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Deixem-me voltar pra casa



Esse mundo é frio, congelado
Vocês o sabem, já vieram aqui
Andar por aqui queima a pele
Fere o coração, mesmo de um soldado

Selvageria, brutalidade, imbecilidade

A noite está fria
Quero meu cobertor
Ele está em casa, com os meus
Tudo o que eu amo está em casa

As palavras falham, sabe?
Na verdade nem sei mais nomear
As coisas que mais amo
Não tenho capacidade de relembrar

São idéias inconcebíveis de um mundo antigo

Mas essa noite está silenciosa
Quero os sons do lar
Então deixem o sono me levar
Só por essa noite, voltar pra casa

Porque vivendo nesse mundo
Carregando essa sensação horrível
Tudo o que eu preciso agora é disso
Ir para o meu lar, onde nada mais importa

Poderiam vocês, generais dos astros,
Conceder um dia de folga dessa tarefa?
Deixar-me esquecer meu posto
E voar no túnel pelo espaço?

What i am to you



Sou só mais um
No meio da curva normal
Mediano, previsível, comum
Uma representação média

Eu sou algo irrelevante
Que é indigno de preocupação
A sombra do homem invisível
Um detalhe pequeno demais

Sou uma fonte útil de calor
E também uma força propulsora
Dou proteção e sou força motriz
Sou instrutor e escudeiro

Enquanto eu for uma distração
E enquanto tiver alguma utilidade
Terei meu lugar dentro de você
Dentro do seu tubo digestório

Vou ser ruminado, corroído
Arrastado, sugado até a última gota
Então meus restos mortais serão expulsos
E meu funeral será girar e ser eliminado

Mas saiba de uma coisa
Que talvez eu entre no seu sangue
E aí chegue ao seu coração
Nesse ponto, não haverá volta

Um dia triste

Era disso mesmo que eu precisava. Um dia sozinho. Totalmente distante do contato humano. Sem conversas para me distrair, apenas para ficar imerso em mim mesmo. Eu sei que é triste, mas todos nós temos o direito de sofrer de vez em quanto, não?
Eu digo que sim. Que todos merecem um dia pra amaldiçoar o destino, amaldiçoar aquelas circunstâncias fora do nosso controle que nos separam do que mais desejamos. Sejam essas circunstâncias parte do seu corpo, da sua situação social, da sua localização geográfica ou qualquer coisa.
É um absurdo alguém me dizer que nesses dias eu deveria apenas sorrir! Sorrir porque, pra que?
Ora, claro que há muitas coisas boas na minha vida. Tenho amigos, e dos bons. E também tenho, parece, um espírito que vive me seguindo, como um anjo da guarda, e que me trás muito conforto e aprendizado. Tenho meios para sobreviver bem, me alimentar bem, Abrigo, respeito, um corpo em perfeitas condições de saúde.
Mas isso é a mesma coisa que dar água como consolo a um homem que tem fome!
Claro que sou grato por essas coisas, mas isso não é algo que vá me manter alegre em todos os sentidos. Porque parece que eu não sou daqui, que não sou acostumado com os limites desse mundo.
Aquela estrada me dá Náuseas. Queria poder simplesmente voar, cruzar 400 quilômetros em dez minutos. Queria poder sobreviver em qualquer lugar, sozinho ou acompanhado, desse planeta.
Mas estou preso por laços que não posso quebrar e o que mais desejo, por causa disso, está simplesmente fora do meu alcance. E às vezes eu me pego pensando em me misturar com os hábitos locais, em ter dinheiro e não permitir que algo assim aconteça de novo. Pensando em trair minhas origens e me dedicar aos objetivos mundanos, medíocres, ridículos das pessoas que pensam que isso aqui é normal.
E por mais que eu lute, e gaste minha energia em algo que provavelmente será inútil para o meu espírito, o momento já passou. Já se passaram dois momentos, e não há como mudar. Não há como voltar atrás.
Sim, eu voz declaro. Hoje é um dia triste, um dia desagradável. Claro que vou me recuperar, claro que vou ter outras chances, claro que tudo nunca acaba de verdade. Mas essa é a realidade de hoje. Não estou mais revoltado com o destino nem nada. Apenas queria um pouco mais de força para suportar as limitações dessa existência, especialmente para aquelas a respeito das quais nada posso fazer...
Money will always defeat love...

O tormento do pecador


“Não existe certo ou errado”, dizia ele se revirando pela cama. “eu não tive escolha. Quem faria diferente?”
Mas a sua cabeça queimava. Como se linha de fogo a estivesse atravessando. Para um habitante daquele lugar, que é destituído de consciência, ele poderia encontrar justificativa. Mas para si, jamais.
O corpo estava ali. Todas as evidências foram devidamente removidas, mas ele nem se importava muito com ser pego. Só não se entregava definitivamente porque poderia causar o mal a pessoas inocentes. Aliás, não são inocentes porra nenhuma, mas são amadas. São humanas, carnais e fracas. Mas amadas.
Logo ele, aquele que pregava o amor ao próximo. Aquele que, naquela mesma noite, havia experimentado a sensação boa decorrente do amor genuíno. Logo ele cometeu tamanho crime.

- Eu só estava me defendendo. – disse pra si mesmo
- Mas eu poderia ter evitado todo o conflito. – respondeu
- Mas as circunstâncias foram adversas!
- Covarde. Sabe que era você o testado. Foi você quem falhou em demonstrar amor. Foi você que traiu a Deus e ao amor do universo. Quer culpar as circunstâncias?

Ele se deitou ao lado dos sacos. Todos bem embalados. Um crime tão limpo. Ele viu tudo acontecendo dias antes. Conversou com uma amiga, que o aconselhou a mudar o rumo da coisa. Naquela noite, antes de fazer o que fez, ele estava convicto e decidido a não fazer. Mas fez.
Ninguém saberia, ninguém sentiria falta. No dia seguinte, a vida de todos seguiria como sempre. Mas não a dele. Ele caiu da posição de amante do mundo. Ele possuía uma aura de amor, que o protegia de todo o ódio do mundo. Depois de fazer o que fez, o amor o abandonou. E a culpa o corroeu e o tornou fraco.
Sua própria força mental, que já não podia defendê-lo, estava partida em pequenos pedaços. Menores do que os fragmentos esquartejados e embrulhados em meio aos quais ele se deitava.
Nada que ele pensasse aliviava seu sofrimento. A TV o aborrecia. Felizmente não há pessoa falando na madrugada.

- Nenhum crime sai impune. – disse ele – ninguém abandona os caminhos do amor para se entregar à bestialidade e fica impune. O peso dos milênios queima a minha alma. Logo eu, que deveria ser um exemplo!

A morte teria que ser limpa e rápida. Ele pensava em como faria. Sem barulho, talvez sem dor.
Um fantasma apareceu ali naquela cozinha e falou-lhe.

- Você ainda pode se redimir. Você abandonou o amor, mas pode reencontrá-lo. Caia, se desejar a mudança, de joelhos no chão e peça perdão a si mesmo.
- Que perdão? Depois do que eu fiz? Eu não sou hipócrita! Eu não mereço qualquer perdão!
- Se desistir da sua missão por causa desse desvio, sofrerá por muito mais tempo e com muito maior intensidade. Não espere que tal evento saia impune. Aquele espírito que lhe foi prometido, o qual te daria forças nos momentos mais difíceis, não mais o acompanhará. Com o seu crime você foi condenado, até segunda ordem, a cumprir sua missão sozinho.

O fantasma saiu e ele chorou. Era tão cara a pessoa que ele perdeu. Tão próxima. Terrível era o fato de que ele se revelara um monstro indigno de tal companhia. As lágrimas distorceram sua visão.
O despertador tocou. Era a hora de se livrar do corpo e encarar um mundo que, a cada dia, se revelava mais amigável. Teria que se torturar com a admiração que algum tinham por ele e ouvir calado (embora atormentado), que pessoas estavam orgulhosas dele. Que ele era um herói, e que com sua luta pelo amor ele mudaria ao menos um pequeno fragmento do mundo.
Mas, diferente do que diziam, ele sabia que não era anjo. Ele sabia que, no fundo, era uma peste. Ele pecou, e sua maior punição foi que ninguém o odiou por isso.

Sua maior punição foi ter fama por algo que não merecia.

Afinal, de que valem todos os seus trabalhos e todos os seus esforços se, quando provado, ele sucumbiu à mais selvagem, embora atraente, vontade de destruir?
Não. Um anjo não sorriria enquanto apunhala uma criatura pelas costas. Por mais que ela seja desprezível.

- São os malditos e os desprezíveis que mais precisam de amor. – repetia ele em voz baixa.

Colocou os sacos no porta-malas e saiu de casa. Espalhou os pequenos sacos bem embrulhados e lacrados por lixeiras distantes da casa dele e distantes uma da outra. Viu o sol nascer. Ele tornou aquele dia um pouco mais podre para todo o mundo. Espalhou seu aroma fétido por diversos cantos.
O vidro estava aberto, mas ele mal podia respirar. Chorou quando o rádio ligou e tocou uma música. “ficar sem você, é como tentar viver sem respirar”.
Ele queria nunca ter existido. Morrer naquele momento não era o bastante. Havia pessoas que contavam com ele e eram todas caras. A única pessoa com a qual ele poderia compartilhar tal evento provavelmente cortaria relações com ele. Mas pra quê compartilhar esse lixo?
O mínimo que ele poderia fazer era aceitar o tormento merecido.


Nenhum crime sai impune

Um passo em direção ao fim dos dias



Entrei no quarto angustiado. Imaginei que a profundidade psicológica de Jane Austen pudesse ao menos me distrair. Estava errado.
Pelo contrário: ela conseguiu, justamente com os capítulos que li, reavivar meu tormento.
Eu sabia que naquele dia um passo foi dado numa direção terrível. Como um bandido que vê uma bala quase penetrar-lhe o crânio e de repente toma consciência de que mais cedo ou mais tarde uma delas o destruirá. Tudo porque eu coloquei a cabeça na luz! Eu coloquei o coração na luz!
Que erro maior?
A música que ouvi praticamente o dia inteiro sem entender bem porque de repente fez todo o sentido: seu tempo acabou, seu tempo acabou. É o que ela diz. Muito boa, a música.
A parte dolorosa desse ciclo está chegando. Eu já sinto o cheiro de sangue no ar. Meu sangue, escorrendo sem ninguém ver. Meu sangue fluindo para fora e escondido pelo silêncio.
Eu vou acabar correndo de novo. Vou fugir pelas ruas e dirão que sou louco. Tudo de novo. “Como que aquele sujeito tão calmo fez uma coisa dessas?”
É que sorriso não fecha ferida.
Eu já desisti de tentar de me convencer de que minhas intenções são boas. Recentemente isso se tornou inútil: sendo boas ou ruins, eu sempre acabo no mesmo lugar. Sempre cometo os mesmos erros. Tudo vai acontecendo diante dos meus olhos, cada vez com um disfarce mais complicado. Eu nunca consigo desvendar o mistério antes de ele ter invadido as minhas entranhas. Antes de sentir a dor.
É só quando a dor chega que me livro das ilusões. E aí fico me perguntando sobre como tudo veio a ser de tal maneira. Pergunto inutilmente, porque sei. Eu sei muito bem.
Minha barriga dói de fome, acho que tem vultos aqui no quarto. Eles sempre me visitam durante a noite. Sempre parece que tem gente andando por aqui. Que falam no meu ouvido e vou escrevendo loucuras que eles me dizem.
Tudo isso me fez ficar meio sem juízo e confessar meus pecados ao branco co Word. Isso mesmo. Nada romântico. Eu odeio escrever com caneta. Nunca nem vi uma pena usada pra escrever.
O caso é que eu dei mais um passo em direção ao fim dos tempos. Tal fim se apresentou recente e mortalmente. E, ironicamente, no momento foi tão doce.
Há aquela voz de sempre na cabeça. Intuição. “Tudo deveria mesmo ser assim”. “A gente só sente a dor pra aprender com ela”. “Tal provação não vai para além das suas possibilidades”. “Desperte sua verdadeira essência”. “Esse fantasma com o qual você se identifica é patético”. “Descubra de novo que você é e era já a mais de um século”. “Abra o terceiro olho”!
Acho que eu invento esses delírios religiosos mesmo pra fugir da realidade. A nua e crua: o meu sonho tá acabando. A alegria, o prazer, estão saindo. Em breve, como antes e, quem sabe, como sempre, chegará o meu próprio tormento.
Só que agora eu mudei as cores dele. O que era meio azulado ficou rosa. Mais escuro, com contraste. Ficou mais bonito.
Eu rio de mim mesmo quando imagino que alguém poderá ler isso. O que pensariam?
Não. Se alguém conseguir ler e entender o que eu estou escrevendo, meu destino se tornará pior. A interpretação dessas palavras confusas seria a própria bala atravessando meu crânio.
Nosso lar é onde o coração está. Aqui é o meu quarto já há uns 8 ou 9 anos. No entanto, tenho que ir pra casa. Meu desespero aumenta quando lembro que não faço idéia de onde é isso.

Espinhos na minha cama



 Tem espinhos dentro do meu cobertor
E fui eu que os coloquei ali
Meu sangue já manchou o pano
Só porque eu quis

Nem sei se quero mesmo sofrer
To deitado agora nos espinhos
Lamentando por tê-los deixado aqui
E incapaz de me livrar deles.

É claro que também há uma rosa
E tem vezes que eu nem me furo
Tem sempre um cheiro bom
Mas as feridas não fecharam

Meu sangue está saindo
Minha vida vai acabando
Enquanto eu tenho rosas
E espinhos na minha cama...

Uma maldição do passado



Nós nos encontramos no parque pela última vez. Pensei que ela nunca mais falaria comigo depois daquilo que fiz. Mas me chamou. Estranha, aquela sensação.
Noite passada eu nem acreditei no que eu fiz. Não era eu. Dormi por 16 horas e não queria levantar quando acordei. Eu queria acreditar que foi um sonho. Mas não foi, e tudo estava acabado.
Ela deixou recado com minha mãe no telefone. Queria me encontrar na praça lá em cima às dez. Perto da casa dela. Teve uma festa lá. Aniversário da mãe dela. Eu ainda tenho o convite.
Eram oito da noite. Passei o dia inteiro dormindo. Meu sonho estava bom, mas não consigo lembrar.
Eu me levantei e tomei um banho. Eu nem lembrava a última vez que eu tinha ido ao chuveiro. Tudo aquilo tirou meu foco das coisas. Como sempre, comecei a pensar no banho. Pensei na possibilidade de ela ter interpretado tudo como apenas um mal entendido. Ela confiava em mim, afinal. Como sempre, era eu inventando absurdos pro meu conforto.
Desliguei o chuveiro e tomei um banho frio. Foi bom, apesar de estarmos no inverno. Era o que eu queria.
Saí do quartinho dos fundos com a toalha. Foi até meu quarto e vesti qualquer coisa. Uma camisa de crente que sempre ficava em cima na gaveta como uma conspiração divina. Soldado de cristo. Hipocrisia do caralho eu usar aquilo.
Saí vagando pela rua. Estava deserta. Subi até a praça e a casa dela estava cheia. Carros estacionados por toda a parte, gente conversando na calçada. Gente sorrindo. Provavelmente não sabiam do que eu fiz.
Eu era um herói pra essas pessoas. Um salvador. Ir ali foi uma merda. Eu senti uma angustia horrível. Uma vontade de chorar, vomitar e se sair correndo. E também tinha medo.
Ela estava apoiada no muro de casa com o celular na mão. Estava rindo. Começou a escrever uma mensagem e nem viu que eu cheguei.
Deitei no banco da praça e olhei pro céu. Noite feia. Só nuvem no céu. Mesmo na parte escura você não via nenhuma estrela.
Meu celular tocou. Era o número dela, mas sem o nome. Eu nem estava lembrado de apagar da minha agenda.
Ela ouviu o toque e percebeu que eu estava escondido no escuro. Foi até lá. Ficou na parte clara. Irônico e verdadeiro, o contraste entre os ambientes.

- Como eu pude te amar? – perguntou ela
- Como pôde? – respondi.
- Porque você fez isso? – perguntou ela com voz de choro
- Não sei.
- Filho da puta, você tava planejando isso desde o começo.
- Não tava. Aconteceu.
- Quer dizer que um dia você simplesmente acordou querendo destruir a minha vida inteira? Aconteceu?
- É.
- Você é tão bom com as palavras. Pensei que pensaria em alguma coisa melhor pra dizer. Eu te deixei entrar na minha casa, seu merda. Você leu a porra do diário. Ninguém nunca leu aquilo além de você. Vai tomar no seu cú. Some da minha vida e não aparece mais. Nunca mais quero te ver. Você é podre e vazio. Vai morrer sozinho e infeliz.

Não falei nada. Deitei no banco novamente e olhei pro céu feio. Eu queria morrer.
Ela saiu. Foi em casa, mas depois voltou.

- Você não tem mais nada pra dizer? – disse ela
- Não. – respondi ao andar até ela.

Ela me deu um tapa na cara e cuspiu em mim. Ficou um tempo parada esperando eu dizer alguma coisa. Limpei o rosto e continuei em silêncio. Olhei pro chão e vi as sandálias dela. Ficavam bonitas nos pés pequenos que ela tinha. Eu que comprei, eram da moda e tudo. Me meti em cheque especial pra comprar. Disse pra ela que tinha sobrando, mas era mentira.
Pelo menos algo meu ela guardou.
Deu as costas pra mim. Entrou em casa e nunca mais a vi. Disseram que ela se mudou pra fazer faculdade fora.

Nunca seremos




Agora digo isso com certeza
Nunca seremos um
É lamentável e libertador
Dolorido e estimulante

Porque eu dou
E você recebe
Nada mais
Nem peço nada

Se pedir, você foge

Você me convida para a sua casa
E me manda trazer o jantar
Se não temperei bem
Não me chama mais

Porque meu valor vem disso
Do sustento pro teu espírito
Mas isso acabou
Não me ajoelho mais

Você deixou claro
Que nunca seremos um
Que queria que eu fosse um membro
Como um braço

Bom quando é útil

Você não barganhou com a carne
Só deixou minha ilusão fluir
Eu me apaixonei pela sua máscara
Mas sua alma me desiludiu

Se você estivesse aqui
Diria o obvio
Não tem nada a dizer
Não se interessa

Decreto o fim
Não me procure mais
Não se confesse comigo
Não espere que eu te entenda

O velocista

A musculatura da perna é forte,
Ele avança determinado.
Cruzarei a linha de chegada,
Diz ele em seu coração.

Mas se é tão forte,
Porque corre tão devagar?
Como pode chegar a tempo,
Se não possui forças para tal?

O seu treinamento é obstinado.
Ele possui força própria invejável.
Mas correr até o fim pede mais,
Pede o auxílio da Deusa...

No entanto, o tolo velocista,
Por algum louco motivo,
Teme a presença da deusa.
Não sabe porque, mas teme.

Tenta enfrentar seu medo
Enquanto corre devagar
Pobre coitado
Só tem uma perna...

Era/será assim

Repleto de cores,
De aromas.
Era magnífico,
E ilusório.

Mas que importa a realidade?
Como meu espírito se beneficia,
Por eu viver sem fantasia?
Sem ilusão...?

Eu sorria e chorava.
Corria e parava.
Meus olhos pairavam sem se fixar,
Tudo fascinante.

Agora o mundo é monocromático.
Sim, nada me atrai lá fora.
Isso por enquanto,
Porque assim será novamente.

O Ciclo deve recomeçar...
Um tornado que suga,
Leva ao céu.
Transforma homens em deuses...

Olhos escondidos


Eu abri as portas e saí.
Na frente de casa, abri os braços...
Sentia olhos escondidos fitando-me,
Não me abraçaram...

Meus braços se cansaram,
Queria insistir nesses olhos.
Sabia que ainda me fitavam,
Não se revelaram.

Meus olhos não encontraram nada,
Além de uma rua vazia.
Brilhando com lágrimas,
Que não desciam pelo rosto.

Lagrimas de saudade,
Dos olhos escondidos.
Que nunca foram vistos,
À olho nu.

Meus olhos se fecharam,
Virei-me e entrei em casa.
Sem luz, na noite chuvosa.
Nesse frio vazio, mórbido.

Dormi e sonhei.
Coloquei meus sonhos no papel,
Pra poder reviver a cena.
Tão bela, irreal...

Minha visão ficou apurada.
Enquanto eu buscava,
Os olhos escondidos na rua.
Agradeci aos olhos por isso.

Minha alma estava mais forte.

Foi para isso que vieram,
Pensei em meu coração.
Para apurar minha visão,
Refinar minha alma.

Agradeci do fundo do coração,
Fechei a porta, virei para dentro.
Para os mistérios escondidos,
Dentro de casa.

Meus olhos estavam melhores.
Descobri coisas magníficas,
E outras assustadoras.
A casa cresceu...

Bateu-me à porta,
Um par de olhos novos.
Encantador, concentrado,
Olhou para o fundo da casa.

Entrou e preencheu o espaço.
Que estava reservado,
Aos olhos escondidos da rua.
Que viam minha alma...

Que fiquem esses olhos,
Pensei em meu coração.
Olham a mim e a minha casa,
Não se escondem,
E não me escondo deles.

Mas os olhos
Que outrora se escondiam.
Apareceram na janela,
Tão lindos...

Anunciaram a partida,
O fim da espionagem.
Viajarão para o mar que é rio,
Longe, inacessível.

Eu digo a eles adeus.
Que se tornem olhar feliz.
Que Gaia os conduza,
Em meio á natureza.

Mas suplico uma coisa.
Não voltem para mim.
Porque minhas raízes serão profundas.
E não poderei sair à procura,

De olhos escondidos...

Queremos separação

Tentamos doar nossas vidas. Tentamos transmitir as lições de amor, união, mutabilidade...

Mas não fomos ouvidos, e por isso desejamos separação.
Queremos distancia daqueles que se preocupam apenas consigo. Ir embora para um lugar mais harmonioso. Somos separatistas do mundo, pois ele foi moldado para ser o lar dos ímpios e dos ignorantes.
Não se trata de separa-nos de uma nação ou de um continente. Queremos distancia do materialismo, da compulsão pela propriedade e todas as outras tendências infantis dessa raça.
Nossas almas não pertencem a esse mundo, e por isso queremos a nossa separação.

Suas cores

Às vezes eu via cores
Mesmo sendo “colorblind”
Eram as suas cores
Eu via com o coração

Você brilhava
Animava minha alma
Fazia-me querer viver
Eu te olhava e pensava:

A vida vale a pena

Mas aí você desaparecia
Ia para trás da sua parede
De sensatez, ética.
Mantinha-se pura, imaculada.

Sei que existo sem você
Minha vida continuou
Mas sem a sua luz
Eu acabei me amigando

Com essa escuridão

Porque aqui no escuro
Não há cores e nem brilho
Então não lembro de você
E nem da alegria daquele vinho

E que alegria!

Mas algo me atormenta
Queima minha alma
Então te trago pra dentro
E sinto aquela tristeza

Que não chora e nem passa

Queria ver suas cores
Só mais uma vez
Ver um sorriso, dizer oi.
Brincar com aquele sapinho

Queria ir até a pedra
De novo fazer poesia
Ficar sem idéias
Apenas admirando

Suas cores...

De cabeça pra cima


A lua não me ilumina
As estrelas desapareceram
Fui abandonado pela noite
Traído pela minha natureza

Meus sonhos eram neurose
Meus hábitos, tormento.
Fui traído pelo meu remédio
Prometia o fim da dor

Fui traído pela solidão
Não cumpriu a promessa
De tranqüilidade, paz,
Sabedoria

Meus inimigos me atraem
O sol, as cores...
Minha vida está se invertendo
Ficando de cabeça pra cima

I do it

Every single night
I do it
It feels good
But leaves a hole inside

Should i keep runnig away?

Everything is nothing
But madness, childsplay
Nothing makes sense
Maybe that’s how it’s supposed to be

My heart pumps slowly
Painfully, lonely
Maybe it’s a fase
I hope it is…

Because i can’t do it
Not anymore
I’m full of this shit
I can’t run off anymore

That’s a nice story
But it’s not mine
The impulses are here
And i should face them

I’ll hurt myself
And also other people
Tears will be droped
Instead of staying inside…

My life is a mistake
Can it be fixed?
Thank god there is poetry
I fell much better now…

I’ve seen

I’ve seen the pretty colors
Of those dark eyes
They shine, like heaven would
They where looking at me

Oh yes, i have seen.

I've seen a beautiful smile
Shiny, brings light to the soul
Gets you thinking
That live is really worth it

Dam right, i've seen it!

I've seen a beautiful soul
Full of love, open minded
Honest, innocent, clever.
Touched me deeply.

Hell yeah, i've seen that!

I saw her black hair
When she went away
My tears made her fade
I couldn't see her anymore

No, i see nothing now

Now my eyes are filled
With endless tears
My heart pumps slowly
My mind works slowly

I'm all alone, and it hurts
Hurts to see all the hope going away
And being unable to do anything
Makes you desperate.

I've seen happiness
But i don't see that anymore.
Maybe i'll see it tomorrow
But not today...

Today all i see is darkness

Sobre a solidão literária

Escrever é sempre um refúgio. Uma forma de aliviar as dores que existem na vida simplesmente fugindo dela pr um mundo imaginário e belo. Só que esse mundo não tem cores.

Há personagens que são um reflexo direto do autor, sendo estes os mais desenvolvidos, e há outros que são estereótipos. São a visão do autor sobre tipos de pessoas que existem. Mas a verdade é que quando se escreve um diálogo o que existe é um monólogo. Você vive numa realidade em que está conversando com alguém, mas na verdade está sozinho diante de um computador ou um caderno. É uma atividade que alivia e, por vezes, é uma ferramenta fundamental para o auto-conhecimento, mas que isola, que traz solidão. Quando você escreve demais você vive menos, quando escreve diálogos conversa menos. Se torna um tolo solitário, como no verso que escrevi uma vez.

Eu sei o que você sabe
Sei também o que você pensa
Sei o que sente
E o que vive

Porque você sou eu
E me conhecer é o bastante

Isso foi uma piada que fiz sobre mim mesmo e sobre meu hábito estúpido de conversar comigo mesmo. Tenho amigos. Me agradam, conversam comigo e, por vezes, me dão ótimos conselhos. Só que eles são bytes. Eles existem num banco de dados. Se eu perder o meu computador e não puder acessar a internet, então, desses, só sobrarão duas amigas, que acabarão se perdendo pelo fato de eu não ter recurso para fazer ligações telefônicas. As barreiras físicas são obvias, e acho que no meu isolamento esse tipo de relação é ideal. Se eu quiser, fecho a janela, saio, vou assistir um filme, ler um livro. Se eu quiser, tiro a foto da janela e a pessoa se torna aquilo que eu imaginar. Está tudo dentro do controle. Quando vai começar, quando vai acabar, como será. São palavras escritas, que em essência são frias, mas quando passam nos meus olhos ganham o significado que eu quiser.

Mas quando estou andando na rua eu não reconheço ninguém. As vezes eu penso que tudo o que eu preciso é pegar uma bola e sair chutando ela por aí. Um empreendimento risível, mas que quando realizado junto com outra pessoa gera alegria. Talvez a saída seja realmente o contato com o mundo externo, mas não encontro uma maneira de fazer isso. Esse mundo externo é sempre opressor, parece que sempre tentará me matar.

Uma poesia aqui, um conto ali. Talvez um romance. Quanto mais palavras, quanto mais significados, maior é aquilo que tem dentro de mim. Vou enchendo a mim mesmo de significados e me amo. Só quem entra no meu mundo pode ser amado por mim, e por fora eu sou vazio. O contrário da maioria, que é interessante por fora e vazia por dentro. Eu sou interessante por dentro e vazio por fora.

Eu devia é entrar no mundo de alguém. Sair do meu e desbravar o alheio. Mas tem um dragão gigante na minha frente, e só quando eu me tornar um leão e lhe morder a cabeça que poderei cruzar esse muro de solidão literária.


Afinal, quem lerá? Quem comentará? Provavelmente eu comentarei meu próprio texto para mim, assumindo um estereótipo de alguma pessoa. Só que às outras essências não sei se dou lugar. As pessoas vivem e aprendem umas com as outras. Compartilham o que aprendem. Eu não compartilho o que penso com quase ninguém. Nem tudo o que escrevo eu publico.

O que eu faço melhor é ser amigo, e ainda assim eu me nego a ser amigo. Posso ouvir, dar atenção, carinho. Posso ser um amigo sem nada querer em troca. Mas ao invés de fazer isso eu estou sentado escrevendo. As palavras me prenderam, me deram a perspectiva de não ter que me decepcionar com a baixeza dos outros. Através delas eu descubro a mim mesmo e vou correndo do meu destino. Quando eu conseguir ser um amigo, sim. Aí sim eu estarei cumprindo o meu dever, e minhas palavras expressarão alegria. Mas por hora...

Acho que vou me esconder nas palavras um pouco mais...

Ela brilha

Não sei se é real
Não sei onde está
Só sei que quando fecho meus olhos
Ela está lá.

E brilha.

Tem olhos alegres, cheio de amor
Não sei pra onde olha
Está caminhando
Não sei o destino

Mas ela brilha

Tento abraça-la, mas não posso tocar.
Está noutra dimensão
Na dimensão que os homens conhecem
A realidade

Brilhando

Ela brilha dentro e fora
Mas quando olha pra mim
Seus olhos me atravessam
Porque eu sou invisível

E ela brilha...

The death of hope

Lonestar where are you out tonight?
This feeling I'm trying to fight
It's dark and I think that I would give anything
For yout o shine down on me


How far you are I just don't know
The distance I'm willing to go
I pick up a stone that I cast to the sky
Hoping for some kind of sign

(Norah Jones – Lonestar)

So the seed of love have fallen from the clouds. Those who would blind it’s eyes from the dust of the world. Up over there you can see the sun. In the night, there is the moon and the stars. Even though they’re distant, they’re still shining like that doesn’t matter. But what if it does?

Maybe the seed will grow again. Maybe the rock could choose to leave, or it could just find another land spot to grow in. Or not.

What if once a three falls, the seed is lost forever? Well then the sun would burn people’s skin.

Maybe I’ll be smiling soon, or maybe not. I just wished life to be simple, but it’s only simple when you choose to lie to yourself. “Dear Karen” for us, my love… Dear karen…

A saga da semente

Era época de calmaria. Não se ouvia falar em vento há tempos. Uma semente caiu no chão e germinou, mas havia pouca terra. Logo abaixo dessa terra havia uma grande rocha. Era indestrutível, intransponível.

A semente não tem olhos, e por isso, assim que se encontrou na terra, começou a crescer. Suas raízes se aprofundaram e começaram a surgir suas primeiras folhas. Logo surgiram galhos e também ramos.

A raiz tocou a rocha, e com isso parou de se aprofundar.

Por algum motivo ela pensou que a rocha se moveria, mas pedras não têm vontade. Elas não fazem escolhas e nós não decidimos nada por elas também.

A semente, que já era planta, continuou a ascender. Ela queria tocar as nuvens. As outras plantas se espantaram, pois o crescimento foi muito rápido. Ela crescia desenfreadamente, e nada entrava em seu caminho.

A terra era pouca, mas muito fértil. Se não fosse pela pedra, seria o melhor de todos os terrenos que existem.

A planta se tornou arvore, e ganhou um grosso tronco. Tinha filhas e frutos. Todos a admiravam.

Ela continuou crescendo. Não olhava para os lados, só para cima. Queria as nuvens. Ainda esperava a pedra decidir sair de baixo.

Depois se esqueceu da pedra e foi tão alto que seu topo ultrapassou a altura do norro, na base do qual ela havia germinado.

Veio uma forte ventania. Os ventos do destino finalmente chegaram. As outras árvores se mantiveram erguidas. Tinha raízes profundas.

Mas não a semente, que virou planta e depois arvore. Ela foi empurrada pelo vento e caiu. Caiu por terra.

Outras sementes a viam como referência. ‘Devemos ser grandes’, diziam elas.

Mas agora a semente caiu do céu, e o sonho acabou.