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O encontro com Perséfone

- Atenção, homens, pois hoje veremos mais um rio de sangue. – disse o gigante sem nome
- Ele está certo! – gritou Emanuel – estou sedento!

Os homens gritaram, alguns ainda de posse das mulheres da última batalha. Há dois dias haviam dizimado um feudo. Não queimaram nenhuma casa, embora apenas meia dúzia de pessoas tenha conseguido se esconder e sobreviver. Colocaram uma estaca na terra com o crânio do senhor daquelas terras e a declararam maldita.

- Iremos eu, meu irmão e mais cinqüenta homens. Quero comigo somente os cães mais sedentos, as bestas mais insaciáveis. O resto pode continuar bebendo e usufruindo as mulheres. Se mais de cinqüenta quiserem, se matem pelo direito, pois nenhum a mais me seguirá. Vamos lutar contra 300 soldados e toda a criatura que possuir vida naquele castelo.

Os homens gritaram e se acumularam em torno de Emanuel. Alguns se mataram, e no final se formou a tropa, alinhada. Todos eles sorriam, seus olharem brilhando diante do sol nascente. Todos estavam montados em sues cavalos.

- Não temos o dia inteiro! Vamos! – gritou o gigante sem nome

Os dois irmãos correram a pé, à frente da tropa. Sua velocidade de corrida era maior do que a de um cavalo, então a reduziram para os homens não os perderam de vista. Emanuel sentiu um frio na espinha. Algo como um presságio. Ele seguia um sonho, que compartilhou com seu irmão. Ambos viram, na noite anterior, que deveriam perseguir a estrela que ficava acima da torre daquele castelo. Difícil ver outros casos em que dois irmãos compartilham tantos sonhos assim. Correram por quatro horas até avistarem o castelo.

- Deixem seus cavalos aqui, homens. Agora marchamos a pé – disse o gigante sem nome
- Pego a direita, irmão? - disse Emanuel
- Sim, como preferir. Mas subimos à torre juntos.

Emanuel rosnou com empolgação e os homens gritaram logo em seguida.

- Vamos, seus cães. Em nome da morte! – Berrou Emanuel

E todos correram em direção ao castelo, demorando mais vinte minutos para chegarem perto da zona de alcançe dos arcos da muralha. A corneta de alerta soou e o portão se fechou. Arqueiros lotaram a parte superior do muro. Um cavaleiro saiu do castelo para negociar a rendição.

- Não queremos problemas com o imperador. Nosso rei não desafia sua autoridade. Podem levar nosso ouro e nossos animais. – disse o Arauto
- Não estamos a serviço do imperador, tampouco queremos sua propriedade. Nós viemos atrás de sangue. Somos 50 e desafiamos vocês a luta.
O homem se espantou. Pálido, deu as costas à Emanuel e voltou para o interior do castelo, onde o Rei o esperava. Sem perder a compostura, o Rei convocou seus soldados e fez um inflamado discurso, do qual só se pode ouvir um grito: “até a morte!”
Pelo menos 500 soldados saíram pelos portões, dos quais 200 possuíam montaria. Emanuel sorriu, tendo em vista que tal quantidade de soldados era proibida pelo imperador. Eram conspiradores, o que justificava a carnificina. Não teriam problemas com Frederico.

- Não deixem nenhum homem, velho ou criança vivos! As mulheres, quem quiser as tome para si!

Ele gritou e os homens avançaram, debaixo das flechas dos arqueiros. Dos cinqüenta, dois foram atingidos, enquanto que os outros conseguiram se esquivar ou se defender com seus escudos. As tropas do castelo avançaram e os dois irmãos saltaram, cada um do seu lado. Emanuel com sua Espada da Morte, e o Gigante apenas com seu gigantesco escudo.
O Gigante lançou um cavaleiro a dois metros do cavalo quando caiu, dando em seguida um giro que matou alguns e afastou outros, que se esquivaram. Quando Emanuel caiu, cortando três homens ao meio, ele berrou, ao que seu irmão o acompanhou.
Os inimigos mal atacavam, paralisados de medo dos irmãos, enquanto a tropa de cavaleiros negros se chocou com a formação de infantaria na linha de frente.
Não muito diferente de outras batalhas, essa durou pouco tempo. O gigante matava uns com o impacto do escudo e outros simplesmente os pegando e mordendo, como preferia. O exército logo de dissipou, e foi perseguido até certo ponto. A maioria dos soldados foi dizimada.
Os arqueiros voltaram a atirar, derrubando dez dos cavaleiros negros antes que eles fizessem a formação de proteção com o escudo.

- Esperem o nosso comando! – berrou Emanuel enquanto corria na direção da muralha.

Os dois irmãos saltaram em direção aos muros e caíram próximos ao topo, escalando o resto. Os poucos arqueiros que não estava amedrontados e conseguiram atirar acertaram algumas flechas neles em pleno ar, o que pareceu não ser de grande incômodo. No topo, rapidamente avançaram partindo em pedaços os arqueiros. Alguns se jogavam do muro em direção á morte certa, por puro medo dos gigantes. Ouvia-se gritos dentro do castelo.

- Os Demônios! Os Demônios!

O último arqueiro pegou uma adaga e atacou Emanuel. Em seu desespero, tropeçou e caiu. Ele fechou os olhos, esperando ser esmagado, e Emanuel o ergueu com o braço esquerdo. Ele berrou e os soldados avançaram na direção do portão. O homem desmaiou de terror e foi lançado em direção a torre, sua cabeça como a ponta de uma lança. O Gigante abriu os portões e os soldados entraram. Pessoa corriam de um lado para o outro, desorientadas. Aparentemente essa era a única saída disponível.
Pessoas pedindo clemência, outras desmaiadas ou fingindo-se de mortas. Incrível como diferentes táticas surgem para a sobrevivência. Mas um Cão bem treinado não se deixa sensibilizar ou enganar.
Logo o último grito se silenciou, sobrando apenas murmúrios de dentro do castelo trancado.

- Descubram um meio de arrombar a porta e nos encontrem lá dentro. Estuprem a rainha! – Gritou Emanuel

Os dois irmãos saltaram e escalaram as paredes, cada um entrando numa janela. La dentro, alguns soldados o enfrentaram. Era difícil dizer se eram corajosos ou simplesmente suicidas. Pareciam, no entanto, guardar um enorme tesouro, que logo Emanuel pôde contemplar.
Numa espécie de salão principal, ele encontrou um grupos de clérigos, nobres, serviçais e soldados. Pela aparência das vestimentas, parecia que um casamento estava acontecendo. Ele e o irmão saltaram do segundo andar para um lado daquele salão, enquanto que os outros se amontoaram do outro. Todos apavorados, menos alguns soldados, que foram rapidamente massacrados.
Eles avançaram sorrindo e com curiosidade nos olhos. Buscando humilhar o Rei, convocaram a Noiva, sua filha.

- Onde está a Noiva!? - Gritou o Gigante

Ninguém respondeu, e ele logo avançou a começou a matar as pessoas que corriam e se empurravam. Emanuel, no entanto, a avistou. E não pôde acreditar. Era ela, a sua guia dos sonhos. Ela mesma, vestida de branco.
Os homens conseguiram arrombar a porta e se uniram ao Gigante na matança, enquanto Emanuel se apressou em capturar a Noiva. Pegou-a em seus braços e saltou de volta para o segundo andar. A deixou lá e desceu para avisar o irmão. Acabou se distraindo e matou algumas pessoas. Os homens perceberam a noiva e subiram ao terceiro andar para estuprá-la. Ele, prontamente, saltou e volta e matou o primeiro.

- Quem tocar nela morrerá. É minha e do meu irmão. – Disse Emanuel

Os homens recuaram e voltaram ao primeiro andar, onde as mulheres foram agrupadas. Dos cinqüenta iniciais, trinta estavam de pé. Avançaram sobre as mulheres, como de costume, matando algumas e estuprando outras.

- Irmão! Meu irmão! – gritou Emanuel

O gigante subiu rapidamente, pois nunca foi chamado com tanta urgência por Emanuel. Chegando lá, logo se viu hipnotizado pela visão da princesa.

- Perséfone! – exclamou ele
- Que nome é esse? - perguntou Emanuel
- É o nome de nossa mãe! Não se lembra
- Não lembro de nada sobre nossa mãe. Aliás, com freqüência imagino que ele nunca existiu.
- Pois existiu, e cá está renascida!

Os dois ficaram pasmos, olhando para o olhar vazio da moça. Emanuel, invadido por uma estranha emoção, nem se movia. Ele não sabia o que fazer com tal emoção. Parecia tão poderosa quando seu ódio, podendo fazê-lo desvanecer ou aumentá-lo. Aquela estranha força, que ele chamou de Amor em nome de Matias, parecia um espírito livre agindo em seu corpo e sua alma. Aqueles cachos loiros voando com a brisa vinda da janela, aquelas marcas de lágrima secas no rosto. Cada mísero detalhe ele armazenava. Era um Anjo¿ Só poderia ser de origem divina, para paralisá-lo de maneira tão forte. O despedaçava, embora a sensação fosse melhor do que qualquer chacina.

- Hades, o Deus do Submundo, deve ter-nos presenteado por termos mandado tantas almas ao seu encontro. – Disse o gigante. – Os Deuses nos favorecem.
- Não há deus algum nos céus. Há apenas uma Deusa, que habita entre nós. Ela é a deusa da morte e da vida, da destruição e da construção. Ela odeia e ama, acolha e abandona.
- Então talvez tenha sido ela a nos presentear de tal forma. É apropriado que aceitemos tal presente, o honrando com maiores e mais grandiosas chuvas de carne e sangue.

Emanuel concordou e pegou a mulher. Ela não reagia. Parecia estar morta, embora seus pulmões ainda se enchessem de ar. Seu espírito estava noutro lugar, alheio àquela situação. Seus olhos pareciam tão vazios quanto os de condenados esperando a morte. Aquele olhar que toma o ser humano quando a palavra esperança não tem mais nenhum significado.
Eles saíram do castelo, se deparando com a lua. Os homens carregavam mulheres. Eles perderam a noção de tempo, olhando para Perséfone.
A pele dela era tão macia, tão quente... Emanuel esfregava o rosto no braço dela, enquanto observava seu vestido cheio de sangue e lama. O sangue de sua família e a lama de sua terra, todos agora uma coisa do passado.
Surgiu nele uma coisa diferente. Amor, Luxúria. Um impulso por vida.
E assim foi o encontro de Emanuel com Perséfone, e o nascimento do Amor no coração de um cão do submundo...

Sim, a carta é pra você

Já faz tempo que não te escrevo, não? Nem sei quem você é!
Eu fui lá fora. Quero dizer, fui arrastado pra lá. Descobri que por lá as coisas não são como eu imaginava. Há todo um mundo onírico, sabe? Demasiadamente idealizado. Lá, onde o sol se recusa a bater, há homens com honra, e outros sem. Onde eu fui quem morre primeiro é quem não merece. Quem merece também morre. Às vezes cedo, as vezes não.
Lá fora são curvas que governam o mundo, sabe? As curvas do corpo de uma mulher, as que tomamos na vida. O problema de uma jornada repleta de curvas é que você nunca sabe onde vai chegar. Você olha e imagina, mas no fundo não sabe de nada. É tudo imaginação. Alguns têm a sorte de descobrir a tragédia apenas tardiamente, mas outros a descobrem cedo.
Descobri.
Não, a vida de um homem não vale tanto na vida real quanto no nosso mundo imaginário. Na vida real, um homem é um número. Alguns, os gananciosos, são números com muitos zeros.
Eu sei o que você vai me dizer. Que homens possuem almas. Mas de que adianta se eles vivem num mundo que exige que sua alma nunca venha à tona? Esses homens morrem cedo, lad. Morrem tão cedo que na maioria das vezes nunca entendem o que pode ser a alma. E quando entendem, perdem a consciência.
O máximo que podem aprender é a ter honra. A respeitar uma lei, aceitar algo acima de suas cabeças. Eles vivem em mundos separados, cada um no seu jardim...
A carta é pra você, mas não é sobre você e nem sobre mim. Ela é sobre a vida. Sobre se sentir vivo e perceber que isso em breve será sentir a vida ir embora.
Eu posso sair amanhã ou na quarta, e, nalgum desses dias, um daqueles metais voadores pode perfurar meu crânio, um carro pode me lançar a alguns metros de distância. Você sabe que tudo isso é muito efêmero.
Nós falamos muito sobre o mundo metafísico e até mesmo sobre o mundo psicológico.  Exploramos juntos o poder que um homem pode ter sobre a mente e sobre o corpo do outro.
Mas vamos encarar a verdade: a realidade desse mundo nos torna impotentes. Não somos mais espíritos. Todo o poder de um homem astuto se vai quando ele leva um tiro na cabeça.
Sejamos sensatos: tudo isso é muito maior do que imaginamos. É muito maior do que poderíamos imaginar.
Eles me disseram que a cada dia minha fé seria testada. Esqueci de avisar que eu não tinha fé.
Agora o que eu sei é que uma bala pode ser mais rápida que um pensamento. Agora eu tenho fé no fato de que a morte é certa, mas a vida não.
Eu vou construir idéias que serão capazes de curar a mente de homens. Já construíram isso, e conforme o tempo passa, nós chegamos aqui pra reconstruir, readaptar à nova época.
Mas dessa vez tem algo a mais. Eu não vim mostrar isso. A cura, uma cura. Meu espírito me carrega por terrenos sombrios. Cada vez mais podres são os caminhos para os quais sou levado, e é cada vez mais perigoso e sem volta o meu destino. Será que sou mesmo um mensageiro da morte?
Eu tenho ainda um lugar entre os anjos, lad? Lembram de mim por aí? Avise-os que talvez eu tenha ficado tempo demais na terra dos demônios. Nunca poderei ser um deles, mas perdi o brilho dos meus olhos. Eu não posso mais voar, bem aventurado pelos céus do universo. Não posso mais. As minhas lágrimas secaram.
Nem sei o que estou escrevendo. Você existe mesmo? Quem é você, quem sou eu, quem somos nós?
Essa carta é sobre a minha morte. Isso mesmo. Sei que não acreditamos na morte do corpo, e que concordamos sobre a nossa alma se conservar por um tempo tão longo que nos arriscamos a chamá-lo de eternidade, por ser tão longo que não o entendemos. Mas eu hoje morri. E não precisa guardar a data, porque tempo não existe. Amanhã devo nascer de novo, com as marcas das feridas pelo meu corpo. Então viverei mais um pouco e serei assassinado mais uma vez. Ser assassinado nesse mundo é um destino do qual poucos podem se livrar.
Porque enquanto o pedaço de metal voador perfura a cabeça de um homem, seja ele quem for, ele também atinge a minha alma, e ela se torna mais dura, mais ferida.
Alguém morreu hoje, e o que eu vou fazer?
Morrer também!
E continuar morrendo enquanto os pedaços de metal continuarem a matar os homens. Acho que vou morrer tanto, que me tornarei imortal. E aí a morte dos homens se tornará tão comum, que nem aos milhares, ao milhões, poderá me comover. Quando e se esse dia chegar, deixe de esperar minhas cartas. Estarei ocupado demais existindo como uma rocha. Só a chuva poderá me corroer, e me transformar em pequenos pedaços. Aí, esses pequenos pedaços entrarão novamente no ciclo de todas as coisas.
Sim, lad. A carta é pra você. É pra todos e pra ninguém...

Biohazard: a limpeza (parte 4)


Zumbis...
Um adjetivo simplório que eu costumava atribuir àqueles que não pensavam por conta própria. Sempre notei, no mundo, um conflito entre bem e mal, onde o mal é a escravidão e o bem a liberdade. Sempre acreditei que conseguiríamos vencer. Que o ser humano é destinado a ser livre. Mas isso não aconteceu. Somente a fatalidade existe agora. As esperanças acabaram, esse é o fim da humanidade.

- ô Roberto. Bora planejar?
- Sim, vamos.

Isabela chegou do meu lado, abraçou meu braço e sussurrou no meu ouvido.

- Há uma saída alternativa. Um duto de esgoto que sai no depósito e vai direto para a rua.
- Porque você não fala isso a todos? – sussurrei a ela em resposta
- Porque a minha alma precisa ainda se construir. Respeite meu tempo.
- Tudo bem.

Os soldados e o sargento nos olhavam. Pareciam um pouco confusos.

- Escutem. Essas coisas são extremamente irracionais, então podemos usar isso como vantagem. Há uma saída pelo esgoto que usaremos como plano B. Se algo sair errado, os que saírem entram pelo esgoto.
- Mas aí eles entram no mercado, porra.
- Não. Nós temos muita munição. Eles vão descer um por um. Os corpos vão se empilhar.
- Caralho, você é cruel.
- Se eu não for, eles serão.
- Então ta tudo certo. Costa, você vem comigo. Roberto, você explode o carro. Vocês três vão me dar cobertura pelo telhado.

O sargento realmente tinha voz de comando. Sua voz transmitia um ar de dignidade que nos impelia à obediência. Claro que tudo foi questionado e estabelecido, mas isso poderia, noutra circunstancia, ser uma forma de alienar indivíduos.
Foi difícil para mim subir no telhado: o rifle é muito pesado. Na em cima, notei que eram muitos os monstros. Um certo desespero tomou conta de mim. Aquela multidão me apavorava profundamente. Um mar de mortos, todos prontos para me devorar.
fixei o rifle no chão apontado para o tanque de um carro a uns quinhentos metros de distância. Olhei para os soldados, que tinham rádios e receberiam o aviso de “Ok” do sargento.
Os soldados me deram o sinal e eu disparei alguns tiros contra o carro. A primeira rajada não surtiu efeito, mas a segunda causou uma grande explosão. Como eu havia planejado, explodiu também outro carro que estava bem ao lado na mesma garagem. Os monstros correram desesperadamente naquela direção. Apenas um ficou. Talvez esteja surdo. Acertei um tiro na cabeça dele, e isso me trouxe uma sensação de bem estar. Sem estar vivendo isso eu jamais acreditaria no prazer de matar. Agora que matar se tornou justificado, posso saborear esse prazer sem nenhum limite. Matei mais dois eu corriam e deitei no telhado. Olhei pro céu. Estava cheio de nuvens, mas claro. Pela posição do sol, suponho que seja manhã. Não tenho relógio.
Um monstro notou Alberto e o sargento Silva instalando o explosivo e berrou, ao que um soldado imediatamente lhe meteu uma bala na cabeça. Mas isso foi inútil. Os monstros não eram tão burros quanto se imaginava, e logo percebi a horda correndo de volta desesperada. Eles pareciam ter ódio nos olhos, um ódio mais perceptível.
Matei alguns, mas viraram na esquina e o cinema me impedia de atirar neles. Corri para a parte dos fundos pelo telhado e de lá já pude vê-los chegando.

- O esgoto, porra! O esgoto! – gritei a um dos soldados.

O sargento correu em direção ao esgoto e Alberto veio para a porta dos fundos. Isabela havia trancado essa porta. Havia um deles logo atrás de Alberto, e o mordeu, ao que ele disparou três tiros com a pistola na cabeça do agressor.
Correu desesperado para o esgoto em que o sargento já havia entrado e tentamos, como pudemos, dar cobertura a ele. Eu preferi matar os que vinham mais distantes por medo de acertá-lo.
Ele pulou dentro do esgoto, e os monstros fizeram o mesmo. A ação dos monstros foi tão parecida com a dele que desconfiei eu ele também estaria infectado.
Desci do telhado correndo e caí de cabeça no chão. Fiquei conto, mas continuei correndo, batendo nas prateleiras e derrubando produtos. Cheguei na abertura de esgoto e ouvi os gritos do sargento. Abri e ele subiu desesperado. Alberto estava parado no meio do caminho tentando criar a parede.

- Ele foi mordido, sargento. Já era.
- Caralho, então eles vão vir pra cá. Tão fazendo o que no telhado, soldados? Cai pra cá, caralho!

Alberto chegou diante da escada com a pistola na mão. Parou e nos olhou por uns instantes. Pensamos que ele poderia estar ainda consciente, ma ele berrou e tentou súber a escada para dentro do mercado, ao eu o matamos.

- A gente não pode atirar ao mesmo tempo, Roberto. Vamos ficar sem munição ao mesmo tempo, e aí fodeu.
- Beleza.

Sargento Silva estava nervoso, mas não perdeu o controle. Ficou atirando nos monstros assim que se achegavam na escada. Um tiro de cada vez. Pegou minha arma e também atirou com ela. Largou o dele para eu recarregar, mas eu não sabia fazer isso. Por sorte, esse fuzil continha trinta balas, e eu só havia dado uns dez tiros. Então ele foi matando um por um, até que os soldados chegaram começaram a atira também.
A montanha de mortos foi se avolumando, e no final os mortos já tinham que arrastar os corpos para fora do caminho. Mesmo assim, com o tempo isso se mostrou inútil.
Como eventualmente algum poderia conseguir passar, colocamos uma caixa grande cheia de ração para cachorro em cima do bueiro.
- cadê aquela vadia!? – gritou o sargento.
- Que foi, cara? – disse eu.
- Ela amtou o Alberto, caralho! Puta de merda!
- Mato pe o caralho. Se ele entrasse aquele monstro entrava também. Ele tava na cola do Alberto.
- Vai tomar no cu! Ta defendendo ela porque ta apaixonadinho, seu viado. Ela fez merda. Caralho, ele atirava bem! Ela nem agüenta o peso de um fuzil! Puta que o pariu!
- Vai à merda, porra. Quer dizer que ele só te servia pra atirar. Seu egoísta.
- Cadê ela?

Isabela entrou no depósito com uma pistola na mão.

- Sei atirar sim. Posso te matar agora, seu estuprador de merda.
- Os soldados apontaram os fuzis para ela e eu apontei minha pistola para eles.
- Vai ficar do lado dela mesmo, Roberto. Vocês dois são inúteis. Não têm nenhum treinamento. Se matarmos você a gente não perde nada.
- Augusto - falou um dos soldados abaixando a arma.
- Eu? Disse eu
- É esse o meu nome. Meu nome não é soldado.

Ficamos por alguns instantes em silêncio, E augusto passou para o nosso lado.

- Agora são três contra três.
- Caralho, Palhares. Vai trair seu sargento?
- Prefiro te trair do eu trair a mim mesmo. Tomar no cu, você ta errado.
- Errado nada, cara. Ela fechou a porta e o costa morreu!
- Se ela não tivesse fechado eles iam entrar.
- Iam porra nenhuma!
- Não há utilidade em brigarmos entre nós. Há uma horda de mortos vivos lá fora. Se não trabalharmos juntos, acabaremos mortos.
- Vai tomar no cu. Eu não vou colaborar com essa vadia.
- Não é vadia...
- É sim. Vamos logo explodir esses miseráveis.

Todos abaixamos as armas e o sargento passou por nós. Foi para a parte da frente do mercado, onde ficava a saída para o telhado. Ouvimos a sirene tocar, e os berros dos monstros correndo até lá. Depois de alguns segundos, a explosão.
O chão tremeu, mas estávamos os três parados ali. O que seria de nós dali pra frente?

- Augusto. – disse eu
- Oi – respondeu ele.
- Valeu. Você nos salvou.
- Digo o mesmo, cara. Me salvaram dessa servidão. Nem tinha mais sentido obedecer ao sargento se o exercito caiu.
- Caiu?
- É. Agora só vai sobreviver quem conseguir chegar no sul. Ninguém vai vir resgatar sobreviventes.

Biohazard: a limpeza (parte 3)

No mercado o tempo parecia que não passava. A bateria do meu relógio acabou e eu nem queria mesmo saber as horas. Comemos primeiro os pães e as coisas que a gerente disse que estragariam rápido. Minha mente fervilhava com idéias sobre denunciar toda essa desgraça, mas vendo os fatos, é difícil acreditar que eu possa sobreviver. Já passou uma semana, eu acho, e os monstros lá fora continuam de pé normalmente. Como é que essas coisas conseguem?

Eu só vivia dentro de casa, então não conhecia muita gente. Mas reconheço alguns. Tem o cara da padaria. Grandão. O segurança do banco, a mulher da loja de presentes. Vai ver se não tivesse vindo trabalhar estariam vivos. Só penso merda: provavelmente estariam mortos mesmo.
Isso me faz pensar no valor do corpo. Será que essas coisas possuem algum espírito? O que as mantém vivas? O que da a elas energia e motivação?

A gerente do banco nos mostrou o forno que usávamos para assar comida às vezes. Também usávamos o fogão que tinha lá. Estava muito velho. Nem sei porque um mercado tem fogão.
Depois de comer, limpar as coisas e organizar os produtos, coisa que ela fazia compulsivamente, ela se sentava no canto onde foi encontrada e abraçava as pernas. Ficava se balançando. Tentei uma vez falar com ela, mas ela me ignorou completamente. Só respondia quando se tratava de um problema pra ela resolver.
O sargento logo percebeu isso.

- Alberto, chama lá a gerente.
- Sim, senhor.

Alberto veio andando. Não entendo bem porque ainda obedece às ordens do sargento. Afinal, toda a estrutura hierárquica não tinha nenhum valor nesse momento. Talvez ele só queira se ocupar, e obedecer ordens seja o bastante. Ou talvez ele esteja tão habituado a ser comandado que isso se tornou natural como respirar.

- Isabela, Sargento quer falar contigo.

Ela não respondeu. Continuou balançando agachada no chão.

- vum bora, tu tem que resolver um problema pra ele.
- Que problema? – perguntou ela
- Sei lá, porra. Não é problema meu. Bora!

Ela foi com ele, que a segurou no braço. Consegui deduzir pelo olhar dele que queriam se aproveitar dela, mas ela parecia fora de si. Talvez seja estresse pós-traumático ou algo assim. Segui-os e vi o que aconteceria.
- Qual é o problema? Perguntou Isabela com seu ar de sempre.

Ela sorria muito quando falava com os outros. Sempre parecia alegre. Percebi que era um sorriso compulsivo. Nada natural. Enquanto sozinha ela falava sozinha com voz de angustia. Quem seria essa mulher de verdade? Será que sua mente poderia se recuperar?

- Não façam isso! – exclamei
- Não é lerdo mesmo, em moleque. Já sacou a porra toda, então?
- Ela ta traumatizada cara. Isso vai ferrar com a cabeça dela. Não faz isso.
- Vai pra merda, moleque. Tu fica se fazendo de santo aí, mas tava olhando pra bunda dela que eu vi. Vai tomar no cu. Tu também quer!
- Pra isso que tenho um código de ética.
- Hahahahahaha! Tu é maluco, cara. Olha só pra ela. Ficou maluca. Se duvidar nem sente nada!

Eles tinham armas pesadas e eu não. Não adiantaria enfrenta-los. Eles eram cinco, sempre armados. Eu tinha só uma pistola e mesmo assim nem sabia atirar. Minhas palavras foram vazias.
Eles fizeram uma fila. Colocaram-na no caixa, onde passavam os produtos. Olhando aquela cena eu sentia um misto de cólera, tristeza, desespero e desejo. Sim, devo admitir que também queria. Mas meu senso de ética jamais me permitiria. Não eu, que luto pelo bem. Não eu...
Peguei uma garrafa de vodka e fui pro açougue. Bebi rápido e apaguei. Disso eu lembro apenas uns fragmentos. Alguém com a garrafa na mão. Alberto. Ria muito, me levou pra algum lugar.

- Isso aí, cara! Isso aí porra!

Acordei no segundo andar do mercado, onde ficavam algumas mesas e havia um vidro que dava visibilidade para a rua. Levei um susto com os monstros, mas estava de ressaca, e me movi devagar. Meu movimento lento não causou admiração neles. É como se eles esperassem desespero. Os movimentos lentos, tranqüilos ou mesmo atrapalhados como os meus não surtiam qualquer efeito. É como se eu já fosse um deles.
Talvez seja isso. Talvez só estejam embriagados e um dia acordarão com uma tremenda ressaca. Quem sabe tudo volta a ser como era?
Como se o que era fosse algo bom...

- Acordou, garoto!
- Sargento?
- A partir de hoje pode me chamar de Silva.
- To acostumado a te chamar de sargento já.
- Chama de sargento silva, então.
- Ta. Que aconteceu ontem?
- Lembra não?
- Nada, cara. Bebi pra caralho.
- Porra, tu comeu a Isabela com vontade, maluco. Tinha que ver. A mulher nem reclamou, Gozou e os caralhos.
- Que?
- É, maluco. Tu apagou e ela continuou tentando te agarrar mesmo você estando apagado.
- Puta que pariu...
- To falando que no fundo tu não é tão certinho assim! Bora, ela acordou de bom humor e fez carne.

Desci e fui recebido pelos soldados com um certo grau de admiração. Não é possível que me admirem assim só porque comi a mulher. Devo ter feito algo mais.

Perto do depósito estavam empilhadas caixas, como que formando uma mesa. Estava forrada com uma toalha que estava a venda no mercado. Ela fritou um bife de alcatra, e realmente estava bom. Com farofa pronta, batata palha, arroz, feijão e queijo. Estava tudo bom.
Ela se sentou do meu lado e ficou segurando meu braço. Era estranho pra mim. Ficava beijando meu braço.

- Que mais eu fiz ontem à noite?
- Maluco, tu virou outra pessoa. Vou te falar uma parada: nunca esperei isso de você.
- Que eu fiz?
- Tu catou um fuzil, subiu no telhado e explodiu um carro lá no fim da rua. Daí todos os zumbis correram pra lá e tu deu o papo: cata as bombas do carro. Sargento já tinha sacado seu plano, daí já chegou com os explosivos. Agora temos a corneta e mais quatro bombas, neguinho. Vamos mandar esses monstros de merda pro saco. Porra, a gente vai sair desse buraco!
- Eu atirei com o fuzil?
- Pois é, maluco. Tu parecia que tava possuído. Ficava chamando a gente de burro, que já devíamos ter feito isso.
- Algo mais?
- Ah sim. Deu mais uma idéia quando tava chapado quase dormindo.
- Qual foi?
- Foi assim que tu falou: Dois no teto. Um explode um carro do estacionamento na frente e atrai os monstros e o outro avisa pro sargento se a barra estiver limpa do lado de trás. Daí se estiver eles saem, atravessam a rua e colocam a bomba lá. Longe do carro, pra não foder com ele. Daí voltamos, trancamos tudo e acionamos a corneta. Depois de explodirmos a maioria, matamos o resto com fuzil. A gente tem bala pra caralho. Maluco, tu é inteligente pra caralho. Só fica pensando e sai com uma dessas.

Pareceu mesmo uma idéia razoável. Só não me imagino fazendo esse tipo de coisa. Pareceu como um plano que não viria de mim. Fico sempre concentrado nas questões abstratas. Será que inventei mesmo esse plano? Quem sabe?
Depois de comermos, Isabela lavou os pratos e os talheres. Poderíamos simplesmente jogar fora e pegar outros, mas ela lavou e guardou no mesmo lugar em que encontrou.
Sargento Silva e os soldados ficaram no teto praticando tiro ao alvo e eu sentei num canto. Minha cabeça tava explodindo.

- Ei, qual é o seu nome?
- Roberto.
- Posso te contar um segredo? – disse ela ao abraçar meu braço.
- Conta.
- Sei que você é um anjo. Pode deixar que eu não conto pra eles. São do diabo. Se eu contar pra eles, acabam te matando.
- Não sei bem se sou anjo.
- Porque?
- Porque anjos são bons. Não acho que eu sou bom.
- Você é bom. Eu posso sentir que é bom.
- Eu te estuprei ontem.
- Não.
- Não?
- Você fez amor comigo, me trouxe de volta pro mundo. É um anjo, tenho certeza.

Fiquei sem palavras. A fantasia daquela mulher a levou a efetivamente me endeusar. Mal sabia ela que não sou nada disso. Bem, se essa fantasia é boa pra ela, quem serei eu a negar?
Abracei-a, o que pareceu para ela como uma confirmação das afirmações que ela acabara de fazer. Ficamos abraçados ali o dia todo. Me acostumei com o calor dela. Peguei no sono

Havia um menino na frente do lago, e de repente ele se tornou um gato filhote. Parecia débil. Ao que parecia, o gato pretendia mergulhar e pegar um peixe.
Contrariando todas as expectativas, o gatinho mergulhou com tanta destreza e velocidade que não foi possível vê-lo antes de ele sair do lado com um peixe quase do seu tamanho na boca.
O menino cresceu e teve que voltar ao colégio depois de grande. Seu diploma havia perdido a validade. Ainda precisava aprender antes de continuar: é o que o estado decidiu.

- Ô moleque. Ta dormindo porque? Cacete, agora só vai dar pra detonar os zumbis amanhã.
- Beleza, então.
- Dormiu feito anjo. - Disse Isabela
- Aé? Estranho...
- Sonhou com o que?

Contei meu sonho a ela, ao que ela reagiu imediatamente.

- É uma mensagem de Deus!
- Que?
- Ta dizendo que você vai conseguir.
- Conseguir o que?
- Não sei dizer, querido. Mas é algo para o qual você não se imagina preparado. Vai conseguir e contrariar suas expectativas.

Biohazard: a limpeza (parte 2)

Continuei pela estrada a uns 110 por hora até chegar no caminhão do exercito que vi da praia. Apontaram metralhadoras para o carro, ao que parei o carro.

- Sai do carro com as mãos na cabeça
- To com uma pistola na mão direita. Não vou atirar. Olhem estou segurando só com dois dedos.
- Matamos ele ou não?
- Não sei, não parece ferido.
- Me matar é um desperdício. Não to infectado.
- Como sabe que é uma infecção?
- Deduzi. Enfim, também tenho uma arma. Apesar de não saber atirar eu posso aprender e acho que pra enfrentar essas coisas você precisarão de ajuda.
- Sei não. Você tem cara de lerdo.
- Se eu atrasar vocês é só me deixar pra trás.
- Ta certo então.
- O que vocês tão fazendo aqui?
- Acabamos de fugir do bairro mais próximo: completamente infectado.
- Puta que pariu! Lá pra Angra também ta?
- Ta tudo infectado pra esse lado da estrada. Só paramos aqui porque não temos mais gasolina.
- Se souberem como podem tirar a gasolina desse carro que eu vim dirigindo. Se não, podemos nos amontoar nele mesmo e ir.
- Somos cinco: um vai ser que ir no porta-malas.

Um deles quebrou o vidro do porta-malas com o fuzil, tirou os cacos de vidro e entrou.

- Fico aqui de olho atirando neles se vierem atrás da gente.
- Tem zumbis vindo de onde você vieram?
- Eles correm pelas estradas quando dão com carros, mas quando não tem eles vêm andando. Devem levar algumas horas até chegarem aqui.
- Tinha alguns vindo atrás de mim de onde eu vim também, mas a vila não tem tanta gente.
- Tem mercado lá?
- Tem.
- Temos que parar num mercado. É ponto de suprimentos.
- Só voando, cara. Ta cheio deles lá.
- Disse que o moleque e lerdo. Cara, nós temos como matar eles com explosivos. Temos detonadores de controle remoto.
- Como vão fazer pra juntar eles em volta do detonador?
- A gente ta com uns sinalizadores sonoros. Só ligar que eles vêm correndo atrás do barulho.
- Caralho, pensaram nisso quando?
- A uns quatro dias.
- Puta que o pariu! Pensei que isso era dessa madrugada.
- Dessa madrugada aqui. Lá pro centro do rio já ta tudo destruído. Estamos fugindo pro sul porque disseram que lá ta seguro.
- Certo. Deve haver um aglomerado deles perto da entrada da usina a estrada principal tava com pelo menos cem que estavam me seguindo, mas se formos pela usina tem uma passagem direto pra vila. Se não formos por lá não vai ter como entrar com o caminhão.
- Tem monstros perto dessa entrada da vila?
- Vi um grupo grande numa rua próxima. Nesse momento devem estar parados. Com seu detonador podemos pegar eles e chegar até o mercado.
- Não é tão lerdo assim. Só temos dois sinalizadores, embora ainda tenhamos uns cinco detonadores. Vamos explodir eles na entrada da usina e na vila. Daí entramos no mercado e fechamos tudo.
- E depois? – perguntou um dos soldados
- Depois não sei, porra. Tenho cara de comandante. Lá a gente decide.
- Beleza, bora. O motorista do caminhão assumiu o comando do carro. Pegaram mais uns cinco fuzis com silenciador e cinco bombas.

Dirigimos até um ponto próximo à usina: bem na entrada havia vinte deles. Pararam com o carro e atiraram de longe. Um barulho insignificante no tiro. Pareciam mesmo preparados para enfrentar essa praga. Preparados demais...

- deve haver mais deles la pra baixo. Vamos colocar o explosivo naquele ponto, onde não danificaremos a passagem da estrada e nem a entrada.

Fui com eles, que agiam como se eu não existisse. Alguns zumbis nos avistaram e vieram correndo e berrando.

- Esses aí vão atrair outros.
- Vão nada. Se matamos rápido os outros meio que interpretam como alarme falso.
- O que são essas coisas?
- Para de falar, porra.

Me calei e observei como eles trabalhavam coordenadamente. Simplesmente não atiravam no mesmo zumbi, e sempre acertavam a cabeça. Provavelmente eram soldados de elite ou algo assim. Ativaram a bomba e em seguida o som. Parecia o sinal do meu colégio.
Correram imediatamente e eu fui junto. Felizmente consegui acompanhar o ritmo.
Do ponto em que estávamos era possível que os monstros nos avistassem, mas apenas poucos nos viram. Todos correram em direção ao som. Quando se aglomerou uma grande quantidade eles detonaram o explosivo, que lançou alguns longe.
Alguns estavam em chamas, outros desmembrados. Somente alguns pareciam começar a se levantar. Arrancaram com o carro. Três ficaram do lado de fora atirando nos que nos perseguiam. Eram poucos.

- É pra onde, moleque?
- Vira pra direita ali. Vai direto e quebra a cerca

Seguimos por aquele caminho que eu nunca havia visto e acabamos na estação de tratamento de água da vila. Lá de cima deu para ver muitos zumbis tentando sair do valão. Provavelmente desceram por outra parte atrás daquele meu colega que escapou. Será que ele sobreviveu?

- Há muitos deles presos no valão, mas se correrem até a praia se libertam.
- Foda-se, não vou gastar bala com zumbi que não ataca. Aliás, falando em praia, tem cais nessa praia?
- Não, não é permitido nem permanecer com barcos na praia.
- Que merda...

Seguimos pela rua da extremidade. Tudo estava deserto por ali. Alguns zumbis estavam sozinhos espalhados pelo local. Os soldados os mataram rápido. Muitos nem perceberam nossa presença. Na parte de trás do mercado havia aquele típico cheiro ruim. Um caminhão de refrigerante estava com a porta aberta, e a entrada estava escancarada. Provavelmente lá dentro confrontaríamos problemas. Entramos e passamos por alguns corredores escuros.

- Moleque. Volta e pega os rifles.
- Porra. Sozinho?
- Vai logo, porra.

Voltei contrariado, mas não tinha escolha. Eram cinco, e pensei que poderia carregar todos de uma vez. Um erro, pois eram muito pesados. Com dificuldade peguei dois e levei pra dentro. Quando sai para a segunda viagem ouvi berros de dentro do mercado e tiro. O barulho por certo atrairia mais monstros, e por isso me apressei em carregar outros dois rifles. Quando voltei, vi uns dez deles vindo correndo. Coloquei a pistola na cintura e usei o rifle para atirar neles. Segurei a arma como os personagens dos jogos fazem e dei uma rajada. Caí no chão e acertei apenas um na perna. Ele caiu e outro tropeçou nele, mas seria inútil tentar enfrentálos. Entrei e tentei fechar a porta, mas um deles colocou o braço pra dentro antes. Apoiei as duas pernas na parede e fiz força para não abrirem, mas percebi que não agüentaria muito: os malditos são muito fortes.

- ajuda aqui! Caralho, vão entrar!

Um dos soldados veio e começou a atirar pela fresta aberta graças ao braço do zumbi. Depis que o braço parou de se mover eu tirei os pés da parede e ele continuou atirando. Joguei o braço do monstro pra fora e fechei a porta.

- Trouxe os explosivos?
- Não. Não deu tempo.
- Porra, seu animal. Agora vamos sair como? Tomar no cu! Lerdo pra caralho!

Peguei barras de ferro e travei a porta com elas. Estava em choque e não queria falar nada. Lá dentro, uma carnificina. Uns trinta zumbis estirados no chão.

- vão apodrecer. Temos que tirar os corpos daqui. Vai levar pra onde? Pro jardim da sua casa?
- Não sei, cara. Mas deixar aqui vai ser foda.
- Larga eles no frigorífico. – Falou uma voz feminina vinda do acouge. – Tem espaço lá e não vão apodrecer, feder e nem trazer pestes.

O olhar dela era maio vazio. Nem quero imaginar o que ela presenciou aqui. Parece que suas emoções estão escondidas dela mesma.

- Quem é você?
- Sou Isabela. Sou gerente do mercado. Tava escondida no açougue. Fecharam lá atrás?
- Sim.
- Então aproveitem que ainda tem eletricidade aqui. Vou tentar acessar a internet la em cima. O combustível do gerador deve acabar logo logo.

Sentei no chão perto das frutas. Peguei uma maçã e me encostei uma prateleira. Imaginei que essa seria a hora em que o pesadelo acabaria...

- ô Maria mole. Sentou porque. Temos que carregar os corpos!
- Beleza.

Me levantei e joguei a maçã numa caixa vazia. Quatro soldados carregavam dois corpos, então provavelmente eu carregaria um com esse que me chamava.

- qual é o seu nome, cara?
- Soldado Costa.
- Não, to falando do seu nome.
- Alberto.
- Então, Alberto. Vocês mataram todos esses ou alguns já estava caídos? Já tinha uns cinco caídos.
- Vamos tomar cuidado com os que já estavam caídos. Sei lá, podem se levantar.

Ele deu um tiro na cabeça de um que estava próximo.

- ta seguro pra você agora?
- Que porra foi essa aí? – chegou gritando outro militar.
- Né nada não, sargento. É que esse moleque ta com medo de os caídos levantarem.
- Para de sacanear o moleque, porra. Os caídos levantam mesmo. E para de enrolar e começa a carregar essa porra.
- Sim, senhor!

Pegamos o corpo, eu pelas pernas e ele pelos braços. Sacudiu o cadáver, o que me deu um susto. Começou a rir. Numa situação dessas eu também riria, mas as imagens que estavam na minha mente me impediam. Chegamos no frigorífico e colocamos o corpo em cima de outros dois, lá no fundo. Tinha um cheiro estranho. Uma mistura de carne crua com cadáver. Até que o cheiro não era assim tão diferente.
Carregamos todos os corpos. No total trinta e um. No final eu estava exausto, mas ainda tivemos que limpar o chão. Quase todo o hospital estava banhado em sangue. Todo aquele trabalho mantia pensamentos distantes da minha mente. Não sei dizer se isso é bom ou ruim. Por um lado, isso alivia a angústia que toma conta de mim, e por outro eu sei que reprimir não vai me ajudar a longo prazo. Mais cedo ou mais tarde vou ter que enfrentar essas imagens.
Quando tudo estava em ordem o sargento nos deu ordem para descansar. Eu tinha, efetivamente, me tornado um soldado. Em meio Àquele desespero ele demonstrava uma firmeza que, de certa forma, me fazia ouvi-lo.
Peguei um saco de arroz, fiz de travesseiro e deitei no chão.

- Já vai dormir, moleque?
- Porra, se eu não dormir eu vou entrar em parafuso, cara. Caralho, ta todo mundo morto!

Tentei segurar, mas uma lagrima escorreu pelo meu rosto. Pensei que Alberto iria rir, mas ele se calou. Com um olhar meio vazio e triste ele se foi ao comando do sargento. Nem quero saber o que vão fazer.

O cavaleiro azul voltou. Eu já o conhecia de outro sonho. É um sonho lúcido, e o ambiente está agradável de novo. Cheiro bom, dia claro. Eu e o cavaleiro azul estávamos no quintal da minha casa.
- E agora? – perguntei
- Agora tudo se renova.
- Tudo está sendo destruído!
- Tinha que ser assim.
- Porque?
- Não tenho nada com explicações ou justificativas. É assim que acontece.
- Acontece o que?
- De que vale minha explicação? Vá adiante e verá!

Acordei com o barulho de tiros. Abriram um buraco no telhado e subiram.

- Da pra pisar, sargento!
- Como é que ta aí fora?
- Ta foda, sargento. Tem pelo menos uns 150 lá atrás. Na frente mais sessenta. Isso sem falar nos que tão vindo pra cá das ruas. Vão chegando um a um.

Levantei e fui até eles.

- Se matarmos eles e ficarmos em silêncio, talvez aqui seja seguro. A entrada principal ta destruída e aquela de onde viemos é meio escondida. Duvido que muitos venham de lá.
- Ta, mas e depois. Rapa, o coronel deu o papo antes de sair que quem chegar no sul será levado pro hemisfério norte. Pra lá não tem infecção.
- Onde isso começou?
- Sei lá, porra.
- Como sabe que não tem no hemisfério norte?
- Porque o coronel disse.
- Isso é burrice. Se sairmos daqui pro sul a gente vai acabar morrendo. Ou morremos no meio do caminho ou morremos lá: é só em filmes que os americanos sobrevivem às piores tragédias.
- Isso não é verdade. – interferiu um dos soldados. – diz pra ele sargento.
- Porra, não é pra ficar passando essas informações!
- E quem vai reclamar?
- Ta legal. Se liga, nosso coronel nos treinou contra esses monstros um mês antes de a pandemia começar.
- Caralho, você estavam prontos?
- Mais ou menos. Sabemos como eles se comportam, mas na prática é complicado. Éramos um grupo de dez.
- Puta que o pariu!
- Que foi? – disse o soldado.
- Isso foi um plano de extermínio, cara. Eles exterminaram nosso país!
- Que se foda. Vou pros estados unidos e la terei vida boa.
- Porra, pensei que no exercito ensinavam patriotismo. Quer dizer que os caras destruíram sua vida e sua nação e você não se importa. E sua família
- Eu não tenho família, e esse papo de patriotismo é balela. Na hora do vamos ver as pessoas só pensam em si.

O outro soldado pareceu movido pelas coisas que eu disse. Não acredito com tanta convicção em patriotismo. Na verdade também me sinto indignado por todos os outros países que provavelmente também foram dizimados por essa praga. Só estava tentando me articular na linguagem deles, o que pareceu inútil.

Biohazard: a limpeza (parte 1)

Pensando agora eu vejo tudo isso como uma profecia se manifestando coletivamente. Tanta gente tendo sonhos e visões. Tanta atração por filmes dessa natureza. Talvez eu só tenha me afetado com tudo isso e esteja apenas criando hipóteses irracionais. A questão é que, por mais que a ocasião demande atenção de mim, não consigo fugir dos meus pensamentos. É esse meu mundo interno que sempre me salvou agora me trazendo alívio.
Não estavam errados sobre o plano de dizimar a população mundial. Eu sempre acreditei, mas isso nunca ajudou. Aliás, essa operação pandemia que faziam antes tornou as pessoas incrédulas. Daí quando essa praga chegou ninguém acreditou. Bem, acreditar ou não foi irrelevante: já estão mortos por aí. Ao menos estou sozinho, e isso me ajuda a alcançar o equilíbrio por hora, mas daqui a um tempo a ausência de convívio social (mesmo falso) trará severos danos á minha personalidade.

Que merda eu to fazendo? O mundo caindo e eu refletindo sobre o efeito psíquico disso tudo?
A bateria do notebook ta viciada, mas tem o nobreak no outro quarto. Talvez eu consiga me conectar a internet. A merda do telefone é bloqueado e o celular não tem crédito: Maldito capitalismo. Nada: a internet ta fora...
Só me concentrando no meu mundo interno que a gritaria lá fora não me desespera. Nem adiantaria agora me encher de rancor pensando: eu avisei. Quero agora, em primeiro lugar, encontrar informações sobre como se encontra minha região em termos de infecção. Por certo deram alguma ênfase a essa localidade pela proximidade com a usina nuclear. Que eu to pensando? Até parece que ligam pro pessoal desse continente. Não passamos de “cucarachas”!
O funcionamento do organismo dessas coisas parece ter diversas fontes de energia. Dentre elas eu não deixo de pensar em forças ocultas: espíritos, alienígenas ou qualquer coisa sobre a qual eu possa projetar minha superstição.
Meu padrasto ta amarrado no outro quarto, e talvez eu possa fazer testes simples com ele. Graças a ele nossa casa tem um grande estoque de comida, embora eu não faça idéia de como cozinhar. Vou ter que me virar.
Tenho uma faca bem afiada, mas não tenho habilidade para usa-la: seria loucura enfrentar os monstros.
Ouvi vozes na rua.

- Fudeu, cara. Corre, porra!

Um cara que estudou junto comigo até o segundo grau e morava na minha rua estava correndo com o irmão. Eles fazem exercício físico e correm bem, mas não possuem as fontes de energia dos monstros. Algo interessante aconteceu: um deles atacou o irmão, que corria mais lentamente por estar cansado. Mordeu braço dele. Os dois se separaram: o irmão foi em direção à praia e ele foi à direção do mercado. Todos eles foram atrás dele, e o irmão, ferido, não os interessou.
A mim soa obvio que aquilo foi um julgamento racional: ele já estava infectado. Acredito que isso seja prova suficiente de que eles não queria comer, mas se reproduzir quando atacavam. Mas como diabos eles conseguiam tanta energia?

Não tinha sentido algum, mas devo confessar que não me esforcei tanto ao estudar o processo de produção de energia. De qualquer maneira, eles haviam perdido muito sangue, o que dificultaria a passagem de oxigênio pelo corpo. Aliás, as feridas estavam abertas e o sangue parecia coagulado: era simplesmente impossível eles terem energia para o movimento. E, no entanto, corriam quase desesperadamente. Meu colega de escola deu a volta no mercado e entrou do lado da padaria. Sempre soube que ali tem uma grade que leva pro valão, mas não o que há depois dele. Pulou facilmente a cerca e caiu pro outro lado. Eles não o seguiram, mas isso pareceu a mim como uma oportunidade. Ao ouvir os gritos desses, outros monstros foram correndo e gritando para lá. Isso gerou uma espécie de reação em cadeia, através da qual todos (espero) se reuniram no mesmo lugar. Depois de um minuto eu vi o irmão dele correndo pra lá. Ele se infectou rápido, então provavelmente não há doentes a serem infectados. Se eu não fugir agora, vou acabar morto.

Meu padrasto berrou, e isso me assustou: e se algum escutasse? Eu tinha que mata-lo, mas nem sabia como.
Degolei ele, mas ele não morreu. Apesar disso, afetando as cordas vocais, ele não gritava mais. Espero que minha mãe e minha irmã não voltem da viagem, que vejam isso nalgum documentário. Já basta a minha falta de perícia e fraqueza como dificuldade: não tenho como garantir a segurança delas.
Me preparei para sair como sempre, o que foi no mínimo irônico. Peguei minha carteira, meu celular, meu mp4 e minha chave. Dinheiro já não tinha valor antes, e agora ele se mostrou como realmente é: um papel destituído de valor. Não posso comprar uma saída desses monstros com esse dinheiro.
O que sei sobre direção só me traria problemas, já que o carro faz barulho e não sei passar a marcha direito. Coloquei o sapato e me assustei com o barulho que ele faz quando ando.
Esvaziei minha mochila. Cheia de lixo. Coloquei biscoitos, duas maçãs e água dentro dela. Tentei não colocar muito peso, porque minha viagem seria bem longa. Comi duas bananas e bebi o resto do suco de maracujá que tinha na geladeira. Que burrice!
Por sorte o meu estado de alerta não permitiu que o suco me tranqüilizasse. Os monstros já estavam se dispersando e eu decidi seguir pelos becos pra depois andar agachado na beira da praia. Quando cheguei no calçadão um carro passou pela minha rua, e isso chamou a atenção dos monstros. O que me aterrorizou foi que eles não puderam seguir o carro, mas estavam, agora, bem mais próximos de mim. Pensei em fingir ser um deles, mas seria melhor não arriscar. A expressão deles é de pressa. Parecem querer destruir as pessoas nas redondezas o mais rápido possível. Quando não recebem estímulo ficam parados, como que refletindo.

Segui pela até a beira da praia e vi na estrada um caminhão do exercito. Muito distante para saber se estava cheio de soldados. Parou no ponto em que toda a vila era visível e lá ficou.
Segui até o final da praia e entrei na via que conduzia o rio até o mar: o valão do outro lado da vila. Enquanto seguia debaixo do solo pude ouvir pessoas gritando na hospedagem acima. Saiu um carro e berros o seguiam. Bateu e explodiu. Eu teria que ser rápido, pois a explosão atrairia todos para o local. Aproveitando o alvoroço passei despercebido pela escada que levava a cachoeira. Colocaram uma placa dizendo que era proibido passar, mas que guarda me impediria, o zumbi?
Alando nisso, talvez eu consiga me armar na guarita, mas é melhor não contar com isso. Tive que descer na água, e por isso guardei o sapato e a meia dentro da mochila. Lá de cima eu vi a vila. Alguns pontos estavam pegando fogo. Daquele ângulo não dava pra ver a saída de carros para a estrada. Só espero que não tenha uma concentração de monstros lá. Passei pelo túnel em silêncio andando rápido. Escalei as pedras com facilidade, muito mais do que o normal. Fui seguindo até chegar na estrada. Havia um Fiat uno ligado no acostamento com um cara morto ou desmaiado no volante. Peguei a faca e cheguei na porta do carro. Teria que dar um jeito de dirigir, e para isso precisaria confronta-lo se fosse um deles. Bati com a faca no vidro o que o despertou. Estava preso dentro do carro. Respirei, me recuperando do susto, e me preparei para a luta.
Ele esmurrou o para brisas e o quebrou, mas estava preso no cinto de segurança. Percebi uma ferida feia no ombro direito dele. Agora era matar ou morrer.

Cheguei perto do carro e abri a porta do carona, ao que me afastei rapidamente. Ele parou de se debater e me fitou por um instante. De repente ele se articulou, soltou o cinto e saiu pela porta que eu abri, ao que eu me preparei para o combate. Ele parecia meio confuso em relação a mim. Ele me fitou por uns instantes ao invés de me atacar. A usina tocou a sirene e ele correu irracionalmente em direção a ela.
O motivo pelo qual ele me atacou eu deduzi depois de uns instantes. Talvez eles ataquem que demonstra medo. Seria estranho pensar isso, já que os primeiro, por ignorância, provavelmente não mostraram medo. Apesar disso, ele esmurrou o vidro procurando me atacar. Somente se acalmou quando eu abri a porta. Talvez tenha sido o controlador dele que o fez não me atacar. Talvez Deus, espíritos, alienígenas, ou seja lá o que seja tenha me salvado. É incrível como eu, enquanto cético arrogante, tenho criado essas teorias estranhas. Acho que esses eventos despertaram algo oculto em mim.

Consegui me locomover com o carro: No início com dificuldade para trocar as marchas, mas depois de um certo tempo consegui manusear o veículo. Decidi me dirigir até o caminhão que vi da praia. Havia uma pistola no banco de trás do carro.
Quando passei pela guarita dos seguranças percebi que estava em chamas. O carro que vi passando pela minha rua bateu ali e explodiu. Monstros subiam pela estrada e vinha na direção do meu carro, e em resposta a isso eu acelerei. Passei a marcha com facilidade, e rapidamente saí do alcance visual deles: espero que não continuem correndo.

Emanuel, o maligno


- Pare. Por favor. Já não suporto tamanho sofrimento.
- Não quero parar.

- O que você procura? Porque faz isso comigo? Tenho muito mais a lhe oferecer do que parece.
- Eu não estou procurando nada. Aquilo que eu devia encontrar, já encontrei.
- Então porque você está fazendo isso? O que eu fiz para merecer tamanha punição?
- Livre-se de pensamentos estúpidos. Você não está sendo punido por nada. Essa idéia de que você têm de merecimento é um grande erro.
- Se não me acha culpado, porque me odeia tanto?
- Ignorante. Não é porque você se move com afetos que eu também sou assim. Já que hoje é seu ultimo dia, posso te explicar essa questão. Isso me ocorreu apenas recentemente.
- Você acha que pode ser justificar?
- Que tenho eu com justificativas? Quer mesmo que eu te explique ou suas perguntas são retóricas?

O homem era bom com retórica, e pensou que, por isso, poderia convencer seu agressor de que seus pensamentos estavam errados.

- Quero que me explique.
- Pois bem. Eu percebi que os homens têm o mal dentro de si. Todos eles. Mas esse mal fica escondido e só sai em certas ocasiões. Claro que alguns já desenvolveram o poder do mal mais do que outros, mas são todos maus. Alguns só praticam o mal por um suposto bem. Daí surgem matadores de assassinos, exércitos da paz, lutas por amor. São maus, apenas não admitem.
- Está dizendo que todos os homens são maus?
- Sim, em suas devidas proporções. Por favor, não interrompa meu raciocínio.
- Certo, continue.
- Existe um principio do mal, que é mascarado com a razão. Eis o que a razão é: uma mascara e nada mais.
- Mas não pode o homem se libertar através da razão?
- Não. Através da razão os homens só fazem reproduzir ladainhas e preconceitos. Com ela, eles fazem qualquer absurdo se tornar justificável. Com o mau não é diferente. Só aqueles que alcançaram um maior nível de consciência entendem isso.
- Pode me explicar isso melhor?
- Facilmente. Veja só: muitas vezes vemos homens poderoso fazendo o mal para os outros. Dizem para si mesmos que o fazem pelo dinheiro. Ditadores matam pessoas por não o respeitarem, por serem inferiores ou qualquer que seja a ladainha que inventem. Pais espancam filhos por serem mal educados, maridos batem na esposa que é infiel. Enfim, o homem sempre encontra uma justificativa para o mal que pratica, mas nunca entende o que é o mal de verdade.
- Não são essas coisas que você definiu o mal em si?
- Não, elas são apenas o efeito do mal. São o mal maior plasmado em espíritos menores.
- E o que é o mal maior?
- O mal maior é liberto da razão. Ele não precisa de justificativa e muito menos de razões afetivas. É o mal, pelo mal e através do mal. Sem direção: um mal que vai para todos os lados. Sim, uma essência demasiadamente sutil para que espíritos inferiores percebam.
- E o bem?
- É a mesma coisa: O bem, pelo bem através do bem. Bem e mal precisam um do outro.
- Digo, você não tem o bem dentro de si?
- Eu sou o lado das trevas. Existe o lado da luz. Nós coexistimos. Eu nada mais sou do que um fragmento tornado completo. Puro mal.
- Se você reconhece que existe o bem, então deve reconhecer que, da mesma forma que todos os homens possuem dentro de si o mal, devem também possuir o bem.
- De fato.
- Daí decorre que você tem o bem dentro de si.
- Não.
- Como não?
- Eu não sou um homem.
- Parece a mim como um homem.
- Não. Eu sou metade da deusa em forma humana. Sou um semi-deus. A deusa é tanto da guerra quanto do amor. Eu sou o semi-deus que herdou a metade da guerra e havia outro semi-deus que herdou a metade do amor.
- Que houve com ele?
- A ignorância dos homens o matou, e com sua morte se foi a esperança desse mundo. Quando expulsaram daqui o amor por seus preconceitos e miopias eu tomei conta. Não podem me matar da mesma forma que mataram o amor, porque eu penetro-lhes as entranhas. Eu mesmo, por onde passo, deixo um rastro de destruição e ódio. Você tem muitas pessoas que vivem apegadas a você, justamente pro serem primitivas. Essas pessoas irão me odiar, e por isso serão iniciadas no meu mundo.
- Então é isso que você quer? Propagar seu ódio?
- Não. O que eu quero é destruir. Se meu ódio é propagado ou não, isso me é indiferente. Eu não vivo segundo o pensamento de alcançar algum objetivo. Como eu disse, faço o mal pelo mal e através do mal.
- Não se sente só?
- Todos os homens livres são solitários. Quando você mergulha no fundo da sua alma, acaba descobrindo as ligações entre os homens não passam de ilusões. Se não são expectativas criadas pelo convívio social, as expectativas têm origem no íntimo do indivíduo. O homem vive com vários mantos cobrindo sua consciência acerca da natureza das coisas, e por isso fica sempre longe do essencial.
- O que é o essencial?
- Que o apego é a causa da maior parte de seus sofrimentos. A ligação que as pessoas fazem umas com as outras traz dor sem fim.
- Ora, mas o bem poderia ser livre, tal como o mal. Assim, eu poderia chegar num nível de consciência acerca do bem tão grande que não mais teria expectativas e exigência. Da mesma forma, não me apegaria a nenhum homem, amando a todos indiferenciadamente. Não parece razoável?
- Razoável, razoável... Na verdade isso não me parece nem um pouco razoável, mas volto a dizer que a razão não me importa. Não passa de uma mascara.
- Então não reconhece o bem supremo?
- Tão humano... você é. Veja só, reconhecer com a razão é algo que já fiz a muito tempo. O Semi-Deus do amor me comunicou inúmeras vezes. É bem fácil de entender esse amor que chamam ágape através da razão. Mas entender pela razão é uma coisa, e viver é totalmente outra. Minhas palavras acerca do mal provavelmente não lhe tocaram, porque você nunca viveu nada de análogo. Eu, da minha parte, digo o mesmo acerca do amor. Nunca o vivi, e portanto acerca dele não posso emitir qualquer tipo de julgamento de valor.
- Você tem que buscar o amor.
- Você não espera, realmente, que eu simplesmente seja levado por uma tentativa tão arcaica de doutrinação, espera?
- Isso tudo que você falou são delírios! Você só quer justificar seus crimes!
- Idiota. Não entendeu nada. Não quero e nem preciso justificar nada. Eu vou te matar dentro de instantes por matar. Não quero nada de você, não tem nada me movendo a matar especialmente você e não a outro diabo. Só vou te matar porque foi o primeiro infeliz que cruzou o caminho.
- Por favor, tenha piedade.
- Essa é apenas uma palavra vazia para mim. Não reconheço um significado nela, porque não me lembro de ter sentido piedade alguma vez na vida. Como posso ter piedade de você se nem mesmo sei o que é isso?
- Piedade é me deixar viver!
- Haha! Como se sua vida fosse realmente importante! O Conceito de piedade pode, por vezes, legitimar o assassínio. Só depende de como a razão o contorce. Veja só, quando se trata de piedade eu só posso emitir raciocínios. Mas vou ser honesto. Não estou te matando por piedade e nem porque tenho algo contra você. Não é nada pessoal.

O homem fechou os olhos. Parecia rezar e pedir perdão a Deus para seus últimos momentos, esperando sua redenção.
De repente algo inacreditável aconteceu. As nuvens densas deram abertura à luz do sol, e algo veio do céu e se fixou no chão. Uma rosa vermelha, que pingava um líquido vermelho. Não havia como saber se era sangue, mas Emanuel foi hipnotizado pela flor.

- Matias, é Matias!
- Esse é o nome da Flor?
- Não, seu idiota. É sangue de Matias! Não está vendo?

A ultima gota caiu da flor, que desapareceu. Em volta do local cresceram outras flores de diversas cores, e as nuvens se foram completamente, dando lugar ao sol. A floresta, antes escura e sinistra, radiou com uma beleza imensa.

- É Deus. Veio me buscar!
- Sua estupidez não tem limites! Não percebe o que acaba de acontecer? O sangue de Matias se derramou no chão. Esse mundo será curado.
- E o mal? E você?
- Não sei. O que sei é que sempre haverá lugar para o mal no universo.
- Aquele sangue é o de Jesus! Aceite-o como seu salvador!
- Jesus, Matias. Qual é a diferença? Ambos são agentes do Ágape. Você não entendeu os símbolos que usei? Enfim, não aceito ninguém como meu salvador, Primeiro porque sou livre e ninguém me guiará a lugar algum. Segundo porque não vejo nada de que eu possa ser salvo, já que sou o mal personificado. O que você chamam de condenação é a essência da minha existência.
- Não se trata propriamente de te guiar, Emanuel, mas apenas de despertar o bem dentro de você.
- Já chega de conversa. Tenho reflexões a fazer.

Emanuel matou o homem com pressa. Pela primeira vez na vida ele não esperou o desespero de sua vítima o deliciar. Sim, havia coisas mais importantes a tratar do que o sofrimento de um diabo qualquer.

- A jornada tem que continuar. – disse seu companheiro demônio. - Tem que continuar!

Ele sentiu em sua mente a direção para a qual deveria caminhar, e foi nela sem ter idéia de onde chegaria ou mesmo se chegaria a algum lugar.

Et ecce ille surrexit cum rosam, et coelum jucundum in mihi vultum

Acerca da natureza cíclica do mal


Não me foge à memória o episódio de uma empregada que abusava de crianças que estavam sob seus cuidados. Isso causou indignação nas pessoas. Pude sentir a raiva das pessoas que, ao meu lado, viam as gravações. Hoje eu penso: qual é a diferença entre a raiva manifestada pela empregada e aquela manifestada pelos telespectadores diante do episódio citado?

Nenhuma!

Depois que essa mulher foi liberada para casa, um homem que ficou famoso no youtube deu uma voadora nela. Um título um tanto cômico no início do vídeo: Lindomar, o sub-zero brasileiro.

Essa reação parece gerar um equilíbrio maligno na sociedade, em que vários indivíduos são controlados artificialmente por uma moral maniqueísta e têm o que há de mal dentro de si reprimido. Esse mal parece encontrar um canal para sua manifestação com a indignação contra aqueles que cometem crimes. É justamente daí que se torna psicologicamente justificável a pena de morte: porque a pessoa que quer o assassino morto é tão má quanto ele. A única diferença é que ela consegue fazer o próprio mal moralmente justificável de acordo com uma lógica ética igualmente falha e irrefletida.

A indignação não passa de uma forma de o mal concluir sua natureza cíclica. Porque numa guerra você poderá constatar que os soldados de ambos os lados declaram estar motivados pela maldade dos inimigos. Ou são terroristas insanos ou são invasores imperialistas. A mesma lógica afeta a relação conflituosa entre criminosos e policiais militares.

Na verdade, a violência se relaciona com o mal e nunca com o bem. Isso ocorre porque a pessoa busca meios racionais para negar tudo aquilo que há de mal em si mesma, e por causa dessa negação ela acaba projetando o conteúdo se sua “sombra” no próximo. De um modo geral, as pessoas que nos causam indignação nada mais fazem do que concretizar certas atitudes que nós também faríamos, mas que estão reprimidas. Quando o indivíduo vê o que ele faria sendo feito, sua reação é a raiva, que, contraditoriamente, justifica atitudes violentas (geralmente idênticas às que o indignaram).

O avanço das manifestações artísticas relacionadas diretamente à violência como o black metal, filmes de terror, jogos extremamente violentos, pinturas e livros estarem se propagando na sociedade são a prova de que esse tipo de comportamento, embora reprimido, existe. Quem, por suas experiências, acabou tendo contato com um nível de violência que simplesmente não pode ser reprimido pode aceitar esse seu lado e projeta-lo na arte (qualquer que seja) e também em forma de laser virtuais.

Diferente do que é propagado, manifestações de violência virtual e artística não inspiram comportamento violentos reais: pelo contrário, os impulsos violentos reais que inspiram o indivíduo a manter contato com esse tipo de arte.

A tecnologia (em realidade virtual) e a arte podem ser o caminho de saída para que os seres humanos deixem de se destruir na vida real graças a esse impulso para criar um ambiente mais harmonioso. Assim, o ciclo do mal continuará ocorrendo e não causará danos às pessoas. A arte tem o poder de trazer a páz, já que, através dela, o indivíduo descarrega seus afetos e desafetos.

Operação pandemia

Meus amigos mortos vivos

Não imaginam como amo vosso grito...
Vosso desespero, vossa angustia...
Querem comer minha carne,
Destruir minha vida.

Com todo o meu apetite,
Saio em vossa direção.
Sou como vocês:
Quero morte.

Então vamos brincar,
De destruir uns aos outros.
Veremos sangue e vísceras,
Esses que tanto amamos.

Vamos deixar o nosso ódio sair.
Sim, e consumir a carne.
Bem sabemos que não há lei,
Para vocês e eu,

Meus amigos mortos vivos...

Meu maior pesadelo



- Você conhece o terror, Roberto?
- Quem é você?
- Eu? Eu sou você!

Havia um gigante diante de mim, com as mãos sujas de sangue. Ele tinha um sorriso maléfico no rosto.

- Conhece o terror?
- Nada me traz terror.
- A não? Bem, isso é o que veremos...

Uma faca penetrou meu peito e saiu. Tinha sangue na minha boca. Meu corpo foi ficando fraco, eu tentava me arrastar, mas aquele gigante não me deixava.

- Não adianta fugir, Roberto. Nunca vai se livrar de mim!

Eu tentei gritar, mas não pude encher os pulmões de ar. Tudo foi ganhando um aspecto mais escuro, mais sombrio.

- É a hora do show!

O homem colocou a mão na minha boca, e deslocou minha mandíbula. Num instante todo o braço dele tinha passado pela minha boca. Ele se remexia dentro de mim. Apertou alguma coisa que me fez desmaiar.

- Deixe o espetáculo acontecer, Roberto. Deixe a fera tomar conta!
- Não!

Acordei num leito de hospital. Talvez tenham me salvado daquilo. Talvez eu ainda esteja sonhando. Eu não sei dizer. Minhas mãos e meus pés estão amarrados. Não reconheço a mim mesmo. Estou grande, minha voz quando grito é outra. Eu não sou eu. Quem será que sou? Isso é um sonho?

A porta abriu e um homem de branco entrou.

- Como concordamos, Joana, a esposa do falecido Roberto está aqui para vê-lo.
- Olhe, senhor, deve haver um engano. Eu não sou quem você pensa que eu sou. Sou o Roberto!
- Ele está delirando, não pode receba-la.
- Eu não estou delirando! Não! Joana!

Joana entrou com lagrimas de ódio nos olhos, mas nesse ponto eu estava dopado. Perdi a consciência logo depois de ouvir. Você é um doente! Um doente! Ela gritava como eu nunca havia visto antes, e aquilo me tomou no íntimo de tal forma que tudo em mim parecia imerso num caos insuportável.

- Você conhece o terror, Roberto?
- Quem é você? O que eu fiz contra você?
- Eu sou você. O que você fez? Você se matou!
- Do que você está falando? Eu nunca me mataria. Eu era feliz!
- Sabe que eu fico me perguntando sobre isso? Você era feliz sim. Como é que foi se matar? Talvez não fosse tão feliz quanto achava.
- Não! Isso não é real!
- Quem é você, Roberto? Quem é você?
- Eu sei quem eu sou!
- Sabe é? Então o que você acha que faz nessa cama?
- Você não é o Roberto não. Na verdade nada disso é real.
- Quem é você?
- Eu sou a única coisa que sobrou em você que tem contato com o mundo real.
- Eu tenho contato com o mundo real, você não sabe do que está falando!
- Você sabe? Acorde e verá!

Acordei naquela mesma cama. Estava anoitecendo, e havia uma mulher sentada numa cadeira de plástico me olhando.
- Está mais calmo, Augusto?
- Quem é augusto? Eu sou Roberto!

Ela pegou um rádio e falou:

- Ainda está alucinado, quer aumentar a dose?
- Não. Quero tentar algo novo hoje.
- Certo.

Ela se levantou e esperou um pouco, até que cinco homens entraram na sala. Seguraram meus braços e minhas pernas. Sei que pensam que sou louco, e por isso esperam que eu seja agressivo. Acho que com minhas atitudes eu posso provar que não sou louco.

- O que vocês querem?
- É a hora de comer.
- Não precisam me segurar, não vou fazer nada.

Os homens hesitaram, mas me soltaram. Percebi que ficaram alertas para o caso de eu ataca-los. Um deles tinha um spray de pimenta. Eu me sentei e minha cabeça estava muito alta. Levantei e percebi que a cama não era tão alta. O homem mais alto dali batia com a cabeça um pouco acima do meu cotovelo. Eu estava gigante como Aquele homem que me veio falar no sonho. Num lampejo eu percebi que eu estava exatamente igual a ele.

- Quem sou eu?
- Não somos autorizados a conversar com você.
- Eu sei que isso é mentira. Seus olhos me dizem. Porque você não quer falar comigo?
- Escuta aqui seu louco. Não troco uma palavra com gente como você. O que você fez com aquelas pessoas não tem perdão.
- O que foi que eu fiz?
- Fingir que não sabe de nada não vai te inocentar. Espero que você seja condenado à morte
- Morte? Mas eu sou inocente! Não podem me matar!


Os homens me seguraram e me derrubaram no chão.

- Você vai por bem ou vai por mal?
- Eu vou por bem.
- Depois da refeição você conversará com um psiquiatra e com um padre.
- Tudo bem.

Isso não pode ser real, mas talvez tenha algum significado. Vou ver o que acontece.
Uma mulher trouxe um prato com talheres descartáveis.

- Não quero isso. A faca não corta.
- Brilhante observação.

Eu comecei a comer e senti o sabor da comida de Joana. Estava delicioso.

- Isso aqui está muito bom. Quem foi que cozinhou?
- Você sabe muito bem que cozinhou...
- A Joana?
- Quantas vezes vou ter que te dizer que meu nome é Elisa?
- Foi você quem fez isso?
- Meu deus! Todo o dia a mesma história? Como você não enjoa?
- Enjoa de que?

A mulher não me respondeu. Somente fez uma cara de quem já não tem paciência.
Decidi comer em silêncio, pois parece que todos ali me odiavam. Só queriam me ver morto.
Eles me levaram pra fora do refeitório em total silencio, mas eu podia sentir o ódio deles. Ele me penetrava e me assustava. Eu só queria acordar desse pesadelo, isso me assusta.

Um dos homens sussurrou no meu ouvido.

- Escuta aqui seu animal, você nunca será bem vindo em nenhum lugar. Espero que você morra e que vá pro inferno.

Comecei a chorar. Não podia me controlar.

- O que está acontecendo? Quem são vocês? Quem sou eu!?
- Não se faça de inocente, seu maníaco maldito!
- Hey! Quantas vezes vou ter que dizer que vocês não podem conversar com o prisioneiro?
- Prisioneiro? Mas que lugar é esse?
- Venha Augusto, vamos até nossa sala.
- Que sala?
- Você logo verá.

Eu continuava a chorar. Não sabia o que está havendo. Nada estava certo. Isso não podia ser real!
Uma raiva repentina tomou conta de mim. Senti vontade de destruir, de matar todos aqueles homens e me livrar daquilo.

- Você não me conhecem! Não sabem que eu sou!

Derrubei os cinco homens e corri em direção do médico, que parecia assustado, mas não tentou fugir ou reagir. Levantei ele do chão pela camisa.

- O que vocês fizeram comigo? Isso é algum tipo de experimento doentio? Eu vou matar todos vocês! Cada um de vocês irá morrer!

Algo me atingiu e eu perdi a consciência. Quando me dei conta estava novamente na cama. Amarrado, e tive mais um surto repentino de raiva. Arrebentei o que me prendia e olhei ao redor. Havia uma janela que me mostrava a luz e uma campina. Tudo escuro.

Um alarme tocou, e uma luz ficou brilhando do outro lado da porta do quarto.

- Atenção, O prisioneiro da ala psiquiátrica no leito 45 se soltou da cama.
- Desgraçados! Vou comer a sua carne! Deixem-me sair!

Eu bati na porta e percebi que não há via como abri-la. Era de ferro. A janela era de vidro, mas havia barras de ferro.

- Porque vocês estão fazendo isso comigo!? Vocês são doentes! Deixem-me ir embra.

Um homem parou diante da porta. Era o psiquiatra.

- Vamos conversar, Augusto. Fique calmo.
- Não em diga pra ficar calmo! Eu não me chamo Augusto! Meu nome é Roberto!
- Você prefere conversar ou ser imobilizado por 10 agentes penitenciários?

Parecia tudo uma mentira. Agentes penitenciários, psiquiatras. Tudo o teste para verem como eu reagiria a isso. Pensei em superar as expectativas deles.

- Vamos conversar. Estou indo me deitar na cama.
- Muito bem.

Deitei e os dez agentes entraram. Rapidamente me seguraram e não reagi. Posso provar que não sou um assassino pelo simples fato de que sei quem sou. Eles verão.

- Incomoda-te estar sendo segurado?
- Sim, mas como não posso dar nenhuma garantia da minha sanidade creio que devemos conversar assim. Não vou apresentar nenhuma objeção.
- Então não deve se objetar a vestir a camisa de força também, certo?
- Não.

Vestiram a camisa em mim, e algemaram minhas pernas. Amarraram-me contra as barras da janela. Eu estava totalmente imobilizado.

- O senhor pode me dizer o que está acontecendo aqui?
- Vou te explicar. Tragam o notebook, por favor.

O homem pegou o notebook e colocou diante de mim. Eram imagens daquele homem que me matou matando outras pessoas.

- Eu conheço esse homem! Ele me atacou. Enfiou uma faca no meu peito.
- Conhece sim, é fato. Fale-me da faca.
- Ele veio à minha cama durante a noite, e falou algumas loucuras sobre terror. Depois afundou uma faca no meu peito.
- E você acha que sobreviveria a isso?
- Não, e isso me deixa confuso.
- Vou te mostrar uma coisa.

O homem pegou um espelho e colocou diante do meu rosto.

- Eu sei que minha aparência é igual à dele. Mas estou lhe dizendo, eu sou Roberto. Não sei como te explicar isso, e sei que parece loucura, mas é verdade. Eu não sou um assassino.

O médico suspirou e se sentou na cama. Parecia não saber o que fazer.

- O que vou fazer contigo, augusto?
- Do que você está falando?
- Todas as manhãs você acorda dizendo isso. Que é Roberto. Já está aqui há cinco meses. Às vezes perde a memória e acorda achando que é Roberto de novo. Acho que não progredimos em nada, e seu julgamento é depois de amanhã.
- Vou processar vocês. Não têm o direito de fazer uma pegadinha dessas.
- Como você pode ser tão repetitivo?
- Isso é algum tipo de teste?
- Não é teste, Augusto. Roberto foi sua ultima vítima. Você o matou e seqüestrou a mulher dele, mas foi capturado. Ela foi encontrada amarrada numa cama.
- Do que você está falando?
- Você, por algum motivo, pensou ser o Roberto, e por isso seqüestrou Joana, mas na verdade você não é Roberto. Ela concordou vir aqui para conversar com você depois de cinco meses insistindo ser Roberto, e quando ela apareceu você teve um ataque de agressividade. Amanhã estará aqui de novo, e espero que você fique calmo. Sei que não quer aceitar que é Augusto, mas vai ter que enfrentar a verdade.