An open wound
Postado por Silas às sábado, setembro 17, 2011 1 comentários
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O encontro com Perséfone
Postado por Silas às sábado, setembro 18, 2010 0 comentários
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Um sonho sobre o grande segredo
Postado por Silas às quarta-feira, julho 28, 2010 2 comentários
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Um esboço sobre a Dicotomia Feminino/Masculino – Eros/Logos – Anima/Animus
A mulher (Anima, Yin, Eros) acolhe e é sentimental. É uma grande mãe e voltada para o externo: Os filhos, o marido, e todo o círculo social. Normalmente não possui força física considerável, não se envolve em conflitos físicos (que não sejam ridículos) e não vive pairando sobre abstrações filosóficas.
O homem(Animus, yang, Logos) É racional e lida com idéias, sejam elas práticas ou abstratas. Além disso é líder, vai para guerras e luta, o que envolve agressividade. Normalmente não possui grande sensibilidade e não se importa profundamente com as relações pessoais.
A mulher sente, o homem pensa. A mulher acolhe, o homem invade. A mulher é úmida e macia, o homem é seco e duro (sim, isso é uma analogia sexual).
E na época de Jung, por mais que a pessoa não fosse perfeitamente adequada à “função” prognosticada pro seu sexo, havia intensa pressão coerciva por parte da sociedade para que o homem tomasse para si a função “adequada”. Havia uma estereotipação coletiva, da qual Jung se serviu para definir os conceitos de Anima e Animus. Anima é o feminino no homem, e Animus o masculino na mulher. Não só isso, mas tais arquétipos são como um portal para o inconsciente.
Ora como na época de Jung o masculino era estereotipado, Jung associou Anima ao feminino do Homem, pois o homem tinha a tendência de não desenvolver a própria “feminilidade”, que permanecia inconsciente, e o mesmo ocorria com a mulher. Mas tal conceito só ocorreu pelo fato de que, naquela época, a cultura ainda tinha essa barreira entre os sexos¹, que foi radicalmente atacada pelo movimento feminista.
Com a mudança na nossa cultura, o homem pode se “feminilizar” e a mulher se “masculinizar”, embora ainda existam resistências. Isso ocasionou algo como um incoerência no sistema de pensamento de Jung, que foi desenvolvido com material empírico de sua época.
Isso porque, na nossa época, o homem passou a poder demonstrar sua feminilidade e a mulher sua masculinidade. Daí decorre que surgiram o que se chama de Macho Beta: um homem que exerce a função que seria, no passado, a da mulher. O Macho beta tende a se unir com uma “Fêmea Alfa”, que agrega em si mais características tidas por masculinas do que femininas. Nesses casos o que ocorre é que a Anima do homem, ou seja, sua imagem feminina interna, é “masculinizada” e a mulher tem sua imagem masculina interna “feminilizada”.
Assim, os conceitos de Anima e Animus de Jung se tornam nebulosos para definir a realidade do nosso “Zeitgeist” e precisa ser revisto.
Há duas saídas conceituais, ambas que realmente alteram a teoria Junguiana original e que tornam a questão coerente.
Antes de falar sobre isso, é bom salientar que, ao postular a existência do feminino no homem e do masculino na mulher, Jung afirma que nossa mente é psicologicamente andrógina.
Uma das soluções propostas é de que o homem possui tanto Anima e Animus em sua constituição psíquica, assim como a mulher. Dessa forma, embora sua característica somática seja masculina, ele pode efetivamente ser Anima e ter um Animus. O mesmo se aplica à mulheres.
Isso trás diversas implicações, dentre as quais a de que poderia haver uma relação entre tal dinâmica e a homossexualidade. Confesso que não me aprofundei com cuidado nessa questão, mas pelo que expus o juízo racional me leva a crer que não há coerência em tal colocação.
Outra solução, precisamente aquela que me convenceu, é que o limite entre masculino e feminino é relativamente arbitrário. Assim sendo, a Anima do homem pode conter conteúdos que são tidos como masculinos e o Animus da mulher pode conter características femininas.
Na verdade, Anima/Animus é como um(a) porteiro(a) do inconsciente. Daí decorre que se, num homem é o lado masculino que está reprimido, então é para isso que o Porteiro o levará e vice-versa.
Noutras palavras, outro conceito deve ser usado para substituir o de Anima e Animus, porque os limites entre as funções psicológicas dos sexos se tornaram mais frouxos.
Aliás, tal questão entra em profunda contradição com o problema dos tipos: Atribuir à Anima certos caracteres “femininos” implicaria dizer que homens não podem ter o tipo extroversão com sentimento², por exemplo, e que esse é um tipo exclusivamente da mulher. Na realidade vemos que não é assim que acontece, embora seja raro.
Deixo claro, nesse texto, que não estou abordando a opção sexual e nem nada relacionado a isso: a questão aqui tratada é meramente abstrata, embora possa envolver material empírico, e não aborda tais questões, mas apenas a efemeridade dos conceitos de masculino e feminino psíquico no nosso tempo. Até porque um homem homossexual pode muito bem se enquadrar na definição de masculino e o mesmo se aplica à mulher.
Com o valor equivalente entre as funções atribuídas à mulher e àquelas atribuídas aos homens, é útil salientar que todas essas qualidades deveriam ser desenvolvidas por quem tem interesse em levar uma vida plena do ponto de vista psicológico. Eros e logos, ou, segundo a minha definição, Liberdade e Amor.
1) Poderíamos especular sobre o motivo de que na grande maioria das sociedades a função da mulher é o que é por duas perspectivas, que quero explorar nesse texto (que não tem pretensão de exatidão nem mesmo dentro dos autores citados, quanto mais do ponto de vista metafísico e psicológico).
A primeira perspectiva é pragmática, e, embora eu não me familiarize com ela, possui sentido do ponto de vista racional e merece menção: Por sua função determinada nas sociedades, a mulher teria formado uma estrutura física(maior resistência nas pernas para sustentar peso de bebê no colo e na barriga) e psicológica por seleção natural: simplesmente foi uma vantagem evolutiva pra mulher assumir tal postura e característica, e por isso que se convencionou assim.
No caso do homem dentro dessa teoria, sua função e condicionou a executar funções que exigiram mais força e raciocínio lógico, então ele desenvolveu tais características por pressão seletiva.
Outra perspectiva, que me agrada psicologicamente, é a de que, do ponto de vista somático e psicológico, ambos os sexos já estavam condicionados a tais funções, e que, como nas civilizações primitivas os indivíduos possuíam (e possuem em tribos isoladas) pouca ou nenhuma consciência individual, a tendência era simplesmente assumir a função que seu corpo tornava mais fácil. Daí decorre que isso moldou a nossa cultura.
Colocando parte da primeira perspectiva em adendo, poderíamos dizer que isso acabou gerando uma pressão seletiva contra os que não se adequavam à função atribuída ao próprio sexo. No entanto, nossa cultura atual transcendeu tais paradigmas, o que coloca em cheque a intensidade com que a pressão seletiva moldou o comportamento de homens e mulheres. Aliás, coloca em cheque até a idéia de que houve pressão seletiva significativa.
2) Estou me referindo à tipologia introduzida por Jung em seu livro Tipo psicológicos. O tipo em questão é focado para o mundo de fora e orientado por sentimentos. Falando numa linguagem prática, se trata de uma pessoa que preza os valores trazidos do mundo de fora e que tem a tendência se usar tais valores sentimentais antes da razão. Geralmente são valores apaziguadores do tipo “tudo mundo está certo”, onde a consideração pelas pessoas é superior a qualquer argumento. Esse tipo era mais comum em mulheres na época de Jung, mas, com o tempo e a mudança na nossa cultura, se tornou também muito freqüente em homens.
Postado por Silas às terça-feira, fevereiro 09, 2010 3 comentários
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Sobre a vocação para a profissão de analista
O presente texto é um fragmento do livro psicoterapia, De Marie-Louise Von Franz. Para o leito intuitivamente atendo, ressalto a conexão profunda entre tais palavras e meu segundo livro Biohazard, a limpeza.
Um problema difícil se apresenta pelos possíveis estagiários que são possuídos pelo arquétipo da cura. A imagem arquetípica do curador está relacionada com a do puer aeternus, filho-deus criativo da Grande Mãe. Número considerável de jovens que têm um complexo materno tem a tendência de se identificar com esse arquétipo. Eles costumam manifestar uma qualidade "maternal" como relação a todos que são indefesos ou sofredores, e freqüentemente também têm um dom para o ensino1. A partir desse ponto de vista, eles seriam adequados à profissão de analista; no entanto, por causa de sua identificação com o arquétipo, esses jovens sofrem de uma inflação. Nesses casos, é proveitoso compeli-los a empreender um sério estudo, talvez até estudos na área da medicina, porque a pessoa que está inflada não gosta de trabalhar; ela acha que já sabe tudo melhor e mais profundamente do que os outros. Um trabalho árduo, portanto, aliado aos necessários esclarecimentos através da análise, com freqüência tornam possível superar a inflação. É importante para essas pessoas compreender que é o consciente que, em última análise, causa e dirige o processo de cura, e que o analista é apenas aquele que ajuda e apóia o processo, e não seu autor. Gostaria de ilustrar o que acabo de dizer através do sonho vocacional de um jovem colega, que o teve na noite anterior à sua primeira sessão de análise. Um pouco mais cedo, na mesma noite, ele estivera meditando a respeito de o que efetivamente eram uma interpretação "adequada" do sonho e a análise no sentido junguiano. Ele sonhou então o seguinte:
Estou sentado em uma praça retangular e aberta, em uma velha cidade. Um jovem, vestindo apenas calças, senta-se diante de mim de pernas cruzadas. Seu tronco é forte e cheio de vitalidade. O sol brilha através do seu cabelo louro. Ele conta seus sonhos para mim e quer que eu os interprete para ele. Os sonhos são como uma espécie de tecido que ele estende diante de mim, enquanto os narra. Cada vez que relata um sonho, uma pedra cai do céu e acerta o sonho. Isso faz com que o sonho se despedace. Quando apanho os pedaços na mão, fica claro que são feitos de pão. Quando os pedaços do sonho se soltam, revelam uma estrutura interior que lembra uma escultura abstrata moderna. A cada sonho que é narrado, outra pedra cai sobre ele, e assim uma parte cada vez maior da estrutura básica, que é feita de porcas e parafusos com pontos de solda, começa a aparecer. Eu digo ao jovem que isso mostra como expor o significado de um sonho - ponto por ponto. Nesse ponto, surge a idéia de que a interpretação dos sonhos é a arte de saber o que jogar fora e o que reter, que também é a maneira como as coisas são na vida. A cena do sonho então muda. O jovem e eu estamos agora sentados de frente um para o outro, à margem de um rio largo e maravilhosamente belo. Ele ainda está me contando seus sonhos, mas a estrutura construída pelos sonhos assumiu uma forma diferente. Eles não formam uma pirâmide composta de porcas e parafusos, e sim uma pirâmide constituída de milhares de pequenos quadrados e triângulos. É como um quadro cubista de Braque, sendo porém tridimensional e vivo. As cores e as nuanças dos pequenos quadrados e triângulos estão constantemente se modificando. Expliquei que é essencial à pessoa manter o equilíbrio de toda a composição, sempre opondo imediatamente a uma mudança de cor uma modificação compensatória do outro lado. Essa questão de equilibrar as cores é incrivelmente complexa, porque todo o objeto é tridimensional e está em constante movimento. Olhei então para o alto da pirâmide do sonho. Não há nada lá. Esse é, na verdade, o único ponto em que toda a estrutura se aglutina, mas nesse ponto existe um espaço vazio. Quando olho para ele, começa a irradiar uma luz branca.
Uma vez mais a cena do sonho muda. A pirâmide permanece, mas agora é feita de material fecal solidificado. O topo ainda irradia. De repente compreendo que é como se o cume invisível se tornasse visível através do excremento sólido, e, inversamente, o excremento torna-se visível através do topo. Examino profundamente o excremento e percebo que estou olhando para a mão de Deus. Em um momento de iluminação, compreendo porque o pico é invisível: é a face de Deus.
Mais uma vez o sonho muda. A Dra. von Franz e eu estamos caminhando ao longo do rio. Ela diz, rindo: "Tenho sessenta e um anos, não dezesseis, mas os algarismos de ambos os números somam sete".
Acordo abruptamente, com a sensação de que alguém batera com força na porta. Para meu espanto, o apartamento está completamente quieto e vazio.
Na linguagem dos povos primitivos, esse é um "grande" sonho ou, na linguagem de Jung, um sonho arquetípico, que encerra um significado suprapessoal, universal. Como já o interpretei em "A auto-realização na terapia individual de C. G. Jung", que começa na página I, recomendo ao leitor que releia essa discussão. No atual contexto, o importante é apenas o fato de que no sonho o incosnciente vem à tona como ponto principal do tratamento, que a mão de Deus é vista no "humano, demasiadamente humano", e que o trabalho no desenvolvimento pessoal continua. Esse parece ser o aspecto crucial neste caso.
Esse grande sonho leva meu jovem colega para bem longe de seus temores e responde às suas perguntas com uma filosofia de vida, no centro da qual reside a questão da auto-realização. Toda a situação é apresentada como um acontecimento que ilumina meu colega. Isso não deve, contudo, levar-nos erroneamente a pensar que a análise não requer um esforço da parte do ego. Sabemos, a partir da experiência, que a análise envolve um trabalho árduo e requer muito conhecimento. Esse sonho, que apresenta o trabalho como mero acontecimento, importa em uma compensação, pois o meu colega, em sua ruminação que precedeu o sonho, levou seu ego e o papel do terapeuta excessivamente a sério. As pacientes que na vida real lhe haviam sido designadas, duas mulheres jovens, não aparecem no sonho; em vez disso, o paciente, o "sofredor", é uma figura interna no meu colega, um pedaço do seu Si-mesmo.
O sonho mostra que a parte principal do desenvolvimento interior do analista é algo puramente entre seu ego e o Si-mesmo (ou, em uma linguagem antiquada, a imagem de Deus dentro dele). O sonho também significa claramente que, para meu colega, é importante perceber a "mão de Deus" que governa o destino humano, em vez de querer "fazer alguma coisa" ele mesmo.
Toda a verdade psicológica pode ser, e até deve ser, revertida: nenhum analista deveria deixar de ter um sólido fundo de conhecimento, o mais abrangente possível. Freqüentemente, tem sido salientado que os psicólogos que não possuem treinamento médico facilmente não se dão conta dos estados psicossomáticos. É de indubitável importância que o analista que não é médico aprenda in totum a sintomatologia das doenças psicossomáticas, para que seja capaz de encaminhar ao médico os pacientes que precisam de tratamento clínico. Mas também existem outras áreas com relação às quais um conhecimento completo me parece indispensável. Lembro-me aqui de um estudante mexicano que estava em sua análise de treinamento. Eu tinha a sensação de que na verdade não o compreendia, e ele também parecia incapaz de entender o que eu tinha a dizer. A causa de tudo isso eram completamente misteriosa para mim, pois eu gostava muito dele. Ele então me trouxe o seguinte sonho:
Ele viu na bifurcação dos galhos de uma árvore uma grande pedra obsidiana. Quando ele avançou na direção dela, a pedra pulou da árvore e começou a segui-lo. Ele sentiu que ela era muito perigosa. Quando fugia, ele deparou com alguns trabalhadores que haviam cavado no chão um buraco retangular. Eles indicaram a ele, por meio de sinais, que ele deveria entrar no buraco e ficasse imóvel no meio dele. Quando ele fez isso, a pedra obsidiana que o seguia foi ficando cada vez menor e, finalmente, deitou-se aos pés dele como um pequeno seixo domesticado.
Quando ouvi esse sonho, exclamei: "Qual a sua relação com o deus Tetzcatlipoca?" Ele então desabafou. Disse-me que era três-quartos asteca. Ele não havia mencionado o fato em sua anamnese, porque no México, ao que parece, o preconceito racial ainda predomina. De repente, eu o compreendi. Interiormente, sem ter consciência disso, ele vivia na tradição espiritual dos astecas, mas havia negado isso dentro de si mesmo. Com esse sonho, sua individuação teve início bem como sua criatividade intelectual. Tetzcatlipoca, a suprema divindade asteca, tornou-se seu guru interior na imaginação ativa.
Mas o que teria acontecido a essa análise, se eu não soubesse que a obsidiana era um símbolo do deus Tetzcatlipoca? É claro que uma analista experiente não pode conhecer todos os temas mitológicos existentes, que montam a centenas de milhares. Por conseguinte, é importante educar o analista em perspectiva para que ele não interprete os sonhos de maneira precipitada e, sim, que continuamente se dê ao trabalho de procurar informações na literatura especializada dos símbolos e, além disso, precisa ser treinado para saber onde procurar. Afinal de contas, o médico também tem manuais que pode consultar para obter pormenores sobre medicamentos e sintomas. Na análise junguiana, o conhecimento da mitologia é significativamente mais importante do que na análise em outras escolas. Estas geralmente fundamentam sua abordagem em uma teoria de sonhos existentes, que desde o início sugere certas interpretações. Na abordagem junguiana existe o princípio de que todo o sonho expressa algo ainda desconhecido, algo novo para o paciente. Enquanto o analista está lidando com as imagens oníricas do incosnciente pessoal, um cuidadoso registro das associações do paciente freqüentemente são suficientes. Mas no caso de imagens arquetípicas, as pessoas amiúde têm muito pouco a dizer sob a forma de uma associação. Neste caso, é necessário procurar um material mitológico objetivamente comparável.
Embora esse problema diga principalmente respeito ao treinamento intelectual e ao conhecimento do futuro analista, não devemos nos esquecer do sentimento, ou seja, do coração. Por mais inteligente que um analista insensível possa ser, nunca vi nenhuma pessoa desse tipo curar alguém! E o "coração" não pode ser instilado. A pessoa que não o possui, na minha opinião, é a menos adequada para a profissão. Não obstante, existem aqueles que realmente têm sentimento e capacidade de sentir compaixão, mas não ousam expressá-lo. Esses indivíduos podem ser ajudados, através de treinamento, a se tornarem bons analistas.
Com efeito, idealmente falando, o analista precisa ter treinado as quatro funções da consciência. Precisa da função sensação, porque tem que ser realista e capaz de ver os fatos internos e externos para poder funcionar. Nunca deveria acontecer (embora eu já o tenha testemunhado) que o analista não saiba nada a respeito da situação financeira do paciente, ou não perceba que este não está se alimentando bem. A intuição, é claro, também é indispensável, porque sem ela é impossível compreender a função prospectiva e prognóstica dos sonhos, bem como adivinhar todas as coisas que o analisando deixou de contar, o que é, geralmente, particularmente importante.
É claro que é quase impossível, sob o aspecto prático, que todos os analistas sejam tão perfeitos e completos a ponto de terem assimilado as quatro funções da consciência. Freqüentemente precisamos ficar satisfeitos em tornar o futuro analista consciente de quais são suas funções não desenvolvidas, para que ele conheça suas fraquezas e fique atento a elas e, nos casos de incerteza, quando houver motivo para suspeitar de que algo na análise não está indo bem, para que ele se consulte com um colega.
Os problemas do conhecimento e do desenvolvimento das funções da consciência estão relacionados com o estado de normalidade do futuro terapeuta, com seu ajustamento ao mundo exterior e à sociedade. Mas a palavra vocação está relacionada com algo ainda mais profundo e essencial - a ligação com Deus ou com os deuses, ou seja, com as forças que se manifestam dentro da psique. Se examinarmos isso de uma maneira histórica, veremos que na Idade Média não era particularmente a pessoa "normal" que era considerada como tendo vocação para ser um benfeitor da psique ou da alma (embora ele também tivesse que ser relativamente normal), e sim o padre; ou então as pessoas procuravam ajuda no túmulo dos mártires ou dos santos, imaginando que a influência sobrenatural da personalidade deles talvez curasse aqueles que tinham distúrbios psicológicos. Se recuarmos mais na história, a cisão especificamente cristã entre religião e medicina nos vem à mente. Se recuarmos ainda mais, chegamos à figura do médico-sacerdote, que trabalhava, por exemplo, nos lugares consagrados a Asclépio (Cós, Epidauro e outros).2 Aprendemos, por exemplo, com Apuleio, que vivia a serviço da deusa Ísis como um katocho (internado voluntário)3, o que a vocação significava naqueles dias.
O sacerdote-curador da última fase da Antigüidade é uma variante arquetípica do tipo curandeiro ou xamã encontrado no mundo inteiro. Para ele, a vocação continua a encerrar o significado original da palavra: um chamado dos deuses ou dos espíritos para que ele se torne um curador. Os xamãs (bem como muitos dos curandeiros e curandeiras de outros povos) passam por período específico de treinamento e desenvolvimento. São chamados por espíritos do clã ou por outros espíritos, freqüentemente contra a vontade deles. "Antes que o xamã se apresente, a alma da pessoa destinada a essa função é tomada por espíritos e arrastada para o mundo subterrâneo ou o mundo superior."4 As almas dos futuros xamãs são então colocadas em ninhos de diferentes níveis nos galhos de uma árvore, sendo geralmente incubadas e criadas por uma mãe do reino animal sob a forma de um corvo ou outro pássaro, ou por um alce ou veado alado, etc. Essa mãe do reino animal é o alterego do xamã, seu duplo, seu espírito protetor e seu princípio vital. Às vezes, ela devora o xamã e o dá à luz novamente, ou então o choca enquanto ele está no ovo. Além disso, a iniciação xamanística geralmente também consiste, como sabemos, na mutilação do candidato e da sua redução a esqueleto. Este último representa a substância básica imperecível a partir da qual o xamã renovado pode ser reconstituído. Nem sempre o novo xamã está no controle de sua nova forma; às vezes, ele a encontra apenas nos momentos cruciais, durante a iniciação ou na hora da morte, mas é através desse alterego interior que ele realiza suas curas.5
A partir do ponto de vista da psicologia profunda atual, essa experiência xamanística importa em sofrer uma invasão do incosnciente coletivo e ter êxito ao lidar com ela. Quando a análise de treinamento do futuro analista permanece presa à discussão de problemas pessoais, de acordo com minha experiência essa pessoa nunca se torna, mais tarde, um analista eficaz. Somente quando experimenta o infinito na sua vida, como Jung o formulou, é que a vida encontra significado. Caso contrário, ela se perde em superficialidades.6 Poderíamos ainda acrescentar que essa pessoa só poderá oferecer aos outros algo superficial: bons conselhos, interpretações intelectuais, recomendações bem intencionadas voltadas à normalização. É importante que o analista viva interiormente no que é essencial, porque assim ele pode conduzir o analisando ao centro interno dele. Certo xamã disse adequadamente a um pedaço de madeira que ele queria transformar em tambor: "Liberta tua mente da contenda e da discórdia, lariço; tu te transformarás em tambor".7
Os símbolos do espírito animal-mãe, do tambor, da árvore e de muitos outros, em tão grande número que é impossível descrevê-los todos, são, sob o aspecto da psicologia junguiana, símbolos do Si-mesmo. Na tradição xamanística, o futuro curador não apenas precisa ter sofrido uma invasão do incosnciente coletivo, como também ter chagado ao seu núcleo, ao que Jung chamava de Si-mesmo. Estranhamente, com freqüência o Si-mesmo primeiro confronta a pessoa de maneira hostil, como algo explosivo que poderia até provocar a loucura.8 Os Tungus siberianos têm consciência disso. Eles dizem até que antes de a pessoa se tornar xamã, precisa ser molestada pelos espíritos durante alguns anos. Trata-se das almas de falecidos xamãs que fazem com que ela tenha delírios. Freqüentemente eles são aqueles que a mutilam durante a iniciação.9
Certo Buryat, por exemplo, ficou doente durante quinze anos. Ele corria nu, a esmo, no inverno, e "se portava como um idiota".10 Depois, encontrou seu espírito auxiliador, que lhe perguntou: "Por que você está se comportando dessa maneira? Você não nos conhece? Seja um xamã. Dependa de nós, seus utcha [antepassados = espíritos auxiliares]. Você concorda?" Ele consentiu, submeteu-se aos ritos de iniciação e começou a agir como um xamã: "onde quer que vá, ele cura e faz o bem". É estritamente proibido agir como xamã enquanto o período da iniciação não termina e o iniciado não está curado da sua doença iniciatória.11
Tudo o que dissemos aqui sobre o xamanismo dos povos circumpolares se aplica, de maneira surpreendente, à problemática vocacional dos terapeutas atuais. A pessoa que não tenha tido acesso às profundezas do inconsciente, e visto ali "a natureza de todos os espíritos da doença", dificilmente pode possuir uma empatia real e suficiente com relação ao grave sofrimento psíquico dos seus semelhantes. Ela só os tratará de acordo com as regras, sem jamais ser capaz de sentir empatia por eles, e este é freqüentemente o fator-chave para os pacientes. Além disso, aquele que começa prematuramente a agir como xamã, antes de haver superado sua doença iniciatória, é uma visão extremamente familiar. Muitos jovens entusiastas querem começar a tratar as pessoas desde os primeiros dias da sua análise de treinamento, antes de terem conseguido lidar com os próprios problemas e os conteúdos de seu incosnciente. Ao fazer isso, em participation mystique com um paciente, eles geralmente acabam no setor cego deste último. O resultado disso é uma folie à deux e não uma cura; ou então o paciente é inteligente o suficiente para detectar que esse suposto "médico" não está pisando em terreno muito firme. "Aquele cara está mais deprimido do que eu", disse-me, certa vez um analisando que estava servindo de "cobaia" para um "curador" ainda não plenamente desenvolvido.
Tem sido afirmado que os xamãs e curandeiros têm muita coisa em comum com as pessoas mentalmente doentes, ou pelo menos com aquelas que são psicologicamente instáveis, mas Eliade salientou, por exemplo, que os esquimós conseguem distinguir claramente uma doença "xamanística" de um caso comum de distúrbio mental.12 No decurso da doença iniciatória xamanística, o iniciado consegue encontrar a própria cura, o que é precisamente o que a pessoa comum que sofre de doença mental não consegue fazer. Além disso, os xamãs são os indivíduos criativos, os poetas e os artistas, das suas comunidades. Isso traz à baila uma questão que também é importante para os terapeutas de hoje - o chiste popular está bastante familiarizado com a figura do psiquiatra que é louco.13 Com relação a isso, gostaria de me associar à perspectiva dos esquimós: a pessoa que consegue curar a si mesma não é a pessoa doente e, sim, aquela capaz de ajudar os outros, pois essa pessoa está intacta em seu núcleo mais íntimo e possui a força do ego, dois pré-requisitos indispensáveis à profissão de terapeuta. Ela sofre sua doença iniciatória não por causa de uma fraqueza, e sim a fim de se familiarizar com "todos os tipos de doenças", para saber a partir de sua experiência o que significam a possessão, a depressão, a dissociação esquizóide, e assim por diante.
Tampouco seu desmembramento iniciatório é esquizofrenia. De acordo com a descrição mitológica, trata-se de uma redução ao esqueleto. Mas o que isso significa segundo os povos que criaram esses mitos é o indestrutível, o eterno no ser humano, e também aquilo que é perpetuado através da continuidade das gerações. Transportado para a linguagem atual, significa que o iniciado passa por uma "análise" no sentido de uma dissolução de todas as suas características não autênticas - por exemplo: convencionais ou infantis -, a fim de conquistar o caminho em direção ao que ele é em seu verdadeiro ser. Na linguagem junguiana, significa que ele se torna individuado, uma personalidade sólida que não é mais um futebol de afetos internos e projeções ou de tendências e modismos externos da sociedade.
No contexto etnológico, contudo, o curador também tem uma sombra específica, ou seja, essa vocação também possui um contra-aspecto sombrio. Trata-se da figura do xamã ou curandeiro demoníaco. A forma mais superficial disso é o terapeuta que é governado por um complexo de poder. É evidente que nessa profissão, na qual o indivíduo é seu próprio senhor e amo, e na qual as outras pessoas freqüentemente se agarram a ele de maneira ingênua e infantil, o abuso do poder representa uma enorme tentação. Por exemplo, o analista pode se ver tentando assumir o papel do pai ou do sábio, aquele que sabe o que está certo. Por mais repugnante que isso seja, não é, na minha opinião, o mais perigoso, visto que esses terapeutas são de modo geral devidamente importunados por pacientes igualmente possuídos pelo poder, ou punidos através do fato de que eles tendem a reunir ao redor de si um tedioso jardim-de-infância de pacientes que os atormentam com exigências.
O curador “demoníaco” é algo em escala maior, algo mais perigoso. Os Yakuts, por exemplo, acreditam que no momento da iniciação, o xamã tem a escolha de ser iniciado pelos espíritos da "fonte da destruição e da morte" ou pelos espíritos "da cura e da salvação".14 O que é confuso neste caso é que aquele iniciado pelos espíritos do mal também pode ser considerado um grande xamã.15 Mas para que esse indivíduo se torne xamã, muitas pessoas (freqüentemente do seu clã) tem que morrer16, ao passo que o clã de um xamã do lado da luz floresce.17 Por conseguinte, o primeiro tipo de xamã é chamado de "sanguinário". A partir de um ponto de vista psicológico, os xamãs do mal são aqueles que encontraram o acesso ao incosnciente e se mostraram suficientemente fortes para não serem derrubados por ele, mas que, por assim dizer, intencionalmente se rendem aos impulsos sombrios do inconsciente.
Jung descreveu o "demoníaco", que também poderia ser chamado de "magia negra", nos seguintes termos.18 Enquanto a "magia branca" se esforça para expulsar do inconsciente as forças da desordem, "a magia negra exalta os impulsos destrutivos como a única verdade válida em oposição à ordem até então prevalcente, além de aplicá-los a serviço do indivíduo em vez de a serviço de toda a comunidade. Os meios utilizados para isso são idéias, imagens e expressões primitivas, fascinadoras ou assustadoras, incompreensíveis para o entendimento normal, palavras estranhas", e assim por diante. "O demoníaco... se baseia no fato de que existem forças inconscientes de negação e destruição, e de que o mal é real". A pessoa que exerce essas forças de magia negra está geralmente possuída por um conteúdo incosnciente. Jung menciona aí o exemplo, de Hitler como um salvador negativo ou um destruidor. Na esfera da tradição xamanística, são conhecidos perigosos xamãs desse tipo, dos quais todo o mundo tem medo. Mircea Eliade fornece muitos exemplos da arrogância dos xamãs, que freqüentemente é vista como a verdadeira fonte do mal e como a causa do atual estado deteriorado do xamanismo.19 Na minha opinião, essa arrogância também existe entre os terapeutas modernos, e os que são marcados por ela são, creio eu, mais perigosos do que aqueles com treinamento profissional inadequado. Imagino que não haja nenhum procedimento organizacional ou racional para manter esses indivíduos fora da profissão da análise. Só podemos esperar que o público tenha discernimento suficiente para evitá-los.
Refletindo sobre os pontos apresentados até agora, vemos que a profissão do analista faz exigências eminentemente altas, exigências essas que dificilmente alguém é capaz de satisfazer inteiramente. Graças aos céus os povos nativos também têm consciência de que não são apenas os grandes xamãs, mas também os xamãs secundários e menos importantes que podem curar as pessoas. A grandeza ou a importância de um xamã depende da freqüência e da profundidade com que ele penetrou no inconsciente e de quanto sofrimento ele suportou para fazer isso. É por isso que, na minha opinião, o que é absolutamente necessário não é nos tornarmos um grande curador e, sim, conhecermos nossos limites. Porque pode acontecer - e não é tão raro assim - que um paciente cresça mais do que nós, ou seja, avance mais no processo interior do que nós já avançamos.
A tendência instintiva do analista é então tentar trazer o paciente de volta para baixo, de uma forma redutiva, para seu nível de consciência. É somente quando está consciente de seus limites que ele pode evitar esse perigo e não rebaixar o elemento significativo e crescente nos outros através de um estilo de interpretação !"nada mais do quê". Quando o analista permanece consciente dos seus limites, ele pode às vezes até mesmo ajudar um paciente que esteja além dele, sendo sincero e contentando-se em contribuir estritamente com a ajuda de que é capaz, deixando o resto por conta do paciente. Ele deve admitir seus pontos fracos e, invertendo as posições, pedir a compreensão do paciente. Nesse ponto, o processo deixa de ser um "tratamento", tornando-se um relacionamento que envolve um mútuo dar e receber. Isso, é claro, deve ser levado em conta na questão financeira na análise.
Um problema especial na profissão da análise é a criatividade. Sem sombra de dúvida, os melhores analistas são aqueles que, ao lado da profissão, estão envolvidos em alguma atividade criativa. Não é à toa que, nas sociedades primitivas, os curandeiros são também, de modo geral, os poetas, pintores e artistas do seu povo. Os elementos criativos e curativos estão muito próximos. "O ímpeto do caos ascendente", explica Jung, "procura novas idéias simbólicas que abarcarão e expressarão não apenas a ordem anterior como também os conteúdos essenciais da desordem. Essas idéias teriam um efeito mágico, mantendo enfeitiçadas as forças destrutivas da desordem, como foi o caso do cristianismo e em todas as outras religiões".20
O que Jung está dizendo aí, com relação ao nível coletivo em geral, também se aplica tanto a grupos menores quanto ao indivíduo. Em todos os contextos permanece a questão de encontrar no mais profundo de nós a influência ordenada do Si-mesmo e expressá-la nos símbolos, na arte, nas nossas ações. Se além de dar as consultas, o analista não estiver trabalhando também em sua tarefa, como salientou Jung, ele se torna escravo da rotina e, com tempo, torna-se uma analista insípido. Pude observar que nesta difícil profissão certo azedume e desprezo pelos nossos semelhantes tende a se insinuar em nós. É somente trabalhando continuamente em nossa tarefa criativa interior que podemos evitar essa deterioração. E não basta termos sentido uma única vez o chamado da vocação; o direito de praticarmos esta profissão precisa ser repetidamente conquistado dentro de nós.
________________________________________
1 Ver Jung, "Psychological Aspects of the Mother Archetype", em CW 9/i
2 Ver C. A. Meier, Der Traum als Medizin (O sonho como remédio), Daimon Verlag, Einsiendeln, Suíça, 1985
3 Cf. G. Preusschen, Mönchtum und Serapiskult (O monasticismo e o culto de Serápis), Giessen, 1903, passim.
4 Citado em A. Friedrich e L. G. Budruss, Schamanengeschichten aus Siberien (Histórias dos xamãs siberianos), Munique, 1955, p. 45
5 Ibid, pág. 48
6 Jung, Memories, Dreams, Reflections, p 325. (Cf. trad. bras.: Memórias, sonhos, reflexões, Nova Fronteira, Rio de Janeiro)
7 Friedrich e Budruss, Schamanengeschichten, p. 80
8 Ver Jung, "The Philosophical Tree", in CW 13.
9 Cf. Friedrich e Budruss, Schamanengeschichten, pp. 212-13
10 Ibid., p. 209
11 Ibid, p. 159
12 Ver Mircea Eliade, Shamanism: Archaic Techniques of Ecstasy, Bollingen Series, Princenton University Press, 1964, pp. 23ss.
13 Mais ou menos como na seguinte piada: Qual a diferença entre a pessoa mentalmente perturbada e o psiquiatra? Resposta: O psiquiatra tem a chave do consultório.
14 Friedrich e Budruss, Schamanengeschichten, p. 171
15 Cf. ibid., p. 158
16 Ibid., p. 154
17 Ibid., pp. 150, 147
18 Jung, carta a Horst Scharschuch, 1º de setembro de 1952, Letters, vol. 2, pp. 81-82.
19 Eliade, Shamanism, p;. 72
20 Jung, Letters, vol. 2, p. 81
Postado por Silas às quarta-feira, fevereiro 03, 2010 1 comentários
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Meu irmão e eu no reino das trevas
- Porque, irmão? Porque você me abandona? – perguntou o velho.
- Não te abandono. Você está enganado.
- Você está me deixando sozinho. Você fez um pacto de que não me deixaria sozinho aqui!
- Irmão. Você deixa a si mesmo sozinho. O tempo de aprendermos sobre a destruição acabou. Precisamos agora continuar nosso caminho. Precisamos deixar a corrente nos levar para novas possibilidades.
- Eles te contaminaram. Você devia ter impedido isso.
- Não. Não devia.
- Eu não posso continuar sem você. Será que não entende? Nós representamos o equilíbrio do universo!
- Você está perdendo o contato com sua essência, irmão. Não percebe? Mefistófeles não é você. Não é a sua função manter o equilíbrio. – eu falei sem muita consciência do que isso queria dizer.
Mefistófeles me jogou a carta e eu peguei com a mão direita. Quando a passei pra esquerda ela desapareceu. O anel a destruiu.
- Viu? Em breve esse anel terá te profanado tão profundamente que você já poderá voltar ao inferno. Eles te querem como um escravo, você sabe disso.
- Não. Sou eu, irmão. A minha essência mudou nesses milênios. Eu já não sou aquela criatura destruidora que fez o pacto de servir a desintegração. Nem você.
- Você está perdendo o juízo. A energia deles está tomando conta do seu ser.
- Não. A totalidade está tomando conta do meu ser.
Eu levantei minha mão direita e mostrei a ele. Minha pele começou a envolver o anel de Mefistófeles. Ele se acoplou de tal maneira em mim que nos tornamos um.
- Você é um só. Como pode ter essas forças dentro de si? Como pode ter todo o universo na sua alma e sua alma em todos universo? Como!?
- Eu parei de perguntar como e deixei o meu corpo flutuando no cosmo. Aí os fluidos da natureza, os que caminha para a totalidade, me mostraram o caminho. Não é um caminho a ser controlado e entendido, mas a ser sentido e vivido. É o caminho para o infinito.
- Então era esse o convite. – disse o velho ao jogar as cartas na mesa.
Mefistófeles não falava sequer uma palavra. Ele não é um ser humano, mas uma força do universo. Não pode deliberar. Ele só é.
- Você também o recebeu, irmão. Junte-se a mim. – disse eu com esperança.
- Não posso. A minha alma e Mefistófeles estão fundidos. Eu fiz isso para que você pudesse ser livre.
A mesa voou e eu vi a perna direita dele. A partir do joelho ela deixava de ser a perna dele e passava a ser a de Mefistófeles. Os dois permaneciam na mesa daquela maneira porque suas pernas estavam presas como que cirurgicamente. Por causa daquilo ele só poderia trilhar o caminho do diabo. Uma voz rouca, a minha voz, gritou perguntando quem eu era. Eu perguntando a mim mesmo como se eu fosse outra pessoa.
- Meu tempo está acabando. Irmão, Encontrarei gaia. A encontrarei e você será livre. Eu prometo.
O velho me olhou com um olhar de quem não gosta da idéia, mas que ao mesmo tempo parece aceitá-la. Fui puxado para fora do inferno e o portão se fechou. Não seria pelo portão do tártaro mais o meu caminho. Tantas vezes o trilhei, mas isso tudo ficou no passado. Agora era a hora de buscar as respostas. De encontrar Gaia. Mas o mundo balançou e eu fui convocado à realidade.
Postado por Silas às sábado, novembro 14, 2009 0 comentários
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Sobre a utilidade dos debates
Antes de explicar a argumentação é bom deixar claro o caráter subjetivo desta: é claro que as objeções são bem vindas, mas ao faze-las deve-se ter em mente que não pretendo colocar isso como uma regra a todos os indivíduos. Daí decorre que opiniões contrárias podem se somar ao meu argumento ao invés de contraria-lo. Isso, aliás, já parte das premissas do próprio texto.Dividi os debates em dois tipos, e espero deixar meu julgamento de valor acerca dos tipos claro para os leitores.
O primeiro tipo de debate é o que se baseia em competição: Cada indivíduo pretende colocar seu ponto de vista acima do alheio.
Por mais que isso possa soar deprimente, há casos em que esse tipo de debate é inevitável. Principalmente nas questões prática. Se tivermos, como exemplo simplório, que escolher entre dois caminhos e cada um dos argumentadores tiver uma posição em relação, dever-se-á apresentar argumentos que, naturalmente se contrapõem. Nesse tipo de debate, por vezes a razão não tem qualquer efeito: vence quem fala mais alto, quem possui voz de comando ou quem possui o poder deliberativo maior (R$).
Quando esse tipo de debate acontece no nível abstrato, se demonstra o conflito psicológico. Porque nas questões filosóficas, metafísicas, epistemológicas e suas ramificações, não há definição. A definição que cada indivíduo tem nada mais é do que um reflexo de seu psiquismo: não vai além da subjetividade.
O simples fato de esse tipo de diálogo ocorrer já nos prova que precisamos reafirmar nossos complexos: reafirmar nossa fé na proposição intelectual (ainda que cética). Apesar de tomar dimensão dialética (retórica) considerável (algumas vezes), na maioria das vezes esses diálogos não passam de discussões entre crianças: não é. É. Não é. É. Ad infinitum, porque basta que afirmemos uma opinião repetidamente para que ela se torne verdadeira.
Nesse caso, embora possa parecer, o debate não é inteiramente inútil, porque sempre que dialogamos há uma nova oportunidade para reorganizarmos nossos pensamentos. É sempre um exercício para o intelecto e para a capacidade de expormos idéias. Apesar disso, quem já participou de diálogos como esse, entendem que é inútil para o crescimento pessoal: serve apenas para dialetizarmos nossa opinião mais intensamente, e isso pode até ser prejudicial se o indivíduo fizer isso para reafirmar suas convicções de origem psicológica.
Há outro tipo de debate, que seria melhor definido como diálogo se as opiniões não fossem discordantes, havendo atrito. Um exemplo desse tipo de debate pode ser encontrado no meu blog. Um registro de um debate relativo ao conflito entre poligamia e monogamia.
http://insilasbrain.blogspot.com/2009/04/poligamia-x-monogamia-profundidade-e.html
Não é necessário que, nesse caso, os debatentes sejam individuados e nem que sejam espíritos “superiores”. Apenas se requer que ambos saibam que é improvável que suas idéias não sejam parciais. Noutras palavras, isso também poderia ser definido como humildade, embora, mesmo eu sendo arrogante pessoalmente, tenho conseguido alcançar essa meta. Para isso, é necessário que vejamos o caráter efêmero de nossas idéias, que coloco insistentemente nesse blog.
Para esse tipo de diálogo acontecer, deve haver essa “humildade” dos dois lados (se só existirem duas opiniões). Caso contrário, um afirmará que a opinião é universal, o outro afirmará que é relativa e nenhum dos dois fará mais do que repetir essas afirmações.
Quando duas pessoas partem da premissa de que anda do que pensam é absoluto, já que foram capazes de entender contextos externos e internos para o desenvolvimento de sua opinião, identificando nela seu caráter subjetivo, o debate se torna extremamente produtivo e prazeroso.
Nesse caso, os dois lados realmente se importam com a opinião do outro, tanto como complemente para a própria como para entender o psiquismo deste, o que poderia possibilitar amizades mais verdadeiras e menos fundamentadas e projeções e expectativas irracionais.
Daí decorre que os dois constroem uma visão mais profunda e até mesmo mais próxima da verdade (se é que há alguma verdade), porque um consegue dar conta das miopias do outro. Afinal, por mais que saibamos que somos míopes, isso não nos torna isentos de emitir conclusões parciais. Porque não se trata de compreensão racional, e sim de vivência: se não vivemos experiência que nos individuaram, nosso entendimento será parcial por causa de nossos complexos e do nosso tipo psicológico.
Não há a necessidade, nesses diálogos, de repetir o mesmo argumento incansavelmente, e por isso ele não nos ajude no nosso exercício dialético tanto quanto os de competição.
Mas o exercício dialético serve apenas para a comunicação: seria um absurdo pensarmos que pela mera construção dialética nós podemos encontrar alguma verdade, porque essa dialética nada mais faz do que expressar uma opinião íntima que não possui forma de palavras, mas permanece em forma de pensamento até que precise ser traduzida em palavras para ser expressa.
Justamente por isso que quem memoriza palavras pode, muito bem, não ter nenhum conhecimento acerca de seu conteúdo.

Postado por Silas às sexta-feira, setembro 25, 2009 2 comentários
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Emanuel, o maligno
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- Pare. Por favor. Já não suporto tamanho sofrimento.
- Não quero parar.
- Eu não estou procurando nada. Aquilo que eu devia encontrar, já encontrei.
- Então porque você está fazendo isso? O que eu fiz para merecer tamanha punição?
- Livre-se de pensamentos estúpidos. Você não está sendo punido por nada. Essa idéia de que você têm de merecimento é um grande erro.
- Se não me acha culpado, porque me odeia tanto?
- Ignorante. Não é porque você se move com afetos que eu também sou assim. Já que hoje é seu ultimo dia, posso te explicar essa questão. Isso me ocorreu apenas recentemente.
- Você acha que pode ser justificar?
- Que tenho eu com justificativas? Quer mesmo que eu te explique ou suas perguntas são retóricas?
O homem era bom com retórica, e pensou que, por isso, poderia convencer seu agressor de que seus pensamentos estavam errados.
- Quero que me explique.
- Pois bem. Eu percebi que os homens têm o mal dentro de si. Todos eles. Mas esse mal fica escondido e só sai em certas ocasiões. Claro que alguns já desenvolveram o poder do mal mais do que outros, mas são todos maus. Alguns só praticam o mal por um suposto bem. Daí surgem matadores de assassinos, exércitos da paz, lutas por amor. São maus, apenas não admitem.
- Está dizendo que todos os homens são maus?
- Sim, em suas devidas proporções. Por favor, não interrompa meu raciocínio.
- Certo, continue.
- Existe um principio do mal, que é mascarado com a razão. Eis o que a razão é: uma mascara e nada mais.
- Mas não pode o homem se libertar através da razão?
- Não. Através da razão os homens só fazem reproduzir ladainhas e preconceitos. Com ela, eles fazem qualquer absurdo se tornar justificável. Com o mau não é diferente. Só aqueles que alcançaram um maior nível de consciência entendem isso.
- Pode me explicar isso melhor?
- Facilmente. Veja só: muitas vezes vemos homens poderoso fazendo o mal para os outros. Dizem para si mesmos que o fazem pelo dinheiro. Ditadores matam pessoas por não o respeitarem, por serem inferiores ou qualquer que seja a ladainha que inventem. Pais espancam filhos por serem mal educados, maridos batem na esposa que é infiel. Enfim, o homem sempre encontra uma justificativa para o mal que pratica, mas nunca entende o que é o mal de verdade.
- Não são essas coisas que você definiu o mal em si?
- Não, elas são apenas o efeito do mal. São o mal maior plasmado em espíritos menores.
- E o que é o mal maior?
- O mal maior é liberto da razão. Ele não precisa de justificativa e muito menos de razões afetivas. É o mal, pelo mal e através do mal. Sem direção: um mal que vai para todos os lados. Sim, uma essência demasiadamente sutil para que espíritos inferiores percebam.
- E o bem?
- É a mesma coisa: O bem, pelo bem através do bem. Bem e mal precisam um do outro.
- Digo, você não tem o bem dentro de si?
- Eu sou o lado das trevas. Existe o lado da luz. Nós coexistimos. Eu nada mais sou do que um fragmento tornado completo. Puro mal.
- Se você reconhece que existe o bem, então deve reconhecer que, da mesma forma que todos os homens possuem dentro de si o mal, devem também possuir o bem.
- De fato.
- Daí decorre que você tem o bem dentro de si.
- Não.
- Como não?
- Eu não sou um homem.
- Parece a mim como um homem.
- Não. Eu sou metade da deusa em forma humana. Sou um semi-deus. A deusa é tanto da guerra quanto do amor. Eu sou o semi-deus que herdou a metade da guerra e havia outro semi-deus que herdou a metade do amor.
- Que houve com ele?
- A ignorância dos homens o matou, e com sua morte se foi a esperança desse mundo. Quando expulsaram daqui o amor por seus preconceitos e miopias eu tomei conta. Não podem me matar da mesma forma que mataram o amor, porque eu penetro-lhes as entranhas. Eu mesmo, por onde passo, deixo um rastro de destruição e ódio. Você tem muitas pessoas que vivem apegadas a você, justamente pro serem primitivas. Essas pessoas irão me odiar, e por isso serão iniciadas no meu mundo.
- Então é isso que você quer? Propagar seu ódio?
- Não. O que eu quero é destruir. Se meu ódio é propagado ou não, isso me é indiferente. Eu não vivo segundo o pensamento de alcançar algum objetivo. Como eu disse, faço o mal pelo mal e através do mal.
- Não se sente só?
- Todos os homens livres são solitários. Quando você mergulha no fundo da sua alma, acaba descobrindo as ligações entre os homens não passam de ilusões. Se não são expectativas criadas pelo convívio social, as expectativas têm origem no íntimo do indivíduo. O homem vive com vários mantos cobrindo sua consciência acerca da natureza das coisas, e por isso fica sempre longe do essencial.
- O que é o essencial?
- Que o apego é a causa da maior parte de seus sofrimentos. A ligação que as pessoas fazem umas com as outras traz dor sem fim.
- Ora, mas o bem poderia ser livre, tal como o mal. Assim, eu poderia chegar num nível de consciência acerca do bem tão grande que não mais teria expectativas e exigência. Da mesma forma, não me apegaria a nenhum homem, amando a todos indiferenciadamente. Não parece razoável?
- Razoável, razoável... Na verdade isso não me parece nem um pouco razoável, mas volto a dizer que a razão não me importa. Não passa de uma mascara.
- Então não reconhece o bem supremo?
- Tão humano... você é. Veja só, reconhecer com a razão é algo que já fiz a muito tempo. O Semi-Deus do amor me comunicou inúmeras vezes. É bem fácil de entender esse amor que chamam ágape através da razão. Mas entender pela razão é uma coisa, e viver é totalmente outra. Minhas palavras acerca do mal provavelmente não lhe tocaram, porque você nunca viveu nada de análogo. Eu, da minha parte, digo o mesmo acerca do amor. Nunca o vivi, e portanto acerca dele não posso emitir qualquer tipo de julgamento de valor.
- Você tem que buscar o amor.
- Você não espera, realmente, que eu simplesmente seja levado por uma tentativa tão arcaica de doutrinação, espera?
- Isso tudo que você falou são delírios! Você só quer justificar seus crimes!
- Idiota. Não entendeu nada. Não quero e nem preciso justificar nada. Eu vou te matar dentro de instantes por matar. Não quero nada de você, não tem nada me movendo a matar especialmente você e não a outro diabo. Só vou te matar porque foi o primeiro infeliz que cruzou o caminho.
- Por favor, tenha piedade.
- Essa é apenas uma palavra vazia para mim. Não reconheço um significado nela, porque não me lembro de ter sentido piedade alguma vez na vida. Como posso ter piedade de você se nem mesmo sei o que é isso?
- Piedade é me deixar viver!
- Haha! Como se sua vida fosse realmente importante! O Conceito de piedade pode, por vezes, legitimar o assassínio. Só depende de como a razão o contorce. Veja só, quando se trata de piedade eu só posso emitir raciocínios. Mas vou ser honesto. Não estou te matando por piedade e nem porque tenho algo contra você. Não é nada pessoal.
O homem fechou os olhos. Parecia rezar e pedir perdão a Deus para seus últimos momentos, esperando sua redenção.
De repente algo inacreditável aconteceu. As nuvens densas deram abertura à luz do sol, e algo veio do céu e se fixou no chão. Uma rosa vermelha, que pingava um líquido vermelho. Não havia como saber se era sangue, mas Emanuel foi hipnotizado pela flor.
- Matias, é Matias!
- Esse é o nome da Flor?
- Não, seu idiota. É sangue de Matias! Não está vendo?
A ultima gota caiu da flor, que desapareceu. Em volta do local cresceram outras flores de diversas cores, e as nuvens se foram completamente, dando lugar ao sol. A floresta, antes escura e sinistra, radiou com uma beleza imensa.
- É Deus. Veio me buscar!
- Sua estupidez não tem limites! Não percebe o que acaba de acontecer? O sangue de Matias se derramou no chão. Esse mundo será curado.
- E o mal? E você?
- Não sei. O que sei é que sempre haverá lugar para o mal no universo.
- Aquele sangue é o de Jesus! Aceite-o como seu salvador!
- Jesus, Matias. Qual é a diferença? Ambos são agentes do Ágape. Você não entendeu os símbolos que usei? Enfim, não aceito ninguém como meu salvador, Primeiro porque sou livre e ninguém me guiará a lugar algum. Segundo porque não vejo nada de que eu possa ser salvo, já que sou o mal personificado. O que você chamam de condenação é a essência da minha existência.
- Não se trata propriamente de te guiar, Emanuel, mas apenas de despertar o bem dentro de você.
- Já chega de conversa. Tenho reflexões a fazer.
Emanuel matou o homem com pressa. Pela primeira vez na vida ele não esperou o desespero de sua vítima o deliciar. Sim, havia coisas mais importantes a tratar do que o sofrimento de um diabo qualquer.
- A jornada tem que continuar. – disse seu companheiro demônio. - Tem que continuar!
Ele sentiu em sua mente a direção para a qual deveria caminhar, e foi nela sem ter idéia de onde chegaria ou mesmo se chegaria a algum lugar.
Et ecce ille surrexit cum rosam, et coelum jucundum in mihi vultum
Postado por Silas às quarta-feira, setembro 09, 2009 1 comentários
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Acerca dos complexos que impulsionam comportamentos destrutivos e corruptos
Introdução
Isso me custaria, por certo, a fama, se eu a tivesse. Felizmente eu não a tenho e nem desejo algo do gênero, o que me dá maior segurança em desafiar quilo que há de sagrado no mundo moderno.
Eu não poderia começar meu trabalho sem explicar as razões pelas quais eu me nego a aceitar várias premissas difundidas no nosso tempo e o motivo pelo qual busco outras premissas que são, de um modo geral, negadas até mesmo com piadas, e por isso essa será a primeira parte do meu trabalho.
Depois de demonstrar a validade das minhas premissas, colocarei sobre elas as minhas observações, que têm o intuito de, em primeiro lugar, trazer à tona tudo aquilo que é maléfico sem, no entanto, emitir julgamentos de valor para, assim, tentar explicar esses acontecimentos. Seguir-se-ão, nesses casos, alguns dos diversos casos freqüentemente divulgados na mídia. Daí eu pretendo extrair um fundamento parecido com a pulsão de morte de Freud, mas com certas ressalvas teóricas que serão percebidas no trabalho (afinal, aceito premissas Junguianas).
A partir daí, pretendo demonstrar detalhadamente e com exemplos os mais diversos tipos de comportamentos destrutivos e corruptos, desde um simples ladrão compulsivo que rouba coisas sem valor a um banqueiro, ou desde um marido que bate na esposa até um serial killer. De acordo com as premissas da nossa ciência, (uma premissa que não nego) pretendo demonstrar como todos esses comportamentos têm fundamentos análogos por generalização e que possuem suas origens no fato de que os fundamentos da sociedade são essencialmente anti-sociais. Em especial, e não estou certo de já estar apto a isso, pretendo buscar uma forma de ao menos amenizar os efeitos dos complexos que movem os homens a tais comportamentos, buscando, assim, uma forma de convívio mais pacífica.
Cometerei uma série de erros, mas esse é um trabalho de toda uma vida e não apenas de uma monografia terminada, e por isso provavelmente será alterado em contato com novas evidências.
Que fique claro, no entanto, que não busco provar certas premissas como verdadeiras, mas que, pelo contrário, os próprios fatos me levaram a tais fundamentos.
Sobre os fundamentos do método
Por vezes percebi como, de forma explícita, as pessoas observam certos eventos e revestem estes de significados totalmente metafísicos.
Mas, diferente do que se assume normalmente, não é só o conhecimento religioso que se baseia em metafísica: todas as formas de pensamento possuem algo de metafísico, pois a metafísica é sempre o fundamento dos pensamentos. Sempre partimos de um ponto no nosso pensamento que simplesmente não pode ser provado de forma absoluta, e isso destitui de sentido nossas tentativas de dar um ar definitivo às nossas idéias.
A ciência, apesar de se afirmar empirista, se guia por certos fundamentos metafísicos, que pretendo explicitar.
Em primeiro lugar, nossa ciência está receptiva apenas aos conteúdos oriundos dos sentidos. Assim, foram criados (e continuam sendo) métodos com os quais podemos observar melhor todas as coisas com os sentidos, já que é só esse tipo de observação que é considerada correta nos dias de hoje.
A despeito do nosso sensacionalismo sobre a grande descoberta que é o fato de que a mente humana se encontra em constante mutação, Heráclito já havia chegado a tal conclusão sem acesso a isso por meio dos sentidos. Foi uma forma intuitiva de se conseguir o conhecimento. Uma abstração filosófica inteligentíssima, que o modo sensitivo de observação só pode entender milênios depois.
Esse e outros exemplos demonstram que existe outra forma de adquirirmos conhecimento que não apenas a observação objetiva e submetida ao rigoroso e dogmático método científico.
É claro que não pretendo generalizar a outra forma de se ver as coisas: ambas têm sua utilidade e validade contanto que não tentem invadir o campo da outra, como acontece hoje.
Essa forma Jung chama de intuição, e considero o termo adequado, e por isso me sirvo dele.
Através do conhecimento intuitivo, que não é menos válido do que o da sensação, percebemos como são ridiculamente óbvias e preconceituosas algumas idéias da ciência moderna sobre os fundamentos do comportamento humano.
Uma delas é a tentativa que vem sendo empreendida de submeter o comportamento humano, e traços comuns, ao paradigma evolucionista. Ora, considero esse paradigma excepcionalmente bem sucedido em integrar de forma didática o estudo sistemático dos seres vivos, e reconheço as diversas evidências que colocam o evolucionismo como teoria válida para justificar a origem das espécies, tais como os fósseis.
Apesar de ser logicamente plausível admitir que, se o ser humano se formou através de sucessivas mutações, ele deve ter tido grande parte de seus comportamentos inatos formados através da pressão seletiva, não deixo de notar certas características no próprio comportamento humano que contradizem esse paradigma de forma gritante.
Aliás, pelo que eu observei, o próprio paradigma, que é muito apoiado por ser o fundamento de nossa sociedade, parece estar fundamentado num complexo específico, que denomino o complexo de Frederico.
É claro que não podemos, já há muito tempo, colocar as premissas do evolucionismo no convívio entre os humanos, pois as variáveis são tão numerosas que até mesmo o mais inapto de todos os indivíduos pode deixar mais descendentes do que um extremamente hábil.
Ao contrário do que se diz, o que deu ao ser humano a possibilidade de subordinar as outras espécies não é um impulso essencialmente competitivo, mas sim cooperativo. Foi através da união que o ser humano formou a vida em sociedade, e encontramos em diversas sociedades essa mesma idéia: devemos amar ao próximo como amamos a nós mesmos.
Mas, do ponto de vista evolucionista, seria muito mais vantajoso criarmos uma imagem de que amamos ao próximo sem que isso seja verdade. Noutras palavras, nessa forma de pensamento e na sociedade que se baseia nela, o que trás “sucesso” é efetivamente o que os políticos fazem. Isso se plasma em certos livros propagados no meio corporativo, que proclamam ter encontrado uma forma revolucionária e nova de medir a inteligências das pessoas. Eu chamaria o que eles chamam de inteligência emocional de capacidade de manipulação, pois o paradigma está obviamente direcionado á ampliação do potencial de trabalho. Sendo fundamentado pelo evolucionismo, o livro é claramente um manual de hipocrisia.
Não fico admirado, então com o ímpeto com o qual os cientistas criacionistas buscam desacreditar o evolucionismo. Afinal, tal paradigma torna comuns certos comportamentos totalmente destrutivos, como mesmo o nosso capitalismo selvagem. Afinal, é natural que o mais forte tenha sucesso e o mais fraco seja derrotado.
Dessa forma, seguindo o ponto das sensações e do materialismo, se coloca em questão que o ser humano é essa maquina, que nada mais faz do que servir a esses impulsos egoístas.
É claro que, como se vê, existe outra questão a ser avaliada, que é a espiritualidade. As crenças religiosas em todos os tempos têm sido o fundamento para o comportamento mais ético para com os outros, fazendo com que os homens evitem buscar apenas o benefício próprio.
Algumas visões religiosas modernas não passam de fraudes dos sentidos. Noutras palavras, elas prometem justamente aquilo que vai contra a religiosidade: recompensas depois da morte, sucesso mesmo nessa vida. A teologia da prosperidade, que gerou um novo império no nosso país é um bom exemplo desse tipo de corrupção da religiosidade, que é notado pelos religiosos.
De fato, a maior mensagem que todas as religiões querem passar é aquela da conexão. Amai ao próximo como a ti mesmo, quer dizer, efetivamente, que devemos evitar o paradigma de que nós somos independentes do próximo, pelo contrário, é um sentimento comum no ser humano em todos os tempos e lugares: a necessidade de conexão. É por isso que existem religiões, e não porque alguns indivíduos desejam se iludir com ilusões vazias de sentido.
Dessa forma, no próprio desenvolvimento da psiquê humana, se percebe essa busca pela espiritualidade que contradiz abertamente a idéia de competição e à de separação. Se o ser humano, na sua constituição psíquica, busca a união, então é forçoso que ele não poderá moldar seus comportamentos com utilitarismo obviamente ridículos do evolucionismo. Até porque, a plasticidade do ser humano vai para muito além daquela vista nos animais, e, por conseguinte, seus comportamentos são moldados para muito além de questões meramente adaptativas.
É fato consumado que a vivência humana transcende a racionalidade, e a própria espiritualidade é prova disso. Além disso, a fragilidade da racionalidade ficou clara com a demonstração sobre a metafísica: não existe nenhuma forma de pensamento que não tenha um fundamento metafísico, e a metafísica se forma em paralelo à identidade dos indivíduos.
Com o paradigma evolucionista não é diferente: uma certa maneira de se ver o mundo como projeção da própria identidade torna totalmente plausível que o vejamos segundo tais premissas. Segundo a tipologia Junguiana, essa forma de pensamento seria fundada no materialismo, que é pensamento com função auxiliar de sensação ou sensação com auxiliar pensamento.
Mas a origem psicológica do evolucionismo vai para além da tipologia, pois, como percebi, ela também está pautada em certos complexos, que são conectados a arquétipos.
Muitos imperadores por toda a história da humanidade demonstraram ser dominados por tais complexos. Aliás, hoje não é diferente. Diversos documentários expõem aos olhos de quem quiser ver certos esquemas que homens criam para alcançar benefício material próprio. Por, no momento, não dispor de material mitológico que represente o que quero expor, usarei a história de um dos meus personagens, mas isso nos capítulos subseqüentes.
A questão aqui é que o próprio paradigma capitalista é um propulsor que pretende levar indivíduos a acreditarem que o benefício real é o material, já que toda a história da evolução assim o demonstra. É um fundamento doentio que se espalha rapidamente pela sociedade e que aumenta os índices de depressão. Ainda hoje, confusos pela falha de suas racionalizações, alguns indivíduos dizem: “ele tem de tudo, cheio de dinheiro. Como pode se deprimir?”.
Entra em depressão porque a mente humana é um projeto esperando para ser realizado, e este nada tem a ver com adquirir benefícios materiais. Muito pelo contrário, o equilíbrio que o Inconsciente induz leva os indivíduos buscarem coisas para além da matéria. Usar uma racionalização através da qual se afirma que são motivados por mesquinharia todos os tipos de manifestação religiosa não muda o fato de que essas manifestações continuam acontecendo, já que são naturais. Acerca do que vem após a morte não temos nenhuma garantia de nada, nem de que deixaremos de existir. Acreditar, então, em alguma metafísica para isso é seguir a própria natureza, enquanto que negar em nome de uma pretensa honestidade é impor uma interpretação a si mesmo e sofrer inutilmente (já que o fundamento desta visão é tão metafísico quanto o da religião).
No entanto, se até aqui um leitor religioso se manteve (imagino) satisfeito com o ponto de vista exposto, na continuação desta primeira parte ele deve mudar radicalmente de idéia. Tal como Jung, não busco agradar a gregos e nem a troianos.
A questão da religiosidade, em primeiro lugar, muitas vezes não passa de projeção de conteúdos inconscientes, como o arquétipo maternal projetado sobre a igreja. Na impossibilidade de integrar a vivência religiosa à consciência, o indivíduo faz projeções que, por vezes, tomam forma visível em visões, e, diante disso, ele atribui um caráter objetivo à sua vivencia religiosa, quando ela é subjetiva.
Além disso, a própria religião, na maioria dos casos não permite a integração dos conteúdos psíquicos á consciência, porque parte de premissas doutrinárias. Assim, na maioria das vezes, a religião não passa de um organismo que, através do poder das organizações coletivas, impõe certos códigos de conduta.
A vivência que Jung costumava definir como Participation Mystique não se trata do contato objetivo com Deus ou mesmo sua imagem arquetípica interna: na verdade o profundo sentimento dos participantes se deve ao contato com o grupo. Tanto isso é verdade que eles se unem em grandes grupos ao invés de realizar seus rituais sozinhos: porque sozinhos eles poderiam efetivamente integrar isso a consciência.
Na verdade, o que se vê são indivíduos, cegados pelo poder massificador da coletividade, seguirem códigos morais irrefletidamente, o que possibilita a manifestação dos indivíduos corruptos que eu me presto a avaliar, que, nesse contexto, surgiriam para manipula-los.
O paradigma evolucionista, objetivamente, leva à idéia de opressão do mais fraco e hipocrisia, e grande parte da moral religiosa leva à idéia de submissão. Noutras palavras, os dois juntos são dois fundamentos de mentalidade que causam a maior parte das nossas mazelas.
Eu não poderia, então, olhar essa questão do ponto de vista moralmente aceito, com indignação, e nem com o ponto de vista da ciência moderna, porque essa não passa de um complexo racionalizado.
Pelo contrário, para avaliar tais questões será preciso, em primeiro lugar, haver um confronto profundo com o lado negro da existência, transcendendo o maniqueísmo, e também será necessário expandir a compreensão das coisas para além de paradigmas parciais. Ir para além do bem do mal e para além da racionalidade.
Por um e por outro motivo que considero esse livro de difícil leitura: excluindo minha dificuldade de expressão, a mensagem simplesmente não será aceita por aqueles que se mostrarem racional ou sentimentalmente resistentes aos assuntos tratados, embora sejam de extrema importância.
Postado por Silas às quinta-feira, setembro 03, 2009 6 comentários
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