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An open wound


Tenho uma ferida aberta
Ela pulsa, emana perfume
Mas apesar da dor...
É ela que me faz respirar

A ferida separa um lado do outro
Nada poderia uni-los, sará-la
Mas é ela que me põe em movimento
A dor move a vida, parece

Eu passo pelos lugares
O sangue vai pingando
Parece até infinito
Ele se dilui no mar do cotidiano

Pragmatismos me distraem
Conhecimentos me arrebatam
Mas nada disso seria possível
Sem o perfume de saudade

Dessa ferida aberta que tenho no peito...

Foi de início como a lança do destino
Não poderia ser de outra maneira
Atravessou a minha alma
Pôs tudo em chamas

Depois a ferida secou
Já até ameaçava sarar
Quando foi reaberta brutalmente
Veio pra ficar...

Então eu aperto e deixo sangrar
Que é pra sentir o aroma
Há alguma força no universo
Que não me deixa esgotar...

Chamemos isso de amor...


A razão e a loucura numa manhã qualquer



Eu sonhei naquela noite que era uma arvore. Com as minhas raízes profundas e meu tronco grosso eu estava sozinho ali naquele campo. O vento, quando vinha, atingia meus ramos em cheio. Então uma nuvem ganhou formato de rosto e riu de mim. Olhei pra baixo, mesmo na ausência de olhos, e percebi uma florzinha. Lembrei dela como se sempre soubesse de sua existência, como se estivesse gravada na minha alma de tal forma que a conhecia totalmente. Quando eu a vi balançando com a brisa, por mais que não pudesse explicar, lembrei-me de sua essência e pude ver todo o seu ser.
Mas a risada voltou, e com ela veio uma ventania. Eu vi as pétalas dele voarem uma por uma até ela ficar como um graveto. Ela foi arrastada e eu nada podia fazer. Eu nem podia me mover. Aquilo virou um tornado e eu senti minhas raízes se desprendendo do chão. Tudo girou e eu voei.
Acordei na cama como num pulo. Havia uma mulher nua olhando pra mim.

- Pesadelo, querido? – perguntou ela
- Não sei dizer. O que você faz aqui? – disse eu
- Bebeu demais, e não lembra de mim. Imaginei. – disse ela num tom sarcástico desapontado
- Não me esqueci de você, Julia. Apenas lembro-me de você dizer que eu acordaria sozinho. Acontece que eu acordo meio atordoado e vou relembrando as coisas com lentidão quando bebo.
- De lembranças é o que preciso. Você estava por me dizer uma coisa ontem á noite, mas adormeceu e eu não pude te acordar pra ouvir.
- Não me lembro. Diz o que você falava antes de mim.
- Eu falava do meu marido e de sua maldita mania de honra. Falava que acho que não sirvo pra casar.
- hehehehe... Já sei o que eu iria falar.
- E o que era?
- Em primeiro lugar, que fique claro que seu marido é um idiota. Ele serve um imperador corrupto e sanguinário e possui fé numa mentira irracional propagada através das trevas de sua ignorância. Mas isso você já sabe.
- E o que mais?
- Isso de casar... Eu cheguei aqui alguns meses antes do seu casamento e tivemos algo como um caso, mas só com nossos olhares. Você nunca precisou dizer muito: estava escrito nos seus gestos, no seu jeito de falar, de olhar. Você não é pra casar.
- Nossa, falando assim você parece me desavalorizar!
- Pro diabo! Desvalorizar nunca! Acontece que você ama demais pra se apegar!
- Não entendi. Eu não sou nenhuma madre Teresa não, viu?
- Eu não tenho o costume de falar do que não sei, então não falo dessa Teresa e nem da forma como ela ama. O amor de que falo aqui é bem carnal.
- Ah, que ótimo! Está me chamando de vadia!
- Esse nome é baseado numa linguagem que não reconheço. Pra mim, seu espírito é demasiadamente leva e seu amor é perigosamente genuíno. É por isso que você não respeita as regras: porque você ama, e o amor não respeita nenhuma regra. Você não precisa dizer, Julia. Eu vejo nos seus olhos que você ama certo sujeito aí da vila. Particularmente, nunca me interessou. Ao menos tem hábitos de higiene, coisa rara nesses tempos turbulentos.
- Assim tudo parece mais aceitável. Mas como viver como eu mereço como eu sou?
- Nesses tempos, onde você não é pessoa, mas ovelha, é difícil. Mas você é moça hábil e nós sabemos, então pode fazer dinheiro. Só não espere ser respeitada pelos adoradores das regras. Os membros do rebanho não gostam de ovelhas desgarradas, pois elas servem de lembrança de que há um mundo além das cercas.
- Que inferno! Se eu fosse rica, se eu fosse homem, poderia ser livre!
- Estamos no meio do nada, Julia. Podemos não estar bem situados no tempo, mas no espaço, isso com certeza. E você sabe que meu teto é seu, contanto que entenda que não é só seu.
- Que deus me livre de viver contigo! Você tem mania de banho, nunca organiza suas coisas, ronca como um lobo rosnando e nunca está satisfeito! – disse ela enumerando com os dedos.
- Calúnias, todas!
- Defenda-se, então!
- Em primeiro lugar, por mais que sabão seja uma coisa cara, por mais que venha de longe, sem ele nossos corpos fedem a merda. Nem imagino como você pode ter alguma coisa com seu marido com todo esse fedor. Por Deus, com uma armadura o dia inteiro debaixo do sol!
- Mas dizem que tomar banho todos os dias faz mal á saúde...
- Também dizem que mulheres voam com vassouras. As pessoas dizem muita idiotice.
- Tudo bem, dessa acusação você se safou, mas e as outras?

Eu parei, olhei pra ela e lhe dei um beijo lento, duradouro. Ela afastou meu rosto e me olhou com aquele olhar inquisidor, de quem não vai deixar passar. É a única pessoa que consegue fazer esse olhar e me agradar.

- Ta bem! Vamos lá, a próxima acusação era sobre minha organização, certo?
- Isso.
- Então, o que é a organização senão uma tentativa fútil do ser humano de controlar o incontrolável? Empilhar, criar categorias e divisões! Pro diabo com tudo isso!
- Isso não justifica nada. Tem dias que mal da pra andar nesse lugar!
- E não há um dia, no entanto, que você deixe de sorrir por isso quando entra aqui.
- Verdade. Eu te considero condenado, mas não precisa de punição além dos tombos que você já leva aqui quando bêbado.
- Fato. Meu pé dói desde não sei quando... mas então, do meu ronco e não tenho nenhuma evidência. Então é minha palavra contra a sua!
- Argumento desonesto. Pergunta á Gabriela, Joana ou quem sabe à Aline! Certamente ficarão do meu lado!
- Sério que você já ficou sabendo da Aline? Mulheres e a fofoca...
- Todos sabem das mulheres que você “desonra”!
- Enfim, o que você quis dizer com nunca estou satisfeito?
- Mesmo com todas as mulheres e mesmo com o vinho, você leva pelo menos uma hora antes de me deixar sair dessa cama!
- Ora... Como isso não é uma virtude? Não gosta de aproveitar o vigor da minha juventude?
- É que você parece estar procurando algo, sabe?
- Como assim?
- Você faz amor com a ânsia de quem corre numa jornada atrás de algo importante... Não sem explicar direito.

Naquele momento eu lembrei da florzinha despedaçada pelo vento, mas não a mencionei.

- O meu rumo é o seu prazer e nada mais! – disse sorrindo
- Fugindo de mim agora? – perguntou ela
- Não entendo.
- Quando tento mergulhar mais fundo na sua alma você foge do assunto assim.
- É que me ocorre uma florzinha, uma borboleta, um pequeno pedaço de algodão. Sempre sendo arrancado de mim violentamente. Isso me angustia, Julia.
- E o que isso significa?
- Meu passado, aquilo que me atormenta.
- Foi essa flor que foi arrancada de você que te manteve solteiro com todo esse dinheiro?
- Não. Ela sabia que minha natureza é volátil. Casado ou não, eu viveria dessa mesma maneira.
- O que aconteceu com ela, Leandro?
- O vento a levou... – disse antes de enfiar minha cabeça no cobertor.

Lágrimas escorreram pelo meu rosto enquanto Julia me acariciava a cabeça.

- Ele pode até tê-la levado pra longe dos seus olhos, mas não pra longe do seu coração. Eu nunca te vi tão triste assim...
- Ela vive em mim. Sempre viverá, mesmo depois da minha morte.
- A morte... Porventura o importante não está na vida aqui e agora?
- Ah sim. E sabe o que eu vejo agora?

Ela me olhou surpresa, como quem olha pra uma criança que fez besteira.

- Você acabou de se abrir pra mim e já vem me olhando com esse olhar de desejo!
- Sabe, eu estava lá no passado e você me trouxe pro presente. No presente eu vejo você e sinto desejo.
- Isso é loucura! Como você pode ser tão lascivo?
- Eu inventei um termo novo, que talvez em alguns séculos fique famoso. Sad fuck. É lenta, longa e banhada a lágrimas. Tive meus melhores orgasmos assim!
- Louco, fique longe de mim – disse ela rindo.

Mas eu a agarrei. Por uns segundos ela lutou e tentou se soltar, mas logo desistiu. Deitamos de lado e ela me deu as costas. Minhas mãos correram por todo o seu corpo enquanto minha boca marcava sua pele branca. Aqueles ombros, aquele pescoço. Sempre adorei beijá-los. Eu soltava o ar quente na nuca dela e a assistia se contorcer. Ela também sabia me agradar. Passava o braço por trás da minha cabeça e acariciava minha nuca.

- Louco...! – disse ela entre os suspiros

Eu meu soltei dela e desci minha boca até sua barriga. Ela sempre adorou que eu beijasse sua barriga enquanto lhe acariciava os peitos. Eram movimentos ensaiados, que nós tínhamos. Desci até os lábios dela. Úmidos, com cheiro de sexo. Provavelmente fizemos muito na noite anterior, mas não me lembro bem. Ela colocou as pernas em volta da minha cabeça e apertou. Adoro quando ela faz isso, embora não seja sempre. Como sei do ritmo dela, comecei bem devagar com a língua e com a ponta do dedo logo abaixo fazendo movimentos pra cima e pra baixo. Eu sorria por sentir a musculatura do abdome dela se retrair, por ouvir os suspiros. Conforme o ritmo com a língua aumentava e se diversificavam as formas de movimento, meu dedo ia se aprofundando. E com facilidade, se melando no interior dela.
Quando estou nessa situação eu perco a noção do tempo. Chego numa espécie de êxtase na ocasião de a mulher estar apreciando. Por isso não sei quanto tempo passou e nem me importo. Só sei que num momento meu dedo estava entrando e saindo completamente e eu já não movia apenas a língua, mas também a cabeça. Eu senti a mágica, meu dedo sendo comprimido lá dentro. Meu convite.
Subi lentamente pra chegar na outra boa, mas ela me empurrou e virou-se de bruços. Levantou e ficou de quatro olhando pra mim. Balançou o quadril de um lado pro outro até eu segurá-lo com firmeza. Entrei rápido, não havia qualquer resistência. Os movimentos eram tão fluídos...
A vantagem daquela casa grande era que os barulhos dos impactos, da cama, nossos gemidos eram todos inaudíveis. Eu cansei daquela posição, pois queria sentir a pele dela. Então joguei meu peso sobre suas costas e ela caiu de bruços na cama. Fechei suas pernas, que até então estavam abertas e levei adiante meus movimentos lentos. A sensação de que ela está mais apertada sempre me estimulou.
O cabelo negro dela faz um lindo contraste com a pele clara e os suspiros parecem ficar mais intensos nesse momento. Eu continuei acelerando até ver a expressão facial dela mudar. Aí comecei a aumentar a força, aumentando com isso o barulho. Ela cerrou os olhos e abriu a boca. Senti as contrações me dizendo pra continuar ali. E foi o que fiz, por alguns minutos.
Saí de dentro dela por uns segundos.

Vira de frente pra mim?

Ela virou, com o corpo mole e um sorriso lindo no rosto. Beijei sua boca impetuosamente com os olhos firmemente cerrados. Sem desgrudar de sua boca, entrei novamente. Foram os movimentos que interromperam o beijo, pois acabei suspirando. Segurei com firmeza nos ombros dela, que em resposta me prendeu com suas pernas.

Alguém bateu na porta da minha casa, me irritando por uns instantes.

- Um minuto! – gritei

Ela olhou pra mim rindo.

- Um minuto, é?

Voltei pra ela como se nada tivesse acontecido e realmente acelerei meu ritmo pra terminar. Embora não tivesse sido a melhor que já tivemos, tinha sido interessante. Mas surpreendentemente, quando cheguei ao orgasmo ela chegou junto. Isso nunca tinha acontecido.

Fiquei parado um pouco ali, até a porta voltou a me incomodar, então tive que sair. Vesti qualquer coisa e saí do quarto, mas não sem antes olhar pra e vê-la a se vestir apressadamente. Ela não me olhou de volta, então desci as escadas correndo atendi a porta.
Foi só aí que eu fui perceber que estava chovendo intensamente. Na porta estava um jovem noviço e uma moça exuberantemente linda... E limpa!

- O que vocês querem aqui?- perguntei
- Precisamos de abrigo. Essa foi a primeira casa que encontramos. Você pode nos ajudar? – disse a moça
- Eu nunca negaria com você pedindo dessa maneira. – respondi
- Mas sua esposa não acharia ruim? – perguntou o noviço olhando para dentro da minha casa.
- Não tenho esposa, rapaz. Entrem e saiam da chuva. Vou preparar um banho pra vocês.
- Mal conhece as visitas e já obriga a tomarem banho! Você é louco, Leandro! Louco!
- É... Você tem razão... – respondi.

Uma breve correspondência intergaláctica

De: Roberto
Para: O Místico da Montanha

Caro amigo e conselheiro. Venho por meio dessa correspondência solicitar o contato imediato entre as nossas civilizações, no intuito de, nesse contato, expandir o conhecimento humano à nossa disposição e, conseqüentemente, propiciar maior avanço tecnológico. Espero que você entenda que o que busco não é tecnologias e paradigmas prontos para que possamos copiar, mas uma forma de influência que possa mudar o curso de ação das pessoas, que faça com que elas tentem criticar a epistemologia da vida. Meu intuito é causa uma massiva onda de revisão paradigmática, na qual a humanidade poderia evoluir. Temo que minha civilização possa se autodestruir. Ou quem sabe se afundar em mitos milenares, entendidos como destituídos de história e de contexto social.

De: O Místico da Montanha
Para: Roberto

Caro habitante dos vales terráqueos. Entendo sua angústia em relação aos paradigmas do seu planeta, que você considera primitivos, mas a verdade é que essa sensação é endógena. Não estou dizendo que sua civilização não tenha lições para a aprender com a minha, mas que essa sensação não decorre da imperfeição da sociedade, mas da inconformidade dela com sua identidade. Para ser mais claro, uso a mim mesmo como exemplo. Meu nome de nascimento é pobremente traduzido como criador de tecnologia. No entanto, contrariamente às expectativas da sociedade, eu tive uma espécie de vivência interna, uma espécie de contato com algo maior, que mudou o curso das minhas ações mais ou menos na época da aquisição dos robôs moleculares individuais, aos 20 anos. Eu me tornei um místico para uns, um conselheiro espiritual para outros, um charlatão para muitos. Com freqüência fico pasmo com a falta de sabedoria, a falta de espiritualidade de alguns de meus companheiros. E também me causa muita aflição que eles tenham tamanha influência na sociedade.
Essa aflição, no entanto, decorre apenas da diferença. Se eu modificasse esse aspecto da sociedade, haveria outro que tomaria seu lugar como fonte de insatisfação. O que você manifesta pra mim é um desejo de submeter o mundo aos seus ideais, plasmados na minha sociedade. Estou falando isso porque te conheço, e porque seu sofrimento pode ser resolvido de dentro pra fora.
Com relação ao contato, estou de acordo com os estudos cognitivos mais recentes acerca da mentalidade dos habitantes do planeta. É comprovado que a esmagadora maioria da população do planeta não possui capacidade cognitiva para entender sequer 10% da complexidade das nossas tecnologias. Além de que ainda impera na população um sentimento de apego à tradições, decorrente do seu sistema de comunicação insuficiente. Na verdade, quando vocês estabelecerem sua teia de comunicação global e facilitarem a interface de acesso, passarão ainda boas décadas até que se torne suficientemente frágil o apego à tradições. Com esse apego, nossa cultura parecerá repugnante, pecaminosa, sagrada. Jamais chegará perto de se parecer, aos olhos dos habitantes, o que é.
Se você quer exemplos disso, tome a chegada de Matias no Planeta. Primeiro foi interpretado como anjo dos céus, depois como suspeito de criminoso. Imagine como seria a reação da sua população ao saber que nossas relações são com freqüência polígamas, que as pessoas mudam de aparência completamente em segundos, ou até mesmo de sexo, e que nossa identidade não possui nenhuma relação com nossa aparência estética (afinal, nós a construímos e reconstruímos freqüentemente em cada mínimo detalhe desde os 20 anos de idade)¿
Não entenderiam como o fazemos, pensariam que somos corruptos, demoníacos. Tentariam ataques fúteis, que não nos causariam nenhum dano, mas que acabaria por reforçar a noção de que somos criaturas perigosas, por não sermos passíveis de assassínio por meio de suas armas primitivas.
Seu conceito de evolução é vago, e ainda mais a própria noção de evolução social é um erro etimológico: o que se observa na história não é o desenvolvimento de uma única tendência, mas o surgimento e o desaparecimento de diferentes tendências. O que você interpreta como nova etapa da evolução humana não passa de mais uma tendência, a qual será “superada” na próxima geração por outra que não a complementa de maneira alguma, mas que será adequada ao novo contexto.
Acerca dos mitos, é uma questão de assimilação: algumas pessoas não desenvolveram sua capacidade cognitiva, mas ainda assim precisam saber. É um impulso básico, a vontade de saber. Para isso, estabelecem ou recebem critérios proporcionais ao seu potencial e dão seu próprio sentido à vida. Recriminar essas pessoas é o mesmo que recriminar um cachorro por insistir em latir, mesmo quando instruído a falar.
Espero não ter te desanimado.

As implicações da tecnologia meta-biológica no aprendizado



Joana estava no colégio, onde mostravam as informações passadas para os mais jovens. Sua primeira impressão foi de que tal coisa se afigurava cruel, inumana, e eis as suas objeções.

- Como vocês podem esperar que essas crianças gravem todo esse conhecimento de uma vez só? não percebem como esse esforço torna a vida delas miserável, na medida em que gastam toda a sua energia memorizando coisas?
- Seria inumano no seu planeta, onde as crianças lamentavelmente dependem apenas do próprio cérebro ou de tecnologia arcaica pra armazenar informação. Aliás, fazem coisas parecidas no seu planeta, o que cria seres humanos complexados, descontrolados, infelizes.
- Como as crianças memorizam as coisas senão com o cérebro?
- Através dos dispositivos meta-biológicos que elas recebem aos dois anos de idade.
- Mas o que é um dispositivos meta-biológico?
- O termo meta-biológico é uma adaptação à sua linguagem. Imaginávamos que sua significação estaria implícita. Desculpe o engano. Artefatos de tecnologia meta-biológica são dispositivos feitos com estrutura de DNA específica desenhada pra se integrarem ao sistema nervoso central. Nesse sentido, poderíamos dizer que é um computador biológicos. Apenas a analogia com sua tecnologia eletrônica não vai longe, pois esse sistema tecnológico é plástico. Ele se adapta às mudanças na estrutura do pensamento do indivíduo, sempre refazendo o processamento das informações armazenadas, e mantém uma leitura das sinapses cerebrais. Assim, quando o indivíduo pensa em se lembrar de determinada informação, ela surge em sua consciência da interface dos dispositivos meta-cerebrais. Esses dispositivos são capazes de realizar traduções de todas as linguagens da terra e da nossa civilização, além de realizar cálculos matemáticos, resolver algoritmos complexos e diversos problemas lógicos mais mecânicos. Além disso, ele possui uma capacidade de armazenamento virtualmente infinita e se integra com o sistema de coordenação motora, além de complementar o sistema nervoso periférico.
- O que? Vocês colocam chips nas suas crianças?
- Chip é um artefato eletrônico. Nós não usamos mais tecnologia eletrônica há alguns séculos.
- Não estou entendendo.

O homenzinho projetou, aparentemente com as mãos, um holograma que ia demonstrando passo a passo a interação entre os dispositivos e o sistema nervoso. Segundo ficou demonstrado, a estrutura do artefato é tão perfeitamente imbricada com o organismo que os próprios neurônios da caixa craniana realizam sinapses com os neurônios artificiais e buscam as informações, sem necessidade de uma interface que interage com os sentidos. Assim, a velocidade do fluxo de informação se torna muito mais rápida e o excesso de informação não sobrecarrega o cérebro.

- Mas... Então como são as provas?
- Não usamos provas como as empregadas por vocês. Elas são um teste de memória, raciocínio mecânico e até resistência física. São uma forma cruel de seleção entre os aptos e os inaptos. Nossas avaliações são se outra natureza. Nossas crianças desenvolvem hipóteses acerca das coisas que observam, criam princípios explicativos, falam sobre suas emoções acerca dessas coisas. Sempre com orientação dos especialistas, que indicam caminhos, entendem a linha de raciocínio da criança e fazem perguntas cruciais. O que buscamos exercitar no sistema de ensino, numa palavra, é a criatividade em suas mais diversas formas.
- Mas como vocês podem dar tanta atenção aos alunos?
- Conseguimos através da tecnologia meta-biológica no organismo dos professores, que permite maior armazenamento de informações sobre os alunos. Além disso, temos uma média de dois professores pra cada aluno, por mais que se formem turmas. Os alunos escolhem cerca de cinco orientadores para seus projetos.
- Isso me deixa angustiada.
- Porque?
- Porque parece que a solução pra educação é tecnologia que não temos a uma quantidade de professores capacitados que não temos.
- Viemos persuadir os habitantes do planeta que nos aceitem como seus visitantes. No entanto, sabemos que o estranho assusta e que a nossa tecnologia causará horror, veneração e diversos outros resultados que não desejamos. Por isso optamos por trazer grupos de nativos para a nossa nave para entenderem melhor como é o nosso modo de vida. Assim, quando chegarmos uma grande parcela da população não nos estranhará, mas antes lembrará daquele sonho que tiveram a nosso respeito.
- como assim sonho?
- Quando você acordar na sua casa hoje, pensará que isso não passou de um sonho.
- Entendi... Posso ver suas crianças?
- Pode claro. Entre por essa porta e vá até o fim do corredor.

Joana foi e a mulher que a acompanhava a seguiu até a porta, onde ela pode entrar e ver três crianças escrevendo, cada uma num ponto diferente da sala. Ela sentou ao lado de uma delas que estava escrevendo com um olhar carinhoso. A criança parecia pequena, de uns seis anos de idade, mas escrevia rapidamente. Quando percebeu a presença de Joana colocou o que usava para escrever de lado. Era como papel, só que virtual.

- Oi. Qual é o seu nome?
- Aquele que traz a mudança.
- Que bom! Tenho certeza de que seus pais gostam muito de você.
- Gostam nada. Tenho pais novos.
- Claro que gostam! Não fale assim. Seus pais escolheram ter você.
- Que base você tem pra falar, ô gigante? Meus pais não são sentimentais. Eles só escolheram meu nascimento para comprovar que a tese a respeito dos filhos que é aceito por muito está errado. Meu nome é assim porque eu, segundo eles, vim para provar que ter filhos é um erro. Eles que se fodam.
- Olha, não precisa ficar assim tão bravo. Sabe, as pessoas cometem erros, mas elas mudam. Perdoe seus pais. Um dia eu sei que eles entenderão o erro que cometeram. Você vai ver.
- Nunca me ofendi com eles. Na verdade eles não são nada pra mim além de pessoas doaram um pouco de energia para meu nascimento. Eles que se fodam, não são família pra mim.

Joana ficou com um olhar triste. Passou a mão nos cabelos do menino e começou a falar

- Quantos anos você tem?- Tenho doze anos. O que foi, esperava outra coisa?
- É que no meu planeta as coisas são diferentes. O que você está escrevendo aí?
- É um sonho que eu tive. Eu vou ser artista, sabe? Quero ser um vagabundo inútil.
- Você quer ser inútil?
- Só estou usando os termos dos meus pais. Pensam que artistas ficam inventando qualquer besteira sem qualquer fundamento e que artistas são inúteis. Mas eu sou artista, e não me importo com o que eles pensam, eu não sou eles, nem quero ser, eles que se fodam.
- Olha, apesar de tudo são seus pais. Você devia respeitá—los.
- Por quê?
- Porque eles te criaram.
- Eu não sou nada pra eles. São uns robôs! Que tal a gente mudar de assunto?
- Você tem alguma ideia?
- Já que você se interessa tanto pela minha vida pessoal eu quero saber sobre a sua.
- Tudo bem.
- Soube que seus hábitos de reprodução são parecidos com os nossos. Você se masturba muito?
- O quê?
- O tradutor está funcionando direito. Ouvi dizer que o seu planeta é cheio de niilistas e que vocês vivem transando e se masturbando o tempo todo. Deve ser o paraíso. Olha, nós não podemos ter filhos por causa do código genético, mas podemos transar, sabia?
- Isso é falta de educação! Não fale assim comigo ou com ninguém. É uma coisa íntima e muito pessoal.
- Por quê?
- Porque sim.
- Há! Você é uma acorrentada! Você tem fetiche com isso?

Joana levantou e saiu de perto do garoto, que continuou escrevendo tranquilamente. Na sala externa foi falar com a mestra em educação sobre o comportamento do garoto.

- Fui desrespeitada por um de seus alunos. Perguntou se eu me masturbo!
- Você não se masturba?
- Isso é problema meu!
- Masturbação é um problema?
- Olha. Eu não me masturbo, tá bem?
- Então faz sexo com frequência?
- Qual é o problema com vocês? Não respeitam a intimidade dos outros, não? Não sabem educar as crianças e por isso ficam mal criadas desse jeito! Aquele menino odeia os pais!
- São sentimentos dele, e não são um perigo para a sociedade. Não podemos reprimi—los.
- São sentimentos negativos e devem ser evitados.
- Você é uma acorrentada.
- O que?
- Você está presa á moral. É uma acorrentada! Cheia de inibições criadas pelos outros no próprio comportamento. Mas isso não é você!
- Eu sei muito bem quem eu sou!
- Não sabe não. Grande parte do que você é não passa de uma mentira. Você fecha seus olhos e glorifica a ingenuidade, mas não é tão ingênua quanto parece.
- Eu não sou ingênua. Só acho que não é certo ensinar crianças a serem revoltadas.
- E então o que é certo ensinar?
- A serem bem comportadas.
- Um erro! Uma criança bem comportada é um robô. Ela se comporta exatamente como os outros acham certo, e faz tudo o que disseram que é certo, mas é acorrentada e nunca desenvolve a si mesma. O problema não estava naquele que traz a mudança, está em você, que tem inibições primitivas de impulsos naturais. Aliás, não são só seus impulsos que você inibe. Veja só, há fatos claros diante dos seus olhos na sua vida que demonstram o meu ponto.

Foi exibido um vídeo para Joana, no qual ela estava transando aos quatorze anos, e depois outro dela grávida. Ela ficou chocada por alguns segundos e começou a chorar, mas logo se recompôs.

- Porra, vocês ensinam suas crianças a transar. Isso é pedofilia.
- As crianças só podem ter relações sexuais dentro de realidade virtual nessa idade. Em uns 3 anos, quando ele demonstrar que possui maturidade, poderá ter relações com robôs, e mais tarde, quando terminar sua primeira tese, poderá ter relações com pessoas de todas as idades. Não temos interesse em fingir que as crianças não possuem sexualidade em época de puberdade. Aquele que trás a mudança está nessa fase, e na realidade virtual, somente programas específicos interagem com ele. Não há abuso por parte de adultos. Se não fosse nessa realidade, ele se masturbaria evocando com a própria mente imagens análogas. É até mesmo estúpido dizer que o estamos corrompendo por deixarmos seus impulsos fluírem com relativa liberdade.

Joana encheu o pulmão de ar, mas não falou nada de imediato.

- Vejo que voe se chateou. Não é minha intenção te aborrecer, mas na interação com nossa civilização é comum que o choque entre culturas cause estranhamento. Depois de um tempo, creio, isso se tornará mais comum.
- Eu melhoro. Só que tem mais uma coisa que me deixa preocupada.
- O Que?
- E se isso for realmente um sonho? E se não houver visitantes? O que faremos para resolver nossos problemas educacionais?
- Pessoalmente, tenho sugestões.
- Me diga
- Em primeiro lugar, façam o maior esforço possível pra integrar a tecnologia no ensino. Depois, deixem de determinar coletivamente o que deve e o que não deve ser aprendido. Que a partir da puberdade, os indivíduos já possam escolher suas preferências, mas que tudo seja como se fosse uma brincadeira.
- Mas a vida não é brincadeira!
- A criança aprenderá sobre os diferentes grupos sociais de sua sociedade globalizada sem ser coagida por alguns deles, como o religioso, esportivo ou científico. Nesse sentido, poderá ter maior autonomia em escolher o que quer ser, e terá menos pressão para aprender coisas que lhe serão irrelevantes no futuro. Devem, também, dar condição de vida digna aos professores, e aumentar, sempre que possível, a quantidade de professores trabalhando. Só isso já resolverá uma infinidade de problemas que vocês possuem.
- Vou pensar nisso. Parece bonito, mas praticamente impossível de aplicar.
- Não será sempre assim. Nossa esperança é que o nosso contato com vocês vá modificando progressivamente a sua forma de ver o mundo. Assim, pretendemos um preparo de dentro pra fora antes de termos contato com os nativos.

Uma brincadeira sobre as implicações éticas do conflito acerca da origem da vida

Introdução

Como o último post recebeu alguma atenção, me senti motivado a levar adiante minhas brincadeiras a esse respeito. No presente texto, pretendo apresentar as implicações éticas e sociais do conflito em torno da origem da vida. Isso porque não se trata apenas de como a vida surgiu, mas sobre interpretações de como a biosfera se organiza. É, em última análise, uma questão filosófica.
Como o evolucionismo é uma visão hegemônica, sendo considerado por muitos uma questão já além do questionamento, falarei primeiro sobre as implicações dessa concepção na história e sobre minha leitura da marca que ela deixa na nossa sociedade atualmente. Depois vou especular filosoficamente sobre como a brincadeira do outro post poderia basicamente curar um grande mal da humanidade. Sim, parece bobagem. E talvez seja mesmo. Mas é divertido, então vou escrever.

Evolucionismo e suas implicações

Para falar sobre isso recorro, primeiramente, a um comentário de Marx¹:

“‘Darwin, que estou relendo, diverte-me quando diz que aplica a teoria de Malthus nos animais e também nas plantas, como se em Malthus não fosse brincadeira aplicar a teoria, inclusive da progressão geométrica, não às plantas e animais, mas aos homens. É notável ver como Darwin encontra nos animais e nas plantas sua sociedade inglesa, com a divisão de trabalho, a competição, a abertura de novos mercados, as ‘invenções’ e a ‘luta pela existência’ de Malthus” (apud. Marco, 1987, p, 75-76)6.”

E Engels:

“‘Toda a teoria de Darwin baseada na luta pela vida é simplesmente a transferência, da sociedade para a natureza animada, da teoria de Hobbes do bellum omnium contra omnes e mais ainda: da teoria burguesa da livre competição e da teoria malthusiana sobre a superpopulação. Uma vez levada a cabo essa proeza (cuja justificação incondicional é ainda muito problemática, especialmente no que se refere à teoria malthusiana) é muito fácil transferir de volta essas teorias, passando-as da história natural para a história da sociedade; e, afinal de contas, é uma grande ingenuidade pretender, com isso, haver demonstrado essas afirmações como sendo leis eternas da sociedade’ (Engels, 1985, p. 163).”

Até que ponto podemos dizer que a teoria de Darwin é uma projeção de seu convívio social, sobrepondo a organização da sociedade inglesa à natureza é determinar. Mas certamente a teoria foi aceita muito porque estava (e está) em concordância com o sistema sócio-econômico. Porque olhar para a natureza a partir de tal ótica foi interessante para tal Zeitgeist.

Mas de que mentalidade estou falando?
Da capitalista, onde surge a noção de indivíduo responsável pelo próprio destino. Nesse momento, no início do iluminismo, onde o “um por todos e todos por um” foi substituído por “cada um por si de Deus por todos”, até que Deus morreu e somente o cada um por si sobrou.

Nesse caso, o individualismo parece andar lado a lado com o evolucionismo, na medida em que ele concebe a estrutura da natureza como milhares, milhões de indivíduos em constante competição, da qual resulta a variedade do mundo.[2]

Em nível social as conseqüências foram devastadoras. A eugenia, que hoje não é mais aceita, procurou “melhorar” a espécie humana, esterilizando a matando milhões de pessoas que, segundo o pensamento da época, foram consideradas inferiores. Culturas foram submetidas à visão etnocêntrica do homem europeu, que buscou classificá-lo como primitivo, menos desenvolvido, legitimando diversos tipos de violência e imposição cultural. Vimos surgir diante dos nossos olhos um sistema econômico cada vez mais competitivo, abonado pela própria natureza para que continue funcionando dessa maneira.

Na vida pessoal, pensar que as próprias leis da natureza abonam o individualismo gera um sem-número de comportamentos aberrantes. Por exemplo, apesar da enorme inflação da nossa densidade demográfica, muitos ainda hoje conservam preconceitos contra a adoção, afirmando que crianças abandonadas carregam “genes ruins” ou que simplesmente querem passar a própria carga genética (ou o sangue, nos mais leigos) adiante. Assim, mesmo no caso de ser menos trabalhoso adotar do que tratar um problema de infertilidade, opta-se por um filho biológico, pois se não há uma conexão genética nós estamos lutando contra o nosso próprio interesse.

Outro exemplo é o de que, em benefício próprio (e em reverência à mãe natureza) os homens cometem inúmeras atrocidades uns com os outros economicamente. Porque, afinal, ajudar os outros pode até ser útil no sentido de dar status social, mas muitas vezes o custo não compensa o benefício. Todos os comportamentos humanos são essencialmente egoístas dentro dessa visão. Porque se fossem verdadeiramente altruístas, nossos genes não seriam passados adiante.

Quer dizer, em nível pessoal, levando essa teoria às suas últimas conseqüências, somente com alternativas Ad Hoc e religiosidade é que podemos ter um comportamento altruísta. Poderíamos dizer que e útil para a sobrevivência do indivíduo que ele coopere com o grupo, mas ainda assim permaneceremos num conflito constante, embora ocultado. A essência, nessa visão, do comportamento do indivíduo no meio social é a do individualismo, bem como pregado no American Way of Life: cada um que cuide do seu jardim. Porque, afinal, a nossa origem, o que nos deu a forma que temos, foi essencialmente a competição.

Apesar das costuras e dos emendos, a lógica evolucionista, quando transposta para termos éticos, traz apenas o egoísmo. E somente alguns niilistas conseguem admitir tal coisa: que tudo, no fim das contas, é motivado pelo egoísmo.

Nosso convívio diário, nossa organização social, nosso mercado de trabalho, nossos meios de produção, nossas classes sociais. Tudo baseado na competição.

Não estou aqui para propor um sistema que elimine a competição, nem tampouco para provar que ela não é a melhor forma de pensarmos e organizarmos a sociedade. Apenas constatando a visão evolucionista é o braço direito do capitalismo, embora os biólogos tenham a tendência de ignorar tais estudos. Nós temos alimento para matar a fome do mundo, mas não o interesse dos indivíduos que detém tais alimentos de fazer isso. Afinal, é cada um por si. E temos uma Deusa[3] apoiando tais ações.

A concepção de engenharia genética como alternativa

Agora, pensando segundo a linha de raciocínio do outro post, no qual foi postulado que fomos construídos artificialmente, a coisa muda profundamente.

Se fomos construídos como uma espécie a se conservar com uma estrutura mais ou menos estática, devemos pressupor que o(s) autor(es) nos desenharam para sobrevivermos. Não desenhou um indivíduo, uma manifestação individual do “código básico” da espécie, mas uma espécie inteira. Se todos os seres humanos, egoístas, buscassem apenas o próprio benefício, a tendência seria a extinção. Assim, a forma mais lógica de programar uma espécie é colocando como base o altruísmo e não o egoísmo. Somente na lógica evolucionista, a partir da qual tivemos origem em mecanismos complexos de competição, é que esta faz algum sentido. Se pensarmos um projeto de espécie inteligente e fisicamente frágil que deve ser capaz de sobreviver, o impulso básico deve ser o de cooperação acima de qualquer outro. Se a base da nossa motivação é a cooperação e não a competição, então podemos explicar alguns fenômenos observáveis na nossa sociedade.

Em bancos, ficou comprovado, há uma taxa muito maior de suicídios e licenças por depressão do que em outros ambiente de trabalho. Os funcionários são submetidos uma carga excessiva de stress, que é compensada por palestrantes, livros de auto-ajuda ou terapias. Os problemas, convenientemente, são projetados para a responsabilidade do indivíduo. Isso, no entanto, não elimina seu problema, mas o suprime através de sucessivas catarses até que ele possa ser substituído.

No entanto, partindo da premissa de que nós não somos naturalmente competitivos e egoístas, mas que tal comportamento nos é internalizado pelo processo de socialização, a coisa fica bem interessante. Partindo dessa premissa, estaríamos basicamente dizendo que o ser humano tem uma propensão “natural” para cooperar, muito mais do que para competir.

Um dos maiores males da sociedade atual, portanto, é a solidão. Pais pensando que podem comprar a felicidade dos filhos, e, quem sabe assim, comprar a própria. Pessoas convivendo entre si por mera conveniência e sozinhas no meio da multidão. Olhando para um lado e para o outro e não vendo nada além de sua própria pequenez e solidão. Uma contradição com a lógica original, que nos preparou parar a cooperação e não para o isolamento. Essa lógica que, no fim das contas, nos lança atrás de amor, como Erich Fromm postula. O que mais queremos, aquilo de que mais sentimos falta, é amor. Um princípio excessivamente altruísta, dificilmente explicável pela lógica de que tudo se baseia no egoísmo.

Seríamos, então, uma espécie muito mais adaptável a um ambiente de cooperação, onde estaríamos conservados. É somente através da estimulação que nossa mentalidade internaliza a competição, sem, contudo, deixar abismos nos indivíduos. A idéia de que fomos programados e não tivemos origem da competição nos faz rever esse hábito social. Afinal, se tivemos a mesma origem e se o propósito de nossa existência física não é apenas passar nossos genes adiante, mas manter toda a espécie coesa e viva, a coisa muda de figura. Nessa lógica, é lícito que indivíduos dediquem toda a sua vida a ajudar os próximos, sem buscar tão somente o prazer para si mesmos e a sobrevivência de sua “prole”.

Nossa missão natural, então, deixa de ser sobreviver e deixar descendentes férteis, mas amar e ajudar a conservar toda a espécie. E mais além: conservar toda a biosfera para que isso seja possível.

Essa visão se adapta muito melhor a qualquer concepção metafísica que pregue o amor do que a evolucionismo, e, se levada às ultimas conseqüência, nos levara a uma estruturação social onde a afetividade, o companheirismo, o amor, se tornarão prioridade. Onde todos buscarão se ajudar num ambiente de trabalho ao invés de se ignorarem ou simplesmente prejudicarem o outro. Com essa concepção de natureza, nossa vida seria mais agradável e nossa sociedade incrivelmente mais produtiva. Somos seres afetivos, capazes de amar. Está na base do projeto...


[1] Pra dar o texto a aparência de ser algo sério, claro. (http://designinteligente.blogspot.com/2010/01/darwinismo-e-marxismo.html)
[2] Parece estranho, no entanto, que elas admitam normalmente o fato de que muitas formigas nunca passem seus códigos genéticos adiante, servindo apenas para o funcionamento da colônia, sem que tal comportamento tenha feito com que tais formigas entrassem em extinção. Se algum evolucionista quiser, me explicar tal fenômeno dentro da teoria evolutiva deve ser bastante interessante.
[3] Gaia, a mãe natureza.

Sobre o amor e suas lições

Certa vez, havia um grupo muito animado. Estavam numa sala de aula comentando sobre uma viagem. Volta e meia alguém fazia uma piada e todos riam, menos um dos alunos. Ele ficava ali no canto esquerdo da sala, lá no fundo. Parecia nem estar lá...

- Nossa, mas eu Amo viajar. Dá uma sensação de liberdade... – disse uma das alunas
- Pois é. Ninguém te conhece, você pode fazer o que quiser! Eu da última vez que viajei... – respondeu outro colega.

Esse foi um fragmento que ele ouviu, retomando posteriormente à sua introspecção. Foi interrompido logo depois por risadas violentas. Provavelmente o cara fez alguma merda.
Alguém discordou, e disse que o amor por viagens não pode ser legítimo. Disse que em viagens você busca coisas que só pode encontrar dentro de si. Que lugares são só lugares e nada mais.
Em pouco tempo a turma estava debatendo sobre o que torna legítimo, real, algum tipo de amor. Alguns falaram da sensação no corpo. Frio na barriga, atenção focada, inquietação. Outros falaram de ideais, de inspiração, de uma forma de conexão mais... espiritual.
Embora um considerasse o lado do outro, o embate se prolongou por uns 15 minutos, até que o professor decidiu interferir.

- Hey, você aí atrás. Participe conosco. Está tão quieto hoje...
- Alguém falou comigo? - respondeu o aluno

A turma riu.

- Ta no mundo da lua, ele. Chapadão! Disse um dos alunos
- Eu falei – respondeu o professor – estávamos aqui discutindo sobre o que torna o amor legítimo. Tem alguma opinião?
- Tenho sim.
- Então compartilhe conosco.
- O amor pra ser verdadeiro precisa ser como a fênix.
- Aquela ave de fogo? - perguntou uma das alunas.
- É, essa mesmo. A das cinzas.
- Pode explicar com mais detalhes por que? - disse o professor
- É que a fênix não é efêmera. Ela é imortal. Não importa se foi o mundo lá fora que a destruiu ou se foi o próprio calor dela. Em sua essência, ela nunca morre. Sempre se renova das cinzas, sempre continua. Não há tempo, não há adversidades. Não existe, para a fênix nenhum obstáculo. A fênix, diferente de outras aves, carrega muito peso. É poderosa, resistente. Se o amor que queima dentro de nós não for como uma fênix, então ele não é amor. Ele é apego, é projeção, quem sabe paixão. Não amor. Se nosso amor não renasce, se ele não é poderoso o bastante para suportar as adversidades. Então não é verdadeiro. Não é nada. Nada além de imaturidades, bobagens de um espírito que vive de mentir para si mesmo.

A turma ficou em silêncio. Alguns concordaram balançando a cabeça, outros viraram o rosto pro teto. Depois de uns dois minutos, alguém fez um comentário:

- É, definitivamente eu amo conhaque!

E todos começaram a rir. Diferentemente de antes, o aluno do canto também riu. A aula continuou, porque papo de viagem e amor não cai na prova...

Acerca do anarquismo em nível metodológico.

Contra o Método – Paul K Feyerabend
Apêndice 1

Tradução por Cezar Augusto Mortari

Tendo ouvido um de meus sermões anarquistas, o professor Wigner exclamou: “mas com certeza você não lê todos os manuscritos que as pessoas lhe enviam; você joga a maioria deles na lata de lixo”. Mas á claro que eu faço isso. “Tudo vale” não significa que eu vá ler cada artigo que tenha sido escrito – Deus me livre! -, mas significa que faço minha seleção de maneira de forma altamente individual e idiossincrática, em parte porque não me dou ao trabalho de ler o que não me interessa – e meus interesses mudam de semana a semana e mesmo de um dia para o outro – e em parte porque estou convencido de que a humanidade e até a ciência sairão lucrando se cada um se dedicar a sua própria área: um físico talvez prefira um artigo mal-escrito e parcialmente incompreensível, cheio de erros, a uma exposição cristalina porque tal artigo é uma extensão natural de sua própria pesquisa, ainda bastante desorganizada, e ele pode ter êxito bem como clareza muito antes de seu rival que jurou jamais ler uma única linha confusa (uma das qualidades da escola de Copenhague era sua habilidade em evitar decisões prematuras). Em outras ocasiões, ele talvez busque a prova mais perfeita de um princípio que está prestes a usar, a fim de não ser posto de lado na discussão do que considera ser seus resultados principais. Há, é claro, os assim chamados “pensadores” que separam sua correspondência exatamente da mesma forma, faça chuva ou faça sol, e também imitam mutuamente seus princípios de escolha – mas dificilmente os admiraremos por sua uniformidade e certamente não pensaremos que seu comportamento seja “racional”. A ciência precisa de pessoas que sejam adaptáveis e inventivas, não rígidos imitadores de padrões comportamentais estabelecidos.

No caso de instituições e organizações, como a National Science Foundation, a situação é exatamente a mesma. A fisionomia de uma organização e sua eficiência dependem de seus membros e melhoram de acordo com sua agilidade mental e emocional. Mesmo Procter na Gamble perceberam que um bando de bajuladores tem potencial competitivo inferior ao de um grupo de pessoas com opiniões incomuns, e os negócios acharam maneiras de incorporar os mais assombrosos não-conformistas em sua maquinaria. Problemas especiais surgem para fundações que distribuem dinheiro e desejam fazê-lo de maneira justa e razoável. A justiça parece exigir que a alocação de fundos seja efetuada com base em padrões que não mudam de um requerente a outro e refletem a situação intelectual nos campos e receberem apoio. Essa exigência pode ser satisfeita de maneira ad hoc sem recurso a “padrões de racionalidade” universais: qualquer associação de pessoas que seja livre tem de respeitar as ilusões de seus membros, bem como dar-lhes apoio institucional, A ilusão de racionalidade torna-se particularmente forte quando uma instituição científica opõe-se a exigências políticas. Nesse caso, uma classe de padrões é contrastada com outra classe desse tipo – o que é inteiramente legítimo: cada organização, cada partido, cada grupo religioso tem direito de defender sua forma de vida particular e todos os padrões que contém. Os cientistas, contudo, têm de ir mais longe.Tal como os defensores da Única religião Verdadeira, ou para obter resultados, e negam tal autoridade ás exigências do político. Põem-se a qualquer interferência política e mostram-se uns mais ávidos do que outros a tentar lembrar ao ouvinte, ou ao leitor, do resultado desastroso do caso Lysenko.

Ora, vimos que não passa de uma quimera a crença em um único conjunto de padrões que sempre tenha levado ao êxito, e sempre levará ao êxito. A autoridade social, no entanto, tornou-se entrementes tão esmagadora que se faz necessária uma interferência política para restaurar um desenvolvimento equilibrado. E para avaliar os efeitos de tal interferência é preciso estudar mais do que um caso não analisado. É preciso lembrar aqueles casos em que a ciência, deixada por sua própria conta, cometeu erros graves,e também não se pode esquecer as instâncias em que a interferência política realmentemelhorou a situação. Tal apresentação equilibrada da evidência pode até convencer-nos de que passou há muito o tempo de acrescentar a separação entre Estado e ciência à agora costumeira separação entre Estado e Igreja. A ciência é tão-só um dos muitos instrumentos que as pessoas inventaram para lidar com seu ambiente. Não é o único, não é infalível e tornou-se poderosa demais, atrevida demais e perigosa demais para ser deixada por sua própria conta. A seguir, algumas palavras sobre o objetivo prático que os racionalistas querem realizar com o auxílio de sua metodologia.

Os racionalistas estão preocupados com a poluição intelectual. Compartilho dessa preocupação. Livros ignorantes e incompetentes inundam o mercado, uma verborréia vazia e cheia de termos estranhos e esotéricos sustenta expressar insights profundos, “especialistas” sem cérebro, sem caráter e até mesmo sem uma pequena quantidade de temperamento intelectual, estilístico e emocional falam-nos a respeito da nossa “condição” e dos meios para melhorá-la, e não apenas pregam a nós – que talvez sejamos capazes de olhar por intermédio deles -, mas são deixados à solta entre nossas crianças e permite-se a eles arrastá-las para o interior [de] sua própria esualidez intelectual.¹ “professores” usando notas e o medo do fracasso moldam a mente dos nosso jovens até que eles tenham perdido toda a grama de imaginação que possam alguma vez ter possuído. Essa é uma situação desastrosa, que não é facilemnte corrigida. Mas não vejo como uma metodologia racionalista possa ajudar. No que me diz respeito, o primeiro e o mais urgente problema é tirar a educação das mãos dos “educadores profissionais”. As coerções de notas, competições e exames regulares devem ser eliminadas e devemos também separar o processo de aprendizagem e a preparação para uma profissão particular.  Admito que negócios, religiões e profissões especiais, como a ciência, ou a prostituição, tenham direito de exigir que seus participantese/ou praticantes conformem-se a padrões que elas consideram importantes, e devam ser capazes de averiguar sua competência. Admito também que isso implica a necessidade de tipos especiais de educação que preparem um homem ou uma mulher para os “exames” correspondentes. Os padrões ensinados não precisam ser “racioanais” ou “razoáveis” em nenhum sentido, embora usualmente sejam apresentados como tais; é suficiente que sejam aceitos pelos grupos que se deseja ingressar, seja a ciência, ou os Grandes Negócios, ou A Única Religião verdadeira. Afinal de contas, em uma democracia, a “razão” tem tando direito de ser ouvida e expressacomo a “não-razão”, especialmente em vista do fato de que a “razão’ d euma pessoa é a insanidade de outra. Uma coisa, contudo, deve ser evitada a todo custo: não se deve permitir que os padrões especiais que definem assuntos especiais e profissões especiais permeiem a educação geral e não se deve fazer deles a propriedade definidora de uma “pessoa bem-educada”. A educação geral deve preparar os cidadãos para escolher entre os padrões, ou achar seu caminho em uma sociedade que contém grupos comprometidos com vários padrões, mas não deve em condição alguma subjugar a mente deles de modo que se conformem aos padrões de algum grupo particular.Os padrões serão considerados, serão discutidos, as crianças serão encorajadas a ter proficiência nos assuntos mais importantes, mas só como se proficiência em um jogo, ou seja, sem compromisso sério e sem roubar a mente de sua capacidade de jogar também outros jogos. Tendo sido preparada dessa maneira, uma pessoa jovem pode decidir devotar o restante de sua vida a uma profissão particular e pode começar a levá-kla a sério daí em diante. Esse “comprometimento” deveria ser o resultado de uma decisão consciente, com base em um conhecimento razoavelmente completo das alternativas, e não um resultado inevitável.

Tudo isso significa, é claro, que devemos impedir os cientistas de assumir[em] a educação e de ensinar como “fato” e “o único método verdadeiro”, seja lá qual for o mito do dia. A concordância com a ciência e a decisão de trabalhar de acordo com os cânones da ciência deveriam ser o resultado de exame e escolha, e não de uma forma particular de educar as crianças.

Parece-me que tal mudança na educação e, em conseqüência, de perspectiva removerá muito da poluição intelectual que os racionalistas deploram. A mudança de perspectiva deixa claro que há muitas maneiras de ordenar o mundo que nos cerca, que as restrições odiadas de um conjunto de padrões podem ser quebradas pela livre aceitação de padrões de espécie diferente, e de que não há necessidade de rejeitar toda a ordem e permitir-se ser reduzido a uma queixosa corrente de consciência. Uma sociedade que é baseada em um conjunto de regras restritivas e bem definidas, de forma que ser humano torna-se sinônimo de obedecer essas regras, força o dissidente a uma terra de ninguém sem regra nenhuma e despoja-o assim de sua razão e de sua humanidade. É o paradoxo do irracionalismo moderno que seus proponentes identificam silenciosamente o racionalismo com ordem e fala articulada, e vêem-se, assim forçados a promover gaguejos e absurdos – muitas formas de “misticismo” e “existencialismo” são impossíveis sem um comprometimento firme, mas irrealizado, com alguns princípios da ideologia desdenhada (recordemos apenas da “teoria” de que poesia não passa de emoções vividamente exprimidas). Removam-se os princípios, admita-se a possibilidade de muitas formas de vida diferentes, e tais fenômenos desaparecerão como um sonho ruim.

Meu diagnóstico e minhas sugestões coincidem com os de lakatos – até certo ponto. Lakatos identificou princípios de racionalidade excessivamente rígidos como fonte a fonte de algumas versões de irracionalismo e insistiu conosco para que adotemos padrões novos e mais liberais. Identifiquei princípios de racionalidade excessivamente rígidos, bem como um respeito geral pela “razão”, como fonte de algumas formas de misticismo e irracionalismo, e também insisto na adoção de padrões mais liberais. Porém, ao passo que o grande “respeito pela grande ciência” que tem Lakatos leva-o a buscar esses padrões nos limites da ciência moderna “dos dois últimos séculos”, recomento colocar a ciência em seu lugar como uma forma de conhecimento interessante, mas de modo algum exclusiva, que tem muitas vantagens mas também muitos inconvenientes: “embora a ciência como um todo seja um aborrecimento, ainda assim pode-se aprender dela”. Também não acredito que se possa banir os charlatães simplesmente tornando-se mais rígidas as regras.

Charlatães existiram em todos os tempos e nas profissões mais firmemente consolidadas. Alguns dos exemplos que Lakatos menciona parecem indicar que o problema é criado por excesso de controle, e não por falta dele. Isso é especialmente [a] verdade dos novos “revolucionários” e sua “reforma” das universidades. Sua falha é que são puritanos e não que sejam libertinos. Além disso, quem imaginaria que os covardes melhorassem o clima intelectual mais rapidamente do que os libertinos?
(Einstein percebeu esse problema e, portanto, aconselhou as pessoas a não associar sua pesquisa à sua profissão: a pesquisa tem de estar livre das pressões que as profissões tendem a impor.) Precisamos também lembrar que aqueles raros casos em que metodologias liberais de fato encorajam verborréia vazia e pensamento desconexo (“desconexo” de um ponto de vista, embora talvez não de outro) Possam ser inevitáveis no sentido de que o liberalismo culpado é também uma precondição de uma vida livre e humana.

Finalmente, permitam-me repetir que, para mim, o chauvinismo da ciência é um problema muito maior do que o problema da poluição intelectual. Pode até ser uma de suas maiores causas. Os cientistas nãos e dão por satisfeitos em organizar seus próprios cercadinhos de acordo com o que consideram ser as regras do método científico, mas querem universalizar essas regras, querem que ela se torne parte da sociedade em geral e usam de todos os meios à sua disposição – argumento, propaganda, táticas de pressão, intimidação, práticas de lobby – para atingir seus objetivos. Os comunistas chineses reconheceram os perigos inerentes nesse chauvinismo e procederam de modo que o removesse. No decurso disso, restauraram partes importantes da herança intelectual e emocional do povo chinês, bem como aperfeiçoaram a prática da medicina. Seria vantajoso se outros governos seguissem esse exemplo.

1)      Até mesmo a lei agora parece apoiar essas tendências, como está mostrado no livro de HUBER, Peter. Galileo’s Revenge. Nova York, 1991.

Sobre a escravidão psicológica moderna

Este post contém apenas um pequeno fragmento de minha autoria. Seu conteúdo foi copiado de um grupo Junguiano do qual participo. Dentro do grupo, há um tópico com textos que considerei profundamente interessantes, de maneira que decidi postar todos aqui.

Link original: http://pos-jung.ning.com/forum/topics/controle-dominacao-matrix?xg_source=activity

Post inicial, por Anubys:

No início da era cristã, os gnósticos identificaram e descreveram um complexo sistema que operava simultaneamente nos planos físico, psíquico e social, e cuja finalidade era dupla: de um lado, manter o ser humano em uma condição de dependência dos poderes externos (sejam eles outros seres humanos, as forças determinísticas da natureza ou divindades tirânicas); do outro, drenar a energia excedente da psique, para impedir que a consciência do ser humano se elevasse a um nível incompatível com essa dominação. Esse sistema foi minuciosamente analisado por Valentino, fundador de uma das principais linhagens gnósticas da antigüidade, que deu a ele o nome de sístase

Os gnósticos foram os primeiros a apontar com clareza para o modo como as estruturas de poder da sístase se enraízam no próprio corpo. Mal-interpretada por seus detratores cristãos, essa descoberta deu origem à falsa crença de que os gnósticos fossem dualistas, que pregavam uma separação radical entre o espírito e o corpo, enxergando este último como a fonte de todo o mal.

Não é verdade, e o estreito vínculo entre corpo e poder foi redescoberto no século XX por Wilhelm Reich, que rebatizou a sístase como "couraça muscular" e intitulou o primeiro capítulo de seu Psicologia de Massas do Fascismo de "A Ideologia como Força Material". Reich descobriu também, aprofundando uma idéia lançada originalmente por Freud no início da psicanálise, que o principal aparelho ideológico usado pelo sistema para gravar essas estruturas na própria carne das pessoas (à maneira da Máquina em "Na Colônia Penal", de Kafka) é nada menos que a família.

O passo seguinte, por assim dizer, veio com Foucault, na década de 60. De um lado, Foucault confirmou a alegação gnóstica sobre a universalidade do sistema de dominação, ao mostrar que o poder não se difunde apenas verticalmente, imposto de cima para baixo, mas também horizontalmente, através de uma malha ubíqua de relações sociais (inclusive as familiares), o que faz com que cada um de nós torne-se um agente involuntário do poder, ao mesmo tempo prisioneiro, carcereiro e cárcere.

Do outro, Foucault salientou o caráter histórico da sístase: embora o sistema de dominação, como tal, se perpetue através das gerações, estendendo-se sabe Deus desde quando (talvez desde Adão tremendo de medo aos pés da Árvore do Conhecimento), suas estruturas sofrem mutações periódicas para se adaptar às novas circunstâncias sociais e históricas que inevitavelmente surgem.

Como exemplo dessas mutações, pode-se citar a sexualidade (tema de um estudo clássico de Foucault em três volumes, a História da Sexualidade ). Durante a Era Vitoriana, o sexo foi submetido a um escrutínio feroz por parte das autoridades médicas, sociológicas e políticas, com o objetivo de mantê-lo sob um rigoroso controle, devidamente enquadrado no sistema.

Na época de Reich (e de Freud), essa repressão sexual embora mais complexa do que tanto Freud quanto Reich acreditavam, já que não visava a calar o sexo mas, pelo contrário, a fazê-lo falar, como um prisioneiro sob interrogatório, era um dos traços dominantes da sístase, e se tornou a pedra-de-toque de seus respectivos métodos terapêuticos. Vieram as duas grandes guerras mundiais, que despedaçaram a sociedade vitoriana e uma das conseqüências disso foi a revolução sexual dos anos 60, saudada pela Contracultura e por uma geração de hippies como uma libertação.

Mas, como Marcuse alertava em Eros e Civilização, a liberação sexual fazia parte, na verdade, de uma estratégia do sistema, a que ele chamou de dessublimação repressiva, depois de interrogado, torturado e virado do avesso, o prisioneiro passou a colaborar com a sístase, que continua muito bem, obrigado, mesmo em tempos de sexualidade aparentemente livre.

Qualquer dúvida quanto a isso, é só ver o constante apelo da publicidade ao sexo como motivação para o consumismo. Quem olha para essa deslumbrante mulher seminua, orgulhosamente adaptada depois de um século de lavagem cerebral, jamais adivinharia seu passado de revolucionária. Sexualidade, teu nome é Patty Hearst.

E agora, que a revolução informática conectou o mundo todo, gerou acesso instantâneo à informação e, durante um breve período, ameaçou chacoalhar as estruturas de dominação (numa promessa, infelizmente, não cumprida, mas que, mesmo assim, gerou seus frutos), tudo indica que o estado de sístase está prestes a sofrer uma nova mutação.

É o que indica o artigo de Hara Estroff Marano. Corroídos pela ansiedade. Editora da revista Psychology Today (em cujo site, pode ser lida gratuitamente a versão original do artigo, sob o título de "A Nation of Whimps"), Marano considera que a tendência da atual geração de pais americanos a superproteger os seus filhos pode ter graves conseqüências quando eles se tornarem adultos:

Bem-vindo à infância inteiramente higienizada e protegida, sem joelhos esfolados ou uma ou outra nota "C" no boletim. "As crianças precisam sentir-se em falta de vez em quando", diz o psicólogo infantil David Elkind, professor na Universidade Tufts [Massachusetts, EUA]. "Aprendemos por meio da experiência, incluindo as experiências negativas. Por meio do fracasso, aprendemos a enfrentar as dificuldades." Mas cometer enganos, mesmo no playground, é algo que anda totalmente fora de moda. Apesar do fato de tentativa e erro serem os verdadeiros "pais" do sucesso, os pais estão se dando muito trabalho para remover os erros dessa equação. Ninguém duvida da existência de forças econômicas importantes que estão impelindo os pais a investir tão pesado na produção de seus filhos, desde a mais tenra idade. Mas tirar do desenvolvimento das crianças todo o desconforto, as decepções e até mesmo a brincadeira, especialmente quando isso é acompanhado de uma pressão crescente de exigência de sucesso, revela ser um erro de rumo de mais ou menos 180 graus. Quando enfrentam poucos desafios próprios, as crianças não conseguem criar suas adaptações criativas próprias às vicissitudes normais da vida. Não apenas isso as torna avessas ao risco, como as faz psicologicamente frágeis, corroídas pela ansiedade.

Parece uma reedição do velho debate que atravessa a pedagogia, sobre se os bons pais devem ser permissivos ou controladores, e em certo sentido não deixa de ser. Por outro lado, também não deixa de ser sintomático que os adultos produzidos por essa "infância higienizada" pareçam feitos sob medida para uma sociedade de controle: "Nesse processo elas perdem o senso de identidade, de sentido e de realização", escreve Marano, "sem falar em suas chances de alcançar a felicidade 'real'. Além disso, não aprendem a ter perseverança, que não é apenas uma virtude moral, mas uma habilidade necessária à vida."
Na ausência de um senso de identidade solidamente enraizado em si próprias, as crianças passam a depender de uma autoridade externa que lhes diga quem são, o que devem fazer e qual o sentido de suas vidas.

E no afã de proteger seus filhos de todos os problemas, mostrando-se sempre disponíveis para resolver prontamente qualquer dificuldade que surja, os pais, imbuídos das melhores intenções, mas eles mesmos vítimas de sua programação inconsciente, só fazem perpetuar essa condição de dependência, que já começa a mostrar seus reflexos fora do âmbito familiar: "Na estufa em que se transformou o processo de criação das crianças, o brincar é algo que praticamente desapareceu. Mais de 40 mil escolas americanas não têm mais recreio. E o pouco tempo que ainda resta para brincar foi corrompido. Os esportes organizados dos quais muitas crianças participam são administrados por adultos. As dificuldades que surgem ali não são resolvidas pelas crianças, e sim por decreto de árbitros adultos."
Obviamente, quando essas crianças crescerem, os pais não vão estar sempre por perto para lhes dizer o que fazer. Ganha um doce quem for capaz de adivinhar o que é que entrará no lugar dos pais ausentes como fonte de autoridade.

Um superego externo. - Na produção dessa dependência perpétua, o celular ocupa um lugar de destaque, o que o torna, ao mesmo tempo, uma imagem exemplar da forma como o estado de sístase é capaz de absorver qualquer elemento que surja e convertê-lo em um instrumento para sua própria manutenção.

Criado originalmente com a finalidade de facilitar a comunicação, o celular logo se transformou em uma ferramenta de controle que funciona nos dois sentidos: se o filho, criança ou adolescente, tem um celular, os pais sempre poderão encontrá-lo, a qualquer hora ou em qualquer lugar e, em troca, ele também terá acesso ilimitado aos pais para que eles lhe digam como agir.

"Pense-se no celular como o cordão umbilical eterno", diz Marano, que contrasta essa situação com o modelo clássico de crescimento: "Um dos modos pelos quais nos tornamos adultos é internalizando uma imagem de nossos pai e mãe e dos valores e conselhos que eles nos passaram em nossa infância. Então, sempre que nos defrontamos com incertezas ou dificuldades, recorremos a essa imagem internalizada. Nós nos tornamos, de certa maneira, todos os adultos sábios que já tivemos o privilégio de conhecer." O psicólogo infantil David Anderegg complementa: "O celular impede os jovens de descobrirem por conta própria o que fazer. Eles não chegam a internalizar nenhuma imagem. A única coisa que internalizaram é o comando 'ligue para papai ou mamãe'."

Obviamente, a internalização da imagem paterna, que tanto Marano quanto Anderegg parecem ver como uma condição saudável que está sendo destruída pela nova situação, é tudo menos saudável. Em linguagem psicanalítica, o que eles estão descrevendo é a formação do superego, que Freud descreveu como a colonização da psique pelos padrões e valores impostos pela sociedade.
Em outras palavras, o superego é, ele próprio, um dispositivo de controle implantado nas mentes das pessoas. Mesmo se o diagnóstico deles quanto aos efeitos psicológicos do celular estiver correto, não estamos passando de uma situação de liberdade para uma situação de dependência, e sim de uma situação de dependência internalizada para uma dependência externa.

Dependência é dependência, só mudam as suas formas de atuação. O superego, que antes era uma instância puramente intrapsíquica, passa a ser projetado no ambiente externo que, num certo sentido, torna-se ele mesmo superegóico, fazendo eco às palavras do (às vezes reacionário, às vezes visionário) filósofo francês Jean Baudrillard: "Tudo aquilo que é interior (rede, funções, órgãos, circuitos conscientes ou inconscientes) será exteriorizado na forma de próteses, que constituirão ao redor do corpo um corpus ideal satelizado, do qual o próprio corpo tornar-se-á satélite. Todo o núcleo será desnucleizado e projetado no espaço satélite."

Os Cem Olhos de Argos - Deleuze referiu-se a esse espaço-satélite que, hoje vemos com clareza, é um satélite de vigilância e espionagem como sendo a nova sociedade de controle que começou a emergir na segunda metade do século XX, e que é a nova face assumida pelo estado de sístase denunciado e combatido pelo gnosticismo.

Ao contrário de Baudrillard o qual, como Marano e Anderegg, embora num outro contexto, tende a idealizar os estágios anteriores da sístase como uma espécie de "paraíso perdido", Deleuze não vê a sociedade de controle como pior ou melhor do que as formas prévias que ela vem substituir especialmente a sociedade disciplinar do século XIX, que Foucault estudou em Vigiar e Punir, e de cujo ventre o superego freudiano é o fruto. Ela é apenas uma forma diferente de fazer a mesma coisa, garantir que, quanto mais as coisas mudem, mais elas permaneçam iguais.

A mitologia grega conta a história de Io, uma das incontáveis amantes de Zeus perseguidas pelo ciúme de Hera e que, depois de ser transformada em novilha, foi aprisionada e colocada sob a vigilância implacável do gigante Argos. Em uma das versões da lenda, Argos era um cíclope, dotado de um único olho, e para se submeter a seu olhar monocêntrico, a novilha Io teve de ser amarrada a uma árvore. Segundo outra versão, mais difundida, Argos tinha cem olhos espalhados pelo corpo. Não havia necessidade de prender Io porque, onde quer que ela fosse, os olhos de Argos a seguiam. Curiosamente, a diferença entre as duas variantes do mito é a mesma que existe entre a antiga sociedade disciplinar e a nova sociedade de controle.

As sociedades disciplinares organizam-se sob a forma de uma série de espaços fechados, a família, a escola, o quartel, a fábrica, o hospital para os doentes físicos e o hospício para os doentes mentais, cujo paradigma é a prisão. No decorrer de sua vida, o indivíduo simplesmente passa de uma forma de clausura para outra, sempre submetido a alguma forma de vigilância e disciplina, até ser trancafiado nesse derradeiro espaço fechado que é o cemitério.

O mecanismo funcionou como uma engrenagem perfeitamente azeitada durante aproximadamente duzentos anos, do século XVIII, quando ela começou a se constituir, até mais ou menos a metade do século XX e atingiu seu apogeu no século XIX. Daí para a frente, começou a fazer água, até entrar em uma espécie de colapso, do qual, talvez, a contracultura das décadas de 50 e 60 foi o grande anunciador: Nas palavras de Deleuze:

Estamos em uma crise generalizada de todos os locais de clausura: prisão, hospital, fábrica, escola, família. A família é um "interior" em crise, como todos os interiores, escolares, profissionais, etc. Os ministros competentes não deixaram de anunciar reformas supostamente necessárias. Reformar a escola, reformar a indústria, o hospital, o exército, a prisão; mas todos sabem que estas instituições estarão extintas, a um prazo mais ou menos curto. Trata-se apenas de administrar sua agonia e de ocupar as pessoas até a instalação das novas forças que estão batendo à porta.

Essas novas forças são as da Sociedade de Controle, termo que Deleuze pegou emprestado de William Burroughs, e que são organizadas sob moldes profundamente diferentes dos da sociedade disciplinar.
O paradigma não é mais fornecido pela prisão e a fábrica, mas pela empresa e pelo comércio. O espaço deixa de ser rigidamente demarcado, as fronteiras tornam-se fluidas, permeáveis, e a vigilância monocêntrica, concreta, torna-se desnecessária, substituída por uma vigilância ubíqüa e virtual: "Não é preciso a ficção científica para conceber um mecanismo de controle que assinale a cada instante a posição de um elemento em um lugar aberto, animal em uma reserva, homem em uma empresa (coleira eletrônica)."

É fácil perceber no uso do celular como instrumento de controle um dos avatares da coleira eletrônica mencionada por Deleuze. Não é o único, e talvez em breve deixe de ser o mais importante. A proliferação de câmeras de segurança, acompanhadas ou não da hipócrita advertência de que "sorria, você está sendo filmado", é outro sintoma da crescente onipresença dos cem olhos de Argos.
Acuada pelo medo e a insegurança crescente, a população passa a encarar essa onipresença com alívio, como uma proteção ilusória contra a criminalidade urbana, e pode-se perguntar, como Arthur Dapieve, se a função da criminalidade não será exatamente essa, fazer com que a sociedade se submeta ao controle por livre e espontânea vontade ou seja, uma vontade que não é verdadeiramente livre, nem espontânea e muito menos vontade.

No extremo oposto, o sucesso dos reality shows cumpre o papel pedagógico de ensinar as pessoas não apenas a aceitar como de fato a desejar essa exposição constante às lentes das câmeras, e o título de um dos primeiros e até hoje mais bem-sucedidos programas nesse formato encerra menos uma ironia do que uma admissão cínica, não dos produtores mas do próprio sistema, quanto às intenções que presidiram ao seu surgimento.

E não deixa de ser significativo que os chips de localização, desenvolvidos inicialmente com o objetivo de serem implantados nos criminosos, comecem a aparecer no mercado como um produto a ser adquirido pelo respeitável cidadão, permitindo que a polícia saiba a qualquer momento onde ele pode ser encontrado em caso de seqüestro. O chip de localização é um símbolo perfeito da passagem da sociedade disciplinar para a sociedade de controle e aponta para o fato de que ainda somos todos prisioneiros, mas de uma prisão desprovida de muros concretos e portões intransponíveis. Nossa liberdade de ir e vir é assegurada apenas na medida em que levamos a nossa prisão conosco.

Criando o cidadão de amanhã. - De posse desses dados quanto ao contexto geral, podemos voltar ao problema específico levantado por Marano em seu artigo. Filhos de uma civilização em transição, nascidos sob a égide do esfacelamento da sociedade disciplinar, precisamos ser coagidos pelo medo à criminalidade ou adulados pela promessa de nossos quinze minutos de fama para que aceitemos o novo regime imposto pela sociedade de controle.

Nossos moldes não se encaixam muito bem no novo esquema geral das coisas, e é por isso que o sistema tem de recorrer a engodos e ardis para que nos adaptemos. Outro caso completamente diferente é o dessa geração que preocupa Marano e os psicólogos infantis que ela cita:
John Portmann acha que os efeitos da superproteção são ainda mais perniciosos que eles enfraquecem toda a tessitura da sociedade. Ele vê os jovens se tornando cada vez mais fracos, cada vez mais ansiosos por pertencer ao rebanho maior, demasiado ansiosos por se enturmar afirmando-se menos em sala de aula, pouco dispostos a discordar de seus pares, com medo de questionar a autoridade, mais dispostos a satisfazer as expectativas dos que estão situados um pouco acima deles na escala de poder.

Portmann só erra quanto ao pressuposto de que os efeitos da superproteção "enfraquecem a tessitura da sociedade" uma afirmação otimista demais, que ignora completamente a dinâmica do estado de sístase.

Ansiosos, submissos e desprovidos de livre-iniciativa, os adultos de amanhã são os cidadãos ideais de uma sociedade de controle que já começa a cravar suas garras no hoje. Quando essas crianças crescerem, descobrirão provavelmente sem esboçar qualquer reação quanto a isso que foram feitas à imagem e semelhança do novo rosto assumido pelo eterno deus do sistema.

Resposta de Juçana:

Bela análise do momento atual, pouco ou nada teria a ser acrescentado para tornar o quadro geral da humanidade mais completo, nos meandros históricos, político e psicológicos e também nessa estranha relação do homem contemporâneo entre o que é aparente e o que é oculto, entre o que ele quer, o que ele faz e o que obtém. Concordo inclusive com o diagnóstico, mas teria algo a discordar do prognóstico...

Por mais que o homem seja estes descaminhos todos e esteja, digamos, em estado de sístase permanente, ainda assim eu vejo nas crianças de hoje uma identidade desapegada dos papéis antigos, como poucas gerações anteriores tiveram oportunidade, ou mesmo liberdade, de experimentar. A geração dos novos que estão chegando, têm realmente uma maneira diferente de estar no mundo. Muitas causas contribuem para essa relativa - e frágil - "liberdade", mas, por mais paradoxal que possa parecer, acho que é justamente a sociedade do controle a que propicia o espaço ou fornece motivação para que esse novo homem, que "está vindo", possa construir uma identidade desapegada do "controle central". Pois quando todos são vigiados, quando o controle é levado às raias do absurdo, o controle em si mesmo cai por terra e outra coisa nasce em seu lugar e bem poderíamos chamar essa coisa de "liberdade". É quase uma enantiodromia junguiana, ou sístole aristotélica, ou libido freudiana vagando entre eros e tanatos. O homem é esse vagar entre, e não podemos desconsiderar as consequências deste permanente estado de contradição, como uma condição para sua existência.

Eu percebo que tudo o que o homem pensa, constrói, imagina, sente, de algum modo existe e se faz real para ele, e não há como o homem não lançar mão daquilo que para ele é ou se faz real, seja um pensamento, um sentimento ou até mesmo um objeto. Porém, se homem fosse apenas esse vetor, do que ele "constrói", há muito nós não estaríamos mais aqui nesse planeta. Existe igualmente uma outra força contrária e sem nome, seria o contra-objeto, o contra-conhecimento ou o contra-sentimento, ou qualquer coisa que poderíamos chamar de "o antídoto".

Ou seja, do mesmo modo que o homem destrói o planeta, de outro ele o preserva - e também se ele não estivesse destruindo o planeta, não haveria necessidade de pensar e de colocar em prática um outro modo de vida sustentável. E do mesmo modo que o homem inventa a bomba H ou artefatos cada vez mais bélicos e destrutivos - e tudo que ele constrói não há meios que o impeça de lançar mão do objeto construído, a não ser o conhecimento do mal que ele provocaria, que é o que efetivamente segura a sua mão na hora de apertar o gatilho e lançar tudo pelos ares. Ainda existe o contrasenso de que a energia nuclear seja mais limpa e o que foi feita para destruir seja, num curto prazo, a alternativa ecológica mais viável para preservar a atmosfera. Assim, concluo, quando o homem é vigiado de fora, é quando ele encontra condições ideais de formular regras interiores independentes. Mas, é claro, o quadro que estou delineando talvez seja uma experiência para poucos, mas quero crer é o começo duma outra realidade e que passa longe por uma sociedade de controle absoluta.

Minha resposta:

Talvez exista um problema nessa argumentação. É bem simples: se estamos mesmo escravizadas, "Ansiosos, submissos e desprovidos de livre-iniciativa", então como é que há uma constante força arquetípica no pensamento de um modo geral contra isso? Lembro da última pergunta que foi feita a Jung na entrevista do “Face to Face”, que inclusive traduzi e postei noutro forum:

Entrevistador: “Na medida em que o mundo se torna mais eficiente tecnicamente, parece cada vez mais necessário que as pessoas se comportem de maneira comum, coletiva. Você acredita que no maior grau de evolução humana, acabemos submersos em algum tipo de consciência coletiva?
.
Jung: “Isso é muito improvável. Penso que haverá uma reação. Uma reação contra essa dissociação comunal. Sabe, o homem não suporta sua nulificação para sempre. Em algum momento haverá uma reação, e eu a vejo chegando. Quando penso nos meus pacientes... Todos eles estão buscando sua própria existência e. Buscam assegurar sua existência contra essa completa atomização que leva ao nada, à ausência de sentido. O homem não pode suportar uma vida sem um propósito, um sentido(meaning).

Eu vejo reações em toda a parte: Neo-pentencostais pregam libertação contra vícios e criminalidade; conspiracionistas pregam a libertação contra o sistema dos maçons, illuminati, sionistas, etc.; os mais místicos pregam a libertação contra os "reptilianos" ou "dragões", os ativistas "verdes" buscam libertar o homem da destruição do meio ambiente, os Junguianos(e não só eles) buscam propiciar a individuação, que liberta o homem de ser algo que ele não é; os Socialista buscam libertar o homem da opressão da burguesia, que supostamente mantém a escassez para perpetuar o sistema.

Inclusive seu primeiro parágrafo me lembrou um livro meu, que ainda está em fase de construção (50 páginas, mais ou menos 20% do total). Esse livro possui temática de extra-terrestres(Mito moderno?) e há muitas espécies no universo. Agindo no nosso planeta há basicamente duas. Uma delas, uma civilização de "escravos-soldados", buscam dominar nosso planeta e transformá-lo numa "usina". Só que a energia que eles absorvem é mental (Orgone, Libido, Energia psíquica?). A energia criativa do ser humano. Na medida em que eles sugam a nossa energia criativa, não percebemos nada além do banal e a vida se torna uma escravidão mental. Assim, eles mantém nossa sociedade estagnada em diversos aspectos e ainda usam essa energia em guerras fora daqui. Nossa espécie progride(no sentido de individuação dos indivíduos) num ritmo muito mais lento do que deveria por conta disso.
Além de sugarem nossa energia mental, eles se infiltram em todos os ramos de ação local e assumem cargos altos, para manter a ordem social mais ou menos estável.

No entanto, não para por aí. Há uma civilização "salvadora". Chegou apenas recentemente que também é uma cilização de soldados, mas é livre. O objetivo dessa civilização é permitir que a energia dos habitantes locais possa fluir na direção deles próprios, e a partir do momento em que isso acontecer, os problemas sociais serão eliminados. Porque, como Jung diz, o homem é a maior fonte de problemas do mundo, e também a maior fonte de solução. Enquanto o homem não tomar consciência de si mesmo e continuar projetando sua sombra no próximo, os conflitos continuarão. Inclusive, nesse contexto, a civilização chegou nesse momento por conta de uma espécie de "período de transição", sobre o qual Jung fala em O mito moderno e nessa entrevista(face to face).

Independente da "realidade" de tais pontos, pra mim parecem de natureza arquetípica. Inclusive foi com muita surpresa que li seu primeiro parágrafo, porque o que eu falo no meu livro é muito parecido com o que os gnósticos diziam:

"No início da era cristã, os gnósticos identificaram e descreveram um complexo sistema que operava simultaneamente nos planos físico, psíquico e social, e cuja finalidade era dupla: de um lado, manter o ser humano em uma condição de dependência dos poderes externos (sejam eles outros seres humanos, as forças determinísticas da natureza ou divindades tirânicas); do outro, drenar a energia excedente da psique, para impedir que a consciência do ser humano se elevasse a um nível incompatível com essa dominação."

É exatamente isso que essa civilização faz! E eu nunca tinha lido sobre os gnósticos! Mesmo assim, minha mente parece ter captado isso da mesma forma que eles. A diferença é que eu representei nesses termos, e eles noutros. Aliás, eu soube que os espíritas acreditam em algo análogo, a respeito dos Dragões que vivem no Umbral. Cada um representa a questão segundo os próprios termos, mas questão está sempre aí.

Mas essas representações sempre mostram um salvador. E a nós é dada relativa liberdade entre escolher a liberdade ou a prisão. Entre abrir a mente o ficarmos acorrentados à paradigmas insípidos. Acha que deveríamos baixar a cabeça e lamentar diante da estupidificação? Que é o destino da nossa espécie que todos se tornem zumbis, autômatos?

Não... Eu concordo com a Juçana. Ainda tenho esperança...