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Reflexões sobre a poligamia: despedaçamento e costura


Eu não poderia deixar de começar esse texto com uma fala de uma professora minha. Estou certo de que ela não se importará.
Certo dia, relutante de abordar assunto (provavelmente por ser cristã), a professora tentou trazer o assunto da sexualidade e dos “ritos” que usamos pra criarmos pares. Se enrolando pra pronunciar o que ela queria dizer, ela acabou perguntando quem eram os solteiros da turma e ninguém respondeu. Talvez ela não tivesse em mente que se declarar solteiro traz uma série de compromissos e, quiçá, danos à auto-estima. Ninguém respondeu, e a reação dela eu nunca mais vou esquecer:

- “Mas é só o Silas que é solteiro nessa sala?” – disse ela.
- “Espere um pouco, quem disse que eu sou solteiro?” – disse ela
- “Ah, você não é?” - disse ela num tom de descrença

Eu me perguntei se minha conduta mostrava isso: sempre pensei que a poligamia fosse facilmente escondida, bastando apenas não declará-la tão abertamente. Mas não foi o caso...
E não acabou por aqui.

- “Eu quis saber quem eram os solteiros pra perguntar como os rapazes paqueram” – disse ela com aquela risada de criança arteira
- “Mas quem disse que só os solteiros paqueram?” - eu comentei
- “A, mas esses são os safados” – ela disse num tom de voz baixo sem me olhar nos olhos.

Não acredito que ela tenha percebido o impacto que aquilo teve e como isso se ligou a tudo que se passa nesse mundo estranho. Depois dessa introdução só me resta fazer algumas confissões e assumir que faço parte de um grupo para o qual a sociedade dá as costas. Um grupo de “safados” que são “contra os direitos humanos” e que estão deflorando, por sua própria condição, toda a secular idéia de família. Os polígamos.

Acredito que descobrir algo assim tem algumas semelhanças e diferenças com descobrir a homossexualidade. Trata-se de uma condição, não de uma escolha; e também é uma coisa discriminada, considerada pecaminosa, moralmente incorreta; é, aliás, praticada desde que o mundo é mundo inclusive em sociedades que a proíbem. Mas, diferente dos homossexuais, os polígamos não possuem um movimento forte e politicamente engajado; não têm uma identidade atrelada à sua condição e nem locais onde realizam suas atividades. Não há quem os ampare, nem onde possam recolher nossa cabeça. Além disso, há pouca perseguição sistemática e violência física, como acontece com os homossexuais, especialmente porque a cultura masculina tende a não reprovar essa conduta. Exceto, é claro, quando isso os afeta: se sua mulher decidiu ser polígama, por exemplo. Nesse caso, os polígamos são mortos por pessoas pessoalmente afetadas enquanto que, com freqüência, homossexuais são mortos por estranhos que os perseguem por razões culturais e psicológicas.

Boa parte dos polígamos fogem da honestidade. Assim, se envolvem em relações onde se presume a monogamia e simplesmente pulam a cerca. Para alguns a verdade não é tão importante quanto amar, então vivem cada momento com seus segredos, suas vidas duplas. A respeito de tal classe de polígamos nem tenho muito a dizer. Talvez mintam pra si mesmos dizendo que o outro parceiro é somente algo do momento ou só carnal, talvez só mintam pra todos, inclusive seus parceiros e só se preocupem consigo mesmos. Talvez sejam eles os responsáveis pelo sofrimento dos demais, na medida em que criam o estereótipo de promiscuidade que se associa a tal grupo.

Há outros que estão por aí nos guetos. São com freqüência bissexuais, usuários de drogas ou simplesmente marginais. Sua anomia tem tamanha proporção que a poligamia nem é um problema. Não sei se são corajosos ou loucos, mas a realidade é que não vão ser aceitos como cidadãos decentes e dificilmente os veremos sendo publicamente respeitados. Aliás, tenho a impressão de que esses grupos marginais tendem a funcionar com mecanismos que levam seus membros à progressiva entropia: sendo eles rejeitados, revoltados, anarquistas, acabam vivendo uma vida de pouca perspectiva onde só possuem respeito entre seus pares íntimos.

Seja pelo meu temperamento, seja pela minha criação, não consigo me adaptar a nenhum dos dois.

A idéia de mentir para as pessoas que amo é repulsiva. Tal atitude denotaria apenas que amo a mim mesmo acima de todas as coisas, e isso não é verdade. Nada, pra mim, vai além do amor. Isso é mais uma realidade do que uma escolha: se não compartilho tudo, não compartilho nada. E se não compartilho nada, não há relação, não há intimidade de nenhuma forma.

A idéia de sair pro gueto simplesmente não se encaixa em mim. Não tenho os traços de personalidade que são necessários para a integração num grupo desses. Sou excessivamente tranqüilo, excessivamente pacífico, seguro, estudioso, etc. Eu sou tudo que o gueto despreza e minhas relações, de uma forma geral, são coisas que vivem à luz do dia. Posso ser anarquista, mas isso é um posicionamento intelectual sociológico e epistemológico (Feyerabend): não uma atitude, não há muito de estilo de vida nisso, mas no estilo de pensamento. Isso sem falar que, por conseqüência, as pessoas com quem me envolvo não fazem parte de guetos e não vivem, de forma alguma, qualquer tipo de anomia. São de “família”.

O resultado disso tudo é que não há um espaço na nossa sociedade onde a poligamia se encaixe e, simultaneamente, eu possa me encaixar. Relações, no meu contexto, se constroem de maneira íntima, amorosa e aberta. Na realidade, pensando bem, se não fosse pela poligamia, estaria na posição de dizer que me relaciono de maneira bem saudável. Mas o saudável é algo culturalmente constituído, e como a professora disse, quem não é monógamo é safado.

Mas o que um polígamo nessa situação pode fazer? Compartilhar, de um modo geral, significaria perder a confiança, o amor das pessoas mais próximas. Não compartilhar significaria não tê-las como próximas. O problema é que uma espécie de censura que as pessoas têm, algo que as impede de amar outras pessoas quando estão comprometidas, não é algo dado aos polígamos. Não há a experiência de um amor ofuscando, acabando com o outro. 
O que se procura é colocar as cartas na mesa, compartilhar e viver constantemente com o terror de que, num dia dessas, quem você ama não mais tolere sua condição e te deixe. Ou então acreditar na mentira de que tudo pode ficar sobre controle e viver sempre no risco de cair em tentação ou simplesmente surtar por essa vida de negação de si mesmo. Mesmo assim, não há como todo os amores se tornarem realidade, pois a esmagadora maioria das pessoas não aceitam dividir; e se aceitam, geralmente há condições específicas que são impostas pra manter a estabilidade.

Se o polígamo tiver sorte, se ele for profundamente amado, talvez consiga viver mais de um desses amores, mas não pode haver conflito de papéis. 
Isso me lembra da relação de Jung com Emma e Tony. Em seu coração e em seu discurso, pelo que sei, ele as amava e as considerava suas esposas. Mas ela nunca foi reconhecida, nunca teve filhos e nem podia participar dos almoços com a família. Por mais que eles se amassem, ela nunca pode conflitar com Emma, que era a mãe dos filhos de Jung. Talvez esse tenha sido um caso de sucesso, pois, até onde sei, o próprio temperamento de Wolff era independente demais pra levar uma vida tal como a de Emma, mas ela não foi a única. Há rumores de que Jung teve uma relação com Sabina Spielrein e cartas que parecem dar créditos a eles (ver memórias, sonhos e omissões - Dr. Sonu Shamdasani). No entanto, nesse caso não houve qualquer tipo de acordo. Ela quis Jung por completo e ele não pôde ceder. O que não significa, é claro, que ele não a amou. Apenas que houve um conflito com relação aos papéis, pois Emma Jung era, para Jung, seu fundamento, Toni Wolff era a essência e Spielrein, aquela que não teve lugar. Diríamos que esse caso foi de menos amor, de menos importância do que os outros? Creio que não. Mas de uma coisa eu sei: por mais que tenham aceitado, Toni e Emma sofreram. 

Tudo o que resta, portanto, é lutar com todas as forças para não deixar alguns amores se tornarem vividos, é se evadir do próprio coração! É ver quem nós amamos desamparado, desprotegido, sem que possamos fazer qualquer coisa a respeito. É ter para uma pessoa um lugar quente no coração e, ainda assim, assistir ela congelar diante dos olhos.

Na realidade, me vejo com o temperamento tão parecido com o de Jung em certos aspectos que chego a questionar e rejeitar certas características de sua obra, por mais que a admire. Talvez eu consiga fazer como ele, talvez eu faça como a figura que se encontra no topo desse post. Mas a realidade é que, de uma forma ou de outra, essa condição será sempre um podre, algo a ser escondido, a ser, inclusive, negado em sua existência; sempre trará, aliás, sofrimento e insegurança pra quem estiver envolvido, talvez pela bagagem cultural.

Talvez algum dia isso mude, talvez um dia um homem possa erguer sua cabeça, se declarar polígamo e ainda assim ser reconhecido como um cidadão decente que preza pelo bem de todos. Mas isso só vai acontecer que houver união.



As implicações da tecnologia meta-biológica no aprendizado



Joana estava no colégio, onde mostravam as informações passadas para os mais jovens. Sua primeira impressão foi de que tal coisa se afigurava cruel, inumana, e eis as suas objeções.

- Como vocês podem esperar que essas crianças gravem todo esse conhecimento de uma vez só? não percebem como esse esforço torna a vida delas miserável, na medida em que gastam toda a sua energia memorizando coisas?
- Seria inumano no seu planeta, onde as crianças lamentavelmente dependem apenas do próprio cérebro ou de tecnologia arcaica pra armazenar informação. Aliás, fazem coisas parecidas no seu planeta, o que cria seres humanos complexados, descontrolados, infelizes.
- Como as crianças memorizam as coisas senão com o cérebro?
- Através dos dispositivos meta-biológicos que elas recebem aos dois anos de idade.
- Mas o que é um dispositivos meta-biológico?
- O termo meta-biológico é uma adaptação à sua linguagem. Imaginávamos que sua significação estaria implícita. Desculpe o engano. Artefatos de tecnologia meta-biológica são dispositivos feitos com estrutura de DNA específica desenhada pra se integrarem ao sistema nervoso central. Nesse sentido, poderíamos dizer que é um computador biológicos. Apenas a analogia com sua tecnologia eletrônica não vai longe, pois esse sistema tecnológico é plástico. Ele se adapta às mudanças na estrutura do pensamento do indivíduo, sempre refazendo o processamento das informações armazenadas, e mantém uma leitura das sinapses cerebrais. Assim, quando o indivíduo pensa em se lembrar de determinada informação, ela surge em sua consciência da interface dos dispositivos meta-cerebrais. Esses dispositivos são capazes de realizar traduções de todas as linguagens da terra e da nossa civilização, além de realizar cálculos matemáticos, resolver algoritmos complexos e diversos problemas lógicos mais mecânicos. Além disso, ele possui uma capacidade de armazenamento virtualmente infinita e se integra com o sistema de coordenação motora, além de complementar o sistema nervoso periférico.
- O que? Vocês colocam chips nas suas crianças?
- Chip é um artefato eletrônico. Nós não usamos mais tecnologia eletrônica há alguns séculos.
- Não estou entendendo.

O homenzinho projetou, aparentemente com as mãos, um holograma que ia demonstrando passo a passo a interação entre os dispositivos e o sistema nervoso. Segundo ficou demonstrado, a estrutura do artefato é tão perfeitamente imbricada com o organismo que os próprios neurônios da caixa craniana realizam sinapses com os neurônios artificiais e buscam as informações, sem necessidade de uma interface que interage com os sentidos. Assim, a velocidade do fluxo de informação se torna muito mais rápida e o excesso de informação não sobrecarrega o cérebro.

- Mas... Então como são as provas?
- Não usamos provas como as empregadas por vocês. Elas são um teste de memória, raciocínio mecânico e até resistência física. São uma forma cruel de seleção entre os aptos e os inaptos. Nossas avaliações são se outra natureza. Nossas crianças desenvolvem hipóteses acerca das coisas que observam, criam princípios explicativos, falam sobre suas emoções acerca dessas coisas. Sempre com orientação dos especialistas, que indicam caminhos, entendem a linha de raciocínio da criança e fazem perguntas cruciais. O que buscamos exercitar no sistema de ensino, numa palavra, é a criatividade em suas mais diversas formas.
- Mas como vocês podem dar tanta atenção aos alunos?
- Conseguimos através da tecnologia meta-biológica no organismo dos professores, que permite maior armazenamento de informações sobre os alunos. Além disso, temos uma média de dois professores pra cada aluno, por mais que se formem turmas. Os alunos escolhem cerca de cinco orientadores para seus projetos.
- Isso me deixa angustiada.
- Porque?
- Porque parece que a solução pra educação é tecnologia que não temos a uma quantidade de professores capacitados que não temos.
- Viemos persuadir os habitantes do planeta que nos aceitem como seus visitantes. No entanto, sabemos que o estranho assusta e que a nossa tecnologia causará horror, veneração e diversos outros resultados que não desejamos. Por isso optamos por trazer grupos de nativos para a nossa nave para entenderem melhor como é o nosso modo de vida. Assim, quando chegarmos uma grande parcela da população não nos estranhará, mas antes lembrará daquele sonho que tiveram a nosso respeito.
- como assim sonho?
- Quando você acordar na sua casa hoje, pensará que isso não passou de um sonho.
- Entendi... Posso ver suas crianças?
- Pode claro. Entre por essa porta e vá até o fim do corredor.

Joana foi e a mulher que a acompanhava a seguiu até a porta, onde ela pode entrar e ver três crianças escrevendo, cada uma num ponto diferente da sala. Ela sentou ao lado de uma delas que estava escrevendo com um olhar carinhoso. A criança parecia pequena, de uns seis anos de idade, mas escrevia rapidamente. Quando percebeu a presença de Joana colocou o que usava para escrever de lado. Era como papel, só que virtual.

- Oi. Qual é o seu nome?
- Aquele que traz a mudança.
- Que bom! Tenho certeza de que seus pais gostam muito de você.
- Gostam nada. Tenho pais novos.
- Claro que gostam! Não fale assim. Seus pais escolheram ter você.
- Que base você tem pra falar, ô gigante? Meus pais não são sentimentais. Eles só escolheram meu nascimento para comprovar que a tese a respeito dos filhos que é aceito por muito está errado. Meu nome é assim porque eu, segundo eles, vim para provar que ter filhos é um erro. Eles que se fodam.
- Olha, não precisa ficar assim tão bravo. Sabe, as pessoas cometem erros, mas elas mudam. Perdoe seus pais. Um dia eu sei que eles entenderão o erro que cometeram. Você vai ver.
- Nunca me ofendi com eles. Na verdade eles não são nada pra mim além de pessoas doaram um pouco de energia para meu nascimento. Eles que se fodam, não são família pra mim.

Joana ficou com um olhar triste. Passou a mão nos cabelos do menino e começou a falar

- Quantos anos você tem?- Tenho doze anos. O que foi, esperava outra coisa?
- É que no meu planeta as coisas são diferentes. O que você está escrevendo aí?
- É um sonho que eu tive. Eu vou ser artista, sabe? Quero ser um vagabundo inútil.
- Você quer ser inútil?
- Só estou usando os termos dos meus pais. Pensam que artistas ficam inventando qualquer besteira sem qualquer fundamento e que artistas são inúteis. Mas eu sou artista, e não me importo com o que eles pensam, eu não sou eles, nem quero ser, eles que se fodam.
- Olha, apesar de tudo são seus pais. Você devia respeitá—los.
- Por quê?
- Porque eles te criaram.
- Eu não sou nada pra eles. São uns robôs! Que tal a gente mudar de assunto?
- Você tem alguma ideia?
- Já que você se interessa tanto pela minha vida pessoal eu quero saber sobre a sua.
- Tudo bem.
- Soube que seus hábitos de reprodução são parecidos com os nossos. Você se masturba muito?
- O quê?
- O tradutor está funcionando direito. Ouvi dizer que o seu planeta é cheio de niilistas e que vocês vivem transando e se masturbando o tempo todo. Deve ser o paraíso. Olha, nós não podemos ter filhos por causa do código genético, mas podemos transar, sabia?
- Isso é falta de educação! Não fale assim comigo ou com ninguém. É uma coisa íntima e muito pessoal.
- Por quê?
- Porque sim.
- Há! Você é uma acorrentada! Você tem fetiche com isso?

Joana levantou e saiu de perto do garoto, que continuou escrevendo tranquilamente. Na sala externa foi falar com a mestra em educação sobre o comportamento do garoto.

- Fui desrespeitada por um de seus alunos. Perguntou se eu me masturbo!
- Você não se masturba?
- Isso é problema meu!
- Masturbação é um problema?
- Olha. Eu não me masturbo, tá bem?
- Então faz sexo com frequência?
- Qual é o problema com vocês? Não respeitam a intimidade dos outros, não? Não sabem educar as crianças e por isso ficam mal criadas desse jeito! Aquele menino odeia os pais!
- São sentimentos dele, e não são um perigo para a sociedade. Não podemos reprimi—los.
- São sentimentos negativos e devem ser evitados.
- Você é uma acorrentada.
- O que?
- Você está presa á moral. É uma acorrentada! Cheia de inibições criadas pelos outros no próprio comportamento. Mas isso não é você!
- Eu sei muito bem quem eu sou!
- Não sabe não. Grande parte do que você é não passa de uma mentira. Você fecha seus olhos e glorifica a ingenuidade, mas não é tão ingênua quanto parece.
- Eu não sou ingênua. Só acho que não é certo ensinar crianças a serem revoltadas.
- E então o que é certo ensinar?
- A serem bem comportadas.
- Um erro! Uma criança bem comportada é um robô. Ela se comporta exatamente como os outros acham certo, e faz tudo o que disseram que é certo, mas é acorrentada e nunca desenvolve a si mesma. O problema não estava naquele que traz a mudança, está em você, que tem inibições primitivas de impulsos naturais. Aliás, não são só seus impulsos que você inibe. Veja só, há fatos claros diante dos seus olhos na sua vida que demonstram o meu ponto.

Foi exibido um vídeo para Joana, no qual ela estava transando aos quatorze anos, e depois outro dela grávida. Ela ficou chocada por alguns segundos e começou a chorar, mas logo se recompôs.

- Porra, vocês ensinam suas crianças a transar. Isso é pedofilia.
- As crianças só podem ter relações sexuais dentro de realidade virtual nessa idade. Em uns 3 anos, quando ele demonstrar que possui maturidade, poderá ter relações com robôs, e mais tarde, quando terminar sua primeira tese, poderá ter relações com pessoas de todas as idades. Não temos interesse em fingir que as crianças não possuem sexualidade em época de puberdade. Aquele que trás a mudança está nessa fase, e na realidade virtual, somente programas específicos interagem com ele. Não há abuso por parte de adultos. Se não fosse nessa realidade, ele se masturbaria evocando com a própria mente imagens análogas. É até mesmo estúpido dizer que o estamos corrompendo por deixarmos seus impulsos fluírem com relativa liberdade.

Joana encheu o pulmão de ar, mas não falou nada de imediato.

- Vejo que voe se chateou. Não é minha intenção te aborrecer, mas na interação com nossa civilização é comum que o choque entre culturas cause estranhamento. Depois de um tempo, creio, isso se tornará mais comum.
- Eu melhoro. Só que tem mais uma coisa que me deixa preocupada.
- O Que?
- E se isso for realmente um sonho? E se não houver visitantes? O que faremos para resolver nossos problemas educacionais?
- Pessoalmente, tenho sugestões.
- Me diga
- Em primeiro lugar, façam o maior esforço possível pra integrar a tecnologia no ensino. Depois, deixem de determinar coletivamente o que deve e o que não deve ser aprendido. Que a partir da puberdade, os indivíduos já possam escolher suas preferências, mas que tudo seja como se fosse uma brincadeira.
- Mas a vida não é brincadeira!
- A criança aprenderá sobre os diferentes grupos sociais de sua sociedade globalizada sem ser coagida por alguns deles, como o religioso, esportivo ou científico. Nesse sentido, poderá ter maior autonomia em escolher o que quer ser, e terá menos pressão para aprender coisas que lhe serão irrelevantes no futuro. Devem, também, dar condição de vida digna aos professores, e aumentar, sempre que possível, a quantidade de professores trabalhando. Só isso já resolverá uma infinidade de problemas que vocês possuem.
- Vou pensar nisso. Parece bonito, mas praticamente impossível de aplicar.
- Não será sempre assim. Nossa esperança é que o nosso contato com vocês vá modificando progressivamente a sua forma de ver o mundo. Assim, pretendemos um preparo de dentro pra fora antes de termos contato com os nativos.

Sobre o amor e suas lições

Certa vez, havia um grupo muito animado. Estavam numa sala de aula comentando sobre uma viagem. Volta e meia alguém fazia uma piada e todos riam, menos um dos alunos. Ele ficava ali no canto esquerdo da sala, lá no fundo. Parecia nem estar lá...

- Nossa, mas eu Amo viajar. Dá uma sensação de liberdade... – disse uma das alunas
- Pois é. Ninguém te conhece, você pode fazer o que quiser! Eu da última vez que viajei... – respondeu outro colega.

Esse foi um fragmento que ele ouviu, retomando posteriormente à sua introspecção. Foi interrompido logo depois por risadas violentas. Provavelmente o cara fez alguma merda.
Alguém discordou, e disse que o amor por viagens não pode ser legítimo. Disse que em viagens você busca coisas que só pode encontrar dentro de si. Que lugares são só lugares e nada mais.
Em pouco tempo a turma estava debatendo sobre o que torna legítimo, real, algum tipo de amor. Alguns falaram da sensação no corpo. Frio na barriga, atenção focada, inquietação. Outros falaram de ideais, de inspiração, de uma forma de conexão mais... espiritual.
Embora um considerasse o lado do outro, o embate se prolongou por uns 15 minutos, até que o professor decidiu interferir.

- Hey, você aí atrás. Participe conosco. Está tão quieto hoje...
- Alguém falou comigo? - respondeu o aluno

A turma riu.

- Ta no mundo da lua, ele. Chapadão! Disse um dos alunos
- Eu falei – respondeu o professor – estávamos aqui discutindo sobre o que torna o amor legítimo. Tem alguma opinião?
- Tenho sim.
- Então compartilhe conosco.
- O amor pra ser verdadeiro precisa ser como a fênix.
- Aquela ave de fogo? - perguntou uma das alunas.
- É, essa mesmo. A das cinzas.
- Pode explicar com mais detalhes por que? - disse o professor
- É que a fênix não é efêmera. Ela é imortal. Não importa se foi o mundo lá fora que a destruiu ou se foi o próprio calor dela. Em sua essência, ela nunca morre. Sempre se renova das cinzas, sempre continua. Não há tempo, não há adversidades. Não existe, para a fênix nenhum obstáculo. A fênix, diferente de outras aves, carrega muito peso. É poderosa, resistente. Se o amor que queima dentro de nós não for como uma fênix, então ele não é amor. Ele é apego, é projeção, quem sabe paixão. Não amor. Se nosso amor não renasce, se ele não é poderoso o bastante para suportar as adversidades. Então não é verdadeiro. Não é nada. Nada além de imaturidades, bobagens de um espírito que vive de mentir para si mesmo.

A turma ficou em silêncio. Alguns concordaram balançando a cabeça, outros viraram o rosto pro teto. Depois de uns dois minutos, alguém fez um comentário:

- É, definitivamente eu amo conhaque!

E todos começaram a rir. Diferentemente de antes, o aluno do canto também riu. A aula continuou, porque papo de viagem e amor não cai na prova...

Resposta à may

Este post contem comentário meus a um artigo. Se você leu, por algum motivo, a minha resposta e tem curiosidade sobre o texto comentado, entre no meu perfil do blogger e, lá, veja meu e-mail.

Hey...!
Em primeiro lugar, não espere uma super crítica, elaborada de maneira extremamente cuidadosa e seguindo à risca seja que método for. Minhas considerações são de um intuitivo, porque não gosto de me prestar ao serviço de robô intelectual. Vou ser humano, vou entrar em contradição e, em alguns aspectos, posso não fazer sentido algum. Apesar de que, até onde eu vejo, minhas idéias parecem ter uma relação de coerência interna (não se contradizem entre si), o mesmo pode não se aplicar á minha linguagem, porque aqui eu posso me dar ao luxo de não escrever submisso à regrinhas acadêmicas. Você verá que minha crítica parte de uma perspectiva bem diferente e que, portanto, corro o risco de interpretar de maneira dúbia a posição do texto. Espero que me perdoe nesse caso e que tenha a paciência de apontar meus equívocos. Então chega de blá blá blá.
Em várias partes do texto eu notei que se fazem críticas ao dogmatismo dos meios de conhecimento técnico, explicitando que há fragmentação e historicidade inclusas nesse conhecimento e que através destas é possível haver uma reflexão mais profunda. E através dessa, o indivíduo pode entender porque está onde está e, assim, construir uma vida crítica em relação a isso.
Para ser o mais claro possível, bem no começo, o texto possui como intenção demonstrar que seria vantajoso para a sociedade se todos os indivíduos tivessem esse tipo de atitude.
No texto, é dito:
“‘nas grades curriculares, são eliminadas quase todas as disciplinas que fazem “pensar”, pois o mercado quer “gente que faz”. As instituições literalmente disputam os “clientes” e estes vão escolher aquelas que são mais atraentes e que, geralmente, não exigem muito em termos de estudo.’”
No entanto, essa parece uma redução. Na verdade o mercado quer gente que saiba inovar para, assim, se manter na competição. Pessoa incapazes de inovar através da reflexão não suportam a competição e precisam abrir mão de suas ambições materialistas.
Na verdade uma coisa marcante nessa idéia de pensar é que ela é bem mais abstrata. O indivíduo refletir sobre sua condição histórica, aqui, é colocado como sendo mais relevante do que o indivíduo conseguir inovar numa oferta de produto ou serviço. Mas porque?
Ora, é aí que chega a minha pesquisa: porque o tipo psicológico dos autores (incluindo você e os citados) é intuitivo. Isso significa, a grosso modo, que é característico que se pressuponha que abstrações, reflexões sobre porque, para que, qual é o sentido são mais relevantes do que como, quando ou onde.
A reflexão filosófica, histórica e a percepção e representação artística, nesse sentido, são coisas valorizadas por esse tipo, para além das coisas práticas da vida. Até aí, está tudo bem. É uma perspectiva sendo apresentada, uma visão tão humana quanto qualquer outra e sem a pretensão de englobar outras em si mesma.
Só que existe outro tipo psicológico. Existe outra maneira de se ver o mundo e lidar com ele, e ela não pode (especialmente enquanto houver escassez) deixar de ser vital. Essa é a visão pragmática, tão criticada nesse texto.
Dentro dessas premissas o ser humano reflete criticamente sobre sua vida sob diferentes perspectivas? pouco provável.
Cria e/ou aprecia a arte (não o entretenimento)? também é pouco provável.
Possui, em si, ainda aquele rastro de humanidade intuitiva, aquela paixão, imaginação? duvido...
Mas por quê?
Segundo o texto, precisamente o contexto induz as pessoas a serem assim. É apresentado o seguinte trecho falando a esse respeito:
“As disposições subjetivas se encontram no âmbito da disciplina de estudo, vontade, objetivos pessoais e acadêmicos, tenacidade, interesse, formação intelectual, vida cultural, capacidade de autoavaliação e auto-organização de seus processos de estudo. [criatividade?]
As disposições objetivas se constituem dos recursos materiais e financeiros, tempo hábil de estudo, instalações institucionais e outros aspectos que proporcionam contato com a cultura e conhecimentos formais e científicos.”
E bem antes diz coisas como: “a promoção da consciência crítica” ou “A formação, enfim, sugere a apropriação dos saberes historicamente constituídos”.
O que logo culmina nisso:
“conhecer os pensadores e os pensamentos, integrar-se pela via das apropriações, às questões filosóficas e científicas que se objetivam em obras humanas imprescindíveis para que o sujeito do conhecimento tome consciência do seu tempo histórico, de suas possibilidades e limites. É preciso compreender o movimento e a gênese daquilo que se tem intenção de conhecer e transformar.”
Quando leio promoção da consciência crítica, não penso em outra coisa que não doutrinação. Felizmente quis Deus que esse tipo de doutrinação seja impossível na prática, mas já que estamos brincando de teorizar, porque não refletir sobre o assunto? Já que isso pra mim não passa de brincadeira, então agora é “à vera”.¹
Porque não é citada a criatividade (como disposição subjetiva), que é basicamente o que há de mais importante na produção de conhecimento? Bem, isso porque parece que há certos autores que procuram induzir estudantes a produzirem o “senso crítico” com base em seus próprios pensamentos. Isso fica claro quando lemos teses (inclusive de mestrado e doutorado) onde os alunos citam basicamente os próprios professores. E ainda têm a cara de pau de dizer que estão “promovendo o pensamento crítico!” (lembre-se que não estou falando de você e que está longe de mim a intenção de ser grosseiro. Isso pra mim é brincadeira!)
E porque o conhecimento tem que ser formal? Porque tem que estar nesse formato acadêmico que, com freqüência, faz meu estômago se revirar, de tão robótico que é? Fico pensando sobre o mesmo tópico: será que a intenção desses autores é realmente promover o pensamento crítico? Ou será que buscam apenas promover a si mesmos através de seus alunos e de suas apresentações e teses?
Como Feyerabend disse e citei no e-mail que te enviei (enrolando por preguiça de escrever isso tudo que eu, se fosse você, teria preguiça de ler):
“um físico talvez prefira um artigo mal-escrito e parcialmente incompreensível, cheio de erros, a uma exposição cristalina porque tal artigo é uma extensão natural de sua própria pesquisa, ainda bastante desorganizada, e ele pode ter êxito bem como clareza muito antes de seu rival que jurou jamais ler uma única linha confusa (uma das qualidades da escola de Copenhague era sua habilidade em evitar decisões prematuras).”
Só que isso pode não ser considerado formal e nem mesmo científico. Aliás, a decisão de que tipo de leitura o indivíduo precisa é sempre e completamente estúpida. Não é assim que as coisas funcionam se o indivíduo busca autonomia intelectual. Não mesmo!

Uma das idéias mais interessantes que já tive e que culminou em várias outras, eu a tive assistindo um filme de zumbi! Exatamente um filme de zumbi!
Isso porque o que propicia a nossa criatividade não é a leitura e o conhecimento da visão de um zilhão de teóricos (que, em sua maioria, só estão copiando o pensamento crítico de alguém). Não mesmo. O que nos propicia essa criatividade (em termos de leitura [não creio que a leitura seja o mais importante, mas isso eu falo depois]) é muito mais deixar nossas leituras fluírem conforme nos agradar, sem regras, sem restrições e, especialmente, sem disciplina.
Existe uma relação direta de oposição entre criatividade e disciplina. Um soldado é disciplinado, mas não é criativo. Um artista é criativo, mas não disciplinado. E a produção de conhecimento também é uma forma de arte. Apenas numa linguagem mais feia e racional. Isso, claro, quando me refiro ao conhecimento sobre o ser humano e sua cultura, que é sempre imerso em subjetividade. E dou Graças à Deus por isso, porque se fosse objetivo, seríamos robôs. Tomei gosto pelas infinitas contradições e incoerências dessas áreas do conhecimento.
Então não, “a relação com o conhecimento [não] está diretamente definida por sua postura de estudo e de conhecimento de mundo em função do acesso a cultura escrita fundamentada por suas disposições objetivas e subjetivas.” Como o Feyerabend aponta (procurei no livro essa citação só pra você!) :
“A criação de uma coisa e a criação mais a compreensão plena de uma idéia correta da coisa são com muita freqüência partes de um mesmo processo indivisível e não podem ser separadas sem interromper esse processo. Tal processo não é guiado por um programa bem definido e não pode ser guiado por um programa dessa espécie, pois encerra as condições para a realização de todos os programas possíveis. É, antes, guiado por um vago anseio, por uma ‘paixão’ (Kierkegaard). Essa paixão dá origem a um comportamento específico que cria as circunstâncias e as idéias necessárias para analisar e explicar o processo, para torná-lo ‘racional’.”
Assim, a relação com o conhecimento é muito mais uma questão de refletir, de estar antenado(a) para esse vago anseio, do que para passar horas e mais horas debaixo de livros numa biblioteca buscando a coisa certa a se pensar. Não falo mal dos livros e de seus autores. Afinal, eu mesmo já escrevi dois livros, continuo escrevendo e lendo livros (a maioria deles teóricos, filosóficos, científicos). Apenas o que digo é que não é assim, não é com a leitura, que o senso crítico se forma. Com a leitura exacerbada, se forma a disciplina. E disciplina no meio intelectual é sinônimo de esterilidade.
Não existem obras humanas imprescindíveis. Não existe sequer um livro nesse mundo que deveria ser lido e estudado por todos os indivíduos. E felizmente, isso nunca será possível, por maior que seja o investimento financeiro e o lobby em relação às outras formas de se pensar.
Daí decorre que, na verdade, tais pensamentos parecem demonstrar basicamente aquela cristalização metodológica que eles criticam. Uma atitude é colocada no pedestal, promovendo a esterilidade intelectual e a chamando de crítica.
Assim, de um modo geral, a diferença entre o indivíduo pragmático e o que vive lendo e estudando um zilhão de livros “obrigatórios” é pequena em nível pessoal. Na prática, no entanto, o pragmático produz, enquanto que o teórico não faz absolutamente nada além de se promover com sua pseudo-intelectualidade. Em nível econômico, um é útil e o outro é inútil.
Não quero, com isso, atacar a própria noção de produção acadêmica. Pelo contrário. Apenas digo que é estéril a concepção apresentada sobre como isso deveria ser feito, e que mesmo aqueles que consideram o pensar crítico importante não poderiam tolerar por muito tempo esse tipo de doutrinação (castração) do intelecto. Você mesma, aliás, se voltou para a arte, contra toda essa besteirada. Isso me lembra uma voz que Jung ouviu, dizendo que a psicologia na verdade é uma arte. Eu extrapolo até para o conhecimento filosófico: isso pra mim é arte. Só assim que pensar, refletir e pesquisar pode realmente ser gratificante. O que existe fora disso é auto-afirmação e bobagem.
Romão (meu lulu na... não vou nem rimar) disse:
“a ciência não significa adequação perfeita dos juízos à realidade, nem é um conhecimento absolutamente certo a orientar uma ação isenta de riscos, mas uma correção progressiva das distorções introduzidas pelo entendimento humano na abordagem da realidade, tanto em função de sua ontologia quanto de sua ideologia.”
Quando eu vejo alguém escrever uma coisa dessas só uma palavra (neologismo?) surge na minha cabeça: whatahell!?
Assim, só lembrando que a ciência também é uma forma de entendimento humano, e que, cientificamente, um zilhão de atrocidades foram cometidas, como o darwinismo social. Parece que é sacanagem quando dizem que a ciência corrige alguma coisa. É só mais uma forma de ver as coisas, só mais um método. Não há como provar que a ciência corrige distorções: em última análise, ela pode muito bem estar introduzindo novas distorções. Não é o melhor e nem o mais interessante (pelo menos na linha racionalista) do que outras formas de se perceber o mundo.
Eu agora me pergunto se você ainda está lendo essa bobagem. Mas enfim, já que me propus a escrever, então pelo menos cumpro minha palavra. Talvez eu publique no meu blog, pra que seja publicamente ignorado. Mas enfim...
Chego agora numa parte que exalta o conhecimento escrito... E eis aqui algo que me deixou ligeiramente indignado:
“[A] ubiqüidade da cultura escrita permite percebê-la como um modo de organização social em que a produção e a circulação do conhecimento, dos costumes e dos valores se fazem por meio de e em função de seu uso.”
(...)
“O ato de ler e de escrever transcende as formas simplesmente de ensino a que se dispõe a escola”
(...)
“O ato de ler e escrever assume um papel fundamental em relação ao pensamento. O indivíduo, ao lidar com a língua e a escrita, toma consciência do mundo e da linguagem e encontra condições favoráveis para monitorar a atividade intelectual.”
Aqui eu planejava encontrar um trecho de um livro com textos de Schopenhauer chamado Sobre o ofício de escritor. No entanto, à despeito dos meus obstinados dois minutos de procura, não achei o bendito. De qualquer maneira, lembro da idéia, então a expresso fingindo ser minha.
O ato de pensar é diferente do de ler e, com freqüência, está oposto a este. É mais importante para um indivíduo refletir sobre o que ele leu cuidadosamente do que simplesmente continuar lendo. Porque a reflexão é ativa e a leitura é passiva. Se o volume de leitura é grande demais, o conteúdo é absorvido através de memória mecânica, não é atribuído a ele nenhum valor, nenhum tipo de juízo. Morre o senso crítico. Claro que na ausência de leitura o indivíduo viverá fechado num ovo, se esperança de transcender seu próprio egocentrismo. Mas isso não quer dizer que a leitura seja o último biscoito do pacote.
A transmissão dos costumes e valores há muito não se faz pela escrita. Pelo contrário, a TV e o Cinema tomaram essa função para si com grande facilidade. Podemos escrever a tese mais límpida coerente e louvável: ela nunca terá mais influência que um filme Avatar ou Crepúsculo (abominação).
Diferentemente do citado, creio que as potencialidades de representação e ensino de uma aula são muito maiores do que as da escrita e da leitura para a maioria das pessoas.
Em primeiro lugar porque uma coisa escrita não responde às suas contestações e nem às suas duvidas. Ela não tem consideração sobre sua forma de se expressar e entender, então não vai tentar te explicar com outras palavras. Isso seria resolvido com o contato virtual, onde você poderia ler e ao mesmo tempo interagir.
Só que aí é necessária uma ferramenta eficiente de comunicação e equipamentos bem eficientes. Seria basicamente uma aula à distância.
Pra mim o abismo em potencial da aula presencial e um livro é a afetividade. É o professor envolver os alunos, demonstrar a eles que se importa, que os ama, que quer pra eles o melhor. Ser divertido, criativo, cativante. Cite pra mim um texto acadêmico que faça isso e eu vou dar um salto mortal pra trás no mesmo instante: todos os que eu vi são um porre, que só consegui mesmo ler por amizade ao autor ou por apresentar uma perspectiva interessante sobre um tema de pesquisa.
Claro que se a aula é uma caricatura do conhecimento escrito, onde o professor faz os alunos lerem a matéria e fica simplesmente falando e esperando que eles memorizem é inferior ao conhecimento registrado nos livros. Mesmo que, na prática, alguns indivíduos aprendam com maior facilidade ouvindo do que lendo, esse tipo de aula é cansativo, chato. É um pé no saco.
Pensar criticamente, refletir, aprender é criar. O pensamento que não envolve um processo criativo onde o sujeito integra o conhecimento em si mesmo (mesmo que seja para criticá-lo) não é aprender. É memorizar. Para isso seria mais adequado o indivíduo instalar um disco rígido na cabeça e “armazenar” a informação.
Sabe, may, eu sou da opinião de que faríamos muito pela sociedade promovendo autonomia e criatividade. Promovendo, através disso, o desenvolvimento da individualidade dos indivíduos ou, como você verá no livro da Nise, o processo de individuação. Promovendo não o conhecimento como forma de reformar a sociedade, mas de o indivíduo tomar consciência de si mesmo. Porque há um conflito entre uma forma chata de saber, onde o indivíduo apenas memoriza informações por obrigação, e uma forma vazia de entretenimento, que é justamente o momento em que ele esvazia a mente. Em nenhum momento o indivíduo é criativo, em nenhum momento alguém o permite ser criativo, ninguém o instiga a isso. Só vemos um monte senhores da verdade, dizendo que obra são obrigatórias e coisas do gênero.
Pra mim, a pessoa pode ter escrito a maior abobrinha do mundo. Se ao menos ela se deu ao trabalho de pensar essa abobrinha sozinha, com a informação que ela possui integrada na própria mente, isso já é um milagre. Eu, afinal, comecei convencido de que semanas na verdade possuem 8 dias e de que morango é o exato oposto de chocolate! Por sorte eu era calado demais ou não houve ninguém pra me dizer que o que eu pensava é idiota e indigno. Não, eu segui pensando isso até comer o biscoito de doce de leite!
Pra mim não tem diferença se é um robô pragmático ou um robô acadêmico. Ainda assim ele só segue algoritmos, ele só repete padrões. É estéril...!
Nesse ponto eu fui dormir, então talvez fique evidente uma diferença na minha forma de me expressar. Tomara que não piore :p
Não texto, foi dito:
“diante da atual conformação do capitalismo, em que se destacam as inovações tecnológicas, seria grande a necessidade de uma educação ampla, formativa, que transcendesse o tecnicismo e o pragmatismo
(...)
“O reconhecimento do caráter histórico, dinâmico, inacabado e provisório do conhecimento, estendendo essa compreensão da mutabilidade e historicidade para a análise da sociedade e da própria humanidade. (MACHADO, 1995, p. 84)”
Aqui parece haver um juízo pragmático implícito. À saber, que a educação ampla e formativa seja de utilidade para o desenvolvimento tecnológico, auxiliando no avanço da ciência. Para isso, seria necessário tomar consciência da verdadeira “fragilidade” do conhecimento, para que a ciência e a tecnologia possam se desenvolver de maneira apropriada, sem cristalização paradigmática. Só que há um pequeno problema: o avanço da tecnologia ocorre com rupturas. Novos princípios físicos, por exemplo, fundamentam novas formas de tecnologias, mas esses princípios não surgem da extrapolação de uma teoria mais antiga, tampouco da observação de novos fatos. Antes, uma teoria antiga é literalmente demolida para ser substituída por outra, que trará novas implicações tecnológicas. E, de um modo geral, essa mudança se faz pratica apenas lentamente: no início, tecnologias surgem com a combinação prática dos dois princípios, até que um substitua completamente o outro.
Só que há um problema todos os paradigmas possuem implicações técnicas e tecnológicas próprias. Um indivíduo com os paradigmas físicos da época em que Nikola Tesla não tinha inventado a corrente alternada (que usamos hoje em dia) usava a corrente contínua e fazia a sociedade funcionar com esse princípio. Naquela época, de nada adiantaria reconhecer que esse ou aquele paradigma é frágil em nível histórico e/ou ontológico: para ele trazer luz pra casa das pessoas, era o paradigma daquela época que ele usava.
Não adiantaria para um empresário, por exemplo, conhecer o contexto histórico da economia e ter lido O capital, de Marx. O que ele precisa saber, onde ele precisa inovar, são coisas que existem no nosso Zeitgeist² de agora. Não é relevante para quem vai produzir saber uma coisa assim. A relevância desse conhecimento está mais na hora de entender o contexto local para a implementação de políticas públicas. Mas para a educação de todas as pessoas isso está longe de ser necessário: é bom que aqueles que vão precisar desse conhecimento o possuam, e vantajoso que quem possua interesse também o possua. Nossa sociedade é dinâmica demais para se afirmar que existe algum tipo de conhecimento teórico que todos deviam ter, algum livro que todos deveriam ler. Nem todas as pessoas querem analisar a realidade, e é lícito que elas façam o que bem entenderem...
“A assunção da educação geral como um bem intrínseco e não como algo que se determina em função de seus fins. A verdade mais nobre seria a procura do conhecimento enquanto tal, de modo que a Universidade se caracterizaria como lugar da procura da verdade e, só depois, como o lugar de sua aplicação; as faculdades profissionais só têm razão se submetidas ao cultivo da ciência.” (PEREIRA, 2008, p. 70).
É aquilo que falei. Procurar a verdade é bonito, mas não enche barriga. É bonito, mas fútil, porque há tanta multiplicidade paradigmática que não vejo como alguém pode realmente acreditar que há uma verdade. Existem universidades que formam trabalhadores e outras que formam cientistas e pensadores. E, até onde sei, há um equilíbrio entre oferta e procura desses cargos. Que a educação como bem intrínseco seja apresentada por professores (como com freqüência o é) e que os alunos decidam se isso é verdadeiro ou não.
“A compreensão da formação profissional incorporando a perspectiva de cidadão instruído, culto e ético. A educação completa ofereceria mais que conhecimentos e habilidades pragmáticos, contribuindo para que o indivíduo seja ativo e reflexivo. O princípio básico dos estudos de educação geral encorajaria a participação na vida social como pessoa livre, instruída e culta (PEREIRA, 2008, p.70).”
Ficou vago. Na prática, o que isso significaria? se todos nós lêssemos a constituição, conhecêssemos a lógica da luta entre as classes. O que isso mudaria na nossa vida? a mim parece que não há consciência que seja mais poderosa do que as exigências do mercado. A mobilização popular, por mais que seja bela, é economicamente desastrosa. Vivemos num mundo de escassez e precisamos de um mercado. E o mercado demanda esse tipo de educação. Isso é feio e desagradável, mas fazer o que? (não é uma pergunta retórica)...
É aquilo que eu falei: se 40% da humanidade fosse precisamente como eu, passando todo esse tempo lendo e estudando coisas teóricas, nossa população nunca poderia ter se tornado tão grande. Porque nossa população é muito grande e não é necessário que tantos indivíduos produzam conhecimento dessa natureza. Temos nossa demanda e nossa oferta. Um desequilíbrio aqui seria economicamente desastroso. Aliás, se todos fossem intelectuais, nossa espécie desapareceria. O pragmatismo não é uma praga. É desumano, feio, irritante, mas completamente necessário á nossa sobrevivência.
Eu mesmo lendo isso (se é que chegaria a ler tudo) ficaria irritado. Tal nível de pragmatismo me dá nos nervos, precisamente porque não está na minha natureza, no meu modo operante, aceitar coisas assim. E a humanidade, apesar de que em grau pequeno, ainda necessita de alimento para o espírito. Ainda é crucial pararmos para ouvir uma música, lermos um romance, assistirmos um filme (que não seja clichê de Hollywood). No fim do dia, o ser humano ainda quer filosofia, ainda quer arte, ainda quer sua humanidade. E, segundo minha visão, isso é mais freqüente hoje do que antigamente, especialmente por conta da Internet e da diminuição da escassez.
De fato, a indústria cultural produz merda diariamente. E de fato cria produtos que mais esvaziam a mente do indivíduo do que o fazem refletir. E realmente eu consideraria preferível que programas que instigam que fazem o indivíduo pensar, tomassem frente. Mas a verdade é que não há demanda. Esse não é o nosso Zeitgeist. Pessoas comuns gostam de coisas banais e comuns, e não seremos nós a moldar suas mentes. Sim, o mundo está uma merda, vemos coisas revoltantes acontecendo todos os dias. Coisas que não fazem sentido³. Só que é isso que temos...! E felizmente, para nós, há espaço para manifestarmos nossa arte e o nosso pensamento, não?
Nossa função aqui é conservar o espírito humano e deixá-lo sempre disponível a quem quiser procurá-lo. Tenho para mim que conforme a escassez for diminuindo através do avanço tecnológico, os trabalhadores sairão do setor de produção (que produzirá mais com custos menores) e passarão para o setor de serviços.
E não é a educação parte desse setor. Na prática, creio que só precisamos viver mais e que a proporção entre o número de professores e alunos mude. Um professor de ensino médio com uma turma de 35, 40 alunos, simplesmente não tem como transmitir o conhecimento de maneira dinâmica: o tamanho do grupo inibe qualquer manifestação individualizada.
Por enquanto, as coisas permanecerão como estão. Creio que é possível que vejamos essa mudança começar no nosso tempo de vida. Daqui a uns 50 anos, quando a biotecnologia estiver mais desenvolvida, teremos uma diminuição dramática na escassez. Aí a produção será mais barata e teremos que nos preocupar cada vez menos com a sobrevivência, tendo mais tempo para a reflexão.
Isso me leva à parte mais mística das minhas opiniões, que talvez pareça ridícula ou revoltante.
Estamos num período de transição na nossa sociedade, onde valores como o conhecimento, a liberdade e o amor estão se tornando mais... Psicologicamente imperativos. Temos o Movimento Zeitgeist⁴. Inclusive escrevi um texto⁵ a respeito disso, onde expus que nosso psiquismo está se alterando em nível coletivo, especialmente por conta das mudanças climáticas. Aconselho que você dê uma olhada nesse material quando tiver tempo. Nossa civilização está se emancipando e somos parte disso.
Estou honestamente de saco cheio. Considerarei um milagre se você chegar a ler isso. Se nos correspondermos, no entanto, você verá que esse texto dá uma introduzida (mesmo que mais ou menos incoerente) à minha forma de pensar, de maneira que se você ler mais alguma coisa, será muito mais fácil assimilar.
Anyways, chega dessa bobagem intelectual por hoje...
1)      Não sei se dizem isso por aí, mas por aqui isso significa que um jogo de bolinha de gude valia a bolinha. Se você é acertado jogando à vera, você perde sua bolinha.
2)      O espírito do tempo, o conjunto de conhecimentos de uma determinada época.
4)      Movimento que surgiu depois do lançamento de dois documentários na Internet por Peter Joseph:
Esses vídeos foram apresentados num festival artístico e depois postados na internet. Incrivelmente, logo nos primeiro meses eles tiveram dez milhões de vizualizações e ficaram muito populares sem nunca ter sido publicado na TV.

Uma dúvida sobre o conflito entre Monogamia e Poligamia

O presente post foi criado como um tópico na comunidade de Carl Jung, no Orkut. Por questões de compreensão mais clara, terei que colocar o debate dentro do próprio post. Se alguém se prestar a comentar isso aqui no blog, também ficarei grato... Como o leitor atento poderá perceber, essa está longe de ser uma questão sobre a qual eu tirei alguma conclusão. Se e quando isso acontecer, ela virá noutro post. E tem apenas como objetivo manter o bruto do debate, que está bem produtivo.


Estive pensando sobre as atitudes descritos por Jung em Tipos Psicológicos, especificamente depois de ler a seguinte passagem:

“Biologicamente falando, a relação entre sujeito e objeto é sempre uma relação de adaptação. Cada relação dessas pressupõe efeitos modificativos de um sobre o outro. Essas modificações constituem a adaptação. As atitudes típicas para com o objeto são, portanto, processos de adaptação. A natureza conhece dois caminhos fundamentais diferentes de adaptação que tornam possível a sobrevivência dos organismos: um caminho é a enorme proliferação, mas com relativamente pouca força defensiva e curta duração; o outro é a dotação do indivíduo com inúmeros meios de autoconservação, mas com relativamente pequena proliferação. parece-me que este contraste biológico não é apenas análogo, mas o fundamento geral de nossos dois modos psicológicos de adaptação.”

(Tipos Psicológicos, Vol VI segunda edição, Editora Vozes, parágrafo 624 - página 317)

Até onde pude ver nesse trecho, Jung parece ter aberto um enorme espaço para implicações nas relações humanas, especificamente nas relações reprodutivas e, portanto, amorosas. Imaginei que isso poderia ser visto no nosso contexto (que considera a bigamia um crime) segundo casos bem típicos: algumas pessoas facilmente se envolvem e relações vitalíceas enquanto outras vivem pulando de relação em relação sem envolvimento demasiadamente profundo. Ficou, então, demonstrado para mim que essa descrição de Jung se aplica na interpretação de porque há tais diferenças típicas.

No entanto, continuei pensando e fui levado à outras considerações, lembrando de uma passagem no início do livro(prólogo, parágrafo 4):

“Mas todo o indivíduo possui os dois mecanismos, tanto o da introversão como o da extroversão; e apenas a relativa preponderância de um ou de outro define o tipo.”

E depois, no parágrafo 73(da tentativa de conciliação de Abelardo):

“Toda expressão lógico-intelectual, por mais perfeita que seja, retira da impressão objetiva sua vitalidade e imediatidade. Ela tem que fazer assim para poder chegar a uma formulação. Com isso se perde, no entanto, o que parece ser o mais essencial para a atitude extrovertida: a relação com o objeto real. Não há, portanto, nenhuma possibilidade de encontrar, através de uma ou de outra atitude, uma formula de conciliação satisfatória. (...) Para a solução, é preciso um terceiro ponto de vista, intermediário.

Confesso que, nessa parte, ficou confuso em que trechos ele fala sobre a diferenciação de Sensação e Intuição e quando fala de Extroversão e Introversão. Parece que nessa parte ele associa Intuição à Introversão e Sensação a Extroversão. Mas isso eu deixo de lado pois não vem ao caso.

Então, reformulando, a Extroversão e a introversão são formas típicas de manifestação que podem ser vistas até entre os animais. É algo como um par de opostos natural: tartarugas deixam milhares de ovos na praia e Baleias carregam um filhote por meses na barriga, que demora anos para amadurecer e exige muita dedicação e proteção.

E, segundo a teoria de Jung, o ser humano não possui apenas uma dessas atitudes, mas ambas. As duas se manifestam na sociedade e até mesmo num indivíduo. Apesar de nosso mecanismo biológico exigir dedicação natural para a proliferação, nossa atitude psicológica com é tão variável quanto é grande a diferença de reprodução entre tartarugas e baleias.

Para fora do contexto, poderíamos classificar uma relação tribal de poligamia:

No regime de matrimônio por grupos, ou talvez antes, já se formavam uniões por pares, de duração mais ou menos longa; o homem tinha uma mulher principal (ainda não se pode dizer que fosse uma favorita) entre suas numerosas esposas, e era para ela o esposo principal entre todos os outros. Esta circunstância contribuiu bastante para a confusão produzida na mente dos missionários, que vêem no matrimônio por grupos ora uma comunidade promíscua das mulheres, ora um adultério arbitrário.” (Friedrich Engels, 1891)

Lendo isso, vi que essa forma de relação é, em essência, extrovertida, embora, em seu âmago, exista algo de introversão: porque há uma (e um) principal. E vendo nossa forma, vejo precisamente o contrário: temos relações monogâmicas, mas que se quebram tão facilmente que é possível ao indivíduo ter relações com diversas pessoas. Assim, em ambos os contextos, as duas atitudes são manifestas (e não pode ser de outra maneira), mas cada um favorece um tipo psicológico diferente.

Pode-se dizer, portanto, que são casos parciais os de ambos os contextos. No regime “primitivo”, o matrimônio por grupos é mais extrovertido, e no nosso, o casamento monogâmico é mais introvertido: apesar de que no caso do primitivo há uma (um) conjugue principal e que, no nosso contexto, a traição seja extremamente freqüente.

Jung, por exemplo, teve um caso vitalício com Toni Wolff, que Jung considerou como uma “segunda esposa”. Isso sem falar nos possíveis casos com Sabina Spielrein e Maria Moltzer. Inclusive, até onde sei, a relação de Jung co Wolff foi essencial para o processo de individuação dos dois, mesmo contrariando o estabelecimento cultural monogâmico (apesar de que com o consentimento de Emma).

Considerando esses pontos e a explicação sobre o processo de individuação, onde fica claro que todas as funções e atitudes psicológicas estão envolvidas no processo, minha duvida surgiu:

Nesse caso, as relações íntimas de “individuados” não é monogâmica e nem grupal: Então como é?

Se for como o caso de Jung, então como pode um indivíduo alcançar a individuação numa sociedade que certamente recrimina tais hábitos?

Aceito (e busco) qualquer tipo de correção no presente texto e também a indicação de artigos e livros vindos de qualquer autor sobre esse tema, mas prefiro ler comentários feitos diretamente pelo pessoal daqui.



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A partir daqui começa o debate da comunidade do orkut. O indicativo de quem fala o que é o nome seguido de dois pontos e logo depois um texto entre aspas. Quando as aspas se fecham, uma linha divisa o fim da fala de um dos participantes e o início de outro, com o nome, dois pontos, etc.
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Charles:

“Nesse caso, as relações íntimas de “individuados” não é monogâmica e nem grupal: Então como é?

Essa é uma expressão que afirma existir seres individuados... Mas será que existem? Eu diria que é uma proposição mais idealista. Quando afirma que as relações de individuados não é monogâmica e nem grupal, é como se afirmasse que não é nem introvertida nem extrovertida... É como se o equilíbrio no individuado fosse total. Mas não é. O individuado é um indivíduo no mundo e não fora dele. Assim, ele considerará o meio em que vive, assim como sua própria pessoa, pois a individuação não exclui o outro, mas inclusive, é instigada por ele. Como indivíduo ainda mais exclusivo que qualquer outro, é difícil prevermos o comportamento de um "individuado", pois ele leva em conta a totalidade de seu ser e das situações porque passa, e faz justiça a elas. Mas veja bem: todas essas são considerações ideais. Se considerarmos Jung como um "individuado", já que ele disse que realizou o inconsciente em sua vida, seu comportamento teria sido previsível? Ele foi monogâmico ou grupal? Ele traiu a esposa, mas outro "individuado" a teria traído? Não sei...

Se for como o caso de Jung, então como pode um indivíduo alcançar a individuação numa sociedade que certamente recrimina tais hábitos?

Em termos de individuação, eu diria que a recriminação pode servir tanto de estímulo quanto de desencorajamento. Se você ler o livro de Hillmann - "O código do ser", compreenderá o que quero dizer. Dei uma pesquisada e aqui na comunidade há tópicos a respeito:

- O código do ser
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Eu:

“Charles,

Eu li esse livro. Baixei, inclusive, do seu 4shared e editei. Diminuí consideravelmente a quantidade de páginas, mas ele perdeu a proporção com o original por isso. Se quiser te envio, só passar o e-mail por depoimento.

Enfim, de que trecho desse livro você fala? Da determinação platônica da poligamia, que poderia ser para alguns e não para outros?

Não lembro se há algo específico sobre esse assunto.

Teríamos, então, que esquecer qualquer classificação genérica e deixar esse ponto para um plano essencialmente pessoal, sem que seja possível um mínimo de "tipificação"?”
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Trismegistos:

“Silas;

Acho que é possível uma “tipificação”, só que muito mais branda. Penso que a forma como você assimilou a questão é que está um pouquinho equivocada, veja bem:

As relações mono e poligâmicas não são determinadas pelos tipos e os tipos, por sua vez, à questão da proliferação, como se fossem seu fundamento orgânico. O que Jung quis dizer com “fundamento geral” é apenas esse “traço energético”, essa potência, que segue uma “tendência a” adaptação de uma forma ou de outra, essa é a raiz da fenomenologia dos tipos, mais é bem mais complexa do que uma questão puramente biológica ou padrões de comportamento sexual.

Toda a ênfase está na possibilidade de “oscilação” dessa energia, de como a adaptabilidade pode ser levada a cabo de maneiras opostas (e aqui temos o “problema” dos opostos). É isso que Jung põe no “fundamento geral”, entende?
Quando falamos em aspectos culturais das relações amorosas falamos, num ponto de vista amplificado, das estruturas de parentesco de uma sociedade, algo tão elementar de qualquer organização social que não podemos reduzir aos aspectos tipológicos, somente tentar identificar pequenos pontos em que essa dinâmica ocorre no âmbito dessas relações.

Podemos identificar, por exemplo, um tipo de sociedade que dá mais ênfase a uma ou outra atitude de uma maneira mais ou menos clara, daí compreender uma nuance no sujeito de tipo oposto. Aqui concordo com o que o Charles disse, isso pode encorajá-lo ou dificultar o processo de individuação. Aqui caímos no plano da subjetividade particular, e as coisas se tornam tanto mais claras (pela fala do sujeito) quanto mais complexas.

É difícil teorizar, já que entre “introversão” e “extroversão” (que é pura teoria), ou seja, nas possibilidades opostas dessa fenomenologia, existem milhões de graus intermediários. Por isso só podemos dizer “mais para introvertido”, “mais para extrovertido”, “Meu Deus, ele é um extrovertido unilateral!” etc,etc ... Lembrando sempre que ainda temos a questão da “marca” subjetiva.

Você traz a questão do “individuado”, por isso a argumentação não pode fugir do “sujeito”, no que ele tem de mais particular como, por exemplo, sua tipologia. Na resposta às suas perguntas eu concordo com o Charles também, depois eu acrescento alguma coisa.
Eu entendi bem sua linha de raciocínio, é muito interessante, se você amadurecer mais essa idéia com certeza ficará mais ainda.

Se eu puder ajudar, estou aí.

Abraços.”
_______________________________________________________________

Eu:

 

“trismegistos

 

Você disse : “As relações mono e poligâmicas não são determinadas pelos tipos e os tipos, por sua vez, à questão da proliferação, como se fossem seu fundamento orgânico.”

Na verdade o que penso sobre isso é mais abstrato. Não estou cometendo a ofensa comum de redução ao biológico. Apenas disse que Jung amplificou as atitudes psicológicas de modo que elas possam também classificar a forma de reprodução dos animais. Ou seja, é um princípio natural e abstrato que se manifesta tanto no nosso psiquismo quando na natureza de um modo geral. Na verdade, por conta do tempo de gestação e dos cuidados que precisamos ter com nossos filhos, se eu fosse levar isso pro puramente biológico, provavelmente o argumento daria maior ênfase à monogamia, que permite maior concentração do pai no bebê.

Você disse: “Quando falamos em aspectos culturais das relações amorosas falamos, num ponto de vista amplificado, das estruturas de parentesco de uma sociedade, algo tão elementar de qualquer organização social que não podemos reduzir aos aspectos tipológicos, somente tentar identificar pequenos pontos em que essa dinâmica ocorre no âmbito dessas relações.”

Pois esse é um ponto que me deixa pensativo. A tipificação de Jung, até onde sei, pode ser transposta para as idéias (sendo assim, podemos avaliar premissas e até metodologias correspondentes a um tipo ou outro), para o reino animal e para grupos de indivíduos. Não sei você, mas parece que em tudo eu vejo essa dicotomia extroversão X introversão. Daí, como coloquei, há traços de monogamia e poligamia nas duas sociedades, mas cada uma tende para um lado. E agora que chega o ponto: não seria, porventura, um ser humano harmonizado precisamente aquele que pode, dentro do seu contexto, manifestar as mais diversas formas de relacionamento? E não é o relacionamento introvertido mais profundo e o extrovertido mais amplo?
O que quero dizer é que poderíamos tipificar as próprias relações: a relação poligâmica seria extrovertida, e a monogâmica introvertida. Isso implica dizer que pessoas introvertidas se adaptariam melhor numa relação monogâmica, e as extrovertidas numa poligâmica.

Uma coisa que me deixa meio confuso sobre o processo de individuação é isso: que todos nós tomamos consciência da Persona; confrontamos e integramos a Sombra; integramos Anima/Animus (alcançando, assim, uma espécie de condição psicologicamente andrógina original, como aquela apresentada em O Banquete); e daí chegamos no Self (que é um conceito meio nebuloso pra mim). E, até onde sei, individuar-se implica a vivência das mais diversas faculdades humanas, que incluem as atitudes e as funções psicológicas. Não podemos esperar, por exemplo, que nos individuemos sem desenvolver o sentimento ou sem o pensamento. Da mesma maneira, sem desenvolver a extroversão e a introversão, porque o próprio processo nos mantém numa constante alternância tipológica, mesmo mantendo o tipo primordial mais ou menos fixo.

Ora, se a relação introvertida é monogâmica e a extrovertida é poligâmica e nosso tipo se alterna durante a vida, isso quer dizer que temos “períodos poligâmicos”. Pra isso não ficar demasiadamente abstrato, basta recorrer aos fenômenos que essa exposição explica: a constante infidelidade e o fato de que nossas relações, na ausência de coerções sociais, geralmente não duram a vida inteira (O que, de certa forma, é uma poligamia parcial). E também em relações poligâmicas, que exista uma primeira esposa, uma principal, a mais amada entre as esposas (como a relação entre Jacó, Raquel e Lea, da bíblia). Outra coisa interessante, embora não tão significativa, é que postei esse texto no meu blog e, como sempre faço, anunciei no meu perfil: a quantidade de cliques foi pelo menos três vezes maior do que meus contos mais populares (as pessoas geralmente não entram no blog, mas nesse caso houve mais interesse do que o normal :p).
A mim parece que nosso contexto social vive uma contradição: porque dá tanta ênfase às relações amorosas, mas estabelece regras que tornam a maioria dessas relações impossíveis e dolorosas, porque, à despeito do regulamento social, nossa mente continua buscando sua manifestação plena e harmônica, e isso contraria nossos paradigmas.
Talvez isso não seja um pensamento na língua Junguiana, mas me parece que nosso tipo psicológico diz apenas como funcionamos, e não quem somos. Não posso dizer que sou um introvertido-racional com intuição. Isso é como eu funciono (e nem tenho certeza). Quem eu sou, isso se define por outros termos. Nem sei quais.

A nossa cultura parece estar se tornando mais... declaradamente múltipla: mesmo diante das imposições, mórmons e muçulmanos continuam realizando esse tipo de relação, e as informações cruzam pela internet de maneira que, conforme o tempo passa, vai ficando mais difícil o indivíduo viver preso apenas em sua cultura local. Assim, conforme o tempo passa isso vai se tornando mais uma manifestação do indivíduo do que do contexto coletivo, já que praticamente tudo o que ele pode imaginar tem alguém defendendo por aí (até coprofagia!).

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Marlon:

“chê, há MUITAS questões neste tópico, o que torna difícil responder... mas, sobre alguns pontos:
-- sobre a tipologia: às vezes acho que vocês levam demasiado a sério essa "classificação". a tipologia de Jung é um "compasso psicológico", como diz o Meier. talvez seja útil ter em mente que Jung (as citações a seguir são de diversos materiais de Jung citados por Shamdasani [2005], Jung and the making of modern Psychology)não propôs uma caracterologia, mas sim uma tipologia: "My intentions and interests are also in no way directed to characterology, but in complete contrast, to typology. But not in the sense that I have established types in order to classify people with, but to have a schema with which I can order psychological material (...) Hence my typology aims, not at characterizing personalities, but at classifying the empirical material in relatively simple and clear categories, just as it is presented to a practising psychologist and therapist." (p. 86) - e especialmente esta frase: "The theory of types, he [Jung] stated, was a theoretical function “without muscle or flesh, and if you identify with it you identify with a corpse”. por último, acho que estás vendo como equivalentes fatores que não o são (extroversão e poligamia, intro e mono).

-- concordo com Charles e Trismegistos. algumas coisas que considero importantes: Emma não deu "consentimento" pro Jung (mesmo porque, para um homem como ele, isso seria ridículo); acho que Toni foi o grande amor do Jung (sem dúvida foi sua musa, sua Anima realmente criativa); Jung não tava nem aí pro "estabelecimento cultural'. Jung é UM modelo de individuação; mas não quer dizer que tenhamos que serguir uma imitatio Jungi - por exemplo, para um cara essencialmente monogâmico, isso seria errado.

-- Charles: não considero que Jung tenha "traído" a esposa. ela sabia muito bem de tudo. a Toni inclusive almoçava com Jung e família determinados dias da semana (Emma provavelmente odiava isso...). Compara isso com a moral burguesa hipócrita do Freud (que, encarnada no superego, é obrigatória para o funcionamento "normal" tanto do indivíduo como da sociedade), que teve caso com a cunhada e fez ela abortar...”

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Charles:

“Tipologia x tipificação

Silas, se vc mandar eu agradeço. Tentei baixar um, mas muitas palavras encontram-se truncadas (o seu deve estar melhor).

Com relação ao "Código do Ser", eu me referi somente aos exemplos que ele dá. É incrível, por exemplo, como a oposição a determinados aspectos de uma criança pode fazê-la desenvolvê-lo num grau ainda maior... O que mais achei importante no livro foi a desconstrução que Hillmann faz do aspecto parental. Também o acho essencialista, como o Fernando colocou no tópico sobre o livro

A tipificação só é possível na medida em que as pessoas não são plenamente elas mesmas, na medida em que se aferram a determinadas características em detrimento de outras, em que se tornam unilaterais. A tipologia não pode abarcar - não tem esse poder - de classificar as pessoas que estão sequer trilhando a individuação conscientemente. Isso porque de repente você aplica um teste a ela num momento em que ela está desenvolvendo outra função ou atitude... Se bem que seria também correto perguntar: mas a tipologia inata é a que classifica realmente uma pessoa? A resposta seria tanto mais negativa quanto mais a pessoa se conhecesse. O autoconhecimento liberta a pessoa do destino, da fatalidade da previsibilidade, da massificação.

Como o Marlon disse, Jung usava a tipologia como uma forma de se nortear na psicoterapia e não para classificar as pessoas. Embora ache útil em certo sentido, não gosto da tipologia Myer-Briggs, pois parece passar uma filosofia onde as pessoas se aferram ao seu tipo e não adotam uma perspectiva de autodesenvolvimento. Elas ficam presas no que podem fazer, no que fazem melhor e esquecem sua sombra. É a tipologia voltada à desumanização: "faço o que é mais fácil e mais prático", como uma máquina. Esse tipo de esquema não é nada dinâmico, ao contrário do que Jung fazia. Para você ter uma idéia, Jung sequer usava testes (pelo que sei), ele deduzia um tipo via observação...”

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Eu:

“Marlon

Um dos entrevistados no documentário Matter of the Heart (se não em engano, Van der Post) disse o seguinte:

“Emma Jung said to a close friend of mine just before she died... That she had never ceased to be grateful in her life for Toni Wollf... Because Tone Wolff was able to do for her husband something she could not have done”

E depois uma mulher entrevistada disse:

“I think that what’s remarkable is that… They made it… And I think that they are the ones, Tonni and Emma, they are the ones that made the threesome relation possible… they worked out something between them.”

O vídeo está no google videos:

http://video.google.com/videoplay?docid=-3225765193573569458#

Pra ver do que estou falando, vá para 1:05:25 no vídeo. Talvez você saiba quem é quem lá.

O meu ponto aqui não é a tipificação de pessoas, mas de idéias de hábitos. No Tipos Psicológicos, vemos Jung tipificar os pensamentos realista e nominalista. Tem um trecho bem relevante para esse argumento:

Parágrafo 31:
“Reconhecemos, sem dificuldade, nesta briga, novamente aqueles elementos fundamentais que já encontramos nas disputas mencionadas antes, isto é, o ponto de vista abstrato que rejeita a mistura com o objeto concreto, e o concretista que está voltado para o objeto.(...)”

Parágrafo 32:
“Quero ressaltar que esses argumentos nada pretendem ter dito de decisivo sobre a psicologia individual dos dois personagens. O que conhecemos da pessoa de SCOTO ERÍGENA – apenas o pouco necessário – não é suficiente para fazer diagnóstico seguro de seu tipo.”

Ou seja, ele identificou o conflito em nível ideológico como típico, mas ainda assim não considerou seguro determinar o tipo do pensador. Isso significa que ele admitia que uma pessoa do tipo sensação, por exemplo, poderia ter uma idéia que, em si, é abstrata, intuitiva. Mas as idéias em si, a divergência teológica, o conflito entre realistas e nominalistas, são típicas e tipificáveis. Então não se trata de tipificar as pessoas. Muito pelo contrário. Trata-se de tipificar idéias e hábitos. Assim, se determinada pessoa tem muitos hábitos e idéias de um tipo, esse provavelmente é seu tipo pessoal.

E aí que vem a questão:

Marlon disse: “por último, acho que estás vendo como equivalentes fatores que não o são (extroversão e poligamia, intro e mono)”
Não estou vendo como fatores equivalentes. Talvez eu não tenha entendido bem o que foi dito. Me explica melhor? Mas estou dizendo aquilo que Jung disse:

“um caminho é a enorme proliferação, mas com relativamente pouca força defensiva e curta duração; o outro é a dotação do indivíduo com inúmeros meios de autoconservação, mas com relativamente pequena proliferação.”

Não é característico do introvertido entrar em relações vitalíceas enquanto que o extrovertido entra em muitas relações curtas? Ou, para ser mais leal à idéia original, não é um hábito introvertido possuir relações menos numerosas e mais profundas, e um extrovertido justamente o contrário?

E, nesse caso, não poderíamos levar essas implicações para o nível dos relacionamentos amorosos e dizer que o relacionamentos amorosos? Dizendo, por exemplo, que é uma característica extrovertida que o indivíduo tenha muitas relações de menor profundidade no âmbito amoroso (porque não há como um indivíduo ser tão próximo de mais de uma companheira quanto ele seria com uma esposa única) e também que o exato oposto, a monogamia, é de natureza introvertida?

to have a schema with which I can order psychological material (...) Hence my typology aims, not at characterizing personalities, but at classifying the empirical material

O que você postou aqui parece estar diretamente relacionado ao que eu estou falando. Sobre classificar o material empírico. Só que o material empírico aqui seria os hábitos monogâmico e poligâmico.

E é aqui que o ponto principal chega: se os indivíduos não são enraizados numa atitude, então é plausível que eles se alternem entre hábitos monogâmicos e poligâmicos durante a vida e que, portanto, ambas as formas de relação deveriam estar integradas na cultura para que as relações se manifestassem “plenamente”.

Vejam bem: não estou falando necessariamente do que Jung disse ou deixou de dizer. É mais sobre as implicações filosóficas dessa classificação. O livro Tipos Psicológicos é genial porque ele corre pela cultura: não fica apenas preso na utilidade clínica da tipologia. Ele fornece meios de compreensão de hábitos, costumes e idéias em nível filosófico. Conhecem algum autor que fala sobre isso, mesmo que de passagem, ou contra isso?

Charles

Tentei revisar o arquivo e arrumei diversos erros decorrentes da interpretação do scanner: como “rn” no lugar de “m” por causa da tinta apagada, além de remover a paginação original (o arquivo ficou com 186 páginas) pra ocupar plenamente as páginas e não apenas metade como estava. Daí deve ficar difícil citar referência do livro par quem tem a versão impressa, mas pra ler no computador está bom. Me passa seu e-mail por depoimento (se estiver no seu perfil, depois eu acho e envio) que te mando hoje mesmo.”

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Marlon:

“bá, essa discussão é bastante complexa. acho que não havia entendido o que o Silas queria dizer. agora infelizmente não tenho tempo pra reler todos os comentários e pensar numa resposta... mas uma hora eu respondo.
sobre a Emma e a Toni, se a Emma realmente disse isso... o que eu não duvido... sinal de que foi uma grande mulher. (mas foi realmente um processo, e acho que bem complicado, aceitar e fazer funcionar essa relação entre os 3). vi a parte do video agora, muito interessante (quero ver inteiro uma hora); acho que o senhor é Van der Post, a mulher eu não sei... talvez Barbara Hannah, mas tem sotaque americano, me parece, e Hannah era inglesa...”