Sobre a solidão literária

Escrever é sempre um refúgio. Uma forma de aliviar as dores que existem na vida simplesmente fugindo dela pr um mundo imaginário e belo. Só que esse mundo não tem cores.

Há personagens que são um reflexo direto do autor, sendo estes os mais desenvolvidos, e há outros que são estereótipos. São a visão do autor sobre tipos de pessoas que existem. Mas a verdade é que quando se escreve um diálogo o que existe é um monólogo. Você vive numa realidade em que está conversando com alguém, mas na verdade está sozinho diante de um computador ou um caderno. É uma atividade que alivia e, por vezes, é uma ferramenta fundamental para o auto-conhecimento, mas que isola, que traz solidão. Quando você escreve demais você vive menos, quando escreve diálogos conversa menos. Se torna um tolo solitário, como no verso que escrevi uma vez.

Eu sei o que você sabe
Sei também o que você pensa
Sei o que sente
E o que vive

Porque você sou eu
E me conhecer é o bastante

Isso foi uma piada que fiz sobre mim mesmo e sobre meu hábito estúpido de conversar comigo mesmo. Tenho amigos. Me agradam, conversam comigo e, por vezes, me dão ótimos conselhos. Só que eles são bytes. Eles existem num banco de dados. Se eu perder o meu computador e não puder acessar a internet, então, desses, só sobrarão duas amigas, que acabarão se perdendo pelo fato de eu não ter recurso para fazer ligações telefônicas. As barreiras físicas são obvias, e acho que no meu isolamento esse tipo de relação é ideal. Se eu quiser, fecho a janela, saio, vou assistir um filme, ler um livro. Se eu quiser, tiro a foto da janela e a pessoa se torna aquilo que eu imaginar. Está tudo dentro do controle. Quando vai começar, quando vai acabar, como será. São palavras escritas, que em essência são frias, mas quando passam nos meus olhos ganham o significado que eu quiser.

Mas quando estou andando na rua eu não reconheço ninguém. As vezes eu penso que tudo o que eu preciso é pegar uma bola e sair chutando ela por aí. Um empreendimento risível, mas que quando realizado junto com outra pessoa gera alegria. Talvez a saída seja realmente o contato com o mundo externo, mas não encontro uma maneira de fazer isso. Esse mundo externo é sempre opressor, parece que sempre tentará me matar.

Uma poesia aqui, um conto ali. Talvez um romance. Quanto mais palavras, quanto mais significados, maior é aquilo que tem dentro de mim. Vou enchendo a mim mesmo de significados e me amo. Só quem entra no meu mundo pode ser amado por mim, e por fora eu sou vazio. O contrário da maioria, que é interessante por fora e vazia por dentro. Eu sou interessante por dentro e vazio por fora.

Eu devia é entrar no mundo de alguém. Sair do meu e desbravar o alheio. Mas tem um dragão gigante na minha frente, e só quando eu me tornar um leão e lhe morder a cabeça que poderei cruzar esse muro de solidão literária.


Afinal, quem lerá? Quem comentará? Provavelmente eu comentarei meu próprio texto para mim, assumindo um estereótipo de alguma pessoa. Só que às outras essências não sei se dou lugar. As pessoas vivem e aprendem umas com as outras. Compartilham o que aprendem. Eu não compartilho o que penso com quase ninguém. Nem tudo o que escrevo eu publico.

O que eu faço melhor é ser amigo, e ainda assim eu me nego a ser amigo. Posso ouvir, dar atenção, carinho. Posso ser um amigo sem nada querer em troca. Mas ao invés de fazer isso eu estou sentado escrevendo. As palavras me prenderam, me deram a perspectiva de não ter que me decepcionar com a baixeza dos outros. Através delas eu descubro a mim mesmo e vou correndo do meu destino. Quando eu conseguir ser um amigo, sim. Aí sim eu estarei cumprindo o meu dever, e minhas palavras expressarão alegria. Mas por hora...

Acho que vou me esconder nas palavras um pouco mais...

1 comentários:

ahh.. Quem sou eu?!! disse...

Ola Silas!!!!
Tenho acompanhado seus posts nesses ultimos tempos.
Como vc, tambem sou introspectiva, estudante de Psicologia e com várias idéias em mente.
Por ter essa caracteristica, intuitiva e prospecta, a cada dia me vejo enclausurada no meu cásulo. Livros, musicas, pensamentos, poesias são as minhas melhores companhias, tenho amigos, mas realmente são poucos os que consigo me abrir, faz parte.
Um ótimo find semana e nao pense que estas sozinho.... sei muito bem o que sente. Quem sabe um dia as pessoas entendam que a essencia noa esta no exterior e sim dentro de nós.

bjus