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Sobre a imposição da lei de Biossegurança



Introdução

O presente trabalho tem como objetivo ilustrar a teoria de Howard S. Becker com o exemplo da lei de Biossegurança, parcialmente aprovada em 2007 no congresso brasileiro. O intuito é mostrar como cada grupo envolvido atuou na imposição dessa lei, ilustrando essas ações com declarações de membros de cada um dos lados do conflito. Vamos, ainda, demonstrar como cada um parte de uma noção de vida diferente e como a lei, se ficasse fixa com os argumentos de apenas um lado, prejudicaria diretamente as instituições envolvidas: A Igreja e a Ciência.

Conflitos ideológicos

Os grupos religiosos cristãos se engajaram na discussão da lei de biossegurança com o intuito de impedir que qualquer tipo de pesquisa e tratamento com células tronco embrionárias fosse feita. Nesse conflito, diversos argumentos falaciosos foram utilizados por religiosos.

“A mídia tem explorado os testemunhos de portadores de doenças crônicas para as quais ainda não existem tratamentos que, justa e honestamente, buscam a cura para seus males. Esses testemunhos muitas vezes visam sensibilizar a opinião pública no sentido de se obter a rápida aprovação de leis que autorizem os cientistas a utilizarem embriões humanos como se isso pudesse "apressar" os resultados desses trabalhos de pesquisa, o que não é verdade porque as pesquisas com células-tronco retiradas de outros tecidos humanos (placenta, medula, entre outros) continuam se desenvolvendo a passos largos, no sentido de se alcançar os benefícios para a saúde de todos, o que é também o anseio da Igreja.” ( Pe. Vando Valentini - Coordenador do Núcleo Fé e Cultura da PUC/SP)

Pode-se notar que o padre procura ocultar o fato de que células tronco totipotentes e pluripotentes, que são mais eficientes para a pesquisa com células tronco, só podem ser encontradas em embriões. Claro que ele usa esse argumento por conta de toda uma visão de mundo. Isso fica ilustrado na fala do autor no mesmo artigo[1]:

“O que fazer com as pessoas doentes que poderiam esperar ser curadas a partir do uso da vida de embriões humanos? É preciso cuidar delas. Tenho certeza de que ninguém quer salvar sua vida à custa da vida de outro homem inocente.”

Aqui podemos perceber que há a noção de homem inserida no zigoto, dependente de toda uma visão de mundo, segundo a qual o zigoto já possui uma alma. Ora, nos discursos que afirmam que a vida começa na nidação[2], ou que começa na formação do sistema nervoso central a noção de alma fica em segundo plano, dando lugar à noção de que a vida é um fenômeno biológico. Ter essa crença disseminada como conseqüência das práticas de pesquisa e de tratamento significa enfraquecer o poderia político da igreja. Isso significa, basicamente, que a igreja está se defendendo enquanto instituição contra uma prática que lhe será prejudicial.
Outro exemplo ilustrativo dessa posição parcial que visa defender os interesses da igreja consta na fala de Dalton Luiz de Paula Ramos[3]:

“Um dos pontos que se coloca é o uso de zigotos/embriões humanos como fonte das células tronco, que suscita duas perguntas: Os zigotos/embriões são a única fonte possível dessas células? Qual o estatuto dos zigotos/embriões humanos?
À primeira pergunta, muitos cientistas respondem NÃO. Afirmam que, com células tronco retiradas de tecidos de indivíduos adultos, é possível obter sucesso terapêutico.
Quanto à segunda pergunta, o dado incontestável da genética é que, desde o momento da fecundação, ou seja, da penetração do espermatozóide no óvulo, os dois gametas dos genitores formam nova entidade biológica, o zigoto, que carrega em si um novo projeto-programa individualizado, uma nova vida individual.”

É explícito que o autor busca exibir apenas parcialmente a questão da fonte das células, pois não é útil para a sua causa exibir a diferença gritante entre as células-tronco de tecidos adultos e a dos zigotos. Além disso, ele usa o termo embriões junto com o do zigoto, parecendo indicar que pesquisas são feitas com embriões. Mas não são.
No segundo argumento, voltamos à posição de que o zigoto, somente por possuir um código genético diplóide, é uma pessoa. Isso depende da noção de que há um espírito nesse zigoto. Caso contrário, só consideraríamos uma pessoa em potencial aquele zigoto que pelo menos sofreu a nidação, e que se encontra em desenvolvimento. O objetivo aqui não é falar contra a noção de espírito, mas deixar claro que essa não é uma noção científica, mas que é apropriada pelos religiosos como um dado científico incontestável porque isso dá ao argumento deles maior peso, por mais que seja falacioso, diante dos leigos. E isso é suficiente para gerar força política no sentido de impor a lei.




[1] http://www.ghente.org/temas/celulas-tronco/artigos_padre.htm
[2] Fixação do zigoto no útero materno
[3] Professor Associado da Universidade de São Paulo - http://www.ghente.org/temas/celulas-tronco/artigos_dalton.htm

Uma breve correspondência intergaláctica

De: Roberto
Para: O Místico da Montanha

Caro amigo e conselheiro. Venho por meio dessa correspondência solicitar o contato imediato entre as nossas civilizações, no intuito de, nesse contato, expandir o conhecimento humano à nossa disposição e, conseqüentemente, propiciar maior avanço tecnológico. Espero que você entenda que o que busco não é tecnologias e paradigmas prontos para que possamos copiar, mas uma forma de influência que possa mudar o curso de ação das pessoas, que faça com que elas tentem criticar a epistemologia da vida. Meu intuito é causa uma massiva onda de revisão paradigmática, na qual a humanidade poderia evoluir. Temo que minha civilização possa se autodestruir. Ou quem sabe se afundar em mitos milenares, entendidos como destituídos de história e de contexto social.

De: O Místico da Montanha
Para: Roberto

Caro habitante dos vales terráqueos. Entendo sua angústia em relação aos paradigmas do seu planeta, que você considera primitivos, mas a verdade é que essa sensação é endógena. Não estou dizendo que sua civilização não tenha lições para a aprender com a minha, mas que essa sensação não decorre da imperfeição da sociedade, mas da inconformidade dela com sua identidade. Para ser mais claro, uso a mim mesmo como exemplo. Meu nome de nascimento é pobremente traduzido como criador de tecnologia. No entanto, contrariamente às expectativas da sociedade, eu tive uma espécie de vivência interna, uma espécie de contato com algo maior, que mudou o curso das minhas ações mais ou menos na época da aquisição dos robôs moleculares individuais, aos 20 anos. Eu me tornei um místico para uns, um conselheiro espiritual para outros, um charlatão para muitos. Com freqüência fico pasmo com a falta de sabedoria, a falta de espiritualidade de alguns de meus companheiros. E também me causa muita aflição que eles tenham tamanha influência na sociedade.
Essa aflição, no entanto, decorre apenas da diferença. Se eu modificasse esse aspecto da sociedade, haveria outro que tomaria seu lugar como fonte de insatisfação. O que você manifesta pra mim é um desejo de submeter o mundo aos seus ideais, plasmados na minha sociedade. Estou falando isso porque te conheço, e porque seu sofrimento pode ser resolvido de dentro pra fora.
Com relação ao contato, estou de acordo com os estudos cognitivos mais recentes acerca da mentalidade dos habitantes do planeta. É comprovado que a esmagadora maioria da população do planeta não possui capacidade cognitiva para entender sequer 10% da complexidade das nossas tecnologias. Além de que ainda impera na população um sentimento de apego à tradições, decorrente do seu sistema de comunicação insuficiente. Na verdade, quando vocês estabelecerem sua teia de comunicação global e facilitarem a interface de acesso, passarão ainda boas décadas até que se torne suficientemente frágil o apego à tradições. Com esse apego, nossa cultura parecerá repugnante, pecaminosa, sagrada. Jamais chegará perto de se parecer, aos olhos dos habitantes, o que é.
Se você quer exemplos disso, tome a chegada de Matias no Planeta. Primeiro foi interpretado como anjo dos céus, depois como suspeito de criminoso. Imagine como seria a reação da sua população ao saber que nossas relações são com freqüência polígamas, que as pessoas mudam de aparência completamente em segundos, ou até mesmo de sexo, e que nossa identidade não possui nenhuma relação com nossa aparência estética (afinal, nós a construímos e reconstruímos freqüentemente em cada mínimo detalhe desde os 20 anos de idade)¿
Não entenderiam como o fazemos, pensariam que somos corruptos, demoníacos. Tentariam ataques fúteis, que não nos causariam nenhum dano, mas que acabaria por reforçar a noção de que somos criaturas perigosas, por não sermos passíveis de assassínio por meio de suas armas primitivas.
Seu conceito de evolução é vago, e ainda mais a própria noção de evolução social é um erro etimológico: o que se observa na história não é o desenvolvimento de uma única tendência, mas o surgimento e o desaparecimento de diferentes tendências. O que você interpreta como nova etapa da evolução humana não passa de mais uma tendência, a qual será “superada” na próxima geração por outra que não a complementa de maneira alguma, mas que será adequada ao novo contexto.
Acerca dos mitos, é uma questão de assimilação: algumas pessoas não desenvolveram sua capacidade cognitiva, mas ainda assim precisam saber. É um impulso básico, a vontade de saber. Para isso, estabelecem ou recebem critérios proporcionais ao seu potencial e dão seu próprio sentido à vida. Recriminar essas pessoas é o mesmo que recriminar um cachorro por insistir em latir, mesmo quando instruído a falar.
Espero não ter te desanimado.

As implicações da tecnologia meta-biológica no aprendizado



Joana estava no colégio, onde mostravam as informações passadas para os mais jovens. Sua primeira impressão foi de que tal coisa se afigurava cruel, inumana, e eis as suas objeções.

- Como vocês podem esperar que essas crianças gravem todo esse conhecimento de uma vez só? não percebem como esse esforço torna a vida delas miserável, na medida em que gastam toda a sua energia memorizando coisas?
- Seria inumano no seu planeta, onde as crianças lamentavelmente dependem apenas do próprio cérebro ou de tecnologia arcaica pra armazenar informação. Aliás, fazem coisas parecidas no seu planeta, o que cria seres humanos complexados, descontrolados, infelizes.
- Como as crianças memorizam as coisas senão com o cérebro?
- Através dos dispositivos meta-biológicos que elas recebem aos dois anos de idade.
- Mas o que é um dispositivos meta-biológico?
- O termo meta-biológico é uma adaptação à sua linguagem. Imaginávamos que sua significação estaria implícita. Desculpe o engano. Artefatos de tecnologia meta-biológica são dispositivos feitos com estrutura de DNA específica desenhada pra se integrarem ao sistema nervoso central. Nesse sentido, poderíamos dizer que é um computador biológicos. Apenas a analogia com sua tecnologia eletrônica não vai longe, pois esse sistema tecnológico é plástico. Ele se adapta às mudanças na estrutura do pensamento do indivíduo, sempre refazendo o processamento das informações armazenadas, e mantém uma leitura das sinapses cerebrais. Assim, quando o indivíduo pensa em se lembrar de determinada informação, ela surge em sua consciência da interface dos dispositivos meta-cerebrais. Esses dispositivos são capazes de realizar traduções de todas as linguagens da terra e da nossa civilização, além de realizar cálculos matemáticos, resolver algoritmos complexos e diversos problemas lógicos mais mecânicos. Além disso, ele possui uma capacidade de armazenamento virtualmente infinita e se integra com o sistema de coordenação motora, além de complementar o sistema nervoso periférico.
- O que? Vocês colocam chips nas suas crianças?
- Chip é um artefato eletrônico. Nós não usamos mais tecnologia eletrônica há alguns séculos.
- Não estou entendendo.

O homenzinho projetou, aparentemente com as mãos, um holograma que ia demonstrando passo a passo a interação entre os dispositivos e o sistema nervoso. Segundo ficou demonstrado, a estrutura do artefato é tão perfeitamente imbricada com o organismo que os próprios neurônios da caixa craniana realizam sinapses com os neurônios artificiais e buscam as informações, sem necessidade de uma interface que interage com os sentidos. Assim, a velocidade do fluxo de informação se torna muito mais rápida e o excesso de informação não sobrecarrega o cérebro.

- Mas... Então como são as provas?
- Não usamos provas como as empregadas por vocês. Elas são um teste de memória, raciocínio mecânico e até resistência física. São uma forma cruel de seleção entre os aptos e os inaptos. Nossas avaliações são se outra natureza. Nossas crianças desenvolvem hipóteses acerca das coisas que observam, criam princípios explicativos, falam sobre suas emoções acerca dessas coisas. Sempre com orientação dos especialistas, que indicam caminhos, entendem a linha de raciocínio da criança e fazem perguntas cruciais. O que buscamos exercitar no sistema de ensino, numa palavra, é a criatividade em suas mais diversas formas.
- Mas como vocês podem dar tanta atenção aos alunos?
- Conseguimos através da tecnologia meta-biológica no organismo dos professores, que permite maior armazenamento de informações sobre os alunos. Além disso, temos uma média de dois professores pra cada aluno, por mais que se formem turmas. Os alunos escolhem cerca de cinco orientadores para seus projetos.
- Isso me deixa angustiada.
- Porque?
- Porque parece que a solução pra educação é tecnologia que não temos a uma quantidade de professores capacitados que não temos.
- Viemos persuadir os habitantes do planeta que nos aceitem como seus visitantes. No entanto, sabemos que o estranho assusta e que a nossa tecnologia causará horror, veneração e diversos outros resultados que não desejamos. Por isso optamos por trazer grupos de nativos para a nossa nave para entenderem melhor como é o nosso modo de vida. Assim, quando chegarmos uma grande parcela da população não nos estranhará, mas antes lembrará daquele sonho que tiveram a nosso respeito.
- como assim sonho?
- Quando você acordar na sua casa hoje, pensará que isso não passou de um sonho.
- Entendi... Posso ver suas crianças?
- Pode claro. Entre por essa porta e vá até o fim do corredor.

Joana foi e a mulher que a acompanhava a seguiu até a porta, onde ela pode entrar e ver três crianças escrevendo, cada uma num ponto diferente da sala. Ela sentou ao lado de uma delas que estava escrevendo com um olhar carinhoso. A criança parecia pequena, de uns seis anos de idade, mas escrevia rapidamente. Quando percebeu a presença de Joana colocou o que usava para escrever de lado. Era como papel, só que virtual.

- Oi. Qual é o seu nome?
- Aquele que traz a mudança.
- Que bom! Tenho certeza de que seus pais gostam muito de você.
- Gostam nada. Tenho pais novos.
- Claro que gostam! Não fale assim. Seus pais escolheram ter você.
- Que base você tem pra falar, ô gigante? Meus pais não são sentimentais. Eles só escolheram meu nascimento para comprovar que a tese a respeito dos filhos que é aceito por muito está errado. Meu nome é assim porque eu, segundo eles, vim para provar que ter filhos é um erro. Eles que se fodam.
- Olha, não precisa ficar assim tão bravo. Sabe, as pessoas cometem erros, mas elas mudam. Perdoe seus pais. Um dia eu sei que eles entenderão o erro que cometeram. Você vai ver.
- Nunca me ofendi com eles. Na verdade eles não são nada pra mim além de pessoas doaram um pouco de energia para meu nascimento. Eles que se fodam, não são família pra mim.

Joana ficou com um olhar triste. Passou a mão nos cabelos do menino e começou a falar

- Quantos anos você tem?- Tenho doze anos. O que foi, esperava outra coisa?
- É que no meu planeta as coisas são diferentes. O que você está escrevendo aí?
- É um sonho que eu tive. Eu vou ser artista, sabe? Quero ser um vagabundo inútil.
- Você quer ser inútil?
- Só estou usando os termos dos meus pais. Pensam que artistas ficam inventando qualquer besteira sem qualquer fundamento e que artistas são inúteis. Mas eu sou artista, e não me importo com o que eles pensam, eu não sou eles, nem quero ser, eles que se fodam.
- Olha, apesar de tudo são seus pais. Você devia respeitá—los.
- Por quê?
- Porque eles te criaram.
- Eu não sou nada pra eles. São uns robôs! Que tal a gente mudar de assunto?
- Você tem alguma ideia?
- Já que você se interessa tanto pela minha vida pessoal eu quero saber sobre a sua.
- Tudo bem.
- Soube que seus hábitos de reprodução são parecidos com os nossos. Você se masturba muito?
- O quê?
- O tradutor está funcionando direito. Ouvi dizer que o seu planeta é cheio de niilistas e que vocês vivem transando e se masturbando o tempo todo. Deve ser o paraíso. Olha, nós não podemos ter filhos por causa do código genético, mas podemos transar, sabia?
- Isso é falta de educação! Não fale assim comigo ou com ninguém. É uma coisa íntima e muito pessoal.
- Por quê?
- Porque sim.
- Há! Você é uma acorrentada! Você tem fetiche com isso?

Joana levantou e saiu de perto do garoto, que continuou escrevendo tranquilamente. Na sala externa foi falar com a mestra em educação sobre o comportamento do garoto.

- Fui desrespeitada por um de seus alunos. Perguntou se eu me masturbo!
- Você não se masturba?
- Isso é problema meu!
- Masturbação é um problema?
- Olha. Eu não me masturbo, tá bem?
- Então faz sexo com frequência?
- Qual é o problema com vocês? Não respeitam a intimidade dos outros, não? Não sabem educar as crianças e por isso ficam mal criadas desse jeito! Aquele menino odeia os pais!
- São sentimentos dele, e não são um perigo para a sociedade. Não podemos reprimi—los.
- São sentimentos negativos e devem ser evitados.
- Você é uma acorrentada.
- O que?
- Você está presa á moral. É uma acorrentada! Cheia de inibições criadas pelos outros no próprio comportamento. Mas isso não é você!
- Eu sei muito bem quem eu sou!
- Não sabe não. Grande parte do que você é não passa de uma mentira. Você fecha seus olhos e glorifica a ingenuidade, mas não é tão ingênua quanto parece.
- Eu não sou ingênua. Só acho que não é certo ensinar crianças a serem revoltadas.
- E então o que é certo ensinar?
- A serem bem comportadas.
- Um erro! Uma criança bem comportada é um robô. Ela se comporta exatamente como os outros acham certo, e faz tudo o que disseram que é certo, mas é acorrentada e nunca desenvolve a si mesma. O problema não estava naquele que traz a mudança, está em você, que tem inibições primitivas de impulsos naturais. Aliás, não são só seus impulsos que você inibe. Veja só, há fatos claros diante dos seus olhos na sua vida que demonstram o meu ponto.

Foi exibido um vídeo para Joana, no qual ela estava transando aos quatorze anos, e depois outro dela grávida. Ela ficou chocada por alguns segundos e começou a chorar, mas logo se recompôs.

- Porra, vocês ensinam suas crianças a transar. Isso é pedofilia.
- As crianças só podem ter relações sexuais dentro de realidade virtual nessa idade. Em uns 3 anos, quando ele demonstrar que possui maturidade, poderá ter relações com robôs, e mais tarde, quando terminar sua primeira tese, poderá ter relações com pessoas de todas as idades. Não temos interesse em fingir que as crianças não possuem sexualidade em época de puberdade. Aquele que trás a mudança está nessa fase, e na realidade virtual, somente programas específicos interagem com ele. Não há abuso por parte de adultos. Se não fosse nessa realidade, ele se masturbaria evocando com a própria mente imagens análogas. É até mesmo estúpido dizer que o estamos corrompendo por deixarmos seus impulsos fluírem com relativa liberdade.

Joana encheu o pulmão de ar, mas não falou nada de imediato.

- Vejo que voe se chateou. Não é minha intenção te aborrecer, mas na interação com nossa civilização é comum que o choque entre culturas cause estranhamento. Depois de um tempo, creio, isso se tornará mais comum.
- Eu melhoro. Só que tem mais uma coisa que me deixa preocupada.
- O Que?
- E se isso for realmente um sonho? E se não houver visitantes? O que faremos para resolver nossos problemas educacionais?
- Pessoalmente, tenho sugestões.
- Me diga
- Em primeiro lugar, façam o maior esforço possível pra integrar a tecnologia no ensino. Depois, deixem de determinar coletivamente o que deve e o que não deve ser aprendido. Que a partir da puberdade, os indivíduos já possam escolher suas preferências, mas que tudo seja como se fosse uma brincadeira.
- Mas a vida não é brincadeira!
- A criança aprenderá sobre os diferentes grupos sociais de sua sociedade globalizada sem ser coagida por alguns deles, como o religioso, esportivo ou científico. Nesse sentido, poderá ter maior autonomia em escolher o que quer ser, e terá menos pressão para aprender coisas que lhe serão irrelevantes no futuro. Devem, também, dar condição de vida digna aos professores, e aumentar, sempre que possível, a quantidade de professores trabalhando. Só isso já resolverá uma infinidade de problemas que vocês possuem.
- Vou pensar nisso. Parece bonito, mas praticamente impossível de aplicar.
- Não será sempre assim. Nossa esperança é que o nosso contato com vocês vá modificando progressivamente a sua forma de ver o mundo. Assim, pretendemos um preparo de dentro pra fora antes de termos contato com os nativos.

Uma brincadeira sobre as implicações éticas do conflito acerca da origem da vida

Introdução

Como o último post recebeu alguma atenção, me senti motivado a levar adiante minhas brincadeiras a esse respeito. No presente texto, pretendo apresentar as implicações éticas e sociais do conflito em torno da origem da vida. Isso porque não se trata apenas de como a vida surgiu, mas sobre interpretações de como a biosfera se organiza. É, em última análise, uma questão filosófica.
Como o evolucionismo é uma visão hegemônica, sendo considerado por muitos uma questão já além do questionamento, falarei primeiro sobre as implicações dessa concepção na história e sobre minha leitura da marca que ela deixa na nossa sociedade atualmente. Depois vou especular filosoficamente sobre como a brincadeira do outro post poderia basicamente curar um grande mal da humanidade. Sim, parece bobagem. E talvez seja mesmo. Mas é divertido, então vou escrever.

Evolucionismo e suas implicações

Para falar sobre isso recorro, primeiramente, a um comentário de Marx¹:

“‘Darwin, que estou relendo, diverte-me quando diz que aplica a teoria de Malthus nos animais e também nas plantas, como se em Malthus não fosse brincadeira aplicar a teoria, inclusive da progressão geométrica, não às plantas e animais, mas aos homens. É notável ver como Darwin encontra nos animais e nas plantas sua sociedade inglesa, com a divisão de trabalho, a competição, a abertura de novos mercados, as ‘invenções’ e a ‘luta pela existência’ de Malthus” (apud. Marco, 1987, p, 75-76)6.”

E Engels:

“‘Toda a teoria de Darwin baseada na luta pela vida é simplesmente a transferência, da sociedade para a natureza animada, da teoria de Hobbes do bellum omnium contra omnes e mais ainda: da teoria burguesa da livre competição e da teoria malthusiana sobre a superpopulação. Uma vez levada a cabo essa proeza (cuja justificação incondicional é ainda muito problemática, especialmente no que se refere à teoria malthusiana) é muito fácil transferir de volta essas teorias, passando-as da história natural para a história da sociedade; e, afinal de contas, é uma grande ingenuidade pretender, com isso, haver demonstrado essas afirmações como sendo leis eternas da sociedade’ (Engels, 1985, p. 163).”

Até que ponto podemos dizer que a teoria de Darwin é uma projeção de seu convívio social, sobrepondo a organização da sociedade inglesa à natureza é determinar. Mas certamente a teoria foi aceita muito porque estava (e está) em concordância com o sistema sócio-econômico. Porque olhar para a natureza a partir de tal ótica foi interessante para tal Zeitgeist.

Mas de que mentalidade estou falando?
Da capitalista, onde surge a noção de indivíduo responsável pelo próprio destino. Nesse momento, no início do iluminismo, onde o “um por todos e todos por um” foi substituído por “cada um por si de Deus por todos”, até que Deus morreu e somente o cada um por si sobrou.

Nesse caso, o individualismo parece andar lado a lado com o evolucionismo, na medida em que ele concebe a estrutura da natureza como milhares, milhões de indivíduos em constante competição, da qual resulta a variedade do mundo.[2]

Em nível social as conseqüências foram devastadoras. A eugenia, que hoje não é mais aceita, procurou “melhorar” a espécie humana, esterilizando a matando milhões de pessoas que, segundo o pensamento da época, foram consideradas inferiores. Culturas foram submetidas à visão etnocêntrica do homem europeu, que buscou classificá-lo como primitivo, menos desenvolvido, legitimando diversos tipos de violência e imposição cultural. Vimos surgir diante dos nossos olhos um sistema econômico cada vez mais competitivo, abonado pela própria natureza para que continue funcionando dessa maneira.

Na vida pessoal, pensar que as próprias leis da natureza abonam o individualismo gera um sem-número de comportamentos aberrantes. Por exemplo, apesar da enorme inflação da nossa densidade demográfica, muitos ainda hoje conservam preconceitos contra a adoção, afirmando que crianças abandonadas carregam “genes ruins” ou que simplesmente querem passar a própria carga genética (ou o sangue, nos mais leigos) adiante. Assim, mesmo no caso de ser menos trabalhoso adotar do que tratar um problema de infertilidade, opta-se por um filho biológico, pois se não há uma conexão genética nós estamos lutando contra o nosso próprio interesse.

Outro exemplo é o de que, em benefício próprio (e em reverência à mãe natureza) os homens cometem inúmeras atrocidades uns com os outros economicamente. Porque, afinal, ajudar os outros pode até ser útil no sentido de dar status social, mas muitas vezes o custo não compensa o benefício. Todos os comportamentos humanos são essencialmente egoístas dentro dessa visão. Porque se fossem verdadeiramente altruístas, nossos genes não seriam passados adiante.

Quer dizer, em nível pessoal, levando essa teoria às suas últimas conseqüências, somente com alternativas Ad Hoc e religiosidade é que podemos ter um comportamento altruísta. Poderíamos dizer que e útil para a sobrevivência do indivíduo que ele coopere com o grupo, mas ainda assim permaneceremos num conflito constante, embora ocultado. A essência, nessa visão, do comportamento do indivíduo no meio social é a do individualismo, bem como pregado no American Way of Life: cada um que cuide do seu jardim. Porque, afinal, a nossa origem, o que nos deu a forma que temos, foi essencialmente a competição.

Apesar das costuras e dos emendos, a lógica evolucionista, quando transposta para termos éticos, traz apenas o egoísmo. E somente alguns niilistas conseguem admitir tal coisa: que tudo, no fim das contas, é motivado pelo egoísmo.

Nosso convívio diário, nossa organização social, nosso mercado de trabalho, nossos meios de produção, nossas classes sociais. Tudo baseado na competição.

Não estou aqui para propor um sistema que elimine a competição, nem tampouco para provar que ela não é a melhor forma de pensarmos e organizarmos a sociedade. Apenas constatando a visão evolucionista é o braço direito do capitalismo, embora os biólogos tenham a tendência de ignorar tais estudos. Nós temos alimento para matar a fome do mundo, mas não o interesse dos indivíduos que detém tais alimentos de fazer isso. Afinal, é cada um por si. E temos uma Deusa[3] apoiando tais ações.

A concepção de engenharia genética como alternativa

Agora, pensando segundo a linha de raciocínio do outro post, no qual foi postulado que fomos construídos artificialmente, a coisa muda profundamente.

Se fomos construídos como uma espécie a se conservar com uma estrutura mais ou menos estática, devemos pressupor que o(s) autor(es) nos desenharam para sobrevivermos. Não desenhou um indivíduo, uma manifestação individual do “código básico” da espécie, mas uma espécie inteira. Se todos os seres humanos, egoístas, buscassem apenas o próprio benefício, a tendência seria a extinção. Assim, a forma mais lógica de programar uma espécie é colocando como base o altruísmo e não o egoísmo. Somente na lógica evolucionista, a partir da qual tivemos origem em mecanismos complexos de competição, é que esta faz algum sentido. Se pensarmos um projeto de espécie inteligente e fisicamente frágil que deve ser capaz de sobreviver, o impulso básico deve ser o de cooperação acima de qualquer outro. Se a base da nossa motivação é a cooperação e não a competição, então podemos explicar alguns fenômenos observáveis na nossa sociedade.

Em bancos, ficou comprovado, há uma taxa muito maior de suicídios e licenças por depressão do que em outros ambiente de trabalho. Os funcionários são submetidos uma carga excessiva de stress, que é compensada por palestrantes, livros de auto-ajuda ou terapias. Os problemas, convenientemente, são projetados para a responsabilidade do indivíduo. Isso, no entanto, não elimina seu problema, mas o suprime através de sucessivas catarses até que ele possa ser substituído.

No entanto, partindo da premissa de que nós não somos naturalmente competitivos e egoístas, mas que tal comportamento nos é internalizado pelo processo de socialização, a coisa fica bem interessante. Partindo dessa premissa, estaríamos basicamente dizendo que o ser humano tem uma propensão “natural” para cooperar, muito mais do que para competir.

Um dos maiores males da sociedade atual, portanto, é a solidão. Pais pensando que podem comprar a felicidade dos filhos, e, quem sabe assim, comprar a própria. Pessoas convivendo entre si por mera conveniência e sozinhas no meio da multidão. Olhando para um lado e para o outro e não vendo nada além de sua própria pequenez e solidão. Uma contradição com a lógica original, que nos preparou parar a cooperação e não para o isolamento. Essa lógica que, no fim das contas, nos lança atrás de amor, como Erich Fromm postula. O que mais queremos, aquilo de que mais sentimos falta, é amor. Um princípio excessivamente altruísta, dificilmente explicável pela lógica de que tudo se baseia no egoísmo.

Seríamos, então, uma espécie muito mais adaptável a um ambiente de cooperação, onde estaríamos conservados. É somente através da estimulação que nossa mentalidade internaliza a competição, sem, contudo, deixar abismos nos indivíduos. A idéia de que fomos programados e não tivemos origem da competição nos faz rever esse hábito social. Afinal, se tivemos a mesma origem e se o propósito de nossa existência física não é apenas passar nossos genes adiante, mas manter toda a espécie coesa e viva, a coisa muda de figura. Nessa lógica, é lícito que indivíduos dediquem toda a sua vida a ajudar os próximos, sem buscar tão somente o prazer para si mesmos e a sobrevivência de sua “prole”.

Nossa missão natural, então, deixa de ser sobreviver e deixar descendentes férteis, mas amar e ajudar a conservar toda a espécie. E mais além: conservar toda a biosfera para que isso seja possível.

Essa visão se adapta muito melhor a qualquer concepção metafísica que pregue o amor do que a evolucionismo, e, se levada às ultimas conseqüência, nos levara a uma estruturação social onde a afetividade, o companheirismo, o amor, se tornarão prioridade. Onde todos buscarão se ajudar num ambiente de trabalho ao invés de se ignorarem ou simplesmente prejudicarem o outro. Com essa concepção de natureza, nossa vida seria mais agradável e nossa sociedade incrivelmente mais produtiva. Somos seres afetivos, capazes de amar. Está na base do projeto...


[1] Pra dar o texto a aparência de ser algo sério, claro. (http://designinteligente.blogspot.com/2010/01/darwinismo-e-marxismo.html)
[2] Parece estranho, no entanto, que elas admitam normalmente o fato de que muitas formigas nunca passem seus códigos genéticos adiante, servindo apenas para o funcionamento da colônia, sem que tal comportamento tenha feito com que tais formigas entrassem em extinção. Se algum evolucionista quiser, me explicar tal fenômeno dentro da teoria evolutiva deve ser bastante interessante.
[3] Gaia, a mãe natureza.

Uma brincadeira epistemológica com o Macro-evolucionismo e órgãos vestigiais

Introdução

Em primeiro lugar, para quem nunca leu esse blog e acabou aqui por acaso, deixo evidente no título o caráter desse texto. Não se trata de um texto com zombarias pueris, mas de uma concepção filosófica: que a reflexão, a busca por conhecimento, não passa de uma brincadeira. Na verdade, a impressão que tenho é que, se não fosse pela diversão, aprender e pensar seria uma perda total de tempo. Se você não tem prazer nisso, nem se preocupe em ler, porque não será um texto pequeno. Basta você descer a barrinha do seu navegador pra constatar a veracidade do que digo.

Já em segundo, e mais direcionado ao tema em questão, o que proponho aqui é fazer uma brincadeira com dois preceitos do evolucionismo, o de Macro-evolução e o que postula a existências de órgãos vestigiais. O que farei aqui é tomar a evidência que encontrei nesse site[1] e reinterpretá-la longe da visão evolucionista, dando ênfase noutro conjunto de premissas teóricas. Se eu for refutado por alguém, o que é provável, apesar de poucas pessoas se interessarem pelo tema e/ou pelo meu blog, ainda assim ficará como um registro de como são frágeis nossos modelos de interpretação dos fenômenos.

Premissas fundamentais

Em primeiro lugar, eu gostaria de postular premissas para essa base epistemológica com a qual irei interpretar os dados.

1)      As espécies em sua variedade cromossômica foram geneticamente contruídas.
2)      A construção foi gradual, tendo várias espécies sido construídas a partir de outras que a precederam.
3)      Não houve apenas um engenheiro trabalhando, mas vários. E em diferentes épocas do planeta.
4)      Micro-evolução é uma realidade observável.

Sobre a primeira, deixo claro do que estou falando. Se uma espécie de lagartos se separou e sofreu mutações morfológicas e comportamentais, inibindo a reprodução no caso do reencontro, isso não quer dizer que tenham mudado em nível cromossômico. Se duas espécies podem se reproduzir no nível das gônadas, então podemos dizer que são iguais em nível cromossômico. Portanto, que têm a mesma origem em Design e que se adaptaram a diferentes ambientes apenas, sem se transformarem em algo diverso.
Sobre o primeiro, é bom recorrermos ao conceito de Scrip em programação. Um Script de uma determinada linguagem de programação é um fragmento de programa que pode ser utilizado em outros programas para facilitar a programação. Assim, muitas vezes ao invés de programar todo o código, o programador usa scripts para facilitar a própria vida, o que pode tornar alguns programas bastante similares. No caso dos seres vivos, poderíamos presumir que os programadores construíram as diferentes espécies partindo de um preceito análogo a esse.
Ou seja, que usaram códigos genéticos já prontos para construir novas espécies. Nesse aspecto, a aparência de que as espécies se transformam gradualmente é verdadeira, mas tais transformações não foram, de forma alguma, espontâneas. Antes, foram o resultado de sucessivas reprogramações.
Quando presumimos que há vários programadores criando novas espécies a partir de outras que conseguiram sobreviver em épocas diferentes, fica claro que eles não possuíam um “backup” com um código puro da espécie. Portanto, não refuta tal proposta que humanos tenham marcas de DNA viral em seu organismo que são idênticas as dos chimpanzés. Isso só prova, segundo tais premissas, que ambas as espécies foram programadas segundo o mesmo DNA-base, de uma espécie ancestral.
Daí, portanto, decorreriam todas as semelhanças ontogenéticas, genéticas, fenotópicas e comportamentais dos animais.
Quando falo que há mais de um programador, postulo que Deus ou forças divinas estão excluídas de tal hipótese e que as evidências apontam para o fato de que as espécies são, em nível da biosfera, muitas vezes redundantes em função, além de terem comprovadamente idades diferentes. Presumir que todas foram feitas por um só “criador”, presume uma espécie que vive milhões de anos e que cria espécies redundantes ao invés de simplesmente reproduzir as mesmas de dada função no ciclo da vida.
Quando falo de micro-evolução, me refiro ás mudanças morfológicas e comportamentais que os animais sofrem dependendo da pressão seletiva de determinado meio. Assim, essa forma de pensamento admite a seleção natural, mas a integra noutro contexto.

Vamos, então, à brincadeira em si.

Analisando os dados

Ao buscar defender os órgãos vestigiais de adeptos do Design Inteligente, o autor do site indicado no início do site mostra autores usando uma definição deficiente desse conceito. Segundo ele, os autores em questão dizem que órgãos vestigiais são aqueles que não possuem mais função alguma. Ele coloca, para refutar tal postulado, que mesmo em A origem das espécies tal colocação nunca foi feita:

“‘Rudimentary organs, on the other hand, are either quite useless, such as teeth which never cut through the gums, or almost useless, such as the wings of an ostrich, which serve merely as sails.’ (Darwin 1872, p. 603) [Orgãos rudimentares, por outro lado, são ou praticamente inúteis, como dentes que nunca atravessam a gengiva, ou quase inúteis, como asas de uma avestruz, que servem apenas como uma vela(para o equilíbrio na corrida).]

E além disso:

“‘... as was pointed out in the introduction, the term vestigial, is, as a rule, only applied to such organs as have lost their original physiological significance.’ (Wiedersheim 1893, p. 205)”[Como foi indicado na introdução, o termo vestigial, é, via de regra, apenas aplicado a a órgãos que tenham perdido sua significância fisiológica original] {grifo meu}

Logo, os órgãos vestigiais não são necessariamente, mas apenas são aqueles não possuem mais a função original. Dessa maneira, pensar em órgãos vestigiais é observar tal fenômeno já com uma projeção evolucionista. Com a hipótese que pretendo colocar nessa brincadeira, os órgãos vestigiais são um absurdo. Na verdade, vou apresentar uma proposta explicativa alternativa pra demonstrar que essa evidência só tem peso para o evolucionismo se for vista sob a ótica evolucionista.

Como aponta este autor[2], no século XIX 180 órgãos eram considerados destituídos de função pelo simples fato de que sua função não havia sido clarificada. Além disso, postula a função do cóccix e do apêndice, tendo o primeiro a função de “anexar vários músculos pélvicos, formando o diafragma pélvico”.
Segundo o autor, “O cóccix, com seu diafragma pélvico, mantém fixos muitos órgãos em nossa cavidade abdominal evitando que estes literalmente caiam por entre as pernas. Alguns dos músculos do diafragma pélvico também são importantes para o controle de eliminação de dejetos de nosso organismo pelo intestino reto.”

Infelizmente, numa distorção do conceito de órgão vestigial, ele postula que o cóccix não é vestigial porque ele tem uma utilidade, enquanto que ele trabalha com um conceito de órgão vestigial que não pode possuir função. Diferente do que ele postula, os evolucionistas colocam que um órgão que não possui a função original é vestigial. Assim, o autor não refuta os evolucionistas, já que emprega um conceito que não é utilizado por eles.
Para os evolucionistas, o Cóccix, embora tenha funções próprias no organismo, é uma cauda vestigial. Para provar isso, mostram as evidências ontogenéticas, onde fetos apresentam uma espécie de cauda primitiva.

No link da nota 1, o autor diz: “As discussed below in detail, the development of the normal human tail in the early embryo has been investigated extensively, and apoptosis (programmed cell death) plays a significant role in removing the tail of a human embryo after it has formed. It is now known that down-regulation of the Wnt-3a gene induces apoptosis of tail cells during mouse development (Greco et al. 1996; Shum et al. 1999; Takada et al. 1994), and similar effects are observed in humans (Chan et al. 2002).”
[Como foi discutido abaixo com detalhamento, o desenvolvimento da cauda humana normal nos embriões jovens foi investidado extensivamente, e a apoptose (morte celular programada) tem um papel importante na remoção da cauda do embrião humano depois que ele está formado. É sabido atualmente que a down-regulation(Regulação para baixo)[3] do gene Wnt-3a induz a apoptose das células da causa durante o desenvolvimento do rato, e efeitos similares são observados em humanos.]


Ou seja, para os evolucionistas o cóccix é uma cauda vestigial que se apresenta numa fase inicial do desenvolvimento embrionário e, inclusive muitas vezes não sofre a apoptose. Nesses casos, humanos desenvolvem caudas que inclusive reagem a estados emocionais.
Ora, isso comprova que há uma semelhança entre os humanos e outros mamíferos, e é confirmado quando tratam do Gene Wnt-3a, que está presente em ratos e em humanos.
Não há dúvidas, então, de que há semelhanças entre essas espécies em nível ontogenético, e a partir da teoria evolucionista poderíamos concluir que essa é uma evidência de que ambas as espécies possuem um ancestral em comum, do qual herdaram tais genes.

Tais dados, no entanto, podem ser reinterpretados segundo as premissas que postulei no início do texto.

Ora, se ambas as espécies foram programadas a partir de estruturas análogas, é mais lógico que os órgãos e estruturas aproveitáveis para outras funções permaneçam. Afinal, presumimos que o autor de tal espécie estivesse tentando construir animais capazes de sobreviver. Se o cóccix é parte de uma estrutura que auxilia no nosso desenvolvimento embrionário e se ele serve, como indicado, como ponto auxiliar para o diafragma pélvico, seria sensato presumirmos que tal estrutura é útil para a nossa sobrevivência. Logo, o autor teria alterado a cauda e mantido o cóccix, com utilidade própria.

De um modo geral, o cóccix continua sendo vestigial, mas é analisado por outra ótica, que não presume o macro-evolucionismo.

Mas, afinal, pra que apresentar uma alternativa interpretativa?

1)      Para demonstrar que essa não é uma evidência para a macro-evolução exclusivamente, e que, portanto, não deveria ser usada dessa maneira.
2)      Para evidenciar diferenças práticas fundamentais:
a)      Se interpretarmos um órgão como recessivo, a tendência é pensar que ele é uma estrutura com pouca ou nenhuma função no organismo. Nesse caso, a tendência é não considerarmos esses órgãos relevantes em intervenções cirúrgicas, o que pode ser fatal no caso de ele possuir algum tipo de relevância que desconhecemos.
b)      Além disso, se presumimos que todos os órgãos vestigiais permaneceram no nosso corpo por uma intenção racional, provavelmente entenderemos melhor as estruturas dos organismos no momento em que nós mesmos formos programar espécies. Afinal, como alguns já devem fazer, já foi produzida uma bactéria 100% sintética. Essa perspectiva poderia, portanto, auxiliar os programadores de organismos a trabalhar em novas espécies a partir de antigas, como um programador aprendiz lendo o programa de outro mais experiente.
c)       Além disso, pode apresentar uma abertura metodológica para a aquisição de novas evidências, que não podem nem ser vistas dentro da perspectiva evolucionista. Afinal, nossa linguagem, nosso discurso de mundo, com freqüência delimita o conjunto de fatos que somos capazes de perceber. Pressupor alguma função oculta, alguma utilidade escondida, pode inclusive instigar a investigação.

 Conclusão

A utilização de órgãos vestigiais como evidência para a macro-evolução é no mínimo parcial, já que tal evidência poderia indicar uma programação logicamente estruturada. Afinal, é muito mais lógico preservar estruturas com utilidade apenas alterando-as do que eliminá-las completamente e desenhar outras. Tal programação daria mais trabalho ao autor e aumentaria as chances de erro. É sempre melhor manter o máximo possível do código que já está em funcionamento do que recriar tudo do zero. Vejam, aqui, que não se trata de um programador onisciente, portanto, mas apenas de um programador racional. Conseqüentemente, tal teoria também poderia prever e explicar a cauda em seres humanos e qualquer outro órgão recessivo, não sendo este um privilégio do evolucionismo.
Na verdade, se presumirmos que há uma infinidade de diferentes programadores que realizaram seus trabalhos em diferentes épocas, todos os fenômenos expostos pela macro-evolução podem ser reinterpretados. Apenas alguns conceitos, como o de que tal coisa acontece sem intervenção racional, seriam abandonados como irrelevantes.

Fica estabelecido, portanto, que o evolucionismo está longe de ser a única proposta coerente para explicar os fenômenos naturais.

E digo mais: em termos de probabilidade, creio ser mais razoável supormos que houve intervenção inteligente do que imaginarmos que tudo se deu a partir da lógica evolucionista. Afinal, nós mesmos já estamos começando a programar o DNA. Deixo uma questão relevante para ser tratada noutro post:
1)      Numa mutação que implica a mudança na estrutura cromossômica, não teríamos os filhotes do mutante como híbridos muito provavelmente estéreis?
(afinal, os híbridos geralmente possuem um número impar de cromossomos, o que inviabiliza a espermatogênese, além de outras complicações)[4]
2)      E se não forem estéreis, a tendência não seria que a terceira geração fosse estéril?
(Para ser mais claro, se um mutante com 25 pares de cromossomos e um espécime normal com 23 pares dão origem a um hibrido com 24, não seria esse híbrido capaz apenas de deixar descendentes férteis acasalando com outro híbrido [seu irmão]?)
3)      Não é correto postular que a pressão do meio só causa mudanças morfológicas e comportamentais, mas nunca em nível dos cromossomos?

Que me responda o aventureiro que leu esse texto até o fim.


[1] http://www.talkorigins.org/faqs/comdesc/section2.html#atavisms_ex2
[2] http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:qQ42heALOcIJ:www.veritatis.com.br/article/3888+http://www.veritatis.com.br/article/3888&cd=1&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br&client=firefox-a
[3] http://en.wikipedia.org/wiki/Downregulation_and_upregulation
[4] http://www.artigonal.com/biologia-artigos/genetica-e-citogenetica-na-caracterizacao-de-hibridacoes-interespecificas-em-diferentes-ordens-de-mamiferos-2626451.html

Um sonho sobre o grande segredo

Eu estava acompanhando minha mulher para o hospital. Ela estava possuída pelo demônio, conforme ditava a profecia. Apesar de no sonho ela ser minha esposa, eu não tinha nenhum sentimento por ela. Ela era uma estranha, eu nunca a tinha visto na vida. Ela era idêntica à figura de terror da menina no filme o exorcista, mas não me assustava.

Ela me pedia para ir embora, pois a possessão estava se tornando mais forte. E ela podia acabar tomando controle sobre meu corpo, demandando sexo. Eu disse que talvez toda a profecia fosse um erro.

Ela riu e disse: “Eu era como você. Não sabia qual era a real força nesse mundo. Ele já dizia, desde o começo, que quem comandava o mundo era a polícia britânica. A força especial inglesa. Eu não quis acreditar, como Jung, e todos os outros idealistas do mundo. Mas veja agora que isso ficou provado.”.

A mim não pareceu haver nada provado. Não entendi bem. Ela começou a se debater na cama pedindo mais cobertores. Pagou 1,50 por três cobertores e se levantou para ir buscá-los.
De repente eu estava na frente de uma construção gigante. Saímos do pátio externo por uma grade e fomos pela calçada até o outro lado, onde havia uma enorme catedral. Entramos e meu antigo professor de rede estava nos falando sobre tática de guerra. Ele nos disse que iríamos entender o grande mistério. A grande tática. Passamos novamente por fora do pátio e entramos na edificação logo ao lado da catedral. Havia lá dentro alguns prédios, e de repente eu soube que fazia parte do esquadrão de extermínio inglês. Minha missão era pegar uma faca e executar inocentes, mas eu não os vi em lugar nenhum. No lugar deles, aquele sítio de treinamento se tornou como um campo de batalha de verdade e me escondi com um fuzil. O inimigo estava a espreita.

Desci passei pelo corredor até a parte da qual os dois que me acompanhavam estavam incumbidos. Cheguei lá e havia duas pessoas, não lembro nada sobre elas. Me disseram: agora você entende o grande segredo¿ Ninguém extermina mais do que a polícia inglesa.
Eu fiquei espantado e vi os dois que me acompanhavam matando pessoas com facas. Um dele matou mais do que o outro. O outro disse: “porra, não tem como ele matar tanto”!

Eu não tinha certeza se aquelas pessoas eram reais ou se eram só hologramas para treinamento. Mas aí eu entendi o grande mistério: eram eles os grandes poderosos. Na verdade creio que meu espanto era por uma constatação mais profunda, a qual eu nem podia entender bem.

Dessa vez, ao invés de passar pela calçada, do lado de fora do pátio, eu passei dentro do pátio. Tinha um segurança parto e careca vigiando o lugar. Continuei andando até a frente da catedral, quando me surpreendi com o fato de que ela estava totalmente lotada. Outro segurança, também pardo se dispôs a nos contar sobre o que estava acontecendo.
Um dos meus companheiros de antes se sentou na cadeira de plástico dele, mas depois se levantou pelo olhar dele. Ele nos disse que havia começado a terceira guerra mundial. Que fizeram de tudo para evitar, mas não teve jeito. Pensei que era um reservista do exército (não sou), e que, portanto, iriam me convocar para a guerra. Chorei junto com todos no lugar. Estranhamente não era totalmente um choro de tristeza.

Enquanto a platéia ia saindo da catedral, eu buscava entrar e ver o que estava acontecendo. Todos se cumprimentavam, mas eram menores do que eu, então logo eu consegui ver o telão. Apertei a mão e muitos. Alguns a estendiam totalmente e eu tinha que descer minha mão para apertar a deles. Na tela, vi primeiro de relance o nome da Alemanha. Depois, o da França. Quando consegui um bom ângulo, vi a foto de Shiva e debaixo dele havia o nome Geusa (que eu também entendia como Deusa) e do lado oposto, com um X, havia o nome Ciência.

Era uma guerra entre Geusa e Ciência. Fiquei profundamente espantado.

Eu não sabia de que lado estava.

Acordei.