Mostrando postagens com marcador Miséria. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Miséria. Mostrar todas as postagens

O encontro com Perséfone

- Atenção, homens, pois hoje veremos mais um rio de sangue. – disse o gigante sem nome
- Ele está certo! – gritou Emanuel – estou sedento!

Os homens gritaram, alguns ainda de posse das mulheres da última batalha. Há dois dias haviam dizimado um feudo. Não queimaram nenhuma casa, embora apenas meia dúzia de pessoas tenha conseguido se esconder e sobreviver. Colocaram uma estaca na terra com o crânio do senhor daquelas terras e a declararam maldita.

- Iremos eu, meu irmão e mais cinqüenta homens. Quero comigo somente os cães mais sedentos, as bestas mais insaciáveis. O resto pode continuar bebendo e usufruindo as mulheres. Se mais de cinqüenta quiserem, se matem pelo direito, pois nenhum a mais me seguirá. Vamos lutar contra 300 soldados e toda a criatura que possuir vida naquele castelo.

Os homens gritaram e se acumularam em torno de Emanuel. Alguns se mataram, e no final se formou a tropa, alinhada. Todos eles sorriam, seus olharem brilhando diante do sol nascente. Todos estavam montados em sues cavalos.

- Não temos o dia inteiro! Vamos! – gritou o gigante sem nome

Os dois irmãos correram a pé, à frente da tropa. Sua velocidade de corrida era maior do que a de um cavalo, então a reduziram para os homens não os perderam de vista. Emanuel sentiu um frio na espinha. Algo como um presságio. Ele seguia um sonho, que compartilhou com seu irmão. Ambos viram, na noite anterior, que deveriam perseguir a estrela que ficava acima da torre daquele castelo. Difícil ver outros casos em que dois irmãos compartilham tantos sonhos assim. Correram por quatro horas até avistarem o castelo.

- Deixem seus cavalos aqui, homens. Agora marchamos a pé – disse o gigante sem nome
- Pego a direita, irmão? - disse Emanuel
- Sim, como preferir. Mas subimos à torre juntos.

Emanuel rosnou com empolgação e os homens gritaram logo em seguida.

- Vamos, seus cães. Em nome da morte! – Berrou Emanuel

E todos correram em direção ao castelo, demorando mais vinte minutos para chegarem perto da zona de alcançe dos arcos da muralha. A corneta de alerta soou e o portão se fechou. Arqueiros lotaram a parte superior do muro. Um cavaleiro saiu do castelo para negociar a rendição.

- Não queremos problemas com o imperador. Nosso rei não desafia sua autoridade. Podem levar nosso ouro e nossos animais. – disse o Arauto
- Não estamos a serviço do imperador, tampouco queremos sua propriedade. Nós viemos atrás de sangue. Somos 50 e desafiamos vocês a luta.
O homem se espantou. Pálido, deu as costas à Emanuel e voltou para o interior do castelo, onde o Rei o esperava. Sem perder a compostura, o Rei convocou seus soldados e fez um inflamado discurso, do qual só se pode ouvir um grito: “até a morte!”
Pelo menos 500 soldados saíram pelos portões, dos quais 200 possuíam montaria. Emanuel sorriu, tendo em vista que tal quantidade de soldados era proibida pelo imperador. Eram conspiradores, o que justificava a carnificina. Não teriam problemas com Frederico.

- Não deixem nenhum homem, velho ou criança vivos! As mulheres, quem quiser as tome para si!

Ele gritou e os homens avançaram, debaixo das flechas dos arqueiros. Dos cinqüenta, dois foram atingidos, enquanto que os outros conseguiram se esquivar ou se defender com seus escudos. As tropas do castelo avançaram e os dois irmãos saltaram, cada um do seu lado. Emanuel com sua Espada da Morte, e o Gigante apenas com seu gigantesco escudo.
O Gigante lançou um cavaleiro a dois metros do cavalo quando caiu, dando em seguida um giro que matou alguns e afastou outros, que se esquivaram. Quando Emanuel caiu, cortando três homens ao meio, ele berrou, ao que seu irmão o acompanhou.
Os inimigos mal atacavam, paralisados de medo dos irmãos, enquanto a tropa de cavaleiros negros se chocou com a formação de infantaria na linha de frente.
Não muito diferente de outras batalhas, essa durou pouco tempo. O gigante matava uns com o impacto do escudo e outros simplesmente os pegando e mordendo, como preferia. O exército logo de dissipou, e foi perseguido até certo ponto. A maioria dos soldados foi dizimada.
Os arqueiros voltaram a atirar, derrubando dez dos cavaleiros negros antes que eles fizessem a formação de proteção com o escudo.

- Esperem o nosso comando! – berrou Emanuel enquanto corria na direção da muralha.

Os dois irmãos saltaram em direção aos muros e caíram próximos ao topo, escalando o resto. Os poucos arqueiros que não estava amedrontados e conseguiram atirar acertaram algumas flechas neles em pleno ar, o que pareceu não ser de grande incômodo. No topo, rapidamente avançaram partindo em pedaços os arqueiros. Alguns se jogavam do muro em direção á morte certa, por puro medo dos gigantes. Ouvia-se gritos dentro do castelo.

- Os Demônios! Os Demônios!

O último arqueiro pegou uma adaga e atacou Emanuel. Em seu desespero, tropeçou e caiu. Ele fechou os olhos, esperando ser esmagado, e Emanuel o ergueu com o braço esquerdo. Ele berrou e os soldados avançaram na direção do portão. O homem desmaiou de terror e foi lançado em direção a torre, sua cabeça como a ponta de uma lança. O Gigante abriu os portões e os soldados entraram. Pessoa corriam de um lado para o outro, desorientadas. Aparentemente essa era a única saída disponível.
Pessoas pedindo clemência, outras desmaiadas ou fingindo-se de mortas. Incrível como diferentes táticas surgem para a sobrevivência. Mas um Cão bem treinado não se deixa sensibilizar ou enganar.
Logo o último grito se silenciou, sobrando apenas murmúrios de dentro do castelo trancado.

- Descubram um meio de arrombar a porta e nos encontrem lá dentro. Estuprem a rainha! – Gritou Emanuel

Os dois irmãos saltaram e escalaram as paredes, cada um entrando numa janela. La dentro, alguns soldados o enfrentaram. Era difícil dizer se eram corajosos ou simplesmente suicidas. Pareciam, no entanto, guardar um enorme tesouro, que logo Emanuel pôde contemplar.
Numa espécie de salão principal, ele encontrou um grupos de clérigos, nobres, serviçais e soldados. Pela aparência das vestimentas, parecia que um casamento estava acontecendo. Ele e o irmão saltaram do segundo andar para um lado daquele salão, enquanto que os outros se amontoaram do outro. Todos apavorados, menos alguns soldados, que foram rapidamente massacrados.
Eles avançaram sorrindo e com curiosidade nos olhos. Buscando humilhar o Rei, convocaram a Noiva, sua filha.

- Onde está a Noiva!? - Gritou o Gigante

Ninguém respondeu, e ele logo avançou a começou a matar as pessoas que corriam e se empurravam. Emanuel, no entanto, a avistou. E não pôde acreditar. Era ela, a sua guia dos sonhos. Ela mesma, vestida de branco.
Os homens conseguiram arrombar a porta e se uniram ao Gigante na matança, enquanto Emanuel se apressou em capturar a Noiva. Pegou-a em seus braços e saltou de volta para o segundo andar. A deixou lá e desceu para avisar o irmão. Acabou se distraindo e matou algumas pessoas. Os homens perceberam a noiva e subiram ao terceiro andar para estuprá-la. Ele, prontamente, saltou e volta e matou o primeiro.

- Quem tocar nela morrerá. É minha e do meu irmão. – Disse Emanuel

Os homens recuaram e voltaram ao primeiro andar, onde as mulheres foram agrupadas. Dos cinqüenta iniciais, trinta estavam de pé. Avançaram sobre as mulheres, como de costume, matando algumas e estuprando outras.

- Irmão! Meu irmão! – gritou Emanuel

O gigante subiu rapidamente, pois nunca foi chamado com tanta urgência por Emanuel. Chegando lá, logo se viu hipnotizado pela visão da princesa.

- Perséfone! – exclamou ele
- Que nome é esse? - perguntou Emanuel
- É o nome de nossa mãe! Não se lembra
- Não lembro de nada sobre nossa mãe. Aliás, com freqüência imagino que ele nunca existiu.
- Pois existiu, e cá está renascida!

Os dois ficaram pasmos, olhando para o olhar vazio da moça. Emanuel, invadido por uma estranha emoção, nem se movia. Ele não sabia o que fazer com tal emoção. Parecia tão poderosa quando seu ódio, podendo fazê-lo desvanecer ou aumentá-lo. Aquela estranha força, que ele chamou de Amor em nome de Matias, parecia um espírito livre agindo em seu corpo e sua alma. Aqueles cachos loiros voando com a brisa vinda da janela, aquelas marcas de lágrima secas no rosto. Cada mísero detalhe ele armazenava. Era um Anjo¿ Só poderia ser de origem divina, para paralisá-lo de maneira tão forte. O despedaçava, embora a sensação fosse melhor do que qualquer chacina.

- Hades, o Deus do Submundo, deve ter-nos presenteado por termos mandado tantas almas ao seu encontro. – Disse o gigante. – Os Deuses nos favorecem.
- Não há deus algum nos céus. Há apenas uma Deusa, que habita entre nós. Ela é a deusa da morte e da vida, da destruição e da construção. Ela odeia e ama, acolha e abandona.
- Então talvez tenha sido ela a nos presentear de tal forma. É apropriado que aceitemos tal presente, o honrando com maiores e mais grandiosas chuvas de carne e sangue.

Emanuel concordou e pegou a mulher. Ela não reagia. Parecia estar morta, embora seus pulmões ainda se enchessem de ar. Seu espírito estava noutro lugar, alheio àquela situação. Seus olhos pareciam tão vazios quanto os de condenados esperando a morte. Aquele olhar que toma o ser humano quando a palavra esperança não tem mais nenhum significado.
Eles saíram do castelo, se deparando com a lua. Os homens carregavam mulheres. Eles perderam a noção de tempo, olhando para Perséfone.
A pele dela era tão macia, tão quente... Emanuel esfregava o rosto no braço dela, enquanto observava seu vestido cheio de sangue e lama. O sangue de sua família e a lama de sua terra, todos agora uma coisa do passado.
Surgiu nele uma coisa diferente. Amor, Luxúria. Um impulso por vida.
E assim foi o encontro de Emanuel com Perséfone, e o nascimento do Amor no coração de um cão do submundo...

Um dia triste

Era disso mesmo que eu precisava. Um dia sozinho. Totalmente distante do contato humano. Sem conversas para me distrair, apenas para ficar imerso em mim mesmo. Eu sei que é triste, mas todos nós temos o direito de sofrer de vez em quanto, não?
Eu digo que sim. Que todos merecem um dia pra amaldiçoar o destino, amaldiçoar aquelas circunstâncias fora do nosso controle que nos separam do que mais desejamos. Sejam essas circunstâncias parte do seu corpo, da sua situação social, da sua localização geográfica ou qualquer coisa.
É um absurdo alguém me dizer que nesses dias eu deveria apenas sorrir! Sorrir porque, pra que?
Ora, claro que há muitas coisas boas na minha vida. Tenho amigos, e dos bons. E também tenho, parece, um espírito que vive me seguindo, como um anjo da guarda, e que me trás muito conforto e aprendizado. Tenho meios para sobreviver bem, me alimentar bem, Abrigo, respeito, um corpo em perfeitas condições de saúde.
Mas isso é a mesma coisa que dar água como consolo a um homem que tem fome!
Claro que sou grato por essas coisas, mas isso não é algo que vá me manter alegre em todos os sentidos. Porque parece que eu não sou daqui, que não sou acostumado com os limites desse mundo.
Aquela estrada me dá Náuseas. Queria poder simplesmente voar, cruzar 400 quilômetros em dez minutos. Queria poder sobreviver em qualquer lugar, sozinho ou acompanhado, desse planeta.
Mas estou preso por laços que não posso quebrar e o que mais desejo, por causa disso, está simplesmente fora do meu alcance. E às vezes eu me pego pensando em me misturar com os hábitos locais, em ter dinheiro e não permitir que algo assim aconteça de novo. Pensando em trair minhas origens e me dedicar aos objetivos mundanos, medíocres, ridículos das pessoas que pensam que isso aqui é normal.
E por mais que eu lute, e gaste minha energia em algo que provavelmente será inútil para o meu espírito, o momento já passou. Já se passaram dois momentos, e não há como mudar. Não há como voltar atrás.
Sim, eu voz declaro. Hoje é um dia triste, um dia desagradável. Claro que vou me recuperar, claro que vou ter outras chances, claro que tudo nunca acaba de verdade. Mas essa é a realidade de hoje. Não estou mais revoltado com o destino nem nada. Apenas queria um pouco mais de força para suportar as limitações dessa existência, especialmente para aquelas a respeito das quais nada posso fazer...
Money will always defeat love...

Uma noite triste

 
 
Ah, quantas idéias estavam na minha mente! Eu estava eufórico, tinha que contar a alguém. Só poderia expor tais descobertas a um amigo e a ela. Ele, no entanto, estava excessivamente ocupado pelo fim de semana com uma viagem. Terminei meu trabalho mais cedo e, pela primeira vez, segui o hábito dos outros de sair uma hora mais cedo nesse dia. Se perguntarem, fui ao médico.
Peguei o carro e a rua não estava engarrafada. Talvez porque eu saí antes do horário do rush. Eu normalmente saio as 6 pra chegar em casa as 6. Nesse dia, saí às 4 e cheguei ás 4:30.
Passei na padaria, comprei uns doces que ela gosta, mas nunca come pra não engordar. Naquele momento minha mente já estava mais calma, mas eu sempre fui de me acalmar fácil. Enquanto falo de algo assim, minha euforia retorna. É normal.
Entrei em casa, como sempre, em silêncio. Fui ajudado por um vizinho nos fundos de casa com um funk no último volume e o vizinho do lado, como que reagindo, com heavy metal. Pensei em sair daquela casa, já que ambos os sons deviam estar incomodando ela profundamente.
Cheguei na cozinha e vi ela nos fundos. Fiz silêncio pra dar um susto nela, mas aí percebi o Jean ali. Eu soube que no dia do meu casamento com ela esse sujeito tentou se matar. Preferi não interferir, dar a ele a chance de falar o que sente. Afinal, talvez fosse bom pra ele.

- Jean, eu não te disse que acabou? – disse ela

Fiquei curioso, porque, segundo eu soube, nada nunca havia começado.

- Eu li livros de auto-ajuda e nem eles me ajudaram. Na verdade um me deprimiu ainda mais com aquele papo de que certas pessoas estão destinadas a se unir. Eu fui no psicólogo e ele disse pra eu deixar sair o que eu sentia. Só to fazendo isso. Eu te amo.

Houve um período de pelo menos 30 segundos de silêncio. Não pude ouvir nada por causa da música.

- Eu estou casada. Você sabe muito bem que com esse seu vício de bebida não tinha como.
- Vício? Eu parei de beber depois que aquele crente me salvou. Nunca mais bebi nada alcoolico.
- Que bom, fico feliz por você.
- Para com essa atuação piegas que eu sei o que você sente.
- haha. Você é a única pessoa que eu conheço que diz “piegas”.

Eu vi com os meus próprios olhos um beijo. Imóvel, firme e silencioso no começo. Eles se entrosaram, logo estavam abraçados. Derrubei um copo por acidente ou talvez um ato falho para aquilo acabar. Ouviram, mas rapidamente voltaram um ao outro. Estavam como que liberando uma besta retida já a muito tempo.
Eu fiquei sem ação. Não sabia se corria, se ficava, se gritava, se calava. Acabou que assisti em silêncio até o ponto em que ele a levantou na máquina de lavar e se enfiou entre as pernas dela. Ainda hoje sou apegado demais para conseguir assistir a uma cena dessas.
Fui até o quarto e fiquei chorando por alguns minutos. Eu não sabia o que fazer. Não era leviandade, não era só sexo. A mentira era muito maior. Eu pensava que o coração dela era meu, mas nunca foi. Ela provavelmente só me considerou mais adequado por eu ser um bom amigo. Não sei.
Mas a polícia chegou lá e a música parou. Dava pra ouvir o suspiro dela sem a música. Nunca pareceu sentir tanto prazer assim comigo. Eles dizem que o orgasmo da mulher é muito relacionado à paixão que ela sente. Talvez seja isso ou eu só seja ruim de cama mesmo.
Eu arrumei minhas coisas de qualquer jeito. Nunca fui de querer muita coisa e foi ela que comprou quase tudo na casa. Só levei meu computador, as roupas e os principais livros. Eu tinha que levar minha idéia adiante, aquilo era importante. Mas agora eu me pergunto como eu consegui pensar nisso naquela situação. Eu chorava carregando as pilhas de livros. Acho que enrolei pra encher o carro com as minhas coisas na esperança de ser interrompido. Foi uma esperança idiota: só ouvi eles transando até terminar.
Sentei na mesa do computador pra escrever uma carta de despedida. Escrevi algumas bobagens sem sentido e fui amassando e colocando no bolso.
No final, acabou saindo só uma palavra e em inglês, como se no fundo eu esperasse que ela não entendesse de princípio.
Farewell: vá bem, fique em paz, Adeus.
Minha aliança ficou junto com o pedaço de papel e minha cópia da chave da casa.
Quando eu saí o carro demorou pra ligar. Tinha que trocar a bateria ou algo assim. Isso acabou interrompendo os gemidos e eu vi. Eu juro que vi ela coberta com um lençol e com o cabelo bagunçado me olhando pelo retrovisor enquanto eu saia.

- Essa sim, meu amigo, foi uma noite triste. – Disse eu no bar pro velho

Ergui o copo e enchi novamente com vodka.

E bebi até cair com o velho surdo...

A fome


Eu abri a dispensa de casa. Cheia de coisas que me dão asco. Eu não queria comer nada daquilo, embora estivesse cheia. Um biscoito lacrado estava atraindo formigas. Mas aquilo não tinha como me tirar minha fome. Saí de casa andando sem rumo. Eu tinha rumo definido, mas não na mente. Em outro lugar. No inferno, talvez.
Fui selecionando esquinas aparentemente de maneira aleatória. Eu só olhava pro chão, com minha respiração acelerada e minhas mandíbulas rígidas. Minha boca cheia de água: eu estava com fome.
Quando dei conta de mim, estava na frente daquele santuário da perdição. B&K empreendimentos. Uma empresa de contabilidade sem nem uma máquina de vender refrigerante. Entrei assim mesmo.
Nove e meia da noite, o guarda veio me avisar que eu não poderia entrar, ao que tirei uma faca de algum lugar e cortei sua garganta. Continuei andando meio inconsciente, cheguei a pensar de onde tirei a faca. Devo ter pegado em casa e nem vi. O sangue do guarda escorria pelo chão. Eu assisti enquanto esperava o elevador. Bati o pé no chão num ritmo meio acelerado, quase compulsivo.
Subi até o nono andar, eu sabia exatamente onde estava indo. Não havia como esquecer. Foi ali que ele despertou, ou que eu despertei. Não sei, mas ali que tudo despertou. Eu lambi a faca. Detesto gosto de sangue. Tem vida demais...
Aquele lugar era cheio de divisões falsas. Originalmente era um grande salão, mas depois foi dividido e a maioria ficou comprimida num canto pro chefe pode jogar golfe. Só pra ele jogar golfe! Isso enquanto eu desfazia as merdas que ele faz.
Mas não estou enganando você e nem a mim mesmo. Não é porque ele me difamou que estou aqui. Não é porque perdi meu cargo por ele. Eu não ganhava nada por isso, só a empresa. A razão de eu estar aqui é por causa da minha fome que nunca está saciada. Uma fome que me trás sofrimento, desgosto, delírio, agitação, morte. As portas do porão da minha alma foram abertas.
Passei a faca no rosto. O outro lado ainda tinha sangue. Lá estava ele. Tinha uma mulher de lingerie. Gostosa, ela. A secretária dele. Estava chupando o pau dele, enquanto ele segurava um bolo de dinheiro olhando pra cima. Eu sempre fui sorrateiro, nem me viram chegando.
Meu corpo começou a se agitar. Se preparando pro combate, como um primitivo pedindo o auxílio dos deuses. Minha cabeça se contorcendo, tudo girou por uns instantes. Fiquei nervoso, calmo, ansioso, receoso.
Na hora nem vi nada. Quando me dei conta a mulher já estava com a faca atravessada na garganda se debatendo no chão e eu estava derrubando o maldito na mesa de vidro. O som foi delicioso. Quebrou com a cabeça careca do filho da puta. Ele segurou no meu terno com os olhos fechado e eu mordi o pulso dele com toda a força. Ele gritou e me soltou.
Pegou um pedaço pontudo de vidro e apontou pra mim, com um olhar de desespero. Covarde.
Peguei a faca do pescoço da mulher e enfiei o dedo na boca dela. Achei que isso iria perturbar o sujeito, mas ele não mudou a expressão. Ele não dava a mínima pra vadia.
Levantei com a faca, meus joelhos meio dobrados. Percebi que estava com uma bota grossa, como coturno ou algo assim. Ele, por outro lado, estava descalço, pisando no vidro com dificuldade.

- Quem é você? Olha, seja quem for que te mandou, eu pago mais. – gritou ele

Nesse momento eu percebi que uma toca cobria meu rosto e só o olho ficava amostra. Quando foi que coloquei isso na cabeça eu não sei.
Lembrei de alterar minha voz, que, por algum motivo, já estava naturalmente mais grave do que o normal.

- Você vai pagar com sangue.
- Caralho, te dou um milhão de reais!

Eu girei e dei um chute no ombro dele, ao que ele caiu no chão e derrubou seu caco de vidro. Se arrastou até a janela e eu subi em cima  dele. Deixei a faca na garganta dele e fiquei olhando a cidade. Carros andando, algumas janelas acesas noutros prédios. Ninguém se importava com aquilo.

- Porque você está fazendo isso? – perguntou ele
- Não sei e não me importo em descobrir.
- Quem te mandou
- O diabo.

Saí de cima dele e ele se levantou. Andei calmamente pelo lugar e ele ficou parado no mesmo lugar. Olhava pro telefone, então corri e enfiei uma faca na barriga dele. A janela estava aberta e o sangue escorria pra fora. Empurrei-o pra fora e ele se segurou na minha mão. Um desespero naqueles olhos negros, naquela cara de idiota. Mergulhei pela janela com ele e chutei a cara dele antes de me segurar numa corda. Não senti minha mão doer enquanto escorregava devido à velocidade em que já estava, e foi aí que vi que usava uma luva legra de couro. Eu nem lembro de ter essa luva. Meu corpo estava todo numa roupa preta de couro que eu não reconheço. Aquela corda eu me lembro de tê-la visto de manhã. O sujeito estava limpando o vidro e ela ficou pendurada. Não sei se ele esqueceu ali ou se era pra ficar mesmo, mas estava bem na janela dele. Lembro de ter feito essa estimativa quando saí à tarde...
Desci até o segundo andar, onde a corda acabou e eu soltei. Caí em cima dele e isso espirrou sangue da boca dele. Sexta feita à noite, o lugar deserto. Ninguém viu o cadáver.
Sentei ali e acendi um cigarro. Eu não sabia que tinha, tampouco que eu fumava. Detestei, tossi, mas fumei tudo. Não sei porque.
Ele ficava tremendo, então fiquei, de alguma maneira, irado e comecei a esfaquear a barriga gorda dele. Nem sei quantas vezes enfiei a faca nele. Só parei quando perdi o fôlego. Depois eu só fiquei arrastando a faca, cortando sem furar. Quando me senti satisfeito, vomitei num bueiro. Nem meu vômito eu deixei no chão. Tirei um saco preto de lixo do meu bolso e comecei a tirar minha roupa. Havia outra por baixo, como se tudo tivesse sido meticulosamente planejado. Nenhuma gota de sangue na parte de baixo.
Coloquei a faca dentro do casaco. Tinha uma caveira na parte de trás dele. Que pena que tive que destruir. Fui até aquela baia podre, cheia de lixo boiando. Não vão acreditar se eu disse, mas tinha uma garrafa de álcool intacta escondida lá. Acho que fui eu quem a deixou ali.
Queimei tudo, mas ainda sobrou algo. Isso eu coloquei dentro de outra sacola, com várias pedras. Daí joguei na água e afundou.
Não sei o que estão pensando, nem o que estão sentindo. Mas eu não pensava nada e me sentia tranqüilo. Não vou mentir não. Foi bom, libertador. Sentei na beira daquela água com cheiro de merda, depois dentei perto daquela pilastra com cheiro de mijo. Foi o momento mais tranqüilo que tive em meses...
Matei minha fome...

Força de vontade



É a máxima desse mundo
Força de vontade, força de vida
Vá, adiante, cabeça erguida
Mas eu nem sou desse mundo...

Aqui tem coisas simples
Que desaprendi a apreciar
Aqui os detalhes são mais interessantes
O principal não tem graça

As pessoas andam pra lá e pra cá
Elas querem, elas perseguem
Nem sabem quem são
Mas isso nem importa

Eu sei quem sou, de onde vim
Já cheguei a uma conclusão satisfatória
Não sei meu destino, mas sei quem sabe
Só não consigo andar

Eu sei o caminho do paraíso
Mas não tenho força pra saltar
Não consigo chegar lá
Porque não tenho nenhuma

Força de vontade

O herói precisa de uma musa
O algoz de uma vítima
O salvador de inocentes
O sábio de loucos

Todos possuem uma fonte
Um por amor, outro por ódio
Um por piedade, outro por indignação
Mas eu não

Não tenho musa, nem vítima
Não tenho a quem salvar
Tampouco alguém a ensinar
Onde tudo foi parar?

Às vezes esqueço que sou louco
Penso que não inventei meu mentor
E me pergunto num tom pesaroso
“Porque você me escolheu?”

“Porque os miseráveis precisam de mais.”
“São desajustados por fora,”
“Vazios por dentro”
“Precisam de grandes espíritos”

O domador de mentes no reino das abominações


Nossa pequena vila estava sendo violentamente afetada pelo desmatamento. O novo império se ergueu, e derrubava árvores para suas enormes construções, que não pareciam ter muita utilidade para nós. Os animais fugiram, e os que não fugiram morreram. Não tínhamos muito mel, porque as abelhas não tinham arvores para fazer ninhos, e nosso plantio era constantemente saqueado por membros do império.
Certo dia decidiram que nossa vila deveria deixar de existir. Segundo eles, éramos primitivos e, portanto, estávamos ali envergonhando o império e ocupando um espaço que não era nosso.
Para nós, no entanto, era difícil entender o que diziam. Porque é que nós éramos primitivos? Porque o espaço não era nosso?
O sábio da tribo soube nos responder a segunda pergunta. Para ele, a terra não é nossa e nem de ninguém. Somos nós é que pertencemos à terra, e devemos, por essa razão servi-la.
Eu me convenci de que bastava eu falar disso ao emissário, para o povo dele entender que temos que cuidar da terra, pois ela é a nossa mestra. Quando ele veio, chegou com trinta homens. Eles tinham expressões agressivas, como se estivessem ameaçando suas famílias o tempo inteiro. Tentei apaziguar um deles, mostrando que éramos um povo de paz, mas ele me deu um soco no peito. Ele não sabia falar minha língua. Olhava pra mim como se eu não fosse nada, porque minha roupa era diferente e eu usava brincos.

- Atenção primitivos, viemos aqui comunicar-lhes que já por muito tempo permitimos que vocês usem nossas terras sem pedir-lhes nada em troca. Agora, no entanto, precisamos de força contra um inimigo que pretende desafiar a autoridade máxima de nosso senhor. Eu vejo que há homens fortes aqui. Os que podem lutar devem vir comigo.

O sábio da nossa tribo se pôs a falar, parecendo tão irritado quanto os soldados. Estavam ameaçando a família dele.

- Vocês, filhos da terra, homens de lama como nós, chegaram nesse lugar quando meu avô era ainda criança. Estávamos aqui, de acordo com as leis dos deuses, e vocês as profanaram destruindo os animais, prendendo alguns, e tornando as águas dos rios podres. Somos nós os que toleram sua presença, pois sentimos na nossa vida a miséria causada pela sua falta de sabedoria. O nosso povo é de paz, e, portanto, não lutará.

O homem e seus soldados riram violentamente. Não os entendemos. Quando o homem percebeu que todos nós estávamos com o sábio, puxou sua espada e cortou-lhe a garganta.
Choramos diante do corpo dele, pois era nosso maior guia, tendo nos instruído nos conhecimentos da terra. Foi ele, aliás, que me ensinou a arte de domar as mentes. Ele dizia que sou muito curioso e que, como um xamã, deveria saber como me defender. Dizia ele que eu tenho sabedoria para lidar com a mágica, então todos me prepararam. Ele me salvou da loucura, quando o espírito do mal me atormentava, e me ajudou a ser o mágico que sou hoje.
Na verdade, imagino que os outros passarão a me ver como chefe, embora eu não me considere pronto.

- Seus tolos. Não percebem que esse homem os ilude com bobagens? Não existem deuses e nem espíritos, e a natureza não existe senão para nos servir. Se há deuses, porque não falam conosco, que os afrontamos? Tolos! É só porque vocês acreditam que as palavras desse tolo têm efeito sobre suas mentes!

Todos me olharam. Como eu esperava:  me olharam como quem espera uma resposta. Então fui até ele, engoli o choro e falei.

- Nosso ancião, admirado, não fazia mais do que despertar em nós aquilo que havia em nosso coração. Na verdade, nos mostrou a sagrada terra e o sagrado espírito, os quais encontramos dentro de nós. Nunca nos iludiu. Você, por outro lado, que se imagina como sendo parte do centro de todas as coisas, não percebe como é insignificante diante da Grande Mãe.

O homem me olhou querendo rir, mas percebeu que eu falava sério. No fundo, pelo que percebi, ele conservava em seu coração a crença de que minhas palavras não passavam de brincadeiras. Falou, então, ignorando minha posição.

- Não tenho tempo para seus delírios idiotas. Você é um jovem bem robusto, como alguns outros. Você sabe lutar.
- Posso me defender com lança e flecha, mas minha arte mais refinada é a mágica.
- Um mágico? Temos muitos na nossa cidade!
- Então porque não há mágica correndo pelo seu corpo?
- Truques! São todos truques e nada mais! Eu, na verdade, nunca caio nos truques, mas gosto de rir-me dos tolos que se impressionam com seus truques. Faça um e demonstrarei ao seu povo que você é uma farsa.

Eu mergulhei minhas mãos no chão, tal como nosso velho sábio me havia ensinado, e debaixo da terra encontrei os demônios que aquele homem havia enterrado. É onde todos os demônios escondidos ficam.
Uma imagem terrível, na qual um homem raptou sua mãe e a violou, me foi revelada, enquanto o comandante dos soldados se retorcia no chão, chorando e gritando.

- Servo de Satã! O que você fez comigo? Como você fez essa imagem surgir na minha cabeça? Tire já isso que você colocou! Eu te mato!
- Não sei o que é Satã, e não sou servo de ninguém senão da natureza. Se satã é a natureza, não há sentido e tratá-la com tal tom de voz. O que eu fiz não foi nada de mais. Apenas despertei um de seus muitos demônios e deixei você ver.
- Mas o que são demônios?
- São obscuridades da natureza. Você os esconde para se esconder deles, mas eles estão sempre debaixo do chão que você pisa, na profundidade de um palmo.

O homem pareceu curioso sobre aquilo que eu havia feito. Um brilho nos seus olhos surgiu. Aproximou-se de mim e tocou no meu cajado.

- Sua habilidade é só essa? Desenterrar os demônios?
- Eu sei desenterrar todo o tipo de demônios e anjos, porque homens também enterram anjos. Minha arte, na verdade, é a de conciliar as forças da natureza. No entanto, através do domínio de anjos e demônios, também consigo controlar a mente dos homens que não têm os pés enterrados no chão.
- Então você controla todos os homens que não estão parados com o pé debaixo do chão?
- Não. Os homens que eu controlo são aqueles que voam. Tal como você.
- Então quer dizer que eu sei voar? – gritou o homem gargalhando. – Nesse caso, controle a minha mente!

Eu fechei meus olhos com minhas mãos no chão, e os vermes da terra foram trazidos a mim pelos espíritos aflitos. Falaram a mim da seguinte maneira:

- Ajude-nos, porque vivemos presos dentro desses vermes, escondidos da luz do sol. Você, como iniciado nos mistérios da natureza, deve saber que todos nós devemos ser iluminados pelo sol. Há, no entanto, essa barreira. Se nos ajudar a quebrá-la, te serviremos em teu propósito.

Quando eu abri os olhos, eles olhavam pra mim com sorrisos zombeteiros. Falei ao comandante da seguinte maneira.

- O senhor, que é hábil no uso da espada, poderia me atacar?
- O que, está com vergonha de não poder me controlar? Olhe, tudo bem, eu te dou a dica. Eu não sei voar!
- É o senhor fraco demais para me atacar, fungindo com piadas? – respondi simulando um tom de provocação.

O homem se ofendeu e desceu de seu cavalo. Pegou sua espada e veio na minha direção. Quando ele chegou perto, os vermes entraram em suas botas pesadas. Entraram dentro da sua unha, e seu espírito foi dominado. Anjos e demônios, causando comportamentos aparentemente sem sentido. Mas eu os pude perceber. Um deles era o demônio do medo, que se aliou ao anjo do amor. Assim, o homem passou a ter medo do amor. Outro era o anjo da piedade, que foi dominado pelo demônio da ganância. Assim, ele só tinha piedade dos ricos.
Mas na verdade o espírito mais poderoso era o mensageiro, que ele ignorava completamente. O mensageiro dele era um anjo e também um demônio, porque assim ele era natureza. Tal é a sabedoria dos nossos mensageiros. Mas ele era ignorado, porque a sombra havia tomado seu lugar. O vulto com o qual o comandante se identificou escondeu o mensageiro debaixo da terra, e esse exigia ser ouvido.
Contei a ele o que eu desejei em voz alta, e ele executou no corpo do homem. Facilmente tentado a se aproximar de mim e ingenuamente seguro de si, o homem dançou como uma mulher, com movimentos leves, embora o espírito do medo lhe tenha feito sentir um enorme tormento. Ele dançou, e chegou a ficar na ponta dos pés.
Logo ele foi assistido pelos espíritos que lhe dominavam. Eram o espírito da arrogância e da soberba, guiados pela ganância. Eles lutaram com o mensageiro sem sucesso, até que lhe ordenei que parasse a dança, e ele voltou para debaixo da terra, agradecendo por poder respirar.
O homem, caído no chão, não se ofendeu com aquilo. Pelo contrário se encheu de ambição e curiosidade.

- Você é poderoso! Meu mestre se interessaria por suas habilidades e poderia dar benefícios a você por elas! Venha comigo!
- Não tenho poder algum. O poder é da terra. Não quero benefícios pra mim além daqueles que a terra pode me oferecer.
- São frutos da terra! Você poderia morar no palácio, poderia ter concubinas. Seria autoridade!
- Essas palavras que você usa vêm de espíritos desconectados. Somente espíritos incompletos admiram a posição de comando ou de subordinado. Os homens sábios conhecem a natureza, e sabem que tal coisa não é senão erro humano.
- Podemos ajudar seu povo a ter mais comida. Sabemos que passam aqui fome e sede, porque nossos soldados não lhes protegem a plantação. Você poderia conversar com o nosso mestre, o imperador, e então ajudar seu povo.

As anciãs me olhavam com olhos aflitos, pois seus netos choravam com fome em seus braços. Eles me escolheram como o guia, e era minha função ajudá-los.

- Pois bem. Aceito ir ver seu mestre.

Eu segui a pé e o comandante guiou os soldados. Esses desfizeram a organização quando me aproximei por medo de se aproximarem de mim. Quando percebi isso, me afastei deles e os acompanhei da metade da distância de um lançamento de pedra. Somente assim eles se alinharam e marcharam.
Se perto da minha aldeia havia poucas árvores, por outro lado quando mais eu me afastava, mas escassas elas ficavam, até que num ponto elas desapareceram. Caminhamos por duas horas, até chegarmos na cidade. Havia plantas sendo tratadas por homens magros e fracos. Possuíam dor em seu olhar, e aquilo me deprimiu profundamente. Um deles, percebendo que eu olhava para ele, veio até mim e me falou com sua voz rouca.

- Não teria o senhor algumas moedas para eu alimentar minha família? – disse ele.
- Mas moedas são duras e não podem ser comidas. Porque você quer moedas? – perguntei curioso.

O homem me olhou confuso. Parecia tratar aquilo que eu falava como um quebra cabeça ou um jogo que se faz com crianças para que ganhem esperteza com a linguagem.

- Mas sem as moedas, meu senhor, não posso ter comida. É por moedas que trocamos comida. A água eu busco a uma légua daqui, mas comida eu preciso comprar. Essa terra na qual trabalho não é minha.

- Peço perdão, mas não tenho moedas. Na minha terra não temos moedas.
- Por favor, senhor. Meu filho passa fome!
- Estou entrando na cidade para tratar com o imperador. Falarei com ele sobre sua situação.

Os olhos do homem brilharam, e outros que ali estavam vieram até mim, pedindo também que eu falasse sobre eles ao imperador. Guardei o nome de cada um deles, porque cada um tinha uma família separada do outro, quando um soldado voltou para me buscar. Ele estava assustado ao lidar comigo, mas não hesitou em bater no homem que falava comigo e lhe ordenar que trabalhasse.
Conforme eu me afastava, ele se afastava me seguindo. Quando eu lhe olhava, ele apontava a direção pra onde eu devia ir, tendo o cuidado de se manter distante. Entrei para ele parar de bater no homem faminto.
Naquela cidade eu vi abominações sem tamanho. Animais presos, alguns mortos. Homens gritando todo o tipo de coisas. Uma confusão, todos correndo de uma parte para a outra, como se seus espíritos os levassem com urgência para algum lugar, mas paravam diante de pedras brilhantes e as fitavam. Meu cajado possuía uma dessas pedras, e por causa disso um homem parou para conversar comigo.

- Ei, selvagem! Onde você conseguiu essa vara?
- O mestre sábio a deu a mim quando me iniciou.
- Bem, cá está o sábio que a tomará de você por um preço justo. Cem moedas de prata!

Alguns homens olharam para nós por causa da fala dele, e se amontoaram em volta de nós olhando para o cajado. O homem se orgulhou disso e continuou.

- É isso mesmo que ouviram. Vou comprar esse cajado por cem moedas de prata! E ainda me chamam de avarento por essas bandas!
- Perdoe-me a decepção, mas esse cajado pertence à minha tribo, e através dele que nos conectamos com a mãe natureza a muitas gerações. Ele nos foi mandado pelos deuses.

O homem deu usa risada e me falou.

- Seu cajado foi mandado pelos deuses? Bem, essas moedas que lhe ofereço, são tantas que, por algum tempo te tornarão, você mesmo um deus, e não precisará mais dos deuses.

Num momento sem eu perceber com certeza, um homem me tomou o cajado e correu entre a multidão. Consegui achá-lo e o persegui pela cidade, até que um soldado lhe derrubou e tomou meu cajado dele. Junto comigo, trouxe o homem que gritava chorando a palavra clemência.

Foi quando entramos no palácio.

O que mais me surpreendeu ali foi que homens estavam sentados próximos da entrada, envoltos em panos. Eles pareciam não ter casa. No entanto, dentro daquele palácio, havia muito espaço sobrando e quase ninguém senão guardas e homens com roupas estranhas e perucas.
Dentro do palácio encontrei novamente o comandante, que brigava com o soldado por ter me perdido de vista. Quando entramos, ele foi comunicado sobre o roubo, e sua ira caiu sobre o ladrão, que nunca removia do rosto aquele espanto.
Agarrou-se nos meus pés chorando e me falou da seguinte maneira.

- Perdoe, senhor minhas atitudes. Eu preciso dar comida aos meus filhos! Não quis lhe fazer mal, tampouco acumular riquezas! Eu só queria comida!

Eu chorei. Não era ele o único a padecer de fome em um lugar com tanta comida. Eles possuíam muita comida e bebida. Também possuíam grandes edifícios. Mas os espíritos que ali habitavam eram abomináveis. Nunca eu havia visto um lugar tão profundamente desconectado da Grande Mãe como aquele, onde homens viviam voltados apenas para si mesmos. Todo aquele ambiente me deprimia.

- Não deixe que esse vadio te faça ter compaixão! Temos leis nessa cidade, e ladrões aqui perdem a mão. Esse ladrão perderá a mão, e eu tenho o poder de executar a lei.

O homem estendeu o braço esquerdo e começou a chorar. No entanto, o comandante lhe tomou o braço direito, o que lhe fez chorar ainda mais. Mas ele abaixou a cabeça e não tentou reagir. O sábio, através dos poderes da terra, falou à minha mente como um relâmpago, e, através da pouca força natural que havia no ar, controlei o comandante, que lutou com mais força do que antes contra mim inutilmente. Por causa da força dos espíritos maligno que o controlavam, eu só pude deixá-lo imobilizado. Tive que falar, então, e esperar que somente o poder das palavras ajudasse-o a entender a situação de maneira apropriada.

- Este homem não me ofendeu, e, portanto, não deve receber qualquer punição, seja na consciência ou no corpo. Vocês têm suas regras então lhe declaro que ele me tomou o cajado brincando, da maneira que fazem as crianças, e eu o persegui correndo também como uma criança.

Meu espírito se contorcia por eu ser obrigado a dizer aquilo, mas o homem morreria se eu não o fizesse. Naquele ambiente, os homens que ousassem ser honestos acabavam causando o mal, porque a luz incomoda os olhos de seres que vivem por tanto tempo em abominável escuridão.
Mas minha fala não teve o efeito que desejei. Eles espancaram o homem e o mandaram para fora mal podendo andar, embora com ambos os braços. Soltei o espírito do comandante, que passou a me temer.

- Você é poderoso, mas não aprendeu a usar seus poderes. Você não pode ter piedade dos homens miseráveis, pois eles lhe sugarão cada moeda que possuir. Deve ter piedade apenas dos homens ricos e dos poderosos, pois esses, pelo contrário, lhe recompensarão por sua piedade.
- Mas todos os homens, ricos ou pobres, são filhos da terra e a todos foi concedido um mensageiro do outro mundo.
- Bárbaro, bárbaro... Quanto ainda não temos a te ensinar? Verá que a vida não é bem como explicam seus contos.

Não entendi bem o que ele quis dizer, e sentia em meu coração que não poderia aprender nada ali, pois quanto mais eu me adentrava no lugar, mais abominável ele se tornava. O chão era coberto por pele de animais misturada com pelo. Enfeites coloridos haviam sido feitos com as árvores, profanando as leis da grande mãe. Quase nada naquele lugar era necessário, e, no entanto, os homens tomavam todo o cuidado com cada detalhe, como se fossem de extrema urgência. Havia armaduras que seguravam armas. Havia escuridão dentro delas, e ma causavam calafrios. Como se desvirtuavam os homens da grande mãe usando tais vestes! Só podiam ser amaldiçoadas.
Eu constatei quais eram as falhas daquele reino, e ainda tinha em minha memória o nomes dos homens que passavam fome com suas famílias. Achei estranho que o sábio dali não percebesse o ambiente opressor que o envolvia, mas pretendi dar-lhe a mensagem, pois a isso me orientava o sábio da aldeia, falando em meu coração. Ele se tornou meu espírito protetor, como o outro que me protegia antes de ele morrer. O espírito de um ancestral que conhecemos é mais poderoso do que um ancestral mais antigo, porque há um laço de espírito e de matéria. Isso eu descobri ao sentir com que nitidez ele falava ao meu coração, trazendo pensamentos inteiros como relâmpago à minha mente.
Entrei numa sala enorme e vazia, no fim da qual estava sentado um ancião. Havia na cabeça dele uma tiara brilhante. Tinha a cor das moedas. Na verdade parecia com as moedas moldadas como folhas de uma tiara. Ele comia a carne de uma ave, até que mordeu algo que não gostou, ao que derrubou toda a comida.

- Quem foi o maldito que colocou tanto sal na minha comida? Já não basta o sal que perco com seus roubos, ainda preciso desperdiçar sal assim na comida e torná-la intragável! Seus vermes!

O homem gritava enquanto os outros pareciam reagir com um misto de medo e tristeza. Decidi reagir

- Não percebe o senhor, como o guia dessas pessoas, que faz mal ao espírito delas com tal repreensão? Não seria melhor que as ensinasse, cozinhando você mesmo, a maneira correta de preparar o alimento?
- O que esse selvagem faz no meu palácio?! – gritou o homem. – Quem foi que lhe concedeu o direito de falar, seu indigno!?

O comandante que me acompanhava se ajoelhou e fez um som com a garganta como o de quem está doente, mas ele estava com o corpo são. Diante disso, o guia lhe falou.

- O que é isso, comandante? Procura levantar minha ira trazendo um selvagem maltrapilho para meu palácio?
- Senhor, se me conceder a honra de demonstrar o que esse selvagem faz, perceberá que seu poder sobre o inimigo será infalível. Ele tem o poder de controlar os homens, é um feiticeiro.
- O que você fala para mim no meu período de comer? Logo o senhor, que possui a cabeça clara e sóbria, vem me importunar com crendices?
- Não te importunaria se não tivesse visto eu mesmo a prova, e trouxe-o para mostrar-lhe como ele faz.

Naquele momento ele mandou trazer um aldeão. Ele trabalhava na lavoura e também era cozinheiro. O rei o detestava em especial, e embora a comida estivesse mais saborosa do que nunca, reclamava contra o homem.

- Mostre-me, então, como ele controla os homens. – disse o guia daquela cidade
- Para fazer com que nosso mestre te ouça, você precisa primeiro mostrar suas habilidades a ele.
- Não são habilidades. No entanto, se é assim que ele me ouvirá, a demonstrarei.
- Sim, mas não sobre mim, mas sobre aquele aldeão.

Trouxeram o homem para diante de mim e o colocaram de joelho. Afundei minha mão na terra que o comandante me trouxe dentro de um vaso. A terra serviu, e nela só encontrei um verme. Ele me falou da seguinte maneira.

- Como você deve saber, eu sou o orgulho. Mas não se engane sobre eu estar escondido na terra, porque não é sempre que estou aqui. Na verdade, estou aqui por vontade própria, pois eu sou um grande aliado do espírito da honra.

Fiquei muito contente e perplexo, vendo que aquele homem possuía um espírito muito valoroso dentro de si. Na verdade, o que eu senti é que ele devia ser o guia do lugar. Possuía contato com a natureza, que puder ver nos espíritos que habitavam seus pulmões, e também com os deuses. Pulsava dentro dele um sentimento de equilíbrio tão grande que ele passava pela punição de ser ajoelhado diante de mim sem quase nenhuma impressão negativa.

- Não posso controlar esse homem, pois seu espírito está em harmonia. Se quiserem que eu demonstre, posso fazê-lo no seu guia, dando a ele revelações de que ele precisa.

O comandante dos soldados tentou me impedir, mas o rei ficou curioso. Ordenou que o soldado me permitisse tentar controlá-lo. Arregaçou as mangas de seu manto colorido e andou até a minha direção, com o corpo ereto e o peito estufado, como ficam os jovens sem sabedoria quando querem se impor.
E quando eu olhei para o que estava escondido, percebi, para a minha surpresa, que não era senão um pequeno espírito, daqueles que recebem atenção na aldeia por serem os mais insensatos. Na verdade, a imagem da alma dele era a de uma criança que não recebeu os devidos limites dos pais. Seu espírito guia tinha a forma de um menino.
Quando o libertei, o espírito guia tomou o controle do guia, e ele começou a fazer travessuras com os soldados. Puxou um deles pelo capacete, jogou comida em mim, e até rolou pelo chão.
Aquele espírito não era o de um guia, então imaginei que estavam apenas testando minha sabedoria com tudo aquilo. Por isso, falei da seguinte maneira.

- Já entendi que esse homem não é o seu guia. Mostrem a mim aquele que é seu verdadeiro velho sábio para que eu possa tratar com ele sobre os problemas da cidade e sobre como estão lidando com a natureza sem o consentimento dele.

O velho, ao ouvir aquilo, se ofendeu profundamente e ordenou que me expulsassem do palácio, ignorando as recomendações do comandante sobre meu potencial. Pelo que percebi, ele gostou de  fazer tais travessuras, mas me detestou, e percebi que realmente era ele quem guiava aquelas pessoas. Não pude falar a ele sobre os que sofriam com fome e fui deixado à própria sorte na entrada do palácio, onde o ladrão me encontrou. Beijou os meus pés, o que me incomodou, então dei um passo para trás e estendi a mão para ele se levantar, ao que ele a segurou um tanto confuso.

- Você não aceita meu agradecimento? – perguntou ele
- Eu não fiz nada de bom que mereça agradecimentos. Na verdade eu menti e não aceito ser glorificado por isso. Eu queria solicitar ao guia dessa cidade que ele ajudasse os homens necessitados, mas ele é um tolo e me ignorou.

O homem bateu no peito três vezes com os olhos cheios de lágrima.

- Te seguirei até a morte. Você é um homem santo!
- Se me seguires até a morte, teu espírito será atormentado. No entanto, se seguires a ti mesmo, então seu espírito lhe mostrará o caminho.

O homem pareceu não me entender, e não me surpreendi, já que ele foi criado naquele meio abominável. Ele me seguiu até a saída da cidade, onde me esperavam os homens famintos. Quando os vi, ansiosos em seus corações por comida, meu coração foi comprimido pelos meus sentimentos. Tamanha foi a minha dor por aqueles homens que chorei ao vê-los, e diante do meu choro eles abaixaram a cabeça. Fui até eles e o homem que me seguia começou a falar.

- Esse homem disse que o mestre é um tolo! Ele é um santo e salvou a minha vida mesmo depois de eu tentar roubar seu cajado!

Os homens me rodearam e logo me levaram a uma pequena casa, na qual quatro crianças estavam fazendo alguns serviços. Lá, ordenaram que me trouxessem comida.
Por uma hora, falei a eles sobre meu lar, e me explicaram que havia maneira de impedir o roubo das colheitas. Ficaram, acima de tudo, maravilhados ao ouvir sobre a Grande mãe, e desejaram em seus corações poder vir comigo, mas não havia, na aldeia, os recursos para dar a eles o que comer.
Imerso em mim mesmo, encontrei-me com o velho sábio, que me falou, rápido como o relâmpago, da seguinte maneira.

- Venda agora o seu cajado para quem o comprar, e compre com o dinheiro toda a comida que puder. Começa agora um novo período na vida, com terríveis lutas e provações para todos os homens. Leve consigo esses homens e toda a comida que puder. Será através do coração de cada homem que ele se conectará com a terra e com os deuses dos céus.

Quando declarei que venderia o cajado, o homem que me seguia se revoltou.

- Você não pode vender o cajado! Ele é da sua tribo! Não faça isso!
- Entenda, homem, que me foi revelado que um novo período chegou, no qual o cajado não poderá nos conectar com a terra, mas apenas o nosso coração. Imagino que com as cem moedas de prata que me foram prometidas, poderei conseguir comida e levar todos vocês comigo para minha aldeia. Fica próxima, logo atrás daquela colina, cercada pelo que sobrou das florestas. Com sementes poderemos plantar e ali vocês poderão fazer parte da família e conhecer a Grande Mãe.

- Entendo que você fale com seu coração. Tenho a acrescentar que a pedra desse cajado vale muito mais do que cem moedas e que há ainda um homem que deve vir conosco. Venderei o cajado, com sua permissão, e trarei os recursos. Sementes e comida. Trarei também lanças de aço para defendermos a lavoura. Comprarei tudo o que eu puder e iremos embora, mas com um homem de valor que não merece viver nesse lugar.

O homem saiu, com espíritos poderosos o guiando. Senti em meu coração que era muito grande a quantidade de força que seu espírito possuía, e que eu fui capaz de despertar nele aquilo que era dele mesmo. Ele, na verdade, não seguia a mim, mas àquilo que descobriu sobre si mesmo e atribuiu a mim. Seria simples demonstrar isso a ele quando ele estivesse na aldeia, e fosse iniciado nos mistérios da Grande Mãe.
Continuei falando aos homens, que ouviam e gravavam cada palavra que eu pronunciava. As mulheres deles me serviam praticamente tudo o que tinham, cheia de esperanças. Apenas uma permaneceu descrente e não gostou de mim, mas não se separou dos outros.

Quando voltou, o homem trazia consigo dois burros com sementes e comida, além do cozinheiro do palácio. Quando o cozinheiro chegou diante de mim, recebi a mensagem do Velho sábio, a qual transmiti diretamente, quase sem consciência do que eu falava.

- Não poderemos levar esse homem.
- Mas por quê?
- Ele é um guia mais sábio e poderoso do que eu, e é a luz desse lugar. Não possuo sabedoria para guiá-lo, e seu espírito é de tal forma iluminado pelos deuses dos céus e pela Grande Mãe que, mesmo vivendo na terra das abominações, conseguiu alcançar sabedoria. Os homens que não vierem conosco precisam dele para que os ilumine e guie.

O cozinheiro, então, se pronunciou.

- Você atribui a mim maior valor do que possuo. É fato e sei do fundo do coração que você ainda é jovem e precisa aprender com a vida, mas não sou maior do que você. Apenas tive mais tempo e despertei meu espírito do sono em que ele foi trazido ao mundo. Contudo, sobre eu ficar aqui, lhe digo que isso sim é mensagem dos espíritos, pois me dizem a mesma coisa. É meu dever ficar aqui, e logo serei morto por isso, mas ficarei. Por aqui, sou dos poucos que ouvem os espíritos, e sem mim os homens mergulharão no abismo, dominados pelas trevas sem terem a quem recorrer.
- Entendo. Eu não conheço o que é meu potencial, se sou poderoso ou se não sou. O que te falei não fui eu quem disse, mas o Velho Sábio da minha tribo. Pode ser que no futuro eu seja capaz de ter sabedoria igual à tua, mas preciso ainda viver com a terra e na terra, como você disse. Eu falava, no entanto, sobre o presente momento, no qual não possuo sabedoria para lhe guiar, tampouco para poder entender aquilo que você precisa. – respondi.
- Você é um bom jovem. Estamos entendidos. Levem consigo ainda esses instrumentos para lavrar a terra que construí. Funcionam melhor do que esses que compraram. Os preparei justamente para isso.

Meu coração se encheu de admiração por aquele homem e por ele conseguir alcançar a sabedoria sem cajado e sem ser iniciado numa aldeia. Repetia-se na minha mente aquilo que o velho me disse. Que agora é com o coração que nos ligamos com os deuses e com a grande mãe. O cozinheiro já sabia disso, e já vivia assim. Precisei vir até a terra das abominações, onde ele aprendeu isso, para também aprender. Nenhuma parte do meu tormento ali foi em vão, mas foi planejada pelos deuses.

Seguimos para a aldeia, e todos nos olhavam enquanto partíamos. O rumor havia corrido entre os soldados sobre eu ter poderes para controlar os homens, e eles me temiam, motivo pelo qual não tentaram nos impedir. Mas vi em meu coração que aquilo era só o começo, e que o guia tolo ainda iria querer nos afligir.
Um dia eu terei que voltar, e quem sabe ajude o cozinheiro ou outro guia de verdade a se tornar o verdadeiro e legitmo sábio daquela cidade. Por agora, no entanto, não possuo sabedoria para isso, e me reservo a viver em harmonia com a natureza, ouvindo o que ela quiser me dizer para me preparar, pois, apesar de eu não o entender bem, parece que ainda há propósitos a serem realizados.

- E foi assim a minha aventura pelo reino das abominações, onde me viam como domador de mentes, quando na verdade o que eu quero é libertá-las. Fiquem atentos, meus irmãos, e aceitem entre nós os novos e os ensinem sobre os caminhos da natureza.

Naquela noite aconteceu uma festa, e todos dançaram e se alegraram com os novos membros da família. Passaram a trabalhar conosco e nos ensinaram técnicas para a construção de nossas casas, para a nossa plantação e também para a nossa defesa, o que, percebi na viagem, se tornou de grande importância. Um novo período começou. E espero ter sabedoria para viver nele...

Sim, a carta é pra você

Já faz tempo que não te escrevo, não? Nem sei quem você é!
Eu fui lá fora. Quero dizer, fui arrastado pra lá. Descobri que por lá as coisas não são como eu imaginava. Há todo um mundo onírico, sabe? Demasiadamente idealizado. Lá, onde o sol se recusa a bater, há homens com honra, e outros sem. Onde eu fui quem morre primeiro é quem não merece. Quem merece também morre. Às vezes cedo, as vezes não.
Lá fora são curvas que governam o mundo, sabe? As curvas do corpo de uma mulher, as que tomamos na vida. O problema de uma jornada repleta de curvas é que você nunca sabe onde vai chegar. Você olha e imagina, mas no fundo não sabe de nada. É tudo imaginação. Alguns têm a sorte de descobrir a tragédia apenas tardiamente, mas outros a descobrem cedo.
Descobri.
Não, a vida de um homem não vale tanto na vida real quanto no nosso mundo imaginário. Na vida real, um homem é um número. Alguns, os gananciosos, são números com muitos zeros.
Eu sei o que você vai me dizer. Que homens possuem almas. Mas de que adianta se eles vivem num mundo que exige que sua alma nunca venha à tona? Esses homens morrem cedo, lad. Morrem tão cedo que na maioria das vezes nunca entendem o que pode ser a alma. E quando entendem, perdem a consciência.
O máximo que podem aprender é a ter honra. A respeitar uma lei, aceitar algo acima de suas cabeças. Eles vivem em mundos separados, cada um no seu jardim...
A carta é pra você, mas não é sobre você e nem sobre mim. Ela é sobre a vida. Sobre se sentir vivo e perceber que isso em breve será sentir a vida ir embora.
Eu posso sair amanhã ou na quarta, e, nalgum desses dias, um daqueles metais voadores pode perfurar meu crânio, um carro pode me lançar a alguns metros de distância. Você sabe que tudo isso é muito efêmero.
Nós falamos muito sobre o mundo metafísico e até mesmo sobre o mundo psicológico.  Exploramos juntos o poder que um homem pode ter sobre a mente e sobre o corpo do outro.
Mas vamos encarar a verdade: a realidade desse mundo nos torna impotentes. Não somos mais espíritos. Todo o poder de um homem astuto se vai quando ele leva um tiro na cabeça.
Sejamos sensatos: tudo isso é muito maior do que imaginamos. É muito maior do que poderíamos imaginar.
Eles me disseram que a cada dia minha fé seria testada. Esqueci de avisar que eu não tinha fé.
Agora o que eu sei é que uma bala pode ser mais rápida que um pensamento. Agora eu tenho fé no fato de que a morte é certa, mas a vida não.
Eu vou construir idéias que serão capazes de curar a mente de homens. Já construíram isso, e conforme o tempo passa, nós chegamos aqui pra reconstruir, readaptar à nova época.
Mas dessa vez tem algo a mais. Eu não vim mostrar isso. A cura, uma cura. Meu espírito me carrega por terrenos sombrios. Cada vez mais podres são os caminhos para os quais sou levado, e é cada vez mais perigoso e sem volta o meu destino. Será que sou mesmo um mensageiro da morte?
Eu tenho ainda um lugar entre os anjos, lad? Lembram de mim por aí? Avise-os que talvez eu tenha ficado tempo demais na terra dos demônios. Nunca poderei ser um deles, mas perdi o brilho dos meus olhos. Eu não posso mais voar, bem aventurado pelos céus do universo. Não posso mais. As minhas lágrimas secaram.
Nem sei o que estou escrevendo. Você existe mesmo? Quem é você, quem sou eu, quem somos nós?
Essa carta é sobre a minha morte. Isso mesmo. Sei que não acreditamos na morte do corpo, e que concordamos sobre a nossa alma se conservar por um tempo tão longo que nos arriscamos a chamá-lo de eternidade, por ser tão longo que não o entendemos. Mas eu hoje morri. E não precisa guardar a data, porque tempo não existe. Amanhã devo nascer de novo, com as marcas das feridas pelo meu corpo. Então viverei mais um pouco e serei assassinado mais uma vez. Ser assassinado nesse mundo é um destino do qual poucos podem se livrar.
Porque enquanto o pedaço de metal voador perfura a cabeça de um homem, seja ele quem for, ele também atinge a minha alma, e ela se torna mais dura, mais ferida.
Alguém morreu hoje, e o que eu vou fazer?
Morrer também!
E continuar morrendo enquanto os pedaços de metal continuarem a matar os homens. Acho que vou morrer tanto, que me tornarei imortal. E aí a morte dos homens se tornará tão comum, que nem aos milhares, ao milhões, poderá me comover. Quando e se esse dia chegar, deixe de esperar minhas cartas. Estarei ocupado demais existindo como uma rocha. Só a chuva poderá me corroer, e me transformar em pequenos pedaços. Aí, esses pequenos pedaços entrarão novamente no ciclo de todas as coisas.
Sim, lad. A carta é pra você. É pra todos e pra ninguém...

Um passo em direção ao fim dos dias



Entrei no quarto angustiado. Imaginei que a profundidade psicológica de Jane Austen pudesse ao menos me distrair. Estava errado.
Pelo contrário: ela conseguiu, justamente com os capítulos que li, reavivar meu tormento.
Eu sabia que naquele dia um passo foi dado numa direção terrível. Como um bandido que vê uma bala quase penetrar-lhe o crânio e de repente toma consciência de que mais cedo ou mais tarde uma delas o destruirá. Tudo porque eu coloquei a cabeça na luz! Eu coloquei o coração na luz!
Que erro maior?
A música que ouvi praticamente o dia inteiro sem entender bem porque de repente fez todo o sentido: seu tempo acabou, seu tempo acabou. É o que ela diz. Muito boa, a música.
A parte dolorosa desse ciclo está chegando. Eu já sinto o cheiro de sangue no ar. Meu sangue, escorrendo sem ninguém ver. Meu sangue fluindo para fora e escondido pelo silêncio.
Eu vou acabar correndo de novo. Vou fugir pelas ruas e dirão que sou louco. Tudo de novo. “Como que aquele sujeito tão calmo fez uma coisa dessas?”
É que sorriso não fecha ferida.
Eu já desisti de tentar de me convencer de que minhas intenções são boas. Recentemente isso se tornou inútil: sendo boas ou ruins, eu sempre acabo no mesmo lugar. Sempre cometo os mesmos erros. Tudo vai acontecendo diante dos meus olhos, cada vez com um disfarce mais complicado. Eu nunca consigo desvendar o mistério antes de ele ter invadido as minhas entranhas. Antes de sentir a dor.
É só quando a dor chega que me livro das ilusões. E aí fico me perguntando sobre como tudo veio a ser de tal maneira. Pergunto inutilmente, porque sei. Eu sei muito bem.
Minha barriga dói de fome, acho que tem vultos aqui no quarto. Eles sempre me visitam durante a noite. Sempre parece que tem gente andando por aqui. Que falam no meu ouvido e vou escrevendo loucuras que eles me dizem.
Tudo isso me fez ficar meio sem juízo e confessar meus pecados ao branco co Word. Isso mesmo. Nada romântico. Eu odeio escrever com caneta. Nunca nem vi uma pena usada pra escrever.
O caso é que eu dei mais um passo em direção ao fim dos tempos. Tal fim se apresentou recente e mortalmente. E, ironicamente, no momento foi tão doce.
Há aquela voz de sempre na cabeça. Intuição. “Tudo deveria mesmo ser assim”. “A gente só sente a dor pra aprender com ela”. “Tal provação não vai para além das suas possibilidades”. “Desperte sua verdadeira essência”. “Esse fantasma com o qual você se identifica é patético”. “Descubra de novo que você é e era já a mais de um século”. “Abra o terceiro olho”!
Acho que eu invento esses delírios religiosos mesmo pra fugir da realidade. A nua e crua: o meu sonho tá acabando. A alegria, o prazer, estão saindo. Em breve, como antes e, quem sabe, como sempre, chegará o meu próprio tormento.
Só que agora eu mudei as cores dele. O que era meio azulado ficou rosa. Mais escuro, com contraste. Ficou mais bonito.
Eu rio de mim mesmo quando imagino que alguém poderá ler isso. O que pensariam?
Não. Se alguém conseguir ler e entender o que eu estou escrevendo, meu destino se tornará pior. A interpretação dessas palavras confusas seria a própria bala atravessando meu crânio.
Nosso lar é onde o coração está. Aqui é o meu quarto já há uns 8 ou 9 anos. No entanto, tenho que ir pra casa. Meu desespero aumenta quando lembro que não faço idéia de onde é isso.

Uma demonstração prática das diferenças psicológicas



Postei em alguns lugares na internet uma questão que me ocorreu repentinamente. Sei que eu ouvi o Joseph Campbell falar algo parecido com isso, mas não lembro exatamente o que ele falou. Apesar de eu ter postado em cinco lugares diferentes, apenas dois receberam atenção: a comunidade do filme Zeitgeist, no Orkut (que recomendo) e a categoria religião e espiritualidade do Yahoo! Respostas. Vou citar as respostas das pessoas e fazer breves comentários para depois esboçar uma conclusão, unindo a informação ao conhecimento que tenho hoje. Nos casos em que eu estiver citando usuários do Orkut, usarei a sigla “OKT”, e pro Yahoo! Respostas, Y!R.

Notei que, quase como regra, as respostas das pessoas seguem padrões, que representam certos paradigmas. Alterei apenas coisas na formatação para pode encaixar melhor o conteúdo no espaço do blog. Por isso, algumas coisas podem ficar complicadas de entender, já que há internetês e incoerências. Mas acho valioso deixar a informação exatamente da forma que foi exposta.
Se você não teve a oportunidade de ver isso nos tópicos, aconselho a não ler o resto antes de comentar com uma resposta própria. Mas também não é o fim do mundo se você quiser ler o que os outros disseram antes de comentar.

A questão é a seguinte:

Imagine essa cena fictícia como se fosse real e tente responder à pergunta que a segue.


Certa vez, um homem foi condenado por seus crimes à uma prisão perpétua. Nessa prisão, que na verdade era um pequeno planeta, só existiam andróides. Esses robôs possuíam forma humana e simulavam o que ele quisesse. Assim, eles falavam apenas o que ele queria e faziam tudo o que ele mandava. Além disso, todos eram extremamente atraentes, cheirosos, carinhosos e dedicados a servir a todo o custo. Inclusive à satisfação sexual, pois havia robôs representando ambos os sexos.


Depois de um tempo preso no planeta, o homem se matou.


Por quê?

Vou colocar primeiro as respostas que se enquadram no que eu imaginei como padrão de resposta correta. O padrão eu vou deixar para o final.

Solidão. Ele não tinha outro semelhante com quem compartilhar as experiencias e dúvidas da vida. E um mundo que não apresenta resistência ou desafios só acentua isso. Quando voce encontra resistência, é sinal de que há outra alma ali, diferente da sua. E perceber isso é imprescindível.


"O buda em mim saúda o buda em você".


Em robos, não há buda algum.

Pensador Zen – OKT

A resposta desse usuário é uma das que mais se enquadram no meu padrão inicial de resposta. Ele deixa claro dois efeitos da solidão: Não há aprendizado em nível profundo, pois não existe outra pessoa que é diferente e que lhe oferece resistência. Além disso, não há conexão. O indivíduo não podia se sentir compreendido e acolhido de verdade. Assim, o contato humano é um fator crucial. O que ele chama de Buda, normalmente eu chamo de Daemon, em homenagem a Sócrates.

O que torna a vida interessante é sua imprevisibilidade...


Já li sobre um estudo feito com pessoas que ficam isoladas. Normalmente vemos os defeitos dos outros, quando não temos a quem olhar passamos a ver os nossos defeitos e a nos odiar. Mas tb estou com a cabeça muito cheia para pensar nisso agora...

Chaves Prowler – OKT

Essa foi uma resposta que, embora não se enquadrasse no meu padrão, o completou de forma interessante. Realmente, são os defeitos dos outros que vemos, ou mesmo os nosso defeitos nos outros. Mas assim que você toma consciência que não há nenhum outro e de que tudo é essencialmente você ( porque os robôs eram parte dele), então você tem que enfrentar a terrível sentença de conhecer tudo o que há de podre no íntimo. Para muitos isso é demasiadamente sufocante e deprimente. O bastante para inspirar um suicídio, talvez.

Eu acho que ele se matou porque viu a desgraça de viver na solidão.
e se deparou com a verdade:
Sua gingante insignificância.


Talvez o sentido da vida esteja escondido nas relações entre seres diferentes.


A incompletude de um completa o outro.


Um mundo de andróides não podia satisfazer este seu vazio, sua vida então se tornou sem sentido...
Ele percebeu que no fundo era tão vazio quanto estes andróides, e todas suas vontades eram pequenas demais frente às verdades do Universo.


Fazendo então com que desse um fim a essa sua vida "sem sentido".

Tevão - OKT

Uma resposta bem semelhante às anteriores. O que se acrescenta nessa é que ele citou o vazio decorrente da solidão da situação. A necessidade inalienável do ser humano de ter companhia.
Nesse caso, os robôs podiam simular grande parte das nossas atividades sociais, então o contato com o outro demandava profundidade. E isso as máquinas jamais poderiam oferecer.

Um robô não vive. Ele simula a vida, os sentimentos, e de forma bem primitiva. Ele só vê que os olhos robóticos conseguem processar (e, que eu saiba, o estado de espírito da pessoa não pode ser totalmente desvendado através de expressões faciais, batimentos cardiacos e outros sintomas físicos.)...não tem a mesma sensibilidade humana..duvido que qualquer tecnologia algum dia consiga armazenar as infinitas possibilidades, a complexidade do ser humano, principalmente psicológica. Só sendo Humano.


Na suposição, ele tem tudo o que quer, e não é feliz. Isso pode ser suficiente pra muitos hoje em dia. Para mim não é. Sempre escutei quando reclamava da falta de antenção da minha família ''você tem de tudo e ainda reclama''.

Eu tenho a necessidade de interagir com meus semelhantes (ainda não sei explicar porque) trocar idéias, tenho sonhos, tenho planos. Eu sofro com as pessoas que convivo, familiares, etc. Eles são vazios, sem opnião própria, sem objetivos importantes...sem sensibilidade. Só veem o que os olhos enxergam e nada mais...Parece que não vivem, não evoluem.

Talvez sejam essas necessidades que eu sinto(e outras mais) que esse homem também tinha, mas os robos desse planeta, incapazes de evoluir, não poderiam compreender.

É como eu me sinto, cercado de muitas pessoas..mas sempre sozinho.
Eu poderia definhar psicologicamente, e ninguém perceberia (acho q já acontece), e quando isso se tornasse visível fisicamente, poderia ser tarde demais.”

CosmO – OKT

Eu fiquei tocado com a sensibilidade dessa resposta. Se eu não estivesse organizando as resposta cronologicamente, provavelmente eu colocaria essa no topo. Não sou tão aberto assim em relação aos sentimentos ao ponto de reclamar que não recebo atenção, por exemplo. É mais natural pra mim ser agressivo, num postura defensiva onde eu afasto as pessoas. Apesar de o perfil apresentar o sexo masculino, há algo de feminino nessa resposta. E isso é bom, segundo a minha visão. Respondi a essa resposta:

Chegou ao ponto. Apesar de ser ficção, não é irreal.


Concordo contigo: só não acho que deve ser assim: existem pessoas com as quais podemos nos conectar. Que são pessoas, e não robôs. São raras, mas existem.

Solidão.


Talvez essa seja a melhor palavra que explique o ato.


E, não precisamos viver entre robôs para nos sentirmos sós, isso acontece em grande esacala.


Decobrimos que nosso crescente individualismo não nos trouxe paz interior, mas sim, nos trouoxe a solidão, a atomização, a dificuldade em relacionamentos, etc...


Por isso, entre outras tantas coisas, temos tantas pessoas "solitárias" entre a multidao.


O sentido da nossa própria existência se constrói junto com as pessoas que convivemos, com as pessoas que amamos.


É uma merda não ter ninguém pra desabafar, pra tomar uma cerveja na sexta depois do trabalho, pra dividir a pasta de dente, pra viajar, pra dar conselhos, pra sofrer junto, pra ver o sol se por, pra comer jujuba, pra receber presente surpresa, pra dar presente surpresa, pra deitar no colo, pra dar risada, pra chorar, etc...etc...etc...




Podemos ter todos os bens do mundo, como ele poderia ter, mas descobriríamos que ter todos esses bens não fariam o menor sentido se estivéssemos sozinhos no mundo.


O ato sexual com robôs, seria algo profundamente deprimente.


Na verdade, ele já é em muitas situações. Quando ele é movido apenas pelo prazer, sem uma relação de afeto e sentimento, ele se esgota na satisafação do prazer momentâneo, e trás à tona toda nossa "solidão", e insatisfação.


Há um termo que define isso que se chama: "tristeza pós-coito".


Agora imaginem ter apenas robôs como parceiros, seria realmente enlouquecedor...


A vida se tornaria insuportável, assim como se torna insuportável para tantos que cometem o suicídio por aí...


E, essa situação seria agravada pela falta de um ser humano se quer para se dividir as frustrações, angústias, medos, etc... Não haveria válvula de escape que não fosse satisfação momentânea de algum prazer material, que apenas pode distrair, nunca satisfazer.


Porque, ao que parece, o que nossa natureza exige é satisfação, e não distração.

Eduardo – OKT

Para mim essa foi a melhor resposta. Ela expôs de forma completa a minha idéia inicial e ainda conseguiu passar uma mensagem sentimental, coisa que poucas pessoas conseguem fazer em textos. Depois de ler as respostas, eu percebi novas e interessantes possibilidades, mas no começo, era exatamente essa a idéia que eu tive. Ele capturou e devolveu: sem necessidade de explicações complicadas, porque a questão foi bem simples. Temos muito em comum, ao que parece.

Os Andróides apesar de deter uma aparencia humanoide,não tem a capacidade de pensar como um. No caso o homem ficou louco em viver em um mundo onde todas as "pessoas" tem o mesmo pensamento,não existe questionamento,não existe perguntas.O condenado não poderia evoluir,não tem o que aprender.Todos em sua volta não tem nada para acrescentar para ele.
acredito q seja isso,ou algo parecido.

Henrique total90 – Y!R

Essa resposta foi muito parecida com a primeira exposta, do Pensador Zen. Ambas possuem formas diferentes, mas na linguagem do pensamento são assemelhadas de forma análoga: deixam claro que é necessário o contato com o diferente para evoluirmos, pois precisamos ser confrontados. Tenha isso o nome de evolução intelectual, psicológica, espiritual. No fundo, é a expansão da consciência recebendo nomes diferentes.

Não precisa ir tão longe para ficar sem RELACIONAMENTO meu caro essa é a essencia que faltou ao pobre HOMEM e isso explica tudo pois é simples lá ele se sentiu um HOMEM SEM AMOR pois tudo era feito atraves dele e para ele não tinha com quem partilhar dividir dar buscar e por ai vai.
E no nosso PLANETA foi nos dado TUDO sem simulação, deixou livre a PALAVRA e não é AUTORITÁRIO porque buscava e busca RELACIONAMENTO. Pois tenho a plena certeza se DEUS não tivesse a essencia de RELACIONAMENTO para com todos e tudo também morreria.

Salsicha – Y!R

Essa resposta ficou um pouco confusa, principalmente por causa das palavras com letra maiúscula e a pontuação precária, mas acredito que a mensagem é compreensível. Ele interpretou a questão espelhando-a na sua visão religiosa, o que era de se esperar, já que postei a pergunta na categoria de Religião e Espiritualidade. Não foi a primeira pessoa a associar a relação de Deus com o homem como análoga a isso: minha psicóloga também pensou assim. Porque Deus não suportaria viver com “robôs” ele criou o ser humano capaz de deliberar de forma relativamente autônoma. Deu a ele livre arbítrio, e assim pôde se conectar genuinamente com ele. Claro que isso é uma antropomorfização de Deus e não uma forma de argumentação teológica.

O que é a opinião, a instrução de um homem só? Nada mais é do que não é, ou seja, nada.


Ele já foi ao planeta com uma opinião formada do que tem-se como certo e errado, sem a opinião dos outros o que ele imagina que seja é. A realidade não passa de sua vontade, nada mais.


Então surge um confronto entre realidade e pensamento. O que ele pensa ser é, então o que ele nunca pensa jamais será? O que ele não decide não existe?


Sem o confronte de idéias ele não tem o que realmente, neste mundo, o seja. O que é real?


A realidade torna-se sua vontade, não tem-se o que realmente seja verdade, mas sim apenas sua opinião do que a seja.


Torna-se impossível de se viver em tal mundo, numa vida sem nenhuma possibilidade de reflexão do que seja verdade.


A morte é a única verdade absoluta, a única que se sobressai neste mundo, a única solução, a solução derradeira.

O mensageiro – Y!R

Apesar de eu concordar com tal reflexão filosófica, essa não era minha idéia original. Tal como a resposta do Chaves (segunda), essa deu uma significação mais ampla à questão. De fato, para quem, como eu, tem interesse em investigar o que é “verdadeiro”, a idéia de que isso não mais é possível tornaria a vida um terrível tormento. Claro que, no fundo, nós só acreditamos no que queremos, mas o contato com os outros muda nossas idéia, amplia nossas perspectivas e torna nossas posições mais profundas. Mas para isso acontecer, o contato deveria ser profundo, e os Andróides não poderiam fazer isso. Se ele os ordenasse que discordassem, deveria dizer a eles que argumentos eles usariam. Logo, nunca deixaria de ser um monólogo.


Apesar de ter toda a satisfação que uma pessoa desejasse, aquele homem percebia que os andróides só lhe faziam o que eram programados para fazer, não tomando assim, de forma alguma o status ou o lugar de humanos de verdade, que amam, odeiam, acariciam, brigam, etc.... Assim, se sentindo sozinho e vazio diante de tanta superficialidade, aquele homem preferiu dar cabo da própria vida, pois sabia que não poderia jamais ali encontrar outro ser humano de verdade .

Pimenta – Y!R

Nesse caso, há uma profunda analogia com a nossa sociedade e o drama do Outsider. Perceber que tudo é uma fraude nós mostra que estamos sozinhos e que tudo é vazio. Tudo é superficial e desprezível demais. Perceber que tudo é falso e artificial é terrível. E pior, perceber que essa estupidez é tudo o que há é desesperador.


Outro padrão de resposta também foi muito freqüente, embora eu não concorde com ele. É simplesmente baseado num paradigma que não aceito, mas não posso simplesmente ignorar por isso.

Tem uma história infantil que é mais ou menos assim, o rei que tudo tinha ou queria sei la. Pra resumir, o homem tem suas ambições, são elas que o conduzem e o estimulam para progredir na vida, uma vez cumpridas as ambições, a vida perde sua importancia e significado, então, novos objetivos são procurados. Uma pessoa que tem tudo e não precisa de mais nada é uma pessoa que não tem objetivos, logo, é uma pessoa sem razão para viver.

Breno Crispino - OKT

Quando se presume que nós somos apenas criaturas condicionadas por impulsos e pelo condicionamento da sociedade, tal pensamento é uma conseqüência fatal. Considero tal ciclo uma enorme futilidade. Na verdade, a ascese é uma boa demonstração de que o ser humano pode simplesmente negar tais coisas. Por mais que se diga que ela é condicionada socialmente, o que nos dias de hoje é absurdo, alguém um dia decidiu viver assim. Isso foi contradizer a sociedade e os impulsos. Foi deliberar. Acredito que o ser humano pode ir além de tais futilidades, mas essa crença eu não tenho como provar isso definitivamente: é um desejo, e não por isso deve ser falso.

Acho que a resposta está relacionada à pirâmide das necessidades de Maslow.


O homem vive para alcançar seus objetivos/necessidades, e assim alcançar a satisfação pessoal.


Sem objetivos para alcançar a vida não tem conquistas nem satisfação pessoal. Daí se deduz o restante.

Liane – OKT

Mais uma vez, o ciclo. O ser humano, aqui, não passa de uma maquina. Exatamente como um cão, que só faz tentar satisfazer suas necessidades ao simular comportamento amigáveis. É uma visão Freudiana do convívio social. Particularmente, prefiro a de Fromm, que se reflete nas primeiras respostas. É bem explicitada no livro “O Medo à Liberdade”.

Eros se extinguiu pela ausência do thanatus q o ressuscita, do inferno do outro.
.....
Será possível se matar no céu?

Ronis – Y!R

Esse usou até os termos que Freud usava. Mas tocou na questão religiosa e foi bem profundo. Primeiro, demonstrou que as adversidades são um estímulo que gera equilíbrio com os desejos. Eros e Thanatus. Depois acrescentou um comentário que a maioria não entenderia. Por que a idéia de paraíso é muito fútil. Se trata de Eros sem thanatus. Puro prazer sem nenhum tipo de mal. Sem a pulsão de morte. Na verdade, tal paraíso seria um ego perpetuamente inflado. É claramente a idealização de uma pessoa que não tem discernimento profundo sobre a existência. Digo isso porque o prazer sem a dor se torna tédio. Realmente, a dor se faz necessária, porque parece que na nossa cultura nós só nos dispomos a mudar quando diante dela. Não era essa a minha idéia, mas foi uma resposta excelente.
No entanto, segue aquele padrão de satisfação e desejo. Aquele ciclo que eu desprezo. Precisamente por isso que eu coloquei essa resposta com as últimas, por mais que ela sej aprofunda.


Tentei pensar em porque eu me mataria, ai vi que o que mais desencantaria é exatamente o "dolce far niente".
O ócio ,as vontades e desejos prontamente atendidos acabariam por levar-me a paralisia ,a falta de estimulo e consequente depressão.


Desafios em diferentes níveis são o que torna a vida digna de ser vivida.
Acho que este paraíso de abundÂncia, satisfação infinita e nada a fazer seria meio caminho andado para a morte física e mental.

Lirio – Y!R

Mesmo padrão do ciclo. Bem característico da nossa sociedade capitalista, que propaga essa forma de pensamento: que o ser humano precisa estar sempre sendo desafiado e sempre fazendo conquistas. O paradigma do agir sempre, que torna a nossa sociedade produtiva: a nossa fábrica de workaholics. A conquista sempre tem que ser externa e material. Não nos mandam conquistar um amigo, ou conquistarmos a nós mesmos.

Algumas respostas saíram fora desses padrões, mas não por isso deixam de ser interessantes:

A mais ou menos um ano e meio eu moro sozinho e só fico absolutamente tranquilo quando estou sozinho.


Os únicos aborrecimentos que tenho são: ou quando estou no trabalho, cercado de gente ou quando estou pensando nessa gente junto ao trabalho.


Logo: acho que adoraria receber essa pena de ir morar nesse planeta, sem nenhum pentelho para me encher o saco.

EwErToN – OKT

O indivíduo parece não demonstra qualquer necessidade de expandir a mente através dos outros e também não parece se importar com o contato com o próximo. Na verdade, as relações que ele tem  parecem ser bem superficiais. Então a compreensão de relação que ele tem não pode ser profunda. Se não há a compreensão de um tipo profundo de relação, então realmente esse planeta é um paraíso. Sem aborrecimento e cheio de prazeres carnais. Na verdade, creio que a essa resposta faltou profundidade.

Trabalho, aflição, esforço e necessidade constituem durante toda a vida a sorte da maioria das pessoas. Porém se todos os desejos, apenas originados, já estivessem resolvidos, o que preencheria então a vida humana, com o que se gastaria o tempo? Que se transfira o homem a um país utópico, em que tudo crescesse sem ser plantado, as pombas revoassem já assadas, e cada um encontrasse logo e sem dificuldade sua bem-amada. Ali em parte os homens morrerão de tédio ou se enforcarão, em parte promoverão guerras, massacres e assassinatos, para assim se proporcionar mais sofrimento do que o posto pela natureza. Portanto, para uma tal espécie, como a humana,nenhum outro palco se presta, nenhuma outra existência.
(Parerga e Paralipomena, cap XII, § 152)

Duan – Blogger

É principalmente focado nas circunstancias externas, tal como estava a própria pergunta. No entanto, não é só para a existência física que tal coisa se aplica. Na verdade, nós sempre precisamos desse thanatus, dessa pulsão de morte. Como Schopenhauer apontou, sem esse thanatus na natureza o homem criaria um por conta própria, porque está em sua natureza a necessidade por conflitos. Pessoalmente, imagino que esses conflitos não precisariam ser necessariamente físicos. Mas, obviamente, para algumas pessoas (que são diferentes de mim), ele se tornaria fatalmente físico. Uma pessoa que vive sem adversidades íntimas e externas simplesmente não se move para lugar algum. A dor é um grande motor para o nossa existência, e o próprio Nietzsche apóia tal posição.

Duas pessoas se arriscaram a dizer que o fim foi arbitrário e que poderia muito bem ser outro:

“Não é real, no final que inventou podia muito bem botar: "Então ele virou um dinossauro e.... ou então ele criou chifres e ...." isso não é muito questionnvel!”

Stefersson – OKT

“É uma conclusão tão definitiva assim de que o cara vai se matar?
Será q não existe outra possbilidade?

A filosofia me diz que sim...”

Fernando – OKT

Tal questionamento é basicamente uma fuga do assunto. Não perguntei se a pessoa achava provável que o indivíduo se mataria. Estava no passado: ele já tinha se matado. Não se tratava de uma pergunta com uma resposta pronta e absoluta, mas muito mais de uma pesquisa de opiniões. O que eu queria é que as pessoas imaginassem a situação e se colocassem no lugar do sujeito. Que pensassem: porque eu me mataria?
A maioria conseguiu responder a essa pergunta, mesmo com opiniões diferentes da minha. Dizer que o final poderia ser outro ou, de forma mais direta, que o final foi simplesmente inventado é como imaginar que o indivíduo na verdade não teria realmente um motivo para cometer o suicídio. Noutras palavras seria imaginar que a situação poderia muito bem ser satisfatória.
No meu convívio social, de forma deprimente, eu fui levado a crer que isso não é falso. Perguntei isso a pessoas próximas, que obviamente não vou identificar, e fiquei perplexo com o padrão de respostas. Disseram que não há motivo algum para se matar nesse mundo. Aliás, há uma resposta análoga a essa na comunidade Filosofia (que não recomendo). O indivíduo disse que o personagem se matou porque é um idiota.

Nessas respostas pode-se ver dois padrões que parecem ter algum fundamento psicológico. Funcionam com lógicas bem diferentes, mas não consigo deixar de vê-los como complementares. Particularmente, eu não vejo nenhum sentido nos desafios como as pessoas os entendem. Pra mim, lutar por uma promoção, para ter uma casa maior, ou qualquer tipo de conquista externa é uma enorme perda de tempo. Mas se todas as pessoas fossem assim, provavelmente nossa tecnologia não poderia estar como ela é hoje. Seríamos ainda monges vivendo em meditação e iluminação íntima. É natural para mim presumir que o que matou o indivíduo foi a solidão, já que ele não tinha contato real com ninguém. Na verdade, essa era uma ilustração da nossa própria sociedade, que é tão presa a convenções e formalidades que pode colocar dez pessoas juntas numa sala e ainda manter todas elas totalmente solitárias. Pro mundo externo, as pessoas mostram um comportamento robótico, por vezes completamente alheio ao que elas são. Precisamente por isso, na internet os fakes são muito freqüentes: porque com eles os indivíduos podem exibir tudo aquilo que é proibido à sua posição social.
Por outro lado, há desafios que as nossas relações com os outros criam. Geralmente, o maior desafio é conseguir efetivamente entender outras pessoas. Para isso, devemos abrir mão do que somos. Entender a pessoa pelo que ela é, que é diferente do que tentar se imaginar no lugar dela, como se ela tivesse a obrigação de ser como nós somos. Nessa caso, não se trata propriamente de um desafio externo, mas de um interno. E também não é apenas a boa sensação que temos quando estamos conectados: é expandir a consciência. E isso é um enorme desafio. Concordo que, sem desafios, o ser humano mergulharia num enorme tédio. Mesmo estando conectado com um amigo profundamente, se osdois estiverem parados e sem nenhuma perspectiva, não terão nem como dar continuidade a essa conexão. Afinal, isso envolveria compartilhar coisas, e não teriam nada a compartilhar.
Vejam que me refiro à coisas completamente abstratas aqui, que diferem totalmente de bens práticos. Tenho grande dificuldade em valorizar coisas físicas. Parecem indignas. Talvez por causa da minha criação no meio cristão ou do meu tipo psicológico.
É interessante, também ressaltar a questão do thanatus, que foi levantada pelo Ronis e expandida pela citação de Schopenhauer feita pelo Duan.
Não se trata de um desafio amistoso, como entender outra pessoa ou construir alguma coisa útil à todos. É, pelo contrário, sofrimento intenso. Basicamente, era pra poder caçar e fugir que o homem antigo aprendia a correr. Por isso que é mais fácil encontrarmos muitos corredores numa tribo a savana do que na nossa sociedade: não precisamos mais correr por nossas vidas como antes. Não em todos os lugares. Afinal, por mais que o indivíduo seja rápido, ele não vai fugir de balas perdidas.
Mas nós comemos porque somos atormentados pela fome, bebemos por causa do tormento da sede. Trabalhamos por causa do medo de sermos excluídos da sociedade, estudamos, de um modo geral, para podermos sobreviver na sociedade. Ou seja, é por medo do sofrimento. Dificilmente algo diferente da dor motivaria as pessoas.

Lembro da época do segundo grau, em que uma menina decidiu se aproximar de mim. Naquela época eu era muito hostil.
Ela afirmava que eu era o único garoto consciente ali, que se preocupava com o futuro. Que eu lia porque eu sabia que aquilo seria útil pra minha vida, pra eu ter um bom emprego. Geralmente eu a respondia com monossílabos, mas uma vez eu dei uma resposta direta:

“Você acha que eu estou lendo aqui pra me preparar e ser um bom escravo? Não me importa nem um pouco ter um bom futuro. Eu não me envolvo com as pessoas daqui porque elas são idiotas. Eu estou lendo esse livro porque eu acho que ele vai expandir a minha mente e meus conhecimentos. Eu aprendo porque eu gosto e não porque no futuro isso vai me beneficiar financeiramente. Por favor, você acha que ler Schopenhauer ou Goethe vai me fazer ter um salário melhor? Tudo isso aqui é uma merda e essas matérias que nos obrigam a decorar são questionáveis(falava do colégio).”

A única coisa que ela entendeu da minha resposta foi o tom de voz, que a deixou chateada. Depois desse dia, ela passou a me detestar. Não a culpo.
Imagino que tenha sido impossível pra ela entender o fato de que eu estava lendo simplesmente por ler. Na verdade, não era bem isso. Eu estava lendo os aforismos para sabedoria de vida, de Schopenhauer. Estava gostando daquela visão. Eu só estava ampliando meu desprezo pelo mundo. Estava realizando meu desejo. Não era nada externo, mas era um desejo, de qualquer maneira. Na verdade, também era uma fuga da dor, e portanto, toda a leitura e reflexão ali envolvidas eram motivadas basicamente pela minha necessidade de fugir da dor que meu isolamento social me causava.
De forma resumida, eu li livros e passei horas refletindo pelo simples fato de que eu estava sofrendo. Sem tal sofrimento, eu nunca teria assimilado aquelas lições, que até hoje considero valiosas, embora as veja de forma diferente.
Acredito que ele pode ter se matado por um dos motivos, dependendo de como ele era. No entanto, eles podem coexistir separadamente. Não como se fossem um motivo só, mas duas fontes diferentes de sofrimento: solidão e tédio. E o tédio existe sem solidão, e vice-versa. É porque sofremos com a solidão que queremos conexão em primeiro lugar, da mesma maneira que sofremos com o tédio. Para unir, talvez seja interessante colocar o sofrimento como força motora.
Não sei dizer por qual dos motivos eu me mataria, mas sei dizer que me mataria.