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An open wound


Tenho uma ferida aberta
Ela pulsa, emana perfume
Mas apesar da dor...
É ela que me faz respirar

A ferida separa um lado do outro
Nada poderia uni-los, sará-la
Mas é ela que me põe em movimento
A dor move a vida, parece

Eu passo pelos lugares
O sangue vai pingando
Parece até infinito
Ele se dilui no mar do cotidiano

Pragmatismos me distraem
Conhecimentos me arrebatam
Mas nada disso seria possível
Sem o perfume de saudade

Dessa ferida aberta que tenho no peito...

Foi de início como a lança do destino
Não poderia ser de outra maneira
Atravessou a minha alma
Pôs tudo em chamas

Depois a ferida secou
Já até ameaçava sarar
Quando foi reaberta brutalmente
Veio pra ficar...

Então eu aperto e deixo sangrar
Que é pra sentir o aroma
Há alguma força no universo
Que não me deixa esgotar...

Chamemos isso de amor...


A Sombra e o por do sol


Há algum tempo senti
A brisa de uma bela manhã
A luz do sol invadiu o meu quarto
Despertei com vigor

E apesar de algumas nuvens
Apesar da leve chuva
O sol iluminou o dia
Quis congelar aquele momento

Em minha tolice
Quis que a chuva parasse
Mas que chuva responde ao nosso desejo?
Antes do meio dia, a sombra chegou

Justamente na parte mais intensa
Quando o sol te queima
Quando o verão mostra sua natureza
Lá estava aquela enorme nuvem

O Dia ficou cinza

Eu procurei saber
Sobre rituais, danças, alguma coisa
Pra mandar a chuva embora
Até tentei alguns

Nada adiantou

O dia passou assim, frio
A despeito da previsão, que dizia o contrário
Até que chegou o entardecer
E eu vi o sol por um instante

Mas logo desapareceu

Entrei novamente em casa
Deixei o guarda chuva na porta
Tenho minha proteção contra a tempestade
Uma cama quente...

Mas passou-se o por do sol
Passou-se o dia, sem que eu o visse
E agora resta a noite, o abismo
Resta mergulhar

E procurar as belezas do submundo

Afinal, o reino dos céus já não me aprova...

A razão e a loucura numa manhã qualquer



Eu sonhei naquela noite que era uma arvore. Com as minhas raízes profundas e meu tronco grosso eu estava sozinho ali naquele campo. O vento, quando vinha, atingia meus ramos em cheio. Então uma nuvem ganhou formato de rosto e riu de mim. Olhei pra baixo, mesmo na ausência de olhos, e percebi uma florzinha. Lembrei dela como se sempre soubesse de sua existência, como se estivesse gravada na minha alma de tal forma que a conhecia totalmente. Quando eu a vi balançando com a brisa, por mais que não pudesse explicar, lembrei-me de sua essência e pude ver todo o seu ser.
Mas a risada voltou, e com ela veio uma ventania. Eu vi as pétalas dele voarem uma por uma até ela ficar como um graveto. Ela foi arrastada e eu nada podia fazer. Eu nem podia me mover. Aquilo virou um tornado e eu senti minhas raízes se desprendendo do chão. Tudo girou e eu voei.
Acordei na cama como num pulo. Havia uma mulher nua olhando pra mim.

- Pesadelo, querido? – perguntou ela
- Não sei dizer. O que você faz aqui? – disse eu
- Bebeu demais, e não lembra de mim. Imaginei. – disse ela num tom sarcástico desapontado
- Não me esqueci de você, Julia. Apenas lembro-me de você dizer que eu acordaria sozinho. Acontece que eu acordo meio atordoado e vou relembrando as coisas com lentidão quando bebo.
- De lembranças é o que preciso. Você estava por me dizer uma coisa ontem á noite, mas adormeceu e eu não pude te acordar pra ouvir.
- Não me lembro. Diz o que você falava antes de mim.
- Eu falava do meu marido e de sua maldita mania de honra. Falava que acho que não sirvo pra casar.
- hehehehe... Já sei o que eu iria falar.
- E o que era?
- Em primeiro lugar, que fique claro que seu marido é um idiota. Ele serve um imperador corrupto e sanguinário e possui fé numa mentira irracional propagada através das trevas de sua ignorância. Mas isso você já sabe.
- E o que mais?
- Isso de casar... Eu cheguei aqui alguns meses antes do seu casamento e tivemos algo como um caso, mas só com nossos olhares. Você nunca precisou dizer muito: estava escrito nos seus gestos, no seu jeito de falar, de olhar. Você não é pra casar.
- Nossa, falando assim você parece me desavalorizar!
- Pro diabo! Desvalorizar nunca! Acontece que você ama demais pra se apegar!
- Não entendi. Eu não sou nenhuma madre Teresa não, viu?
- Eu não tenho o costume de falar do que não sei, então não falo dessa Teresa e nem da forma como ela ama. O amor de que falo aqui é bem carnal.
- Ah, que ótimo! Está me chamando de vadia!
- Esse nome é baseado numa linguagem que não reconheço. Pra mim, seu espírito é demasiadamente leva e seu amor é perigosamente genuíno. É por isso que você não respeita as regras: porque você ama, e o amor não respeita nenhuma regra. Você não precisa dizer, Julia. Eu vejo nos seus olhos que você ama certo sujeito aí da vila. Particularmente, nunca me interessou. Ao menos tem hábitos de higiene, coisa rara nesses tempos turbulentos.
- Assim tudo parece mais aceitável. Mas como viver como eu mereço como eu sou?
- Nesses tempos, onde você não é pessoa, mas ovelha, é difícil. Mas você é moça hábil e nós sabemos, então pode fazer dinheiro. Só não espere ser respeitada pelos adoradores das regras. Os membros do rebanho não gostam de ovelhas desgarradas, pois elas servem de lembrança de que há um mundo além das cercas.
- Que inferno! Se eu fosse rica, se eu fosse homem, poderia ser livre!
- Estamos no meio do nada, Julia. Podemos não estar bem situados no tempo, mas no espaço, isso com certeza. E você sabe que meu teto é seu, contanto que entenda que não é só seu.
- Que deus me livre de viver contigo! Você tem mania de banho, nunca organiza suas coisas, ronca como um lobo rosnando e nunca está satisfeito! – disse ela enumerando com os dedos.
- Calúnias, todas!
- Defenda-se, então!
- Em primeiro lugar, por mais que sabão seja uma coisa cara, por mais que venha de longe, sem ele nossos corpos fedem a merda. Nem imagino como você pode ter alguma coisa com seu marido com todo esse fedor. Por Deus, com uma armadura o dia inteiro debaixo do sol!
- Mas dizem que tomar banho todos os dias faz mal á saúde...
- Também dizem que mulheres voam com vassouras. As pessoas dizem muita idiotice.
- Tudo bem, dessa acusação você se safou, mas e as outras?

Eu parei, olhei pra ela e lhe dei um beijo lento, duradouro. Ela afastou meu rosto e me olhou com aquele olhar inquisidor, de quem não vai deixar passar. É a única pessoa que consegue fazer esse olhar e me agradar.

- Ta bem! Vamos lá, a próxima acusação era sobre minha organização, certo?
- Isso.
- Então, o que é a organização senão uma tentativa fútil do ser humano de controlar o incontrolável? Empilhar, criar categorias e divisões! Pro diabo com tudo isso!
- Isso não justifica nada. Tem dias que mal da pra andar nesse lugar!
- E não há um dia, no entanto, que você deixe de sorrir por isso quando entra aqui.
- Verdade. Eu te considero condenado, mas não precisa de punição além dos tombos que você já leva aqui quando bêbado.
- Fato. Meu pé dói desde não sei quando... mas então, do meu ronco e não tenho nenhuma evidência. Então é minha palavra contra a sua!
- Argumento desonesto. Pergunta á Gabriela, Joana ou quem sabe à Aline! Certamente ficarão do meu lado!
- Sério que você já ficou sabendo da Aline? Mulheres e a fofoca...
- Todos sabem das mulheres que você “desonra”!
- Enfim, o que você quis dizer com nunca estou satisfeito?
- Mesmo com todas as mulheres e mesmo com o vinho, você leva pelo menos uma hora antes de me deixar sair dessa cama!
- Ora... Como isso não é uma virtude? Não gosta de aproveitar o vigor da minha juventude?
- É que você parece estar procurando algo, sabe?
- Como assim?
- Você faz amor com a ânsia de quem corre numa jornada atrás de algo importante... Não sem explicar direito.

Naquele momento eu lembrei da florzinha despedaçada pelo vento, mas não a mencionei.

- O meu rumo é o seu prazer e nada mais! – disse sorrindo
- Fugindo de mim agora? – perguntou ela
- Não entendo.
- Quando tento mergulhar mais fundo na sua alma você foge do assunto assim.
- É que me ocorre uma florzinha, uma borboleta, um pequeno pedaço de algodão. Sempre sendo arrancado de mim violentamente. Isso me angustia, Julia.
- E o que isso significa?
- Meu passado, aquilo que me atormenta.
- Foi essa flor que foi arrancada de você que te manteve solteiro com todo esse dinheiro?
- Não. Ela sabia que minha natureza é volátil. Casado ou não, eu viveria dessa mesma maneira.
- O que aconteceu com ela, Leandro?
- O vento a levou... – disse antes de enfiar minha cabeça no cobertor.

Lágrimas escorreram pelo meu rosto enquanto Julia me acariciava a cabeça.

- Ele pode até tê-la levado pra longe dos seus olhos, mas não pra longe do seu coração. Eu nunca te vi tão triste assim...
- Ela vive em mim. Sempre viverá, mesmo depois da minha morte.
- A morte... Porventura o importante não está na vida aqui e agora?
- Ah sim. E sabe o que eu vejo agora?

Ela me olhou surpresa, como quem olha pra uma criança que fez besteira.

- Você acabou de se abrir pra mim e já vem me olhando com esse olhar de desejo!
- Sabe, eu estava lá no passado e você me trouxe pro presente. No presente eu vejo você e sinto desejo.
- Isso é loucura! Como você pode ser tão lascivo?
- Eu inventei um termo novo, que talvez em alguns séculos fique famoso. Sad fuck. É lenta, longa e banhada a lágrimas. Tive meus melhores orgasmos assim!
- Louco, fique longe de mim – disse ela rindo.

Mas eu a agarrei. Por uns segundos ela lutou e tentou se soltar, mas logo desistiu. Deitamos de lado e ela me deu as costas. Minhas mãos correram por todo o seu corpo enquanto minha boca marcava sua pele branca. Aqueles ombros, aquele pescoço. Sempre adorei beijá-los. Eu soltava o ar quente na nuca dela e a assistia se contorcer. Ela também sabia me agradar. Passava o braço por trás da minha cabeça e acariciava minha nuca.

- Louco...! – disse ela entre os suspiros

Eu meu soltei dela e desci minha boca até sua barriga. Ela sempre adorou que eu beijasse sua barriga enquanto lhe acariciava os peitos. Eram movimentos ensaiados, que nós tínhamos. Desci até os lábios dela. Úmidos, com cheiro de sexo. Provavelmente fizemos muito na noite anterior, mas não me lembro bem. Ela colocou as pernas em volta da minha cabeça e apertou. Adoro quando ela faz isso, embora não seja sempre. Como sei do ritmo dela, comecei bem devagar com a língua e com a ponta do dedo logo abaixo fazendo movimentos pra cima e pra baixo. Eu sorria por sentir a musculatura do abdome dela se retrair, por ouvir os suspiros. Conforme o ritmo com a língua aumentava e se diversificavam as formas de movimento, meu dedo ia se aprofundando. E com facilidade, se melando no interior dela.
Quando estou nessa situação eu perco a noção do tempo. Chego numa espécie de êxtase na ocasião de a mulher estar apreciando. Por isso não sei quanto tempo passou e nem me importo. Só sei que num momento meu dedo estava entrando e saindo completamente e eu já não movia apenas a língua, mas também a cabeça. Eu senti a mágica, meu dedo sendo comprimido lá dentro. Meu convite.
Subi lentamente pra chegar na outra boa, mas ela me empurrou e virou-se de bruços. Levantou e ficou de quatro olhando pra mim. Balançou o quadril de um lado pro outro até eu segurá-lo com firmeza. Entrei rápido, não havia qualquer resistência. Os movimentos eram tão fluídos...
A vantagem daquela casa grande era que os barulhos dos impactos, da cama, nossos gemidos eram todos inaudíveis. Eu cansei daquela posição, pois queria sentir a pele dela. Então joguei meu peso sobre suas costas e ela caiu de bruços na cama. Fechei suas pernas, que até então estavam abertas e levei adiante meus movimentos lentos. A sensação de que ela está mais apertada sempre me estimulou.
O cabelo negro dela faz um lindo contraste com a pele clara e os suspiros parecem ficar mais intensos nesse momento. Eu continuei acelerando até ver a expressão facial dela mudar. Aí comecei a aumentar a força, aumentando com isso o barulho. Ela cerrou os olhos e abriu a boca. Senti as contrações me dizendo pra continuar ali. E foi o que fiz, por alguns minutos.
Saí de dentro dela por uns segundos.

Vira de frente pra mim?

Ela virou, com o corpo mole e um sorriso lindo no rosto. Beijei sua boca impetuosamente com os olhos firmemente cerrados. Sem desgrudar de sua boca, entrei novamente. Foram os movimentos que interromperam o beijo, pois acabei suspirando. Segurei com firmeza nos ombros dela, que em resposta me prendeu com suas pernas.

Alguém bateu na porta da minha casa, me irritando por uns instantes.

- Um minuto! – gritei

Ela olhou pra mim rindo.

- Um minuto, é?

Voltei pra ela como se nada tivesse acontecido e realmente acelerei meu ritmo pra terminar. Embora não tivesse sido a melhor que já tivemos, tinha sido interessante. Mas surpreendentemente, quando cheguei ao orgasmo ela chegou junto. Isso nunca tinha acontecido.

Fiquei parado um pouco ali, até a porta voltou a me incomodar, então tive que sair. Vesti qualquer coisa e saí do quarto, mas não sem antes olhar pra e vê-la a se vestir apressadamente. Ela não me olhou de volta, então desci as escadas correndo atendi a porta.
Foi só aí que eu fui perceber que estava chovendo intensamente. Na porta estava um jovem noviço e uma moça exuberantemente linda... E limpa!

- O que vocês querem aqui?- perguntei
- Precisamos de abrigo. Essa foi a primeira casa que encontramos. Você pode nos ajudar? – disse a moça
- Eu nunca negaria com você pedindo dessa maneira. – respondi
- Mas sua esposa não acharia ruim? – perguntou o noviço olhando para dentro da minha casa.
- Não tenho esposa, rapaz. Entrem e saiam da chuva. Vou preparar um banho pra vocês.
- Mal conhece as visitas e já obriga a tomarem banho! Você é louco, Leandro! Louco!
- É... Você tem razão... – respondi.

Reflexões sobre a poligamia: despedaçamento e costura


Eu não poderia deixar de começar esse texto com uma fala de uma professora minha. Estou certo de que ela não se importará.
Certo dia, relutante de abordar assunto (provavelmente por ser cristã), a professora tentou trazer o assunto da sexualidade e dos “ritos” que usamos pra criarmos pares. Se enrolando pra pronunciar o que ela queria dizer, ela acabou perguntando quem eram os solteiros da turma e ninguém respondeu. Talvez ela não tivesse em mente que se declarar solteiro traz uma série de compromissos e, quiçá, danos à auto-estima. Ninguém respondeu, e a reação dela eu nunca mais vou esquecer:

- “Mas é só o Silas que é solteiro nessa sala?” – disse ela.
- “Espere um pouco, quem disse que eu sou solteiro?” – disse ela
- “Ah, você não é?” - disse ela num tom de descrença

Eu me perguntei se minha conduta mostrava isso: sempre pensei que a poligamia fosse facilmente escondida, bastando apenas não declará-la tão abertamente. Mas não foi o caso...
E não acabou por aqui.

- “Eu quis saber quem eram os solteiros pra perguntar como os rapazes paqueram” – disse ela com aquela risada de criança arteira
- “Mas quem disse que só os solteiros paqueram?” - eu comentei
- “A, mas esses são os safados” – ela disse num tom de voz baixo sem me olhar nos olhos.

Não acredito que ela tenha percebido o impacto que aquilo teve e como isso se ligou a tudo que se passa nesse mundo estranho. Depois dessa introdução só me resta fazer algumas confissões e assumir que faço parte de um grupo para o qual a sociedade dá as costas. Um grupo de “safados” que são “contra os direitos humanos” e que estão deflorando, por sua própria condição, toda a secular idéia de família. Os polígamos.

Acredito que descobrir algo assim tem algumas semelhanças e diferenças com descobrir a homossexualidade. Trata-se de uma condição, não de uma escolha; e também é uma coisa discriminada, considerada pecaminosa, moralmente incorreta; é, aliás, praticada desde que o mundo é mundo inclusive em sociedades que a proíbem. Mas, diferente dos homossexuais, os polígamos não possuem um movimento forte e politicamente engajado; não têm uma identidade atrelada à sua condição e nem locais onde realizam suas atividades. Não há quem os ampare, nem onde possam recolher nossa cabeça. Além disso, há pouca perseguição sistemática e violência física, como acontece com os homossexuais, especialmente porque a cultura masculina tende a não reprovar essa conduta. Exceto, é claro, quando isso os afeta: se sua mulher decidiu ser polígama, por exemplo. Nesse caso, os polígamos são mortos por pessoas pessoalmente afetadas enquanto que, com freqüência, homossexuais são mortos por estranhos que os perseguem por razões culturais e psicológicas.

Boa parte dos polígamos fogem da honestidade. Assim, se envolvem em relações onde se presume a monogamia e simplesmente pulam a cerca. Para alguns a verdade não é tão importante quanto amar, então vivem cada momento com seus segredos, suas vidas duplas. A respeito de tal classe de polígamos nem tenho muito a dizer. Talvez mintam pra si mesmos dizendo que o outro parceiro é somente algo do momento ou só carnal, talvez só mintam pra todos, inclusive seus parceiros e só se preocupem consigo mesmos. Talvez sejam eles os responsáveis pelo sofrimento dos demais, na medida em que criam o estereótipo de promiscuidade que se associa a tal grupo.

Há outros que estão por aí nos guetos. São com freqüência bissexuais, usuários de drogas ou simplesmente marginais. Sua anomia tem tamanha proporção que a poligamia nem é um problema. Não sei se são corajosos ou loucos, mas a realidade é que não vão ser aceitos como cidadãos decentes e dificilmente os veremos sendo publicamente respeitados. Aliás, tenho a impressão de que esses grupos marginais tendem a funcionar com mecanismos que levam seus membros à progressiva entropia: sendo eles rejeitados, revoltados, anarquistas, acabam vivendo uma vida de pouca perspectiva onde só possuem respeito entre seus pares íntimos.

Seja pelo meu temperamento, seja pela minha criação, não consigo me adaptar a nenhum dos dois.

A idéia de mentir para as pessoas que amo é repulsiva. Tal atitude denotaria apenas que amo a mim mesmo acima de todas as coisas, e isso não é verdade. Nada, pra mim, vai além do amor. Isso é mais uma realidade do que uma escolha: se não compartilho tudo, não compartilho nada. E se não compartilho nada, não há relação, não há intimidade de nenhuma forma.

A idéia de sair pro gueto simplesmente não se encaixa em mim. Não tenho os traços de personalidade que são necessários para a integração num grupo desses. Sou excessivamente tranqüilo, excessivamente pacífico, seguro, estudioso, etc. Eu sou tudo que o gueto despreza e minhas relações, de uma forma geral, são coisas que vivem à luz do dia. Posso ser anarquista, mas isso é um posicionamento intelectual sociológico e epistemológico (Feyerabend): não uma atitude, não há muito de estilo de vida nisso, mas no estilo de pensamento. Isso sem falar que, por conseqüência, as pessoas com quem me envolvo não fazem parte de guetos e não vivem, de forma alguma, qualquer tipo de anomia. São de “família”.

O resultado disso tudo é que não há um espaço na nossa sociedade onde a poligamia se encaixe e, simultaneamente, eu possa me encaixar. Relações, no meu contexto, se constroem de maneira íntima, amorosa e aberta. Na realidade, pensando bem, se não fosse pela poligamia, estaria na posição de dizer que me relaciono de maneira bem saudável. Mas o saudável é algo culturalmente constituído, e como a professora disse, quem não é monógamo é safado.

Mas o que um polígamo nessa situação pode fazer? Compartilhar, de um modo geral, significaria perder a confiança, o amor das pessoas mais próximas. Não compartilhar significaria não tê-las como próximas. O problema é que uma espécie de censura que as pessoas têm, algo que as impede de amar outras pessoas quando estão comprometidas, não é algo dado aos polígamos. Não há a experiência de um amor ofuscando, acabando com o outro. 
O que se procura é colocar as cartas na mesa, compartilhar e viver constantemente com o terror de que, num dia dessas, quem você ama não mais tolere sua condição e te deixe. Ou então acreditar na mentira de que tudo pode ficar sobre controle e viver sempre no risco de cair em tentação ou simplesmente surtar por essa vida de negação de si mesmo. Mesmo assim, não há como todo os amores se tornarem realidade, pois a esmagadora maioria das pessoas não aceitam dividir; e se aceitam, geralmente há condições específicas que são impostas pra manter a estabilidade.

Se o polígamo tiver sorte, se ele for profundamente amado, talvez consiga viver mais de um desses amores, mas não pode haver conflito de papéis. 
Isso me lembra da relação de Jung com Emma e Tony. Em seu coração e em seu discurso, pelo que sei, ele as amava e as considerava suas esposas. Mas ela nunca foi reconhecida, nunca teve filhos e nem podia participar dos almoços com a família. Por mais que eles se amassem, ela nunca pode conflitar com Emma, que era a mãe dos filhos de Jung. Talvez esse tenha sido um caso de sucesso, pois, até onde sei, o próprio temperamento de Wolff era independente demais pra levar uma vida tal como a de Emma, mas ela não foi a única. Há rumores de que Jung teve uma relação com Sabina Spielrein e cartas que parecem dar créditos a eles (ver memórias, sonhos e omissões - Dr. Sonu Shamdasani). No entanto, nesse caso não houve qualquer tipo de acordo. Ela quis Jung por completo e ele não pôde ceder. O que não significa, é claro, que ele não a amou. Apenas que houve um conflito com relação aos papéis, pois Emma Jung era, para Jung, seu fundamento, Toni Wolff era a essência e Spielrein, aquela que não teve lugar. Diríamos que esse caso foi de menos amor, de menos importância do que os outros? Creio que não. Mas de uma coisa eu sei: por mais que tenham aceitado, Toni e Emma sofreram. 

Tudo o que resta, portanto, é lutar com todas as forças para não deixar alguns amores se tornarem vividos, é se evadir do próprio coração! É ver quem nós amamos desamparado, desprotegido, sem que possamos fazer qualquer coisa a respeito. É ter para uma pessoa um lugar quente no coração e, ainda assim, assistir ela congelar diante dos olhos.

Na realidade, me vejo com o temperamento tão parecido com o de Jung em certos aspectos que chego a questionar e rejeitar certas características de sua obra, por mais que a admire. Talvez eu consiga fazer como ele, talvez eu faça como a figura que se encontra no topo desse post. Mas a realidade é que, de uma forma ou de outra, essa condição será sempre um podre, algo a ser escondido, a ser, inclusive, negado em sua existência; sempre trará, aliás, sofrimento e insegurança pra quem estiver envolvido, talvez pela bagagem cultural.

Talvez algum dia isso mude, talvez um dia um homem possa erguer sua cabeça, se declarar polígamo e ainda assim ser reconhecido como um cidadão decente que preza pelo bem de todos. Mas isso só vai acontecer que houver união.



Estávamos na praia

Eu os vi removendo seu hímen
Cirurgicamente, quase indolor
Mas eu ouvi seu gemido
Eu vi que você me olhou

Você me convidou com seu olhar
Fomos pra água
Estava escuro
A água estava perigosa

Brincamos feito crianças
A correnteza nos arrastou
Você não se importou
Tentei fingir que estava tudo bem

Mas acabei saindo de lá
Te avisei, e você veio comigo
Não tinha medo da água
Só veio porque eu vim

Deitamos na areia, rolamos
Sorrimos, vi seus olhos brilhando
Quis te beijar, e um menino gritou
Percebi a multidão que nos assistia

Afinal, como declarar isso a eles¿
Que uma das regras mais fundamentais,
Meu temperamento contradiz¿
Com discursos racionais¿

Eu poderia dizer-lhes
Que cuidem de sua própria vida
Que não sou um libertino
Que isso é amor...

Mas não...
Eu escolhi fugir.
Corri contigo pela praia, alguns nos seguiram
Tinham veredictos em suas mentes

Eu nem percebi
Mas no meio dessa fuga,
Perdi você
Nosso momento passou

Num instante, eu estava no telefone
Falava com ela
Aquela que amo e que permitem
Que posso abraçar sem ser condenado

E foi bom...

Mas em alguns momentos
De reflexão, meditação
Lembro do que senti
Quando estávamos na praia...

Angel's Sleep

Às vezes quando alguém dorme
Devemos parar por uns instantes
Porque se quebram barreiras
Que dividem a alma da luz mundana

Algo como uma expressão
Linguagem corporal espontânea
Imaginamos sonhos, pesadelos
E aí nosso próprio coração se revela

Sentimos desejo ou repulsa
Queremos acolher ou rejeitar
Seja o que for, é claro, límpido
Certeza louca, intuitiva

As pessoas mostram sua identidade
O que são lá no fundo
E se amamos essa vista
Então amamos essa alma

São coisa que você descobre
Assistindo o sono de um anjo

Hera

Vigia, interfere, protege
Define as estações do ano
Ela é a rainha do Olimpo
Odeia a infidelidade

Eu quis tomar Perséfone
Sim, levá-la para o submundo
Torná-la minha rainha
Cuidando dos mortos

Como se fossem seus filhos

Mas hera interferiu.
Desde o começo...
Ela a trouxe de volta
E com ela, a primavera

Quando a vejo no mundo dos vivos
Minha avidez por possuí-la passa
Até minha vivência infernal amansa
Tantas cores, tantos aromas...

Hera, que deveria estar ofendida,
Veio me resgatar do meu tormento
Trabalhando em silêncio
Pensando que não a ouço...

Uma brincadeira sobre as implicações éticas do conflito acerca da origem da vida

Introdução

Como o último post recebeu alguma atenção, me senti motivado a levar adiante minhas brincadeiras a esse respeito. No presente texto, pretendo apresentar as implicações éticas e sociais do conflito em torno da origem da vida. Isso porque não se trata apenas de como a vida surgiu, mas sobre interpretações de como a biosfera se organiza. É, em última análise, uma questão filosófica.
Como o evolucionismo é uma visão hegemônica, sendo considerado por muitos uma questão já além do questionamento, falarei primeiro sobre as implicações dessa concepção na história e sobre minha leitura da marca que ela deixa na nossa sociedade atualmente. Depois vou especular filosoficamente sobre como a brincadeira do outro post poderia basicamente curar um grande mal da humanidade. Sim, parece bobagem. E talvez seja mesmo. Mas é divertido, então vou escrever.

Evolucionismo e suas implicações

Para falar sobre isso recorro, primeiramente, a um comentário de Marx¹:

“‘Darwin, que estou relendo, diverte-me quando diz que aplica a teoria de Malthus nos animais e também nas plantas, como se em Malthus não fosse brincadeira aplicar a teoria, inclusive da progressão geométrica, não às plantas e animais, mas aos homens. É notável ver como Darwin encontra nos animais e nas plantas sua sociedade inglesa, com a divisão de trabalho, a competição, a abertura de novos mercados, as ‘invenções’ e a ‘luta pela existência’ de Malthus” (apud. Marco, 1987, p, 75-76)6.”

E Engels:

“‘Toda a teoria de Darwin baseada na luta pela vida é simplesmente a transferência, da sociedade para a natureza animada, da teoria de Hobbes do bellum omnium contra omnes e mais ainda: da teoria burguesa da livre competição e da teoria malthusiana sobre a superpopulação. Uma vez levada a cabo essa proeza (cuja justificação incondicional é ainda muito problemática, especialmente no que se refere à teoria malthusiana) é muito fácil transferir de volta essas teorias, passando-as da história natural para a história da sociedade; e, afinal de contas, é uma grande ingenuidade pretender, com isso, haver demonstrado essas afirmações como sendo leis eternas da sociedade’ (Engels, 1985, p. 163).”

Até que ponto podemos dizer que a teoria de Darwin é uma projeção de seu convívio social, sobrepondo a organização da sociedade inglesa à natureza é determinar. Mas certamente a teoria foi aceita muito porque estava (e está) em concordância com o sistema sócio-econômico. Porque olhar para a natureza a partir de tal ótica foi interessante para tal Zeitgeist.

Mas de que mentalidade estou falando?
Da capitalista, onde surge a noção de indivíduo responsável pelo próprio destino. Nesse momento, no início do iluminismo, onde o “um por todos e todos por um” foi substituído por “cada um por si de Deus por todos”, até que Deus morreu e somente o cada um por si sobrou.

Nesse caso, o individualismo parece andar lado a lado com o evolucionismo, na medida em que ele concebe a estrutura da natureza como milhares, milhões de indivíduos em constante competição, da qual resulta a variedade do mundo.[2]

Em nível social as conseqüências foram devastadoras. A eugenia, que hoje não é mais aceita, procurou “melhorar” a espécie humana, esterilizando a matando milhões de pessoas que, segundo o pensamento da época, foram consideradas inferiores. Culturas foram submetidas à visão etnocêntrica do homem europeu, que buscou classificá-lo como primitivo, menos desenvolvido, legitimando diversos tipos de violência e imposição cultural. Vimos surgir diante dos nossos olhos um sistema econômico cada vez mais competitivo, abonado pela própria natureza para que continue funcionando dessa maneira.

Na vida pessoal, pensar que as próprias leis da natureza abonam o individualismo gera um sem-número de comportamentos aberrantes. Por exemplo, apesar da enorme inflação da nossa densidade demográfica, muitos ainda hoje conservam preconceitos contra a adoção, afirmando que crianças abandonadas carregam “genes ruins” ou que simplesmente querem passar a própria carga genética (ou o sangue, nos mais leigos) adiante. Assim, mesmo no caso de ser menos trabalhoso adotar do que tratar um problema de infertilidade, opta-se por um filho biológico, pois se não há uma conexão genética nós estamos lutando contra o nosso próprio interesse.

Outro exemplo é o de que, em benefício próprio (e em reverência à mãe natureza) os homens cometem inúmeras atrocidades uns com os outros economicamente. Porque, afinal, ajudar os outros pode até ser útil no sentido de dar status social, mas muitas vezes o custo não compensa o benefício. Todos os comportamentos humanos são essencialmente egoístas dentro dessa visão. Porque se fossem verdadeiramente altruístas, nossos genes não seriam passados adiante.

Quer dizer, em nível pessoal, levando essa teoria às suas últimas conseqüências, somente com alternativas Ad Hoc e religiosidade é que podemos ter um comportamento altruísta. Poderíamos dizer que e útil para a sobrevivência do indivíduo que ele coopere com o grupo, mas ainda assim permaneceremos num conflito constante, embora ocultado. A essência, nessa visão, do comportamento do indivíduo no meio social é a do individualismo, bem como pregado no American Way of Life: cada um que cuide do seu jardim. Porque, afinal, a nossa origem, o que nos deu a forma que temos, foi essencialmente a competição.

Apesar das costuras e dos emendos, a lógica evolucionista, quando transposta para termos éticos, traz apenas o egoísmo. E somente alguns niilistas conseguem admitir tal coisa: que tudo, no fim das contas, é motivado pelo egoísmo.

Nosso convívio diário, nossa organização social, nosso mercado de trabalho, nossos meios de produção, nossas classes sociais. Tudo baseado na competição.

Não estou aqui para propor um sistema que elimine a competição, nem tampouco para provar que ela não é a melhor forma de pensarmos e organizarmos a sociedade. Apenas constatando a visão evolucionista é o braço direito do capitalismo, embora os biólogos tenham a tendência de ignorar tais estudos. Nós temos alimento para matar a fome do mundo, mas não o interesse dos indivíduos que detém tais alimentos de fazer isso. Afinal, é cada um por si. E temos uma Deusa[3] apoiando tais ações.

A concepção de engenharia genética como alternativa

Agora, pensando segundo a linha de raciocínio do outro post, no qual foi postulado que fomos construídos artificialmente, a coisa muda profundamente.

Se fomos construídos como uma espécie a se conservar com uma estrutura mais ou menos estática, devemos pressupor que o(s) autor(es) nos desenharam para sobrevivermos. Não desenhou um indivíduo, uma manifestação individual do “código básico” da espécie, mas uma espécie inteira. Se todos os seres humanos, egoístas, buscassem apenas o próprio benefício, a tendência seria a extinção. Assim, a forma mais lógica de programar uma espécie é colocando como base o altruísmo e não o egoísmo. Somente na lógica evolucionista, a partir da qual tivemos origem em mecanismos complexos de competição, é que esta faz algum sentido. Se pensarmos um projeto de espécie inteligente e fisicamente frágil que deve ser capaz de sobreviver, o impulso básico deve ser o de cooperação acima de qualquer outro. Se a base da nossa motivação é a cooperação e não a competição, então podemos explicar alguns fenômenos observáveis na nossa sociedade.

Em bancos, ficou comprovado, há uma taxa muito maior de suicídios e licenças por depressão do que em outros ambiente de trabalho. Os funcionários são submetidos uma carga excessiva de stress, que é compensada por palestrantes, livros de auto-ajuda ou terapias. Os problemas, convenientemente, são projetados para a responsabilidade do indivíduo. Isso, no entanto, não elimina seu problema, mas o suprime através de sucessivas catarses até que ele possa ser substituído.

No entanto, partindo da premissa de que nós não somos naturalmente competitivos e egoístas, mas que tal comportamento nos é internalizado pelo processo de socialização, a coisa fica bem interessante. Partindo dessa premissa, estaríamos basicamente dizendo que o ser humano tem uma propensão “natural” para cooperar, muito mais do que para competir.

Um dos maiores males da sociedade atual, portanto, é a solidão. Pais pensando que podem comprar a felicidade dos filhos, e, quem sabe assim, comprar a própria. Pessoas convivendo entre si por mera conveniência e sozinhas no meio da multidão. Olhando para um lado e para o outro e não vendo nada além de sua própria pequenez e solidão. Uma contradição com a lógica original, que nos preparou parar a cooperação e não para o isolamento. Essa lógica que, no fim das contas, nos lança atrás de amor, como Erich Fromm postula. O que mais queremos, aquilo de que mais sentimos falta, é amor. Um princípio excessivamente altruísta, dificilmente explicável pela lógica de que tudo se baseia no egoísmo.

Seríamos, então, uma espécie muito mais adaptável a um ambiente de cooperação, onde estaríamos conservados. É somente através da estimulação que nossa mentalidade internaliza a competição, sem, contudo, deixar abismos nos indivíduos. A idéia de que fomos programados e não tivemos origem da competição nos faz rever esse hábito social. Afinal, se tivemos a mesma origem e se o propósito de nossa existência física não é apenas passar nossos genes adiante, mas manter toda a espécie coesa e viva, a coisa muda de figura. Nessa lógica, é lícito que indivíduos dediquem toda a sua vida a ajudar os próximos, sem buscar tão somente o prazer para si mesmos e a sobrevivência de sua “prole”.

Nossa missão natural, então, deixa de ser sobreviver e deixar descendentes férteis, mas amar e ajudar a conservar toda a espécie. E mais além: conservar toda a biosfera para que isso seja possível.

Essa visão se adapta muito melhor a qualquer concepção metafísica que pregue o amor do que a evolucionismo, e, se levada às ultimas conseqüência, nos levara a uma estruturação social onde a afetividade, o companheirismo, o amor, se tornarão prioridade. Onde todos buscarão se ajudar num ambiente de trabalho ao invés de se ignorarem ou simplesmente prejudicarem o outro. Com essa concepção de natureza, nossa vida seria mais agradável e nossa sociedade incrivelmente mais produtiva. Somos seres afetivos, capazes de amar. Está na base do projeto...


[1] Pra dar o texto a aparência de ser algo sério, claro. (http://designinteligente.blogspot.com/2010/01/darwinismo-e-marxismo.html)
[2] Parece estranho, no entanto, que elas admitam normalmente o fato de que muitas formigas nunca passem seus códigos genéticos adiante, servindo apenas para o funcionamento da colônia, sem que tal comportamento tenha feito com que tais formigas entrassem em extinção. Se algum evolucionista quiser, me explicar tal fenômeno dentro da teoria evolutiva deve ser bastante interessante.
[3] Gaia, a mãe natureza.

O encontro com Perséfone

- Atenção, homens, pois hoje veremos mais um rio de sangue. – disse o gigante sem nome
- Ele está certo! – gritou Emanuel – estou sedento!

Os homens gritaram, alguns ainda de posse das mulheres da última batalha. Há dois dias haviam dizimado um feudo. Não queimaram nenhuma casa, embora apenas meia dúzia de pessoas tenha conseguido se esconder e sobreviver. Colocaram uma estaca na terra com o crânio do senhor daquelas terras e a declararam maldita.

- Iremos eu, meu irmão e mais cinqüenta homens. Quero comigo somente os cães mais sedentos, as bestas mais insaciáveis. O resto pode continuar bebendo e usufruindo as mulheres. Se mais de cinqüenta quiserem, se matem pelo direito, pois nenhum a mais me seguirá. Vamos lutar contra 300 soldados e toda a criatura que possuir vida naquele castelo.

Os homens gritaram e se acumularam em torno de Emanuel. Alguns se mataram, e no final se formou a tropa, alinhada. Todos eles sorriam, seus olharem brilhando diante do sol nascente. Todos estavam montados em sues cavalos.

- Não temos o dia inteiro! Vamos! – gritou o gigante sem nome

Os dois irmãos correram a pé, à frente da tropa. Sua velocidade de corrida era maior do que a de um cavalo, então a reduziram para os homens não os perderam de vista. Emanuel sentiu um frio na espinha. Algo como um presságio. Ele seguia um sonho, que compartilhou com seu irmão. Ambos viram, na noite anterior, que deveriam perseguir a estrela que ficava acima da torre daquele castelo. Difícil ver outros casos em que dois irmãos compartilham tantos sonhos assim. Correram por quatro horas até avistarem o castelo.

- Deixem seus cavalos aqui, homens. Agora marchamos a pé – disse o gigante sem nome
- Pego a direita, irmão? - disse Emanuel
- Sim, como preferir. Mas subimos à torre juntos.

Emanuel rosnou com empolgação e os homens gritaram logo em seguida.

- Vamos, seus cães. Em nome da morte! – Berrou Emanuel

E todos correram em direção ao castelo, demorando mais vinte minutos para chegarem perto da zona de alcançe dos arcos da muralha. A corneta de alerta soou e o portão se fechou. Arqueiros lotaram a parte superior do muro. Um cavaleiro saiu do castelo para negociar a rendição.

- Não queremos problemas com o imperador. Nosso rei não desafia sua autoridade. Podem levar nosso ouro e nossos animais. – disse o Arauto
- Não estamos a serviço do imperador, tampouco queremos sua propriedade. Nós viemos atrás de sangue. Somos 50 e desafiamos vocês a luta.
O homem se espantou. Pálido, deu as costas à Emanuel e voltou para o interior do castelo, onde o Rei o esperava. Sem perder a compostura, o Rei convocou seus soldados e fez um inflamado discurso, do qual só se pode ouvir um grito: “até a morte!”
Pelo menos 500 soldados saíram pelos portões, dos quais 200 possuíam montaria. Emanuel sorriu, tendo em vista que tal quantidade de soldados era proibida pelo imperador. Eram conspiradores, o que justificava a carnificina. Não teriam problemas com Frederico.

- Não deixem nenhum homem, velho ou criança vivos! As mulheres, quem quiser as tome para si!

Ele gritou e os homens avançaram, debaixo das flechas dos arqueiros. Dos cinqüenta, dois foram atingidos, enquanto que os outros conseguiram se esquivar ou se defender com seus escudos. As tropas do castelo avançaram e os dois irmãos saltaram, cada um do seu lado. Emanuel com sua Espada da Morte, e o Gigante apenas com seu gigantesco escudo.
O Gigante lançou um cavaleiro a dois metros do cavalo quando caiu, dando em seguida um giro que matou alguns e afastou outros, que se esquivaram. Quando Emanuel caiu, cortando três homens ao meio, ele berrou, ao que seu irmão o acompanhou.
Os inimigos mal atacavam, paralisados de medo dos irmãos, enquanto a tropa de cavaleiros negros se chocou com a formação de infantaria na linha de frente.
Não muito diferente de outras batalhas, essa durou pouco tempo. O gigante matava uns com o impacto do escudo e outros simplesmente os pegando e mordendo, como preferia. O exército logo de dissipou, e foi perseguido até certo ponto. A maioria dos soldados foi dizimada.
Os arqueiros voltaram a atirar, derrubando dez dos cavaleiros negros antes que eles fizessem a formação de proteção com o escudo.

- Esperem o nosso comando! – berrou Emanuel enquanto corria na direção da muralha.

Os dois irmãos saltaram em direção aos muros e caíram próximos ao topo, escalando o resto. Os poucos arqueiros que não estava amedrontados e conseguiram atirar acertaram algumas flechas neles em pleno ar, o que pareceu não ser de grande incômodo. No topo, rapidamente avançaram partindo em pedaços os arqueiros. Alguns se jogavam do muro em direção á morte certa, por puro medo dos gigantes. Ouvia-se gritos dentro do castelo.

- Os Demônios! Os Demônios!

O último arqueiro pegou uma adaga e atacou Emanuel. Em seu desespero, tropeçou e caiu. Ele fechou os olhos, esperando ser esmagado, e Emanuel o ergueu com o braço esquerdo. Ele berrou e os soldados avançaram na direção do portão. O homem desmaiou de terror e foi lançado em direção a torre, sua cabeça como a ponta de uma lança. O Gigante abriu os portões e os soldados entraram. Pessoa corriam de um lado para o outro, desorientadas. Aparentemente essa era a única saída disponível.
Pessoas pedindo clemência, outras desmaiadas ou fingindo-se de mortas. Incrível como diferentes táticas surgem para a sobrevivência. Mas um Cão bem treinado não se deixa sensibilizar ou enganar.
Logo o último grito se silenciou, sobrando apenas murmúrios de dentro do castelo trancado.

- Descubram um meio de arrombar a porta e nos encontrem lá dentro. Estuprem a rainha! – Gritou Emanuel

Os dois irmãos saltaram e escalaram as paredes, cada um entrando numa janela. La dentro, alguns soldados o enfrentaram. Era difícil dizer se eram corajosos ou simplesmente suicidas. Pareciam, no entanto, guardar um enorme tesouro, que logo Emanuel pôde contemplar.
Numa espécie de salão principal, ele encontrou um grupos de clérigos, nobres, serviçais e soldados. Pela aparência das vestimentas, parecia que um casamento estava acontecendo. Ele e o irmão saltaram do segundo andar para um lado daquele salão, enquanto que os outros se amontoaram do outro. Todos apavorados, menos alguns soldados, que foram rapidamente massacrados.
Eles avançaram sorrindo e com curiosidade nos olhos. Buscando humilhar o Rei, convocaram a Noiva, sua filha.

- Onde está a Noiva!? - Gritou o Gigante

Ninguém respondeu, e ele logo avançou a começou a matar as pessoas que corriam e se empurravam. Emanuel, no entanto, a avistou. E não pôde acreditar. Era ela, a sua guia dos sonhos. Ela mesma, vestida de branco.
Os homens conseguiram arrombar a porta e se uniram ao Gigante na matança, enquanto Emanuel se apressou em capturar a Noiva. Pegou-a em seus braços e saltou de volta para o segundo andar. A deixou lá e desceu para avisar o irmão. Acabou se distraindo e matou algumas pessoas. Os homens perceberam a noiva e subiram ao terceiro andar para estuprá-la. Ele, prontamente, saltou e volta e matou o primeiro.

- Quem tocar nela morrerá. É minha e do meu irmão. – Disse Emanuel

Os homens recuaram e voltaram ao primeiro andar, onde as mulheres foram agrupadas. Dos cinqüenta iniciais, trinta estavam de pé. Avançaram sobre as mulheres, como de costume, matando algumas e estuprando outras.

- Irmão! Meu irmão! – gritou Emanuel

O gigante subiu rapidamente, pois nunca foi chamado com tanta urgência por Emanuel. Chegando lá, logo se viu hipnotizado pela visão da princesa.

- Perséfone! – exclamou ele
- Que nome é esse? - perguntou Emanuel
- É o nome de nossa mãe! Não se lembra
- Não lembro de nada sobre nossa mãe. Aliás, com freqüência imagino que ele nunca existiu.
- Pois existiu, e cá está renascida!

Os dois ficaram pasmos, olhando para o olhar vazio da moça. Emanuel, invadido por uma estranha emoção, nem se movia. Ele não sabia o que fazer com tal emoção. Parecia tão poderosa quando seu ódio, podendo fazê-lo desvanecer ou aumentá-lo. Aquela estranha força, que ele chamou de Amor em nome de Matias, parecia um espírito livre agindo em seu corpo e sua alma. Aqueles cachos loiros voando com a brisa vinda da janela, aquelas marcas de lágrima secas no rosto. Cada mísero detalhe ele armazenava. Era um Anjo¿ Só poderia ser de origem divina, para paralisá-lo de maneira tão forte. O despedaçava, embora a sensação fosse melhor do que qualquer chacina.

- Hades, o Deus do Submundo, deve ter-nos presenteado por termos mandado tantas almas ao seu encontro. – Disse o gigante. – Os Deuses nos favorecem.
- Não há deus algum nos céus. Há apenas uma Deusa, que habita entre nós. Ela é a deusa da morte e da vida, da destruição e da construção. Ela odeia e ama, acolha e abandona.
- Então talvez tenha sido ela a nos presentear de tal forma. É apropriado que aceitemos tal presente, o honrando com maiores e mais grandiosas chuvas de carne e sangue.

Emanuel concordou e pegou a mulher. Ela não reagia. Parecia estar morta, embora seus pulmões ainda se enchessem de ar. Seu espírito estava noutro lugar, alheio àquela situação. Seus olhos pareciam tão vazios quanto os de condenados esperando a morte. Aquele olhar que toma o ser humano quando a palavra esperança não tem mais nenhum significado.
Eles saíram do castelo, se deparando com a lua. Os homens carregavam mulheres. Eles perderam a noção de tempo, olhando para Perséfone.
A pele dela era tão macia, tão quente... Emanuel esfregava o rosto no braço dela, enquanto observava seu vestido cheio de sangue e lama. O sangue de sua família e a lama de sua terra, todos agora uma coisa do passado.
Surgiu nele uma coisa diferente. Amor, Luxúria. Um impulso por vida.
E assim foi o encontro de Emanuel com Perséfone, e o nascimento do Amor no coração de um cão do submundo...