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An open wound


Tenho uma ferida aberta
Ela pulsa, emana perfume
Mas apesar da dor...
É ela que me faz respirar

A ferida separa um lado do outro
Nada poderia uni-los, sará-la
Mas é ela que me põe em movimento
A dor move a vida, parece

Eu passo pelos lugares
O sangue vai pingando
Parece até infinito
Ele se dilui no mar do cotidiano

Pragmatismos me distraem
Conhecimentos me arrebatam
Mas nada disso seria possível
Sem o perfume de saudade

Dessa ferida aberta que tenho no peito...

Foi de início como a lança do destino
Não poderia ser de outra maneira
Atravessou a minha alma
Pôs tudo em chamas

Depois a ferida secou
Já até ameaçava sarar
Quando foi reaberta brutalmente
Veio pra ficar...

Então eu aperto e deixo sangrar
Que é pra sentir o aroma
Há alguma força no universo
Que não me deixa esgotar...

Chamemos isso de amor...


A Sombra e o por do sol


Há algum tempo senti
A brisa de uma bela manhã
A luz do sol invadiu o meu quarto
Despertei com vigor

E apesar de algumas nuvens
Apesar da leve chuva
O sol iluminou o dia
Quis congelar aquele momento

Em minha tolice
Quis que a chuva parasse
Mas que chuva responde ao nosso desejo?
Antes do meio dia, a sombra chegou

Justamente na parte mais intensa
Quando o sol te queima
Quando o verão mostra sua natureza
Lá estava aquela enorme nuvem

O Dia ficou cinza

Eu procurei saber
Sobre rituais, danças, alguma coisa
Pra mandar a chuva embora
Até tentei alguns

Nada adiantou

O dia passou assim, frio
A despeito da previsão, que dizia o contrário
Até que chegou o entardecer
E eu vi o sol por um instante

Mas logo desapareceu

Entrei novamente em casa
Deixei o guarda chuva na porta
Tenho minha proteção contra a tempestade
Uma cama quente...

Mas passou-se o por do sol
Passou-se o dia, sem que eu o visse
E agora resta a noite, o abismo
Resta mergulhar

E procurar as belezas do submundo

Afinal, o reino dos céus já não me aprova...

Deixem-me voltar pra casa



Esse mundo é frio, congelado
Vocês o sabem, já vieram aqui
Andar por aqui queima a pele
Fere o coração, mesmo de um soldado

Selvageria, brutalidade, imbecilidade

A noite está fria
Quero meu cobertor
Ele está em casa, com os meus
Tudo o que eu amo está em casa

As palavras falham, sabe?
Na verdade nem sei mais nomear
As coisas que mais amo
Não tenho capacidade de relembrar

São idéias inconcebíveis de um mundo antigo

Mas essa noite está silenciosa
Quero os sons do lar
Então deixem o sono me levar
Só por essa noite, voltar pra casa

Porque vivendo nesse mundo
Carregando essa sensação horrível
Tudo o que eu preciso agora é disso
Ir para o meu lar, onde nada mais importa

Poderiam vocês, generais dos astros,
Conceder um dia de folga dessa tarefa?
Deixar-me esquecer meu posto
E voar no túnel pelo espaço?

Reflexões sobre a poligamia: despedaçamento e costura


Eu não poderia deixar de começar esse texto com uma fala de uma professora minha. Estou certo de que ela não se importará.
Certo dia, relutante de abordar assunto (provavelmente por ser cristã), a professora tentou trazer o assunto da sexualidade e dos “ritos” que usamos pra criarmos pares. Se enrolando pra pronunciar o que ela queria dizer, ela acabou perguntando quem eram os solteiros da turma e ninguém respondeu. Talvez ela não tivesse em mente que se declarar solteiro traz uma série de compromissos e, quiçá, danos à auto-estima. Ninguém respondeu, e a reação dela eu nunca mais vou esquecer:

- “Mas é só o Silas que é solteiro nessa sala?” – disse ela.
- “Espere um pouco, quem disse que eu sou solteiro?” – disse ela
- “Ah, você não é?” - disse ela num tom de descrença

Eu me perguntei se minha conduta mostrava isso: sempre pensei que a poligamia fosse facilmente escondida, bastando apenas não declará-la tão abertamente. Mas não foi o caso...
E não acabou por aqui.

- “Eu quis saber quem eram os solteiros pra perguntar como os rapazes paqueram” – disse ela com aquela risada de criança arteira
- “Mas quem disse que só os solteiros paqueram?” - eu comentei
- “A, mas esses são os safados” – ela disse num tom de voz baixo sem me olhar nos olhos.

Não acredito que ela tenha percebido o impacto que aquilo teve e como isso se ligou a tudo que se passa nesse mundo estranho. Depois dessa introdução só me resta fazer algumas confissões e assumir que faço parte de um grupo para o qual a sociedade dá as costas. Um grupo de “safados” que são “contra os direitos humanos” e que estão deflorando, por sua própria condição, toda a secular idéia de família. Os polígamos.

Acredito que descobrir algo assim tem algumas semelhanças e diferenças com descobrir a homossexualidade. Trata-se de uma condição, não de uma escolha; e também é uma coisa discriminada, considerada pecaminosa, moralmente incorreta; é, aliás, praticada desde que o mundo é mundo inclusive em sociedades que a proíbem. Mas, diferente dos homossexuais, os polígamos não possuem um movimento forte e politicamente engajado; não têm uma identidade atrelada à sua condição e nem locais onde realizam suas atividades. Não há quem os ampare, nem onde possam recolher nossa cabeça. Além disso, há pouca perseguição sistemática e violência física, como acontece com os homossexuais, especialmente porque a cultura masculina tende a não reprovar essa conduta. Exceto, é claro, quando isso os afeta: se sua mulher decidiu ser polígama, por exemplo. Nesse caso, os polígamos são mortos por pessoas pessoalmente afetadas enquanto que, com freqüência, homossexuais são mortos por estranhos que os perseguem por razões culturais e psicológicas.

Boa parte dos polígamos fogem da honestidade. Assim, se envolvem em relações onde se presume a monogamia e simplesmente pulam a cerca. Para alguns a verdade não é tão importante quanto amar, então vivem cada momento com seus segredos, suas vidas duplas. A respeito de tal classe de polígamos nem tenho muito a dizer. Talvez mintam pra si mesmos dizendo que o outro parceiro é somente algo do momento ou só carnal, talvez só mintam pra todos, inclusive seus parceiros e só se preocupem consigo mesmos. Talvez sejam eles os responsáveis pelo sofrimento dos demais, na medida em que criam o estereótipo de promiscuidade que se associa a tal grupo.

Há outros que estão por aí nos guetos. São com freqüência bissexuais, usuários de drogas ou simplesmente marginais. Sua anomia tem tamanha proporção que a poligamia nem é um problema. Não sei se são corajosos ou loucos, mas a realidade é que não vão ser aceitos como cidadãos decentes e dificilmente os veremos sendo publicamente respeitados. Aliás, tenho a impressão de que esses grupos marginais tendem a funcionar com mecanismos que levam seus membros à progressiva entropia: sendo eles rejeitados, revoltados, anarquistas, acabam vivendo uma vida de pouca perspectiva onde só possuem respeito entre seus pares íntimos.

Seja pelo meu temperamento, seja pela minha criação, não consigo me adaptar a nenhum dos dois.

A idéia de mentir para as pessoas que amo é repulsiva. Tal atitude denotaria apenas que amo a mim mesmo acima de todas as coisas, e isso não é verdade. Nada, pra mim, vai além do amor. Isso é mais uma realidade do que uma escolha: se não compartilho tudo, não compartilho nada. E se não compartilho nada, não há relação, não há intimidade de nenhuma forma.

A idéia de sair pro gueto simplesmente não se encaixa em mim. Não tenho os traços de personalidade que são necessários para a integração num grupo desses. Sou excessivamente tranqüilo, excessivamente pacífico, seguro, estudioso, etc. Eu sou tudo que o gueto despreza e minhas relações, de uma forma geral, são coisas que vivem à luz do dia. Posso ser anarquista, mas isso é um posicionamento intelectual sociológico e epistemológico (Feyerabend): não uma atitude, não há muito de estilo de vida nisso, mas no estilo de pensamento. Isso sem falar que, por conseqüência, as pessoas com quem me envolvo não fazem parte de guetos e não vivem, de forma alguma, qualquer tipo de anomia. São de “família”.

O resultado disso tudo é que não há um espaço na nossa sociedade onde a poligamia se encaixe e, simultaneamente, eu possa me encaixar. Relações, no meu contexto, se constroem de maneira íntima, amorosa e aberta. Na realidade, pensando bem, se não fosse pela poligamia, estaria na posição de dizer que me relaciono de maneira bem saudável. Mas o saudável é algo culturalmente constituído, e como a professora disse, quem não é monógamo é safado.

Mas o que um polígamo nessa situação pode fazer? Compartilhar, de um modo geral, significaria perder a confiança, o amor das pessoas mais próximas. Não compartilhar significaria não tê-las como próximas. O problema é que uma espécie de censura que as pessoas têm, algo que as impede de amar outras pessoas quando estão comprometidas, não é algo dado aos polígamos. Não há a experiência de um amor ofuscando, acabando com o outro. 
O que se procura é colocar as cartas na mesa, compartilhar e viver constantemente com o terror de que, num dia dessas, quem você ama não mais tolere sua condição e te deixe. Ou então acreditar na mentira de que tudo pode ficar sobre controle e viver sempre no risco de cair em tentação ou simplesmente surtar por essa vida de negação de si mesmo. Mesmo assim, não há como todo os amores se tornarem realidade, pois a esmagadora maioria das pessoas não aceitam dividir; e se aceitam, geralmente há condições específicas que são impostas pra manter a estabilidade.

Se o polígamo tiver sorte, se ele for profundamente amado, talvez consiga viver mais de um desses amores, mas não pode haver conflito de papéis. 
Isso me lembra da relação de Jung com Emma e Tony. Em seu coração e em seu discurso, pelo que sei, ele as amava e as considerava suas esposas. Mas ela nunca foi reconhecida, nunca teve filhos e nem podia participar dos almoços com a família. Por mais que eles se amassem, ela nunca pode conflitar com Emma, que era a mãe dos filhos de Jung. Talvez esse tenha sido um caso de sucesso, pois, até onde sei, o próprio temperamento de Wolff era independente demais pra levar uma vida tal como a de Emma, mas ela não foi a única. Há rumores de que Jung teve uma relação com Sabina Spielrein e cartas que parecem dar créditos a eles (ver memórias, sonhos e omissões - Dr. Sonu Shamdasani). No entanto, nesse caso não houve qualquer tipo de acordo. Ela quis Jung por completo e ele não pôde ceder. O que não significa, é claro, que ele não a amou. Apenas que houve um conflito com relação aos papéis, pois Emma Jung era, para Jung, seu fundamento, Toni Wolff era a essência e Spielrein, aquela que não teve lugar. Diríamos que esse caso foi de menos amor, de menos importância do que os outros? Creio que não. Mas de uma coisa eu sei: por mais que tenham aceitado, Toni e Emma sofreram. 

Tudo o que resta, portanto, é lutar com todas as forças para não deixar alguns amores se tornarem vividos, é se evadir do próprio coração! É ver quem nós amamos desamparado, desprotegido, sem que possamos fazer qualquer coisa a respeito. É ter para uma pessoa um lugar quente no coração e, ainda assim, assistir ela congelar diante dos olhos.

Na realidade, me vejo com o temperamento tão parecido com o de Jung em certos aspectos que chego a questionar e rejeitar certas características de sua obra, por mais que a admire. Talvez eu consiga fazer como ele, talvez eu faça como a figura que se encontra no topo desse post. Mas a realidade é que, de uma forma ou de outra, essa condição será sempre um podre, algo a ser escondido, a ser, inclusive, negado em sua existência; sempre trará, aliás, sofrimento e insegurança pra quem estiver envolvido, talvez pela bagagem cultural.

Talvez algum dia isso mude, talvez um dia um homem possa erguer sua cabeça, se declarar polígamo e ainda assim ser reconhecido como um cidadão decente que preza pelo bem de todos. Mas isso só vai acontecer que houver união.



Sobre a imposição da lei de Biossegurança



Introdução

O presente trabalho tem como objetivo ilustrar a teoria de Howard S. Becker com o exemplo da lei de Biossegurança, parcialmente aprovada em 2007 no congresso brasileiro. O intuito é mostrar como cada grupo envolvido atuou na imposição dessa lei, ilustrando essas ações com declarações de membros de cada um dos lados do conflito. Vamos, ainda, demonstrar como cada um parte de uma noção de vida diferente e como a lei, se ficasse fixa com os argumentos de apenas um lado, prejudicaria diretamente as instituições envolvidas: A Igreja e a Ciência.

Conflitos ideológicos

Os grupos religiosos cristãos se engajaram na discussão da lei de biossegurança com o intuito de impedir que qualquer tipo de pesquisa e tratamento com células tronco embrionárias fosse feita. Nesse conflito, diversos argumentos falaciosos foram utilizados por religiosos.

“A mídia tem explorado os testemunhos de portadores de doenças crônicas para as quais ainda não existem tratamentos que, justa e honestamente, buscam a cura para seus males. Esses testemunhos muitas vezes visam sensibilizar a opinião pública no sentido de se obter a rápida aprovação de leis que autorizem os cientistas a utilizarem embriões humanos como se isso pudesse "apressar" os resultados desses trabalhos de pesquisa, o que não é verdade porque as pesquisas com células-tronco retiradas de outros tecidos humanos (placenta, medula, entre outros) continuam se desenvolvendo a passos largos, no sentido de se alcançar os benefícios para a saúde de todos, o que é também o anseio da Igreja.” ( Pe. Vando Valentini - Coordenador do Núcleo Fé e Cultura da PUC/SP)

Pode-se notar que o padre procura ocultar o fato de que células tronco totipotentes e pluripotentes, que são mais eficientes para a pesquisa com células tronco, só podem ser encontradas em embriões. Claro que ele usa esse argumento por conta de toda uma visão de mundo. Isso fica ilustrado na fala do autor no mesmo artigo[1]:

“O que fazer com as pessoas doentes que poderiam esperar ser curadas a partir do uso da vida de embriões humanos? É preciso cuidar delas. Tenho certeza de que ninguém quer salvar sua vida à custa da vida de outro homem inocente.”

Aqui podemos perceber que há a noção de homem inserida no zigoto, dependente de toda uma visão de mundo, segundo a qual o zigoto já possui uma alma. Ora, nos discursos que afirmam que a vida começa na nidação[2], ou que começa na formação do sistema nervoso central a noção de alma fica em segundo plano, dando lugar à noção de que a vida é um fenômeno biológico. Ter essa crença disseminada como conseqüência das práticas de pesquisa e de tratamento significa enfraquecer o poderia político da igreja. Isso significa, basicamente, que a igreja está se defendendo enquanto instituição contra uma prática que lhe será prejudicial.
Outro exemplo ilustrativo dessa posição parcial que visa defender os interesses da igreja consta na fala de Dalton Luiz de Paula Ramos[3]:

“Um dos pontos que se coloca é o uso de zigotos/embriões humanos como fonte das células tronco, que suscita duas perguntas: Os zigotos/embriões são a única fonte possível dessas células? Qual o estatuto dos zigotos/embriões humanos?
À primeira pergunta, muitos cientistas respondem NÃO. Afirmam que, com células tronco retiradas de tecidos de indivíduos adultos, é possível obter sucesso terapêutico.
Quanto à segunda pergunta, o dado incontestável da genética é que, desde o momento da fecundação, ou seja, da penetração do espermatozóide no óvulo, os dois gametas dos genitores formam nova entidade biológica, o zigoto, que carrega em si um novo projeto-programa individualizado, uma nova vida individual.”

É explícito que o autor busca exibir apenas parcialmente a questão da fonte das células, pois não é útil para a sua causa exibir a diferença gritante entre as células-tronco de tecidos adultos e a dos zigotos. Além disso, ele usa o termo embriões junto com o do zigoto, parecendo indicar que pesquisas são feitas com embriões. Mas não são.
No segundo argumento, voltamos à posição de que o zigoto, somente por possuir um código genético diplóide, é uma pessoa. Isso depende da noção de que há um espírito nesse zigoto. Caso contrário, só consideraríamos uma pessoa em potencial aquele zigoto que pelo menos sofreu a nidação, e que se encontra em desenvolvimento. O objetivo aqui não é falar contra a noção de espírito, mas deixar claro que essa não é uma noção científica, mas que é apropriada pelos religiosos como um dado científico incontestável porque isso dá ao argumento deles maior peso, por mais que seja falacioso, diante dos leigos. E isso é suficiente para gerar força política no sentido de impor a lei.




[1] http://www.ghente.org/temas/celulas-tronco/artigos_padre.htm
[2] Fixação do zigoto no útero materno
[3] Professor Associado da Universidade de São Paulo - http://www.ghente.org/temas/celulas-tronco/artigos_dalton.htm

Uma breve correspondência intergaláctica

De: Roberto
Para: O Místico da Montanha

Caro amigo e conselheiro. Venho por meio dessa correspondência solicitar o contato imediato entre as nossas civilizações, no intuito de, nesse contato, expandir o conhecimento humano à nossa disposição e, conseqüentemente, propiciar maior avanço tecnológico. Espero que você entenda que o que busco não é tecnologias e paradigmas prontos para que possamos copiar, mas uma forma de influência que possa mudar o curso de ação das pessoas, que faça com que elas tentem criticar a epistemologia da vida. Meu intuito é causa uma massiva onda de revisão paradigmática, na qual a humanidade poderia evoluir. Temo que minha civilização possa se autodestruir. Ou quem sabe se afundar em mitos milenares, entendidos como destituídos de história e de contexto social.

De: O Místico da Montanha
Para: Roberto

Caro habitante dos vales terráqueos. Entendo sua angústia em relação aos paradigmas do seu planeta, que você considera primitivos, mas a verdade é que essa sensação é endógena. Não estou dizendo que sua civilização não tenha lições para a aprender com a minha, mas que essa sensação não decorre da imperfeição da sociedade, mas da inconformidade dela com sua identidade. Para ser mais claro, uso a mim mesmo como exemplo. Meu nome de nascimento é pobremente traduzido como criador de tecnologia. No entanto, contrariamente às expectativas da sociedade, eu tive uma espécie de vivência interna, uma espécie de contato com algo maior, que mudou o curso das minhas ações mais ou menos na época da aquisição dos robôs moleculares individuais, aos 20 anos. Eu me tornei um místico para uns, um conselheiro espiritual para outros, um charlatão para muitos. Com freqüência fico pasmo com a falta de sabedoria, a falta de espiritualidade de alguns de meus companheiros. E também me causa muita aflição que eles tenham tamanha influência na sociedade.
Essa aflição, no entanto, decorre apenas da diferença. Se eu modificasse esse aspecto da sociedade, haveria outro que tomaria seu lugar como fonte de insatisfação. O que você manifesta pra mim é um desejo de submeter o mundo aos seus ideais, plasmados na minha sociedade. Estou falando isso porque te conheço, e porque seu sofrimento pode ser resolvido de dentro pra fora.
Com relação ao contato, estou de acordo com os estudos cognitivos mais recentes acerca da mentalidade dos habitantes do planeta. É comprovado que a esmagadora maioria da população do planeta não possui capacidade cognitiva para entender sequer 10% da complexidade das nossas tecnologias. Além de que ainda impera na população um sentimento de apego à tradições, decorrente do seu sistema de comunicação insuficiente. Na verdade, quando vocês estabelecerem sua teia de comunicação global e facilitarem a interface de acesso, passarão ainda boas décadas até que se torne suficientemente frágil o apego à tradições. Com esse apego, nossa cultura parecerá repugnante, pecaminosa, sagrada. Jamais chegará perto de se parecer, aos olhos dos habitantes, o que é.
Se você quer exemplos disso, tome a chegada de Matias no Planeta. Primeiro foi interpretado como anjo dos céus, depois como suspeito de criminoso. Imagine como seria a reação da sua população ao saber que nossas relações são com freqüência polígamas, que as pessoas mudam de aparência completamente em segundos, ou até mesmo de sexo, e que nossa identidade não possui nenhuma relação com nossa aparência estética (afinal, nós a construímos e reconstruímos freqüentemente em cada mínimo detalhe desde os 20 anos de idade)¿
Não entenderiam como o fazemos, pensariam que somos corruptos, demoníacos. Tentariam ataques fúteis, que não nos causariam nenhum dano, mas que acabaria por reforçar a noção de que somos criaturas perigosas, por não sermos passíveis de assassínio por meio de suas armas primitivas.
Seu conceito de evolução é vago, e ainda mais a própria noção de evolução social é um erro etimológico: o que se observa na história não é o desenvolvimento de uma única tendência, mas o surgimento e o desaparecimento de diferentes tendências. O que você interpreta como nova etapa da evolução humana não passa de mais uma tendência, a qual será “superada” na próxima geração por outra que não a complementa de maneira alguma, mas que será adequada ao novo contexto.
Acerca dos mitos, é uma questão de assimilação: algumas pessoas não desenvolveram sua capacidade cognitiva, mas ainda assim precisam saber. É um impulso básico, a vontade de saber. Para isso, estabelecem ou recebem critérios proporcionais ao seu potencial e dão seu próprio sentido à vida. Recriminar essas pessoas é o mesmo que recriminar um cachorro por insistir em latir, mesmo quando instruído a falar.
Espero não ter te desanimado.

Hera

Vigia, interfere, protege
Define as estações do ano
Ela é a rainha do Olimpo
Odeia a infidelidade

Eu quis tomar Perséfone
Sim, levá-la para o submundo
Torná-la minha rainha
Cuidando dos mortos

Como se fossem seus filhos

Mas hera interferiu.
Desde o começo...
Ela a trouxe de volta
E com ela, a primavera

Quando a vejo no mundo dos vivos
Minha avidez por possuí-la passa
Até minha vivência infernal amansa
Tantas cores, tantos aromas...

Hera, que deveria estar ofendida,
Veio me resgatar do meu tormento
Trabalhando em silêncio
Pensando que não a ouço...

What i am to you



Sou só mais um
No meio da curva normal
Mediano, previsível, comum
Uma representação média

Eu sou algo irrelevante
Que é indigno de preocupação
A sombra do homem invisível
Um detalhe pequeno demais

Sou uma fonte útil de calor
E também uma força propulsora
Dou proteção e sou força motriz
Sou instrutor e escudeiro

Enquanto eu for uma distração
E enquanto tiver alguma utilidade
Terei meu lugar dentro de você
Dentro do seu tubo digestório

Vou ser ruminado, corroído
Arrastado, sugado até a última gota
Então meus restos mortais serão expulsos
E meu funeral será girar e ser eliminado

Mas saiba de uma coisa
Que talvez eu entre no seu sangue
E aí chegue ao seu coração
Nesse ponto, não haverá volta

Uma brincadeira epistemológica com o Macro-evolucionismo e órgãos vestigiais

Introdução

Em primeiro lugar, para quem nunca leu esse blog e acabou aqui por acaso, deixo evidente no título o caráter desse texto. Não se trata de um texto com zombarias pueris, mas de uma concepção filosófica: que a reflexão, a busca por conhecimento, não passa de uma brincadeira. Na verdade, a impressão que tenho é que, se não fosse pela diversão, aprender e pensar seria uma perda total de tempo. Se você não tem prazer nisso, nem se preocupe em ler, porque não será um texto pequeno. Basta você descer a barrinha do seu navegador pra constatar a veracidade do que digo.

Já em segundo, e mais direcionado ao tema em questão, o que proponho aqui é fazer uma brincadeira com dois preceitos do evolucionismo, o de Macro-evolução e o que postula a existências de órgãos vestigiais. O que farei aqui é tomar a evidência que encontrei nesse site[1] e reinterpretá-la longe da visão evolucionista, dando ênfase noutro conjunto de premissas teóricas. Se eu for refutado por alguém, o que é provável, apesar de poucas pessoas se interessarem pelo tema e/ou pelo meu blog, ainda assim ficará como um registro de como são frágeis nossos modelos de interpretação dos fenômenos.

Premissas fundamentais

Em primeiro lugar, eu gostaria de postular premissas para essa base epistemológica com a qual irei interpretar os dados.

1)      As espécies em sua variedade cromossômica foram geneticamente contruídas.
2)      A construção foi gradual, tendo várias espécies sido construídas a partir de outras que a precederam.
3)      Não houve apenas um engenheiro trabalhando, mas vários. E em diferentes épocas do planeta.
4)      Micro-evolução é uma realidade observável.

Sobre a primeira, deixo claro do que estou falando. Se uma espécie de lagartos se separou e sofreu mutações morfológicas e comportamentais, inibindo a reprodução no caso do reencontro, isso não quer dizer que tenham mudado em nível cromossômico. Se duas espécies podem se reproduzir no nível das gônadas, então podemos dizer que são iguais em nível cromossômico. Portanto, que têm a mesma origem em Design e que se adaptaram a diferentes ambientes apenas, sem se transformarem em algo diverso.
Sobre o primeiro, é bom recorrermos ao conceito de Scrip em programação. Um Script de uma determinada linguagem de programação é um fragmento de programa que pode ser utilizado em outros programas para facilitar a programação. Assim, muitas vezes ao invés de programar todo o código, o programador usa scripts para facilitar a própria vida, o que pode tornar alguns programas bastante similares. No caso dos seres vivos, poderíamos presumir que os programadores construíram as diferentes espécies partindo de um preceito análogo a esse.
Ou seja, que usaram códigos genéticos já prontos para construir novas espécies. Nesse aspecto, a aparência de que as espécies se transformam gradualmente é verdadeira, mas tais transformações não foram, de forma alguma, espontâneas. Antes, foram o resultado de sucessivas reprogramações.
Quando presumimos que há vários programadores criando novas espécies a partir de outras que conseguiram sobreviver em épocas diferentes, fica claro que eles não possuíam um “backup” com um código puro da espécie. Portanto, não refuta tal proposta que humanos tenham marcas de DNA viral em seu organismo que são idênticas as dos chimpanzés. Isso só prova, segundo tais premissas, que ambas as espécies foram programadas segundo o mesmo DNA-base, de uma espécie ancestral.
Daí, portanto, decorreriam todas as semelhanças ontogenéticas, genéticas, fenotópicas e comportamentais dos animais.
Quando falo que há mais de um programador, postulo que Deus ou forças divinas estão excluídas de tal hipótese e que as evidências apontam para o fato de que as espécies são, em nível da biosfera, muitas vezes redundantes em função, além de terem comprovadamente idades diferentes. Presumir que todas foram feitas por um só “criador”, presume uma espécie que vive milhões de anos e que cria espécies redundantes ao invés de simplesmente reproduzir as mesmas de dada função no ciclo da vida.
Quando falo de micro-evolução, me refiro ás mudanças morfológicas e comportamentais que os animais sofrem dependendo da pressão seletiva de determinado meio. Assim, essa forma de pensamento admite a seleção natural, mas a integra noutro contexto.

Vamos, então, à brincadeira em si.

Analisando os dados

Ao buscar defender os órgãos vestigiais de adeptos do Design Inteligente, o autor do site indicado no início do site mostra autores usando uma definição deficiente desse conceito. Segundo ele, os autores em questão dizem que órgãos vestigiais são aqueles que não possuem mais função alguma. Ele coloca, para refutar tal postulado, que mesmo em A origem das espécies tal colocação nunca foi feita:

“‘Rudimentary organs, on the other hand, are either quite useless, such as teeth which never cut through the gums, or almost useless, such as the wings of an ostrich, which serve merely as sails.’ (Darwin 1872, p. 603) [Orgãos rudimentares, por outro lado, são ou praticamente inúteis, como dentes que nunca atravessam a gengiva, ou quase inúteis, como asas de uma avestruz, que servem apenas como uma vela(para o equilíbrio na corrida).]

E além disso:

“‘... as was pointed out in the introduction, the term vestigial, is, as a rule, only applied to such organs as have lost their original physiological significance.’ (Wiedersheim 1893, p. 205)”[Como foi indicado na introdução, o termo vestigial, é, via de regra, apenas aplicado a a órgãos que tenham perdido sua significância fisiológica original] {grifo meu}

Logo, os órgãos vestigiais não são necessariamente, mas apenas são aqueles não possuem mais a função original. Dessa maneira, pensar em órgãos vestigiais é observar tal fenômeno já com uma projeção evolucionista. Com a hipótese que pretendo colocar nessa brincadeira, os órgãos vestigiais são um absurdo. Na verdade, vou apresentar uma proposta explicativa alternativa pra demonstrar que essa evidência só tem peso para o evolucionismo se for vista sob a ótica evolucionista.

Como aponta este autor[2], no século XIX 180 órgãos eram considerados destituídos de função pelo simples fato de que sua função não havia sido clarificada. Além disso, postula a função do cóccix e do apêndice, tendo o primeiro a função de “anexar vários músculos pélvicos, formando o diafragma pélvico”.
Segundo o autor, “O cóccix, com seu diafragma pélvico, mantém fixos muitos órgãos em nossa cavidade abdominal evitando que estes literalmente caiam por entre as pernas. Alguns dos músculos do diafragma pélvico também são importantes para o controle de eliminação de dejetos de nosso organismo pelo intestino reto.”

Infelizmente, numa distorção do conceito de órgão vestigial, ele postula que o cóccix não é vestigial porque ele tem uma utilidade, enquanto que ele trabalha com um conceito de órgão vestigial que não pode possuir função. Diferente do que ele postula, os evolucionistas colocam que um órgão que não possui a função original é vestigial. Assim, o autor não refuta os evolucionistas, já que emprega um conceito que não é utilizado por eles.
Para os evolucionistas, o Cóccix, embora tenha funções próprias no organismo, é uma cauda vestigial. Para provar isso, mostram as evidências ontogenéticas, onde fetos apresentam uma espécie de cauda primitiva.

No link da nota 1, o autor diz: “As discussed below in detail, the development of the normal human tail in the early embryo has been investigated extensively, and apoptosis (programmed cell death) plays a significant role in removing the tail of a human embryo after it has formed. It is now known that down-regulation of the Wnt-3a gene induces apoptosis of tail cells during mouse development (Greco et al. 1996; Shum et al. 1999; Takada et al. 1994), and similar effects are observed in humans (Chan et al. 2002).”
[Como foi discutido abaixo com detalhamento, o desenvolvimento da cauda humana normal nos embriões jovens foi investidado extensivamente, e a apoptose (morte celular programada) tem um papel importante na remoção da cauda do embrião humano depois que ele está formado. É sabido atualmente que a down-regulation(Regulação para baixo)[3] do gene Wnt-3a induz a apoptose das células da causa durante o desenvolvimento do rato, e efeitos similares são observados em humanos.]


Ou seja, para os evolucionistas o cóccix é uma cauda vestigial que se apresenta numa fase inicial do desenvolvimento embrionário e, inclusive muitas vezes não sofre a apoptose. Nesses casos, humanos desenvolvem caudas que inclusive reagem a estados emocionais.
Ora, isso comprova que há uma semelhança entre os humanos e outros mamíferos, e é confirmado quando tratam do Gene Wnt-3a, que está presente em ratos e em humanos.
Não há dúvidas, então, de que há semelhanças entre essas espécies em nível ontogenético, e a partir da teoria evolucionista poderíamos concluir que essa é uma evidência de que ambas as espécies possuem um ancestral em comum, do qual herdaram tais genes.

Tais dados, no entanto, podem ser reinterpretados segundo as premissas que postulei no início do texto.

Ora, se ambas as espécies foram programadas a partir de estruturas análogas, é mais lógico que os órgãos e estruturas aproveitáveis para outras funções permaneçam. Afinal, presumimos que o autor de tal espécie estivesse tentando construir animais capazes de sobreviver. Se o cóccix é parte de uma estrutura que auxilia no nosso desenvolvimento embrionário e se ele serve, como indicado, como ponto auxiliar para o diafragma pélvico, seria sensato presumirmos que tal estrutura é útil para a nossa sobrevivência. Logo, o autor teria alterado a cauda e mantido o cóccix, com utilidade própria.

De um modo geral, o cóccix continua sendo vestigial, mas é analisado por outra ótica, que não presume o macro-evolucionismo.

Mas, afinal, pra que apresentar uma alternativa interpretativa?

1)      Para demonstrar que essa não é uma evidência para a macro-evolução exclusivamente, e que, portanto, não deveria ser usada dessa maneira.
2)      Para evidenciar diferenças práticas fundamentais:
a)      Se interpretarmos um órgão como recessivo, a tendência é pensar que ele é uma estrutura com pouca ou nenhuma função no organismo. Nesse caso, a tendência é não considerarmos esses órgãos relevantes em intervenções cirúrgicas, o que pode ser fatal no caso de ele possuir algum tipo de relevância que desconhecemos.
b)      Além disso, se presumimos que todos os órgãos vestigiais permaneceram no nosso corpo por uma intenção racional, provavelmente entenderemos melhor as estruturas dos organismos no momento em que nós mesmos formos programar espécies. Afinal, como alguns já devem fazer, já foi produzida uma bactéria 100% sintética. Essa perspectiva poderia, portanto, auxiliar os programadores de organismos a trabalhar em novas espécies a partir de antigas, como um programador aprendiz lendo o programa de outro mais experiente.
c)       Além disso, pode apresentar uma abertura metodológica para a aquisição de novas evidências, que não podem nem ser vistas dentro da perspectiva evolucionista. Afinal, nossa linguagem, nosso discurso de mundo, com freqüência delimita o conjunto de fatos que somos capazes de perceber. Pressupor alguma função oculta, alguma utilidade escondida, pode inclusive instigar a investigação.

 Conclusão

A utilização de órgãos vestigiais como evidência para a macro-evolução é no mínimo parcial, já que tal evidência poderia indicar uma programação logicamente estruturada. Afinal, é muito mais lógico preservar estruturas com utilidade apenas alterando-as do que eliminá-las completamente e desenhar outras. Tal programação daria mais trabalho ao autor e aumentaria as chances de erro. É sempre melhor manter o máximo possível do código que já está em funcionamento do que recriar tudo do zero. Vejam, aqui, que não se trata de um programador onisciente, portanto, mas apenas de um programador racional. Conseqüentemente, tal teoria também poderia prever e explicar a cauda em seres humanos e qualquer outro órgão recessivo, não sendo este um privilégio do evolucionismo.
Na verdade, se presumirmos que há uma infinidade de diferentes programadores que realizaram seus trabalhos em diferentes épocas, todos os fenômenos expostos pela macro-evolução podem ser reinterpretados. Apenas alguns conceitos, como o de que tal coisa acontece sem intervenção racional, seriam abandonados como irrelevantes.

Fica estabelecido, portanto, que o evolucionismo está longe de ser a única proposta coerente para explicar os fenômenos naturais.

E digo mais: em termos de probabilidade, creio ser mais razoável supormos que houve intervenção inteligente do que imaginarmos que tudo se deu a partir da lógica evolucionista. Afinal, nós mesmos já estamos começando a programar o DNA. Deixo uma questão relevante para ser tratada noutro post:
1)      Numa mutação que implica a mudança na estrutura cromossômica, não teríamos os filhotes do mutante como híbridos muito provavelmente estéreis?
(afinal, os híbridos geralmente possuem um número impar de cromossomos, o que inviabiliza a espermatogênese, além de outras complicações)[4]
2)      E se não forem estéreis, a tendência não seria que a terceira geração fosse estéril?
(Para ser mais claro, se um mutante com 25 pares de cromossomos e um espécime normal com 23 pares dão origem a um hibrido com 24, não seria esse híbrido capaz apenas de deixar descendentes férteis acasalando com outro híbrido [seu irmão]?)
3)      Não é correto postular que a pressão do meio só causa mudanças morfológicas e comportamentais, mas nunca em nível dos cromossomos?

Que me responda o aventureiro que leu esse texto até o fim.


[1] http://www.talkorigins.org/faqs/comdesc/section2.html#atavisms_ex2
[2] http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:qQ42heALOcIJ:www.veritatis.com.br/article/3888+http://www.veritatis.com.br/article/3888&cd=1&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br&client=firefox-a
[3] http://en.wikipedia.org/wiki/Downregulation_and_upregulation
[4] http://www.artigonal.com/biologia-artigos/genetica-e-citogenetica-na-caracterizacao-de-hibridacoes-interespecificas-em-diferentes-ordens-de-mamiferos-2626451.html