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Reflexões sobre a poligamia: despedaçamento e costura


Eu não poderia deixar de começar esse texto com uma fala de uma professora minha. Estou certo de que ela não se importará.
Certo dia, relutante de abordar assunto (provavelmente por ser cristã), a professora tentou trazer o assunto da sexualidade e dos “ritos” que usamos pra criarmos pares. Se enrolando pra pronunciar o que ela queria dizer, ela acabou perguntando quem eram os solteiros da turma e ninguém respondeu. Talvez ela não tivesse em mente que se declarar solteiro traz uma série de compromissos e, quiçá, danos à auto-estima. Ninguém respondeu, e a reação dela eu nunca mais vou esquecer:

- “Mas é só o Silas que é solteiro nessa sala?” – disse ela.
- “Espere um pouco, quem disse que eu sou solteiro?” – disse ela
- “Ah, você não é?” - disse ela num tom de descrença

Eu me perguntei se minha conduta mostrava isso: sempre pensei que a poligamia fosse facilmente escondida, bastando apenas não declará-la tão abertamente. Mas não foi o caso...
E não acabou por aqui.

- “Eu quis saber quem eram os solteiros pra perguntar como os rapazes paqueram” – disse ela com aquela risada de criança arteira
- “Mas quem disse que só os solteiros paqueram?” - eu comentei
- “A, mas esses são os safados” – ela disse num tom de voz baixo sem me olhar nos olhos.

Não acredito que ela tenha percebido o impacto que aquilo teve e como isso se ligou a tudo que se passa nesse mundo estranho. Depois dessa introdução só me resta fazer algumas confissões e assumir que faço parte de um grupo para o qual a sociedade dá as costas. Um grupo de “safados” que são “contra os direitos humanos” e que estão deflorando, por sua própria condição, toda a secular idéia de família. Os polígamos.

Acredito que descobrir algo assim tem algumas semelhanças e diferenças com descobrir a homossexualidade. Trata-se de uma condição, não de uma escolha; e também é uma coisa discriminada, considerada pecaminosa, moralmente incorreta; é, aliás, praticada desde que o mundo é mundo inclusive em sociedades que a proíbem. Mas, diferente dos homossexuais, os polígamos não possuem um movimento forte e politicamente engajado; não têm uma identidade atrelada à sua condição e nem locais onde realizam suas atividades. Não há quem os ampare, nem onde possam recolher nossa cabeça. Além disso, há pouca perseguição sistemática e violência física, como acontece com os homossexuais, especialmente porque a cultura masculina tende a não reprovar essa conduta. Exceto, é claro, quando isso os afeta: se sua mulher decidiu ser polígama, por exemplo. Nesse caso, os polígamos são mortos por pessoas pessoalmente afetadas enquanto que, com freqüência, homossexuais são mortos por estranhos que os perseguem por razões culturais e psicológicas.

Boa parte dos polígamos fogem da honestidade. Assim, se envolvem em relações onde se presume a monogamia e simplesmente pulam a cerca. Para alguns a verdade não é tão importante quanto amar, então vivem cada momento com seus segredos, suas vidas duplas. A respeito de tal classe de polígamos nem tenho muito a dizer. Talvez mintam pra si mesmos dizendo que o outro parceiro é somente algo do momento ou só carnal, talvez só mintam pra todos, inclusive seus parceiros e só se preocupem consigo mesmos. Talvez sejam eles os responsáveis pelo sofrimento dos demais, na medida em que criam o estereótipo de promiscuidade que se associa a tal grupo.

Há outros que estão por aí nos guetos. São com freqüência bissexuais, usuários de drogas ou simplesmente marginais. Sua anomia tem tamanha proporção que a poligamia nem é um problema. Não sei se são corajosos ou loucos, mas a realidade é que não vão ser aceitos como cidadãos decentes e dificilmente os veremos sendo publicamente respeitados. Aliás, tenho a impressão de que esses grupos marginais tendem a funcionar com mecanismos que levam seus membros à progressiva entropia: sendo eles rejeitados, revoltados, anarquistas, acabam vivendo uma vida de pouca perspectiva onde só possuem respeito entre seus pares íntimos.

Seja pelo meu temperamento, seja pela minha criação, não consigo me adaptar a nenhum dos dois.

A idéia de mentir para as pessoas que amo é repulsiva. Tal atitude denotaria apenas que amo a mim mesmo acima de todas as coisas, e isso não é verdade. Nada, pra mim, vai além do amor. Isso é mais uma realidade do que uma escolha: se não compartilho tudo, não compartilho nada. E se não compartilho nada, não há relação, não há intimidade de nenhuma forma.

A idéia de sair pro gueto simplesmente não se encaixa em mim. Não tenho os traços de personalidade que são necessários para a integração num grupo desses. Sou excessivamente tranqüilo, excessivamente pacífico, seguro, estudioso, etc. Eu sou tudo que o gueto despreza e minhas relações, de uma forma geral, são coisas que vivem à luz do dia. Posso ser anarquista, mas isso é um posicionamento intelectual sociológico e epistemológico (Feyerabend): não uma atitude, não há muito de estilo de vida nisso, mas no estilo de pensamento. Isso sem falar que, por conseqüência, as pessoas com quem me envolvo não fazem parte de guetos e não vivem, de forma alguma, qualquer tipo de anomia. São de “família”.

O resultado disso tudo é que não há um espaço na nossa sociedade onde a poligamia se encaixe e, simultaneamente, eu possa me encaixar. Relações, no meu contexto, se constroem de maneira íntima, amorosa e aberta. Na realidade, pensando bem, se não fosse pela poligamia, estaria na posição de dizer que me relaciono de maneira bem saudável. Mas o saudável é algo culturalmente constituído, e como a professora disse, quem não é monógamo é safado.

Mas o que um polígamo nessa situação pode fazer? Compartilhar, de um modo geral, significaria perder a confiança, o amor das pessoas mais próximas. Não compartilhar significaria não tê-las como próximas. O problema é que uma espécie de censura que as pessoas têm, algo que as impede de amar outras pessoas quando estão comprometidas, não é algo dado aos polígamos. Não há a experiência de um amor ofuscando, acabando com o outro. 
O que se procura é colocar as cartas na mesa, compartilhar e viver constantemente com o terror de que, num dia dessas, quem você ama não mais tolere sua condição e te deixe. Ou então acreditar na mentira de que tudo pode ficar sobre controle e viver sempre no risco de cair em tentação ou simplesmente surtar por essa vida de negação de si mesmo. Mesmo assim, não há como todo os amores se tornarem realidade, pois a esmagadora maioria das pessoas não aceitam dividir; e se aceitam, geralmente há condições específicas que são impostas pra manter a estabilidade.

Se o polígamo tiver sorte, se ele for profundamente amado, talvez consiga viver mais de um desses amores, mas não pode haver conflito de papéis. 
Isso me lembra da relação de Jung com Emma e Tony. Em seu coração e em seu discurso, pelo que sei, ele as amava e as considerava suas esposas. Mas ela nunca foi reconhecida, nunca teve filhos e nem podia participar dos almoços com a família. Por mais que eles se amassem, ela nunca pode conflitar com Emma, que era a mãe dos filhos de Jung. Talvez esse tenha sido um caso de sucesso, pois, até onde sei, o próprio temperamento de Wolff era independente demais pra levar uma vida tal como a de Emma, mas ela não foi a única. Há rumores de que Jung teve uma relação com Sabina Spielrein e cartas que parecem dar créditos a eles (ver memórias, sonhos e omissões - Dr. Sonu Shamdasani). No entanto, nesse caso não houve qualquer tipo de acordo. Ela quis Jung por completo e ele não pôde ceder. O que não significa, é claro, que ele não a amou. Apenas que houve um conflito com relação aos papéis, pois Emma Jung era, para Jung, seu fundamento, Toni Wolff era a essência e Spielrein, aquela que não teve lugar. Diríamos que esse caso foi de menos amor, de menos importância do que os outros? Creio que não. Mas de uma coisa eu sei: por mais que tenham aceitado, Toni e Emma sofreram. 

Tudo o que resta, portanto, é lutar com todas as forças para não deixar alguns amores se tornarem vividos, é se evadir do próprio coração! É ver quem nós amamos desamparado, desprotegido, sem que possamos fazer qualquer coisa a respeito. É ter para uma pessoa um lugar quente no coração e, ainda assim, assistir ela congelar diante dos olhos.

Na realidade, me vejo com o temperamento tão parecido com o de Jung em certos aspectos que chego a questionar e rejeitar certas características de sua obra, por mais que a admire. Talvez eu consiga fazer como ele, talvez eu faça como a figura que se encontra no topo desse post. Mas a realidade é que, de uma forma ou de outra, essa condição será sempre um podre, algo a ser escondido, a ser, inclusive, negado em sua existência; sempre trará, aliás, sofrimento e insegurança pra quem estiver envolvido, talvez pela bagagem cultural.

Talvez algum dia isso mude, talvez um dia um homem possa erguer sua cabeça, se declarar polígamo e ainda assim ser reconhecido como um cidadão decente que preza pelo bem de todos. Mas isso só vai acontecer que houver união.



As implicações da tecnologia meta-biológica no aprendizado



Joana estava no colégio, onde mostravam as informações passadas para os mais jovens. Sua primeira impressão foi de que tal coisa se afigurava cruel, inumana, e eis as suas objeções.

- Como vocês podem esperar que essas crianças gravem todo esse conhecimento de uma vez só? não percebem como esse esforço torna a vida delas miserável, na medida em que gastam toda a sua energia memorizando coisas?
- Seria inumano no seu planeta, onde as crianças lamentavelmente dependem apenas do próprio cérebro ou de tecnologia arcaica pra armazenar informação. Aliás, fazem coisas parecidas no seu planeta, o que cria seres humanos complexados, descontrolados, infelizes.
- Como as crianças memorizam as coisas senão com o cérebro?
- Através dos dispositivos meta-biológicos que elas recebem aos dois anos de idade.
- Mas o que é um dispositivos meta-biológico?
- O termo meta-biológico é uma adaptação à sua linguagem. Imaginávamos que sua significação estaria implícita. Desculpe o engano. Artefatos de tecnologia meta-biológica são dispositivos feitos com estrutura de DNA específica desenhada pra se integrarem ao sistema nervoso central. Nesse sentido, poderíamos dizer que é um computador biológicos. Apenas a analogia com sua tecnologia eletrônica não vai longe, pois esse sistema tecnológico é plástico. Ele se adapta às mudanças na estrutura do pensamento do indivíduo, sempre refazendo o processamento das informações armazenadas, e mantém uma leitura das sinapses cerebrais. Assim, quando o indivíduo pensa em se lembrar de determinada informação, ela surge em sua consciência da interface dos dispositivos meta-cerebrais. Esses dispositivos são capazes de realizar traduções de todas as linguagens da terra e da nossa civilização, além de realizar cálculos matemáticos, resolver algoritmos complexos e diversos problemas lógicos mais mecânicos. Além disso, ele possui uma capacidade de armazenamento virtualmente infinita e se integra com o sistema de coordenação motora, além de complementar o sistema nervoso periférico.
- O que? Vocês colocam chips nas suas crianças?
- Chip é um artefato eletrônico. Nós não usamos mais tecnologia eletrônica há alguns séculos.
- Não estou entendendo.

O homenzinho projetou, aparentemente com as mãos, um holograma que ia demonstrando passo a passo a interação entre os dispositivos e o sistema nervoso. Segundo ficou demonstrado, a estrutura do artefato é tão perfeitamente imbricada com o organismo que os próprios neurônios da caixa craniana realizam sinapses com os neurônios artificiais e buscam as informações, sem necessidade de uma interface que interage com os sentidos. Assim, a velocidade do fluxo de informação se torna muito mais rápida e o excesso de informação não sobrecarrega o cérebro.

- Mas... Então como são as provas?
- Não usamos provas como as empregadas por vocês. Elas são um teste de memória, raciocínio mecânico e até resistência física. São uma forma cruel de seleção entre os aptos e os inaptos. Nossas avaliações são se outra natureza. Nossas crianças desenvolvem hipóteses acerca das coisas que observam, criam princípios explicativos, falam sobre suas emoções acerca dessas coisas. Sempre com orientação dos especialistas, que indicam caminhos, entendem a linha de raciocínio da criança e fazem perguntas cruciais. O que buscamos exercitar no sistema de ensino, numa palavra, é a criatividade em suas mais diversas formas.
- Mas como vocês podem dar tanta atenção aos alunos?
- Conseguimos através da tecnologia meta-biológica no organismo dos professores, que permite maior armazenamento de informações sobre os alunos. Além disso, temos uma média de dois professores pra cada aluno, por mais que se formem turmas. Os alunos escolhem cerca de cinco orientadores para seus projetos.
- Isso me deixa angustiada.
- Porque?
- Porque parece que a solução pra educação é tecnologia que não temos a uma quantidade de professores capacitados que não temos.
- Viemos persuadir os habitantes do planeta que nos aceitem como seus visitantes. No entanto, sabemos que o estranho assusta e que a nossa tecnologia causará horror, veneração e diversos outros resultados que não desejamos. Por isso optamos por trazer grupos de nativos para a nossa nave para entenderem melhor como é o nosso modo de vida. Assim, quando chegarmos uma grande parcela da população não nos estranhará, mas antes lembrará daquele sonho que tiveram a nosso respeito.
- como assim sonho?
- Quando você acordar na sua casa hoje, pensará que isso não passou de um sonho.
- Entendi... Posso ver suas crianças?
- Pode claro. Entre por essa porta e vá até o fim do corredor.

Joana foi e a mulher que a acompanhava a seguiu até a porta, onde ela pode entrar e ver três crianças escrevendo, cada uma num ponto diferente da sala. Ela sentou ao lado de uma delas que estava escrevendo com um olhar carinhoso. A criança parecia pequena, de uns seis anos de idade, mas escrevia rapidamente. Quando percebeu a presença de Joana colocou o que usava para escrever de lado. Era como papel, só que virtual.

- Oi. Qual é o seu nome?
- Aquele que traz a mudança.
- Que bom! Tenho certeza de que seus pais gostam muito de você.
- Gostam nada. Tenho pais novos.
- Claro que gostam! Não fale assim. Seus pais escolheram ter você.
- Que base você tem pra falar, ô gigante? Meus pais não são sentimentais. Eles só escolheram meu nascimento para comprovar que a tese a respeito dos filhos que é aceito por muito está errado. Meu nome é assim porque eu, segundo eles, vim para provar que ter filhos é um erro. Eles que se fodam.
- Olha, não precisa ficar assim tão bravo. Sabe, as pessoas cometem erros, mas elas mudam. Perdoe seus pais. Um dia eu sei que eles entenderão o erro que cometeram. Você vai ver.
- Nunca me ofendi com eles. Na verdade eles não são nada pra mim além de pessoas doaram um pouco de energia para meu nascimento. Eles que se fodam, não são família pra mim.

Joana ficou com um olhar triste. Passou a mão nos cabelos do menino e começou a falar

- Quantos anos você tem?- Tenho doze anos. O que foi, esperava outra coisa?
- É que no meu planeta as coisas são diferentes. O que você está escrevendo aí?
- É um sonho que eu tive. Eu vou ser artista, sabe? Quero ser um vagabundo inútil.
- Você quer ser inútil?
- Só estou usando os termos dos meus pais. Pensam que artistas ficam inventando qualquer besteira sem qualquer fundamento e que artistas são inúteis. Mas eu sou artista, e não me importo com o que eles pensam, eu não sou eles, nem quero ser, eles que se fodam.
- Olha, apesar de tudo são seus pais. Você devia respeitá—los.
- Por quê?
- Porque eles te criaram.
- Eu não sou nada pra eles. São uns robôs! Que tal a gente mudar de assunto?
- Você tem alguma ideia?
- Já que você se interessa tanto pela minha vida pessoal eu quero saber sobre a sua.
- Tudo bem.
- Soube que seus hábitos de reprodução são parecidos com os nossos. Você se masturba muito?
- O quê?
- O tradutor está funcionando direito. Ouvi dizer que o seu planeta é cheio de niilistas e que vocês vivem transando e se masturbando o tempo todo. Deve ser o paraíso. Olha, nós não podemos ter filhos por causa do código genético, mas podemos transar, sabia?
- Isso é falta de educação! Não fale assim comigo ou com ninguém. É uma coisa íntima e muito pessoal.
- Por quê?
- Porque sim.
- Há! Você é uma acorrentada! Você tem fetiche com isso?

Joana levantou e saiu de perto do garoto, que continuou escrevendo tranquilamente. Na sala externa foi falar com a mestra em educação sobre o comportamento do garoto.

- Fui desrespeitada por um de seus alunos. Perguntou se eu me masturbo!
- Você não se masturba?
- Isso é problema meu!
- Masturbação é um problema?
- Olha. Eu não me masturbo, tá bem?
- Então faz sexo com frequência?
- Qual é o problema com vocês? Não respeitam a intimidade dos outros, não? Não sabem educar as crianças e por isso ficam mal criadas desse jeito! Aquele menino odeia os pais!
- São sentimentos dele, e não são um perigo para a sociedade. Não podemos reprimi—los.
- São sentimentos negativos e devem ser evitados.
- Você é uma acorrentada.
- O que?
- Você está presa á moral. É uma acorrentada! Cheia de inibições criadas pelos outros no próprio comportamento. Mas isso não é você!
- Eu sei muito bem quem eu sou!
- Não sabe não. Grande parte do que você é não passa de uma mentira. Você fecha seus olhos e glorifica a ingenuidade, mas não é tão ingênua quanto parece.
- Eu não sou ingênua. Só acho que não é certo ensinar crianças a serem revoltadas.
- E então o que é certo ensinar?
- A serem bem comportadas.
- Um erro! Uma criança bem comportada é um robô. Ela se comporta exatamente como os outros acham certo, e faz tudo o que disseram que é certo, mas é acorrentada e nunca desenvolve a si mesma. O problema não estava naquele que traz a mudança, está em você, que tem inibições primitivas de impulsos naturais. Aliás, não são só seus impulsos que você inibe. Veja só, há fatos claros diante dos seus olhos na sua vida que demonstram o meu ponto.

Foi exibido um vídeo para Joana, no qual ela estava transando aos quatorze anos, e depois outro dela grávida. Ela ficou chocada por alguns segundos e começou a chorar, mas logo se recompôs.

- Porra, vocês ensinam suas crianças a transar. Isso é pedofilia.
- As crianças só podem ter relações sexuais dentro de realidade virtual nessa idade. Em uns 3 anos, quando ele demonstrar que possui maturidade, poderá ter relações com robôs, e mais tarde, quando terminar sua primeira tese, poderá ter relações com pessoas de todas as idades. Não temos interesse em fingir que as crianças não possuem sexualidade em época de puberdade. Aquele que trás a mudança está nessa fase, e na realidade virtual, somente programas específicos interagem com ele. Não há abuso por parte de adultos. Se não fosse nessa realidade, ele se masturbaria evocando com a própria mente imagens análogas. É até mesmo estúpido dizer que o estamos corrompendo por deixarmos seus impulsos fluírem com relativa liberdade.

Joana encheu o pulmão de ar, mas não falou nada de imediato.

- Vejo que voe se chateou. Não é minha intenção te aborrecer, mas na interação com nossa civilização é comum que o choque entre culturas cause estranhamento. Depois de um tempo, creio, isso se tornará mais comum.
- Eu melhoro. Só que tem mais uma coisa que me deixa preocupada.
- O Que?
- E se isso for realmente um sonho? E se não houver visitantes? O que faremos para resolver nossos problemas educacionais?
- Pessoalmente, tenho sugestões.
- Me diga
- Em primeiro lugar, façam o maior esforço possível pra integrar a tecnologia no ensino. Depois, deixem de determinar coletivamente o que deve e o que não deve ser aprendido. Que a partir da puberdade, os indivíduos já possam escolher suas preferências, mas que tudo seja como se fosse uma brincadeira.
- Mas a vida não é brincadeira!
- A criança aprenderá sobre os diferentes grupos sociais de sua sociedade globalizada sem ser coagida por alguns deles, como o religioso, esportivo ou científico. Nesse sentido, poderá ter maior autonomia em escolher o que quer ser, e terá menos pressão para aprender coisas que lhe serão irrelevantes no futuro. Devem, também, dar condição de vida digna aos professores, e aumentar, sempre que possível, a quantidade de professores trabalhando. Só isso já resolverá uma infinidade de problemas que vocês possuem.
- Vou pensar nisso. Parece bonito, mas praticamente impossível de aplicar.
- Não será sempre assim. Nossa esperança é que o nosso contato com vocês vá modificando progressivamente a sua forma de ver o mundo. Assim, pretendemos um preparo de dentro pra fora antes de termos contato com os nativos.

Acerca da vacuidade espistemológica do Único Método Verdadeiro

Este post é na verdade um pequeno fragmento do extenso debate que ocorreu na comunidade Psicologia, do orkut:
(http://www.orkut.com.br/Main#CommMsgs?cmm=75705&tid=5493355023754923606&start=1)

X Disse: “Apenas fenômenos que não podem ser verificados com a metodologia tradicional.”
 
...

Que fenômenos são esses? E por que não considera que podem ser verificados pela metodologia tradicional?

É bom notar que a primeira frase foi escrita por mim anteriormente e que ele a estava questionando.


Eu respondi: “falo, por exemplo, das mais diversas manifestações do Inconsciente como o coloca a Psicanálise e a Psicologia Analítia de Jung. Talvez eu não tenha sido feliz no uso do termo fenômeno. O melhor deveria ser fato.

Assim, digamos que há o fenômeno sonho.

Uma avaliação científica provavelmente encontraria nesse sonho uma série de lembranças do que ocorreu no dia ou coisas recentes. Assim, essa análise diria: a causa desse sonho reside nas lembranças dela e é das lembranças que as imagens têm origem. Creio ser isso verificável. Eis o fato explicado pela metodologia científica.

Mas daí tem outra perspectiva, um tanto intuitiva. Aquela segundo a qual o sonho não é meramente um apanhado de lembranças sem qualquer sentido, mas que são lembranças organizadas com um propósito. Esse propósito, creio ser consenso entre todos os psicanalistas e analistas Junguinaos, é revelar ao paciente algo que lhe é Inconsciente. Até onde sei, Freud procurava o sinal de recalque sexual e Adler o sinal da vontade de poder, tudo isso tendo sido reprimido por não ser compatível com a moral.
Para Jung, os conteúdos reprimidos são muitas vezes aceitáveis pela sociedade. Por exemplo, um criminoso pode reprimir da consciência o fato de que ele pode ser amável.
Eis um diferente fato, visto sob outra ótica.

E a teoria continua. Isso é extremamente limitado. Mas qual é o ponto?

É que isso não tem como ser baseado em estatística, já que dificilmente veremos sonhos iguais, e mesmo que entremos em contato com duas descrições idênticas, certamente as associações serão diferentes. Isso quer dizer que cada sonho é tão único, idiossincrático, que não há como fazermos um estudo pra comprovar através de testes incansáveis que os sonhos possuem mensagens: Não existe uma linguagem universal e observável para interpretar sonhos. Porque há tanta diferença em significados que pode-se, basicamente, perceber fatos diferentes em sonhos diferentes. A variedade de significados e conteúdos é grande demais e não há como separarmos apenas alguns para estudá-los separadamente. Ou seja, é uma análise onde a razão não é o fator principal. Muito intuitiva e que não pode ser sistematizada.

Estudos quantitativos, nessa área, tendem a não ter muita utilidade. Assim, o método tradicional classifica essa forma de conhecimento como subjetiva e, portanto, não científica.
Mas é aquilo que falei: a comunidade de Jung no Orkut tem mais membros do que essa, sobre psicologia de um modo geral, e mais ainda tem a comunidade de Psicanálise englobando Lacan e Freud.

Considero uma grande covardia e falta de conhecimento quando dizem que essas formas de conhecimento são placebo simplesmente porque lidam com fatos que não podem ser verificados pelo método tradicional. Esquecem que, como Kuhn e Feyerabend apontam, a ciência não evolui pela insistência num método, mas por rupturas: uma nova cosmologia (que envolve novos fatos e novos métodos) não é uma expansão da antiga, mas com freqüência a contradiz diretamente, sendo ambas incomensuráveis.
Para ser mais claro, ficou demonstrado que essa postura de querer reduzir todos os outros paradigmas ao tradicional não só é uma forma de dogmatismo com o Único Método Verdadeiro como é um entrave para a evolução da ciência. Quem inova na ciência não é quem é disciplinado e aceita todas as regras: é precisamente quem as quebra. Porque a realidade se mostra cada vez mais complexa, e vamos percebendo com o tempo que nossas regras são bem efêmeras. Não há sequer um paradigmas que consiga explicar todos os fenômenos que observa, tampouco outro que pode explicar todos os fenômenos que existem (presumindo que todos os fenômenos que existem sejam uma coisa observável).

Ora, se os paradigmas de Freud, Adler, Fromm, Lacan, Jung, etc. lidam melhor com o fato de que sonhos encerram em si significações idiossincráticas, porque deveríamos reduzi-los ao método tradicional, que claramente não engloba em si esses fatos?

Para reducionistas é mais fácil você dizer que esses paradigmas não passam de “bobagem subjetiva”. É seguro, porque assim continuam com o Único Método Verdadeiro. E negam a existência de qualquer fato que não se adapte à sua visão estreita sobre a realidade.

Veja que não tenho nada contra o método tradicional. Inclusive eu o uso até no meu cotidiano, e você pode imaginar como coisas engraçadas podem sair daí, né? Estilo The big Bang Theory mesmo. Só que para os fatos que mais me chamam a atenção, e que são sim determinantes no comportamento humano (não são de forma alguma os únicos), esse método não é eficaz.

Uma coisa interessante de se notar é que um paradigma não exclui o outro de maneira alguma. O conflito existe só por preconceito de positivistas, que não admitem que há fatos que não tem como ser explorados pela metodologia tradicional, sendo qualquer um deles mero “placebo”. Só existe pela incapacidade, diria, emocional, que alguns indivíduos têm pra “pensar fora da caixa”. Engraçado que placebo também é tabu, mesmo tendo Jung mesmo dado uma idéia legal sobre a psicossomática fora do método tradicional. E basta você entender o paradigma dele e observar a realidade sobre essa ótica pra você ver que o surgimento de doenças psicossomáticas e até mesmo a reação psicossomática contra antígenos não é uma questão de “mero sugestionamento”.”

Resposta à may

Este post contem comentário meus a um artigo. Se você leu, por algum motivo, a minha resposta e tem curiosidade sobre o texto comentado, entre no meu perfil do blogger e, lá, veja meu e-mail.

Hey...!
Em primeiro lugar, não espere uma super crítica, elaborada de maneira extremamente cuidadosa e seguindo à risca seja que método for. Minhas considerações são de um intuitivo, porque não gosto de me prestar ao serviço de robô intelectual. Vou ser humano, vou entrar em contradição e, em alguns aspectos, posso não fazer sentido algum. Apesar de que, até onde eu vejo, minhas idéias parecem ter uma relação de coerência interna (não se contradizem entre si), o mesmo pode não se aplicar á minha linguagem, porque aqui eu posso me dar ao luxo de não escrever submisso à regrinhas acadêmicas. Você verá que minha crítica parte de uma perspectiva bem diferente e que, portanto, corro o risco de interpretar de maneira dúbia a posição do texto. Espero que me perdoe nesse caso e que tenha a paciência de apontar meus equívocos. Então chega de blá blá blá.
Em várias partes do texto eu notei que se fazem críticas ao dogmatismo dos meios de conhecimento técnico, explicitando que há fragmentação e historicidade inclusas nesse conhecimento e que através destas é possível haver uma reflexão mais profunda. E através dessa, o indivíduo pode entender porque está onde está e, assim, construir uma vida crítica em relação a isso.
Para ser o mais claro possível, bem no começo, o texto possui como intenção demonstrar que seria vantajoso para a sociedade se todos os indivíduos tivessem esse tipo de atitude.
No texto, é dito:
“‘nas grades curriculares, são eliminadas quase todas as disciplinas que fazem “pensar”, pois o mercado quer “gente que faz”. As instituições literalmente disputam os “clientes” e estes vão escolher aquelas que são mais atraentes e que, geralmente, não exigem muito em termos de estudo.’”
No entanto, essa parece uma redução. Na verdade o mercado quer gente que saiba inovar para, assim, se manter na competição. Pessoa incapazes de inovar através da reflexão não suportam a competição e precisam abrir mão de suas ambições materialistas.
Na verdade uma coisa marcante nessa idéia de pensar é que ela é bem mais abstrata. O indivíduo refletir sobre sua condição histórica, aqui, é colocado como sendo mais relevante do que o indivíduo conseguir inovar numa oferta de produto ou serviço. Mas porque?
Ora, é aí que chega a minha pesquisa: porque o tipo psicológico dos autores (incluindo você e os citados) é intuitivo. Isso significa, a grosso modo, que é característico que se pressuponha que abstrações, reflexões sobre porque, para que, qual é o sentido são mais relevantes do que como, quando ou onde.
A reflexão filosófica, histórica e a percepção e representação artística, nesse sentido, são coisas valorizadas por esse tipo, para além das coisas práticas da vida. Até aí, está tudo bem. É uma perspectiva sendo apresentada, uma visão tão humana quanto qualquer outra e sem a pretensão de englobar outras em si mesma.
Só que existe outro tipo psicológico. Existe outra maneira de se ver o mundo e lidar com ele, e ela não pode (especialmente enquanto houver escassez) deixar de ser vital. Essa é a visão pragmática, tão criticada nesse texto.
Dentro dessas premissas o ser humano reflete criticamente sobre sua vida sob diferentes perspectivas? pouco provável.
Cria e/ou aprecia a arte (não o entretenimento)? também é pouco provável.
Possui, em si, ainda aquele rastro de humanidade intuitiva, aquela paixão, imaginação? duvido...
Mas por quê?
Segundo o texto, precisamente o contexto induz as pessoas a serem assim. É apresentado o seguinte trecho falando a esse respeito:
“As disposições subjetivas se encontram no âmbito da disciplina de estudo, vontade, objetivos pessoais e acadêmicos, tenacidade, interesse, formação intelectual, vida cultural, capacidade de autoavaliação e auto-organização de seus processos de estudo. [criatividade?]
As disposições objetivas se constituem dos recursos materiais e financeiros, tempo hábil de estudo, instalações institucionais e outros aspectos que proporcionam contato com a cultura e conhecimentos formais e científicos.”
E bem antes diz coisas como: “a promoção da consciência crítica” ou “A formação, enfim, sugere a apropriação dos saberes historicamente constituídos”.
O que logo culmina nisso:
“conhecer os pensadores e os pensamentos, integrar-se pela via das apropriações, às questões filosóficas e científicas que se objetivam em obras humanas imprescindíveis para que o sujeito do conhecimento tome consciência do seu tempo histórico, de suas possibilidades e limites. É preciso compreender o movimento e a gênese daquilo que se tem intenção de conhecer e transformar.”
Quando leio promoção da consciência crítica, não penso em outra coisa que não doutrinação. Felizmente quis Deus que esse tipo de doutrinação seja impossível na prática, mas já que estamos brincando de teorizar, porque não refletir sobre o assunto? Já que isso pra mim não passa de brincadeira, então agora é “à vera”.¹
Porque não é citada a criatividade (como disposição subjetiva), que é basicamente o que há de mais importante na produção de conhecimento? Bem, isso porque parece que há certos autores que procuram induzir estudantes a produzirem o “senso crítico” com base em seus próprios pensamentos. Isso fica claro quando lemos teses (inclusive de mestrado e doutorado) onde os alunos citam basicamente os próprios professores. E ainda têm a cara de pau de dizer que estão “promovendo o pensamento crítico!” (lembre-se que não estou falando de você e que está longe de mim a intenção de ser grosseiro. Isso pra mim é brincadeira!)
E porque o conhecimento tem que ser formal? Porque tem que estar nesse formato acadêmico que, com freqüência, faz meu estômago se revirar, de tão robótico que é? Fico pensando sobre o mesmo tópico: será que a intenção desses autores é realmente promover o pensamento crítico? Ou será que buscam apenas promover a si mesmos através de seus alunos e de suas apresentações e teses?
Como Feyerabend disse e citei no e-mail que te enviei (enrolando por preguiça de escrever isso tudo que eu, se fosse você, teria preguiça de ler):
“um físico talvez prefira um artigo mal-escrito e parcialmente incompreensível, cheio de erros, a uma exposição cristalina porque tal artigo é uma extensão natural de sua própria pesquisa, ainda bastante desorganizada, e ele pode ter êxito bem como clareza muito antes de seu rival que jurou jamais ler uma única linha confusa (uma das qualidades da escola de Copenhague era sua habilidade em evitar decisões prematuras).”
Só que isso pode não ser considerado formal e nem mesmo científico. Aliás, a decisão de que tipo de leitura o indivíduo precisa é sempre e completamente estúpida. Não é assim que as coisas funcionam se o indivíduo busca autonomia intelectual. Não mesmo!

Uma das idéias mais interessantes que já tive e que culminou em várias outras, eu a tive assistindo um filme de zumbi! Exatamente um filme de zumbi!
Isso porque o que propicia a nossa criatividade não é a leitura e o conhecimento da visão de um zilhão de teóricos (que, em sua maioria, só estão copiando o pensamento crítico de alguém). Não mesmo. O que nos propicia essa criatividade (em termos de leitura [não creio que a leitura seja o mais importante, mas isso eu falo depois]) é muito mais deixar nossas leituras fluírem conforme nos agradar, sem regras, sem restrições e, especialmente, sem disciplina.
Existe uma relação direta de oposição entre criatividade e disciplina. Um soldado é disciplinado, mas não é criativo. Um artista é criativo, mas não disciplinado. E a produção de conhecimento também é uma forma de arte. Apenas numa linguagem mais feia e racional. Isso, claro, quando me refiro ao conhecimento sobre o ser humano e sua cultura, que é sempre imerso em subjetividade. E dou Graças à Deus por isso, porque se fosse objetivo, seríamos robôs. Tomei gosto pelas infinitas contradições e incoerências dessas áreas do conhecimento.
Então não, “a relação com o conhecimento [não] está diretamente definida por sua postura de estudo e de conhecimento de mundo em função do acesso a cultura escrita fundamentada por suas disposições objetivas e subjetivas.” Como o Feyerabend aponta (procurei no livro essa citação só pra você!) :
“A criação de uma coisa e a criação mais a compreensão plena de uma idéia correta da coisa são com muita freqüência partes de um mesmo processo indivisível e não podem ser separadas sem interromper esse processo. Tal processo não é guiado por um programa bem definido e não pode ser guiado por um programa dessa espécie, pois encerra as condições para a realização de todos os programas possíveis. É, antes, guiado por um vago anseio, por uma ‘paixão’ (Kierkegaard). Essa paixão dá origem a um comportamento específico que cria as circunstâncias e as idéias necessárias para analisar e explicar o processo, para torná-lo ‘racional’.”
Assim, a relação com o conhecimento é muito mais uma questão de refletir, de estar antenado(a) para esse vago anseio, do que para passar horas e mais horas debaixo de livros numa biblioteca buscando a coisa certa a se pensar. Não falo mal dos livros e de seus autores. Afinal, eu mesmo já escrevi dois livros, continuo escrevendo e lendo livros (a maioria deles teóricos, filosóficos, científicos). Apenas o que digo é que não é assim, não é com a leitura, que o senso crítico se forma. Com a leitura exacerbada, se forma a disciplina. E disciplina no meio intelectual é sinônimo de esterilidade.
Não existem obras humanas imprescindíveis. Não existe sequer um livro nesse mundo que deveria ser lido e estudado por todos os indivíduos. E felizmente, isso nunca será possível, por maior que seja o investimento financeiro e o lobby em relação às outras formas de se pensar.
Daí decorre que, na verdade, tais pensamentos parecem demonstrar basicamente aquela cristalização metodológica que eles criticam. Uma atitude é colocada no pedestal, promovendo a esterilidade intelectual e a chamando de crítica.
Assim, de um modo geral, a diferença entre o indivíduo pragmático e o que vive lendo e estudando um zilhão de livros “obrigatórios” é pequena em nível pessoal. Na prática, no entanto, o pragmático produz, enquanto que o teórico não faz absolutamente nada além de se promover com sua pseudo-intelectualidade. Em nível econômico, um é útil e o outro é inútil.
Não quero, com isso, atacar a própria noção de produção acadêmica. Pelo contrário. Apenas digo que é estéril a concepção apresentada sobre como isso deveria ser feito, e que mesmo aqueles que consideram o pensar crítico importante não poderiam tolerar por muito tempo esse tipo de doutrinação (castração) do intelecto. Você mesma, aliás, se voltou para a arte, contra toda essa besteirada. Isso me lembra uma voz que Jung ouviu, dizendo que a psicologia na verdade é uma arte. Eu extrapolo até para o conhecimento filosófico: isso pra mim é arte. Só assim que pensar, refletir e pesquisar pode realmente ser gratificante. O que existe fora disso é auto-afirmação e bobagem.
Romão (meu lulu na... não vou nem rimar) disse:
“a ciência não significa adequação perfeita dos juízos à realidade, nem é um conhecimento absolutamente certo a orientar uma ação isenta de riscos, mas uma correção progressiva das distorções introduzidas pelo entendimento humano na abordagem da realidade, tanto em função de sua ontologia quanto de sua ideologia.”
Quando eu vejo alguém escrever uma coisa dessas só uma palavra (neologismo?) surge na minha cabeça: whatahell!?
Assim, só lembrando que a ciência também é uma forma de entendimento humano, e que, cientificamente, um zilhão de atrocidades foram cometidas, como o darwinismo social. Parece que é sacanagem quando dizem que a ciência corrige alguma coisa. É só mais uma forma de ver as coisas, só mais um método. Não há como provar que a ciência corrige distorções: em última análise, ela pode muito bem estar introduzindo novas distorções. Não é o melhor e nem o mais interessante (pelo menos na linha racionalista) do que outras formas de se perceber o mundo.
Eu agora me pergunto se você ainda está lendo essa bobagem. Mas enfim, já que me propus a escrever, então pelo menos cumpro minha palavra. Talvez eu publique no meu blog, pra que seja publicamente ignorado. Mas enfim...
Chego agora numa parte que exalta o conhecimento escrito... E eis aqui algo que me deixou ligeiramente indignado:
“[A] ubiqüidade da cultura escrita permite percebê-la como um modo de organização social em que a produção e a circulação do conhecimento, dos costumes e dos valores se fazem por meio de e em função de seu uso.”
(...)
“O ato de ler e de escrever transcende as formas simplesmente de ensino a que se dispõe a escola”
(...)
“O ato de ler e escrever assume um papel fundamental em relação ao pensamento. O indivíduo, ao lidar com a língua e a escrita, toma consciência do mundo e da linguagem e encontra condições favoráveis para monitorar a atividade intelectual.”
Aqui eu planejava encontrar um trecho de um livro com textos de Schopenhauer chamado Sobre o ofício de escritor. No entanto, à despeito dos meus obstinados dois minutos de procura, não achei o bendito. De qualquer maneira, lembro da idéia, então a expresso fingindo ser minha.
O ato de pensar é diferente do de ler e, com freqüência, está oposto a este. É mais importante para um indivíduo refletir sobre o que ele leu cuidadosamente do que simplesmente continuar lendo. Porque a reflexão é ativa e a leitura é passiva. Se o volume de leitura é grande demais, o conteúdo é absorvido através de memória mecânica, não é atribuído a ele nenhum valor, nenhum tipo de juízo. Morre o senso crítico. Claro que na ausência de leitura o indivíduo viverá fechado num ovo, se esperança de transcender seu próprio egocentrismo. Mas isso não quer dizer que a leitura seja o último biscoito do pacote.
A transmissão dos costumes e valores há muito não se faz pela escrita. Pelo contrário, a TV e o Cinema tomaram essa função para si com grande facilidade. Podemos escrever a tese mais límpida coerente e louvável: ela nunca terá mais influência que um filme Avatar ou Crepúsculo (abominação).
Diferentemente do citado, creio que as potencialidades de representação e ensino de uma aula são muito maiores do que as da escrita e da leitura para a maioria das pessoas.
Em primeiro lugar porque uma coisa escrita não responde às suas contestações e nem às suas duvidas. Ela não tem consideração sobre sua forma de se expressar e entender, então não vai tentar te explicar com outras palavras. Isso seria resolvido com o contato virtual, onde você poderia ler e ao mesmo tempo interagir.
Só que aí é necessária uma ferramenta eficiente de comunicação e equipamentos bem eficientes. Seria basicamente uma aula à distância.
Pra mim o abismo em potencial da aula presencial e um livro é a afetividade. É o professor envolver os alunos, demonstrar a eles que se importa, que os ama, que quer pra eles o melhor. Ser divertido, criativo, cativante. Cite pra mim um texto acadêmico que faça isso e eu vou dar um salto mortal pra trás no mesmo instante: todos os que eu vi são um porre, que só consegui mesmo ler por amizade ao autor ou por apresentar uma perspectiva interessante sobre um tema de pesquisa.
Claro que se a aula é uma caricatura do conhecimento escrito, onde o professor faz os alunos lerem a matéria e fica simplesmente falando e esperando que eles memorizem é inferior ao conhecimento registrado nos livros. Mesmo que, na prática, alguns indivíduos aprendam com maior facilidade ouvindo do que lendo, esse tipo de aula é cansativo, chato. É um pé no saco.
Pensar criticamente, refletir, aprender é criar. O pensamento que não envolve um processo criativo onde o sujeito integra o conhecimento em si mesmo (mesmo que seja para criticá-lo) não é aprender. É memorizar. Para isso seria mais adequado o indivíduo instalar um disco rígido na cabeça e “armazenar” a informação.
Sabe, may, eu sou da opinião de que faríamos muito pela sociedade promovendo autonomia e criatividade. Promovendo, através disso, o desenvolvimento da individualidade dos indivíduos ou, como você verá no livro da Nise, o processo de individuação. Promovendo não o conhecimento como forma de reformar a sociedade, mas de o indivíduo tomar consciência de si mesmo. Porque há um conflito entre uma forma chata de saber, onde o indivíduo apenas memoriza informações por obrigação, e uma forma vazia de entretenimento, que é justamente o momento em que ele esvazia a mente. Em nenhum momento o indivíduo é criativo, em nenhum momento alguém o permite ser criativo, ninguém o instiga a isso. Só vemos um monte senhores da verdade, dizendo que obra são obrigatórias e coisas do gênero.
Pra mim, a pessoa pode ter escrito a maior abobrinha do mundo. Se ao menos ela se deu ao trabalho de pensar essa abobrinha sozinha, com a informação que ela possui integrada na própria mente, isso já é um milagre. Eu, afinal, comecei convencido de que semanas na verdade possuem 8 dias e de que morango é o exato oposto de chocolate! Por sorte eu era calado demais ou não houve ninguém pra me dizer que o que eu pensava é idiota e indigno. Não, eu segui pensando isso até comer o biscoito de doce de leite!
Pra mim não tem diferença se é um robô pragmático ou um robô acadêmico. Ainda assim ele só segue algoritmos, ele só repete padrões. É estéril...!
Nesse ponto eu fui dormir, então talvez fique evidente uma diferença na minha forma de me expressar. Tomara que não piore :p
Não texto, foi dito:
“diante da atual conformação do capitalismo, em que se destacam as inovações tecnológicas, seria grande a necessidade de uma educação ampla, formativa, que transcendesse o tecnicismo e o pragmatismo
(...)
“O reconhecimento do caráter histórico, dinâmico, inacabado e provisório do conhecimento, estendendo essa compreensão da mutabilidade e historicidade para a análise da sociedade e da própria humanidade. (MACHADO, 1995, p. 84)”
Aqui parece haver um juízo pragmático implícito. À saber, que a educação ampla e formativa seja de utilidade para o desenvolvimento tecnológico, auxiliando no avanço da ciência. Para isso, seria necessário tomar consciência da verdadeira “fragilidade” do conhecimento, para que a ciência e a tecnologia possam se desenvolver de maneira apropriada, sem cristalização paradigmática. Só que há um pequeno problema: o avanço da tecnologia ocorre com rupturas. Novos princípios físicos, por exemplo, fundamentam novas formas de tecnologias, mas esses princípios não surgem da extrapolação de uma teoria mais antiga, tampouco da observação de novos fatos. Antes, uma teoria antiga é literalmente demolida para ser substituída por outra, que trará novas implicações tecnológicas. E, de um modo geral, essa mudança se faz pratica apenas lentamente: no início, tecnologias surgem com a combinação prática dos dois princípios, até que um substitua completamente o outro.
Só que há um problema todos os paradigmas possuem implicações técnicas e tecnológicas próprias. Um indivíduo com os paradigmas físicos da época em que Nikola Tesla não tinha inventado a corrente alternada (que usamos hoje em dia) usava a corrente contínua e fazia a sociedade funcionar com esse princípio. Naquela época, de nada adiantaria reconhecer que esse ou aquele paradigma é frágil em nível histórico e/ou ontológico: para ele trazer luz pra casa das pessoas, era o paradigma daquela época que ele usava.
Não adiantaria para um empresário, por exemplo, conhecer o contexto histórico da economia e ter lido O capital, de Marx. O que ele precisa saber, onde ele precisa inovar, são coisas que existem no nosso Zeitgeist² de agora. Não é relevante para quem vai produzir saber uma coisa assim. A relevância desse conhecimento está mais na hora de entender o contexto local para a implementação de políticas públicas. Mas para a educação de todas as pessoas isso está longe de ser necessário: é bom que aqueles que vão precisar desse conhecimento o possuam, e vantajoso que quem possua interesse também o possua. Nossa sociedade é dinâmica demais para se afirmar que existe algum tipo de conhecimento teórico que todos deviam ter, algum livro que todos deveriam ler. Nem todas as pessoas querem analisar a realidade, e é lícito que elas façam o que bem entenderem...
“A assunção da educação geral como um bem intrínseco e não como algo que se determina em função de seus fins. A verdade mais nobre seria a procura do conhecimento enquanto tal, de modo que a Universidade se caracterizaria como lugar da procura da verdade e, só depois, como o lugar de sua aplicação; as faculdades profissionais só têm razão se submetidas ao cultivo da ciência.” (PEREIRA, 2008, p. 70).
É aquilo que falei. Procurar a verdade é bonito, mas não enche barriga. É bonito, mas fútil, porque há tanta multiplicidade paradigmática que não vejo como alguém pode realmente acreditar que há uma verdade. Existem universidades que formam trabalhadores e outras que formam cientistas e pensadores. E, até onde sei, há um equilíbrio entre oferta e procura desses cargos. Que a educação como bem intrínseco seja apresentada por professores (como com freqüência o é) e que os alunos decidam se isso é verdadeiro ou não.
“A compreensão da formação profissional incorporando a perspectiva de cidadão instruído, culto e ético. A educação completa ofereceria mais que conhecimentos e habilidades pragmáticos, contribuindo para que o indivíduo seja ativo e reflexivo. O princípio básico dos estudos de educação geral encorajaria a participação na vida social como pessoa livre, instruída e culta (PEREIRA, 2008, p.70).”
Ficou vago. Na prática, o que isso significaria? se todos nós lêssemos a constituição, conhecêssemos a lógica da luta entre as classes. O que isso mudaria na nossa vida? a mim parece que não há consciência que seja mais poderosa do que as exigências do mercado. A mobilização popular, por mais que seja bela, é economicamente desastrosa. Vivemos num mundo de escassez e precisamos de um mercado. E o mercado demanda esse tipo de educação. Isso é feio e desagradável, mas fazer o que? (não é uma pergunta retórica)...
É aquilo que eu falei: se 40% da humanidade fosse precisamente como eu, passando todo esse tempo lendo e estudando coisas teóricas, nossa população nunca poderia ter se tornado tão grande. Porque nossa população é muito grande e não é necessário que tantos indivíduos produzam conhecimento dessa natureza. Temos nossa demanda e nossa oferta. Um desequilíbrio aqui seria economicamente desastroso. Aliás, se todos fossem intelectuais, nossa espécie desapareceria. O pragmatismo não é uma praga. É desumano, feio, irritante, mas completamente necessário á nossa sobrevivência.
Eu mesmo lendo isso (se é que chegaria a ler tudo) ficaria irritado. Tal nível de pragmatismo me dá nos nervos, precisamente porque não está na minha natureza, no meu modo operante, aceitar coisas assim. E a humanidade, apesar de que em grau pequeno, ainda necessita de alimento para o espírito. Ainda é crucial pararmos para ouvir uma música, lermos um romance, assistirmos um filme (que não seja clichê de Hollywood). No fim do dia, o ser humano ainda quer filosofia, ainda quer arte, ainda quer sua humanidade. E, segundo minha visão, isso é mais freqüente hoje do que antigamente, especialmente por conta da Internet e da diminuição da escassez.
De fato, a indústria cultural produz merda diariamente. E de fato cria produtos que mais esvaziam a mente do indivíduo do que o fazem refletir. E realmente eu consideraria preferível que programas que instigam que fazem o indivíduo pensar, tomassem frente. Mas a verdade é que não há demanda. Esse não é o nosso Zeitgeist. Pessoas comuns gostam de coisas banais e comuns, e não seremos nós a moldar suas mentes. Sim, o mundo está uma merda, vemos coisas revoltantes acontecendo todos os dias. Coisas que não fazem sentido³. Só que é isso que temos...! E felizmente, para nós, há espaço para manifestarmos nossa arte e o nosso pensamento, não?
Nossa função aqui é conservar o espírito humano e deixá-lo sempre disponível a quem quiser procurá-lo. Tenho para mim que conforme a escassez for diminuindo através do avanço tecnológico, os trabalhadores sairão do setor de produção (que produzirá mais com custos menores) e passarão para o setor de serviços.
E não é a educação parte desse setor. Na prática, creio que só precisamos viver mais e que a proporção entre o número de professores e alunos mude. Um professor de ensino médio com uma turma de 35, 40 alunos, simplesmente não tem como transmitir o conhecimento de maneira dinâmica: o tamanho do grupo inibe qualquer manifestação individualizada.
Por enquanto, as coisas permanecerão como estão. Creio que é possível que vejamos essa mudança começar no nosso tempo de vida. Daqui a uns 50 anos, quando a biotecnologia estiver mais desenvolvida, teremos uma diminuição dramática na escassez. Aí a produção será mais barata e teremos que nos preocupar cada vez menos com a sobrevivência, tendo mais tempo para a reflexão.
Isso me leva à parte mais mística das minhas opiniões, que talvez pareça ridícula ou revoltante.
Estamos num período de transição na nossa sociedade, onde valores como o conhecimento, a liberdade e o amor estão se tornando mais... Psicologicamente imperativos. Temos o Movimento Zeitgeist⁴. Inclusive escrevi um texto⁵ a respeito disso, onde expus que nosso psiquismo está se alterando em nível coletivo, especialmente por conta das mudanças climáticas. Aconselho que você dê uma olhada nesse material quando tiver tempo. Nossa civilização está se emancipando e somos parte disso.
Estou honestamente de saco cheio. Considerarei um milagre se você chegar a ler isso. Se nos correspondermos, no entanto, você verá que esse texto dá uma introduzida (mesmo que mais ou menos incoerente) à minha forma de pensar, de maneira que se você ler mais alguma coisa, será muito mais fácil assimilar.
Anyways, chega dessa bobagem intelectual por hoje...
1)      Não sei se dizem isso por aí, mas por aqui isso significa que um jogo de bolinha de gude valia a bolinha. Se você é acertado jogando à vera, você perde sua bolinha.
2)      O espírito do tempo, o conjunto de conhecimentos de uma determinada época.
4)      Movimento que surgiu depois do lançamento de dois documentários na Internet por Peter Joseph:
Esses vídeos foram apresentados num festival artístico e depois postados na internet. Incrivelmente, logo nos primeiro meses eles tiveram dez milhões de vizualizações e ficaram muito populares sem nunca ter sido publicado na TV.

Sobre a escravidão psicológica moderna

Este post contém apenas um pequeno fragmento de minha autoria. Seu conteúdo foi copiado de um grupo Junguiano do qual participo. Dentro do grupo, há um tópico com textos que considerei profundamente interessantes, de maneira que decidi postar todos aqui.

Link original: http://pos-jung.ning.com/forum/topics/controle-dominacao-matrix?xg_source=activity

Post inicial, por Anubys:

No início da era cristã, os gnósticos identificaram e descreveram um complexo sistema que operava simultaneamente nos planos físico, psíquico e social, e cuja finalidade era dupla: de um lado, manter o ser humano em uma condição de dependência dos poderes externos (sejam eles outros seres humanos, as forças determinísticas da natureza ou divindades tirânicas); do outro, drenar a energia excedente da psique, para impedir que a consciência do ser humano se elevasse a um nível incompatível com essa dominação. Esse sistema foi minuciosamente analisado por Valentino, fundador de uma das principais linhagens gnósticas da antigüidade, que deu a ele o nome de sístase

Os gnósticos foram os primeiros a apontar com clareza para o modo como as estruturas de poder da sístase se enraízam no próprio corpo. Mal-interpretada por seus detratores cristãos, essa descoberta deu origem à falsa crença de que os gnósticos fossem dualistas, que pregavam uma separação radical entre o espírito e o corpo, enxergando este último como a fonte de todo o mal.

Não é verdade, e o estreito vínculo entre corpo e poder foi redescoberto no século XX por Wilhelm Reich, que rebatizou a sístase como "couraça muscular" e intitulou o primeiro capítulo de seu Psicologia de Massas do Fascismo de "A Ideologia como Força Material". Reich descobriu também, aprofundando uma idéia lançada originalmente por Freud no início da psicanálise, que o principal aparelho ideológico usado pelo sistema para gravar essas estruturas na própria carne das pessoas (à maneira da Máquina em "Na Colônia Penal", de Kafka) é nada menos que a família.

O passo seguinte, por assim dizer, veio com Foucault, na década de 60. De um lado, Foucault confirmou a alegação gnóstica sobre a universalidade do sistema de dominação, ao mostrar que o poder não se difunde apenas verticalmente, imposto de cima para baixo, mas também horizontalmente, através de uma malha ubíqua de relações sociais (inclusive as familiares), o que faz com que cada um de nós torne-se um agente involuntário do poder, ao mesmo tempo prisioneiro, carcereiro e cárcere.

Do outro, Foucault salientou o caráter histórico da sístase: embora o sistema de dominação, como tal, se perpetue através das gerações, estendendo-se sabe Deus desde quando (talvez desde Adão tremendo de medo aos pés da Árvore do Conhecimento), suas estruturas sofrem mutações periódicas para se adaptar às novas circunstâncias sociais e históricas que inevitavelmente surgem.

Como exemplo dessas mutações, pode-se citar a sexualidade (tema de um estudo clássico de Foucault em três volumes, a História da Sexualidade ). Durante a Era Vitoriana, o sexo foi submetido a um escrutínio feroz por parte das autoridades médicas, sociológicas e políticas, com o objetivo de mantê-lo sob um rigoroso controle, devidamente enquadrado no sistema.

Na época de Reich (e de Freud), essa repressão sexual embora mais complexa do que tanto Freud quanto Reich acreditavam, já que não visava a calar o sexo mas, pelo contrário, a fazê-lo falar, como um prisioneiro sob interrogatório, era um dos traços dominantes da sístase, e se tornou a pedra-de-toque de seus respectivos métodos terapêuticos. Vieram as duas grandes guerras mundiais, que despedaçaram a sociedade vitoriana e uma das conseqüências disso foi a revolução sexual dos anos 60, saudada pela Contracultura e por uma geração de hippies como uma libertação.

Mas, como Marcuse alertava em Eros e Civilização, a liberação sexual fazia parte, na verdade, de uma estratégia do sistema, a que ele chamou de dessublimação repressiva, depois de interrogado, torturado e virado do avesso, o prisioneiro passou a colaborar com a sístase, que continua muito bem, obrigado, mesmo em tempos de sexualidade aparentemente livre.

Qualquer dúvida quanto a isso, é só ver o constante apelo da publicidade ao sexo como motivação para o consumismo. Quem olha para essa deslumbrante mulher seminua, orgulhosamente adaptada depois de um século de lavagem cerebral, jamais adivinharia seu passado de revolucionária. Sexualidade, teu nome é Patty Hearst.

E agora, que a revolução informática conectou o mundo todo, gerou acesso instantâneo à informação e, durante um breve período, ameaçou chacoalhar as estruturas de dominação (numa promessa, infelizmente, não cumprida, mas que, mesmo assim, gerou seus frutos), tudo indica que o estado de sístase está prestes a sofrer uma nova mutação.

É o que indica o artigo de Hara Estroff Marano. Corroídos pela ansiedade. Editora da revista Psychology Today (em cujo site, pode ser lida gratuitamente a versão original do artigo, sob o título de "A Nation of Whimps"), Marano considera que a tendência da atual geração de pais americanos a superproteger os seus filhos pode ter graves conseqüências quando eles se tornarem adultos:

Bem-vindo à infância inteiramente higienizada e protegida, sem joelhos esfolados ou uma ou outra nota "C" no boletim. "As crianças precisam sentir-se em falta de vez em quando", diz o psicólogo infantil David Elkind, professor na Universidade Tufts [Massachusetts, EUA]. "Aprendemos por meio da experiência, incluindo as experiências negativas. Por meio do fracasso, aprendemos a enfrentar as dificuldades." Mas cometer enganos, mesmo no playground, é algo que anda totalmente fora de moda. Apesar do fato de tentativa e erro serem os verdadeiros "pais" do sucesso, os pais estão se dando muito trabalho para remover os erros dessa equação. Ninguém duvida da existência de forças econômicas importantes que estão impelindo os pais a investir tão pesado na produção de seus filhos, desde a mais tenra idade. Mas tirar do desenvolvimento das crianças todo o desconforto, as decepções e até mesmo a brincadeira, especialmente quando isso é acompanhado de uma pressão crescente de exigência de sucesso, revela ser um erro de rumo de mais ou menos 180 graus. Quando enfrentam poucos desafios próprios, as crianças não conseguem criar suas adaptações criativas próprias às vicissitudes normais da vida. Não apenas isso as torna avessas ao risco, como as faz psicologicamente frágeis, corroídas pela ansiedade.

Parece uma reedição do velho debate que atravessa a pedagogia, sobre se os bons pais devem ser permissivos ou controladores, e em certo sentido não deixa de ser. Por outro lado, também não deixa de ser sintomático que os adultos produzidos por essa "infância higienizada" pareçam feitos sob medida para uma sociedade de controle: "Nesse processo elas perdem o senso de identidade, de sentido e de realização", escreve Marano, "sem falar em suas chances de alcançar a felicidade 'real'. Além disso, não aprendem a ter perseverança, que não é apenas uma virtude moral, mas uma habilidade necessária à vida."
Na ausência de um senso de identidade solidamente enraizado em si próprias, as crianças passam a depender de uma autoridade externa que lhes diga quem são, o que devem fazer e qual o sentido de suas vidas.

E no afã de proteger seus filhos de todos os problemas, mostrando-se sempre disponíveis para resolver prontamente qualquer dificuldade que surja, os pais, imbuídos das melhores intenções, mas eles mesmos vítimas de sua programação inconsciente, só fazem perpetuar essa condição de dependência, que já começa a mostrar seus reflexos fora do âmbito familiar: "Na estufa em que se transformou o processo de criação das crianças, o brincar é algo que praticamente desapareceu. Mais de 40 mil escolas americanas não têm mais recreio. E o pouco tempo que ainda resta para brincar foi corrompido. Os esportes organizados dos quais muitas crianças participam são administrados por adultos. As dificuldades que surgem ali não são resolvidas pelas crianças, e sim por decreto de árbitros adultos."
Obviamente, quando essas crianças crescerem, os pais não vão estar sempre por perto para lhes dizer o que fazer. Ganha um doce quem for capaz de adivinhar o que é que entrará no lugar dos pais ausentes como fonte de autoridade.

Um superego externo. - Na produção dessa dependência perpétua, o celular ocupa um lugar de destaque, o que o torna, ao mesmo tempo, uma imagem exemplar da forma como o estado de sístase é capaz de absorver qualquer elemento que surja e convertê-lo em um instrumento para sua própria manutenção.

Criado originalmente com a finalidade de facilitar a comunicação, o celular logo se transformou em uma ferramenta de controle que funciona nos dois sentidos: se o filho, criança ou adolescente, tem um celular, os pais sempre poderão encontrá-lo, a qualquer hora ou em qualquer lugar e, em troca, ele também terá acesso ilimitado aos pais para que eles lhe digam como agir.

"Pense-se no celular como o cordão umbilical eterno", diz Marano, que contrasta essa situação com o modelo clássico de crescimento: "Um dos modos pelos quais nos tornamos adultos é internalizando uma imagem de nossos pai e mãe e dos valores e conselhos que eles nos passaram em nossa infância. Então, sempre que nos defrontamos com incertezas ou dificuldades, recorremos a essa imagem internalizada. Nós nos tornamos, de certa maneira, todos os adultos sábios que já tivemos o privilégio de conhecer." O psicólogo infantil David Anderegg complementa: "O celular impede os jovens de descobrirem por conta própria o que fazer. Eles não chegam a internalizar nenhuma imagem. A única coisa que internalizaram é o comando 'ligue para papai ou mamãe'."

Obviamente, a internalização da imagem paterna, que tanto Marano quanto Anderegg parecem ver como uma condição saudável que está sendo destruída pela nova situação, é tudo menos saudável. Em linguagem psicanalítica, o que eles estão descrevendo é a formação do superego, que Freud descreveu como a colonização da psique pelos padrões e valores impostos pela sociedade.
Em outras palavras, o superego é, ele próprio, um dispositivo de controle implantado nas mentes das pessoas. Mesmo se o diagnóstico deles quanto aos efeitos psicológicos do celular estiver correto, não estamos passando de uma situação de liberdade para uma situação de dependência, e sim de uma situação de dependência internalizada para uma dependência externa.

Dependência é dependência, só mudam as suas formas de atuação. O superego, que antes era uma instância puramente intrapsíquica, passa a ser projetado no ambiente externo que, num certo sentido, torna-se ele mesmo superegóico, fazendo eco às palavras do (às vezes reacionário, às vezes visionário) filósofo francês Jean Baudrillard: "Tudo aquilo que é interior (rede, funções, órgãos, circuitos conscientes ou inconscientes) será exteriorizado na forma de próteses, que constituirão ao redor do corpo um corpus ideal satelizado, do qual o próprio corpo tornar-se-á satélite. Todo o núcleo será desnucleizado e projetado no espaço satélite."

Os Cem Olhos de Argos - Deleuze referiu-se a esse espaço-satélite que, hoje vemos com clareza, é um satélite de vigilância e espionagem como sendo a nova sociedade de controle que começou a emergir na segunda metade do século XX, e que é a nova face assumida pelo estado de sístase denunciado e combatido pelo gnosticismo.

Ao contrário de Baudrillard o qual, como Marano e Anderegg, embora num outro contexto, tende a idealizar os estágios anteriores da sístase como uma espécie de "paraíso perdido", Deleuze não vê a sociedade de controle como pior ou melhor do que as formas prévias que ela vem substituir especialmente a sociedade disciplinar do século XIX, que Foucault estudou em Vigiar e Punir, e de cujo ventre o superego freudiano é o fruto. Ela é apenas uma forma diferente de fazer a mesma coisa, garantir que, quanto mais as coisas mudem, mais elas permaneçam iguais.

A mitologia grega conta a história de Io, uma das incontáveis amantes de Zeus perseguidas pelo ciúme de Hera e que, depois de ser transformada em novilha, foi aprisionada e colocada sob a vigilância implacável do gigante Argos. Em uma das versões da lenda, Argos era um cíclope, dotado de um único olho, e para se submeter a seu olhar monocêntrico, a novilha Io teve de ser amarrada a uma árvore. Segundo outra versão, mais difundida, Argos tinha cem olhos espalhados pelo corpo. Não havia necessidade de prender Io porque, onde quer que ela fosse, os olhos de Argos a seguiam. Curiosamente, a diferença entre as duas variantes do mito é a mesma que existe entre a antiga sociedade disciplinar e a nova sociedade de controle.

As sociedades disciplinares organizam-se sob a forma de uma série de espaços fechados, a família, a escola, o quartel, a fábrica, o hospital para os doentes físicos e o hospício para os doentes mentais, cujo paradigma é a prisão. No decorrer de sua vida, o indivíduo simplesmente passa de uma forma de clausura para outra, sempre submetido a alguma forma de vigilância e disciplina, até ser trancafiado nesse derradeiro espaço fechado que é o cemitério.

O mecanismo funcionou como uma engrenagem perfeitamente azeitada durante aproximadamente duzentos anos, do século XVIII, quando ela começou a se constituir, até mais ou menos a metade do século XX e atingiu seu apogeu no século XIX. Daí para a frente, começou a fazer água, até entrar em uma espécie de colapso, do qual, talvez, a contracultura das décadas de 50 e 60 foi o grande anunciador: Nas palavras de Deleuze:

Estamos em uma crise generalizada de todos os locais de clausura: prisão, hospital, fábrica, escola, família. A família é um "interior" em crise, como todos os interiores, escolares, profissionais, etc. Os ministros competentes não deixaram de anunciar reformas supostamente necessárias. Reformar a escola, reformar a indústria, o hospital, o exército, a prisão; mas todos sabem que estas instituições estarão extintas, a um prazo mais ou menos curto. Trata-se apenas de administrar sua agonia e de ocupar as pessoas até a instalação das novas forças que estão batendo à porta.

Essas novas forças são as da Sociedade de Controle, termo que Deleuze pegou emprestado de William Burroughs, e que são organizadas sob moldes profundamente diferentes dos da sociedade disciplinar.
O paradigma não é mais fornecido pela prisão e a fábrica, mas pela empresa e pelo comércio. O espaço deixa de ser rigidamente demarcado, as fronteiras tornam-se fluidas, permeáveis, e a vigilância monocêntrica, concreta, torna-se desnecessária, substituída por uma vigilância ubíqüa e virtual: "Não é preciso a ficção científica para conceber um mecanismo de controle que assinale a cada instante a posição de um elemento em um lugar aberto, animal em uma reserva, homem em uma empresa (coleira eletrônica)."

É fácil perceber no uso do celular como instrumento de controle um dos avatares da coleira eletrônica mencionada por Deleuze. Não é o único, e talvez em breve deixe de ser o mais importante. A proliferação de câmeras de segurança, acompanhadas ou não da hipócrita advertência de que "sorria, você está sendo filmado", é outro sintoma da crescente onipresença dos cem olhos de Argos.
Acuada pelo medo e a insegurança crescente, a população passa a encarar essa onipresença com alívio, como uma proteção ilusória contra a criminalidade urbana, e pode-se perguntar, como Arthur Dapieve, se a função da criminalidade não será exatamente essa, fazer com que a sociedade se submeta ao controle por livre e espontânea vontade ou seja, uma vontade que não é verdadeiramente livre, nem espontânea e muito menos vontade.

No extremo oposto, o sucesso dos reality shows cumpre o papel pedagógico de ensinar as pessoas não apenas a aceitar como de fato a desejar essa exposição constante às lentes das câmeras, e o título de um dos primeiros e até hoje mais bem-sucedidos programas nesse formato encerra menos uma ironia do que uma admissão cínica, não dos produtores mas do próprio sistema, quanto às intenções que presidiram ao seu surgimento.

E não deixa de ser significativo que os chips de localização, desenvolvidos inicialmente com o objetivo de serem implantados nos criminosos, comecem a aparecer no mercado como um produto a ser adquirido pelo respeitável cidadão, permitindo que a polícia saiba a qualquer momento onde ele pode ser encontrado em caso de seqüestro. O chip de localização é um símbolo perfeito da passagem da sociedade disciplinar para a sociedade de controle e aponta para o fato de que ainda somos todos prisioneiros, mas de uma prisão desprovida de muros concretos e portões intransponíveis. Nossa liberdade de ir e vir é assegurada apenas na medida em que levamos a nossa prisão conosco.

Criando o cidadão de amanhã. - De posse desses dados quanto ao contexto geral, podemos voltar ao problema específico levantado por Marano em seu artigo. Filhos de uma civilização em transição, nascidos sob a égide do esfacelamento da sociedade disciplinar, precisamos ser coagidos pelo medo à criminalidade ou adulados pela promessa de nossos quinze minutos de fama para que aceitemos o novo regime imposto pela sociedade de controle.

Nossos moldes não se encaixam muito bem no novo esquema geral das coisas, e é por isso que o sistema tem de recorrer a engodos e ardis para que nos adaptemos. Outro caso completamente diferente é o dessa geração que preocupa Marano e os psicólogos infantis que ela cita:
John Portmann acha que os efeitos da superproteção são ainda mais perniciosos que eles enfraquecem toda a tessitura da sociedade. Ele vê os jovens se tornando cada vez mais fracos, cada vez mais ansiosos por pertencer ao rebanho maior, demasiado ansiosos por se enturmar afirmando-se menos em sala de aula, pouco dispostos a discordar de seus pares, com medo de questionar a autoridade, mais dispostos a satisfazer as expectativas dos que estão situados um pouco acima deles na escala de poder.

Portmann só erra quanto ao pressuposto de que os efeitos da superproteção "enfraquecem a tessitura da sociedade" uma afirmação otimista demais, que ignora completamente a dinâmica do estado de sístase.

Ansiosos, submissos e desprovidos de livre-iniciativa, os adultos de amanhã são os cidadãos ideais de uma sociedade de controle que já começa a cravar suas garras no hoje. Quando essas crianças crescerem, descobrirão provavelmente sem esboçar qualquer reação quanto a isso que foram feitas à imagem e semelhança do novo rosto assumido pelo eterno deus do sistema.

Resposta de Juçana:

Bela análise do momento atual, pouco ou nada teria a ser acrescentado para tornar o quadro geral da humanidade mais completo, nos meandros históricos, político e psicológicos e também nessa estranha relação do homem contemporâneo entre o que é aparente e o que é oculto, entre o que ele quer, o que ele faz e o que obtém. Concordo inclusive com o diagnóstico, mas teria algo a discordar do prognóstico...

Por mais que o homem seja estes descaminhos todos e esteja, digamos, em estado de sístase permanente, ainda assim eu vejo nas crianças de hoje uma identidade desapegada dos papéis antigos, como poucas gerações anteriores tiveram oportunidade, ou mesmo liberdade, de experimentar. A geração dos novos que estão chegando, têm realmente uma maneira diferente de estar no mundo. Muitas causas contribuem para essa relativa - e frágil - "liberdade", mas, por mais paradoxal que possa parecer, acho que é justamente a sociedade do controle a que propicia o espaço ou fornece motivação para que esse novo homem, que "está vindo", possa construir uma identidade desapegada do "controle central". Pois quando todos são vigiados, quando o controle é levado às raias do absurdo, o controle em si mesmo cai por terra e outra coisa nasce em seu lugar e bem poderíamos chamar essa coisa de "liberdade". É quase uma enantiodromia junguiana, ou sístole aristotélica, ou libido freudiana vagando entre eros e tanatos. O homem é esse vagar entre, e não podemos desconsiderar as consequências deste permanente estado de contradição, como uma condição para sua existência.

Eu percebo que tudo o que o homem pensa, constrói, imagina, sente, de algum modo existe e se faz real para ele, e não há como o homem não lançar mão daquilo que para ele é ou se faz real, seja um pensamento, um sentimento ou até mesmo um objeto. Porém, se homem fosse apenas esse vetor, do que ele "constrói", há muito nós não estaríamos mais aqui nesse planeta. Existe igualmente uma outra força contrária e sem nome, seria o contra-objeto, o contra-conhecimento ou o contra-sentimento, ou qualquer coisa que poderíamos chamar de "o antídoto".

Ou seja, do mesmo modo que o homem destrói o planeta, de outro ele o preserva - e também se ele não estivesse destruindo o planeta, não haveria necessidade de pensar e de colocar em prática um outro modo de vida sustentável. E do mesmo modo que o homem inventa a bomba H ou artefatos cada vez mais bélicos e destrutivos - e tudo que ele constrói não há meios que o impeça de lançar mão do objeto construído, a não ser o conhecimento do mal que ele provocaria, que é o que efetivamente segura a sua mão na hora de apertar o gatilho e lançar tudo pelos ares. Ainda existe o contrasenso de que a energia nuclear seja mais limpa e o que foi feita para destruir seja, num curto prazo, a alternativa ecológica mais viável para preservar a atmosfera. Assim, concluo, quando o homem é vigiado de fora, é quando ele encontra condições ideais de formular regras interiores independentes. Mas, é claro, o quadro que estou delineando talvez seja uma experiência para poucos, mas quero crer é o começo duma outra realidade e que passa longe por uma sociedade de controle absoluta.

Minha resposta:

Talvez exista um problema nessa argumentação. É bem simples: se estamos mesmo escravizadas, "Ansiosos, submissos e desprovidos de livre-iniciativa", então como é que há uma constante força arquetípica no pensamento de um modo geral contra isso? Lembro da última pergunta que foi feita a Jung na entrevista do “Face to Face”, que inclusive traduzi e postei noutro forum:

Entrevistador: “Na medida em que o mundo se torna mais eficiente tecnicamente, parece cada vez mais necessário que as pessoas se comportem de maneira comum, coletiva. Você acredita que no maior grau de evolução humana, acabemos submersos em algum tipo de consciência coletiva?
.
Jung: “Isso é muito improvável. Penso que haverá uma reação. Uma reação contra essa dissociação comunal. Sabe, o homem não suporta sua nulificação para sempre. Em algum momento haverá uma reação, e eu a vejo chegando. Quando penso nos meus pacientes... Todos eles estão buscando sua própria existência e. Buscam assegurar sua existência contra essa completa atomização que leva ao nada, à ausência de sentido. O homem não pode suportar uma vida sem um propósito, um sentido(meaning).

Eu vejo reações em toda a parte: Neo-pentencostais pregam libertação contra vícios e criminalidade; conspiracionistas pregam a libertação contra o sistema dos maçons, illuminati, sionistas, etc.; os mais místicos pregam a libertação contra os "reptilianos" ou "dragões", os ativistas "verdes" buscam libertar o homem da destruição do meio ambiente, os Junguianos(e não só eles) buscam propiciar a individuação, que liberta o homem de ser algo que ele não é; os Socialista buscam libertar o homem da opressão da burguesia, que supostamente mantém a escassez para perpetuar o sistema.

Inclusive seu primeiro parágrafo me lembrou um livro meu, que ainda está em fase de construção (50 páginas, mais ou menos 20% do total). Esse livro possui temática de extra-terrestres(Mito moderno?) e há muitas espécies no universo. Agindo no nosso planeta há basicamente duas. Uma delas, uma civilização de "escravos-soldados", buscam dominar nosso planeta e transformá-lo numa "usina". Só que a energia que eles absorvem é mental (Orgone, Libido, Energia psíquica?). A energia criativa do ser humano. Na medida em que eles sugam a nossa energia criativa, não percebemos nada além do banal e a vida se torna uma escravidão mental. Assim, eles mantém nossa sociedade estagnada em diversos aspectos e ainda usam essa energia em guerras fora daqui. Nossa espécie progride(no sentido de individuação dos indivíduos) num ritmo muito mais lento do que deveria por conta disso.
Além de sugarem nossa energia mental, eles se infiltram em todos os ramos de ação local e assumem cargos altos, para manter a ordem social mais ou menos estável.

No entanto, não para por aí. Há uma civilização "salvadora". Chegou apenas recentemente que também é uma cilização de soldados, mas é livre. O objetivo dessa civilização é permitir que a energia dos habitantes locais possa fluir na direção deles próprios, e a partir do momento em que isso acontecer, os problemas sociais serão eliminados. Porque, como Jung diz, o homem é a maior fonte de problemas do mundo, e também a maior fonte de solução. Enquanto o homem não tomar consciência de si mesmo e continuar projetando sua sombra no próximo, os conflitos continuarão. Inclusive, nesse contexto, a civilização chegou nesse momento por conta de uma espécie de "período de transição", sobre o qual Jung fala em O mito moderno e nessa entrevista(face to face).

Independente da "realidade" de tais pontos, pra mim parecem de natureza arquetípica. Inclusive foi com muita surpresa que li seu primeiro parágrafo, porque o que eu falo no meu livro é muito parecido com o que os gnósticos diziam:

"No início da era cristã, os gnósticos identificaram e descreveram um complexo sistema que operava simultaneamente nos planos físico, psíquico e social, e cuja finalidade era dupla: de um lado, manter o ser humano em uma condição de dependência dos poderes externos (sejam eles outros seres humanos, as forças determinísticas da natureza ou divindades tirânicas); do outro, drenar a energia excedente da psique, para impedir que a consciência do ser humano se elevasse a um nível incompatível com essa dominação."

É exatamente isso que essa civilização faz! E eu nunca tinha lido sobre os gnósticos! Mesmo assim, minha mente parece ter captado isso da mesma forma que eles. A diferença é que eu representei nesses termos, e eles noutros. Aliás, eu soube que os espíritas acreditam em algo análogo, a respeito dos Dragões que vivem no Umbral. Cada um representa a questão segundo os próprios termos, mas questão está sempre aí.

Mas essas representações sempre mostram um salvador. E a nós é dada relativa liberdade entre escolher a liberdade ou a prisão. Entre abrir a mente o ficarmos acorrentados à paradigmas insípidos. Acha que deveríamos baixar a cabeça e lamentar diante da estupidificação? Que é o destino da nossa espécie que todos se tornem zumbis, autômatos?

Não... Eu concordo com a Juçana. Ainda tenho esperança...