto com os monstros, mas estava de ressaca, e me movi devagar. Meu movimento lento não causou admiração neles. É como se eles esperassem desespero. Os movimentos lentos, tranqüilos ou mesmo atrapalhados como os meus não surtiam qualquer efeito. É como se eu já fosse um deles.
Talvez seja isso. Talvez só estejam embriagados e um dia acordarão com uma tremenda ressaca. Quem sabe tudo volta a ser como era?
Como se o que era fosse algo bom...

- Acordou, garoto!
- Sargento?
- A partir de hoje pode me chamar de Silva.
- To acostumado a te chamar de sargento já.
- Chama de sargento silva, então.
- Ta. Que aconteceu ontem?
- Lembra não?
- Nada, cara. Bebi pra caralho.
- Porra, tu comeu a Isabela com vontade, maluco. Tinha que ver. A mulher nem reclamou, Gozou e os caralhos.
- Que?
- É, maluco. Tu apagou e ela continuou tentando te agarrar mesmo você estando apagado.
- Puta que pariu...
- To falando que no fundo tu não é tão certinho assim! Bora, ela acordou de bom humor e fez carne.

Desci e fui recebido pelos soldados com um certo grau de admiração. Não é possível que me admirem assim só porque comi a mulher. Devo ter feito algo mais.

Perto do depósito estavam empilhadas caixas, como que formando uma mesa. Estava forrada com uma toalha que estava a venda no mercado. Ela fritou um bife de alcatra, e realmente estava bom. Com farofa pronta, batata palha, arroz, feijão e queijo. Estava tudo bom.
Ela se sentou do meu lado e ficou segurando meu braço. Era estranho pra mim. Ficava beijando meu braço.

- Que mais eu fiz ontem à noite?
- Maluco, tu virou outra pessoa. Vou te falar uma parada: nunca esperei isso de você.
- Que eu fiz?
- Tu catou um fuzil, subiu no telhado e explodiu um carro lá no fim da rua. Daí todos os zumbis correram pra lá e tu deu o papo: cata as bombas do carro. Sargento já tinha sacado seu plano, daí já chegou com os explosivos. Agora temos a corneta e mais quatro bombas, neguinho. Vamos mandar esses monstros de merda pro saco. Porra, a gente vai sair desse buraco!
- Eu atirei com o fuzil?
- Pois é, maluco. Tu parecia que tava possuído. Ficava chamando a gente de burro, que já devíamos ter feito isso.
- Algo mais?
- Ah sim. Deu mais uma idéia quando tava chapado quase dormindo.
- Qual foi?
- Foi assim que tu falou: Dois no teto. Um explode um carro do estacionamento na frente e atrai os monstros e o outro avisa pro sargento se a barra estiver limpa do lado de trás. Daí se estiver eles saem, atravessam a rua e colocam a bomba lá. Longe do carro, pra não foder com ele. Daí voltamos, trancamos tudo e acionamos a corneta. Depois de explodirmos a maioria, matamos o resto com fuzil. A gente tem bala pra caralho. Maluco, tu é inteligente pra caralho. Só fica pensando e sai com uma dessas.

Pareceu mesmo uma idéia razoável. Só não me imagino fazendo esse tipo de coisa. Pareceu como um plano que não viria de mim. Fico sempre concentrado nas questões abstratas. Será que inventei mesmo esse plano? Quem sabe?
Depois de comermos, Isabela lavou os pratos e os talheres. Poderíamos simplesmente jogar fora e pegar outros, mas ela lavou e guardou no mesmo lugar em que encontrou.
Sargento Silva e os soldados ficaram no teto praticando tiro ao alvo e eu sentei num canto. Minha cabeça tava explodindo.

- Ei, qual é o seu nome?
- Roberto.
- Posso te contar um segredo? – disse ela ao abraçar meu braço.
- Conta.
- Sei que você é um anjo. Pode deixar que eu não conto pra eles. São do diabo. Se eu contar pra eles, acabam te matando.
- Não sei bem se sou anjo.
- Porque?
- Porque anjos são bons. Não acho que eu sou bom.
- Você é bom. Eu posso sentir que é bom.
- Eu te estuprei ontem.
- Não.
- Não?
- Você fez amor comigo, me trouxe de volta pro mundo. É um anjo, tenho certeza.

Fiquei sem palavras. A fantasia daquela mulher a levou a efetivamente me endeusar. Mal sabia ela que não sou nada disso. Bem, se essa fantasia é boa pra ela, quem serei eu a negar?
Abracei-a, o que pareceu para ela como uma confirmação das afirmações que ela acabara de fazer. Ficamos abraçados ali o dia todo. Me acostumei com o calor dela. Peguei no sono

Havia um menino na frente do lago, e de repente ele se tornou um gato filhote. Parecia débil. Ao que parecia, o gato pretendia mergulhar e pegar um peixe.
Contrariando todas as expectativas, o gatinho mergulhou com tanta destreza e velocidade que não foi possível vê-lo antes de ele sair do lado com um peixe quase do seu tamanho na boca.
O menino cresceu e teve que voltar ao colégio depois de grande. Seu diploma havia perdido a validade. Ainda precisava aprender antes de continuar: é o que o estado decidiu.

- Ô moleque. Ta dormindo porque? Cacete, agora só vai dar pra detonar os zumbis amanhã.
- Beleza, então.
- Dormiu feito anjo. - Disse Isabela
- Aé? Estranho...
- Sonhou com o que?

Contei meu sonho a ela, ao que ela reagiu imediatamente.

- É uma mensagem de Deus!
- Que?
- Ta dizendo que você vai conseguir.
- Conseguir o que?
- Não sei dizer, querido. Mas é algo para o qual você não se imagina preparado. Vai conseguir e contrariar suas expectativas.

Sobre a “omnilateralidade” do bem e do mal


Quando você ler esse texto (se é que alguém vai ler) tenha em mente que estou lidando com uma relação entre metafísica e psicologia. Não tenho a pretensão de proclamar isso pelos quatro cantos do mundo como verdade absoluta. Pelo contrário, tudo aquilo que escrevo é o desenvolvimento racional daquilo que é inconsciente(meu). É como uma forma de integrar minha mente e, com isso, encontrar um ponto de maturidade maior. Para mim toda a vida não passa de um conjunto de futilidades quando vistos por conta própria. Mas essas futilidades guardam símbolos internos que dão origem ao nosso progresso.
Com as minhas paixões eu fui percebendo que se formou como que uma reta passando por vários pontos, sendo as paixões esses pontos. Da primeira até a ultima formaram uma seqüência, que deu sentido a essa direção determinada. Foram ficando cada vez menos concentradas. Cada vez menos focadas.

Com o tempo, o amor que eu concentrava em mulheres, que definia como musas ou deusas, foi se dispersando. Fiquei admirado quando, observando abelhas e outros insetos retirando o néctar das flores, me apaixonei por aquilo.
Foi um sentimento indiferenciado e que não se dirigia propriamente àqueles insetos, mas a tudo o que há de vivo. Aliás, constatei que muitas pessoas escolhem o estudo da biologia por essa razão. Para poderem, através da profissão, realizar esse amor por tudo. É uma pena que, depois de formados, acabem em sua maioria se tornando professores da rede publica (mal remunerados e com carga de trabalho excessiva).
Aquele êxtase (infelizmente) passou, mas deixou uma marca. Pelo modo como as coisas passaram, estabeleci uma relação causal entre minha paixão por uma mulher e aquele sentimento pelos insetos. Parece que a projeção que fiz sobre ela me trouxe uma lição, assim como todas as outras, que me aproximavam cada vez mais dessa forma de amor.
É um amor desapegado e sem direção. Não há um objeto amado, porque tudo é amado. Assim o amor deixa de ser uma prisão para ser um estado de espírito sereno e livre das mazelas afetivas que temos na nossa vida cotidiana. É o ágape. Senti esse amor de forma tão intensa que não mudei minha mente até hoje: nada nessa vida vale mais do que esse amor. É só isso que eu quero. Alcançar a “espiritualidade”. Essa forma de amor que transcende o apego. Crescer é o que eu quero, e todo o resto não passa de um caminho.

Mas é graças á sua musa que Teseu enfrenta o Minotauro, e este ultimo é uma forma de mal também diferente daquele que conhecemos. Não é uma energia maligna com carga afetiva como estamos acostumados a ver. Não é motivado por ódio a uma pessoa, uma idéia, um sentimento ou ao que for. É um ódio por tudo. Para esse tipo de ódio não há um objeto a ser odiado e destruído. Por vezes esse ódio é mascarado por um objeto odiado, mas na verdade esse ódio não tem direção definida. Tudo é mal, e tudo deve ser igualmente destruído. Esse Tudo não exclui o indivíduo que alcança esse tipo de ódio, que acaba eventualmente se autodestruindo.
Esse ódio omnilateral está por trás de todos os atos de ódio afetivo assim como o amor omnilateral está por trás de todos os atos de amor afetivo.
Quem segue o caminho do ódio vai se indiferenciando até chegar no estado em que, por odiar a todas as coisas, odeia a si mesmo e se destrói. É o que eu chamo de fundo do baú: um lugar para onde eu nunca quero ir.

Mas para Sun conseguir a resposta para seu tormento ele precisa afundar-se no poço de águas turvas e tirar de lá a espada que faz com que toda a ordem na qual ele crê afetivamente caia por terra. É o que se passa no meu próprio mito.
No mito cristão, Jesus foi até o inferno e venceu a morte. No grego, Teseu enfrentou minotauro.
E só vence o herói que supera as trevas. Que consegue ressurgir depois de estar imerso na escuridão para trazer consigo “o enigma da imortalidade”.
O que eu vejo diante de mim é o amor omnilateral, que traz harmonia e paz e, do outro lado, ódio indiferenciado, que culmina na destruição. Ambos desapegados, ambos livres desses afetos que nos possuem, e, no entanto, ambos apenas podendo ser alcançados depois de termos vivenciado os apegos que os precedem e que criam entre eles e nós um caminho.
Só pode entender a essência do verdadeiro amor aquele que também conhece o verdadeiro ódio, pois é só quem reconhece o demônio dentro de si que pode alcançar o Deus da própria consciência, num estado em que o demônio não tem como vencer: ele não tem o elemento surpresa.

O cristianismo prega um verdadeiro erro, porque primeiramente ele prega a ignorância, que impede o individuo de explorar a si mesmo e ao mundo. Em segundo lugar, ele coloca o indivíduo como imitador de Jesus, quando essa pessoa não chegou no ponto de Jesus. Faz os homens se privarem das experiências necessárias para alcançar o amor ágape anunciado por Jesus e deixa todos os homens escravizados e apegados falsamente a uma idéia. Digo falsamente porque todo o apego é uma farsa. Não pode ser uma realidade eterna, mas apenas um estágio que liga o homem a Deus, o todo...
Um homem com consciência pode viajar dentro da própria mente e, assim assimilar lições profundas. Aquele que está privado dessa consciência acaba projetando todas as fases de seu desenvolvimento no mundo externo. Projetando os estágios do seu desenvolvimento no mundo ele cresce, mas está sempre correndo o risco de se apegar a um dos estágios. É por causa do apego que a alma do homem se atormenta.
Quando vivermos no amor, toda a dor terá passado. Em especial, toda a dor terá valido a pena! Eis a minha metafísica, o sentido da minha vida!

“Em geral o homem atribui grande importância aos laços afetivos. Ora, estes encerram sempre projeções que é preciso retirar e recuperar para chegar ao si-mesmo e à objetividade. As relações afetivas são relações de desejo e de exigências, carregadas de constrangimento e servidão: espera-se sempre alguma coisa do outro, motivo pelo qual este e nós mesmos perdemos a liberdade. O conhecimento objetivo situa-se além dos intrincamentos afetivos, e parece ser o mistério central. Somente ele torna possível a verdadeira conjunctio.”

(memórias sonhos e reflexões – Carl G Jung)

Sobre apego, amor e o crescimento da alma


Eu te amarei para sempre
Cairão as estrelas
Apagar-se-á o sol
E meu amor triunfará

Porque seu poder é maior
Do que o que a natureza conhece
Vai além do meu campo de visão
Além do meu campo de abstração

Esses versinhos sobre o amor podem até soar agradáveis. Mas infelizmente, com a minha experiência, acabei concluindo que não é bem assim que as coisas funcionam. Parece uma demonstração de paixão daquelas que qualquer um acreditaria ser durável, eterna. Eu mesmo acreditaria, porque a idéia me agrada profundamente.
Mas encarando os fatos eu acabei notando algo um tanto desconcertante acerca das paixões e amores: vêm com um intuito, para serem realizados. Quando se realizam, e aprendemos as lições íntimas necessárias, eles desaparecem no ar. Nos esforçamos inutilmente por resgatar o sentimento de paixão desaparecido. Inutilmente porque a paixão se realizou e avançamos adiante no crescimento psicológico.
Todo aquele apego se vai, e o relacionamento esfria, simplesmente porque um dos dois ou ambos desvendaram a paixão.

“em 1º de janeiro de 1896, Freud, O analisando, escreve a Fliess, o analista, uma carta de “agradecimento”. Assim, agradecer a alguém é às vezes convida-lo a retirar-se.”

Quando isso acontece, a atração se acaba de forma pacífica. Como se o desapego fosse realmente uma conseqüência do crescimento. Todo aquele amor se dissipa e perde o sentido e a direção: acabamos direcionando mais amor para o universo.
Amores podem acabar de forma violenta ou pacífica. Podem fazer a pessoa crescer ou não. Mas há uma coisa certa: ele sempre faz com que a pessoa se desenvolva. Por isso é essencial.
Não é só a pessoa que nos apegamos. Também nos apegamos a idéias, crenças e sentimentos. Na base desses se vê a metafísica, que tem causa psicológica. Assim, nossas idéias, crenças e sentimentos surgem com base na nossa identidade psicológica.
A mutação desses é decorrente da mutação da nossa essência, que muda o fundamento metafísico que nos guia.

Um grande erro que cometem com freqüência é a prisão num desses estágios. Prender-se a uma pessoa, uma idéia, uma crença ou um sentimento. Porque essa prisão impede o desenvolvimento pleno das faculdades de amor e liberdade. Os apegos são prisões...

Há uma fase em que os apegos vão embora de forma pacífica. O que sobra é o agradecimento. Agradecemos pela forma com que esse ou aquele apego nos auxiliou no desenvolvimento, mas desapegamos. O objeto ao qual estávamos apegados se torna parte do todo que amamos.
Nesse ponto o amor é livre, porque não está acorrentado a uma idéia, uma crença, um sentimento ou uma pessoa. Não se prende a nada. Amor livre.
Depois disso o que sobra é a paz de espírito. Um contato com a espiritualidade que jamais poderia ser verdadeiramente experimentado enquanto existisse apego.
Desapego nos permite amar de verdade e ser verdadeiramente livres. É o caminho real para a plenitude!

Mas não há como forçar. Pelo contrário, quando uma pessoa se nega a viver suas paixões e seus apegos ela não encontra essa paz. Pelo contrário, vive a vida inteira lutando contra o desejo que nunca vencerá. Viver, tanto em imaginação quanto em realidade, nossas paixões é essencial para assimilarmos nossas lições de existência.

Deixo aqui as sábias palavras de Kahlil Gibran sobre o amor.

“Quando o amor vier ter convosco, continuai seguros embora os seus caminhos sejam árduos e sinuosos. E quando as suas asas vos envolverem, abraçai-o, embora a espada oculta sob as asas vos possa ferir. E quando ele falar convosco, acreditai, embora a sua voz possa abalar os vossos sonhos como o vento do norte devasta o jardim.

Pois o amor, coroando-vos, também vos sacrificará. Assim como é para o vosso crescimento também é para a vossa decadência.

Mesmo que ele suba até vós e acaricie os mais ternos ramos que tremem ao sol, Também até às raízes ele descerá e abaná-las-à enquanto elas se agarram à terra. Como molhos de trigo ele vos junta a si. Para amanha vos pôr a nu.

Vos peneira para vos libertar das impurezas. Vos mói até à alvura. Vos amassa até vos tomardes moldáveis. E depois entrega-vos ao seu fogo sagrado, para que vos tomeis pão sagrado para a sagrada festa de Deus.

Toda estas coisas vos fará o amor até que conheçais os segredos do vosso coração, e, com esse conhecimento, vos tomeis um fragmento do coração da Vida.

Mas se, receosos, procurardes só a paz do amor e o prazer do amor, então é melhor que oculteis a vossa nudez e saiais do amor, para o mundo sem sentido onde rireis, mas não com todo o vosso riso, e chorareis mas não com todas as vossas lágrimas.

O amor só se dá a si e não tira nada senão de si.

O amor não possui nem é possuído;

Pois o amor basta-se a si próprio.

Quando amardes não deveis dizer "Deus está no meu coração", mas antes "Eu estou no coração de Deus".
E não penseis que podeis alterar o rumo do amor, pois o amor, se vos achar dignos, dirigirá o seu curso.

O amor não tem outro desejo que o de se preencher a si próprio. Mas se amardes e tiverdes desejos, que sejam esses os vossos desejos: Fundir-se e ser como um regato que corre e canta a sua melodia para a noite. Para conhecer a dor de tanta ternura. Ser ferido pela vossa própria compreensão do amor. E sangrar com vontade e alegremente.

Despertar de madrugada com um coração alado e dar graças por mais um dia de amor.

Repousar ao fim da tarde e meditar sobre o êxtase do amor;

Regressar a casa à noite com gratidão. E depois adormecer com uma prece para os amados do vosso coração e um cântico de louvor nos vossos lábios.”


A batalha celestial

Eu tinha uma espada vermelha. Havia ódio nessa espada, sempre que a tocava eu o sentia.

- Porque!? Porque você fez isso!?

Era eu gritando com uma garota que nem reconheci na hora. O que sei é que eu sentia ódio, e que o ódio vinha da espada, não dela.

Ela não respondeu, mas abaixou a cabeça e chorou. Um choro daqueles de tristeza profunda, que não nos fazem berrar, porque a tristeza é tão grande que suga a energia.

Larguei essa espada e vi que tinha outra. Larguei também a outra e pulei. Cresci, ganhei três pares de asa e acabei descendo numa floresta. Nenhuma luz entrava ali a não ser a de duas espadas que eu tinha. Eram brilhantes, flamejantes. Eu vi olhos em todos os lados. Eram pequenos monstros. Pareciam goblins, mas eram negros e tinham sorrisos odiosos. Queriam me destruir, eu sabia disso. Peguei minhas espadas de fogo e lutei. Todos me atacaram de uma vez só, mas eu pude me defender deles. Soube que não era bom lutar no escuro então voei para cima. Assim que ultrapassei o ponto das arvores pude ver como eram as criaturas. Tinhas asas como de morcego. Alguns tinha buracos nas asas, mas ainda assim voavam de forma ágil. Um me atacou, e quando minha espada o tocou ele se tornou fumaça e cinza. E assim foi com todos os outros, enquanto eu fazia acrobacias para me esquivar de seus ataques. Depois de derrotar a todos eles eu ouvi uma trombeta

- A batalha começou! Lutem!

Eu subi, e passei pelas nuvens. A assim que ultrapassei todas, eu vi outros exatamente como eu. Cada um lutando contra outro idêntico, só que negro. Eram os demônios!

Um gigante bem do meu tamanho me atacou. Tinha quatro espadas, duas idênticas às que eu joguei fora e outros duas parecidas com as minha de fogo, só que negras. Nenhuma luz se refletia naquelas espadas, e ela soltava fumaça. Ele tinha apenas um olho.

- Vou te destruir!

- Nunca!

Lutamos e a luta parecia nunca dar vantagem e nenhum. Ele não me feria, e nem eu a ele. Lutavamos furiosamente, havia fogo dentro de mim.

De uma hora pra outra algo magnífico aconteceu. As nuvens foram afastadas de uma praia, e eu vi outro exatamente como eu, mas pelo menos cem vezes maior, lutando contra um dragão negro de sete cabeças. De alguma forma eu olhei para aquilo com apenas um olho, e mantive o outro focado no meu inimigo, mas ele só tinha um olho, e não me via. Ataquei e o matei. Virou fumaça negra.

Ninguém lutava contra mim, então fui atacando outros, eu era o unico que não tinha inimigo, e apenas um inimigo não podia enfrentar dois de nós. Todos aqueles que já não tinham um inimigo se uniam a mim para libertar os outros de seus demônios.

- Mate-o, Miguel!

O anjo Miguel tinha dificuldades, e nós já havíamos vencido nossos inimigos. Nosso grito de guerra penetrou dentro da minha alma. Pude sentir um poder nunca sentido antes.

- Ataquem o dragão!

Assim que eu gritei isso o dragão levantou todas as cabeças para o céu e gritou. O vento nos impedia de voar em sua direção, e uma explosão lançou longe a Miguel, e a todos nós. Fui lançado contra uma pedra, e a quebrei com o impacto do meu corpo. Virei fumaça branca, e subi às nuvens.

- Lutaremos novamente, e da próxima vez venceremos. Juntos mataremos o dragão, e o mundo será de Deus!

Foi o que um dos meus companheiros disse.

Os insetos do jardim

Eu encontrei uma resposta dentro de mim, que foi plasmada na atividade do pequeno jardim que tem aqui na frente da minha casa.

Há pequenas flores que não sei dizer a cor, pois sou daltônico, mas o que me fez refletir foram os insetos. Sim aqueles serem tão insignificantes e irracionais. Estava voando por entre as flores, insetos de diversas espécies. Eu só reconheci as abelhas e a borboleta (só havia uma). Variavam de tamanho e forma. Mesmo as abelhas, como se sabe através da genética, não são idênticas. Mas ainda assim estavam integradas. Elas trabalhavam juntas. Seria, segundo a biologia, um comportamento análogo e não necessariamente homólogo: dir-se-ia que cada um teve um descendente diferente em algum momento e que todas desenvolveram essa função, da mesma maneira que o beija-flor, mesmo sem ser inseto, realiza a mesma função, mas isso na minha mente ganha valor sentimental.

Eu vejo teleologia no mundo. Pra mim aqueles insetos estavam ali para me ensinar uma lição, e eles sempre estão nos jardins para ensinar a quem quiser aprender.

Vejo o mundo com um propósito, e admito que racionalmente isso é inconcebível, mas a idéia me faz sentir uma paz incomparável. Me sinto integrado, como se fosse um daqueles insetinhos, com uma mínima função, que em nada é especial em relação aos outros, mas que não está afogado em uma solidão sem sentido à procura de algo que não existe.

Essa é minha visão subjetiva. Aonde vêem o caos eu vejo a ordem. Pra mim não há equívocos na natureza. Nós é que distorcemos a realidade, nossa racionalidade e nossa teimosia é que nos impede de entrarmos em contato com o todo, com o amor ou, se preferir, com Deus.

Isso não é apelo emocional. É só uma confissão. Não quero mistificar ninguém, e também não tenho nenhum plano sobre como todas as pessoas podem ser felizes e sobre onde acharemos a verdade. Só que pra mim a felicidade, a plenitude, veio com liberdade e amor.

A liberdade vem do intelecto, e o amor do coração.

Vontade de amor

Estive pensando, depois de alcançar “O andarilho” sobre o caminho que é seguido por ele e, conseqüentemente por mim.

É algo parecido com a beleza divina, que citei num post anterior ainda nesse mês, só que com um equilíbrio sutil, dando espaço para a beleza maligna, mas prioridade à divina. Não vou mentir dizendo que a beleza maligna me agrada: ela só traz desconforto, mas tem extrema utilidade quando coloco as coisas numa perspectiva mais realista do que idealista. Ela serve para defesa, que é sempre necessária quando vivemos num mundo onde não há como prever com certeza se seremos atingidos.

Algumas pessoas simplesmente quebram todas as nossas defesas e se instalam dentro de nós, e quando alguém faz isso esse alguém ganha enormes poderes sobre nossa emoção, e é aí que devemos saber usar a beleza maligna: se a pessoa usar esse poder para nos trazer dificuldades e tristezas só nos restará a (triste) defesa contra a amada.

Com o tempo minha mente foi se adaptando com as duas belezas, e agora são as pessoas que demonstram sensibilidade para não me fazer ter que apelar pra defesa que acabam ganhando meu coração. Já não posso me atrair só por uma mente complexa: agora, em relação a amores e amizades, eu busco a sensibilidade tanto quanto a inteligência.

Isso não é racional para eu parecer um exigente: simplesmente acontece. Eu posso amar uma pessoa por sua sensibilidade e admirar outra por sua inteligência. Nesse caso, o primeiro amor eu poderia chamar de afeição, e a admiração também pode ser chamada de amor.Prefiro usar o termo amor para o amor amplo e para o amor profundo (que exibi num debate em outro post aqui no blog).

O amor, inevitavelmente, tem algo de egoísta, pois nós amamos em duas ocasiões: a primeira é quando nos vemos nos outros, e a segunda é quando vemos nos outros o que nos agrada, que não é necessariamente parte de nós. É somente o tempo que determina se um amor é projeção ou é puro, mas creio que quanto mais nós erramos nesse sentido maior é nossa facilidade em diferenciar um sentimento genuíno de uma aspiração dúbia.

Tudo isso me leva ao tema principal do post, que é a vontade de amor. Tive que dar essa introdução para que fique claro o caráter subjetivo do texto.

Observei que, negando ou não, todos os indivíduos têm dentro de si o que chamo de vontade de amor.

Essa vontade, quando mal interpretada, pode ser chamada de fraqueza, mas na verdade quando estamos em contato com ela nossa vida vai tão bem que nosso potencial (até mesmo intelectual) se amplia ao ponto de eu poder afirmar que, na verdade, o fraco é o indivíduo que nega o amor. Sempre existirá uma pessoa que amaremos e que nos fará, de alguma forma, sentir algum incômodo, porque a inteligência nos apaixona sem a necessidade de vermos a sensibilidade dos outros, e vice versa.

Assim, a pessoa que é inteligente, mas insensata, não nos vai desapontar com seu potencial, mas acabará por fazê-lo com a pouca sensibilidade que tem, enquanto que a pessoa sensível, mas de inteligência limitada, terá sempre as melhores intenções, mas viverá cometendo erros por não usar devidamente sua racionalidade.

Como sou um filhote de Jung em diversos sentidos, eu não sou negativo ao ponto de dizer que as pessoas nascem só racionais ou só sentimentais e que seguirão esse padrão pro toda a vida: para mim todas as pessoas podem alcançar o equilíbrio e, conseqüentemente, a paz. Por isso não vale a pena, por uma decepção ou outra, abrir mão do amor, pois sem amor a vida não tem qualquer sentido. Eu já vivi sem essa vontade de amor, preso nos castelo como o andarilho antes de se libertar, e te digo que aprisionar o amor me fez viver miseravelmente. Vivendo assim a vida parece não ter qualquer sentido. É parcial e infeliz.

Nunca vivi uma vida exclusivamente sentimental, pois minha função primária é a racionalidade, mas conheço que viveu e bem sei que essa vida não é melhor do que a do exclusivamente racional, porque se por um lado o racional sofre internamente por negar o amor que vive em si, o sentimental vive externamente as conseqüências de não dar ouvidos á sua racionalidade, assim como em sua “consciência pesada”.

Mas o amor pleno de verdade, aquele que creio que no fundo todos nós queremos, é o amor pleno e profundo em relação a nós mesmos e em relação aos outros.

A vontade de amor nos leva a dois caminhos diferentes, que, à primeira vista, parecem opostos, mas que não são. Esses são o amor introvertido e o amor extrovertido, ou, em outras palavras, o amor próprio e o amor aos outros. Nossa mente deseja os dois amores, e por mais que se busque negar um, outro ou os dois, esse impulso nunca acabará. Quando é aceito trás alegria, e quando é negado traz miséria.

Não há nada tão bom quanto esses amores, mas não vejo um como sendo superior ao outro: é ótimo saber quem sou, amar quem sou e minhas escolhas que foram baseadas na minha natureza, assim como é ótimo amar outras pessoas, que são diferentes de mim, mas que são belas da sua maneira e com suas próprias escolhas.

Falando mais detalhadamente, o amor próprio só nos vem quando, primeiramente, aceitamos quem somos e seguimos o provérbio do segue-te a ti mesmo. Sabendo quem somos sem negar nada por causa de preconceitos que vêm de fora, porque só nós quem podemos dizer quem somos. Mais ninguém.

É inevitável que, depois de negar os preconceitos alheios, nos apaixonemos por nós mesmos. Não sei bem porque, mas acabamos amando até nossos defeitos.

Por outro lado, o amor aos outros gera uma satisfação igualmente incomparável, pois sempre que amamos a outra pessoa nós damos abertura para que ela entre no nosso mundo, e assim que ela entra nele e nós entramos no dela há uma troca que, quando é amorosa, é sempre positiva. Ao olhar nossa vida de uma diferente perspectiva, essa pessoa pode nos mostrar nossos erros segundo sua visão, assim como nós o fazemos com ela, sendo essa relação produtiva para ambos os lados. Chamo isso de amizade, que para mim é uma forma de amar, porque o amor não tem que ser, necessariamente, romântico.

Amizade não tem nada a ver com impor vontades. Quando alguém diz que, por amor, te impede de fazer qualquer coisa que seja, essa pessoa ama mais a si mesma do que você, pois quem ama de verdade respeita o fato de que as diferenças existem a sempre existirão, e por isso não tentam impor suas vontades. Pelo contrário, com o jeitinho amoroso, elas só falam o que pensam, e com isso não geram a necessidade de criarmos aquela defesa sobre a qual falei no começo.

Assim, um conselho vale muito mais do que uma ordem.

Esse amor externo, deferentemente do interno, varia de intensidade, pois no amor próprio nós amamos a nós mesmos, e nós somos sempre a mesma pessoa, enquanto que no amor externo nós amamos várias pessoas, e é utopia dizer que amamos todas as pessoas da mesma forma e com a mesma intensidade.

Tendo consciência ou não, todos nós temos nosso próprio padrão que, ao ser repetido em outras pessoas, criam o amor. Só o fato de esses padrões existirem já comprova que a vontade de amor existe dentro de nós. Eu, por exemplo, sempre crio afeição com pessoas que considero inteligentes ou sensíveis, e para a inteligência e a sensibilidade eu tenho meu próprios valores de intensidade. É por isso que o amor só existe onde há afinidade. Assim, usando exemplos clássicos, eu admiro Goethe pela sensibilidade e Platão pela inteligência. São valores pessoais, e nesse sentido cada um acaba encontrando os seus, não existindo valores universais. Se há afinidade, há amor, e isso acaba sendo universal.

Usando como exemplos os meus valores pessoais, eu acabo voltando aos conceitos de amor amplo e amor profundo, pois no amor amplo(que engloba muitas pessoas) nós amamos cada pessoa por uma característica. Assim, vivendo num amor amplo(que acaba presumindo a poligamia) eu poderia amar uma pessoa pela inteligência e outra pela sensibilidade, numa relação instável onde uma compensa a falha da outra.

É um tipo de amor complicado pela instabilidade, e por isso eu prefiro o profundo, mas essa questão só pode ser julgada subjetivamente, pois o amor em si é tanto amplo quanto profundo, mesmo que em termos práticos nós sejamos forçados a fazer uma escolha.

Subjetivamente, eu deixo o amor amplo como sendo o amor reservado aos amigos.

O amor profundo, por outro lado, não tem necessidade de compensação. Se eu amo uma pessoa profundamente é porque, segundo a minha visão das atitudes idéias dessa pessoa, ela tem a sensibilidade e a inteligência que me atraem. Ou seja, é uma pessoa que não tem só uma afinidade parcial, mas que tem uma afinidade completa, e que pode estabelecer um vínculo profundo.

Esse amor, para mim, está associado ao romantismo: até hoje só conheci uma pessoa que despertou esse amor profundo.

A vontade de amor, aplicada nesse sentido, também pode ser chamada de vontade de felicidade, pois o amor é o que nos trás a felicidade real, sendo as outras coisas(tais como dinheiro e fama) apenas alegrias passageiras e quiméricas.

A Vontade de amor é, assim, a vontade de encontrar a Deus, porque Deus é amor. Não vale aqui entrarmos em questões intelectuais sobre a existência de Deus enquanto conceito metafísico, e é por isso que, apesar de respeitar as religiões, a minha é o amor.

Só que Deus é uma entidade que cria a sensação de correspondência desse amor, e é por isso que as religiões não estão nem perto de acabar.

Porque o amor real é interpessoal. Amor não correspondido não existe: nós projetamos e nos apaixonamos por um fantasma, nesses casos. Para conhecermos uma pessoa ao ponto de amá-la, ela deverá, fatalmente nos conhecer, e se há afinidade real o amor cresce de forma proporcional e em ritmos, se não iguais, muito próximos.

O amor é irracional, mas não é por isso que deve ser negado. Pelo contrário, o amor deve ser afirmado de todas as maneiras. A Vontade de amor é vontade de vida.

Vou deixar uma poesia que retrata a chegada desse sentimento:

Libertou-se

Libertou-se o que estava preso,

Saiu fluindo como o ar.

No início com pressão,

Mas depois suave.

Como havia de ser,

Rompeu meu peito.

Mas a pressão acabou.

E não estou despedaçado.

Não, muito pelo contrário.

Eu quero voar.

Quero me encontrar com a lua,

E contar as boas novas.

Eu já não sou egoísta,

Em mim há amor.

Mas um amor do puro,

Um amor que não tem fim.

E nem começo.

Libertou-se a minha alma.

Dos sonhos ruins,

Da opressão lógica,

Para deixar fluir o infinito...

Desejo a felicidade de todos as pessoas, e estarei por aí pra fazer de tudo pra que todo sejam felizes, cada um de sua maneira.

Peace and Love!