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A razão e a loucura numa manhã qualquer



Eu sonhei naquela noite que era uma arvore. Com as minhas raízes profundas e meu tronco grosso eu estava sozinho ali naquele campo. O vento, quando vinha, atingia meus ramos em cheio. Então uma nuvem ganhou formato de rosto e riu de mim. Olhei pra baixo, mesmo na ausência de olhos, e percebi uma florzinha. Lembrei dela como se sempre soubesse de sua existência, como se estivesse gravada na minha alma de tal forma que a conhecia totalmente. Quando eu a vi balançando com a brisa, por mais que não pudesse explicar, lembrei-me de sua essência e pude ver todo o seu ser.
Mas a risada voltou, e com ela veio uma ventania. Eu vi as pétalas dele voarem uma por uma até ela ficar como um graveto. Ela foi arrastada e eu nada podia fazer. Eu nem podia me mover. Aquilo virou um tornado e eu senti minhas raízes se desprendendo do chão. Tudo girou e eu voei.
Acordei na cama como num pulo. Havia uma mulher nua olhando pra mim.

- Pesadelo, querido? – perguntou ela
- Não sei dizer. O que você faz aqui? – disse eu
- Bebeu demais, e não lembra de mim. Imaginei. – disse ela num tom sarcástico desapontado
- Não me esqueci de você, Julia. Apenas lembro-me de você dizer que eu acordaria sozinho. Acontece que eu acordo meio atordoado e vou relembrando as coisas com lentidão quando bebo.
- De lembranças é o que preciso. Você estava por me dizer uma coisa ontem á noite, mas adormeceu e eu não pude te acordar pra ouvir.
- Não me lembro. Diz o que você falava antes de mim.
- Eu falava do meu marido e de sua maldita mania de honra. Falava que acho que não sirvo pra casar.
- hehehehe... Já sei o que eu iria falar.
- E o que era?
- Em primeiro lugar, que fique claro que seu marido é um idiota. Ele serve um imperador corrupto e sanguinário e possui fé numa mentira irracional propagada através das trevas de sua ignorância. Mas isso você já sabe.
- E o que mais?
- Isso de casar... Eu cheguei aqui alguns meses antes do seu casamento e tivemos algo como um caso, mas só com nossos olhares. Você nunca precisou dizer muito: estava escrito nos seus gestos, no seu jeito de falar, de olhar. Você não é pra casar.
- Nossa, falando assim você parece me desavalorizar!
- Pro diabo! Desvalorizar nunca! Acontece que você ama demais pra se apegar!
- Não entendi. Eu não sou nenhuma madre Teresa não, viu?
- Eu não tenho o costume de falar do que não sei, então não falo dessa Teresa e nem da forma como ela ama. O amor de que falo aqui é bem carnal.
- Ah, que ótimo! Está me chamando de vadia!
- Esse nome é baseado numa linguagem que não reconheço. Pra mim, seu espírito é demasiadamente leva e seu amor é perigosamente genuíno. É por isso que você não respeita as regras: porque você ama, e o amor não respeita nenhuma regra. Você não precisa dizer, Julia. Eu vejo nos seus olhos que você ama certo sujeito aí da vila. Particularmente, nunca me interessou. Ao menos tem hábitos de higiene, coisa rara nesses tempos turbulentos.
- Assim tudo parece mais aceitável. Mas como viver como eu mereço como eu sou?
- Nesses tempos, onde você não é pessoa, mas ovelha, é difícil. Mas você é moça hábil e nós sabemos, então pode fazer dinheiro. Só não espere ser respeitada pelos adoradores das regras. Os membros do rebanho não gostam de ovelhas desgarradas, pois elas servem de lembrança de que há um mundo além das cercas.
- Que inferno! Se eu fosse rica, se eu fosse homem, poderia ser livre!
- Estamos no meio do nada, Julia. Podemos não estar bem situados no tempo, mas no espaço, isso com certeza. E você sabe que meu teto é seu, contanto que entenda que não é só seu.
- Que deus me livre de viver contigo! Você tem mania de banho, nunca organiza suas coisas, ronca como um lobo rosnando e nunca está satisfeito! – disse ela enumerando com os dedos.
- Calúnias, todas!
- Defenda-se, então!
- Em primeiro lugar, por mais que sabão seja uma coisa cara, por mais que venha de longe, sem ele nossos corpos fedem a merda. Nem imagino como você pode ter alguma coisa com seu marido com todo esse fedor. Por Deus, com uma armadura o dia inteiro debaixo do sol!
- Mas dizem que tomar banho todos os dias faz mal á saúde...
- Também dizem que mulheres voam com vassouras. As pessoas dizem muita idiotice.
- Tudo bem, dessa acusação você se safou, mas e as outras?

Eu parei, olhei pra ela e lhe dei um beijo lento, duradouro. Ela afastou meu rosto e me olhou com aquele olhar inquisidor, de quem não vai deixar passar. É a única pessoa que consegue fazer esse olhar e me agradar.

- Ta bem! Vamos lá, a próxima acusação era sobre minha organização, certo?
- Isso.
- Então, o que é a organização senão uma tentativa fútil do ser humano de controlar o incontrolável? Empilhar, criar categorias e divisões! Pro diabo com tudo isso!
- Isso não justifica nada. Tem dias que mal da pra andar nesse lugar!
- E não há um dia, no entanto, que você deixe de sorrir por isso quando entra aqui.
- Verdade. Eu te considero condenado, mas não precisa de punição além dos tombos que você já leva aqui quando bêbado.
- Fato. Meu pé dói desde não sei quando... mas então, do meu ronco e não tenho nenhuma evidência. Então é minha palavra contra a sua!
- Argumento desonesto. Pergunta á Gabriela, Joana ou quem sabe à Aline! Certamente ficarão do meu lado!
- Sério que você já ficou sabendo da Aline? Mulheres e a fofoca...
- Todos sabem das mulheres que você “desonra”!
- Enfim, o que você quis dizer com nunca estou satisfeito?
- Mesmo com todas as mulheres e mesmo com o vinho, você leva pelo menos uma hora antes de me deixar sair dessa cama!
- Ora... Como isso não é uma virtude? Não gosta de aproveitar o vigor da minha juventude?
- É que você parece estar procurando algo, sabe?
- Como assim?
- Você faz amor com a ânsia de quem corre numa jornada atrás de algo importante... Não sem explicar direito.

Naquele momento eu lembrei da florzinha despedaçada pelo vento, mas não a mencionei.

- O meu rumo é o seu prazer e nada mais! – disse sorrindo
- Fugindo de mim agora? – perguntou ela
- Não entendo.
- Quando tento mergulhar mais fundo na sua alma você foge do assunto assim.
- É que me ocorre uma florzinha, uma borboleta, um pequeno pedaço de algodão. Sempre sendo arrancado de mim violentamente. Isso me angustia, Julia.
- E o que isso significa?
- Meu passado, aquilo que me atormenta.
- Foi essa flor que foi arrancada de você que te manteve solteiro com todo esse dinheiro?
- Não. Ela sabia que minha natureza é volátil. Casado ou não, eu viveria dessa mesma maneira.
- O que aconteceu com ela, Leandro?
- O vento a levou... – disse antes de enfiar minha cabeça no cobertor.

Lágrimas escorreram pelo meu rosto enquanto Julia me acariciava a cabeça.

- Ele pode até tê-la levado pra longe dos seus olhos, mas não pra longe do seu coração. Eu nunca te vi tão triste assim...
- Ela vive em mim. Sempre viverá, mesmo depois da minha morte.
- A morte... Porventura o importante não está na vida aqui e agora?
- Ah sim. E sabe o que eu vejo agora?

Ela me olhou surpresa, como quem olha pra uma criança que fez besteira.

- Você acabou de se abrir pra mim e já vem me olhando com esse olhar de desejo!
- Sabe, eu estava lá no passado e você me trouxe pro presente. No presente eu vejo você e sinto desejo.
- Isso é loucura! Como você pode ser tão lascivo?
- Eu inventei um termo novo, que talvez em alguns séculos fique famoso. Sad fuck. É lenta, longa e banhada a lágrimas. Tive meus melhores orgasmos assim!
- Louco, fique longe de mim – disse ela rindo.

Mas eu a agarrei. Por uns segundos ela lutou e tentou se soltar, mas logo desistiu. Deitamos de lado e ela me deu as costas. Minhas mãos correram por todo o seu corpo enquanto minha boca marcava sua pele branca. Aqueles ombros, aquele pescoço. Sempre adorei beijá-los. Eu soltava o ar quente na nuca dela e a assistia se contorcer. Ela também sabia me agradar. Passava o braço por trás da minha cabeça e acariciava minha nuca.

- Louco...! – disse ela entre os suspiros

Eu meu soltei dela e desci minha boca até sua barriga. Ela sempre adorou que eu beijasse sua barriga enquanto lhe acariciava os peitos. Eram movimentos ensaiados, que nós tínhamos. Desci até os lábios dela. Úmidos, com cheiro de sexo. Provavelmente fizemos muito na noite anterior, mas não me lembro bem. Ela colocou as pernas em volta da minha cabeça e apertou. Adoro quando ela faz isso, embora não seja sempre. Como sei do ritmo dela, comecei bem devagar com a língua e com a ponta do dedo logo abaixo fazendo movimentos pra cima e pra baixo. Eu sorria por sentir a musculatura do abdome dela se retrair, por ouvir os suspiros. Conforme o ritmo com a língua aumentava e se diversificavam as formas de movimento, meu dedo ia se aprofundando. E com facilidade, se melando no interior dela.
Quando estou nessa situação eu perco a noção do tempo. Chego numa espécie de êxtase na ocasião de a mulher estar apreciando. Por isso não sei quanto tempo passou e nem me importo. Só sei que num momento meu dedo estava entrando e saindo completamente e eu já não movia apenas a língua, mas também a cabeça. Eu senti a mágica, meu dedo sendo comprimido lá dentro. Meu convite.
Subi lentamente pra chegar na outra boa, mas ela me empurrou e virou-se de bruços. Levantou e ficou de quatro olhando pra mim. Balançou o quadril de um lado pro outro até eu segurá-lo com firmeza. Entrei rápido, não havia qualquer resistência. Os movimentos eram tão fluídos...
A vantagem daquela casa grande era que os barulhos dos impactos, da cama, nossos gemidos eram todos inaudíveis. Eu cansei daquela posição, pois queria sentir a pele dela. Então joguei meu peso sobre suas costas e ela caiu de bruços na cama. Fechei suas pernas, que até então estavam abertas e levei adiante meus movimentos lentos. A sensação de que ela está mais apertada sempre me estimulou.
O cabelo negro dela faz um lindo contraste com a pele clara e os suspiros parecem ficar mais intensos nesse momento. Eu continuei acelerando até ver a expressão facial dela mudar. Aí comecei a aumentar a força, aumentando com isso o barulho. Ela cerrou os olhos e abriu a boca. Senti as contrações me dizendo pra continuar ali. E foi o que fiz, por alguns minutos.
Saí de dentro dela por uns segundos.

Vira de frente pra mim?

Ela virou, com o corpo mole e um sorriso lindo no rosto. Beijei sua boca impetuosamente com os olhos firmemente cerrados. Sem desgrudar de sua boca, entrei novamente. Foram os movimentos que interromperam o beijo, pois acabei suspirando. Segurei com firmeza nos ombros dela, que em resposta me prendeu com suas pernas.

Alguém bateu na porta da minha casa, me irritando por uns instantes.

- Um minuto! – gritei

Ela olhou pra mim rindo.

- Um minuto, é?

Voltei pra ela como se nada tivesse acontecido e realmente acelerei meu ritmo pra terminar. Embora não tivesse sido a melhor que já tivemos, tinha sido interessante. Mas surpreendentemente, quando cheguei ao orgasmo ela chegou junto. Isso nunca tinha acontecido.

Fiquei parado um pouco ali, até a porta voltou a me incomodar, então tive que sair. Vesti qualquer coisa e saí do quarto, mas não sem antes olhar pra e vê-la a se vestir apressadamente. Ela não me olhou de volta, então desci as escadas correndo atendi a porta.
Foi só aí que eu fui perceber que estava chovendo intensamente. Na porta estava um jovem noviço e uma moça exuberantemente linda... E limpa!

- O que vocês querem aqui?- perguntei
- Precisamos de abrigo. Essa foi a primeira casa que encontramos. Você pode nos ajudar? – disse a moça
- Eu nunca negaria com você pedindo dessa maneira. – respondi
- Mas sua esposa não acharia ruim? – perguntou o noviço olhando para dentro da minha casa.
- Não tenho esposa, rapaz. Entrem e saiam da chuva. Vou preparar um banho pra vocês.
- Mal conhece as visitas e já obriga a tomarem banho! Você é louco, Leandro! Louco!
- É... Você tem razão... – respondi.

Sobre Humanas, Musas e Deusas

Não quero submeter esse raciocínio metafísico análise psicológica. Se alguém, algum dia e por algum motivo desejar fazer isso, que o faça. Eu não o farei.
Quero falar aqui sobre algo para além de qualquer definição racional e que, no entanto, exponho com as palavras racionalmente (e não me importo com a contradição).
Mulheres são, para mim, criaturas peculiares e especialmente atraentes. Conseguem, com suas qualidades estéticas e espirituais, carregar meu espírito com enorme facilidade. Falo delas, então, com o coração.
As humanas são mais comuns e, não por isso, pouco encantadoras. Toda a musa e toda a Deusa também é humana. As humanas têm olhares penetrantes. Elas iluminam a alma do homem com sorriso, incendeia um espírito com uma bela dança.

“Sucedeu que, quando os homens começaram a multiplicar-se sobre a terra, e lhes nasceram filhas, viram os filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas; e tomaram para si mulheres de todas as que escolheram.”
(Gênesis 6:1-4)

As humanas garantem aos homens que não há como viver só de espírito. Nos trazem a carne, e quem disse que isso é ruim? Não é! Humanas possuem algo que seria interessante para muitos homens: são capazes de remover deles todo o pensamento, toda a arbitrariedades. Com elas, só somos, só queremos. Mostram, efetivamente, que estamos vivos...

As musas, de forma geral são bem humanas. Sua forma, aos nossos olhos, é atraente. Não menos do que as humanas. Mas elas possuem algo para além disso. É o germe do divino. São realmente semi-deusas que tocam no profundo da alma dos homens. As mudanças que uma musa pode trazer a um homem são tão profundas que eu arrisco deduzir que elas estão aqui, efetivamente, para ajudar-nos no nosso progresso espiritual. Quando em contato com a musa, é comum que o mundo desapareça para o observador. E ela nem precisa ter consciência disso. É que, para os homens que olham com a alma, elas mostram um brilho tão grande que não há como olhar para algum outro lugar. Elas queimam a alma e trazem aos homens o poder do intelecto ou o da paixão.

Que a deusa abençoe todas as musas desse mundo, que cruzam nosso caminho nos ensinando a existir e nada pedem em troca além de nossa devoção. E essa devoção nem precisaria ser pedida: os que são realmente devotos não o são por escolha. Por que o que motiva é emoção, e emoção não depende de escolha ou determinação.

A Deusa também a chamam de gaia, para mim é Ângela. São só nomes: todos sabemos que se trata da grande mãe. A genitora de todos os espíritos.

Existem, além da Deusa, outras deusas. Algumas delas vivem entre os homens, embora muitos sejam demasiadamente ignorantes para dar-lhes seu devido valor. Porque somente a idéia de valor que temos é insuficiente. Posso dar muito valor aos meus amigos, aos meus pertences. Mas esse valor é efêmero, e o valor das deusas é infinito.
Só se pode retribuir o amor das deusas com um amor como o delas, e quem são os homens que podem fazer isso?

Ou eles se escondem em timidez ou eu sou cego (ambas as possibilidades são prováveis).

Porque as deusas são tudo. Elas são humanas e também são musas. Porque uma deusa te prende (e te liberta) tanto pela forma de andar, quanto pelo olhar e pelo sorriso. Tanto pela capacidade única de compreender sua alma quanto a de senti-la. Porque entender e sentir não se separam. Tão lindas são as deusas que não me importaria de serem pouco humanas. Não me importaria de vê-las sem a estética que possuem. Mas a verdade é que o espírito divino gera um reflexo nos seus olhos. Torna o olhar bonito, o sorriso sereno, o caminhar tranqüilo.
O espírito das Deusas se espalha por toda a totalidade delas e do mundo, e não o separa delas. Porque elas são o mundo. Olhando para uma deusa eu me volto à Deusa e pergunto: somos mesmo dignos de viver com tal criatura?

Sou um covarde e nada mais, porque me reservo a observar. E observar é tão bom. Cada gesto, cada olhar, cada raciocínio, cada emoção. É tudo tão belo, tão peculiar...
Apesar de reconhecer que nosso mundo não merece tamanha benção, lastimo profundamente o fato de que são raras tais presenças divinas.
Lastimo o fato de que as Deusas passam rapidamente. De que só por um curto período de tempo o mundo todo se reflete em suas almas.
Afinal, quem sou eu para ao menos desejar a compania de uma deusa? E mesmo que eu fosse digno, de onde eu tiraria a ousadia de dizer a elas que sei de tudo?
Como eu diria pra elas que são deusas e que as amo sem que minha mortalidade me refreasse?
Não. Me limito a escrever sobre elas. A fazer uma poesia, a sonhar, a imaginar todo o encanto que me trazem. Só imaginar, porque sou mortal demais: Somente com o auxílio de uma deusa eu chegaria ao olimpo. Atenas...
E eis minha convocação.

Deusa clara
Deusa dourada
Deusa brilhante
Deusa flamejante

Traz para mim o poder
O poder de trazer o espírito
Ao corpo débil
de poder toca-las.

Porque meus olham choram por ti
E meu coração clama vigorosamente
Porque meus pelos se arrepiam
E o meu corpo treme

Abriga, deusa
O som das minhas palavras
E, se desejar,
Delicia-me com o som das tuas

Porque a sua alma é um balsamo
Ela é como posso amar o mundo
Porque é somente tu, ó Deusa
Que pode enfrentar a sombra do diabo.

Emanuel, o maligno


- Pare. Por favor. Já não suporto tamanho sofrimento.
- Não quero parar.

- O que você procura? Porque faz isso comigo? Tenho muito mais a lhe oferecer do que parece.
- Eu não estou procurando nada. Aquilo que eu devia encontrar, já encontrei.
- Então porque você está fazendo isso? O que eu fiz para merecer tamanha punição?
- Livre-se de pensamentos estúpidos. Você não está sendo punido por nada. Essa idéia de que você têm de merecimento é um grande erro.
- Se não me acha culpado, porque me odeia tanto?
- Ignorante. Não é porque você se move com afetos que eu também sou assim. Já que hoje é seu ultimo dia, posso te explicar essa questão. Isso me ocorreu apenas recentemente.
- Você acha que pode ser justificar?
- Que tenho eu com justificativas? Quer mesmo que eu te explique ou suas perguntas são retóricas?

O homem era bom com retórica, e pensou que, por isso, poderia convencer seu agressor de que seus pensamentos estavam errados.

- Quero que me explique.
- Pois bem. Eu percebi que os homens têm o mal dentro de si. Todos eles. Mas esse mal fica escondido e só sai em certas ocasiões. Claro que alguns já desenvolveram o poder do mal mais do que outros, mas são todos maus. Alguns só praticam o mal por um suposto bem. Daí surgem matadores de assassinos, exércitos da paz, lutas por amor. São maus, apenas não admitem.
- Está dizendo que todos os homens são maus?
- Sim, em suas devidas proporções. Por favor, não interrompa meu raciocínio.
- Certo, continue.
- Existe um principio do mal, que é mascarado com a razão. Eis o que a razão é: uma mascara e nada mais.
- Mas não pode o homem se libertar através da razão?
- Não. Através da razão os homens só fazem reproduzir ladainhas e preconceitos. Com ela, eles fazem qualquer absurdo se tornar justificável. Com o mau não é diferente. Só aqueles que alcançaram um maior nível de consciência entendem isso.
- Pode me explicar isso melhor?
- Facilmente. Veja só: muitas vezes vemos homens poderoso fazendo o mal para os outros. Dizem para si mesmos que o fazem pelo dinheiro. Ditadores matam pessoas por não o respeitarem, por serem inferiores ou qualquer que seja a ladainha que inventem. Pais espancam filhos por serem mal educados, maridos batem na esposa que é infiel. Enfim, o homem sempre encontra uma justificativa para o mal que pratica, mas nunca entende o que é o mal de verdade.
- Não são essas coisas que você definiu o mal em si?
- Não, elas são apenas o efeito do mal. São o mal maior plasmado em espíritos menores.
- E o que é o mal maior?
- O mal maior é liberto da razão. Ele não precisa de justificativa e muito menos de razões afetivas. É o mal, pelo mal e através do mal. Sem direção: um mal que vai para todos os lados. Sim, uma essência demasiadamente sutil para que espíritos inferiores percebam.
- E o bem?
- É a mesma coisa: O bem, pelo bem através do bem. Bem e mal precisam um do outro.
- Digo, você não tem o bem dentro de si?
- Eu sou o lado das trevas. Existe o lado da luz. Nós coexistimos. Eu nada mais sou do que um fragmento tornado completo. Puro mal.
- Se você reconhece que existe o bem, então deve reconhecer que, da mesma forma que todos os homens possuem dentro de si o mal, devem também possuir o bem.
- De fato.
- Daí decorre que você tem o bem dentro de si.
- Não.
- Como não?
- Eu não sou um homem.
- Parece a mim como um homem.
- Não. Eu sou metade da deusa em forma humana. Sou um semi-deus. A deusa é tanto da guerra quanto do amor. Eu sou o semi-deus que herdou a metade da guerra e havia outro semi-deus que herdou a metade do amor.
- Que houve com ele?
- A ignorância dos homens o matou, e com sua morte se foi a esperança desse mundo. Quando expulsaram daqui o amor por seus preconceitos e miopias eu tomei conta. Não podem me matar da mesma forma que mataram o amor, porque eu penetro-lhes as entranhas. Eu mesmo, por onde passo, deixo um rastro de destruição e ódio. Você tem muitas pessoas que vivem apegadas a você, justamente pro serem primitivas. Essas pessoas irão me odiar, e por isso serão iniciadas no meu mundo.
- Então é isso que você quer? Propagar seu ódio?
- Não. O que eu quero é destruir. Se meu ódio é propagado ou não, isso me é indiferente. Eu não vivo segundo o pensamento de alcançar algum objetivo. Como eu disse, faço o mal pelo mal e através do mal.
- Não se sente só?
- Todos os homens livres são solitários. Quando você mergulha no fundo da sua alma, acaba descobrindo as ligações entre os homens não passam de ilusões. Se não são expectativas criadas pelo convívio social, as expectativas têm origem no íntimo do indivíduo. O homem vive com vários mantos cobrindo sua consciência acerca da natureza das coisas, e por isso fica sempre longe do essencial.
- O que é o essencial?
- Que o apego é a causa da maior parte de seus sofrimentos. A ligação que as pessoas fazem umas com as outras traz dor sem fim.
- Ora, mas o bem poderia ser livre, tal como o mal. Assim, eu poderia chegar num nível de consciência acerca do bem tão grande que não mais teria expectativas e exigência. Da mesma forma, não me apegaria a nenhum homem, amando a todos indiferenciadamente. Não parece razoável?
- Razoável, razoável... Na verdade isso não me parece nem um pouco razoável, mas volto a dizer que a razão não me importa. Não passa de uma mascara.
- Então não reconhece o bem supremo?
- Tão humano... você é. Veja só, reconhecer com a razão é algo que já fiz a muito tempo. O Semi-Deus do amor me comunicou inúmeras vezes. É bem fácil de entender esse amor que chamam ágape através da razão. Mas entender pela razão é uma coisa, e viver é totalmente outra. Minhas palavras acerca do mal provavelmente não lhe tocaram, porque você nunca viveu nada de análogo. Eu, da minha parte, digo o mesmo acerca do amor. Nunca o vivi, e portanto acerca dele não posso emitir qualquer tipo de julgamento de valor.
- Você tem que buscar o amor.
- Você não espera, realmente, que eu simplesmente seja levado por uma tentativa tão arcaica de doutrinação, espera?
- Isso tudo que você falou são delírios! Você só quer justificar seus crimes!
- Idiota. Não entendeu nada. Não quero e nem preciso justificar nada. Eu vou te matar dentro de instantes por matar. Não quero nada de você, não tem nada me movendo a matar especialmente você e não a outro diabo. Só vou te matar porque foi o primeiro infeliz que cruzou o caminho.
- Por favor, tenha piedade.
- Essa é apenas uma palavra vazia para mim. Não reconheço um significado nela, porque não me lembro de ter sentido piedade alguma vez na vida. Como posso ter piedade de você se nem mesmo sei o que é isso?
- Piedade é me deixar viver!
- Haha! Como se sua vida fosse realmente importante! O Conceito de piedade pode, por vezes, legitimar o assassínio. Só depende de como a razão o contorce. Veja só, quando se trata de piedade eu só posso emitir raciocínios. Mas vou ser honesto. Não estou te matando por piedade e nem porque tenho algo contra você. Não é nada pessoal.

O homem fechou os olhos. Parecia rezar e pedir perdão a Deus para seus últimos momentos, esperando sua redenção.
De repente algo inacreditável aconteceu. As nuvens densas deram abertura à luz do sol, e algo veio do céu e se fixou no chão. Uma rosa vermelha, que pingava um líquido vermelho. Não havia como saber se era sangue, mas Emanuel foi hipnotizado pela flor.

- Matias, é Matias!
- Esse é o nome da Flor?
- Não, seu idiota. É sangue de Matias! Não está vendo?

A ultima gota caiu da flor, que desapareceu. Em volta do local cresceram outras flores de diversas cores, e as nuvens se foram completamente, dando lugar ao sol. A floresta, antes escura e sinistra, radiou com uma beleza imensa.

- É Deus. Veio me buscar!
- Sua estupidez não tem limites! Não percebe o que acaba de acontecer? O sangue de Matias se derramou no chão. Esse mundo será curado.
- E o mal? E você?
- Não sei. O que sei é que sempre haverá lugar para o mal no universo.
- Aquele sangue é o de Jesus! Aceite-o como seu salvador!
- Jesus, Matias. Qual é a diferença? Ambos são agentes do Ágape. Você não entendeu os símbolos que usei? Enfim, não aceito ninguém como meu salvador, Primeiro porque sou livre e ninguém me guiará a lugar algum. Segundo porque não vejo nada de que eu possa ser salvo, já que sou o mal personificado. O que você chamam de condenação é a essência da minha existência.
- Não se trata propriamente de te guiar, Emanuel, mas apenas de despertar o bem dentro de você.
- Já chega de conversa. Tenho reflexões a fazer.

Emanuel matou o homem com pressa. Pela primeira vez na vida ele não esperou o desespero de sua vítima o deliciar. Sim, havia coisas mais importantes a tratar do que o sofrimento de um diabo qualquer.

- A jornada tem que continuar. – disse seu companheiro demônio. - Tem que continuar!

Ele sentiu em sua mente a direção para a qual deveria caminhar, e foi nela sem ter idéia de onde chegaria ou mesmo se chegaria a algum lugar.

Et ecce ille surrexit cum rosam, et coelum jucundum in mihi vultum

Sobre a “omnilateralidade” do bem e do mal


Quando você ler esse texto (se é que alguém vai ler) tenha em mente que estou lidando com uma relação entre metafísica e psicologia. Não tenho a pretensão de proclamar isso pelos quatro cantos do mundo como verdade absoluta. Pelo contrário, tudo aquilo que escrevo é o desenvolvimento racional daquilo que é inconsciente(meu). É como uma forma de integrar minha mente e, com isso, encontrar um ponto de maturidade maior. Para mim toda a vida não passa de um conjunto de futilidades quando vistos por conta própria. Mas essas futilidades guardam símbolos internos que dão origem ao nosso progresso.
Com as minhas paixões eu fui percebendo que se formou como que uma reta passando por vários pontos, sendo as paixões esses pontos. Da primeira até a ultima formaram uma seqüência, que deu sentido a essa direção determinada. Foram ficando cada vez menos concentradas. Cada vez menos focadas.

Com o tempo, o amor que eu concentrava em mulheres, que definia como musas ou deusas, foi se dispersando. Fiquei admirado quando, observando abelhas e outros insetos retirando o néctar das flores, me apaixonei por aquilo.
Foi um sentimento indiferenciado e que não se dirigia propriamente àqueles insetos, mas a tudo o que há de vivo. Aliás, constatei que muitas pessoas escolhem o estudo da biologia por essa razão. Para poderem, através da profissão, realizar esse amor por tudo. É uma pena que, depois de formados, acabem em sua maioria se tornando professores da rede publica (mal remunerados e com carga de trabalho excessiva).
Aquele êxtase (infelizmente) passou, mas deixou uma marca. Pelo modo como as coisas passaram, estabeleci uma relação causal entre minha paixão por uma mulher e aquele sentimento pelos insetos. Parece que a projeção que fiz sobre ela me trouxe uma lição, assim como todas as outras, que me aproximavam cada vez mais dessa forma de amor.
É um amor desapegado e sem direção. Não há um objeto amado, porque tudo é amado. Assim o amor deixa de ser uma prisão para ser um estado de espírito sereno e livre das mazelas afetivas que temos na nossa vida cotidiana. É o ágape. Senti esse amor de forma tão intensa que não mudei minha mente até hoje: nada nessa vida vale mais do que esse amor. É só isso que eu quero. Alcançar a “espiritualidade”. Essa forma de amor que transcende o apego. Crescer é o que eu quero, e todo o resto não passa de um caminho.

Mas é graças á sua musa que Teseu enfrenta o Minotauro, e este ultimo é uma forma de mal também diferente daquele que conhecemos. Não é uma energia maligna com carga afetiva como estamos acostumados a ver. Não é motivado por ódio a uma pessoa, uma idéia, um sentimento ou ao que for. É um ódio por tudo. Para esse tipo de ódio não há um objeto a ser odiado e destruído. Por vezes esse ódio é mascarado por um objeto odiado, mas na verdade esse ódio não tem direção definida. Tudo é mal, e tudo deve ser igualmente destruído. Esse Tudo não exclui o indivíduo que alcança esse tipo de ódio, que acaba eventualmente se autodestruindo.
Esse ódio omnilateral está por trás de todos os atos de ódio afetivo assim como o amor omnilateral está por trás de todos os atos de amor afetivo.
Quem segue o caminho do ódio vai se indiferenciando até chegar no estado em que, por odiar a todas as coisas, odeia a si mesmo e se destrói. É o que eu chamo de fundo do baú: um lugar para onde eu nunca quero ir.

Mas para Sun conseguir a resposta para seu tormento ele precisa afundar-se no poço de águas turvas e tirar de lá a espada que faz com que toda a ordem na qual ele crê afetivamente caia por terra. É o que se passa no meu próprio mito.
No mito cristão, Jesus foi até o inferno e venceu a morte. No grego, Teseu enfrentou minotauro.
E só vence o herói que supera as trevas. Que consegue ressurgir depois de estar imerso na escuridão para trazer consigo “o enigma da imortalidade”.
O que eu vejo diante de mim é o amor omnilateral, que traz harmonia e paz e, do outro lado, ódio indiferenciado, que culmina na destruição. Ambos desapegados, ambos livres desses afetos que nos possuem, e, no entanto, ambos apenas podendo ser alcançados depois de termos vivenciado os apegos que os precedem e que criam entre eles e nós um caminho.
Só pode entender a essência do verdadeiro amor aquele que também conhece o verdadeiro ódio, pois é só quem reconhece o demônio dentro de si que pode alcançar o Deus da própria consciência, num estado em que o demônio não tem como vencer: ele não tem o elemento surpresa.

O cristianismo prega um verdadeiro erro, porque primeiramente ele prega a ignorância, que impede o individuo de explorar a si mesmo e ao mundo. Em segundo lugar, ele coloca o indivíduo como imitador de Jesus, quando essa pessoa não chegou no ponto de Jesus. Faz os homens se privarem das experiências necessárias para alcançar o amor ágape anunciado por Jesus e deixa todos os homens escravizados e apegados falsamente a uma idéia. Digo falsamente porque todo o apego é uma farsa. Não pode ser uma realidade eterna, mas apenas um estágio que liga o homem a Deus, o todo...
Um homem com consciência pode viajar dentro da própria mente e, assim assimilar lições profundas. Aquele que está privado dessa consciência acaba projetando todas as fases de seu desenvolvimento no mundo externo. Projetando os estágios do seu desenvolvimento no mundo ele cresce, mas está sempre correndo o risco de se apegar a um dos estágios. É por causa do apego que a alma do homem se atormenta.
Quando vivermos no amor, toda a dor terá passado. Em especial, toda a dor terá valido a pena! Eis a minha metafísica, o sentido da minha vida!

“Em geral o homem atribui grande importância aos laços afetivos. Ora, estes encerram sempre projeções que é preciso retirar e recuperar para chegar ao si-mesmo e à objetividade. As relações afetivas são relações de desejo e de exigências, carregadas de constrangimento e servidão: espera-se sempre alguma coisa do outro, motivo pelo qual este e nós mesmos perdemos a liberdade. O conhecimento objetivo situa-se além dos intrincamentos afetivos, e parece ser o mistério central. Somente ele torna possível a verdadeira conjunctio.”

(memórias sonhos e reflexões – Carl G Jung)

A pedra

Talvez se o blog te interesse você esteja se perguntando: será que ele vai mesmo falar de uma pedra?

Eu não vou falar da pedra, mas sim do que se passa nela.

No meu mundo, eu tenho uma casinha bem pequena. Ela tem dois quartos, uma sala minúscula e uma cozinha. Sem banheiro OMG!

Nos fundos dessa casa o chão é de terra batida e tem uma pedra grande enfiada na terra. Ninguém sabe de onde ela vem, mas ela tem uma forma aconchegante, e nela podemos nos apoiar muito confortavelmente. Daí algumas noites eu sento no chão e me apoio nela. Eu e a Stela. Ficamos olhando ali o céu, as estrelas. Quando estou muito inspirado eu faço poesias ligando as estrelas, já que não tem luz elétrica e da pra ver muitas. Aí eu ligo uma com a outra e formo letras, daí palavras, e então os versos. Digo que as estrelas estão ali para fazerem a representação do meu amor pela vida.

Eu faço poesias românticas, poesias sobre a totalidade da vida e, às vezes, sobre minhas angustias. Só sei que as estrelas têm tudo o que sinto no meu mundo. Acho que é por isso que o nome da personagem é Stela. Porque ela é uma daquelas estrelas que, de alguma forma, tomam a forma dos meus sentimentos. Ela entende os sentimentos. As vezes eu acho que ela entende porque também sente. Porque é como eu.

Eu hoje fui lá. Estava com ela sentado, só que de dia. As nuvens estavam feito algodão, e um menino gritou:

- Até de dia vocês ficam aí!

Joguei um sapato nele e disse:

- Deixa a gente quieto, ué. Quer vir pra cá também?

Ele não respondeu, mas saiu da casinha e veio pro meu lado. Ele era como um filho ou irmão. No livro ele representa o Ítalo, que é uma criança órfã que eu adoto, mas que não tenho idade para ser pai. O menino tem oito anos e eu tenho 19. Me lembra meu irmãozinho.

Daí ficamos olhando as nuvens. Lá da pedra. Quem não vê as nuvens, as estrelas e tudo o que há no mundo com esse espírito, dirá que a pedra é só uma pedra e que eu sou um alucinado. Mas quem vê tudo com o funda da alma, e não consome a realidade com a lógica verá que para mim essa pedra é o santuário.

Nem sempre Stela está lá. Às vezes ela está dormindo, as vezes está ajudando os meninos, ela é professora. Mas ali é sempre meu santuário. É um lugar que todos podem visitar, mas que a maioria não da importância. Mas ela vai lá. Ela sabe que a pedra é muito mais do que um minério.

Tente visitar a pedra, e não a olhe com a racionalidade. Veja o que seu coração tem a dizer sobre ela...