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Estávamos na praia

Eu os vi removendo seu hímen
Cirurgicamente, quase indolor
Mas eu ouvi seu gemido
Eu vi que você me olhou

Você me convidou com seu olhar
Fomos pra água
Estava escuro
A água estava perigosa

Brincamos feito crianças
A correnteza nos arrastou
Você não se importou
Tentei fingir que estava tudo bem

Mas acabei saindo de lá
Te avisei, e você veio comigo
Não tinha medo da água
Só veio porque eu vim

Deitamos na areia, rolamos
Sorrimos, vi seus olhos brilhando
Quis te beijar, e um menino gritou
Percebi a multidão que nos assistia

Afinal, como declarar isso a eles¿
Que uma das regras mais fundamentais,
Meu temperamento contradiz¿
Com discursos racionais¿

Eu poderia dizer-lhes
Que cuidem de sua própria vida
Que não sou um libertino
Que isso é amor...

Mas não...
Eu escolhi fugir.
Corri contigo pela praia, alguns nos seguiram
Tinham veredictos em suas mentes

Eu nem percebi
Mas no meio dessa fuga,
Perdi você
Nosso momento passou

Num instante, eu estava no telefone
Falava com ela
Aquela que amo e que permitem
Que posso abraçar sem ser condenado

E foi bom...

Mas em alguns momentos
De reflexão, meditação
Lembro do que senti
Quando estávamos na praia...

O rosto da Deusa


Ele me deixa encantado
Entorpecido, perplexo
É belo e divino
Malicioso e poderoso

Ela tem lindos dentes alinhados
Caninos afiados, lábios convidativos

Tem cabelos longos e lisos
Com folhas que se envolvem entre os fios
Tudo nela é original
A lua vive na testa dela

Seus olhos não só recebem luz
Eles também a emitem
Ela auxilia-me na escuridão
Não sou totalmente cego

Graças ao rosto da deusa

Suas cores

Às vezes eu via cores
Mesmo sendo “colorblind”
Eram as suas cores
Eu via com o coração

Você brilhava
Animava minha alma
Fazia-me querer viver
Eu te olhava e pensava:

A vida vale a pena

Mas aí você desaparecia
Ia para trás da sua parede
De sensatez, ética.
Mantinha-se pura, imaculada.

Sei que existo sem você
Minha vida continuou
Mas sem a sua luz
Eu acabei me amigando

Com essa escuridão

Porque aqui no escuro
Não há cores e nem brilho
Então não lembro de você
E nem da alegria daquele vinho

E que alegria!

Mas algo me atormenta
Queima minha alma
Então te trago pra dentro
E sinto aquela tristeza

Que não chora e nem passa

Queria ver suas cores
Só mais uma vez
Ver um sorriso, dizer oi.
Brincar com aquele sapinho

Queria ir até a pedra
De novo fazer poesia
Ficar sem idéias
Apenas admirando

Suas cores...

Um monólogo/diálogo com a deusa

Uma mulher veio a mim e disse:

- Você tem o que eu busco. Porque não me dá?

- Meu coração não posso te dar. Você conhece bem as barreiras práticas em relação a isso. Minha idade é muito menor do que a sua, e logo minha imaturidade te seria irritante, enquanto que sua estética em breve me será um fardo, por causa da minha virilidade.

Ela me olhou com olhos de julgamento. Como quem diz: diga logo a verdade!

- Mas nós dois sabemos que eu sou movido é pelo coração, e que ignoraria qualquer aspecto prático para viver um amor fulminante e profundo. Sabes bem que te considero digna de receber o meu amor, embora eu não saiba se sou digno do seu. Mas eu não tenho amor para você. Tenho o amor, é verdade, mas ele já está ligado a alguém. Corre de mim um fluxo de dar-me a mim mesmo para essa pessoa.

- Me fale sobre essa pessoa e sobre esse fluxo.

- É um impulso involuntário e, muitas vezes, de natureza cíclica. Eis aí uma breve definição do impulso de sar-se a si mesmo. Fico me questionando a respeito do sentimento que tenho por ela. Tenho esse impulso irracional de querer satisfazer o coração das pessoas que por isso anseiam, e em geral elas se aproveitam disso para obter algum benefício banal e temporário. Mas nela eu vi algo diferente. Algo belo. Nesse sentido ela se mostrou semelhante a mim, e me encantei de tal forma que fui levado (e ainda estou sendo) por este impulso. Ela reagiu da mesma maneira que eu reagiria. No início se encantou, e gostou do meu carinho. O aceitou, e em certos momentos me foi tão carinhosa que nem pude acreditar que foi de verdade. Ela tem espírito, é Stela.

- E porque você está com esse olhar, então?

- Há barreiras morais entre nós dois. Barreiras que tornam nosso relacionamento romântico impossível. Pelo menos por agora. Tento contornar racionalmente. Aliás, tentei, mas concluí, hoje, que não há utilidade para a racionalidade. Não neste caso. Estou me sentindo triste, porque ela é uma ou, talvez, “a” pessoa que é realmente capaz de receber integralmente esse afeto, de me receber.É madura, sentimental, apaixonada, inteligente, íntegra. De que me valem os adjetivos?

- E eu?

- Você vem logo atrás dela, e pela quantidade de palavras que trocamos um com o outro eu diria que isso é uma façanha impressionante. Noutras circunstancias teria levado meu coração, te garanto. Mas a verdade é que sinto meu coração unido ao dela. Que me desculpem todas as mulheres que, de alguma maneira, tiveram contato comigo, mas sou obrigado a confessar que ela é o que já vi de mais belo nesse mundo. O que mais quero é me entregar a ela. Amá-la até o fim dos meus dias, e dedicar esses a ela em grande proporção. Quero um abraço, quero olha-la. Quero dar tudo, porque sei que ela pode receber. Fico atônito quando, repentinamente, ela me dá uma flor de ouro. Ela se entrega como eu, dá amor sem querer nada em troca.

- Eu também faço isso.

- Por favor, querida. Não torne as coisas assim tão difíceis para mim. Sabe que me dói não poder me entregar a você. Não queria que você estivesse assim só. Abandonada. Esse mundo não está preparado para uma presença como a tua. Mas nesse ponto não há nada que eu possa fazer. Meu coração está ligado ao dela.

- E o que ela tem de diferente das outras? O que você sente de diferente?

- Com as outras, confesso, minha relação era mais altruísta, só que com ela também penso em mim. Quero me entregar sim, mas também quero que ela se entregue a mim com toda a sua maravilhosa beleza física e espiritual. E em troca dou a mim mesmo de corpo e alma.

- Ainda não me falou o motivo do seu olhar.

- É isso que me deixa numa dicotomia entre alegria e tristeza. Fico alegre quando nossos espíritos se encontram, e triste quando abro os olhos e vejo as barreiras físicas e morais que existem entre nós. Aliás, o que mais me deixa triste é que tudo pode ser só ilusão. Ou pior, que pode ser unilateral.

- E se for ilusão?

- Vou para perto dela de qualquer maneira. A barreira física acabará, e a moral eu não sei. Mas se, lá, eu ao menos puder me entregar a ela, então assim ficarei contente. Talvez tudo isso seja uma grande ilusão, mas dentro de mim existe com tamanha intensidade que não há como negar. Sendo uma fantasia ou não, eu tenho que ir adiante. Acerca da moral eu falo como Zaratustra: “Tu deves, assim se chama o grande dragão; mas o espírito do leo diz: ‘eu quero’. O tu dever está postado em seu caminho, como animal escamoso de áureo fugor; e em cada uma de suas escamas brilha em douradas letras: ‘tu deves’”

Sobre o valor da estética

Ontem eu vi um programa na TV em que era noticiada, através do relato de uma menina, a realidade das pessoas que são afetadas por anorexia, e me lembrei de outra reportagem que fala sobre o abuso de anabolizantes. Lembrei também da demanda que há hoje em dia para tratamentos de estética, seja os cirúrgicos ou os “naturais”.

Não pude deixar de relacionar a grande valorização da estética como uma forma de criar uma “persona” atraente e esquecer da essência. Parece que o mundo de hoje está extrovertido de tal maneira que essas doenças sejam apenas um sintoma dessa doença, que deve ser tratada.

Os remédios também são vacina: A introversão e o pensamento. Com esse post eu pretendo demonstrar de que maneira a introversão e o pensamento podem efetivamente ser a solução para o problema. Além de emitir meu julgamento de valor sobre a estética.

Primeiro gostaria de definir o que entendo por introversão e por pensamento, para que não aconteçam equívocos de interpretação.

A introversão é o olhar para dentro. Observar nossas próprias qualidades ignorando a opinião alheia sobre elas. Através dessa introversão nós descobrimos quem somos. Não é justo pensar que o introvertido é “melhor” do que o extrovertido: Introversão e Extroversão são funções que têm sua utilidade, e o erro é escolher entre uma delas.

Se a pessoa for só introvertida, ela projetará no mundo sua realidade. Criará paradigmas que explicam sua própria essência e dirá que esses são os que englobam todas as coisas e todas as pessoas, quando isso é visivelmente absurdo. Apesar de ser boa com lidar consigo mesma, a pessoa que vive no pólo introvertido tende a não ser boa com o convívio social.

Se for só extrovertida poderá cair em diversas armadilhas, dentre as quais estão as que vou falar nesse post, mas o mais importante aqui é que os extrovertidos se dão muito bem no convívio social, e lidam de forma razoável com os outros, mas não consigo mesmos. Ao invés de tomarem sua essência e projetarem no mundo, projetam o mundo na essência. Assim, o extrovertido se define segundo os rótulos externos: sou um professor, empresário, pai, marido, etc. e acaba, no final das contas, sem saber quem é.

Só se alcança a plenitude quando se está integrado, e o introvertido não é integrado. E também só se pode ser pleno quando se é livre, e o extrovertido não é livre. Assim, deve-se extroverter e introverter em igual proporção, já que cada função tem sua utilidade(conhecer-se a si mesmo e ao próximo, além de amar-se a si mesmo e ao próximo).

Nosso corpo tende a nos alarmar com dores sentimentais sobre nossos erros, e se insistimos essas dores se tornam físicas. É como se nós estivéssemos com a alma doente, que precisa ser tratada.

Vou deixar para falar dos males do introvertido noutro tópico, pois neste vou me ater à estética e em sua relação com introversão e pensamento.

O pensamento, em geral, coexiste com o sentimento, pois dentro de nós há o racional e o irracional. Pessoas separam as funções e as consideram inconciliáveis, mas eu nunca vi sentido nisso. A mim parece que, tal como a Introversão e a Extroversão, Pensamento e Sentimento são apenas funções diferentes. O pensamento existe para julgar as questões relevantes ao pensamento, e o sentimento para viver o aspecto emocional/irracional da vida, que tem tanto direito de existir quanto o racional e controlado.

Em geral, se estamos apenas com a função de pensamento, cometemos disparates grosseiros nas relações amorosas, pois criamos critérios racionais que nosso interior não respeita, e ficamos tentando segui-lo. Muito cometem o erro de achar que critérios racionais podem definir que musica é boa, que poesia é boa ou, nos casos mais gritantes, de achar que critérios racionais podem servir para a escolha de parceiros amorosos, como se o amor fosse uma coisa pensada e refletida e não sentida. Achar que é possível existir e mesmo ser imparcial reprimindo os sentimentos é um erro. Eles saem de qualquer maneira, com a diferença de que a negação os camufla.

Se estivermos apenas com a função do sentimento é comum emitirmos julgamentos muito equivocados. Pode-se dar razão a uma pessoa numa discussão pelo fato de ela ser gentil, ao invés de considerar a argumentação com sua relevância lógico-fatual. Uma pessoa que só usa os sentimentos e ignora o pensamento é facilmente manipulada, e fatalmente se frustra com o fato de que “as aparências enganam”. Se prende sentimentalmente á preconceitos (sejam introvertidos ou extrovertidos) e se nega a mudar de opinião.

Parece lógico que há coisas que são apenas vividas com o sentimento, tais como preferência musical, coisas que são vividas sentimentalmente e julgadas racionalmente ao mesmo tempo, tais como o amor, e coisas que são apenas entendidas, como conceitos filosóficos.

Para essa questão deve-se abordar o tipo extrovertido sentimental.

A menina extrovertida sentimental tem o mundo externo como referência, e assimila os sentimentos dos outros para si. O sentimento em questão é o de que a pessoa vale o que aparenta. Aí caímos também num preconceito grosseiro de nossa época, que diz que mulheres magras são mais bonitas, o que é um tremendo absurdo. Não vejo qualquer beleza em modelos raquíticas. Mas o preconceito é esse, e a menina extrovertida sentimental, num dado momento, percebe que sua imagem não se adequa ao padrão de fora. Hoje em dia o padrão é estético, então, vendo as modelos, ela decide não comer para emagrecer. O hábito se torna compulsivo e a menina se torna anoréxica.

Parece bem simples que, se ela refletisse (pensamento) sobre quem é (introversão) ela perceberia que não há necessidade de se moldar segundo o modelo dos outros.

É bom lembrar que a estética preocupa mais os tipos sensitivos por questões óbvias, já que estes se preocupam mais com as coisas palpáveis, enquanto que seu oposto, os intuitivos, se preocupa mais com coisas abstratas. Portanto, se formos falar em tipos psicológicos de Jung, poderíamos dizer, ao menos em teoria, que os tipos mais afetados são os Extrovertidos, Sensitivos Sentimentais(ESF). Não abordei a dicotomia intuição/sensação porque não acho que conceitos abstratos tenham qualquer utilidade nesse caso, pois a questão é estética, e estética só pode ser avaliada através de sensação.

O mesmo acontece com os homens que usam anabolizantes e hormônios de animais: Sacrificam sua saúde, sua mobilidade e sua individualidade por um ideal de que homens devem ser fortes e grandes. É lamentável que um preconceito desses ainda exista no século 21, e o sintoma dessa percepção doentia do mundo é o abuso de anabolizantes, que geram aberrações estéticas tão repulsivas quantos as anoréxicas raquíticas.

A plástica funciona sobre a mesma lógica, sendo apenas o risco e o sacrifício menores, e o resultado é menos repulsivo, embora nunca seja como a estética natural.

Todo esse post me leva a uma inevitável pergunta:

Afinal, qual é o valor da estética?

Penso que a percepção estética é extremamente variável, de forma que dificilmente se podem estabelecer padrões racionais do que é bonito e do que é feio e mesmo de como uma pessoa deve ser para ser atraente.

A função dessa percepção é o estímulo: quando estamos num relacionamento romântico, é inegável, a estética tem um poder grande, mas não há sentido em dar-lhe valor excessivo, como o fazem.

Já ouvi coisas absurdas, como: “ele que perdeu, veja só como ela é bonita”. Um preconceito grosseiro que atribui à pessoa o valor de sua aparência, e não considera as questões mais profundas de um relacionamento, que são muito mais determinantes do que a estética. Até porque, a estética se torna rapidamente redundante e a atração, que deveria se renovar por fatores internos, não se renova através da estética.

Um relacionamento romântico presume uma certa quantidade de estética, contanto que essa estética seja um padrão pessoal e não um padrão imposto de fora. Não há como mantermos uma relação amorosa com uma pessoa que tem a aparência que nos é repulsiva. Mas o essencial não está aí: Está na sintonia, na afinidade. Se há amor, há sintonia de sentimentos, e também deve haver sintonia de pensamentos (ligeiramente menor) que resulta da amizade. Isso é o essencial, não a estética.

As anorexicas e os “marombados” de preocupam tanto com a estética que se tornam esteticamente repulsivos, como uma forma de o corpo reagir a isso. É a alma deles criando uma doença para explicar que esse não é o caminho correto. Buscando um ponto de equilíbrio.

A estética se vai rapidamente, e é apenas mais um dos agrados da vida.

Se alguém cair no erro, no entanto, de negar o valor da estética, viverá em conflito consigo mesmo, pois, apesar de pequena, essa é uma parte da vivência humana que não pode, em qualquer circunstancia, ser negligenciada em favor de uma ideologia.