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Sobre o fundamento do mal e seu funcionamento

Percebi que há um princípio para o mal que vai além de todas as formas de corrupção. Essas, conforme percebemos, se guiam em determinadas direções em busca de certos objetivos, mas o mal em si não é pessoal. É tão impessoal quanto universal: todos os homens têm essa essência maligna em si.
Esse fator sombrio que reveste os homens é visto e tratado por eles de formas diversas. Para alguns, com o paradigma maniqueísta, esse mal é projetado no mundo externo. Assim, o mal reside no Diabo, no capitalismo, no comunismo, no fascismo, na religião alheia, etc.
É difícil para um religioso que acredita numa figura como a do Diabo assumir que essa “entidade” possua o mesmo direito de perdão. Pelo contrário, o paradigma deles é: “Satanás, debaixo do meu pe”.
Isso ocorre basicamente porque essas pessoas precisam de um objeto externo para direcionarem seu ódio. Precisam, acima de tudo projetar a própria essência maligna num objeto externo, já que seus paradigmas racionais negam o mal e sua consciência não parece estar pronta para confronta-lo.
Não posso deixar de citar o caso de um indivíduo chamado Lindomar, que ficou célebre na internet por ter atacado uma empregada que havia agredido crianças das quais tomava conta. Ora, não há nenhuma diferença entre o ataque de Lindomar e o da empregada a não ser o fato de que, socialmente, Lindomar estava justificado e foi apoiado em massa.
Isso porque quem não tem consciência do mal dentro de si necessita depositar o que há de maligno nalgum vilão e, especialmente, precisa descarregar sua raiva contra esse vilão. Como tais projeções são irrefletidas, é comum que o vilão não seja de fato um vilão.
Outros, por outro lado, se identificam com esses complexos sombrios em suas mais diversas formas, e, motivados por essa identificação sucumbem ao domínio de impulsos incontroláveis e destrutivos.
Dessa forma, se identificam com algum tipo de mal: alguns são assassinos, outros ladrões, outros hipócritas, outros compulsivos por poder. Criam racionalizações para justificarem suas atitudes. Por exemplo, há ladrões compulsivos que alegam a necessidade do roubo, há assassinos que encontram as mais diversas justificativas para dar continuidade aos seus impulsos de assassínio, e assim em diante, todos encontram sua justificativa.
A partir disso fui levado a concluir que os criminosos e aqueles que se sentem indignados com esses são movidos justamente pelos mesmos impulsos: os impulsos sombrios.
Quem rouba de ladrões é ladrão, assim como um matador de assassinos é um criminoso. Se deixarem de tentar justificar seus impulsos com eventos externos perceberão que participam de um conflito em que um alimenta o outro.
Esse é um dos motivos pelos quais a guerra no oriente médio não acaba, e também é um dos motivos pelos quais o bandido odeia e polícia e a polícia o bandido. A polícia está socialmente justificada para publico (ou parte dele) quando ataca bandidos, e esses estão justificados entre si.
O que observei é que o que alimenta esses conflitos não são apenas as circunstancias, mas apenas o fato de que eles querem algo para odiar, algo para destruir. Afinal, por mais que sejam precárias, há escolhas para as pessoas: ela decidem entrar num dos lados da guerra.
Mas o mal em si é impessoal. Ele não visa destruir essa pessoa, essa organização ou mesmo esse mundo¹. É apenas uma força natural que se contrapõe com o bem direta e indiferenciadamente. Tomar consciência de que seu ódio não precisa de um inimigo, mas que na verdade ele existe por si só ajuda o indivíduo e controlar tais impulsos². Temos, na nossa época, diversas ferramentas para deixarmos fluir tais impulsos, tais como jogos eletrônicos, manifestações artísticas diversas e artes marciais. Dessa maneira, podemos matar, roubar, escravizar civilizações e cometer diversas outras atrocidades através do ambiente virtual, e, dependendo do indivíduo, isso pode bastar para aliviar suas tensões malignas, sendo uma via de saída. Isso, por outro lado, também pode despertar o mal do indivíduo, trazendo comportamentos destrutivos: Só depende do indivíduo em si. Eu mesmo, aliás, costumava apreciar um jogo repleto de violência, no qual minhas próprias pulsões agressivas extravazavam. Hoje em dia, tais pulsões saem em contos e poesias como minhas obras de arte, mas poderia sair em pinturas, música, dança, escultura e qualquer tipo de arte.
Só que essa é apenas uma forma de amenizar o problema, pois assim ninguém precisa sofrer com os efeitos práticos do nosso mal. Enquanto não entendemos o significado do nosso mal, não o integramos e continuamos sujeitos a sermos dominados por eles.
Ora, para falarmos do lado sombrio do ser humano não basta a racionalidade (que nos manteria num lugar moralmente cômodo). Não basta observarmos de forma sistemática o comportamento daqueles que apresentam tais condutas. Para termos uma visão mais completa e, acima de tudo, mais humana, precisamos dar lugar à subjetividade, fazendo uma viagem pelo próprio lado negro sem restrições morais maniqueístas. Somente através da consciência vivencial é que poderemos realmente entender o lado negro da existência. Assim, é bom que se tenha em mente que apresentarei certos modelos que não passam de ideais. Eu jamais aceitaria que esses ideais fossem plasmados em outras pessoas, pois o grau de subjetividade do próprio mal é enorme e não pode se enquadrado em padrões. Pretendo dar, no entanto, um fundamento teórico sobre o qual poder-se-á perceber pela intuição o mal se manifestando. Assim poderemos entender pessoas que se encaixam em tais padrões em maior ou menor intensidade, e também aqueles que são possuídos por um tipo de mal que vai para além desses ideais. Com o passar do tempo, espero ter acumulado experiência suficiente para dar uma boa luz e um bom fundamento intuitivo para a percepção do mal e para lidarmos com ele. Nesse momento, no entanto, o que escrevo é elementar: Chega a ser uma brincadeira.
Quero, também, ressaltar que o mal é, por vezes mascarado, mas que seus efeitos são sempre idênticos. Sempre resulta em mentiras, manipulação, assassínios, obsessão pelo poder, etc. Pode ser chamado de justiça, de revolução, de proteção contra ameaças ou de Nova ordem mundial. As facetas do mal não o revelam por inteiro, pois quando identificamos o mal apenas por uma de suas vertentes ele se torna nebuloso.
O mal, em primeiro lugar, não é unilateral. Pelo contrário, não só ele se confronta com o bem, mas também contra si mesmo. Assim, é provável que aqueles que proclamam uma revolução contra o mal sejam igualmente maléficos: todo ditador já foi um salvador.
Sempre que algo que consideramos maligno é combatido com o mau em si, isso quer dizer que o que vem em seguida não difere em nada do que veio antes. É apenas o mal, que vai além de “ismos”, sob uma nova mascara.
Um bom exemplo é a sucessão de presidentes americanos financiados pela wall street, que, um atrás do outro, são a esperança no começo e a desgraça no fim.
Ora, o ódio contra o mal é o próprio mal: só se pode realmente apresentar uma contraposição ao mal com o bem. De outra maneira, o mal se manterá através de sua natureza cíclica e tomando “ismos” como máscara.
As diferentes formas de manifestação do mal não se excluem, de maneira que um só indivíduo pode se encaixar em todos os “tipos”. Para isso, basta que ele tenha passado por uma experiência que tenha despertado o arquétipo em questão (como o de Hermes para ladrões) para que este tenha se tornado complexo.
É ingenuidade pensarmos que o bem simplesmente vence o mal: não podemos ajudar um raivoso ou um ladrão simplesmente dando amor a eles. Alguns nem concebem o que seja amor, outros podem apenas pensar que mentimos. Tratar o mal com o mal, por outro lado, só alimenta este: podemos remediar o mal usando mal, mas não elimina-lo. Logo que o indivíduo se perceber livre de vigia ele deixará sair seu mal, que foi ampliado com punições.
O processo deve ser lento, dando atenção ao tipo psicológico, à história de vida, aos tipos de comportamento (porque são simbólicos) e à receptividade do indivíduo. É provável que resistam, que mintam sobre estarem recuperados dentre outras falcatruas. Encher o peito porque uma pessoa se recuperou será, via de regra, ser apenas uma marionete de um complexo (autônomo) do individuo tratado.

“Sombra e luz, escuridão e claridade. Essa realidade dupla forma o interior do ser humano, que tenta negar-se a cada dia, enganando-se. A maioria das pessoas quer ser apenas luz. Recusam-se a identificar a sombra que faz parte delas. Religiosos de um modo geral falam de um lado sombrio, diabólico, umbralino, como se esse lado escuro fosse algo externo, ruim, execrável. Até quando negar a realidade íntima? Até quando adiar o conhecimento do mundo interno? Várias tentativas foram realizadas para conscientizar o homem terreno de que as chamadas trevas exteriores são apenas o reflexo do que existe dentro dele. Luz e sombra são aspectos internos do ser e não representam necessariamente um lado ruim e outro bom. A sombra não é pior do que a luz. Apenas faz parte de um equilíbrio universal ainda necessário para a visão do homem terrestre. São dois pólos de uma verdade interna, mais profunda. A sombra representa um aspecto transitório, porém necessário para o ser reavaliar-se ante os apelos da vida e as lutas que o fizeram ser o que é. Essa transitoriedade em qualquer plano da vida é uma etapa de aprendizado, adaptação, revisão dos valores adquiridos em lutas e desafios na grande jornada interna, pessoal, íntima. Portanto, viver esse lado de forma mais plena, conhecer-se mais profundamente, enfrentar-se sem mascarar-se talvez seja um caminho mais excelente — parafraseando o apóstolo Paulo — do que aquele que as religiões do mundo vêm oferecendo e que se reflete em fugas da realidade. Quando é proposta a realização de uma excursão aos domínios das sombras, espera-se que haja coragem para admitir que esse reino obscuro tem sua raiz dentro do próprio ser humano. Ele não existe à parte ou em separado. (...). Esse mundo de trevas e escuridão é algo muito enraizado no ser humano; não é realidade extrahumana, mas intra-humana. Se você evita conhecer-se, rejeitando que é simultaneamente sombra e luz, não há razão para prosseguir nesta jornada de descobrimento interno. Adentrar o umbral ou o astral é se obrigar a penetrar na própria sombra. Conhecer as estruturas internas das falanges do mal é, sobretudo, conhecer a própria capacidade de esparzir escuridão em si e em torno de si. Descer aos domínios das trevas e tomar conhecimento de seus métodos, de suas falanges, de sua força talvez seja uma forma de se revelar — trazer à consciência a própria realidade. Admitir-se, sem culpas e sem máscaras. O passado humano é fixo e dependente de conceitos religiosos deturpados e castradores, que foram amplamente difundidos e ainda estão arraigados no psiquismo, mesmo naqueles que afirmam rechaçar atualmente qualquer crença. Isso faz com que o ser humano, principalmente aquele mais apegado às questões religiosas, negue a verdade de sua sombra.”.

(Legião - um olhar sobre o reino das sombras – Ângelo Inácio (Robson Pinheito))
(http://www.scribd.com/doc/3506214/Legiao-Um-olhar-sobre-o-reino-das-sombras-Angelo-Inacio)

1 – Afinal, se destruísse precisaria criar um novo inimigo, porque, por mais que o odeie, precisa dele.
2 – A não ser, é claro, que ele não tenha um ego forte o bastante para suportar a pressão de admitir o mal. Nesse caso, talvez seja melhor apenas encontrar uma forma de canalizar as projeções para que, do ponto de vista coletivo, causem mais construção do que destruição (como já acontece nos casos em que o indivíduo odeia o mal) ao colocar o mal contra si da forma mais isolada possível.

Acerca dos complexos que impulsionam comportamentos destrutivos e corruptos


Introdução

Para colocar a idéias que tive disponíveis à todo o publico eu me vejo forçado a contestar dois grandes pilares que parecem estar em conflito. Precisarei desconstruir premissas teóricas do fundamento do método científico e rever grande parte dos padrões morais.
Isso me custaria, por certo, a fama, se eu a tivesse. Felizmente eu não a tenho e nem desejo algo do gênero, o que me dá maior segurança em desafiar quilo que há de sagrado no mundo moderno.
Eu não poderia começar meu trabalho sem explicar as razões pelas quais eu me nego a aceitar várias premissas difundidas no nosso tempo e o motivo pelo qual busco outras premissas que são, de um modo geral, negadas até mesmo com piadas, e por isso essa será a primeira parte do meu trabalho.
Depois de demonstrar a validade das minhas premissas, colocarei sobre elas as minhas observações, que têm o intuito de, em primeiro lugar, trazer à tona tudo aquilo que é maléfico sem, no entanto, emitir julgamentos de valor para, assim, tentar explicar esses acontecimentos. Seguir-se-ão, nesses casos, alguns dos diversos casos freqüentemente divulgados na mídia. Daí eu pretendo extrair um fundamento parecido com a pulsão de morte de Freud, mas com certas ressalvas teóricas que serão percebidas no trabalho (afinal, aceito premissas Junguianas).
A partir daí, pretendo demonstrar detalhadamente e com exemplos os mais diversos tipos de comportamentos destrutivos e corruptos, desde um simples ladrão compulsivo que rouba coisas sem valor a um banqueiro, ou desde um marido que bate na esposa até um serial killer. De acordo com as premissas da nossa ciência, (uma premissa que não nego) pretendo demonstrar como todos esses comportamentos têm fundamentos análogos por generalização e que possuem suas origens no fato de que os fundamentos da sociedade são essencialmente anti-sociais. Em especial, e não estou certo de já estar apto a isso, pretendo buscar uma forma de ao menos amenizar os efeitos dos complexos que movem os homens a tais comportamentos, buscando, assim, uma forma de convívio mais pacífica.
Cometerei uma série de erros, mas esse é um trabalho de toda uma vida e não apenas de uma monografia terminada, e por isso provavelmente será alterado em contato com novas evidências.
Que fique claro, no entanto, que não busco provar certas premissas como verdadeiras, mas que, pelo contrário, os próprios fatos me levaram a tais fundamentos.

Capítulo 1
Sobre os fundamentos do método

As premissas que aceito como fundamentos do pensamento destituem deste todo o poder que lhe atribuem no nosso tempo. Pelo contrário, o que procuro demonstrar, em primeiro lugar, é a extrema fragilidade de nossas formas de pensamento.
Por vezes percebi como, de forma explícita, as pessoas observam certos eventos e revestem estes de significados totalmente metafísicos.
Mas, diferente do que se assume normalmente, não é só o conhecimento religioso que se baseia em metafísica: todas as formas de pensamento possuem algo de metafísico, pois a metafísica é sempre o fundamento dos pensamentos. Sempre partimos de um ponto no nosso pensamento que simplesmente não pode ser provado de forma absoluta, e isso destitui de sentido nossas tentativas de dar um ar definitivo às nossas idéias.
A ciência, apesar de se afirmar empirista, se guia por certos fundamentos metafísicos, que pretendo explicitar.
Em primeiro lugar, nossa ciência está receptiva apenas aos conteúdos oriundos dos sentidos. Assim, foram criados (e continuam sendo) métodos com os quais podemos observar melhor todas as coisas com os sentidos, já que é só esse tipo de observação que é considerada correta nos dias de hoje.
A despeito do nosso sensacionalismo sobre a grande descoberta que é o fato de que a mente humana se encontra em constante mutação, Heráclito já havia chegado a tal conclusão sem acesso a isso por meio dos sentidos. Foi uma forma intuitiva de se conseguir o conhecimento. Uma abstração filosófica inteligentíssima, que o modo sensitivo de observação só pode entender milênios depois.
Esse e outros exemplos demonstram que existe outra forma de adquirirmos conhecimento que não apenas a observação objetiva e submetida ao rigoroso e dogmático método científico.
É claro que não pretendo generalizar a outra forma de se ver as coisas: ambas têm sua utilidade e validade contanto que não tentem invadir o campo da outra, como acontece hoje.
Essa forma Jung chama de intuição, e considero o termo adequado, e por isso me sirvo dele.
Através do conhecimento intuitivo, que não é menos válido do que o da sensação, percebemos como são ridiculamente óbvias e preconceituosas algumas idéias da ciência moderna sobre os fundamentos do comportamento humano.
Uma delas é a tentativa que vem sendo empreendida de submeter o comportamento humano, e traços comuns, ao paradigma evolucionista. Ora, considero esse paradigma excepcionalmente bem sucedido em integrar de forma didática o estudo sistemático dos seres vivos, e reconheço as diversas evidências que colocam o evolucionismo como teoria válida para justificar a origem das espécies, tais como os fósseis.
Apesar de ser logicamente plausível admitir que, se o ser humano se formou através de sucessivas mutações, ele deve ter tido grande parte de seus comportamentos inatos formados através da pressão seletiva, não deixo de notar certas características no próprio comportamento humano que contradizem esse paradigma de forma gritante.
Aliás, pelo que eu observei, o próprio paradigma, que é muito apoiado por ser o fundamento de nossa sociedade, parece estar fundamentado num complexo específico, que denomino o complexo de Frederico.
É claro que não podemos, já há muito tempo, colocar as premissas do evolucionismo no convívio entre os humanos, pois as variáveis são tão numerosas que até mesmo o mais inapto de todos os indivíduos pode deixar mais descendentes do que um extremamente hábil.
Ao contrário do que se diz, o que deu ao ser humano a possibilidade de subordinar as outras espécies não é um impulso essencialmente competitivo, mas sim cooperativo. Foi através da união que o ser humano formou a vida em sociedade, e encontramos em diversas sociedades essa mesma idéia: devemos amar ao próximo como amamos a nós mesmos.
Mas, do ponto de vista evolucionista, seria muito mais vantajoso criarmos uma imagem de que amamos ao próximo sem que isso seja verdade. Noutras palavras, nessa forma de pensamento e na sociedade que se baseia nela, o que trás “sucesso” é efetivamente o que os políticos fazem. Isso se plasma em certos livros propagados no meio corporativo, que proclamam ter encontrado uma forma revolucionária e nova de medir a inteligências das pessoas. Eu chamaria o que eles chamam de inteligência emocional de capacidade de manipulação, pois o paradigma está obviamente direcionado á ampliação do potencial de trabalho. Sendo fundamentado pelo evolucionismo, o livro é claramente um manual de hipocrisia.
Não fico admirado, então com o ímpeto com o qual os cientistas criacionistas buscam desacreditar o evolucionismo. Afinal, tal paradigma torna comuns certos comportamentos totalmente destrutivos, como mesmo o nosso capitalismo selvagem. Afinal, é natural que o mais forte tenha sucesso e o mais fraco seja derrotado.
Dessa forma, seguindo o ponto das sensações e do materialismo, se coloca em questão que o ser humano é essa maquina, que nada mais faz do que servir a esses impulsos egoístas.
É claro que, como se vê, existe outra questão a ser avaliada, que é a espiritualidade. As crenças religiosas em todos os tempos têm sido o fundamento para o comportamento mais ético para com os outros, fazendo com que os homens evitem buscar apenas o benefício próprio.
Algumas visões religiosas modernas não passam de fraudes dos sentidos. Noutras palavras, elas prometem justamente aquilo que vai contra a religiosidade: recompensas depois da morte, sucesso mesmo nessa vida. A teologia da prosperidade, que gerou um novo império no nosso país é um bom exemplo desse tipo de corrupção da religiosidade, que é notado pelos religiosos.
De fato, a maior mensagem que todas as religiões querem passar é aquela da conexão. Amai ao próximo como a ti mesmo, quer dizer, efetivamente, que devemos evitar o paradigma de que nós somos independentes do próximo, pelo contrário, é um sentimento comum no ser humano em todos os tempos e lugares: a necessidade de conexão. É por isso que existem religiões, e não porque alguns indivíduos desejam se iludir com ilusões vazias de sentido.
Dessa forma, no próprio desenvolvimento da psiquê humana, se percebe essa busca pela espiritualidade que contradiz abertamente a idéia de competição e à de separação. Se o ser humano, na sua constituição psíquica, busca a união, então é forçoso que ele não poderá moldar seus comportamentos com utilitarismo obviamente ridículos do evolucionismo. Até porque, a plasticidade do ser humano vai para muito além daquela vista nos animais, e, por conseguinte, seus comportamentos são moldados para muito além de questões meramente adaptativas.
É fato consumado que a vivência humana transcende a racionalidade, e a própria espiritualidade é prova disso. Além disso, a fragilidade da racionalidade ficou clara com a demonstração sobre a metafísica: não existe nenhuma forma de pensamento que não tenha um fundamento metafísico, e a metafísica se forma em paralelo à identidade dos indivíduos.
Com o paradigma evolucionista não é diferente: uma certa maneira de se ver o mundo como projeção da própria identidade torna totalmente plausível que o vejamos segundo tais premissas. Segundo a tipologia Junguiana, essa forma de pensamento seria fundada no materialismo, que é pensamento com função auxiliar de sensação ou sensação com auxiliar pensamento.
Mas a origem psicológica do evolucionismo vai para além da tipologia, pois, como percebi, ela também está pautada em certos complexos, que são conectados a arquétipos.
Muitos imperadores por toda a história da humanidade demonstraram ser dominados por tais complexos. Aliás, hoje não é diferente. Diversos documentários expõem aos olhos de quem quiser ver certos esquemas que homens criam para alcançar benefício material próprio. Por, no momento, não dispor de material mitológico que represente o que quero expor, usarei a história de um dos meus personagens, mas isso nos capítulos subseqüentes.
A questão aqui é que o próprio paradigma capitalista é um propulsor que pretende levar indivíduos a acreditarem que o benefício real é o material, já que toda a história da evolução assim o demonstra. É um fundamento doentio que se espalha rapidamente pela sociedade e que aumenta os índices de depressão. Ainda hoje, confusos pela falha de suas racionalizações, alguns indivíduos dizem: “ele tem de tudo, cheio de dinheiro. Como pode se deprimir?”.
Entra em depressão porque a mente humana é um projeto esperando para ser realizado, e este nada tem a ver com adquirir benefícios materiais. Muito pelo contrário, o equilíbrio que o Inconsciente induz leva os indivíduos buscarem coisas para além da matéria. Usar uma racionalização através da qual se afirma que são motivados por mesquinharia todos os tipos de manifestação religiosa não muda o fato de que essas manifestações continuam acontecendo, já que são naturais. Acerca do que vem após a morte não temos nenhuma garantia de nada, nem de que deixaremos de existir. Acreditar, então, em alguma metafísica para isso é seguir a própria natureza, enquanto que negar em nome de uma pretensa honestidade é impor uma interpretação a si mesmo e sofrer inutilmente (já que o fundamento desta visão é tão metafísico quanto o da religião).
No entanto, se até aqui um leitor religioso se manteve (imagino) satisfeito com o ponto de vista exposto, na continuação desta primeira parte ele deve mudar radicalmente de idéia. Tal como Jung, não busco agradar a gregos e nem a troianos.
A questão da religiosidade, em primeiro lugar, muitas vezes não passa de projeção de conteúdos inconscientes, como o arquétipo maternal projetado sobre a igreja. Na impossibilidade de integrar a vivência religiosa à consciência, o indivíduo faz projeções que, por vezes, tomam forma visível em visões, e, diante disso, ele atribui um caráter objetivo à sua vivencia religiosa, quando ela é subjetiva.
Além disso, a própria religião, na maioria dos casos não permite a integração dos conteúdos psíquicos á consciência, porque parte de premissas doutrinárias. Assim, na maioria das vezes, a religião não passa de um organismo que, através do poder das organizações coletivas, impõe certos códigos de conduta.
A vivência que Jung costumava definir como Participation Mystique não se trata do contato objetivo com Deus ou mesmo sua imagem arquetípica interna: na verdade o profundo sentimento dos participantes se deve ao contato com o grupo. Tanto isso é verdade que eles se unem em grandes grupos ao invés de realizar seus rituais sozinhos: porque sozinhos eles poderiam efetivamente integrar isso a consciência.
Na verdade, o que se vê são indivíduos, cegados pelo poder massificador da coletividade, seguirem códigos morais irrefletidamente, o que possibilita a manifestação dos indivíduos corruptos que eu me presto a avaliar, que, nesse contexto, surgiriam para manipula-los.
O paradigma evolucionista, objetivamente, leva à idéia de opressão do mais fraco e hipocrisia, e grande parte da moral religiosa leva à idéia de submissão. Noutras palavras, os dois juntos são dois fundamentos de mentalidade que causam a maior parte das nossas mazelas.
Eu não poderia, então, olhar essa questão do ponto de vista moralmente aceito, com indignação, e nem com o ponto de vista da ciência moderna, porque essa não passa de um complexo racionalizado.
Pelo contrário, para avaliar tais questões será preciso, em primeiro lugar, haver um confronto profundo com o lado negro da existência, transcendendo o maniqueísmo, e também será necessário expandir a compreensão das coisas para além de paradigmas parciais. Ir para além do bem do mal e para além da racionalidade.
Por um e por outro motivo que considero esse livro de difícil leitura: excluindo minha dificuldade de expressão, a mensagem simplesmente não será aceita por aqueles que se mostrarem racional ou sentimentalmente resistentes aos assuntos tratados, embora sejam de extrema importância.