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Uma breve correspondência intergaláctica

De: Roberto
Para: O Místico da Montanha

Caro amigo e conselheiro. Venho por meio dessa correspondência solicitar o contato imediato entre as nossas civilizações, no intuito de, nesse contato, expandir o conhecimento humano à nossa disposição e, conseqüentemente, propiciar maior avanço tecnológico. Espero que você entenda que o que busco não é tecnologias e paradigmas prontos para que possamos copiar, mas uma forma de influência que possa mudar o curso de ação das pessoas, que faça com que elas tentem criticar a epistemologia da vida. Meu intuito é causa uma massiva onda de revisão paradigmática, na qual a humanidade poderia evoluir. Temo que minha civilização possa se autodestruir. Ou quem sabe se afundar em mitos milenares, entendidos como destituídos de história e de contexto social.

De: O Místico da Montanha
Para: Roberto

Caro habitante dos vales terráqueos. Entendo sua angústia em relação aos paradigmas do seu planeta, que você considera primitivos, mas a verdade é que essa sensação é endógena. Não estou dizendo que sua civilização não tenha lições para a aprender com a minha, mas que essa sensação não decorre da imperfeição da sociedade, mas da inconformidade dela com sua identidade. Para ser mais claro, uso a mim mesmo como exemplo. Meu nome de nascimento é pobremente traduzido como criador de tecnologia. No entanto, contrariamente às expectativas da sociedade, eu tive uma espécie de vivência interna, uma espécie de contato com algo maior, que mudou o curso das minhas ações mais ou menos na época da aquisição dos robôs moleculares individuais, aos 20 anos. Eu me tornei um místico para uns, um conselheiro espiritual para outros, um charlatão para muitos. Com freqüência fico pasmo com a falta de sabedoria, a falta de espiritualidade de alguns de meus companheiros. E também me causa muita aflição que eles tenham tamanha influência na sociedade.
Essa aflição, no entanto, decorre apenas da diferença. Se eu modificasse esse aspecto da sociedade, haveria outro que tomaria seu lugar como fonte de insatisfação. O que você manifesta pra mim é um desejo de submeter o mundo aos seus ideais, plasmados na minha sociedade. Estou falando isso porque te conheço, e porque seu sofrimento pode ser resolvido de dentro pra fora.
Com relação ao contato, estou de acordo com os estudos cognitivos mais recentes acerca da mentalidade dos habitantes do planeta. É comprovado que a esmagadora maioria da população do planeta não possui capacidade cognitiva para entender sequer 10% da complexidade das nossas tecnologias. Além de que ainda impera na população um sentimento de apego à tradições, decorrente do seu sistema de comunicação insuficiente. Na verdade, quando vocês estabelecerem sua teia de comunicação global e facilitarem a interface de acesso, passarão ainda boas décadas até que se torne suficientemente frágil o apego à tradições. Com esse apego, nossa cultura parecerá repugnante, pecaminosa, sagrada. Jamais chegará perto de se parecer, aos olhos dos habitantes, o que é.
Se você quer exemplos disso, tome a chegada de Matias no Planeta. Primeiro foi interpretado como anjo dos céus, depois como suspeito de criminoso. Imagine como seria a reação da sua população ao saber que nossas relações são com freqüência polígamas, que as pessoas mudam de aparência completamente em segundos, ou até mesmo de sexo, e que nossa identidade não possui nenhuma relação com nossa aparência estética (afinal, nós a construímos e reconstruímos freqüentemente em cada mínimo detalhe desde os 20 anos de idade)¿
Não entenderiam como o fazemos, pensariam que somos corruptos, demoníacos. Tentariam ataques fúteis, que não nos causariam nenhum dano, mas que acabaria por reforçar a noção de que somos criaturas perigosas, por não sermos passíveis de assassínio por meio de suas armas primitivas.
Seu conceito de evolução é vago, e ainda mais a própria noção de evolução social é um erro etimológico: o que se observa na história não é o desenvolvimento de uma única tendência, mas o surgimento e o desaparecimento de diferentes tendências. O que você interpreta como nova etapa da evolução humana não passa de mais uma tendência, a qual será “superada” na próxima geração por outra que não a complementa de maneira alguma, mas que será adequada ao novo contexto.
Acerca dos mitos, é uma questão de assimilação: algumas pessoas não desenvolveram sua capacidade cognitiva, mas ainda assim precisam saber. É um impulso básico, a vontade de saber. Para isso, estabelecem ou recebem critérios proporcionais ao seu potencial e dão seu próprio sentido à vida. Recriminar essas pessoas é o mesmo que recriminar um cachorro por insistir em latir, mesmo quando instruído a falar.
Espero não ter te desanimado.

As implicações da tecnologia meta-biológica no aprendizado



Joana estava no colégio, onde mostravam as informações passadas para os mais jovens. Sua primeira impressão foi de que tal coisa se afigurava cruel, inumana, e eis as suas objeções.

- Como vocês podem esperar que essas crianças gravem todo esse conhecimento de uma vez só? não percebem como esse esforço torna a vida delas miserável, na medida em que gastam toda a sua energia memorizando coisas?
- Seria inumano no seu planeta, onde as crianças lamentavelmente dependem apenas do próprio cérebro ou de tecnologia arcaica pra armazenar informação. Aliás, fazem coisas parecidas no seu planeta, o que cria seres humanos complexados, descontrolados, infelizes.
- Como as crianças memorizam as coisas senão com o cérebro?
- Através dos dispositivos meta-biológicos que elas recebem aos dois anos de idade.
- Mas o que é um dispositivos meta-biológico?
- O termo meta-biológico é uma adaptação à sua linguagem. Imaginávamos que sua significação estaria implícita. Desculpe o engano. Artefatos de tecnologia meta-biológica são dispositivos feitos com estrutura de DNA específica desenhada pra se integrarem ao sistema nervoso central. Nesse sentido, poderíamos dizer que é um computador biológicos. Apenas a analogia com sua tecnologia eletrônica não vai longe, pois esse sistema tecnológico é plástico. Ele se adapta às mudanças na estrutura do pensamento do indivíduo, sempre refazendo o processamento das informações armazenadas, e mantém uma leitura das sinapses cerebrais. Assim, quando o indivíduo pensa em se lembrar de determinada informação, ela surge em sua consciência da interface dos dispositivos meta-cerebrais. Esses dispositivos são capazes de realizar traduções de todas as linguagens da terra e da nossa civilização, além de realizar cálculos matemáticos, resolver algoritmos complexos e diversos problemas lógicos mais mecânicos. Além disso, ele possui uma capacidade de armazenamento virtualmente infinita e se integra com o sistema de coordenação motora, além de complementar o sistema nervoso periférico.
- O que? Vocês colocam chips nas suas crianças?
- Chip é um artefato eletrônico. Nós não usamos mais tecnologia eletrônica há alguns séculos.
- Não estou entendendo.

O homenzinho projetou, aparentemente com as mãos, um holograma que ia demonstrando passo a passo a interação entre os dispositivos e o sistema nervoso. Segundo ficou demonstrado, a estrutura do artefato é tão perfeitamente imbricada com o organismo que os próprios neurônios da caixa craniana realizam sinapses com os neurônios artificiais e buscam as informações, sem necessidade de uma interface que interage com os sentidos. Assim, a velocidade do fluxo de informação se torna muito mais rápida e o excesso de informação não sobrecarrega o cérebro.

- Mas... Então como são as provas?
- Não usamos provas como as empregadas por vocês. Elas são um teste de memória, raciocínio mecânico e até resistência física. São uma forma cruel de seleção entre os aptos e os inaptos. Nossas avaliações são se outra natureza. Nossas crianças desenvolvem hipóteses acerca das coisas que observam, criam princípios explicativos, falam sobre suas emoções acerca dessas coisas. Sempre com orientação dos especialistas, que indicam caminhos, entendem a linha de raciocínio da criança e fazem perguntas cruciais. O que buscamos exercitar no sistema de ensino, numa palavra, é a criatividade em suas mais diversas formas.
- Mas como vocês podem dar tanta atenção aos alunos?
- Conseguimos através da tecnologia meta-biológica no organismo dos professores, que permite maior armazenamento de informações sobre os alunos. Além disso, temos uma média de dois professores pra cada aluno, por mais que se formem turmas. Os alunos escolhem cerca de cinco orientadores para seus projetos.
- Isso me deixa angustiada.
- Porque?
- Porque parece que a solução pra educação é tecnologia que não temos a uma quantidade de professores capacitados que não temos.
- Viemos persuadir os habitantes do planeta que nos aceitem como seus visitantes. No entanto, sabemos que o estranho assusta e que a nossa tecnologia causará horror, veneração e diversos outros resultados que não desejamos. Por isso optamos por trazer grupos de nativos para a nossa nave para entenderem melhor como é o nosso modo de vida. Assim, quando chegarmos uma grande parcela da população não nos estranhará, mas antes lembrará daquele sonho que tiveram a nosso respeito.
- como assim sonho?
- Quando você acordar na sua casa hoje, pensará que isso não passou de um sonho.
- Entendi... Posso ver suas crianças?
- Pode claro. Entre por essa porta e vá até o fim do corredor.

Joana foi e a mulher que a acompanhava a seguiu até a porta, onde ela pode entrar e ver três crianças escrevendo, cada uma num ponto diferente da sala. Ela sentou ao lado de uma delas que estava escrevendo com um olhar carinhoso. A criança parecia pequena, de uns seis anos de idade, mas escrevia rapidamente. Quando percebeu a presença de Joana colocou o que usava para escrever de lado. Era como papel, só que virtual.

- Oi. Qual é o seu nome?
- Aquele que traz a mudança.
- Que bom! Tenho certeza de que seus pais gostam muito de você.
- Gostam nada. Tenho pais novos.
- Claro que gostam! Não fale assim. Seus pais escolheram ter você.
- Que base você tem pra falar, ô gigante? Meus pais não são sentimentais. Eles só escolheram meu nascimento para comprovar que a tese a respeito dos filhos que é aceito por muito está errado. Meu nome é assim porque eu, segundo eles, vim para provar que ter filhos é um erro. Eles que se fodam.
- Olha, não precisa ficar assim tão bravo. Sabe, as pessoas cometem erros, mas elas mudam. Perdoe seus pais. Um dia eu sei que eles entenderão o erro que cometeram. Você vai ver.
- Nunca me ofendi com eles. Na verdade eles não são nada pra mim além de pessoas doaram um pouco de energia para meu nascimento. Eles que se fodam, não são família pra mim.

Joana ficou com um olhar triste. Passou a mão nos cabelos do menino e começou a falar

- Quantos anos você tem?- Tenho doze anos. O que foi, esperava outra coisa?
- É que no meu planeta as coisas são diferentes. O que você está escrevendo aí?
- É um sonho que eu tive. Eu vou ser artista, sabe? Quero ser um vagabundo inútil.
- Você quer ser inútil?
- Só estou usando os termos dos meus pais. Pensam que artistas ficam inventando qualquer besteira sem qualquer fundamento e que artistas são inúteis. Mas eu sou artista, e não me importo com o que eles pensam, eu não sou eles, nem quero ser, eles que se fodam.
- Olha, apesar de tudo são seus pais. Você devia respeitá—los.
- Por quê?
- Porque eles te criaram.
- Eu não sou nada pra eles. São uns robôs! Que tal a gente mudar de assunto?
- Você tem alguma ideia?
- Já que você se interessa tanto pela minha vida pessoal eu quero saber sobre a sua.
- Tudo bem.
- Soube que seus hábitos de reprodução são parecidos com os nossos. Você se masturba muito?
- O quê?
- O tradutor está funcionando direito. Ouvi dizer que o seu planeta é cheio de niilistas e que vocês vivem transando e se masturbando o tempo todo. Deve ser o paraíso. Olha, nós não podemos ter filhos por causa do código genético, mas podemos transar, sabia?
- Isso é falta de educação! Não fale assim comigo ou com ninguém. É uma coisa íntima e muito pessoal.
- Por quê?
- Porque sim.
- Há! Você é uma acorrentada! Você tem fetiche com isso?

Joana levantou e saiu de perto do garoto, que continuou escrevendo tranquilamente. Na sala externa foi falar com a mestra em educação sobre o comportamento do garoto.

- Fui desrespeitada por um de seus alunos. Perguntou se eu me masturbo!
- Você não se masturba?
- Isso é problema meu!
- Masturbação é um problema?
- Olha. Eu não me masturbo, tá bem?
- Então faz sexo com frequência?
- Qual é o problema com vocês? Não respeitam a intimidade dos outros, não? Não sabem educar as crianças e por isso ficam mal criadas desse jeito! Aquele menino odeia os pais!
- São sentimentos dele, e não são um perigo para a sociedade. Não podemos reprimi—los.
- São sentimentos negativos e devem ser evitados.
- Você é uma acorrentada.
- O que?
- Você está presa á moral. É uma acorrentada! Cheia de inibições criadas pelos outros no próprio comportamento. Mas isso não é você!
- Eu sei muito bem quem eu sou!
- Não sabe não. Grande parte do que você é não passa de uma mentira. Você fecha seus olhos e glorifica a ingenuidade, mas não é tão ingênua quanto parece.
- Eu não sou ingênua. Só acho que não é certo ensinar crianças a serem revoltadas.
- E então o que é certo ensinar?
- A serem bem comportadas.
- Um erro! Uma criança bem comportada é um robô. Ela se comporta exatamente como os outros acham certo, e faz tudo o que disseram que é certo, mas é acorrentada e nunca desenvolve a si mesma. O problema não estava naquele que traz a mudança, está em você, que tem inibições primitivas de impulsos naturais. Aliás, não são só seus impulsos que você inibe. Veja só, há fatos claros diante dos seus olhos na sua vida que demonstram o meu ponto.

Foi exibido um vídeo para Joana, no qual ela estava transando aos quatorze anos, e depois outro dela grávida. Ela ficou chocada por alguns segundos e começou a chorar, mas logo se recompôs.

- Porra, vocês ensinam suas crianças a transar. Isso é pedofilia.
- As crianças só podem ter relações sexuais dentro de realidade virtual nessa idade. Em uns 3 anos, quando ele demonstrar que possui maturidade, poderá ter relações com robôs, e mais tarde, quando terminar sua primeira tese, poderá ter relações com pessoas de todas as idades. Não temos interesse em fingir que as crianças não possuem sexualidade em época de puberdade. Aquele que trás a mudança está nessa fase, e na realidade virtual, somente programas específicos interagem com ele. Não há abuso por parte de adultos. Se não fosse nessa realidade, ele se masturbaria evocando com a própria mente imagens análogas. É até mesmo estúpido dizer que o estamos corrompendo por deixarmos seus impulsos fluírem com relativa liberdade.

Joana encheu o pulmão de ar, mas não falou nada de imediato.

- Vejo que voe se chateou. Não é minha intenção te aborrecer, mas na interação com nossa civilização é comum que o choque entre culturas cause estranhamento. Depois de um tempo, creio, isso se tornará mais comum.
- Eu melhoro. Só que tem mais uma coisa que me deixa preocupada.
- O Que?
- E se isso for realmente um sonho? E se não houver visitantes? O que faremos para resolver nossos problemas educacionais?
- Pessoalmente, tenho sugestões.
- Me diga
- Em primeiro lugar, façam o maior esforço possível pra integrar a tecnologia no ensino. Depois, deixem de determinar coletivamente o que deve e o que não deve ser aprendido. Que a partir da puberdade, os indivíduos já possam escolher suas preferências, mas que tudo seja como se fosse uma brincadeira.
- Mas a vida não é brincadeira!
- A criança aprenderá sobre os diferentes grupos sociais de sua sociedade globalizada sem ser coagida por alguns deles, como o religioso, esportivo ou científico. Nesse sentido, poderá ter maior autonomia em escolher o que quer ser, e terá menos pressão para aprender coisas que lhe serão irrelevantes no futuro. Devem, também, dar condição de vida digna aos professores, e aumentar, sempre que possível, a quantidade de professores trabalhando. Só isso já resolverá uma infinidade de problemas que vocês possuem.
- Vou pensar nisso. Parece bonito, mas praticamente impossível de aplicar.
- Não será sempre assim. Nossa esperança é que o nosso contato com vocês vá modificando progressivamente a sua forma de ver o mundo. Assim, pretendemos um preparo de dentro pra fora antes de termos contato com os nativos.

Uma brincadeira epistemológica com o Macro-evolucionismo e órgãos vestigiais

Introdução

Em primeiro lugar, para quem nunca leu esse blog e acabou aqui por acaso, deixo evidente no título o caráter desse texto. Não se trata de um texto com zombarias pueris, mas de uma concepção filosófica: que a reflexão, a busca por conhecimento, não passa de uma brincadeira. Na verdade, a impressão que tenho é que, se não fosse pela diversão, aprender e pensar seria uma perda total de tempo. Se você não tem prazer nisso, nem se preocupe em ler, porque não será um texto pequeno. Basta você descer a barrinha do seu navegador pra constatar a veracidade do que digo.

Já em segundo, e mais direcionado ao tema em questão, o que proponho aqui é fazer uma brincadeira com dois preceitos do evolucionismo, o de Macro-evolução e o que postula a existências de órgãos vestigiais. O que farei aqui é tomar a evidência que encontrei nesse site[1] e reinterpretá-la longe da visão evolucionista, dando ênfase noutro conjunto de premissas teóricas. Se eu for refutado por alguém, o que é provável, apesar de poucas pessoas se interessarem pelo tema e/ou pelo meu blog, ainda assim ficará como um registro de como são frágeis nossos modelos de interpretação dos fenômenos.

Premissas fundamentais

Em primeiro lugar, eu gostaria de postular premissas para essa base epistemológica com a qual irei interpretar os dados.

1)      As espécies em sua variedade cromossômica foram geneticamente contruídas.
2)      A construção foi gradual, tendo várias espécies sido construídas a partir de outras que a precederam.
3)      Não houve apenas um engenheiro trabalhando, mas vários. E em diferentes épocas do planeta.
4)      Micro-evolução é uma realidade observável.

Sobre a primeira, deixo claro do que estou falando. Se uma espécie de lagartos se separou e sofreu mutações morfológicas e comportamentais, inibindo a reprodução no caso do reencontro, isso não quer dizer que tenham mudado em nível cromossômico. Se duas espécies podem se reproduzir no nível das gônadas, então podemos dizer que são iguais em nível cromossômico. Portanto, que têm a mesma origem em Design e que se adaptaram a diferentes ambientes apenas, sem se transformarem em algo diverso.
Sobre o primeiro, é bom recorrermos ao conceito de Scrip em programação. Um Script de uma determinada linguagem de programação é um fragmento de programa que pode ser utilizado em outros programas para facilitar a programação. Assim, muitas vezes ao invés de programar todo o código, o programador usa scripts para facilitar a própria vida, o que pode tornar alguns programas bastante similares. No caso dos seres vivos, poderíamos presumir que os programadores construíram as diferentes espécies partindo de um preceito análogo a esse.
Ou seja, que usaram códigos genéticos já prontos para construir novas espécies. Nesse aspecto, a aparência de que as espécies se transformam gradualmente é verdadeira, mas tais transformações não foram, de forma alguma, espontâneas. Antes, foram o resultado de sucessivas reprogramações.
Quando presumimos que há vários programadores criando novas espécies a partir de outras que conseguiram sobreviver em épocas diferentes, fica claro que eles não possuíam um “backup” com um código puro da espécie. Portanto, não refuta tal proposta que humanos tenham marcas de DNA viral em seu organismo que são idênticas as dos chimpanzés. Isso só prova, segundo tais premissas, que ambas as espécies foram programadas segundo o mesmo DNA-base, de uma espécie ancestral.
Daí, portanto, decorreriam todas as semelhanças ontogenéticas, genéticas, fenotópicas e comportamentais dos animais.
Quando falo que há mais de um programador, postulo que Deus ou forças divinas estão excluídas de tal hipótese e que as evidências apontam para o fato de que as espécies são, em nível da biosfera, muitas vezes redundantes em função, além de terem comprovadamente idades diferentes. Presumir que todas foram feitas por um só “criador”, presume uma espécie que vive milhões de anos e que cria espécies redundantes ao invés de simplesmente reproduzir as mesmas de dada função no ciclo da vida.
Quando falo de micro-evolução, me refiro ás mudanças morfológicas e comportamentais que os animais sofrem dependendo da pressão seletiva de determinado meio. Assim, essa forma de pensamento admite a seleção natural, mas a integra noutro contexto.

Vamos, então, à brincadeira em si.

Analisando os dados

Ao buscar defender os órgãos vestigiais de adeptos do Design Inteligente, o autor do site indicado no início do site mostra autores usando uma definição deficiente desse conceito. Segundo ele, os autores em questão dizem que órgãos vestigiais são aqueles que não possuem mais função alguma. Ele coloca, para refutar tal postulado, que mesmo em A origem das espécies tal colocação nunca foi feita:

“‘Rudimentary organs, on the other hand, are either quite useless, such as teeth which never cut through the gums, or almost useless, such as the wings of an ostrich, which serve merely as sails.’ (Darwin 1872, p. 603) [Orgãos rudimentares, por outro lado, são ou praticamente inúteis, como dentes que nunca atravessam a gengiva, ou quase inúteis, como asas de uma avestruz, que servem apenas como uma vela(para o equilíbrio na corrida).]

E além disso:

“‘... as was pointed out in the introduction, the term vestigial, is, as a rule, only applied to such organs as have lost their original physiological significance.’ (Wiedersheim 1893, p. 205)”[Como foi indicado na introdução, o termo vestigial, é, via de regra, apenas aplicado a a órgãos que tenham perdido sua significância fisiológica original] {grifo meu}

Logo, os órgãos vestigiais não são necessariamente, mas apenas são aqueles não possuem mais a função original. Dessa maneira, pensar em órgãos vestigiais é observar tal fenômeno já com uma projeção evolucionista. Com a hipótese que pretendo colocar nessa brincadeira, os órgãos vestigiais são um absurdo. Na verdade, vou apresentar uma proposta explicativa alternativa pra demonstrar que essa evidência só tem peso para o evolucionismo se for vista sob a ótica evolucionista.

Como aponta este autor[2], no século XIX 180 órgãos eram considerados destituídos de função pelo simples fato de que sua função não havia sido clarificada. Além disso, postula a função do cóccix e do apêndice, tendo o primeiro a função de “anexar vários músculos pélvicos, formando o diafragma pélvico”.
Segundo o autor, “O cóccix, com seu diafragma pélvico, mantém fixos muitos órgãos em nossa cavidade abdominal evitando que estes literalmente caiam por entre as pernas. Alguns dos músculos do diafragma pélvico também são importantes para o controle de eliminação de dejetos de nosso organismo pelo intestino reto.”

Infelizmente, numa distorção do conceito de órgão vestigial, ele postula que o cóccix não é vestigial porque ele tem uma utilidade, enquanto que ele trabalha com um conceito de órgão vestigial que não pode possuir função. Diferente do que ele postula, os evolucionistas colocam que um órgão que não possui a função original é vestigial. Assim, o autor não refuta os evolucionistas, já que emprega um conceito que não é utilizado por eles.
Para os evolucionistas, o Cóccix, embora tenha funções próprias no organismo, é uma cauda vestigial. Para provar isso, mostram as evidências ontogenéticas, onde fetos apresentam uma espécie de cauda primitiva.

No link da nota 1, o autor diz: “As discussed below in detail, the development of the normal human tail in the early embryo has been investigated extensively, and apoptosis (programmed cell death) plays a significant role in removing the tail of a human embryo after it has formed. It is now known that down-regulation of the Wnt-3a gene induces apoptosis of tail cells during mouse development (Greco et al. 1996; Shum et al. 1999; Takada et al. 1994), and similar effects are observed in humans (Chan et al. 2002).”
[Como foi discutido abaixo com detalhamento, o desenvolvimento da cauda humana normal nos embriões jovens foi investidado extensivamente, e a apoptose (morte celular programada) tem um papel importante na remoção da cauda do embrião humano depois que ele está formado. É sabido atualmente que a down-regulation(Regulação para baixo)[3] do gene Wnt-3a induz a apoptose das células da causa durante o desenvolvimento do rato, e efeitos similares são observados em humanos.]


Ou seja, para os evolucionistas o cóccix é uma cauda vestigial que se apresenta numa fase inicial do desenvolvimento embrionário e, inclusive muitas vezes não sofre a apoptose. Nesses casos, humanos desenvolvem caudas que inclusive reagem a estados emocionais.
Ora, isso comprova que há uma semelhança entre os humanos e outros mamíferos, e é confirmado quando tratam do Gene Wnt-3a, que está presente em ratos e em humanos.
Não há dúvidas, então, de que há semelhanças entre essas espécies em nível ontogenético, e a partir da teoria evolucionista poderíamos concluir que essa é uma evidência de que ambas as espécies possuem um ancestral em comum, do qual herdaram tais genes.

Tais dados, no entanto, podem ser reinterpretados segundo as premissas que postulei no início do texto.

Ora, se ambas as espécies foram programadas a partir de estruturas análogas, é mais lógico que os órgãos e estruturas aproveitáveis para outras funções permaneçam. Afinal, presumimos que o autor de tal espécie estivesse tentando construir animais capazes de sobreviver. Se o cóccix é parte de uma estrutura que auxilia no nosso desenvolvimento embrionário e se ele serve, como indicado, como ponto auxiliar para o diafragma pélvico, seria sensato presumirmos que tal estrutura é útil para a nossa sobrevivência. Logo, o autor teria alterado a cauda e mantido o cóccix, com utilidade própria.

De um modo geral, o cóccix continua sendo vestigial, mas é analisado por outra ótica, que não presume o macro-evolucionismo.

Mas, afinal, pra que apresentar uma alternativa interpretativa?

1)      Para demonstrar que essa não é uma evidência para a macro-evolução exclusivamente, e que, portanto, não deveria ser usada dessa maneira.
2)      Para evidenciar diferenças práticas fundamentais:
a)      Se interpretarmos um órgão como recessivo, a tendência é pensar que ele é uma estrutura com pouca ou nenhuma função no organismo. Nesse caso, a tendência é não considerarmos esses órgãos relevantes em intervenções cirúrgicas, o que pode ser fatal no caso de ele possuir algum tipo de relevância que desconhecemos.
b)      Além disso, se presumimos que todos os órgãos vestigiais permaneceram no nosso corpo por uma intenção racional, provavelmente entenderemos melhor as estruturas dos organismos no momento em que nós mesmos formos programar espécies. Afinal, como alguns já devem fazer, já foi produzida uma bactéria 100% sintética. Essa perspectiva poderia, portanto, auxiliar os programadores de organismos a trabalhar em novas espécies a partir de antigas, como um programador aprendiz lendo o programa de outro mais experiente.
c)       Além disso, pode apresentar uma abertura metodológica para a aquisição de novas evidências, que não podem nem ser vistas dentro da perspectiva evolucionista. Afinal, nossa linguagem, nosso discurso de mundo, com freqüência delimita o conjunto de fatos que somos capazes de perceber. Pressupor alguma função oculta, alguma utilidade escondida, pode inclusive instigar a investigação.

 Conclusão

A utilização de órgãos vestigiais como evidência para a macro-evolução é no mínimo parcial, já que tal evidência poderia indicar uma programação logicamente estruturada. Afinal, é muito mais lógico preservar estruturas com utilidade apenas alterando-as do que eliminá-las completamente e desenhar outras. Tal programação daria mais trabalho ao autor e aumentaria as chances de erro. É sempre melhor manter o máximo possível do código que já está em funcionamento do que recriar tudo do zero. Vejam, aqui, que não se trata de um programador onisciente, portanto, mas apenas de um programador racional. Conseqüentemente, tal teoria também poderia prever e explicar a cauda em seres humanos e qualquer outro órgão recessivo, não sendo este um privilégio do evolucionismo.
Na verdade, se presumirmos que há uma infinidade de diferentes programadores que realizaram seus trabalhos em diferentes épocas, todos os fenômenos expostos pela macro-evolução podem ser reinterpretados. Apenas alguns conceitos, como o de que tal coisa acontece sem intervenção racional, seriam abandonados como irrelevantes.

Fica estabelecido, portanto, que o evolucionismo está longe de ser a única proposta coerente para explicar os fenômenos naturais.

E digo mais: em termos de probabilidade, creio ser mais razoável supormos que houve intervenção inteligente do que imaginarmos que tudo se deu a partir da lógica evolucionista. Afinal, nós mesmos já estamos começando a programar o DNA. Deixo uma questão relevante para ser tratada noutro post:
1)      Numa mutação que implica a mudança na estrutura cromossômica, não teríamos os filhotes do mutante como híbridos muito provavelmente estéreis?
(afinal, os híbridos geralmente possuem um número impar de cromossomos, o que inviabiliza a espermatogênese, além de outras complicações)[4]
2)      E se não forem estéreis, a tendência não seria que a terceira geração fosse estéril?
(Para ser mais claro, se um mutante com 25 pares de cromossomos e um espécime normal com 23 pares dão origem a um hibrido com 24, não seria esse híbrido capaz apenas de deixar descendentes férteis acasalando com outro híbrido [seu irmão]?)
3)      Não é correto postular que a pressão do meio só causa mudanças morfológicas e comportamentais, mas nunca em nível dos cromossomos?

Que me responda o aventureiro que leu esse texto até o fim.


[1] http://www.talkorigins.org/faqs/comdesc/section2.html#atavisms_ex2
[2] http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:qQ42heALOcIJ:www.veritatis.com.br/article/3888+http://www.veritatis.com.br/article/3888&cd=1&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br&client=firefox-a
[3] http://en.wikipedia.org/wiki/Downregulation_and_upregulation
[4] http://www.artigonal.com/biologia-artigos/genetica-e-citogenetica-na-caracterizacao-de-hibridacoes-interespecificas-em-diferentes-ordens-de-mamiferos-2626451.html

Acerca da vacuidade espistemológica do Único Método Verdadeiro

Este post é na verdade um pequeno fragmento do extenso debate que ocorreu na comunidade Psicologia, do orkut:
(http://www.orkut.com.br/Main#CommMsgs?cmm=75705&tid=5493355023754923606&start=1)

X Disse: “Apenas fenômenos que não podem ser verificados com a metodologia tradicional.”
 
...

Que fenômenos são esses? E por que não considera que podem ser verificados pela metodologia tradicional?

É bom notar que a primeira frase foi escrita por mim anteriormente e que ele a estava questionando.


Eu respondi: “falo, por exemplo, das mais diversas manifestações do Inconsciente como o coloca a Psicanálise e a Psicologia Analítia de Jung. Talvez eu não tenha sido feliz no uso do termo fenômeno. O melhor deveria ser fato.

Assim, digamos que há o fenômeno sonho.

Uma avaliação científica provavelmente encontraria nesse sonho uma série de lembranças do que ocorreu no dia ou coisas recentes. Assim, essa análise diria: a causa desse sonho reside nas lembranças dela e é das lembranças que as imagens têm origem. Creio ser isso verificável. Eis o fato explicado pela metodologia científica.

Mas daí tem outra perspectiva, um tanto intuitiva. Aquela segundo a qual o sonho não é meramente um apanhado de lembranças sem qualquer sentido, mas que são lembranças organizadas com um propósito. Esse propósito, creio ser consenso entre todos os psicanalistas e analistas Junguinaos, é revelar ao paciente algo que lhe é Inconsciente. Até onde sei, Freud procurava o sinal de recalque sexual e Adler o sinal da vontade de poder, tudo isso tendo sido reprimido por não ser compatível com a moral.
Para Jung, os conteúdos reprimidos são muitas vezes aceitáveis pela sociedade. Por exemplo, um criminoso pode reprimir da consciência o fato de que ele pode ser amável.
Eis um diferente fato, visto sob outra ótica.

E a teoria continua. Isso é extremamente limitado. Mas qual é o ponto?

É que isso não tem como ser baseado em estatística, já que dificilmente veremos sonhos iguais, e mesmo que entremos em contato com duas descrições idênticas, certamente as associações serão diferentes. Isso quer dizer que cada sonho é tão único, idiossincrático, que não há como fazermos um estudo pra comprovar através de testes incansáveis que os sonhos possuem mensagens: Não existe uma linguagem universal e observável para interpretar sonhos. Porque há tanta diferença em significados que pode-se, basicamente, perceber fatos diferentes em sonhos diferentes. A variedade de significados e conteúdos é grande demais e não há como separarmos apenas alguns para estudá-los separadamente. Ou seja, é uma análise onde a razão não é o fator principal. Muito intuitiva e que não pode ser sistematizada.

Estudos quantitativos, nessa área, tendem a não ter muita utilidade. Assim, o método tradicional classifica essa forma de conhecimento como subjetiva e, portanto, não científica.
Mas é aquilo que falei: a comunidade de Jung no Orkut tem mais membros do que essa, sobre psicologia de um modo geral, e mais ainda tem a comunidade de Psicanálise englobando Lacan e Freud.

Considero uma grande covardia e falta de conhecimento quando dizem que essas formas de conhecimento são placebo simplesmente porque lidam com fatos que não podem ser verificados pelo método tradicional. Esquecem que, como Kuhn e Feyerabend apontam, a ciência não evolui pela insistência num método, mas por rupturas: uma nova cosmologia (que envolve novos fatos e novos métodos) não é uma expansão da antiga, mas com freqüência a contradiz diretamente, sendo ambas incomensuráveis.
Para ser mais claro, ficou demonstrado que essa postura de querer reduzir todos os outros paradigmas ao tradicional não só é uma forma de dogmatismo com o Único Método Verdadeiro como é um entrave para a evolução da ciência. Quem inova na ciência não é quem é disciplinado e aceita todas as regras: é precisamente quem as quebra. Porque a realidade se mostra cada vez mais complexa, e vamos percebendo com o tempo que nossas regras são bem efêmeras. Não há sequer um paradigmas que consiga explicar todos os fenômenos que observa, tampouco outro que pode explicar todos os fenômenos que existem (presumindo que todos os fenômenos que existem sejam uma coisa observável).

Ora, se os paradigmas de Freud, Adler, Fromm, Lacan, Jung, etc. lidam melhor com o fato de que sonhos encerram em si significações idiossincráticas, porque deveríamos reduzi-los ao método tradicional, que claramente não engloba em si esses fatos?

Para reducionistas é mais fácil você dizer que esses paradigmas não passam de “bobagem subjetiva”. É seguro, porque assim continuam com o Único Método Verdadeiro. E negam a existência de qualquer fato que não se adapte à sua visão estreita sobre a realidade.

Veja que não tenho nada contra o método tradicional. Inclusive eu o uso até no meu cotidiano, e você pode imaginar como coisas engraçadas podem sair daí, né? Estilo The big Bang Theory mesmo. Só que para os fatos que mais me chamam a atenção, e que são sim determinantes no comportamento humano (não são de forma alguma os únicos), esse método não é eficaz.

Uma coisa interessante de se notar é que um paradigma não exclui o outro de maneira alguma. O conflito existe só por preconceito de positivistas, que não admitem que há fatos que não tem como ser explorados pela metodologia tradicional, sendo qualquer um deles mero “placebo”. Só existe pela incapacidade, diria, emocional, que alguns indivíduos têm pra “pensar fora da caixa”. Engraçado que placebo também é tabu, mesmo tendo Jung mesmo dado uma idéia legal sobre a psicossomática fora do método tradicional. E basta você entender o paradigma dele e observar a realidade sobre essa ótica pra você ver que o surgimento de doenças psicossomáticas e até mesmo a reação psicossomática contra antígenos não é uma questão de “mero sugestionamento”.”

Resposta à may

Este post contem comentário meus a um artigo. Se você leu, por algum motivo, a minha resposta e tem curiosidade sobre o texto comentado, entre no meu perfil do blogger e, lá, veja meu e-mail.

Hey...!
Em primeiro lugar, não espere uma super crítica, elaborada de maneira extremamente cuidadosa e seguindo à risca seja que método for. Minhas considerações são de um intuitivo, porque não gosto de me prestar ao serviço de robô intelectual. Vou ser humano, vou entrar em contradição e, em alguns aspectos, posso não fazer sentido algum. Apesar de que, até onde eu vejo, minhas idéias parecem ter uma relação de coerência interna (não se contradizem entre si), o mesmo pode não se aplicar á minha linguagem, porque aqui eu posso me dar ao luxo de não escrever submisso à regrinhas acadêmicas. Você verá que minha crítica parte de uma perspectiva bem diferente e que, portanto, corro o risco de interpretar de maneira dúbia a posição do texto. Espero que me perdoe nesse caso e que tenha a paciência de apontar meus equívocos. Então chega de blá blá blá.
Em várias partes do texto eu notei que se fazem críticas ao dogmatismo dos meios de conhecimento técnico, explicitando que há fragmentação e historicidade inclusas nesse conhecimento e que através destas é possível haver uma reflexão mais profunda. E através dessa, o indivíduo pode entender porque está onde está e, assim, construir uma vida crítica em relação a isso.
Para ser o mais claro possível, bem no começo, o texto possui como intenção demonstrar que seria vantajoso para a sociedade se todos os indivíduos tivessem esse tipo de atitude.
No texto, é dito:
“‘nas grades curriculares, são eliminadas quase todas as disciplinas que fazem “pensar”, pois o mercado quer “gente que faz”. As instituições literalmente disputam os “clientes” e estes vão escolher aquelas que são mais atraentes e que, geralmente, não exigem muito em termos de estudo.’”
No entanto, essa parece uma redução. Na verdade o mercado quer gente que saiba inovar para, assim, se manter na competição. Pessoa incapazes de inovar através da reflexão não suportam a competição e precisam abrir mão de suas ambições materialistas.
Na verdade uma coisa marcante nessa idéia de pensar é que ela é bem mais abstrata. O indivíduo refletir sobre sua condição histórica, aqui, é colocado como sendo mais relevante do que o indivíduo conseguir inovar numa oferta de produto ou serviço. Mas porque?
Ora, é aí que chega a minha pesquisa: porque o tipo psicológico dos autores (incluindo você e os citados) é intuitivo. Isso significa, a grosso modo, que é característico que se pressuponha que abstrações, reflexões sobre porque, para que, qual é o sentido são mais relevantes do que como, quando ou onde.
A reflexão filosófica, histórica e a percepção e representação artística, nesse sentido, são coisas valorizadas por esse tipo, para além das coisas práticas da vida. Até aí, está tudo bem. É uma perspectiva sendo apresentada, uma visão tão humana quanto qualquer outra e sem a pretensão de englobar outras em si mesma.
Só que existe outro tipo psicológico. Existe outra maneira de se ver o mundo e lidar com ele, e ela não pode (especialmente enquanto houver escassez) deixar de ser vital. Essa é a visão pragmática, tão criticada nesse texto.
Dentro dessas premissas o ser humano reflete criticamente sobre sua vida sob diferentes perspectivas? pouco provável.
Cria e/ou aprecia a arte (não o entretenimento)? também é pouco provável.
Possui, em si, ainda aquele rastro de humanidade intuitiva, aquela paixão, imaginação? duvido...
Mas por quê?
Segundo o texto, precisamente o contexto induz as pessoas a serem assim. É apresentado o seguinte trecho falando a esse respeito:
“As disposições subjetivas se encontram no âmbito da disciplina de estudo, vontade, objetivos pessoais e acadêmicos, tenacidade, interesse, formação intelectual, vida cultural, capacidade de autoavaliação e auto-organização de seus processos de estudo. [criatividade?]
As disposições objetivas se constituem dos recursos materiais e financeiros, tempo hábil de estudo, instalações institucionais e outros aspectos que proporcionam contato com a cultura e conhecimentos formais e científicos.”
E bem antes diz coisas como: “a promoção da consciência crítica” ou “A formação, enfim, sugere a apropriação dos saberes historicamente constituídos”.
O que logo culmina nisso:
“conhecer os pensadores e os pensamentos, integrar-se pela via das apropriações, às questões filosóficas e científicas que se objetivam em obras humanas imprescindíveis para que o sujeito do conhecimento tome consciência do seu tempo histórico, de suas possibilidades e limites. É preciso compreender o movimento e a gênese daquilo que se tem intenção de conhecer e transformar.”
Quando leio promoção da consciência crítica, não penso em outra coisa que não doutrinação. Felizmente quis Deus que esse tipo de doutrinação seja impossível na prática, mas já que estamos brincando de teorizar, porque não refletir sobre o assunto? Já que isso pra mim não passa de brincadeira, então agora é “à vera”.¹
Porque não é citada a criatividade (como disposição subjetiva), que é basicamente o que há de mais importante na produção de conhecimento? Bem, isso porque parece que há certos autores que procuram induzir estudantes a produzirem o “senso crítico” com base em seus próprios pensamentos. Isso fica claro quando lemos teses (inclusive de mestrado e doutorado) onde os alunos citam basicamente os próprios professores. E ainda têm a cara de pau de dizer que estão “promovendo o pensamento crítico!” (lembre-se que não estou falando de você e que está longe de mim a intenção de ser grosseiro. Isso pra mim é brincadeira!)
E porque o conhecimento tem que ser formal? Porque tem que estar nesse formato acadêmico que, com freqüência, faz meu estômago se revirar, de tão robótico que é? Fico pensando sobre o mesmo tópico: será que a intenção desses autores é realmente promover o pensamento crítico? Ou será que buscam apenas promover a si mesmos através de seus alunos e de suas apresentações e teses?
Como Feyerabend disse e citei no e-mail que te enviei (enrolando por preguiça de escrever isso tudo que eu, se fosse você, teria preguiça de ler):
“um físico talvez prefira um artigo mal-escrito e parcialmente incompreensível, cheio de erros, a uma exposição cristalina porque tal artigo é uma extensão natural de sua própria pesquisa, ainda bastante desorganizada, e ele pode ter êxito bem como clareza muito antes de seu rival que jurou jamais ler uma única linha confusa (uma das qualidades da escola de Copenhague era sua habilidade em evitar decisões prematuras).”
Só que isso pode não ser considerado formal e nem mesmo científico. Aliás, a decisão de que tipo de leitura o indivíduo precisa é sempre e completamente estúpida. Não é assim que as coisas funcionam se o indivíduo busca autonomia intelectual. Não mesmo!

Uma das idéias mais interessantes que já tive e que culminou em várias outras, eu a tive assistindo um filme de zumbi! Exatamente um filme de zumbi!
Isso porque o que propicia a nossa criatividade não é a leitura e o conhecimento da visão de um zilhão de teóricos (que, em sua maioria, só estão copiando o pensamento crítico de alguém). Não mesmo. O que nos propicia essa criatividade (em termos de leitura [não creio que a leitura seja o mais importante, mas isso eu falo depois]) é muito mais deixar nossas leituras fluírem conforme nos agradar, sem regras, sem restrições e, especialmente, sem disciplina.
Existe uma relação direta de oposição entre criatividade e disciplina. Um soldado é disciplinado, mas não é criativo. Um artista é criativo, mas não disciplinado. E a produção de conhecimento também é uma forma de arte. Apenas numa linguagem mais feia e racional. Isso, claro, quando me refiro ao conhecimento sobre o ser humano e sua cultura, que é sempre imerso em subjetividade. E dou Graças à Deus por isso, porque se fosse objetivo, seríamos robôs. Tomei gosto pelas infinitas contradições e incoerências dessas áreas do conhecimento.
Então não, “a relação com o conhecimento [não] está diretamente definida por sua postura de estudo e de conhecimento de mundo em função do acesso a cultura escrita fundamentada por suas disposições objetivas e subjetivas.” Como o Feyerabend aponta (procurei no livro essa citação só pra você!) :
“A criação de uma coisa e a criação mais a compreensão plena de uma idéia correta da coisa são com muita freqüência partes de um mesmo processo indivisível e não podem ser separadas sem interromper esse processo. Tal processo não é guiado por um programa bem definido e não pode ser guiado por um programa dessa espécie, pois encerra as condições para a realização de todos os programas possíveis. É, antes, guiado por um vago anseio, por uma ‘paixão’ (Kierkegaard). Essa paixão dá origem a um comportamento específico que cria as circunstâncias e as idéias necessárias para analisar e explicar o processo, para torná-lo ‘racional’.”
Assim, a relação com o conhecimento é muito mais uma questão de refletir, de estar antenado(a) para esse vago anseio, do que para passar horas e mais horas debaixo de livros numa biblioteca buscando a coisa certa a se pensar. Não falo mal dos livros e de seus autores. Afinal, eu mesmo já escrevi dois livros, continuo escrevendo e lendo livros (a maioria deles teóricos, filosóficos, científicos). Apenas o que digo é que não é assim, não é com a leitura, que o senso crítico se forma. Com a leitura exacerbada, se forma a disciplina. E disciplina no meio intelectual é sinônimo de esterilidade.
Não existem obras humanas imprescindíveis. Não existe sequer um livro nesse mundo que deveria ser lido e estudado por todos os indivíduos. E felizmente, isso nunca será possível, por maior que seja o investimento financeiro e o lobby em relação às outras formas de se pensar.
Daí decorre que, na verdade, tais pensamentos parecem demonstrar basicamente aquela cristalização metodológica que eles criticam. Uma atitude é colocada no pedestal, promovendo a esterilidade intelectual e a chamando de crítica.
Assim, de um modo geral, a diferença entre o indivíduo pragmático e o que vive lendo e estudando um zilhão de livros “obrigatórios” é pequena em nível pessoal. Na prática, no entanto, o pragmático produz, enquanto que o teórico não faz absolutamente nada além de se promover com sua pseudo-intelectualidade. Em nível econômico, um é útil e o outro é inútil.
Não quero, com isso, atacar a própria noção de produção acadêmica. Pelo contrário. Apenas digo que é estéril a concepção apresentada sobre como isso deveria ser feito, e que mesmo aqueles que consideram o pensar crítico importante não poderiam tolerar por muito tempo esse tipo de doutrinação (castração) do intelecto. Você mesma, aliás, se voltou para a arte, contra toda essa besteirada. Isso me lembra uma voz que Jung ouviu, dizendo que a psicologia na verdade é uma arte. Eu extrapolo até para o conhecimento filosófico: isso pra mim é arte. Só assim que pensar, refletir e pesquisar pode realmente ser gratificante. O que existe fora disso é auto-afirmação e bobagem.
Romão (meu lulu na... não vou nem rimar) disse:
“a ciência não significa adequação perfeita dos juízos à realidade, nem é um conhecimento absolutamente certo a orientar uma ação isenta de riscos, mas uma correção progressiva das distorções introduzidas pelo entendimento humano na abordagem da realidade, tanto em função de sua ontologia quanto de sua ideologia.”
Quando eu vejo alguém escrever uma coisa dessas só uma palavra (neologismo?) surge na minha cabeça: whatahell!?
Assim, só lembrando que a ciência também é uma forma de entendimento humano, e que, cientificamente, um zilhão de atrocidades foram cometidas, como o darwinismo social. Parece que é sacanagem quando dizem que a ciência corrige alguma coisa. É só mais uma forma de ver as coisas, só mais um método. Não há como provar que a ciência corrige distorções: em última análise, ela pode muito bem estar introduzindo novas distorções. Não é o melhor e nem o mais interessante (pelo menos na linha racionalista) do que outras formas de se perceber o mundo.
Eu agora me pergunto se você ainda está lendo essa bobagem. Mas enfim, já que me propus a escrever, então pelo menos cumpro minha palavra. Talvez eu publique no meu blog, pra que seja publicamente ignorado. Mas enfim...
Chego agora numa parte que exalta o conhecimento escrito... E eis aqui algo que me deixou ligeiramente indignado:
“[A] ubiqüidade da cultura escrita permite percebê-la como um modo de organização social em que a produção e a circulação do conhecimento, dos costumes e dos valores se fazem por meio de e em função de seu uso.”
(...)
“O ato de ler e de escrever transcende as formas simplesmente de ensino a que se dispõe a escola”
(...)
“O ato de ler e escrever assume um papel fundamental em relação ao pensamento. O indivíduo, ao lidar com a língua e a escrita, toma consciência do mundo e da linguagem e encontra condições favoráveis para monitorar a atividade intelectual.”
Aqui eu planejava encontrar um trecho de um livro com textos de Schopenhauer chamado Sobre o ofício de escritor. No entanto, à despeito dos meus obstinados dois minutos de procura, não achei o bendito. De qualquer maneira, lembro da idéia, então a expresso fingindo ser minha.
O ato de pensar é diferente do de ler e, com freqüência, está oposto a este. É mais importante para um indivíduo refletir sobre o que ele leu cuidadosamente do que simplesmente continuar lendo. Porque a reflexão é ativa e a leitura é passiva. Se o volume de leitura é grande demais, o conteúdo é absorvido através de memória mecânica, não é atribuído a ele nenhum valor, nenhum tipo de juízo. Morre o senso crítico. Claro que na ausência de leitura o indivíduo viverá fechado num ovo, se esperança de transcender seu próprio egocentrismo. Mas isso não quer dizer que a leitura seja o último biscoito do pacote.
A transmissão dos costumes e valores há muito não se faz pela escrita. Pelo contrário, a TV e o Cinema tomaram essa função para si com grande facilidade. Podemos escrever a tese mais límpida coerente e louvável: ela nunca terá mais influência que um filme Avatar ou Crepúsculo (abominação).
Diferentemente do citado, creio que as potencialidades de representação e ensino de uma aula são muito maiores do que as da escrita e da leitura para a maioria das pessoas.
Em primeiro lugar porque uma coisa escrita não responde às suas contestações e nem às suas duvidas. Ela não tem consideração sobre sua forma de se expressar e entender, então não vai tentar te explicar com outras palavras. Isso seria resolvido com o contato virtual, onde você poderia ler e ao mesmo tempo interagir.
Só que aí é necessária uma ferramenta eficiente de comunicação e equipamentos bem eficientes. Seria basicamente uma aula à distância.
Pra mim o abismo em potencial da aula presencial e um livro é a afetividade. É o professor envolver os alunos, demonstrar a eles que se importa, que os ama, que quer pra eles o melhor. Ser divertido, criativo, cativante. Cite pra mim um texto acadêmico que faça isso e eu vou dar um salto mortal pra trás no mesmo instante: todos os que eu vi são um porre, que só consegui mesmo ler por amizade ao autor ou por apresentar uma perspectiva interessante sobre um tema de pesquisa.
Claro que se a aula é uma caricatura do conhecimento escrito, onde o professor faz os alunos lerem a matéria e fica simplesmente falando e esperando que eles memorizem é inferior ao conhecimento registrado nos livros. Mesmo que, na prática, alguns indivíduos aprendam com maior facilidade ouvindo do que lendo, esse tipo de aula é cansativo, chato. É um pé no saco.
Pensar criticamente, refletir, aprender é criar. O pensamento que não envolve um processo criativo onde o sujeito integra o conhecimento em si mesmo (mesmo que seja para criticá-lo) não é aprender. É memorizar. Para isso seria mais adequado o indivíduo instalar um disco rígido na cabeça e “armazenar” a informação.
Sabe, may, eu sou da opinião de que faríamos muito pela sociedade promovendo autonomia e criatividade. Promovendo, através disso, o desenvolvimento da individualidade dos indivíduos ou, como você verá no livro da Nise, o processo de individuação. Promovendo não o conhecimento como forma de reformar a sociedade, mas de o indivíduo tomar consciência de si mesmo. Porque há um conflito entre uma forma chata de saber, onde o indivíduo apenas memoriza informações por obrigação, e uma forma vazia de entretenimento, que é justamente o momento em que ele esvazia a mente. Em nenhum momento o indivíduo é criativo, em nenhum momento alguém o permite ser criativo, ninguém o instiga a isso. Só vemos um monte senhores da verdade, dizendo que obra são obrigatórias e coisas do gênero.
Pra mim, a pessoa pode ter escrito a maior abobrinha do mundo. Se ao menos ela se deu ao trabalho de pensar essa abobrinha sozinha, com a informação que ela possui integrada na própria mente, isso já é um milagre. Eu, afinal, comecei convencido de que semanas na verdade possuem 8 dias e de que morango é o exato oposto de chocolate! Por sorte eu era calado demais ou não houve ninguém pra me dizer que o que eu pensava é idiota e indigno. Não, eu segui pensando isso até comer o biscoito de doce de leite!
Pra mim não tem diferença se é um robô pragmático ou um robô acadêmico. Ainda assim ele só segue algoritmos, ele só repete padrões. É estéril...!
Nesse ponto eu fui dormir, então talvez fique evidente uma diferença na minha forma de me expressar. Tomara que não piore :p
Não texto, foi dito:
“diante da atual conformação do capitalismo, em que se destacam as inovações tecnológicas, seria grande a necessidade de uma educação ampla, formativa, que transcendesse o tecnicismo e o pragmatismo”
(...)
“O reconhecimento do caráter histórico, dinâmico, inacabado e provisório do conhecimento, estendendo essa compreensão da mutabilidade e historicidade para a análise da sociedade e da própria humanidade. (MACHADO, 1995, p. 84)”
Aqui parece haver um juízo pragmático implícito. À saber, que a educação ampla e formativa seja de utilidade para o desenvolvimento tecnológico, auxiliando no avanço da ciência. Para isso, seria necessário tomar consciência da verdadeira “fragilidade” do conhecimento, para que a ciência e a tecnologia possam se desenvolver de maneira apropriada, sem cristalização paradigmática. Só que há um pequeno problema: o avanço da tecnologia ocorre com rupturas. Novos princípios físicos, por exemplo, fundamentam novas formas de tecnologias, mas esses princípios não surgem da extrapolação de uma teoria mais antiga, tampouco da observação de novos fatos. Antes, uma teoria antiga é literalmente demolida para ser substituída por outra, que trará novas implicações tecnológicas. E, de um modo geral, essa mudança se faz pratica apenas lentamente: no início, tecnologias surgem com a combinação prática dos dois princípios, até que um substitua completamente o outro.
Só que há um problema todos os paradigmas possuem implicações técnicas e tecnológicas próprias. Um indivíduo com os paradigmas físicos da época em que Nikola Tesla não tinha inventado a corrente alternada (que usamos hoje em dia) usava a corrente contínua e fazia a sociedade funcionar com esse princípio. Naquela época, de nada adiantaria reconhecer que esse ou aquele paradigma é frágil em nível histórico e/ou ontológico: para ele trazer luz pra casa das pessoas, era o paradigma daquela época que ele usava.
Não adiantaria para um empresário, por exemplo, conhecer o contexto histórico da economia e ter lido O capital, de Marx. O que ele precisa saber, onde ele precisa inovar, são coisas que existem no nosso Zeitgeist² de agora. Não é relevante para quem vai produzir saber uma coisa assim. A relevância desse conhecimento está mais na hora de entender o contexto local para a implementação de políticas públicas. Mas para a educação de todas as pessoas isso está longe de ser necessário: é bom que aqueles que vão precisar desse conhecimento o possuam, e vantajoso que quem possua interesse também o possua. Nossa sociedade é dinâmica demais para se afirmar que existe algum tipo de conhecimento teórico que todos deviam ter, algum livro que todos deveriam ler. Nem todas as pessoas querem analisar a realidade, e é lícito que elas façam o que bem entenderem...
“A assunção da educação geral como um bem intrínseco e não como algo que se determina em função de seus fins. A verdade mais nobre seria a procura do conhecimento enquanto tal, de modo que a Universidade se caracterizaria como lugar da procura da verdade e, só depois, como o lugar de sua aplicação; as faculdades profissionais só têm razão se submetidas ao cultivo da ciência.” (PEREIRA, 2008, p. 70).
É aquilo que falei. Procurar a verdade é bonito, mas não enche barriga. É bonito, mas fútil, porque há tanta multiplicidade paradigmática que não vejo como alguém pode realmente acreditar que há uma verdade. Existem universidades que formam trabalhadores e outras que formam cientistas e pensadores. E, até onde sei, há um equilíbrio entre oferta e procura desses cargos. Que a educação como bem intrínseco seja apresentada por professores (como com freqüência o é) e que os alunos decidam se isso é verdadeiro ou não.
“A compreensão da formação profissional incorporando a perspectiva de cidadão instruído, culto e ético. A educação completa ofereceria mais que conhecimentos e habilidades pragmáticos, contribuindo para que o indivíduo seja ativo e reflexivo. O princípio básico dos estudos de educação geral encorajaria a participação na vida social como pessoa livre, instruída e culta (PEREIRA, 2008, p.70).”
Ficou vago. Na prática, o que isso significaria? se todos nós lêssemos a constituição, conhecêssemos a lógica da luta entre as classes. O que isso mudaria na nossa vida? a mim parece que não há consciência que seja mais poderosa do que as exigências do mercado. A mobilização popular, por mais que seja bela, é economicamente desastrosa. Vivemos num mundo de escassez e precisamos de um mercado. E o mercado demanda esse tipo de educação. Isso é feio e desagradável, mas fazer o que? (não é uma pergunta retórica)...
É aquilo que eu falei: se 40% da humanidade fosse precisamente como eu, passando todo esse tempo lendo e estudando coisas teóricas, nossa população nunca poderia ter se tornado tão grande. Porque nossa população é muito grande e não é necessário que tantos indivíduos produzam conhecimento dessa natureza. Temos nossa demanda e nossa oferta. Um desequilíbrio aqui seria economicamente desastroso. Aliás, se todos fossem intelectuais, nossa espécie desapareceria. O pragmatismo não é uma praga. É desumano, feio, irritante, mas completamente necessário á nossa sobrevivência.
Eu mesmo lendo isso (se é que chegaria a ler tudo) ficaria irritado. Tal nível de pragmatismo me dá nos nervos, precisamente porque não está na minha natureza, no meu modo operante, aceitar coisas assim. E a humanidade, apesar de que em grau pequeno, ainda necessita de alimento para o espírito. Ainda é crucial pararmos para ouvir uma música, lermos um romance, assistirmos um filme (que não seja clichê de Hollywood). No fim do dia, o ser humano ainda quer filosofia, ainda quer arte, ainda quer sua humanidade. E, segundo minha visão, isso é mais freqüente hoje do que antigamente, especialmente por conta da Internet e da diminuição da escassez.
De fato, a indústria cultural produz merda diariamente. E de fato cria produtos que mais esvaziam a mente do indivíduo do que o fazem refletir. E realmente eu consideraria preferível que programas que instigam que fazem o indivíduo pensar, tomassem frente. Mas a verdade é que não há demanda. Esse não é o nosso Zeitgeist. Pessoas comuns gostam de coisas banais e comuns, e não seremos nós a moldar suas mentes. Sim, o mundo está uma merda, vemos coisas revoltantes acontecendo todos os dias. Coisas que não fazem sentido³. Só que é isso que temos...! E felizmente, para nós, há espaço para manifestarmos nossa arte e o nosso pensamento, não?
Nossa função aqui é conservar o espírito humano e deixá-lo sempre disponível a quem quiser procurá-lo. Tenho para mim que conforme a escassez for diminuindo através do avanço tecnológico, os trabalhadores sairão do setor de produção (que produzirá mais com custos menores) e passarão para o setor de serviços.
E não é a educação parte desse setor. Na prática, creio que só precisamos viver mais e que a proporção entre o número de professores e alunos mude. Um professor de ensino médio com uma turma de 35, 40 alunos, simplesmente não tem como transmitir o conhecimento de maneira dinâmica: o tamanho do grupo inibe qualquer manifestação individualizada.
Por enquanto, as coisas permanecerão como estão. Creio que é possível que vejamos essa mudança começar no nosso tempo de vida. Daqui a uns 50 anos, quando a biotecnologia estiver mais desenvolvida, teremos uma diminuição dramática na escassez. Aí a produção será mais barata e teremos que nos preocupar cada vez menos com a sobrevivência, tendo mais tempo para a reflexão.
Isso me leva à parte mais mística das minhas opiniões, que talvez pareça ridícula ou revoltante.
Estamos num período de transição na nossa sociedade, onde valores como o conhecimento, a liberdade e o amor estão se tornando mais... Psicologicamente imperativos. Temos o Movimento Zeitgeist⁴. Inclusive escrevi um texto⁵ a respeito disso, onde expus que nosso psiquismo está se alterando em nível coletivo, especialmente por conta das mudanças climáticas. Aconselho que você dê uma olhada nesse material quando tiver tempo. Nossa civilização está se emancipando e somos parte disso.
Estou honestamente de saco cheio. Considerarei um milagre se você chegar a ler isso. Se nos correspondermos, no entanto, você verá que esse texto dá uma introduzida (mesmo que mais ou menos incoerente) à minha forma de pensar, de maneira que se você ler mais alguma coisa, será muito mais fácil assimilar.
Anyways, chega dessa bobagem intelectual por hoje...
1)      Não sei se dizem isso por aí, mas por aqui isso significa que um jogo de bolinha de gude valia a bolinha. Se você é acertado jogando à vera, você perde sua bolinha.
2)      O espírito do tempo, o conjunto de conhecimentos de uma determinada época.
4)      Movimento que surgiu depois do lançamento de dois documentários na Internet por Peter Joseph:
Esses vídeos foram apresentados num festival artístico e depois postados na internet. Incrivelmente, logo nos primeiro meses eles tiveram dez milhões de vizualizações e ficaram muito populares sem nunca ter sido publicado na TV.